sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O ponto azul

A noite se avizinhava na 201 Sul, e ia chover. Havia poucas pessoas no Restaurante e Café Monardo. Na mesa mais ao fundo, dois homens conversavam. Um deles era jovem, tinha em torno de 40 anos, e o outro, de cabelos completamente brancos e a pele do rosto começando a engelhar, aparentava ter 70 anos, por aí assim.

– Ela me pôs a nocaute – disse o velho. Na verdade, ele tinha 80 anos, mas era vigoroso e seco. Seus olhos, vivos como duas esmeraldas, estavam claros, quase sem clorofila.

– Meu caro Picasso, ela só tem 29 aninhos; ainda não é nem sequer balzaquiana – respondeu o tipo mais jovem, com sua voz de tenor.

– A questão não é essa, a questão é que eu nunca deixei de ser um garoto carente, e ela abriu a porta.

– Como assim abriu a porta? Só porque deu atenção a você? – volveu o de meia idade, carioca, já acostumado com Brasília.

– Ela me enfeitiçou quando disse que tem a alma da natureza, e que é como o mar. Aquilo foi lá no fundo, como um maremoto, sepultando-me no abismo, até que, sem fôlego, puxei oxigênio daquela boca de rosa esmigalhada, e fui salvo pelos seus olhos egípcios. Mas compreendi que ela estava apenas confiando a mim sua alma, certa de que eu não tentaria entrar no seu santuário. Não paro de pensar nela.

– Cara, acho que vou fortalecer seu pericárdio e seu baço.

– Como assim? – o velho perguntou. Estava bebendo Lacrima Crhisti. O outro degustava Bohemia enevoada.

– O pericárdio protege o coração das invasões azuis e o baço remói as lembranças mortais, como, por exemplo, o cataclismo dos primeiros beijos – disse o de meia idade, que era acupunturista de mão cheia.

– Não quero travar nada que se dirija ao meu coração, nem ao meu baço; pelo contrário, se você souber de um ponto que funcione como a pílula azul, espete-o, para que eu delire pronunciando o nome dela: Ava! Ava! Ava!

– Se eu soubesse de um ponto assim já teria comprado um Girassóis, de Van Gogh – disse o de meia idade. – Tenho um paciente, que, na verdade, o problema não está nele, mas na mulher dele. Ele me contou que sua mulher é todinha uma vaca, perscrutando-o. Ele é o capim e ela o mastiga, mastiga, engole-o, regurgita-o e volta a mastigá-lo. E como ela é quem paga as contas, ele vai pegá-la no salão e a espera, às vezes, uma hora antes de ela sair, e ele fica pasmo porque as mulheres falam todas ao mesmo tempo e todas entendem o que as outras dizem. Ele costuma dizer que Freud mudaria de profissão naquele salão, ou simplesmente tendo sua mulher como paciente. Se eu soubesse desse tal ponto azul, já teria dado um jeito nesse cara, e ele comeria a vaca dele todas as noite, ou o tempo todo.

– Não, o que eu quero é ter uma ereção poética – disse o velho, que era pintor. – Vou desnudá-la em uma tela, vou colocar o mar inteirinho naqueles olhos enormes, rasgados e negros, vou fazer aquela boca de rosa esmigalhada exalar néctar, e, do seu corpo, o perfume das virgens. – O velho desenhou-a num guardanapo. De fato, Ava era completamente linda.

– Cara, esquece-a – o outro aconselhou o mais velho. Conheciam-se há bastante tempo, e o acupunturista, que era rico e aficionado por pintura, já tirara o velho de diversos apuros, pois o considerava um gênio. Sentia-se responsável pelo sofrimento do amigo, pois apresentara Ava a ele.

O velho percebeu sua aflição.

– Você não entende: não quero assepsia, quero inflamar-me dessa infecção, que essa infecção vá até meu tutano; isso vai resultar numa série de quadros e desenhos, tudo Ava.

– Sejamos realistas, ela não vai dar a mínima a você, nunca.

– Já deu. Quando disse que é o próprio mar, disse tudo. Sei que ninguém pode possuir o mar, mas acontece que já sei o azul que vou utilizar quando pintá-la.

– Mas ela deu esperança de posar para você?

– Não, e nem será preciso. Já tenho tudo o que preciso.

– Grande Picasso! – o de meia idade exclamou, com pena do seu velho amigo. – Estou me sentindo meio cansado; vou ver uma comédia quando chegar a casa, Carga Explosiva III.

– Você já viu todas essas porcarias?

– Só Carga Explosiva II, por acaso, na televisão.

– E agora alugou Carga Explosiva III?

– Sim; não havia o I.

– Eu ainda vou demorar-me para ir pra casa. O porteiro do meu prédio é jovem, mas está caindo aos pedaços, e isso me deprime.

– E quando a tela vai ficar pronta?

– A dos pombos?

– Sim.

– Estou trabalhando nela. Os pombos estão catando comida no asfalto, entre os carros, arriscando-se a morrer esmigalhados, apenas se desviam das rodas dos carros e continuam catando comida, apesar de ter asas. Se eu tivesse asas, voaria para dentro do mar – disse o velho, sonhando com uma manhã de ressaca, em Copacabana.

Já estava sozinho quando Antonello Monardo chegou. Gostava de conversar com o italiano. Logo depois a chuva rebentou, com a mesma força com que na alma do velho escorria sal, azul como rubi.


Brasília, 1 de novembro de 2013

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