sexta-feira, 28 de março de 2014

MEMÓRIAS DA DITADURA NA AMAZÔNIA

BRASÍLIA, 28 DE MARÇO DE 2014 – Passado meio século do golpe militar em 31 de março de 1964, que instalou uma ditadura de 21 anos no país, dois fatos estão claros: o golpe recebeu apoio da maioria da sociedade brasileira, receosa de uma revolução comunista, sempre genocida e totalitária; e que os militares passaram tempo demais no poder, no que chamo de Ditadura dos Generais (1964-1985). Há quem diga que a ditadura no Brasil foi leve, que conservou o Judiciário, que matou-se pouco. Ora, toda ditadura é corrupta por definição, saqueia, extingue a cidadania, amordaça, tortura e mata, como se viu em Cuba e agora na Venezuela.
A Ditadura dos Generais é um ferimento que ainda sangra, com saudosistas de um lado e revanchistas do outro lado da moeda. O que se deve tirar dela é experiência útil à consolidação da democracia, no sentido de se impedir qualquer tipo de ditadura, inclusive a das sombras, praticada hoje no país, sob o aparelhamento do estado e o paternalismo.
Nos anos de chumbo, os militares torturaram, mataram, amordaçaram a imprensa, manietaram o Judiciário, quebraram as pernas do Legislativo, avacalharam com o ensino (que está ainda mais avacalhado), mergulharam o país no terror totalitário, levando sofrimento a incontáveis lares. Duas gerações cresceram sob a mordaça e o arbítrio. Hoje, só o fato de se contar com uma imprensa sem mordaça e de se poder falar de igual para igual com os generais já é um salto e tanto.
Porém, 29 anos depois do fim da Ditadura dos Generais e 26 após a Constituição Cidadã, o Brasil continua se arrastando: o Politburo se instalou no Palácio do Planalto e no hotel seis estrelas que é o Congresso Nacional, assumiu pelo voto obtido com propaganda e contrapropaganda o comando do país, que mergulha cada vez mais fundo no populismo, no paternalismo, no patrimonialismo, no aparelhamento do estado, na corrupção. Se na ditadura militar bastava chumbo quente e porrete para intimidar, na democracia capenga um cipoal de leis, como, por exemplo, a legislação eleitoral, garante a corrupção.
Em 31 de março de 1964, eu tinha 9 anos de idade e vivia na minha cidade natal, Macapá, urbe ribeirinha no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na confluência com a Linha Imaginária do Equador, na Amazônia Caribenha. Era a capital do então Território Federal do Amapá. Daquela época, lembro-me de prisões na Fortaleza São José de Macapá e da minha mãe queimando livros do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, leitor voraz, apenas porque era líder estudantil e poeta, razão suficiente para ser jogado na Fortaleza. Em 1968, aos 14 anos, comecei a frequentar uma roda de artistas, alguns dos quais tinham que se apresentar, de vez em quando, no quartel local do Exército; o poeta Isnard Brandão Lima Filho, pai da minha geração de artistas, foi preso na Fortaleza e no antigo presídio São José, em Belém.
Em 1971, houve uma grande mudança na minha vida. Eu cursava o antigo quarto ano ginasial no Colégio Amapaense quando, juntamente com três amigos, criamos o jornal estudantil A Rosa – Bonitinha Mas Ordinária. Meus amigos eram o poeta e contista José Edson dos Santos (Joy Edson), o jornalista Walter Júnior do Carmo e o advogado José Nazareno Nogueira. O pasquim só circulou uma vez. Na época, o diretor do Colégio Amapaense era o professor Tinilo e o vice, professor Edgar. Tinilo era um sujeito sombrio e Edgar, dissimulado. Fui submetido, pelos dois, a um inquérito que durou cerca de uma hora, eles e eu, numa sala fechada. Queriam saber onde o jornal fora datilografado e mimeografado. Não disse nada e peguei 15 dias de suspensão.
O governador, na época, era o general mato-grossense Ivanhoé Gonçalves Martins. O Palácio do Setentrião era separado do Colégio Amapaense por uma praça descampada e o governador gostava de olhar de binóculo para o colégio. Certa vez, o jornalista Haroldo Franco publicou no seu jornal, do qual, mais tarde, fui editor, uma foto do general Ivanhoé montado num cavalo, com uma legenda mais ou menos assim: O governador Ivanhoé Gonçalves Martins (o de cima) sai para uma blitz. Haroldo Franco teve que se esconder até as coisas esfriarem. Pois bem, enviaram A Rosa para Ivanhoé.
Na Secretaria de Educação, um amigo meu, Montoril, pai do poeta José Montoril, impediu, não me lembro mais como, que o jornal caísse nas mãos do general. Mas, naquelas alturas, eu andava desestimulado com a vida estudantil, e com a cidade. Em Macapá, naquela época, artista era tratado pela sociedade local como vagabundo, marginal mesmo (não sei se isso mudou). Em dezembro daquele ano, 1971, publiquei, com Joy Edson e José Montoril, um livro de poemas, Xarda Misturada, e peguei a estrada, com apenas 17 anos e sem sequer carteira de identidade. Rodei por aí, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Manaus, onde vivem parentes do meu pai, João Raimundo Cunha. Eu tinha, então, 21 anos; era 1975, auge da Ditadura dos Generais.
MANAUS – Antes de pegar o rio e partir para Manaus, para conhecer meus parentes paternos, deu uma parada em Santarém (PA), onde meu irmão mais velho, Paulo Cunha, estava morando. Em Santarém, trabalhei como redator da antiga Rádio Clube, de modo que ao chegar em Manaus entrei no primeiro jornal que encontrei, Jornal do Commercio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, onde, e nada é por acaso, havia uma vaga para repórter policial. Comecei no dia seguinte. Rotineiramente, cobria o Tribunal de Justiça e as delegacias de polícia, principalmente a central, um casarão no centro da cidade, do qual guardei na memória o fedor de urina e de tortura. Ali, perpetrava-se todo tipo de barbaridade.
No jornal, uma vez meu amigo Wanderley Fortaleza escreveu alguma coisa, não me lembro mais exatamente o que, e a redação foi invadida pela Polícia Militar. Fiquei por pouco tempo no Jornal do Commercio e fui para A Notícia. No dia 26 de março de 1976, o então presidente Ernesto Geisel e ministros foram a Manaus inaugurar o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Praticamente toda a equipe de repórteres da Notícia foi mobilizada para cobrir o evento. A mim coube também entrevistar o ministro da Educação, general Ney Braga. O diretor de redação do jornal, Bianor Garcia, foi claro comigo. Eu teria que perguntar ao general sobre até quando haveria necessidade da vigência do Decreto 174, aquele que podia acabar com a carreira de qualquer estudante. E se eu não conseguisse entrevistar o general, rua.
Naquela noite, houve um evento no Ideal Clube com a presença de Ney Braga. Posicionei-me num local por onde sabia que ele passaria fiquei de campana. Não me lembro quanto tempo esperei, mas o homem veio na minha direção, e quando ele chegou a uma distância segura deu o bote, furei sua segurança, deixando alguns oficiais sem ação, e parti para cima de Ney Braga, identifiquei-me e sapequei a pergunta, alguma coisa como se o Decreto 174 era mesmo necessário. Jamais esquecerei aquele sujeito me olhando quase na minha cara como se quisesse me fuzilar com os olhos. Sustentei o olhar dele. Deus, como eu precisava do meu emprego. Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim:
– Você é estudante? – ele perguntou.
Eu não era estudante. Tinha parado na quarta série ginasial e só estava trabalhando como repórter porque naquela época ninguém ligava para diploma de jornalista, bastava que se soubesse escrever.
– Não, ministro, eu não sou estudante.
– Então por que você está preocupado com isso? – ele disse.
– Estou lhe perguntando como jornalista – eu disse.
– O que você acha do decreto? – ele redarguiu.
– Eu, nada, a pergunta é para o senhor – repliquei.
– Não se preocupe com isso – ele disse, comentando alguma coisa, algo parecido com quem não deve não teme, e se foi. Lembrava esses generais de Hitler, no cinema, sempre acompanhados de uma comitiva.
Escrevi um boxe curto com essa entrevista e conservei meu emprego, que, aliás, não durou mais muito tempo, pois fui para o jornal A Crítica, levado por Fábio Lucena, que conheci no Clube da Madrugada e bebíamos no Caldeira. Falar nele, depois que se elegeu senador e antes de se suicidar, certa vez em estava em Brasília e fui procurá-lo no Senado. Ao me aproximar dele, um capanga que o acompanhava já ia sacar o revólver para me alvejar quando Fábio Lucena fez um sinal para ele dizendo que eu era amigo. O próprio Fábio me disse que o capanga tinha ordem para matar quem se aproximasse dele sem ser convidado. Não passou muito tempo para que ele se matasse.
Foi em A Notícia que tive meus melhores momentos em Manaus como repórter. Certa vez, escrevi uma nota sobre rodoviários atacados por waimiris-atroaris na BR-174, a Manaus-Boa Vista. A propósito, investigação do Ministério Público Federal no Amazonas aponta que os militares foram responsáveis pela morte de milhares de índios durante a construção da BR-174 (Manaus-Boa Vista) e da BR-230, a Transamazônica. Pois bem, por conta da nota, o Bianor Garcia foi chamado para dar explicações no Comando Militar da Amazônia. Não foi; mandou a mim. Lembro-me que o coronel que chamara o Bianor Garcia não gostou de ver apenas um repórter, e de 21 anos, para dar explicações sobre uma “questão de segurança nacional”, mas me fez algumas perguntas e me liberou. Recriei esse episódio no conto A grande farra, publicado em livro homônimo, em 1992, em Brasília. Segue-se trecho do conto:
“Naquela sexta-feira, Reinaldo foi instruído pelo editor para pedir desculpas ao comandante Militar da Amazônia. O jornal tinha publicado que os waimiris-atroaris estavam atacando na BR-174 e o editor recebeu um telefonema dando conta de que o assunto era de segurança nacional.
“Foi recebido por um sargento.
“– Gostaria de ver o general – disse-lhe.
“– O assunto? – perguntou-lhe o sargento.
“– Vim representando o Jornal do Comércio e dar-lhe uma explicação quanto a uma matéria que saiu.
“– Sente-se e aguarde. Seus documentos, por favor...
“– Pois, não. Aqui está minha carteira de jornalista.
“– Sua carteira de identidade também.
“– Ei-la, senhor.
“– Sente-se e aguarde.
“– Obrigado.
“Não demorou e veio um major, que o introduziu a uma sala maior e mais arejada.
“– O general esperava o editor – disse. – De qualquer modo ele vai recebê-lo. – O major olhava-o de sua poltrona, por detrás da grande mesa em que trabalhava. Veio um ordenança com cafezinho. O major apanhou as xícaras e ofereceu-lhe uma. Eram de porcelana. O telefone tocou e o major atendeu-o. Desligou-o, levantou-se e convidou-o a acompanhá-lo. Reinaldo foi introduzido a uma sala ampla. Em frente de uma escrivaninha belamente trabalhada estava o general, que não disfarçou o desgosto de ver o jornalista – mas isso durou apenas um segundo. Saiu de sua imobilidade e estendeu a mão a Reinaldo.
“– Sente-se – disse ele. Era alto e elegante, e jovem.
“– General, estou representando...
“– Esperava o editor do jornal, meu jovem – cortou-o.
“– Ele não pôde vir – disse, meio sem jeito, o jornalista. – Vim, em nome do jornal, pedir desculpas pela matéria que veiculamos sobre a BR-174.
“– Tudo lá está tranquilo, tudo sob controle. Quem lhes deu a informação de que os waimiris-atroaris atacaram um automobilista que seguia para Roraima?
“Reinaldo ficou embaraçado. Não sabia responder ao general. Mas ele passou adiante.
“– Notícia desse tipo são sensacionalistas e condenáveis. Por que os senhores não pedem informação a nós? Diríamos que está tudo tranquilo. Para que conturbar a paz com notícias inverossímeis? Meu jovem, estaremos sempre aqui à disposição da verdade.
“De volta, soube que policiais militares haviam prendido Tom Bacamarte, editorialista do jornal, por causa de um artigo que escrevera contra a polícia. Uma guarnição invadira o prédio e arrastara Bacamarte para o Comando da Polícia Militar. Ninguém pôde impedir, já que ameaçaram metralhar quem se metesse. Martim, que era redator e muito amigo de Bacamarte, comunicou-se com Brasília imediatamente, e com todas as agências de notícias do país.
“Ao saber da prisão, Reinaldo foi imediatamente ao Comando da Política Militar. Gostava muito de Bacamarte.
“Na sala do comandante, Bacamarte enfrentava-o. Naquela noite, no Orten, ele contou como se saiu.
“– Então é o senhor que anda ameaçando a ordem pública, a paz e a polícia? – disse-lhe o comandante, que era gaúcho.
“– Só há uma quadrilha de desordeiros nesta cidade, e o senhor a comanda. Quanto a paz, a presença do Exército na vida civil do país a desmente. E a polícia é quem tem as armas de fogo e o arbítrio para fazer o que quiser.
“O comandante ficou vermelho, mas controlou-se, e falou calmamente.
“– O senhor sabe que poderia ser preso por essas declarações?
“– Sem as formalidades da Justiça? Sim, sei. Sei inclusive que poderei ser assassinado e desaparecer.
“– Meu jovem, tudo o que a polícia faz é para o bem deste país - contemporizou o comandante.
“– Eu sei. A prisão ilegal de estudantes e a tortura.
“– O senhor pertence a alguma facção política, meu jovem?
“– Sou fascista.
“– Meu jovem, vou soltá-lo, mas não volte a falar da polícia...
“– Então, não estou preso? A propósito, quero agradecer a gentileza do convite para vir tomar um chá com o senhor; chá, não, chimarrão.
“– Vou mandar que o levem de volta ao jornal – disse, impassível, o comandante.
“– Obrigado. Vou de pés.”
Durante todo o tempo em que trabalhei em A Notícia, o jornal esteve sob censura prévia. Todas as noites, um casal de agentes federais, casados mesmo, ia para uma sala contígua à redação e lia tudo o que sairia na edição do dia seguinte, cortando o que achasse que pudesse ofender a ditadura.
Em 1978, fui para Rio Branco, trabalhar no jornal Gazeta do Acre, comandado pelo Elson Martins, um dos mais brilhantes repórteres da Amazônia, editor também do Varadouro, o mais famoso jornal de resistência à ditadura produzido na Hileia. Tive, assim, rapidíssima passagem pelo Varadouro, em março de 1979, escrevendo, em jornalismo literário, a matéria Roteiro da prostituição, publicada, com chamada de capa, na edição 14 do Varadouro. Escravidão, especialmente sexual; tráfico de tudo o que se possa imaginar, inclusive de crianças; matança de índios e de animais em extinção, tudo é permitido numa ditadura, porque, como já disse, ditaduras são corruptas por definição.
Em 1977, mudei-me para Belém, onde continuei acompanhando o deslizar da serpente, até a assunção de Zé Sarney à presidência, em 1985. Vinte anos depois, já morando em Brasília, publiquei o romance A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém), ambientado em Macapá, no ano do golpe.
Durante breve período, fui redator-chefe do semanário DF Notícias, de Brasília, onde conheci o sargento da reserva do Exército, Abílio Teixeira, que, em 2002, foi candidato a deputado federal. Fluminense, sargentão, paraquedista, assessor de ministro do Exército durante a ditadura, Abílio Teixeira não tem papa na língua. Escrevia uma coluna na qual descia o cacete no então presidente Lula e nos generais, porque Lula deixava os praças passarem fome com a conivência dos generais, e também porque Lula não estava nem aí para a Amazônia. Os amazônidas que se lascassem. E ainda porque a infraestrutura do país estava desabando, como continua desabando, agora com inflação, além da recessão.
Um dia, um tenente do Comando Militar do Exército em Brasília ligou para a redação e pediu para falar comigo, marcando a visita de um major. Eu sabia que era por causa dos artigos do Abílio. Conversei com o Abílio e ele me disse mais ou menos o seguinte: basta dar um grito que eles se sujam... Até aí, eu ainda sentia medo dos militares, pois ditadura é uma zona de guerra, onde a mordaça, a tortura, o estupro, o assassinato, são banais. Na manhã combinada, recebi o major e seu ordenança na minha sala. A certa altura o major me perguntou se poderia ler, de antemão, os artigos do Abílio. O sangue subiu à minha face.
– Censura? – perguntei, irritado.
O major escorregou do galho, mas era bom de comunicação e, com habilidade, conduziu a questão para outro lado, perguntando se poderia consultar o arquivo do jornal. Sim, é claro que poderia, mas pus, de propósito, um obstáculo.
– É claro. Basta que o Exército encaminhe uma carta solicitando isso – disse.
O major se mexeu na cadeira. Não demorou a ir embora, dizendo que providenciaria o documento, e nunca mais soube dele.
Tive longos papos com o Abílio sobre assuntos da caserna, e me sinto grato a ele, porque foi decisivo no exorcismo do medo que um dia senti da ditadura. A ditadura, agora, é outra. É de Lula e do PT, que tomaram conta do país por meio do patrimonialismo, do paternalismo, do populismo e do aparelhamento do estado. Como a perpetuação no poder não se deu mais pelas armas, mas pelo voto, Lula se aliou a todas as excrescências que rastejam, do Oiapoque ao Chuí, mas será derrubado pela lei da causalidade: quem planta corrupção colherá corrupção.
A democracia é, sobretudo, um exercício individual de amor ao próximo. Quando tomamos atitudes justas, dignas e altruístas, toda a Humanidade melhora, pois nenhum homem é uma ilha; somos, todos, um continente.

segunda-feira, 24 de março de 2014

AMAZÔNIA: COLÔNIA DE BRASÍLIA?

BRASÍLIA, 24 DE MARÇO DE 2014 – Será instalada nesta semana na Câmara comissão especial destinada a debater o Projeto de Lei 5.692, do deputado fluminense Sérgio Zveiter (PSD), que “dispõe sobre o monopólio da União na exploração das riquezas da Amazônia, com a criação do Conselho Nacional de Política da Amazônia e da Agência Nacional de Exploração dos Recursos Naturais da Amazônia, garantindo a proteção ao meio ambiente e a soberania nacional”. O PL transforma a Hileia numa espécie de território federal, legalizando a colônia que a região já é de fato, por meio de mais uma estatal paquidérmica, e sediada em Brasília, como é o caso das Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), que é do Norte, mas é sediada em Brasília.

Desde sempre, os governos que se revezam na capital da República governam de costas para o Trópico Úmido. Sintetizando isso, observe-se que grandes projetos são instalados na Amazônia, e não para a Amazônia. Veja-se, para resumir, a produção de energia hidrelétrica e a extração de minerais. Também o discurso sobre desenvolvimento sustentável da Hileia é distorcido. Sustentável para quem? Para índios, ribeirinhos, quilombolas, moradores da periferia das cidades amazônicas?

O que parece acontecer é que para Brasília o importante são as hidrelétricas, os minérios, a madeira, como se a Amazônia fosse inesgotável. E por conta dessa falta de visão é que provavelmente as máfias se espojam numa bacanal sem fim, escravizando caboclos, geralmente analfabetos e sem sequer certidão de nascimento, traficando animais e mulheres, e movimentando o inominável mercado de crianças escravas sexuais.

Estamos no limiar da terceira revolução. A primeira foi a industrial, no século 19; a segunda, tecnológica, deu-se no fim do século 20; a terceira será a da sustentabilidade, num planeta que marcha para o esgotamento, e o Brasil, continente tropical, é a nação certa para isso, especialmente se cuidar do seu maior patrimônio, a Amazônia, subcontinente equatorial que vem sendo pilhado desde o século 16, agora por Brasília.

A Amazônia só será desenvolvida sustentavelmente com políticas de estado, no longo prazo, e nunca descontinuadas, como a Zona Franca de Manaus e o Linhão de Tucuruí, por exemplo, além de projetos menores, mas importantes, como a ampliação do Porto de Santana, no Amapá, e a construção da Hidrovia do Marajó, no Pará.

Na Amazônia, a terceira revolução traz no seu bojo dois fatores básicos: desmatamento zero e conservação da maior bacia hidrográfica do planeta, que contém 20% da água doce de superfície da Terra. Belém e Manaus, as maiores cidades da Hileia, equiparadas, sobretudo, no inchaço das suas favelas, já estão com seus subsolos comprometidos, poluídos. Enquanto Belém empesta com esgoto o rio Guamá, Manaus vai transformando a desembocadura do colosso que é o rio Negro em esgoto.

Estrategistas brasileiros já traçaram o perfil de um remoto ataque bélico dos Estados Unidos ao Brasil. Apenas um porta-aviões da frota americana do Atlântico Sul bombardearia as usinas hidrelétricas e o parque industrial de São Paulo, além das principais instalações militares brasileiras, concentradas no Sudeste e no Sul. Isso, claro, se em troca de um naco da Amazônia, China ou Rússia não peitassem os americanos, que contam com a mais respeitável máquina militar do mundo, o que não quer dizer que chineses e russos não tenham capacidade de acabar também com a civilização na face da Terra.

Contudo, a Amazônia seria para os americanos como mil Vietnã. A maior parte da selva amazônica é virgem e tão exuberante que sobreviveria e logo se recuperaria até a um ataque nuclear, quanto mais de napalm. Porém, para tomar posse de um país é preciso pôr os pés nele. O Brasil tem o maior exército de índios do planeta, aquartelado, é claro, na Amazônia, e o coração das trevas, a selva profunda, é tão inóspita que os americanos, sem um pingo de melanina, seriam devorados por pium e carapanã. As baixas seriam grandes demais.

Assim, o projeto de lei de Sérgio Zveiter mostrará na Câmara, no infindável caminho que percorrerá, se percorrer, que a Amazônia só será brasileira se for devidamente ocupada e desenvolvida, por projetos que não sejam apenas para usurpar, mas que sirvam também para os amazônidas.

domingo, 23 de março de 2014

PROJETO DE LEI TIRA AUTONOMIA DOS ESTADOS E FEDERALIZA A AMAZÔNIA


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 23 DE MARÇO DE 2014 – Após duas tentativas sem quórum, durante a semana passada, ficou para esta semana a instalação de comissão especial na Câmara destinada a debater o Projeto de Lei 5.692, do deputado fluminense Sérgio Zveiter (PSD), que “dispõe sobre o monopólio da União na exploração das riquezas da Amazônia, com a criação do Conselho Nacional de Política da Amazônia e da Agência Nacional de Exploração dos Recursos Naturais da Amazônia, garantindo a proteção ao meio ambiente e a soberania nacional”. Isso Brasília já faz; a Amazônia é uma colônia do Distrito Federal. O projeto, de 23 páginas e 8 de anexos, passa por cima dos estados da Amazônia e cria um verdadeiro território federal. Bate de frente com a república.

Porém é mais uma oportunidade de se pôr em debate o coração das trevas, um gancho para se esmiuçar uma ameaça cada vez mais clara: num planeta com 8,5 bilhões de habitantes, as potências hegemônicas estão de olho na Amazônia, e também na Amazônia Azul; aliás, já fincaram os pés na Hileia e nas costas do Amapá. Por exemplo: o Japão utiliza energia de Tucuruí para produzir lingotes de alumina via Albrás-Alunorte, no Pará, e as costas do Amapá, a maior província piscosa do planeta e a mais mal guardada pela Marinha de Guerra, vive coalhada de piratas.

Há mais pesquisadores na Universidade de São Paulo (USP) do que em toda a Amazônia. O efetivo militar somente do Rio de Janeiro é de cerca de 44 mil homens; na Amazônia, são 22 mil. Cerca de 70% da energia elétrica produzida na Amazônia vão principalmente para o Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Nordeste do país; mais da metade dos 143 municípios do Pará, onde fica Tucuruí, não conta com energia firme.

Para o coronel da reserva do Exército, Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e ex comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva, e autor de Amazônia - A grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas), o problema crucial da Hileia é que ela ainda não foi devidamente ocupada pelos brasileiros. Por isso, ledo engano é supor que a região pertence de fato ao Brasil. Será, sim, do Brasil, quando for desenvolvida por nós e devidamente guardada. Daí porque às potências estrangeiras não interessa o desenvolvimento da Amazônia. Aos Estados Unidos, Inglaterra, Japão e China, principalmente, interessa manter os cartéis agrícolas e de minerais e metais. Dois exemplos: a soja da fronteira agrícola ameaça a soja americana; e a exploração dos fabulosos veios auríferos da Amazônia poria em cheque as reservas similares americanas e poderia mergulhar ainda mais o gigante em recessão.

Assim, despovoada, subexplorada e subdesenvolvida, não há grandes problemas para a ocupação estrangeira da região. Exemplo: a reserva Ianomâmi – etnia que teria sido forjada pelos ingleses –, do tamanho de Portugal e na tríplice fronteira, em litígio, Brasil, Venezuela e Guiana, é a maior e mais rica província mineral do planeta. Pois bem, já há manifestação na Organização das Nações Unidas (ONU) de torná-la nação independente do Brasil. Fregapani inclusive não descarta guerra pela ocupação da Hileia. “A Amazônia será ocupada. Por nós ou por outros” – adverte. A região abriga 30% da biodiversidade da Terra e é a maior bacia de água doce, a maior floresta tropical e a maior província mineral do planeta.

“Uma região que, se aberta à indústria do mundo, ali se achariam fundos inexauríveis de riquezas” – diz texto referente à Amazônia que o governo americano enviou ao Congresso, em 1853. Em 1983, a então premiê britânica Margareth Thatcher declarou: “Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas”. Tempos depois o então presidente francês François Mitterrand se saiu com esta: “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. Diga-se, a França já tem uma colônia na América do Sul: a Guiana Francesa. Em 2000, o candidato frustrado à Casa Branca, o democrata Al Gore, declarou: “Os brasileiros pensam que a Amazônia é deles. Não é. Ela pertence a todos nós”. Na época, o senador Robert Kasten engrossou a voz de Gore: “Assim como o ozônio, as chuvas, o oxigênio etc., a Amazônia deve pertencer a todos”.

Mikhail Gorbachev, então chefe do governo soviético, em 1992, foi claro: “O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes”. John Major, primeiro-ministro da Inglaterra em 1992, foi ameaçador: “As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum a todos no mundo. As campanhas ecológicas internacionais que visam à limitação das soberanias nacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para dar início à fase operativa, que pode definitivamente ensejar intervenções militares diretas sobre a região”. A lista de posicionamentos é grande e planetária, e mostra claramente que ou o estado brasileiro dá conta do recado ou haverá secessão na marra.

Um comercial institucional transmitido pela CNN mostra as maravilhas da fauna e da flora amazônicas para, em seguida, apresentar cenas de devastação, sob o comentário: “São os brasileiros que estão fazendo isso! Até quando? A Amazônia pertence à humanidade e o Brasil não tem competência para preservá-la!”

O senador Cristóvam Buarque (PDT/DF) fez uma defesa interessante da soberania brasileira sobre a Amazônia: “Como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

“Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrarias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

“Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

“As Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

“Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

“Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola; internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

“Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.”

E Brasília, trata os amazônidas como brasileiros?

sexta-feira, 14 de março de 2014

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É, NOVO LIVRO DE RAY CUNHA, ESTÁ À VENDA NA LIVRARIA SEBINHO E NO SITE DA LER EDITORA

Jozef Smets, embaixador da Bélgica, Ray Cunha e Milena Smit,
embaixadora da Eslovênia, no lançamento do livro Na Boca
do Jacaré-Açu  A Amazônia Como Ela É, dia 12, no Sebinho






















MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, MARÇO DE 2014 – Quem mora em Brasília pode adquirir o novo livro de Ray Cunha, Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25), no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na 406 Norte, Bloco C; pedidos de qualquer região do planeta, incluindo o Distrito Federal, deve ser feito pelo endereço eletrônico www.lereditora.com.br. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda diretamente na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59  Brasília/DF – CEP 70610-430.

Ray Cunha estará apresentando conto vivo e autografando três livros no stand do Chico Livreiro na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 12 a 21 de abril, na Esplanada dos Ministérios: Na Boca do Jacaré-Açu; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 30); e O Casulo Exposto (LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28).

Ray Cunha é ainda autor do romance A Casa Amarela e da novela A Caça, ambos pela Editora Cejup, de Belém; e do volume de poemas Sob o Céu Nas Nuvens (Belém, 1982). Estreou com a coletânea de poemas Xarda Misturada (Macapá, 1971), juntamente com José Edson dos Santos e José Montoril. Para o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras na TV Senado, o escritor amapaense representa a moderna literatura amazônica, “temperada em um bom caldo de tucupi”.

Na Boca do Jacaré-Açu é o terceiro volume da trilogia de contos que começou com A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotada) e prosseguiu com Trópico Úmido. A espinha dorsal da trilogia é a Amazônia, tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva. “Isto é a Amazônia” – comentou, ao ler Trópico Úmido, o coronel Gelio Fregapani, um dos intelectuais que mais conhecem geopolítica da Amazônia, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva e autor, entre outros títulos, de Amazônia - A Grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

Na Boca do Jacaré-Açu enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, que acaba sendo personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará). Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar de que a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – observa o escritor.

“Sou caboco (sic) de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde trabalha como repórter do Portal do Holanda (o mais lido da Amazônia e vigésimo do país entre os sites auditados pelo Instituto de Verificação de Circulação – IVC) e estuda Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

SEGUE-SE ENTREVISTA COM O AUTOR

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?
Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?
Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?
Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?
Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?
Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?
Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.
Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos e mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

Contato do escritor: raycunha@gmail.com



*MARCELO LARROYED é mestre em língua portuguesa e escritor

quarta-feira, 12 de março de 2014

PRESERVE ADISTRIBUI MUDAS DE PLANTA NO LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE RAY CUNHA: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É

Ray Cunha, fotografado pelo artista plástico André Cerino,
no ateliê do pintor, em dezembro passado
















MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 12 DE MARÇO DE 2014 – A Preserve Amazônia distribuirá mudas de plantas no lançamento do novo livro do escritor amazônida radicado em Brasília, Ray Cunha, o volume de contos Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25), nesta quarta-feira 12, a partir das 18h30, no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na 406 Norte, Bloco C, Loja 30/72, com apoio da Preserve e da Proativa Comunicação. Será servido coquetel. O livro já está à venda no site: www.lereditora.com.br. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59  Brasília/DF – CEP 70610-430.

Fundada em março de 2006, a Preserve, sediada em Brasília, vem realizando incansável trabalho de conscientização junto à bancada da Amazônia no Congresso Nacional, e de governadores e prefeitos do Trópico Úmido, que se empenham pelo desmatamento zero da Hileia. A Preserve fica na Estrada do Sol, Fazenda Jardim Botânico, Chácara 5, numa área de 28 hectares no bairro Jardim Botânico e onde se localiza o córrego Forquilha, um dos afluentes da Bacia do rio São Bartolomeu. O terreno conta com viveiro de espécies arbóreas com capacidade para 12 mil mudas, destinadas a projetos de reflorestamento.

Na Boca do Jacaré-Açu; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 30); e O Casulo Exposto (LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28) serão autografados na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 12 a 21 de abril, em Brasília, no stand do Chico Livreiro, quando Ray Cunha apresentará conto vivo. Os três livros serão autografados ainda em Manaus, em data a ser definida.

O novo livro de Ray Cunha, Na Boca do Jacaré-Açu, enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, o Portal da Amazônia, que perpassa todos os contos e acaba sendo personagem subjacente, a quem o autor dedica o livro. Algumas histórias têm sequências no Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo e único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra; apesar disso, a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu é o grande monstro amazônico; atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – adianta o escritor.

AMAZÔNIA – Na Boca do Jacaré-Açu integra uma trilogia de contos com tema comum: A Amazônia Como Ela É, subtítulo do livro Na Boca do Jacaré-Açu. A edição do primeiro volume da trilogia, A Grande Farra (Brasília, 1992), está esgotada. Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (Brasília, 2000) é o segundo volume da trilogia, que se fecha com Na Boca do Jacaré-Açu. A Amazônia é a base da ficção de Ray Cunha; tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva estão presentes nos seus contos. “Isto é a Amazônia” – comentou, ao ler Trópico Úmido, o coronel Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva, um dos intelectuais que mais conhecem geopolítica do Trópico Úmido, autor, entre outros títulos, de Amazônia - A Grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

“Sou caboco de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – diz Ray Cunha, utilizando a corruptela “caboco”. Além de ser caboclo, Ray Cunha trabalhou como repórter nos maiores jornais da Amazônia, como O Liberal e Diário do Pará, em Belém, e ACrítica, em Manaus. Em Brasília, onde vive desde 1987, é correspondente do Portaldo Holanda.

Ray Cunha é ainda autor do romance A Casa Amarela e da novela A Caça, pela Editora Cejup, de Belém; e do volume de poemas Sob o Céu Nas Nuvens (Belém, 1982). Estreou com a coletânea de poemas Xarda Misturada (Macapá, 1971), juntamente com José Edson dos Santos e José Montoril. Para o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras na TV Senado, o escritor amapaense representa a moderna literatura amazônica, “temperada em um bom caldo de tucupi”.

SEGUE-SE ENTREVISTA COM O AUTOR DE NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém, conhecida como Cidade das Mangueiras, Cidade Morena, Portal da Amazônia, a quem dedico o livro; algumas histórias contêm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do mundo, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas, e, jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em língua portuguesa, revisor do trabalho de Ray Cunha

sábado, 8 de março de 2014

RAY CUNHA LANÇA NOVO LIVRO NESTA QUARTA-FEIRA NO SEBINHO: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É

Ray Cunha: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU,
mais um round que chega ao fim


MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 8 DE MARÇO DE 2014 – O escritor e jornalista amazônida radicado em Brasília, Ray Cunha, lança novo livro, Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25), quarta-feira 12, a partir das 18h30, no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na 406 Norte, Bloco C, Loja 30/72, com apoio da Preserve Amazônia e da Proativa Comunicação. Será servido coquetel. O livro já está à venda no site: www.lereditora.com.br. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59  Brasília/DF – CEP 70610-430.

Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 30); e O Casulo Exposto (LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28) serão autografados também na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 12 a 21 de abril, em Brasília, no stand do Chico Livreiro, quando Ray Cunha apresentará conto vivo. Os três livros serão autografados ainda em Manaus, em data a ser definida. Correspondente em Brasília do Portaldo Holanda (o mais lido da Amazônia e o vigésimo do país, entre os portais de notícias auditados pelo Instituto Verificador de Circulação – IVC), Ray Cunha começou a carreira jornalística em Manaus, onde trabalhou no Jornal do Commercio, no extinto A Notícia e em A Crítica, na década de 1970.

Na Boca do Jacaré-Açu enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, o Portal da Amazônia, que perpassa todos os contos e acaba sendo personagem subjacente, a quem o autor dedica o livro. Algumas histórias têm sequências no Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo e único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra; apesar disso, a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu é o grande monstro amazônico; atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – adianta o escritor.

AMAZÔNIA – Na Boca do Jacaré-Açu integra uma trilogia de contos com tema comum: A Amazônia Como Ela É, subtítulo do livro Na Boca do Jacaré-Açu. A edição do primeiro volume da trilogia, A Grande Farra (Brasília, 1992), está esgotada. Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (Brasília, 2000) é o segundo volume da trilogia, que se fecha com Na Boca do Jacaré-Açu. A Amazônia é a base da ficção de Ray Cunha; tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva estão presentes nos seus contos. “Isto é a Amazônia” – comentou, ao ler Trópico Úmido, o coronel Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva, um dos intelectuais que mais conhecem geopolítica do Trópico Úmido, autor, entre outros títulos, de Amazônia - A Grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

“Sou caboco de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – diz Ray Cunha, utilizando a corruptela “caboco”. Além de ser caboclo, Ray Cunha trabalhou como repórter nos maiores jornais da Amazônia. Além do Jornal do Commercio, A Notícia e A Crítica, de Manaus, trabalhou em O Liberal, Diário do Pará e no extinto O Estado do Pará, em Belém; e no extinto A Gazeta do Acre, além de colaborar com o Varadouro, ambos editados pelo jornalista Elson Martins, em Rio Branco. Em Brasília, onde vive desde 1987, assinou, durante quatro anos, a coluna Enfoque Amazônico no portal ABC Politiko.

Ray Cunha é ainda autor do romance A Casa Amarela e da novela A Caça, pela Editora Cejup, de Belém; e do volume de poemas Sob o Céu Nas Nuvens (Belém, 1982). Estreou com a coletânea de poemas Xarda Misturada (Macapá, 1971), juntamente com José Edson dos Santos e José Montoril. Para o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras na TV Senado, o escritor amapaense representa a moderna literatura amazônica, “temperada em um bom caldo de tucupi”.

Segue-se curta entrevista com o autor de Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É.

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém, conhecida como Cidade das Mangueiras, Cidade Morena, Portal da Amazônia, a quem dedico o livro; algumas histórias contêm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do mundo, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas, e, jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em língua portuguesa, revisor do trabalho de Ray Cunha