domingo, 18 de maio de 2014

OS PORTAIS DA AMAZÔNIA

Isaías Oliveira aos 22 anos. Na época de A Notícia, em 1976, já se revelava
brilhante como repórter. Agora recebe seu batismo de fogo como romancista,
com A Dimensão dos Encantados, o mais pungente berro alertando para o
assassinato da Amazônia, que é não só a desolação da terra ferida, mas uma
terçadada de 128 na alma amazônida, espirrando espilantol da carne dilacerada
































A selva amazônica é esplendorosamente monótona, bruta como golpe de terçado 128. Ao olhar superficial do leigo, que, acidentalmente, caiu na Amazônia, a Hileia lhe parecerá o Inferno Verde, onde encurtará sua vida, devorado por microrganismos e insetos, ou torrado pelo sol equatorial, ou afogado pela água, não do mar doce, mas em estado gasoso, nos praticamente 100% da umidade relativa do ar. Desse modo, o incauto será corrido daquelas paragens, grávido da antiga ideia dos colonos – principalmente os governos que se sucedem em Brasília – de que a Grande Floresta só serve para três fins: construção de hidrelétricas; extração de madeira e mineral; e reserva de caça, pesca e escravos, especialmente para o pugilato do sexo. Ideia assentada na crença de que os colonos são deuses e os colonizados, seres inferiores, que existem para servir aos herdeiros dos sangues-azuis. Essa é a face obscura da Amazônia, o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista. Assim, o mais belo realismo fantástico da Terra, a maior diversidade biológica do planeta, a mais rica província mineral do mundo, revela-se o coração das trevas, uma zona imprecisa da alma.

Isaías Oliveira, um dos jornalistas mais brilhantes de Manaus e conhecedor da Amazônia profunda, lança, na semana que antecede o primeiro jogo da Copa do Mundo, em 14 de junho, na capital baré, seu primeiro romance, A Dimensão dos Encantados (Editora Biblioteca 24 Horas, São Paulo, 189 páginas em corpo 10). Trata-se de um livro emblemático. Sua leitura é como o despencar de um precipício e estender as asas para flutuar à velocidade da luz. A floresta e o rio ganham vida, os adjetivos se tornam substantivos e o pesadelo é real. “A vida na mata é o eterno caminhar sempre pelos mesmos caminhos”; “As coisas andavam em círculos, vivíamos o resumo de dias iguais e essa repetição acabava por atrofiar, com o tempo, a nossa própria existência.”

Para o autor, “existe uma Amazônia desconhecida do mundo, ainda não descoberta pelo homem moderno. Nela, o sobrenatural e o humano se misturam, na dimensão fantástica da mente”. No substrato da epiderme amazônica entrelaçam-se dimensões, estanques, porém com passagens secretas entre elas, portais por onde só passam seres encantados, além dos que desenvolveram a intuição e a espiritualidade, como Isaías Oliveira, que se reúne, frequentemente, com mestres da Quarta Dimensão, promovendo, inclusive, curas, ou processos evolutivos, no plano físico – limitado por volume, espaço, gravidade, tempo e ignorância.

De modo que na superfície do romance de Isaías Oliveira paira toda a tragédia da Amazônia: a mentalidade colonizada de índios, ribeirinhos, caboclos, mulatos, cafuzos, mamelucos, citadinos, corrompidos nas garras impiedosas do europeu, da Igreja, dos missionários, de Brasília, do PT(MDB), além da Pax Americana. A Dimensão dos Encantados desmitifica a Amazônia turística e a dos grandes projetos no Trópico Úmido, à serviço de Brasília, ou das potências hegemônicas, e não para o desenvolvimento sustentável dos amazônidas. O cruel é que a ferramenta utilizada pelo carrasco para espoliar a floresta é o caboclo, que também serve para matar os da sua etnia como quem mata carapanã.

A Dimensão dos Encantados é um desses livros que surgem de século em século, com o poder esclarecedor de que a vida não existe somente no mundo físico; pelo contrário, o fenômeno é apenas sombra da mente. “Não existe um único centro e o tempo perdeu sua coerência. Leste e Oeste, passado e futuro se misturam dentro de nós. Diferentes tempos e espaços se combinam aqui, agora, tudo de uma vez só” – escreveu Octavio Paz.

Isaías Oliveira: “Sob o manto verde da floresta amazônica, esconde-se a verdade sobre mundos e civilizações diferentes convivendo num mesmo espaço, porém em diferentes tempos e dimensões da matéria e da energia, seres de planos existenciais diversos coexistindo num mesmo recanto da mata ou curso de rio, a maioria sem jamais cruzarem seus caminhos. Outros, entretanto, dotados de energia e percepção especiais são capazes de encontrar e atravessar os portais nas fronteiras desses mundos”. A Dimensão dos Encantados é um desses portais.

Convivi com Isaías Oliveira durante dois anos (1976-1977), em Manaus, no extinto A Notícia. Eu tinha 21 anos; ele é um ano mais velho do que eu. Apesar da idade, já era experiente, maduro, sábio, culto e sofisticado. Sabia tudo sobre a selva profunda; fora, ainda garoto, guia de turistas nas sendas da Hileia. Seu texto também já era um diamante, embora bruto, e seu trabalho de reportagem, sempre bem apurado, investigado e pesquisado.

Em 1997, deixei Manaus, onde mora a família do meu pai, João Raimundo Cunha, e mudei-me para Belém, mas a amizade entre o autor de A Dimensão dos Encantados e eu estava selada para sempre. Em 2000, publiquei Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. A personagem central da primeira história desse livro, Inferno Verde, chama-se Isaías Oliveira, não por acaso um jornalista.

Isaías Oliveira se tornou o jornalista de Manaus mais bem informado em política, especialista em comunicação tecnológica e marqueteiro que já elegeu vários governadores, prefeitos e parlamentares amazonenses, porém seu maior conhecimento é sobre o Trópico Úmido, não a Hileia mitológica dos turistas, mas a Amazônia como ela é, inclusive com seus portais. Ele está construindo, sozinho, um moderno hovercraft no quintal da casa dele, com o qual pretende, a partir do próximo ano, fazer documentários em nichos da Amazônia onde o homem nunca pôs os pés, habitado por anacondas de 20 metros de comprimento.

Não à toa, A Dimensão dos Encantados são duas histórias paralelas, e que em dado momento se cruzam: a de um menino ribeirinho, que se torna madeireiro, e de um curumim que se perdeu no limbo, entre uma dimensão e outra, e se torna xamã. Os seres encantados vivem precisamente nos “diferentes tempos e espaços (que) se combinam aqui, agora, tudo de uma vez só” – como disse Octavio Paz.

Isaías Oliveira frequenta diferentes dimensões; na quarta, reúne-se com mestres incumbidos de acelerarem a evolução da Humanidade. Assim, A Dimensão dos Encantados pode ser lido como o mais pungente berro alertando para o assassinato da Amazônia, que é não só a desolação da terra ferida, mas uma terçadada de 128 na alma amazônida, espirrando espilantol da carne dilacerada.

Por hora, a única forma que eu conheço de se adquirir A Dimensão dos Encantados é entrar em contato com Isaías Oliveira. Ele não me autorizou, mas aqui vai seu e-mail: isaiasndeoliveira@gmail.com.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

NAMORADA PARA SEMPRE



Comecei a namorar com Josiane Souza Moreira Cunha em 15 de maio de 1988; vimos, naquele dia, O Último Imperador da China, de Bernardo Bertolucci, no antigo cinema do Conjunto Nacional. Desde então, começamos tudo de novo a cada dia, com o cataclismo do primeiro beijo. 


O primeiro beijo que me deste explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo

Desde então, flor da minha vida,
Sou prisioneiro do teu olhar
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada!

Segue-me, pois te mostrei quase nada.
Tenho a chave dos sonhos,
Que conduz para a eternidade

A fogueira do nosso amor, minha namorada,
O voo vertiginoso
Da luz movida a acme

sábado, 10 de maio de 2014

MÃE!

Se me deixas gritar
Terei os pulmões satisfeitos.
Se me deixas correr, livre, pelos campos
Serei eternamente grato.
Se me permites conversar em voz alta
Os assuntos que me agradam
Serei filho forte e não terei medo.
Se não te importas eu escrever verdades
Então pronto, serei esplêndido.

CÂMARA DOS DEPUTADOS APROVA BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS. CELEBRIDADES SÃO INTOCÁVEIS? CASO GUIMARÃES ROSA É EXEMPLAR

BRASÍLIA, 10 DE MAIO DE 2014 – O marco legal sobre o limite entre o direito à privacidade e o da informação sobre pessoas de notória projeção pública e celebridades começa a se tornar realidade. A Câmara aprovou dia 6 o Projeto de Lei 393/2011, do deputado Newton Lima (PT/SP), que altera o Código Civil (Lei 10.406/2002) e permite a publicação de biografias de personalidades públicas sem autorização dos biografados ou seus descendentes. Também aprovou emenda do deputado Ronaldo Caiado (DEM/GO) estabelecendo julgamento mais rápido de ações que pedem a retirada de trechos considerados ofensivos junto ao juizado de pequenas causas, cabendo recurso apenas no Supremo Tribunal Federal (STF). A proposta seguiu para o Senado. Do jeito que está, biografados e seus herdeiros podem vetar livros sem suas autorizações. Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque, por exemplo, defendem censura prévia. O caso de Roberto é o mais famoso. Roberto Carlos em Detalhes, do historiador Paulo César Araújo, está censurado desde 2007; o compositor e cantor solicitou a retirada de circulação do livro e foi atendido.

No Brasil, há uma enxurrada de ações judiciais contra editoras e autores de biografias, por parentes de biografados pedindo dinheiro por dano moral e a retirada do livro de circulação. Em 2008, o jornalista Ruy Castro, ao lançar a biografia de Garrincha, foi processado duas vezes: pelas filhas e por uma ex companheira do astro do futebol. Ruy ganhou um dos processos, mas foi condenado no outro pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que estipulou indenização de 5% sobre o total de vendas do livro, com juros de 6% ao ano. Em 2009, depois que a imprensa divulgou que Ruy Castro estava escrevendo a biografia de Raul Seixas, o autor foi advertido por uma das cinco ex-mulheres do cantor baiano de que entraria na Justiça caso o livro fosse publicado.

Em 2007, uma pequena editora de Brasília, LGE, hoje Ler Editora, publicou a biografia Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa, de 388 páginas, do romancista e ensaísta goiano Alaor Barbosa. Vilma Guimarães, filha do gênio mineiro, e a Nova Fronteira, processaram a LGE, alegando que Sinfonia Minas Gerais é plágio de Relembramentos: João Guimarães, Meu Pai (Editora Nova Fronteira, 1983), de Vilma, que ela chama de biografia, mas que se trata de livro epistolar. Na ação, Vilma alegou que Sinfonia Minas Gerais “causa graves danos morais à imagem” de Guimarães Rosa (1908-1967) e “viola direitos autorais” dela e de “terceiros”, e acusa Alaor Barbosa de dizer que Guimarães Rosa era místico.

A ação era uma peça absurda e causou sérios danos à LGE. A Justiça mandou a editora retirar o livro das prateleiras em 24 horas. Recolher livros num país continental como o Brasil e nos tempos de hoje, com vendedores eletrônicos em cada esquina da internet, é outro absurdo. Além disso, o custo editorial é elevado e a retirada de um livro do mercado é brutal para uma editora pequena. Em agosto de 2013, a Justiça concluiu que não houve plágio e voltou atrás, mandando Vilma Guimarães e a Editora Nova Fronteira pagarem as custas da ação contra Alaor Barbosa e a LGE.

Diz o despacho da Justiça: “Não se verifica em Sinfonia de Minas Gerais a utilização de mais de 10% da obra de Vilma Guimarães Rosa, Relembramentos. O percentual não chega a 9,5%”; “A obra de Alaor Barbosa, Sinfonia Minas Gerais, se sustenta e é útil ao conhecimento da vida do biografado e também como obra literária, mesmo sem as referências à obra de Vilma Guimarães Rosa, Relembramentos, ou seja, ainda que os trechos concernentes ao livro da autora do processo sejam suprimidos, o livro Sinfonia Minas Gerais tem função e interesse histórico e literário”. E afirma que ao citar Vilma e outros autores Alaor Barbosa os identifica com precisão, não omitindo, hora alguma, suas fontes.

Alaor Barbosa afirmou, na sua defesa, que as autoras da ação pretendiam garantir reserva de mercado para faturar em cima de Guimarães Rosa: "A Editora Nova Fronteira acaba de relançar obra de autoria de Vilma Guimarães Rosa, intitulada Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai, livro publicado em 1983, com pouco sucesso comercial e que não se configura tecnicamente uma biografia, mas sim um livro que procura mostrar, em sua visão de filha de Guimarães Rosa, quem seria o seu pai, principalmente por meio da transcrição de cartas escritas e recebidas por Rosa ao longo de sua vida. Evidente que as autoras da ação se aproveitam do ano de centenário de morte de Guimarães Rosa para, absurdamente, tentarem obter vantagens econômicas; sendo certo que buscam o Poder Judiciário visando a uma espécie de exclusividade em relação à história de um dos maiores escritores brasileiros; história esta cuja importância em muito transcende os laços de parentesco. Trata-se, como restará demonstrado, de uma evidente pretensão de apropriação da figura, da vida e da obra de João Guimarães Rosa por parte de uma sociedade editorial de grande porte, que, repita-se, tenta se utilizar do Poder Judiciário para potencializar o seu já notável poderio econômico; buscando, absurdamente, vedar a concorrência”.

E quem é esse Guimarães Rosa que não pode ter sua vida revelada por uma biografia? “Sou um sertanejo” – disse, durante uma das raríssimas entrevistas que concedeu, a Günter W. Lorenz, em Gênova, em janeiro de 1965. Entre os monstros brasileiros da ficção, Guimarães Rosa, que comunicava-se em mais de uma dezena de idiomas, foi um dos que mais fundo mergulhou na língua brasileira. “Nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E, além de tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturada. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Bose (Além do Bem e do Mal, título de um livro de Nietzsche), e, apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas” – disse Rosa a Lorenz. “Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negroides com os quais se fundiu no Brasil...” – disse Lorenz, a que Rosa replicou: “Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isso está à nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada”.

Guimarães Rosa, como todo grande artista, precisa ser biografado, analisado, esmiuçado, independentemente dos familiares dele, pois foi um artífice único na recriação do mundo singular do sertanejo mineiro, daí porque é um dos escritores brasileiros mais estudados e traduzidos na Europa, na tentativa, malograda, de os europeus compreenderem o trópico. Assim, compreender o mundo de Rosa é enxergar uma faceta da pedra angular da cultura brasileira. É isso que Alaor Barbosa faz, lança luzes sobre a vida e a obra do gênio mineiro. “Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. Uma vida complemente normal” – disse o monstro das Alterosas a Lorenz, em 1965, dois anos antes de morrer. É fato. Guimarães Rosa foi sertanejo e funcionário público, diplomata; um sujeito tão discreto que parecia se esconder, e isso Alaor Barbosa resgata.

A biografia escrita por Alaor Barbosa é adiposa. Vilma se queixou na Justiça de que o escritor goiano fez inúmeras citações do seu livro epistolar Relembramentos. Alaor pode extirpar todas essas citações que, ainda assim, a biografia do monstro sagrado continuará inchada como os pés de um pinguço. Alaor reconstruiu a geografia de Rosa, psicanalisou-o e resgatou o dia-a-dia do criador de Grande Sertão: Veredas.

Na época desse imbróglio, a filha de Alaor, Noemia Barbosa Boianovsky, bacharela em Relações Internacionais, jornalista, advogada, consultora da Câmara Legislativa do Distrito Federal, endereçou uma carta para Vilma Rosa:

“Vilma,

“Nasci filha de escritor. Doei para o meu pai, desde o meu nascimento, longas horas da minha infância e da minha adolescência. Meus irmãos doaram outras tantas horas. Minha mãe dividiu o marido, durante décadas, com sua amante, a literatura. Mas meu ciúme de criança foi se atenuando, ao longo dos anos, e mais ainda com o chegar da maturidade. Passei a admirá-lo, respeitá-lo, reverenciá-lo. Principalmente, passei a compreendê-lo. Literatura, para o meu pai, o escritor Alaor Barbosa, é e sempre foi devoção. Triste do filho ou da filha que não respeita e nem compreende as devoções paternas.

“Assim como você, também sou herdeira de uma obra literária. Grande, extensa, profunda, séria. Fruto de muito trabalho, pesquisa e esforço, feita com paixão e talento. Obra reconhecida e tantas vezes premiada. Falo de quase meio século de produção literária, tempo bem maior do que eu mesma tenho de vida. Meu pai, Vilma, já era escritor antes de eu nascer.

“Tenho a sorte de ter meu pai comigo, avô carinhoso das minhas filhas, em almoços de domingo. Vivo, feliz e produtivo. Mas já estou de posse da herança que ele me legou. Foi uma partilha sem desavenças, entre a família e os amigos. Não a herança material, mensurável, quantitativa, que se deposita em conta bancária. Desta, basta-nos o óbolo de Caronte. O que recebi de meu pai foi um norte, um rumo, um equilíbrio, um eterno buscar da verdade. O amor e o respeito por tudo de bom que o ser humano já produziu.

“Você, Vilma, também recebeu uma herança. Magnífica herança, portentosa, imensurável. A herança de um gigante. A herança de um gênio, primus inter pares. Temos, portanto, responsabilidades. Eu e você. A minha, talvez mais leve, é a de impedir que a herança de meu pai seja aviltada, desqualificada, vilipendiada. Isso, tenha certeza, não acontecerá. As inverdades, calúnias e difamações são muito fugazes e, uma vez reveladas, deixam despida aquela que as inventou. Aliás, é assim que eu vejo você: despida, nua, pelada. Porque mais marcado será sempre o caluniador do que o caluniado. Já a sua responsabilidade, Vilma, é a de não abastardar, não apequenar, não diminuir a sua herança, o seu legado. A obra do seu pai é universal. Não a amesquinhe, não reduza a herança à estatura da herdeira.

“Num país como o nosso, Vilma, tão carente de cultura, tão necessitado de modelos, tão merecedor de exemplos, resta-me recordar as palavras de outro ídolo de meu pai, Monteiro Lobato, cuja biografia para crianças também saiu da máquina de escrever Olivetti que havia na biblioteca lá de casa. Lobato disse que um país se faz com homens e livros. Você, portanto, quando tenta impedir a existência de um livro, de uma obra literária, espanca a inteligência nacional, ofende a tantos que tombaram em nome da liberdade e do direito de expressão e do livre pensamento! Talvez, Vilma, seu tempo tenha passado. Imagino você mais feliz vivendo uma outra época – mais escura do que a de agora. Talvez sob o Estado Novo ou abrigada pelo AI-5. Imagino você, Vilma, com um carimbo de censura na mão — arma formidável! – detentora exclusiva da faculdade de permitir ou não que alguém leia, fale ou pense. Para nossa sorte e infelicidade sua, vivemos tempos mais claros. E você, faça o que fizer, diga o que disser, jamais impedirá meu pai de ler, escrever, falar ou pensar. Nem meu pai nem ninguém.

“Portanto, Vilma Rosa, não acenda fogueiras com livros. O fumo do livro incinerado escurece uma nação.

“Cada um de nós tem seus próprios ídolos. Sorte do meu pai, que fez boas escolhas. Os seus, parecem ser o Index Librorum Prohibitorum, o Santo Ofício, Savonarola e Torquemada. Talvez, até Herr Goebbels... Eu, que também tenho os meus, cito um deles: você vai amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença...

“Lembre-se, Vilma, você é apenas uma filha. Você é apenas uma herdeira que avilta a herança magnífica que recebeu, constatar que nem tudo que Guimarães Rosa nos deixou é tão bom quanto a sua obra literária”.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

UMA TOMOGRAFIA DA AMAZÔNIA HUMANA


Ray Cunha, na Linha Imaginária do Equador, Macapá/AP,
Amazônia Caribenha, em foto de Fernando Canto



































MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 1 DE MAIO DE 2014 – O último livro de Ray Cunha, Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25), fecha a trilogia que começou com A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com Trópico Úmido Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30), e que tem como espinha dorsal tanto o Inferno Verde quanto as metrópoles da Hileia. Na Boca reúne 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará).

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha.

Ray Cunha, em foto recente,
de Iasmim Cunha
“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de Na Boca do Jacaré-Açu, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.

Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

O escritor quando jovem,
em foto de Márcia do Carmo
Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu.

SEGUE-SE BREVE ENTREVISTA COM RAY CUNHA – Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


*MARCELO LARROYED é mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília e autor, entre outros livros, do romance Eco


SERVIÇO

Na Boca do Jacaré-Açu  A  Amazônia Como Ela É está à venda no site da Ler Editora (www.lereditora.com.br); na Livraria Sebinho, na 406 Norte, Bloco C; na Livraria do Chico, entrada principal da Ala Norte do Minhocão, no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), bem como Trópico Úmido Três Contos Amazônicos

Veja entrevista de Ray Cunha ao programa Tirando de Letra, da UnB TV, sobre Na Boca do Jacaré-Açu