sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CONTO/As tardes de quinta-feira são eternas

Tenho um amigo que era infeliz e descobriu acidentalmente a felicidade. Sou professor de educação física, massoterapeuta, pugilista amador e personal trainer. Falar em personal trainer, brasileiro se baba por tudo o que é americano. Na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, por exemplo, o comércio tem quase todo nomes americanos. Pois bem, transito num mundo cheio de gente posuda, peruas oxigenadas, engessadas, postas no formol, velhos dementes de cabelos negros, cabelos tapando a calva, fixados com laquê, ou de peruca, muita gente bombada, adultos com complexo de Peter Pan, aficionados pelo Big Brother da TV Globo e por esses gritos hermafroditas em inglês que ouvimos nas lojas dos shoppings ou na Rodoviária do Plano Piloto. Pois bem, o meu amigo era tudo isso. Às terças-feiras e quintas, saímos juntos da academia, onde quase gozo ao atender três clientes, três fêmeas que só faltam se matar de fazer ginástica, e uma delas já se submeteu até a lipoaspiração, porque têm medo de envelhecer e seus maridos, milionários e decrépitos, trocarem-nas por gatinhas cheirando a leite. Uma delas é tão linda, e gostosa, que não dá nem para acreditar que exista mulher assim. Pois bem, meu amigo, que se chama Alfredo, Alfredão, para os íntimos, é um cara bombadíssimo; não sei como o coração dele aguenta tanto hormônio! Pois bem, ele era desses caras traumatizados com a ideia de toque anal, mas já tem 40 anos e, segundo ele, chegou a hora da verdade. Eu havia explicado a ele, a algum tempo, que hoje já não se submete mais toque retal, que basta submeter-se a um exame de sangue chamado PSA e, se for o caso, a uma ultrassonografia prostática, para ver como vai a querida próstata. Mas ele tinha ideia fixa. Achei que de tanto tomar hormônio e fazer ginástica entrara em processo de aterosclerose. Enfim, o sujeito era de atrair essas coisas. Fazia o tipo infeliz, mas vivia dizendo que felicidade também se põe. Eu achava que felicidade, nesse caso, tratava-se de botox, enxerto, cirurgia plástica, hormônio, alguma coisa assim, mas depois que me confidenciou algo, “muito íntimo; coisa que só amigo mesmo conta”, é que entendi o que ele queria dizer com felicidade também se põe, e isso ele descobriu precisamente no urologista, que encontrou por acaso. Ia passando na rua que separa as 700 das 900, na Asa Sul (aqui, os endereços são assim!), quando deu com um luminoso, daqueles grandes, anunciando uma clínica especializada em urologia. Era relativamente cedo e os estacionamentos ainda não estavam como lata de sardinha. Estacionou e foi andando até o prédio da clínica. Era um prédio velho, que gritava por reforma; estava descascado e mofado, e a clínica ficava no subsolo. Desceu e deu uma chegada à portaria. Não havia ninguém lá, mas logo um sujeito saiu de uma sala e foi atendê-lo.

– Bom dia, amigão! A atendente deu uma saída, mas pode falar, amigão! É uma consulta? – disse o sujeito, que era ainda maior do que meu amigo bombado, e era também peludo como Tony Ramos. Segundo Alfredão, seu jaleco não tinha os dois botões de cima e os pelos do peito do gajo saltavam pelo decote.

– É, estou pensando em fazer um exame de próstata; chegou a hora, né? Tenho 40 anos e não se pode brincar com essas coisas – Alfredão respondeu.

– Você veio ao lugar certo, amigão. É pra agora? Estou à toa, amigão! – disse o urologista.

– Não! Estou apenas sondando! – defendeu-se Alfredão.

– Eu entendo seu receio, mas não dói, pois a gente mete com jeito – disse o médico, exibindo o dedo médio da sua mão direita, parecido a uma miratinga peluda.

– Rapaz, quando vi aquilo, perdi toda a vontade de me submeter ao toque – dissera-me meu amigo.

– Tem muita gente que acha que toque é baitolagem, mas não é, amigão – encorajou-o o açougueiro (o tipo era todo um açougueiro).

– Mas acho que ainda não estou preparado para esse ato... violentador! – desabafou meu amigo.

– Olha, aqui, amigão, se você quiser posso prepará-lo direitinho. Com vaselina você nem sentirá cócega e quando se espantar não será mais tão inocente assim – dissera-lhe o urologista, agora com a pata, a mesma do dedão, no ombro do meu amigo. Dizendo ele que sentiu um calafrio com a manopla no seu ombro e o bafo de alcatrão e álcool do açougueiro. Explicou também que seu esfíncter se contraiu como uma válvula.

– Não sei não – titubeou. O açougueiro saiu lá detrás do balcão e foi se posicionar atrás do meu amigo. – Senti um verdadeiro mastro roçando em mim – ele confessou. – Aí a atendente chegou. Então o brutamontes saiu de detrás de mim e se dirigiu a ela. – Patrícia Alessandra, faça a ficha deste meu paciente. Ele vai ser examinado por mim – ordenou a ela. – Vou preparar a cama, amigão – disse para mim.

Estávamos tomando espresso no café da academia.

– Afinal, o que aconteceu? – perguntei-lhe.

– Hoje, ele frequenta a academia; sou personal trainer dele e ele é meu urologista.

– Agora você está feliz? – perguntei.

– Sim. Antes, eu vivia angustiado, mas depois que compreendi a mim mesmo e soltar a franga, é como se eu, desde então, estivesse flutuando. A propósito, ele se chama dr. José, e foi ele que pôs felicidade em mim, corroborando a minha tese de que felicidade se põe. No meu caso foi uma miratinga, como você diz.

Sou paraense da Vigia.

Saímos e fomos para o estacionamento; ele, que era rígido como um pugilista burocrático, se dirigiu para seu carro rebolando igual as dançarinas do É o Tchan.

“Égua! Nada como pôr felicidade” – pensei. Daí a instantes encontrei-me com minha cliente lindíssima, que, já de algum tempo, me faz delirar nas tardes de quinta-feira, flutuando no silêncio daquele motel. Isso me deixa intrigado. Sou azul de tão negro e ela é ruiva de olhos verdes, seus seios tem as maiores auréolas que já vi e sua bunda é a mais arrematada lucidez da loucura, se é que isso é possível. Fico intrigado porque ela é riquíssima e lindíssima, e quando me olha daquele jeito submisso, o vulcão irrompe, e descubro, levado de roldão na lava incandescente, a eternidade, às 18 horas das quintas-feiras.


Brasília, 10 de janeiro de 2014

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