domingo, 12 de janeiro de 2014

A noite é só nossa

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
Dez anos depois
Como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um barco que afundou
Ao largo do Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Só de te esperar!
Amor da minha vida, esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus, para ti
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e uma infinidade de diamantes
Que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias, e dançaremos
Lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Granada, com Juan Diego Florez
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis, e beberei colostro
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia,
Só nossa!

Brasília, 12 de janeiro de 2014

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CONTO/As tardes de quinta-feira são eternas

Tenho um amigo que era infeliz e descobriu acidentalmente a felicidade. Sou professor de educação física, massoterapeuta, pugilista amador e personal trainer. Falar em personal trainer, brasileiro se baba por tudo o que é americano. Na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, por exemplo, o comércio tem quase todo nomes americanos. Pois bem, transito num mundo cheio de gente posuda, peruas oxigenadas, engessadas, postas no formol, velhos dementes de cabelos negros, cabelos tapando a calva, fixados com laquê, ou de peruca, muita gente bombada, adultos com complexo de Peter Pan, aficionados pelo Big Brother da TV Globo e por esses gritos hermafroditas em inglês que ouvimos nas lojas dos shoppings ou na Rodoviária do Plano Piloto. Pois bem, o meu amigo era tudo isso. Às terças-feiras e quintas, saímos juntos da academia, onde quase gozo ao atender três clientes, três fêmeas que só faltam se matar de fazer ginástica, e uma delas já se submeteu até a lipoaspiração, porque têm medo de envelhecer e seus maridos, milionários e decrépitos, trocarem-nas por gatinhas cheirando a leite. Uma delas é tão linda, e gostosa, que não dá nem para acreditar que exista mulher assim. Pois bem, meu amigo, que se chama Alfredo, Alfredão, para os íntimos, é um cara bombadíssimo; não sei como o coração dele aguenta tanto hormônio! Pois bem, ele era desses caras traumatizados com a ideia de toque anal, mas já tem 40 anos e, segundo ele, chegou a hora da verdade. Eu havia explicado a ele, a algum tempo, que hoje já não se submete mais toque retal, que basta submeter-se a um exame de sangue chamado PSA e, se for o caso, a uma ultrassonografia prostática, para ver como vai a querida próstata. Mas ele tinha ideia fixa. Achei que de tanto tomar hormônio e fazer ginástica entrara em processo de aterosclerose. Enfim, o sujeito era de atrair essas coisas. Fazia o tipo infeliz, mas vivia dizendo que felicidade também se põe. Eu achava que felicidade, nesse caso, tratava-se de botox, enxerto, cirurgia plástica, hormônio, alguma coisa assim, mas depois que me confidenciou algo, “muito íntimo; coisa que só amigo mesmo conta”, é que entendi o que ele queria dizer com felicidade também se põe, e isso ele descobriu precisamente no urologista, que encontrou por acaso. Ia passando na rua que separa as 700 das 900, na Asa Sul (aqui, os endereços são assim!), quando deu com um luminoso, daqueles grandes, anunciando uma clínica especializada em urologia. Era relativamente cedo e os estacionamentos ainda não estavam como lata de sardinha. Estacionou e foi andando até o prédio da clínica. Era um prédio velho, que gritava por reforma; estava descascado e mofado, e a clínica ficava no subsolo. Desceu e deu uma chegada à portaria. Não havia ninguém lá, mas logo um sujeito saiu de uma sala e foi atendê-lo.

– Bom dia, amigão! A atendente deu uma saída, mas pode falar, amigão! É uma consulta? – disse o sujeito, que era ainda maior do que meu amigo bombado, e era também peludo como Tony Ramos. Segundo Alfredão, seu jaleco não tinha os dois botões de cima e os pelos do peito do gajo saltavam pelo decote.

– É, estou pensando em fazer um exame de próstata; chegou a hora, né? Tenho 40 anos e não se pode brincar com essas coisas – Alfredão respondeu.

– Você veio ao lugar certo, amigão. É pra agora? Estou à toa, amigão! – disse o urologista.

– Não! Estou apenas sondando! – defendeu-se Alfredão.

– Eu entendo seu receio, mas não dói, pois a gente mete com jeito – disse o médico, exibindo o dedo médio da sua mão direita, parecido a uma miratinga peluda.

– Rapaz, quando vi aquilo, perdi toda a vontade de me submeter ao toque – dissera-me meu amigo.

– Tem muita gente que acha que toque é baitolagem, mas não é, amigão – encorajou-o o açougueiro (o tipo era todo um açougueiro).

– Mas acho que ainda não estou preparado para esse ato... violentador! – desabafou meu amigo.

– Olha, aqui, amigão, se você quiser posso prepará-lo direitinho. Com vaselina você nem sentirá cócega e quando se espantar não será mais tão inocente assim – dissera-lhe o urologista, agora com a pata, a mesma do dedão, no ombro do meu amigo. Dizendo ele que sentiu um calafrio com a manopla no seu ombro e o bafo de alcatrão e álcool do açougueiro. Explicou também que seu esfíncter se contraiu como uma válvula.

– Não sei não – titubeou. O açougueiro saiu lá detrás do balcão e foi se posicionar atrás do meu amigo. – Senti um verdadeiro mastro roçando em mim – ele confessou. – Aí a atendente chegou. Então o brutamontes saiu de detrás de mim e se dirigiu a ela. – Patrícia Alessandra, faça a ficha deste meu paciente. Ele vai ser examinado por mim – ordenou a ela. – Vou preparar a cama, amigão – disse para mim.

Estávamos tomando espresso no café da academia.

– Afinal, o que aconteceu? – perguntei-lhe.

– Hoje, ele frequenta a academia; sou personal trainer dele e ele é meu urologista.

– Agora você está feliz? – perguntei.

– Sim. Antes, eu vivia angustiado, mas depois que compreendi a mim mesmo e soltar a franga, é como se eu, desde então, estivesse flutuando. A propósito, ele se chama dr. José, e foi ele que pôs felicidade em mim, corroborando a minha tese de que felicidade se põe. No meu caso foi uma miratinga, como você diz.

Sou paraense da Vigia.

Saímos e fomos para o estacionamento; ele, que era rígido como um pugilista burocrático, se dirigiu para seu carro rebolando igual as dançarinas do É o Tchan.

“Égua! Nada como pôr felicidade” – pensei. Daí a instantes encontrei-me com minha cliente lindíssima, que, já de algum tempo, me faz delirar nas tardes de quinta-feira, flutuando no silêncio daquele motel. Isso me deixa intrigado. Sou azul de tão negro e ela é ruiva de olhos verdes, seus seios tem as maiores auréolas que já vi e sua bunda é a mais arrematada lucidez da loucura, se é que isso é possível. Fico intrigado porque ela é riquíssima e lindíssima, e quando me olha daquele jeito submisso, o vulcão irrompe, e descubro, levado de roldão na lava incandescente, a eternidade, às 18 horas das quintas-feiras.


Brasília, 10 de janeiro de 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Adquira Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia como ela é pelo site: www.lereditora.com.br

Ver-O-Peso, acrílica sobre tela de Olivar Cunha. A maior
feira livre da Ibero-América é uma síntese da Amazônia

Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail:
ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008


MARCELO LARROYED
Mestre em língua portuguesa e escritor


O novo livro de Ray Cunha (raycunha@gmail.com), Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia como ela é (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25), que terá noite de autógrafos em fevereiro, na Livraria Cultura da Casa Park, com apoio da ONG Preserve Amazônia, já está à venda no site: www.lereditora.com.brLivreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.bou pelo telefone: (55-61) 3362-0008. Ler Editora fica no: Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 Brasília/DF – CEP 70610-430.

Ray Cunha, fotografado pelo
artista plástico André Cerino
Na Boca do Jacaré-Açu enfeixa 14 histórias curtas, todas ambientadas em Belém do Pará, cidade a que o autor dedica o livro. Alguns contos têm sequências no Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América, e na ilha de Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do rio Amazonas, o maior do mundo, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra; apesar do que a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo Estado brasileiro” – comenta o escritor.

Na Boca do Jacaré-Açu, o conto que dá título ao livro, é a história do mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto, ele representa a morte” – diz Ray Cunha.

Autor do romance A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém), Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (Edição do autor, Brasília, 2005) e O Casulo Exposto (LGE Editora, Brasília), Ray Cunha é “caboco de Macapá, cidade que tremeluz na Linha Imaginária do Equador, a cerca de 200 quilômetros da boca do rio Amazonas, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe”. O autor vive em Brasília, onde exerce o ofício de escritor e trabalha como jornalista.

CIDADE DAS MANGUEIRA, CIDADE MORENA, PORTAL DA AMAZÔNIA – Segue-se breve entrevista que Ray Cunha concedeu a mim no início deste ano.

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, conhecida como Cidade das Mangueiras, Cidade Morena, Portal da Amazônia, a quem eu dedico o livro; algumas histórias contêm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Qual a diferença entre ter a Amazônia como cenário em comparação com temas urbanos ou rurais?

O livro Na Boca do Jacaré-Açu é ambientado na mais importante cidade e maior zona metropolitana da Amazônia brasileira, Belém do Pará, e no realismo fantástico de Marajó. É, portanto, recriação urbana e rural.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.


Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Belém, meu amor



A noite mais azul é quando
Assassinos me perseguem, derroto-os
E durmo com a princesa.
Isto só acontece nas noites tão azuis
Que um Boeing 777 ferem-nas
E sangue verte sobre as rosas,
Que o acme da princesa
Transforma em rosas colombianas.
A noite mais azul é tórrida e os jasmineiros choram,
O mundo recende a maresia
E a gordura do meu corpo
Volta a ser rija como os punhos de Muhammad Ali
Quando ele acabou com George Foreman, no Zaire.
Transformo-me em luz
Na noite excessivamente azul


Vivi um mergulho em Belém do Pará, transitando desde o ventre dos seus palácios aos lixões. Experimentei, pela primeira vez, o casamento, e o exílio; trabalhei ao lado dos melhores jornalistas da cidade e caí na clandestinidade do desemprego; fartei-me da culinária mais inacreditavelmente deliciosa do planeta e forjei o espartano que há em mim durante um período de fome; compartilhei camas perfumadas e percorri labirintos femininos intermináveis, mas também escorreguei no negro limo da fossa. Conheço, pois, alguns humores desta península que avança na baía de Guajará como um navio iluminado, e minha amante.

Amo todas as cidades nas quais já vivi, e até Brasília, onde moro, pois não se pode viver numa cidade sem a amar; não por muito tempo. E se as amamos, o reencontro provoca o cataclismo do primeiro beijo, sacodem-nos, lançam-nos no espaço, como nos sonhos, que, às vezes, povoam minhas noites, como se estivesse correndo numa planície de zínias e rosas, cortada pelo maior rio do mundo e desaguando na noite, prenhe de jasmineiros que choram perfume. As cidades que amamos evocam amores, madrugadas, papel em branco, álcool, imortalidade.

Namorei carnalmente, Macapá, minha cidade natal, durante os primeiros 17 anos da minha existência, até que um dia peguei o rio e a estrada e rolei para Copacabana. Nosso namoro continua firme, mas agora só no coração. Também amo o Rio de Janeiro, por quem fui seduzido para sempre. Manaus é a mesma coisa, e em cada cidade a vida se multiplica infinitamente. Como em Brasília, onde nasceu Iasmim, a princesinha que encanta todos os dias da minha vida. Mas Belém emerge do rio como mulher nua, que deixa um rastro de maresia, Chanel 5, Dom Pérignon, safra de 1954, e rosas vermelhas. Tento alcançá-la, temeroso de perdê-la. Porém ela se volta e pronuncia meu nome. Sua voz é como o pulsar da música de Mozart. Alcanço-a, pego-a pelo cogote e a beijo, e sinto o sabor de acme.

Nem os ratos – que se dedicam a te assaltar, a te depredar, a te estuprar, que te mordem os seios – conspurcam tua beleza, nem reduzem tua eternidade, desde 12 de janeiro de 1616, quando lusitanos, comandados por Francisco Caldeira Castelo Branco, desembarcaram numa enseada na foz do rio Guamá e começaram a construir uma fortaleza, o Forte do Presépio, em torno do qual a cidade foi emergindo, e a ela chamaram de Santa Maria de Belém.

Os tupinambás não deram descanso aos invasores. Mas os portugueses dominavam armas de fogo, a Igreja e doenças letais. E em 1626, assumiu o comando Bento Maciel Parente. Os colonizadores eram brutais, mas pareciam gentis diante da loucura de Bento Maciel Parente; ele que mandava amarrar os membros de tupinambás capturados, em cavalos ou canoas, até serem rasgados, vivos. Estima-se que pelo menos 2 milhões de índios foram assassinados na Amazônia, escravizados em nome de Jesus Cristo, atingidos por doenças europeias, degolados, esquartejados ou fuzilados.

No começo do século 20, a borracha tornou Belém a cidade mais rica do país. Em 1910, os ingleses começaram a produzir látex no sudeste asiático, causando a débâcle da borracha na Amazônia. Aí começou o declínio de Belém. Hoje, é uma cidade sucateada, inchada, violenta, infestada de bandoleiros e ratazanas, as ruas emporcalhadas de esgoto escorrendo no meio-fio, cidadela corrompida, refém da corrupção, letal como câncer metastático.

Mesmo assim, Belém é como as mangueiras de dezembro, que se curvam prenhes de frutos, doces como seios de mulher na rede. É assim que ela vive no meu coração. Quando chegamos ao amanhecer, pela baía do Guajará, nós, que a amamos, vemo-la se despir, aos poucos, da névoa, até emergir, de repente, salpicando água, nuazinha; se chegamos de avião e é noite, as luzes na península, como miríade na noite que desaba sobre a baía, anunciam-se como óvnis, até pousarmos no bolsão de sol noturno de Val-de-Cães. Subitamente, os gigantescos pneus do jato se chocam no chão de concreto e a nave começa a taxiar rumo ao terminal de passageiros. À tarde, o céu sangra de tão azul. 

Então, já não controlo meu coração. Faço desjejum no Ver-O-Peso, café recém coado com tapioquinha amanteigada, e depois vou apreciar os peixes dispostos nos balcões de mármore do mercado – os pirarucus são, talvez, os mais bonitos, os filhotes são enormes e os meros, imensos, há sempre piramutaba, pescada, tucunaré, curimatã, tamuatá, mapará, gurijuba, camarão e toda sorte de frutos do mar. Almoço camarão com pirão de açaí no Ver-O-Peso, ou filhote no Restaurante Remada, ou ventrecha de dourada com vinagrete e farofa na Vila Sorriso, ou pirarucu ao molho de castanha-do-pará no Mangal das Garças. À tarde, vagabundeio, tomo tacacá na banca do Colégio Nazaré e sorvete de tapioca na Cairu, e, à noite, janto caldeirada de filhote no Remada e bebo Cerpinha no banheiro do hotel, enquanto me arrumo para o encontro com a madrugada. Assim, os dias se sucedem com cheiro de maresia, mulheres caminhando, merengue, bebedeiras, o rio.

Belém é a Catedral da Virgem, rosas para a madrugada, lembranças guardadas numa prece, o desfile interminável das mulheres mais bonitas do mundo, que exalam perfume das virgens ruivas e espargem um rastro de devaneio, que só podemos sentir com o coração. Ungido pelos deuses, penetro neste santuário e dele engravido para sempre. Belém, como as mulheres muito bonitas, inesgotáveis de tão intensas, desencadeia, na minha memória, um cataclismo de rosas colombianas, jasmineiros chorando em noite tórrida, o céu de julho na Amazônia, que sangra no azul na tarde.

Caminho nas suas ruas rumo aos segredos que só eu posso decifrar, como ouvir o anoitecer na Estação das Docas, ver passar as mulheres mais bonitas do mundo enquanto tomo tacacá defronte ao Colégio Nazaré, ouvir o rio, beber o perfume de gim inglês no Cosa Nostra, a alegria das mulheres no Kalamazoo, ao som de merengue e da madrugada, e fazer uma declaração de amor desesperado, porque as cidades, como as mulheres, não podem ser decifradas; precisam apenas ser amadas, pois só para isso existem, como poemas escritos por Deus.

Da mesma forma que as mulheres, as cidades são redes intermináveis de labirintos, abismos de segredos, pelos quais voamos, sempre perdidos, mas firmemente guiados pelo azul mais azul. Cidades, exatamente como as mulheres, iluminam nossos sentidos, e as cavalgamos como se monta a luz.

Sentado no calçadão defronte ao Colégio Nossa Senhora de Nazaré, ao embalo das 6 horas da tarde, caminho ao lado de cada uma das mulheres que passam, e que deixam um rastro de espilantol, sintetizando todo o mistério sob seus vestidos estampados, de seda. Então, descubro o segredo da Hileia, deslindo o mistério, e, assim, o amplio: toda a Amazônia está contida no espilantol de um ramo de jambu. E, aos iniciados, Belém se revela em toda a sua poesia, como mulher ao toucador, absorta, nua.
Agora estou sentado na Estação das Docas. A tarde morre. Ouço murmúrios – risos distantes, preces, merengue. Pedi à Virgem de Nazaré que proteja as crianças e as flores. A tarde morre, escorre como um rio de luzes que se afogam no mar da noite, para ressurgir no ventre da cidade, como uma boca. Acomodado numa cadeira de palhinha, observo o rio e a tarde morrendo. Ouço o riso das mulheres mais sensuais do mundo, trotando nos calçadões, sentadas, tomando tacacá, naquele momento em que a noite cai lentamente, se acamando, até as luzes tremeluzirem, como composição de Debussy, e sinto o sabor do leite da mulher amada, lábios de rosas esmigalhadas, vermelhas.
Um navio parte. Talvez vá para Macapá, ou Trinidad e Tobago. Talvez vá para Caiena. Ou para Mosqueiro. Ou Salinas. De qualquer forma, haverá de ir para um lugar lindo, pois a tarde é povoada de mulheres em vestidos de seda, como uma negra caribenha, sílfide equina, que passa, iluminando o mundo. Vindo de algum lugar, remoto, penso ouvir merengue. O mundo gira. Sinto a vertigem de missa na Catedral; a noite é como o mistério feminino, uma prece, e, assim, tenho certeza de que estou em Belém.