sexta-feira, 18 de abril de 2014

VOU ME ENCONTRAR COM GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ NA BIENAL BRASIL DO LIVRO

Gabo descobriu que a vida é fantástica; ordinários são
espaço, gravidade e tempo. 
E desmitificou o Trópico

BRASÍLIA, 18 DE ABRIL DE 2014 – Ontem, quinta-feira 17, na sua casa, na Cidade do México, às 14 horas (horário local; 16 horas em Brasília), Gabriel García Márquez desencarnou, de câncer metastático, aos 86 anos. Eu estava trabalhando no fechamento da edição deste sábado do semanário Brasília Capital e só fui saber à noite, por acaso (e não existe acaso), pois não vejo televisão, no Jornal Nacional. Mundo afora, estão lamentando a morte de Gabo. Ora! meu velho amigo escreveu tudo o que quis. E depois, Gabo, cá para nós, já te sentias tão limitado que nem podias mais delirar à visão de uma mulher absolutamente linda!

Conhecemo-nos, Gabo e eu, há muito tempo. Ele nasceu em 6 de março de 1927, em Aracataca, Colômbia; e eu, em 7 de agosto de 1954, em Macapá, uma Aracataca debruçada para o estuário do maior rio do mundo, o Amazonas, e seccionada pela Linha Imaginária do Equador, ambas na fronteira da Amazônia Caribenha. Começamos a trabalhar como repórter aos 21 anos, em tempos cronológicos diferentes, mas na mesma dimensão. Ele, em 1948, no El Universal, em Cartagena das Índias; eu, em 1975, no Jornal do Commercio, em Manaus.

Estava difícil avistar-me com Gabo, porque há uma série de requisitos que eu raramente conseguia cumprir, como mergulhar durante dias no universo dele por meio de portais como Cheiro de Goiaba, O Amor Nos Tempos do Cólera e Cem Anos de Solidão, assim como todos os seus livros. Agora, ficou mais fácil. Gabo transcendeu as limitações do átomo. Sei que a qualquer hora vou me encontrar com ele, da mesma forma com que bebo, de vez em quando, com Ernest Hemingway, outro com quem adoro bater papo. Essas reuniões podem ocorrer durante sonos profundos e sonhos coloridos; mergulhos bibliográficos abismais; e voos que ultrapassam a velocidade da luz.

Tivemos em comum, como mestre, William Faulkner, que nos ensinou a subverter o tempo, e Franz Kafka, que em A Metamorfose, “quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”, desencadeou em Gabo o pensamento: “Então eu posso fazer isso com as personagens? Criar situações impossíveis?” Edgar Rice Burroughs fez isso com Tarzan. Gabo o fez o tempo todo, complementando com realismo o universo que ele criou, como em Ninguém Escreve ao Coronel.

Aprendi uma infinidade de truques com Gabo, entre os quais o cheiro do Caribe, que é parecido com o odor da alma feminina, um perfume só encontrado nas fossas abissais das mulheres, em velocidade infinitamente superior à da luz, durante fragmentos eternos de nano segundos, intenso nas rosas vermelhas colombianas e no choro dos jasmineiros. O maior truque que Gabo me ensinou nem é truque, e na verdade ele apenas esclareceu isso para mim: a vida é fantástica; ordinários são espaço, gravidade e tempo.

Gabo me ajudou a compreender melhor a Amazônia, pois o coração das trevas está permeado de cem anos de solidão. O antídoto contra a solidão, descobri-o em uma madrugada de chuva torrencial: o espilantol, substância que encontramos no tacacá, e em quantidades oceânicas na alma da mulher amazônida.

O presidente americano Barack Obama, que possui um exemplar autografado de Cem Anos de Solidão, comentou: “O mundo perdeu um dos maiores e mais visionários escritores, um dos meus preferidos desde que eu era jovem”, e Luís Fernando Veríssimo declarou que García Márquez mudou a ótica do mundo com relação à América do Sul. Com efeito, Gabo sabia abrir portais que o levavam a outras dimensões, e desmitificou o Trópico. Quem entende Gabo olhará firmemente americanos e europeus nos olhos.

Até qualquer hora, amigão! Em Macondo, em Aracataca, em Maracanã (PA), em Cartagena das Índias, em Macapá, em Belém, em Manaus, ou na Bienal Brasil do Livro, em Brasília.

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