quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

RIO AMAZONAS DEIXA DE SER O MAIOR DO PLANETA. E DAÍ?

Macapá, a capital do estado do Amapá, cortada pela Linha Imaginária do
Equador e debruçada para o estuário do rio Amazonas, a caminho do Caribe


BRASÍLIA, 19 DE FEVEREIRO DE 2014 – Em junho de 2007, uma expedição integrada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Agência Nacional de Águas (ANA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Geográfico Militar do Peru, determinou o local exato da nascente do rio Amazonas. Desde o início da década de 1990, uma equipe do Inpe, chefiada pelo geólogo Paulo Roberto Martini, da Divisão de Sensoriamento Remoto, estudava o Amazonas e o Nilo, por meio de sensoriamento remoto e geoprocessamento, tecnologias utilizadas no Programa Espacial Brasileiro, e imagens dos satélites Landsat, distribuídas pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, calculando, assim, minuciosamente, a extensão de ambos os rios, da nascente à foz, com ajuda de um programa de computador; em julho de 2008, bateu o martelo: o Amazonas é o maior rio do planeta.

A nascente do Amazonas foi localizada no rio Apurimac, na cordilheira dos Andes, ao sul do Peru. A nova localidade, até o oceano Atlântico, torna o rio 139,91 quilômetros mais longo do que o africano Nilo, que nasceria no rio Kagera, próximo à fronteira entre o Burundi e Ruanda, correndo até o mar Mediterrâneo. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Com a nova medição, o Amazonas passou a ter 6.992,6 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros. Paulo Roberto Martini comentou que as medições anteriores foram feitas sem o uso de metodologias científicas: “Esse resultado mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm de ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. Pelo menos desta vez não temos, acho. Temos metodologia científica e, por essa leitura, por essa interpretação, você pode colocar nos livros que o Amazonas é maior do que o Nilo”.

Em maio de 2008, o vice-presidente da Sociedade Geográfica de Lima, professor Zaniel Novoa, após 12 anos de investigação, confirmava a versão do explorador polonês Jacek Palkiewicz, que, em 1996, localizou a nascente do Amazonas e afirmou que o rio sul-americano era mesmo o maior do mundo. Até a segunda metade do século XX, os geógrafos apontavam o Nilo como o maior. Desde que o Amazonas foi batizado, em 1500, foram identificadas nascentes em vários pontos do Peru, até a atual, a 5.179 metros de altitude, próximo do monte nevado Quehuisha, na região sul de Arequipa, no Peru, e não nas cabeceiras do rio Marañon, como se pensava. Em 2009, surgiu uma novidade: estudos mostravam que a nascente do Nilo apontava para o rio Rukarara, o que dava ao gigante africano o comprimento de 7.088 quilômetros, 95,94 quilômetros maior do que o Amazonas.

Mas a bacia amazônica é um oceano doce, um realismo fantástico, uma fronteira misteriosa, pouco conhecida e desprezada pelos governos federais e, pasme-se, pelos próprios governos da Amazônia Clássica, apesar de se constituir na mais espantosa província biológica e mineral do planeta.

Em 1500, o navegador espanhol Vicente Yañez Pizón batizou o Amazonas de Río Santa María del Mar Dulce; 42 anos depois, o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões e nos estados do Pará e Amapá, de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do planeta, formada por 7 mil afluentes, 25 mil quilômetros de rios navegáveis, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, 40% da América do Sul, e banhando Peru (17%), Equador (2,2%), Bolívia (11%), Brasil (63%), Colômbia (5,8%), Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%).

Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, cidade paraense a mil quilômetros do mar e ponto da garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade. Fora do estuário, a parte mais larga situa-se próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros, e chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz.

A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, um quinto de toda a água doce de superfície da Terra, o suficiente para encher 8,6 baías da Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar, nas cheias. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tamisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos. O Amazonas tem 60 vezes mais água do que o Nilo. Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que toda a Europa.

Também despeja no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, que se escancara do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, fertilizando a Amazônia Azul setentrional. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal-guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia. Se mais de um terço de todas as espécies do planeta vive na Hileia, a bacia é berço de mais de 2.100 espécies de peixes, 900 a mais do que as dos rios da Europa. Somando-se às 1.200 espécies do Atlântico Norte, a Amazônia Azul é um santuário de 3.300 espécies.

“O que me intriga, não apenas no conteúdo da educação fundamental brasileira, mas também na base de informações científicas e acadêmicas no Brasil, é a pobreza de informações ambientais e biológicas sobre essa região, batizada de Mar Dulce pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, em 1500, mesmo ano em que Cabral achava o Brasil” – comenta o oceanógrafo Frederico Brandini. Ele lembra que, no Amapá, as autoridades estão pouco preocupadas com o estudo da Amazônia Atlântica. As costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhado de piratas, que vão lá pegar, de arrastão, pescados, lagostas, camarão e outros frutos do mar. Pescadores paraenses já capturaram na altura da Vila de Sucuriju, no município de Amapá, marlim azul de meia tonelada. Nem Ernest Hemingway conseguia espadarte desse porte no Gulf Strean.

Em 2011, pesquisadores do Observatório Nacional anunciaram evidências de um rio subterrâneo numa profundidade de 4 quilômetros abaixo do Amazonas, com 6 mil quilômetros de comprimento, batizado de Hamza, em homenagem a um dos pesquisadores, o indiano Valiya Hamza. Porém, tudo o que escrevi neste artigo é apenas realismo fantástico. Os livros continuam com as velhas medidas amazônicas do tempo do Império Britânico. A Amazônia é ainda uma fronteira, uma colônia, sugada ao longo de três séculos, por lusitanos, espanhóis, americanos, ingleses, franceses, holandeses, japoneses, chineses, paulistanos e os governos que se alternam em Brasília.

A Amazônia permanece como colônia, agora pós-moderna, a casa da mãe Joana, sob o beneplácito, a ambição, o jugo, a omissão de Brasília, incluindo-se nesse contexto a bancada da Amazônia no Congresso Nacional, que nunca agiu em bloco no interesse da auto-sustentação dos caboclos do subcontinente. Agora, a aristocracia são as multinacionais e os megaempresários, geralmente laranjas dos países hegemônicos, que dão as cartas.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O LINHÃO DE TUCURUÍ ESTÁ PRONTO, MAS MANAUS E MACAPÁ NÃO PODEM RECEBÊ-LO. PONTE AMAPÁ-GUIANA FRANCESA TAMBÉM ESTÁ PRONTA, MAS BR-156, NÃO

BRASÍLIA, 16 DE FEVEREIRO DE 2014 – Terça-feira 4, o décimo blecaute na gestão Dilma Rousseff afetou 11 estados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, prejudicando cerca de 6 milhões de habitantes. A Amazônia ficou fora do apagão do dia 4, mas a região, a que mais produz energia hidrelétrica no país, não está fora desse drama, especialmente Manaus, a maior cidade da Hileia, com 2 milhões de habitantes, e Macapá, com 437.255 habitantes (IBGE/2013), além da maioria dos municípios da Amazônia Clássica, mergulhados na Idade Média. O Linhão conduz também conexão de fibra óptica, aumentando em até 5 mil vezes a velocidade da internet e acesso à tecnologia 4G, da TIM. Ainda não ficou claro como será cobrado esse serviço à população.

Desde julho de 2013 que o Linhão de Tucuruí está instalado, em condições de abastecer Manaus, mas não entrou em operação porque a Eletrobras Amazonas Energia deixou de fazer a sua parte, a estrutura para incorporar a capital baré ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o maior sistema integrado de transmissão de energia do planeta e que cobre quase todo o território brasileiro, com capacidade de gerar 1,8 mil megawatts, acima do consumo máximo registrado em Manaus, de 1,350 MW. Os equipamentos utilizados atualmente na capital amazonense para o fornecimento de energia têm mais de três décadas de uso. As novas subestações, que custaram R$ 524 milhões, começaram a ser construídas em 2012, mas a Amazonas Energia, que estava devendo R$ 1,6 bilhão quando foi encampada pela Eletrobras, não deu conta de concluí-las.

A linha de transmissão Tucuruí-Macapá-Manaus custou R$ 3,5 bilhões. Com 2 mil quilômetros de extensão, as torres utilizadas no cruzamento do rio Amazonas, que chega nas cheias a medir mais de 50 quilômetros de largura, são mais altas que a Eiffel, de Paris. Quando Manaus e Macapá começarem a utilizar energia do Sistema Interligado Nacional, serão economizados R$ 2 bilhões por ano em óleo e evitar-se-á que 3 milhões de toneladas de carbono sejam lançadas na atmosfera. No Amazonas, o Linhão passa por oito municípios antes de chegar a Manaus, mas essas cidades não verão sua luz.

EM MACAPÁ, A SITUAÇÃO É PIOR DO QUE EM MANAUS – O Linhão de Macapá, que em terras amapaenses mede 334 quilômetros, já foi concluído, mas os macapaenses ainda vão esperar muito mais tempo do que os manauaras para se beneficiarem da energia firme de Tucuruí; se em Manaus a recepção da energia pode começar em março, no Amapá o governador Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB) só começou recentemente a obra do sistema para receber, rebaixar a tensão e promover a distribuição da energia aos macapaenses, obra orçada em R$ 42 milhões.

Assim como em Manaus, que tem a quinta pior internet do país, em Macapá, que se não tem a pior internet é candidata ao posto, o cabo de fibra ótica via Linhão conduzindo banda larga também está prontinho, mas os macapaenses ainda vão continuar com internet do século passado, não se sabe até quando. Atualmente, a banda larga domiciliar na capital amapaense é via rádio, interligada por antenas com 40 quilômetros de distância uma da outra a partir de Barcarena, no Pará.

ÚNICA RODOVIA FEDERAL NO AMAPÁ É CONSTRUÍDA HÁ MAIS DE 7 DÉCADAS – A ponte sobre o rio Oiapoque, que liga a cidade de Oiapoque, no norte do estado do Amapá, à localidade de São Jorge do Oiapoque, na colônia francesa da Guiana, e que começou a ser construída em 2008, ficou pronta em 2011, mas não foi inaugurada porque a BR-156, que ligará Macapá a Caiena, continua engolindo verba, há mais de 70 anos, e nada de ficar pronta. No lado brasileiro da ponte, que custou R$ 61.296.347,09, o posto de aduana é improvisado. No lado francês, toda a estrutura viária e aduaneira está pronta desde 2011. A propósito, a cidade de Oiapoque tem fama de ser um açougue de carne infantil a turistas libidinosos, que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode proporcionar.

O senador Randolfe Rodrigues (AP), pré-candidato a presidente da República pelo Psol, tem andado para cima e para baixo com o embaixador da França no Brasil, Denis Pietton. Também ano passado Randolfe marcou para este ano uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado, só não se sabe exatamente quando, para debater a cooperação transfronteiriça entre Brasil e Guiana Francesa, especialmente o garimpo, no qual vige a lei da bala. Faz algum tempo que militares franceses fizeram uma limpeza na região, mas garimpeiros, principalmente brasileiros, retornam sempre.

O antigo Território Federal do Amapá foi criado em 13 de setembro de 1943, desmembrado do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo brasileiro “presenteou” os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o buracão no município de Serra do Navio.

Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a Oiapoque, separada da Guiana Francesa pelo rio Oiapoque, o mais setentrional do Brasil, desaguando no oceano Atlântico. Essa rodovia começou a ser construída nos anos de 1940. Mede cerca de 900 quilômetros e está longe de ser completamente pavimentada. Com mais de sete décadas de construção, é espantoso recorde mundial de e irresponsabilidade, de preguiça, de desprezo para com os amapaenses.

A BR-156 é fundamental para a economia do Amapá. Ela ligará o porto de Santana, o mais estratégico da Amazônia, à América do Norte, via América Central. Santana, com capacidade de receber cargueiros transoceânicos, é o porto brasileiro mais próximo dos mercados norte-americano, europeu e asiático (neste caso, via Panamá). Pode abrigar carga de toda a Amazônia e do Centro-Oeste e exportá-la para todo o planeta. Seu problema é que pertence à prefeitura de Santana, na zona metropolitana de Macapá, e, portanto, está sujeito à corrupção municipal, mais difícil de ser fiscalizada e estancada do que se o porto fosse federal.

Mas o PT está preocupado é com Cuba, onde inaugurou recentemente um porto, construído com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ou seja, com dinheiro nosso. Na cabeça de Dilma Rousseff, e do PT, não precisamos de portos, se temos a Copa do Mundo.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

OS GENERAIS DE AÉCIO NEVES NA AMAZÔNIA. PT COMEÇA A ENXERGAR DILMA COMO UM POSTE SEM ILUMINAÇÃO

BRASÍLIA, 15 DE FEVEREIRO DE 2014 – Até nas eleições presidenciais a Amazônia é tratada como colônia (americana, europeia, japonesa, paulistana e brasiliense; os chineses estão querendo também). Sabedores do baixo índice de eleitores na Hileia, os candidatos saracoteiam mais no Sudeste, Sul e Nordeste. Além disso, rende mais voto, e dinheiro para a campanha, afagar os setores de construção de estradas e hidrelétricas, e de produção de gado e soja, além de industriais e banqueiros do Sudeste, do que as áreas de pesquisa, biotecnologia e oceanografia, de grande interesse para a Amazônia. Assim, em termos eleitorais, é o prestígio do presidente eleito que acaba transferido para futuros candidatos a governos e ao Senado. É o que ocorre com os prefeitos de Manaus, os tucanos Arthur Virgílio, e de Belém, Zenaldo Coutinho, dois dos generais que coordenarão o palanque do pré-candidato tucano à presidência da República, senador Aécio Neves (PSDB/MG).

Arthur Virgílio Neto, 70 anos, prefeito da maior cidade da Hileia, conhece de perto o maior inimigo de Aécio Neves, pois derrotou Luiz Inácio Lula da Silva numa cidade, Manaus, onde o ex-presidente, que baba de raiva só de pensar em Virgílio, quase obteve a unanimidade, em 2006. Diplomata de carreira, Virgílio se elegeu deputado federal pelo MDB, em 1982. Em 1986, candidato a governador do Amazonas, foi derrotado por Amazonino Mendes. Em 1988, elegeu-se prefeito de Manaus, pelo PSB, derrotando o ex-governador Gilberto Mestrinho; um ano depois migrou para o PSDB, que ajudou a fundar. Em 1994, elegeu-se novamente deputado federal, e foi reeleito em 1998. Líder do governo Fernando Henrique Cardoso na Câmara, foi também secretário Geral da Presidência da República. Em 2002, elegeu-se senador e em 2003 passou a liderar a bancada do PSDB no Senado. Como líder da oposição, foi um dos críticos mais ferrenhos do então presidente Lula.

Em 2006, novamente candidato ao governo do Amazonas, ficou em terceiro lugar. Em 2010, vítima de raivosa campanha de Lula, perdeu para a comunista Vanessa Grazziotin a vaga no Senado, mas derrotou-a, no segundo turno, para a prefeitura de Manaus, em 2012, apesar de Grazziotin ter recebido apoio pessoal de Lula, que desfechou ataques virulentos ao tucano. Até a presidente Dilma Rousseff, a mando de Lula, se empenhou pela derrota de Virgílio, que comanda a mais populosa cidade da Amazônia, com 1.861.838 habitantes (IBGE/2012), filé para candidatos a presidente da República.

Caso Arthur Virgílio consiga modernizar o saneamento básico e recuperar o centro histórico de Manaus, terá se credenciado, em 2018, a voltar ao Senado, ou a se tornar governador do Amazonas.

BELÉM – No Pará, Aécio Neves contará com o governador Simão Jatene, 65 anos, um dos fundadores do PSDB e líder máximo do partido no estado. Jatene elegeu-se governador em 2003 e em 2007 renunciou à disputa pela reeleição em favor do cacique tucano Almir Gabriel, derrotado pela então senadora petista Ana Júlia Carepa. Em 2010, Jatene derrotou Carepa, desgastada pela sua inacreditável incompetência, que quase pôs o Pará a pique. Jatene, que não deverá concorrer à reeleição por motivo de saúde, tem a missão de dar o necessário suporte a Aécio Neves no Pará.

Mas será o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, 54 anos, o grande cabo eleitoral de Aécio Neves no Pará, por três razões: tem voto na capital, maior colégio eleitoral do estado; é experiente e vitorioso coordenador de campanhas; e candidato ao governo paraense, não agora, mas daqui a quatro anos. Contudo, o PSDB paroara poderá se transformar num telhado de vidro, pois o fisiologismo e o nepotismo tucanos em terras papa-chibé é de fazer corar até Ana Júlia Carepa.

Zenaldo Coutinho liderou a campanha pelo não à fragmentação do Pará em mais dois estados e coordenou a campanha vitoriosa de Simão Jatene de volta ao governo paraense. Em 2012, foi um dos fundadores da Frente Parlamentar em Defesa da Amazônia e do seu Povo, e logo depois realizou e presidiu o seminário Povo e Floresta: Amazônia Sustentável – Rumo à Rio+20. Se Zenaldo resolver a questão do transporte público de Belém, caótico, e se modernizar o saneamento básico da Cidade das Mangueiras, se credenciará a faturar, tranquilamente, a reeleição, ou mesmo a se tornar governador, em 2018.

No Acre, Aécio Neves conta com o deputado federal tucano e primeiro secretário da mesa diretora da Câmara, Márcio Bittar, bem avaliado nas pesquisas para governador do estado. Se Bittar conseguir se eleger, pulverizará o plano dos petistas, que se instalaram no Acre juntamente com Lula, em 2003, e pretendem ficar pelo menos até 2026 – mais quatro anos para Dilma Rousseff e oito para Lula. Ou até 2022, pois a cúpula do PT já viu que Dilma Rousseff é tão poste que dificilmente conseguirá se reeleger, e como os petistas não querem nem ouvir falar em perder a teta do poder, o que seria para eles um pesadelo fatal, provavelmente Lula terá que ser o candidato, mesmo com a verdade se avizinhando dele cada vez mais.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

AMAZÔNIA, O CORAÇÃO DAS TREVAS


RAY CUNHA
Especial para o PORTAL DO HOLANDA


BRASÍLIA, 8 DE FEVEREIRO DE 2014 – A mentalidade de colonizado, predominante nos amazônidas, o calor, a nudez e a corrupção crônica na ex colônia portuguesa e agora americana, inglesa, brasiliense e paulistana, determinaram a perpetuação na Hileia de uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. Hoje mesmo, o prefeito Adail Pinheiro (PRP), de Coari (AM), cidade às margens do rio Solimões, a 370 quilômetros de Manaus, e onde se localiza a plataforma da Petrobrás de Urucu, para extração de petróleo e gás, se entregou à polícia, levado pelo advogado Alberto Simonnette para a Delegacia Geral, no bairro Dom Pedro, Zona Oeste de Manaus, onde foi formalizada a prisão. Horas antes, garantiu direito à prisão especial, por causa do risco de morte que correria se fosse conduzido para um presídio comum. Foi encaminhado ao Comando de Policiamento de Área (CPA), também na Zona Oeste. Cinco assessores seus foram presos hoje de manhã, em Coari, entre os quais o chefe de gabinete da prefeitura, Eduardo Jorge de Oliveira Alves, e o secretário de Terras e Habitação, Francisco Orimar Torres de Oliveira, além de Alzenir Maia Cordeiro, Anselmo do Nascimento Santos e Elias do Nascimento Santos.

Adail é investigado desde 2007 e acusado na Justiça, com fartas provas, de crimes sexuais contra crianças e adolescentes. O Fantástico, da Rede Globo, vem fazendo reiteradas denúncias contra ele, e apresentando provas robustas de que comanda uma rede de prostituição de menores. Dezenove dos 24 deputados da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) deverão instalar, na próxima semana, uma comissão parlamentar de inquérito para investigar pedofilia no estado.

A Polícia Federal começou a investigar Adail, em 2006, por outro motivo: indícios de desvio de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). No decurso da investigação, as denúncias de pedofilia começaram a aparecer em escutas telefônicas judicialmente autorizadas. As investigações culminaram na Operação Vorax, em 2008, e em 2009 o prefeito foi preso. Em agosto de 2013, Adail depôs à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, da Câmara dos Deputados.

A presidente da comissão, deputada Erika Kokay (PT/DF), informou-me quinta-feira 6 que integrantes da CPI estarão nos dias 20 e 21 em Manaus e Coari, para ouvir novas testemunhas contra Adail Pinheiro. Ela quer a federalização do caso. Terça-feira 4, reuniu-se com a ministra da Secretaria de Direito Humanos, Maria do Rosário, quando combinaram o pedido à Procuradoria Geral da República (PGR).

A Amazônia é um paradoxo. O mais belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad; uma zona imprecisa da alma. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas é um golpe de navalha seccionando tecido humano, obsceno como ataque de hienas. É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde é o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista.

A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças, e é um dos locais onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam o erário em lavanderia. Os presidentes da República que se sucedem governam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas.

Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Belém, constitui-se uma metáfora da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário, atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa criança foi currada dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima da garotinha como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo.

Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, já que a delegacia era um prédio velho praticamente aberto para a rua, e ninguém moveu uma palha pela menina. “Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas” – disse a mãe biológica da jovem. “Cortaram o cabelo dela com um terçado (facão) para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha.” O tempo todo, L ficou com as roupas que usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela media 1,40 m. “Aqui, no Pará, colocar homem e mulher na mesma cela é mais comum do que se imagina” – disse, na época, frei Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba. Há caso de atirarem uma mulher a 70 presos.

“Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada” – disse uma mulher na delegacia a jornalistas. “Antes de comer, os presos se serviam dela” – afirmou outra mulher, explicando que a menina só comia se não dificultasse a curra. “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar” – afirmou outra mulher, explicando que era possível ver e ouvir da rua muito do que se passava na delegacia.

Seis delegados estiveram na delegacia durante o suplício da jovem. A delegada plantonista responsável pelo flagrante foi Flávia Verônica Monteiro e o delegado titular de Polícia de Abaetetuba, Celso Viana. “Embora ela estivesse misturada com os homens, o setor onde ela estava é aberto e permite uma ampla visão de qualquer policial” – declarou o delegado Celso Viana. Flávia Verônica Pereira e três policiais tinham conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais ameaçaram a menina de morte se não participasse de fraude em cartório para alterar-lhe a idade na certidão de nascimento.

O delegado Celso Viana alegou em depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a responsabilidade da prisão da menor seria do sistema penal, e a delegada Flávia Verônica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem, indicando que ela tinha 20 anos. Flávia disse ainda que não transferiu a adolescente da delegacia para outra instituição porque esse procedimento só poderia ser feito com ordem judicial.

Em 27 de novembro de 2007, durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o então delegado-geral do estado do Pará, Raimundo Benassuly Maués Júnior, insinuou que a jovem é que foi responsável pelo episódio e que devia ter “alguma debilidade mental” por não ter dito que era menor de idade. “Não sou médico legista nem tenho formação na área, mas essa moça tem certamente algum problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade penal” – afirmou o gênio.

No dia 3 de outubro de 2013, leio na mídia que a juíza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba quando a adolescente esteve presa, fora promovida, um dia antes, pelo Tribunal de Justiça do Pará, a titular da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes de Belém. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento, o critério para a promoção de Clarice foi por merecimento.

Clarice Maria de Andrade foi considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante o período em que a jovem paraense foi supliciada, e recebeu a punição de aposentadoria compulsória, em 2010. Mas a Associação dos Magistrados do Pará (Amepa) recorreu da decisão e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que a punição foi exagerada, já que a magistrada não teria como saber da situação da carceragem da delegacia de Abaetetuba.

O fato é que quando o caso estourou na mídia, em novembro de 2007, a então governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, tratou-o com habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

PEQUENO ROTEIRO DA ESCRAVIDÃO SEXUAL – Em 27 de junho de 2006, publiquei na minha antiga coluna Enfoque Amazônico, no site brasiliense ABC Politiko, o mapa da escravidão sexual infantil na Amazônia. Relendo o texto, vejo que essa realidade continua como um nervo exposto. O tráfico de crianças para escravidão sexual é um dos crimes mais repudiados pela sociedade, por sua feição abjeta, mas é corriqueiro na Amazônia. Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, no extremo oeste da Hileia, uma reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, ligando o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e bisbilhotei registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente fugiam da miséria. Trinta e cinco anos depois a situação piorou, e muito. A tragédia, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.

Foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional, há seis anos atrás. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilhões por ano.

Nesse comércio negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas em atividade na Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham, em regime escravo, brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.

Em 2006, adolescentes de Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas contra três dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e vários adultos envolvidos; é preciso que haja vontade política para que se chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Em março daquele ano, a polícia de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e balneários no município, onde as bacanais duravam dias.

Ameaçadas de morte, vítimas e suas famílias, e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi ameaçada na porta da escola onde estuda, e sua família recebeu bilhetes com ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.

As adolescentes foram, ainda, humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de crime” – comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”

Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó, Pará. Nessas balsas, na cabine de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas, Pará e Tocantins, e pelo Oceano Atlântico.

“Foi constatado no início da década de 1990 pelo jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, que no Vale do Jari haveria prostituição infantil em larga escala” – comentou, em 2007, o governador (eleito) do Amapá, deputado estadual Camilo Capiberibe. O rio Jari divide o Amapá do Pará desde a Serra do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname, até desaguar no rio Amazonas, no sul do Amapá. O Beiradão, no município amapaense de Laranjal do Jari, é apenas uma das zonas de “fronteira” na Amazônia, nas quais a escravidão sexual infantil é crime banalizado e recorrente.

O comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa, escapando, assim, da miséria.

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo, corrupção endêmica e imigração insuportável, inclusive de gente importante, como o senador maranhense Zé Sarney. A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se situar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.

Próximo de Caiena, a capital da colônia francesa na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. A maior economia do município é, aparentemente, sexo, pois a cidade é a porta de entrada para a prostituição internacional na Amazônia Caribenha. Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são o internato que prepara meninas e meninos para o abate.

Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos – inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde se pode comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, e o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.

SEREIAS – Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.

Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que ganharia R$ 100 por garota.

Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.

Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo.

Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.

Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é paraplégico.

Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.

Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Em 2004, em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o então deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito deputado distrital. Em 2010, o governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção de dar inveja aos maiores ladrões do país. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico.

Como se vê, Brasília não vai à Amazônia apenas por energia hidrelétrica; minerais, principalmente ouro e ferro; e madeira. Quem sabe, por falta de água no rio São Francisco (ou pela grana que isso renderia?), não queiram transpor o Amazonas?