sábado, 28 de junho de 2014

HIENA é lançado pelo Clube de Autores e pela Amazon.com. Saiba como adquiri-lo

BRASÍLIA, 28 DE JUNHO DE 2014HIENA, de RAY CUNHA, é uma história de detetive ambientada numa Brasília atolada na corrupção. Para quem mora no Brasil ou na América do Sul fica mais barato comprá-lo no Clube de Autores (155 páginas, papel couchê 90 gramas, R$ 26,44, e e-book, com 74 páginas, R$ 5,38); e para quem nos Estados Unidos ou na Europa, é mais prático adquiri-lo na Amazon.com.

O país está afundando em corrupção e o erário escorre pelo ralo, em obras bilionárias e superfaturadas, que nunca terminam, ou simplesmente são inúteis. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana, no Tropical Hotel, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.
Além da Brasília real fazer fundo a este romance, desfila nele um magote de personalidades reais, como, por exemplo, os artistas plásticos Olivar Cunha e André Cerino; as cantoras paraenses Carmen Monarcha e Joelma, da Banda Calypso; o escritor amapaense Fernando Canto; o maestro Silvio Barbato; além da famosa personagem de ficção Brigitte Montfort.
Hienas são como bactérias grandes. Bandidos do reino animal. Atarracadas, quartos traseiros caídos, andar manquejante, começam a comer a vítima viva ainda na perseguição, rasgando-lhe o ventre, as vísceras espirrando. O humorista carioca Juca Chaves, Jurandyr Czaczkes, cunhou uma frase que se tornou um mito persistente: “A hiena é um animal que come fezes dos outros animais, só tem relações sexuais uma vez por ano e ri… mas ri de quê?” 
A Crocuta crocuta é predador sem igual. Caçadora formidável, chega a perseguir suas presas à velocidade de até 55 quilômetros por hora, em grupos que chegam a 100 indivíduos. O segredo desse vigor é um coração poderoso. Mas o que as tornam resistentes como baratas é que podem se alimentar de praticamente tudo, desde filhotes de leão, passando por insetos a ovos de avestruz, até carniça já cheia de vermes, e de outras hienas, além de suas próprias fezes. Contudo, caçam também animais de médio e grande portes, como gazelas, impalas, gnus e zebras. Suas mandíbulas são tão potentes que comem, normalmente, os ossos das suas presas, razão pela qual suas fezes são esbranquiçadas. 
O detetive Hiena, Crocuta crocuta, como chama a si mesmo, não é bem o que Jurandyr Czaczkes, o Juca Chaves, disse. Embora discreto, quando ri para valer sua gargalhada é atroadora. Gastrônomo, elegeu a cozinha paraense a melhor do mundo. Vive só, embora tenha namorada. Contudo, têm em comum com a Crocuta crocuta alguns traços, como o sistema imunológico, pois nunca ficou sequer resfriado; pode se alimentar de comida estragada sem se preocupar, já que não se intoxica; conta com dentes de aço; é resistente como as baratas; e capaz de atravessar qualquer circunstância de extrema tensão sem que seu batimento cardíaco se altere. Também guarda um traço físico em comum com a Crocuta crocuta: o tórax largo, sem ser do tipo cangula (sinônimo de pipa na terra das suas duas mães, Belém do Pará), largo em cima e fino em baixo. 
Com um metro e oitenta, lábios carnudos, cabelos de Al Pacino, o que mais chama atenção em Hiena são seus olhos bicolores, que amanheciam com um tom azul claro, permanecendo assim nos dias frios, mas à medida que a temperatura subia, iam ficando como lápis-lazúli e, à noite, independentemente do tempo que estivesse fazendo, eram sempre duas esmeraldas. Adotou o cognome Hiena por uma série de circunstâncias. Afinal, como disse José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância”.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Mulher lindíssima ao celular

Tu és linda como flor em jardim ensolarado
Simétrico, teu rosto é perfeito como a translação da Terra
E tua boca é de rosas vermelhas esmigalhadas;
Apenas uma tatuagem te macula, no ombro
Cicatriz na pele de seda cristalina.
Caminhas com os olhos verdes fixos na tela de um celular
Indicador e polegar céleres ao teclado
E te chocaste num poste no caminho.
Não gritaste, nem choraste; sorriste!
E Brasília, flutuando no gêiser do teu sorriso,
Lembra muralha arranhando o Planalto
 
Brasília, 27 de junho de 2014

sábado, 21 de junho de 2014

Gozos Múltiplos

Ah! Tu és como flor se abrindo ao sol
Nua como preciosas pedras
Leve como asas que sustentam o voo
Do abismo a queda

Conduz-me à cumeeira
Dos sonhos
Ainda que eu não desperte
Como se estivesse morto

Na bacanal de rosas vermelhas
Esvaem-se os sentidos
Embriagados de estrelas

No labirinto do teu púbis
Afogo-me na maresia
E ressuscito em gozos múltiplos

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Capítulo 8 de HIENA, romance de Ray Cunha. O detetive Hiena investiga o assassinato de um senador numa Brasília atolada em corrupção

Hiena a reconheceu no Café Picasso. A superagente da Polícia Federal era um paradoxo. Devia medir pouco mais de 1,65 metro e pesar, talvez, 60 quilos, mas, certa vez, vira-a derrubar um peso pesado facilmente; também ficara impressionado observando-a manejar uma katana. “O que estará fazendo aqui? Investigando a morte do senador? Ou será, ela mesma, a morte?” – pensou. Pairava, em torno de Brigitte Montfort, um halo de leveza; era como se o éter, ao seu redor, se tornasse visível. “É bonita demais para ser o que é, e, no entanto, é uma máquina de triturar, literalmente, e também um Boeing levantando voo. Mas o corpo nada tem a ver com o poderio dessa mulher; sua mente é quem comanda essa usina de hormônios.” Brigitte Montfort sentara-se defronte para a mesa estratégica do detetive, a uma distância que permitia a Hiena ver até seus olhos, grandes e tão azuis que pareciam o mar, numa certa manhã, em Copacabana. A boca era todinha a da atriz Alinne Moraes; os cabelos negros, e um halo estranhamente avermelhado, emolduravam-lhe a cabeça, contrastando com as nuanças rosáceas da boca, da pele e da seda do vestido. Hiena apurou o olfato em direção a ela; sentiu uma profusão de cheiros: grãos arábica, maresia, noites úmidas do choro dos jasmineiros, Chanel 5, rosas banhando-se ao sol, mulher nua. Mais uma evocação do que propriamente um cheiro, como a lembrança de tardes se esvaindo, de navio chegando, de grandes hotéis, de gemidos de Frênia misturando-se com a madrugada. Acordou com o garçom lhe entregando um papel. “Vamos nos encontrar precisamente às 18 horas na Catedral. Extremidade direita do último banco à direita de quem entra. BM.” Olhou para a mesa de Brigitte Montfort; ela se fora enquanto Hiena estivera lendo o bilhete. O relógio marcava 17h30. Dirigiu-se para o estacionamento do hotel e rumou, minutos depois, no seu Gol, para a Esplanada. A Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida é, provavelmente, a escultura mais representativa de Oscar Niemeyer. O arquiteto radicalizou ao mandar às favas o funcional; o que lhe importava era somente a luz da criatividade; deu asas à “curva do concreto”, como observou o cineasta Renato Cunha, graças ao recifense Joaquim Maria Moreira Cardozo, “o poeta que calculava”. A Catedral “de verso e cimento” eleva-se na Esplanada dos Ministérios como uma nave que lembra de pronto a coroa de espinhos de Jesus Cristo.

Hiena passou pelas quatro esculturas em bronze, de três metros de altura, de Dante Croce, e entrou na nave. Através do teto de vidro a noite caía. Os três anjos de Alfredo Ceschiatti flutuavam na claridade, suspensos por cabos de aço, entre os vitrais de Marianne Peretti. Era oficiada uma missa de sétimo dia para alguém que certamente fora importante, a julgar pelas pessoas elegantemente vestidas que marcavam presença no templo. Brigitte Montfort estava sozinha no banco, e Hiena foi ao seu encontro.
           
– Estou sendo seguida – ela murmurou.
            
– Eu também – disse Hiena, sem olhar para ela. – Há uma apresentação de Mozart, às 21 horas, no Teatro Nacional. Tenho dois bilhetes. Podemos sentar-nos juntos e cochichar à vontade.
            
– Ok! – Hiena olhou para o lado. Brigitte Montfort era toda a criatura de David Nasser, que povoou sua adolescência. Seu nome verdadeiro era Giselle Cunha.
            
A quintessência de Oscar Niemeyer, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, é uma pirâmide irregular como um desenho de Pablo Picasso, sem ápice, característica da arquitetura asteca; surge da terra como uma nave, pousando na Via N2, do Setor Cultural Norte, em um “jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, como disse Le Corbusier. As fachadas sul e norte do prédio são a obra-prima do artista plástico Athos Bulcão; a lateral sul tem 1.693 blocos de concreto e a norte, 1.698 – totalizando 3.391 retângulos em sete tamanhos diferentes, compondo um painel medindo 125 metros na base maior por 27 metros de altura. Oscar Niemeyer disse a Athos Bulcão que queria o Teatro Nacional sólido, pesado e leve. Então, Athos Bulcão criou os paralelepípedos. As paredes inclinadas, a festa do sol e a sombra dos paralelepípedos se movendo nos paredões deram ao conjunto a liberdade do voo. O projeto paisagístico de Burle Marx e esculturas de Alfredo Ceschiatti e Marianne Peretti levam o complexo ao esplendor. Defronte à entrada principal do teatro ergue-se um dos mais difundidos cartões postais de Brasília: a fachada noturna do Conjunto Nacional, com outdoors verticais gigantescos, iluminados por spotlights, de modo que, de longe, transformam-se numa miragem urbana. Os dois prédios fazem um triângulo com a Rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília, que recebe e envia para as entranhas da cidade e do seu entorno cerca de 700 mil passageiros por dia. Hiena entrou pelos fundos do teatro, tomou o longo corredor sul e se dirigiu para a entrada principal, onde encontrou Brigitte Montfort; entraram na fila e subiram a rampa que leva à sala Villa-Lobos. Hiena consultou os bilhetes e constatou que suas cadeiras ficavam na extremidade da terceira fila à frente e à esquerda de quem entra. Naquela noite, o maestro Silvio Sergio Bonaccorsi Barbato regeria a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, apresentando, no primeiro ato, o Bolero, de Maurice Ravel, e, no segundo, o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart, com solo da pianista portuguesa Maria João Pires. O espetáculo estava prestes a começar quando entraram.
            
– Acho melhor conversarmos daqui a 14 minutos e 10 segundos – Brigitte Montfort cochichou.
            
– Ok! – aquiesceu Hiena. “Ela é do ramo” – pensou, nocauteado pelo cheiro da agente: “Chanel 5, choro de jasmineiros, maresia, Dom Pérignon, safra de 1954” – aquela alquimia transcendental era um de seus jogos favoritos.

O Bolero, de Maurice Ravel, consiste num único movimento, de 14 minutos e 10 segundos, em ritmo invariável e melodia repetitiva, num crescendo apoteótico. “Silvio Barbato sabe o que faz; imagino o que será o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, aliado ao perfume do acme” – pensou Hiena, que ouvia, de olhos fechados, a espiral do Bolero, o nariz em ângulo de modo a sugar o cheiro da mulher; sorvia-o como se fosse a garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954, que certa vez degustou, bebendo alguns goles – mais cheiro do que líquido –, na taça de Frênia. Quando o Bolero atingiu o paroxismo, Hiena abriu os olhos e enxergou o halo vermelho dos negros cabelos que emolduravam os olhos azuis como o céu de Brasília, de Brigitte Montfort, que voltara-se para o detetive, nem bem terminou o Bolero, e cochichou.

– Estou investigando a morte do senador – disse. – Você já encontrou alguma coisa?

– Desde quando estás hospedada no hotel? – Hiena lhe perguntou.

– Desde 31 de julho – ela respondeu.

– Então começaste a investigar a morte do senador um dia antes do assassinato – disse Hiena.

Ela se mexeu na cadeira.

– Estou atrás de uma agenda do senador, com os nomes de políticos que estariam recebendo propina para aprovarem negociatas da Construtora Estuário – disse, com sua voz de contralto.

– E eu quero saber quem mandou matar o senador – disse Hiena, degustando os olhos da mulher. Ela parecia corresponder a isso. Quantas mulheres, inclusive casadas, ajoelharam-se, súplices, ante os olhos verdes e a virilidade leonina do detetive? Ele era o Hiena, é verdade, mas tinha algumas qualidades leoninas, como a juba e a virilidade. Verdade também que seu código pessoal não lhe permitia aproveitar-se de mulheres fragilizadas, diferentemente das hienas, que começam a devorar filhotes e animais mortalmente feridos ainda vivos; sabia que poder é, também, o domínio sobre si mesmo, e que isso se dá por meio do pensamento, tão convicto que esmague as emoções.

– Podemos nos ajudar mutuamente – ela propôs.

– Sim, podemos – ele disse, sentindo incontrolável jorro de testosterona.

O primeiro movimento do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, número 20, K. 466, allegro, começa como um pulsar: ouve-se o sangue circulando nos tímpanos; longínquo, o som de maresia; o atrito da Terra no espaço; gemidos femininos se esvaindo na madrugada. O segundo movimento, romanze, é uma das melodias mais populares de Mozart, na qual piano e orquestra se tornam um só, como chuva de estrelas acamando-se no azul da alma; caminhada num jardim eterno, em manhã arrumada por Deus. O terceiro movimento, rondó, são flores se abrindo, riso de crianças, o triunfo da luz.

Hiena e Brigitte Monfort ouviram o final do último movimento caminhando rumo à rampa, tomaram o corredor sul e saíram pela portaria lateral leste. Não viram ninguém suspeito no átrio central. “Devem estar vigiando o carro de Brigitte” – Hiena pensou. O Gol do detetive tomou o Eixo Monumental norte, dobrou à esquerda e entrou no Eixo Monumental Sul, rumo à Praça dos Três Poderes, cruzando, minutos depois, a Ponte Juscelino Kubitschek e desembocando no Lago Sul. Alcançaram, em poucos minutos, o motel, onde poderiam conversar tranquilamente.

– Então estás neste caso por conta própria? – Hiena perguntou.

– A Polícia Federal investiga, já de algum tempo, o monopólio e o enriquecimento meteórico de C. Almeida, dono da Construtora Estuário; sabíamos do envolvimento do senador Lucas Saraceni com C. Almeida, e da ligação dos dois com o Partido Socialista, mas eu não contava com o assassinato do senador. Hospedei-me no hotel justamente para encontrar a tal agenda dele, que teria nomes e cifras de propina a parlamentares, para aprovarem financiamento, principalmente pelo BNDES, de megaobras realizadas, ad eternum, pela Estuário, como a Ferrovia Belém-Porto Alegre e a transposição do rio São Francisco, por exemplo, para só ficar em duas obras emblemáticas – disse Brigitte Montfort. Sentara-se numa cadeira e cruzara as pernas.

– Supondo que o matador queria apenas a agenda, e teve que matar o senador porque foi descoberto e o senador o conhecia, o assassino seria do esquema e estaria interessado somente em dinheiro, pois, se fosse um agente da oposição, não teria matado o senador, pelo contrário, teria zelado pela sua vida, já que o senador seria testemunha fundamental para o processo que, provavelmente, se seguiria no Supremo Tribunal Federal. O intrigante é que quem fez aquilo é exímio na arte da katana – Hiena observou.

– Você não está achando que fui eu?!... – exclamou a agente, com seu sotaque carioca.

– Deveria achar? – retrucou o detetive.

– Não! Por que eu mataria o senador? Ele, como você mesmo disse, seria mais precioso vivo. Lembre-se, sou uma agente do Estado, e não do governo, seja ele qual for. Mas vamos ao que interessa: o que você descobriu? – a voz de Brigitte Montfort era rica em tonalidades. Bebericava Chateau Charmeton.
            
– Trabalho para a senhora Eleonora Barata Maiorana Saraceni – respondeu Hiena.
            
– E o que ela quer? Descobrir o mandante da morte do marido ou a agenda? – perguntou a delegada especial.
            
– Dinheiro é do que dona Eleonora menos precisa; acho que ela quer que seja feita justiça. E depois, até onde eu saiba, dona Eleonora não se metia nos negócios do marido, muito menos em política. Contudo, há indícios de que o mandante seja C. Almeida, o que torna o caso mais intrigante. Se tudo ia bem, por que C. Almeida mandaria matar o senador, que era o operador do esquema, o elo mais forte entre a Estuário e o governo? – redarguiu o detetive.
            
– Vimos grampeando o Tropical Hotel há algum tempo. Descobrimos uma rede de prostituição, na qual o elo era também o senador Lucas Saraceni. Parece que nem só de propina vivem suas excelências. A Boite Equatorial é uma espécie de quartel general da prostituição – comentou Brigitte Montfort.
            
– Isso é irrelevante; qual hotel cinco estrelas do Brasil não abriga uma rede de prostituição? – Hiena perguntou.
            
– É verdade, mas vamos que Lucas Saraceni tenha anotado na tal agenda o envolvimento de algum figurão do governo com uma ou mais prostitutas; convenhamos, se isso viesse a público destruiria sua família – replicou Brigitte Montfort, apreciando seu Chateau Charmeton.
       
Hiena notou que ambos não haviam descoberto nada e que ela estava dando voltas. Seus caminhos já haviam se cruzado na comunidade de inteligência, uma ou duas vezes, e haviam cruzado os olhares. De repente Brigitte Montfort se levantou e andou até a frente do detetive, que estava sentado na cama. Tirou o casaco, atirou-o ao lado de Hiena, baixou as alças do vestido de seda com estampas rosas e deixou-o cair. Estava nua.


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domingo, 15 de junho de 2014

SAIBA ONDE COMPRAR HIENA, O NOVO ROMANCE DE RAY CUNHA. LEIA TRECHO

Trata-se de uma história de detetive que se passa numa Brasília mergulhada na corrupção. Nada a ver com o Brasil real. Agora, leia trecho:

Em torno de 21 horas, Hiena deixou o jornal e foi ao Café Doce Café, sentando-se numa confortável cadeira de vime (palhinha, como sua mãe adotiva chamava), e pediu um Illy. Gostava de ir ali, onde podia tomar seu café predileto, e que estocava em casa. Comprava grandes latas de sachê de Illy, vindas de São Paulo, e o preparava numa pequena máquina italiana, com dispositivo de moagem acoplado, pois gostava também de moer grãos gourmet Antonello Monardo. Não demorou muito para Frênia chegar. Ela trabalhava numa agência, a Protoativa Assessoria de Comunicação, no quinto andar do shopping. Hiena a conheceu durante o caso Myrta Vasconcellos. Frênia Souza atendia a conta da perfumaria do Grupo Myrta Vasconcellos. Agora, era coordenadora executiva na agência e vivia às turras com seu patrão, Mário Alves, yuppie, coach e trabalhador compulsivo, com voz de falsete. Além disso, Frênia tinha uma dor de cabeça adicional: atendia, pessoalmente, a multinacional PVC, que não era o problema em si, pois se trata de um dos grupos empresariais com melhor ambiente de trabalho do planeta. A questão era a executiva da área de comunicação da PVC Brasil, sediada em São Paulo: Carminha Aruc, que tratava Frênia como se ela fosse débil mental, o que a deixava meio enlouquecida, principalmente nas conferências telefônicas mensais entre assessores de imprensa de todo o Brasil, quando era obrigada a ouvir o carregado sotaque paulista de Carminha Aruc comandando a reunião ao longo de pelo menos uma hora, ao fim da qual não se resolvia absolutamente nada.

A temperatura caíra para 16 graus.

Frênia submetera-se, naquele dia, a treinamento motivacional, coaching, “escravidão mansa”, como dizia Hiena, lembrando o que dissera William Faulkner à dupla de repórteres da Paris Review: “É uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas diárias, dia após dia, é trabalhar. A gente não pode comer, beber ou fazer amor durante oito horas diárias; só o que se pode fazer, durante oito horas, é trabalhar. Eis aí a razão por que o homem torna a si próprio e a todos os demais tão miseráveis e infelizes”. Porém nada tinha muita importância às 9 da noite no Café Doce Café. Exceto Frênia. Lembrava jambo maduro, com sua alva pele cafuza e longos cabelos de índia descendo-lhe como erva daninha até a garupa de DNA africano. Trajava um lindo casacão preto sobre vestido de seda, branco, estampado de amarelo e vermelho, o que combinava com a gravata de Hiena, e meias também pretas. Caminhava como potra, os quadris maravilhosos movendo-se, graciosos, e os cabelos sacudindo-se. À sua passagem, deixava um rastro de jasmineiros chorando em noites tórridas na sua cidade natal, Macapá, que flutua na margem esquerda do estuário do maior rio do mundo, o Amazonas, seccionado pela Linha Imaginária do Equador, na Amazônia Caribenha. Beijou-o e sentou-se.

– Quais são as novidades, querido? – disse. Perguntava sempre isso. “Quais são as novidades, querido?” A frase, dita com o belo sotaque de Belém do Pará, onde recebera parte da sua educação, soava como uma senha. Ele pediu água tônica para ambos. Estava refrescante, com sabor de certa noite em Caiena, a capital da Guiana Francesa, colônia que os franceses mantêm no norte da América do Sul, vizinha ao estado do Amapá.

– A novidade é sempre tu, jambu – rimou o detetive, referindo-se à erva largamente utilizada na culinária paraense e que para ele decifrava toda a Amazônia. Frênia transmitia-lhe a mesma sensação que sentia ao tomar, às 6 horas de certa tarde, na banca do Colégio Nazaré, em Belém, o melhor tacacá do mundo; a sensação de jambu nas papilas gustativas, evolando-se para o olfato e deste para os labirintos da memória, prenhe de jasmineiros lagrimando; Cerpinha; o céu de julho na Amazônia, tão azul que sangra; maresia; o balanço de uma rede; jambo, doce como seios; leite da mulher amada.

Hiena pegou o Observador de Brasília, abriu-o diretamente na página 7, na coluna Para Ler na Poltrona, do jornalista Eduardo Rocha. Não passava um dia sem a ler.

– Parece que o Eduardo Rocha escreveu a coluna de hoje inspirado em ti – disse. – Ouça! – e se pôs a ler a crônica.

“Negra em vestido de seda

“Degustava um Illy no café da Livraria Leitura do Pátio Brasil quando a vi, e seu perfume se misturou ao sortilégio do espresso, o aroma dos melhores arábicas do mundo. À sua passagem, infinitas possibilidades se iluminaram, de repente, velhos prazeres esquecidos, projetos de viagens adiados, sensações adormecidas, acordaram.

“Entendo que seda é o melhor tecido para sugerir as curvas de uma mulher, para desenhar, na nossa imaginação, seus encantos inacessíveis, para exalar a química do prazer que captamos com as antenas dos sentidos, e ela trajava um vestido de seda amarelo, estampado com rosas colombianas vermelhas.

“Seu andar – andar, não, trote – tinha a cadência das potras nascidas em cavalariça de ouro, trotar de bailarina clássica, o caminhar de mulheres sobre saltos tão altos que as fazem deslizar na ponta dos pés. E o vestido de seda lhe desenhava as formas no seu passeio pelo shopping.

“Tudo foi num instante, mas na dimensão em que a vi pude examiná-la minuciosamente. A primeira impressão que nos causava era sua pele de jambo maduro, sedosa como o tecido do seu vestido. Tinha nariz português, boca de negra e olhos verdes. E dentro do instante intenso, me encontrei na Estação das Docas, em Belém, e em Macapá, onde a Linha Imaginária do Equador faz esquina com o maior rio do mundo, e o rio Amazonas me conduziu ao Caribe de Gabriel García Márquez.

“A negra misteriosa passou rente a mim e me ofertou seu perfume, que identifiquei imediatamente: Chanel 5, o que mais gosto de aspirar na pele feminina. Ela passou tão rente a mim que tive a sensação de que a seda do seu vestido roçou na minha mão, e entrou na livraria. Quis segui-la, mas o compromisso na embaixada de Portugal estava em cima da hora. Dali a pouco estaria bebericando vinho do Porto no Instituto Camões”.

– Lindo! – disse Frênia. – Hoje foi um dia de cão! – murmurou, anotando alguma coisa num caderno Tilibra, tipo Moleskine. Seus olhos eram luminosos como um relicário de joias.

– Jambu, nada pode perturbar a Grande Força Inesgotável; tudo o que temos de fazer é nos alinhar a Ela – disse Hiena.

– Além do call com Carminha Aruc ainda tive que ouvir Mário Alves durante uma hora sobre o relatório mensal para a PVC – Frênia comentou, sem largar as anotações que estava fazendo. – O relatório é mais complicado do que um projeto de engenharia espacial, e é apenas um dos que são apresentados periodicamente à PVC – explicou, fechando o Moleskine e guardando-o na bolsa. Hiena fez sinal ao garçom para que trouxesse mais uma garrafa de água tônica.

Mais tarde, na casa de Frênia, no Bloco H da 711 Sul, ela pôs para ouvirem, no banheiro, sua música predileta: Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor, de Mozart. Música era seu antídoto contra Mário Alves, Carminha Aruc, PVC, e toda a fauna que frequentava a Protoativa Assessoria de Comunicação. Quando Hiena entrou no banheiro, observou, através do plástico da porta do boxe, quase transparente, a silhueta de Frênia preparando a banheira. Entrou e abraçou-a por trás; sentiu seus quadris, fartos e redondos, e, nas mãos, os seios, que lembravam mangas rosas. Ela cheirava ao Trópico Úmido. Voltou-se e o beijou. Hiena sentiu o sabor indescritível de jambu, de desjejum de ostra com Cerpinha, em Salinas, bela praia atlântica da costa paraense; o beijo evocava-lhe maresia, grandes hotéis, sussurros e gemidos na madrugada. Entraram na banheira. A água era tépida e transmitia a sensação, volátil, de sais. Aquilo era só sensações, principalmente a consciência que um tinha do outro. Ela pôs-se a esfregar-lhe com bucha as costas. Hiena entregava-se com prazer àquele tipo de massagem. Agora Frênia fazia fricção no peito de Hiena, beijando-o de vez em quando. Frênia encharcou a esponja e a entregou a ele, para massageá-la. A pela da cafuza era alva, sem mácula, doce como jambo, com a contextura de pétala de rosa. As auréolas dos mamilos eram enormes, as maiores que Hiena jamais vira, entre as mulheres que mergulharam com ele no Nirvana, ao longo, às vezes, de uma noite inteira de intensa criatividade. Ergueram-se e saíram da banheira. Passaram-se levemente a espessa toalha branca de algodão, recém-lavada, e foram para a cama.

Passava pouco da meia-noite quando Hiena chegou a casa, no Cruzeiro Velho. Quase nunca pernoitava fora. Seu porto seguro era ali.

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO DE HIENA, NOVO ROMANCE DE RAY CUNHA

Treze minutos do dia 2 de agosto de 2012, uma quinta-feira. O senador Lucas Marinho Saraceni fazia anotações, cuidadosamente, numa agenda de capa de couro preto, no seu escritório no térreo do Tropical Hotel, quando sentiu que o observavam. Olhou para cima e arregalou seus olhos verdes. Estava petrificado quando arrancaram a agenda das suas mãos. Um relâmpago explodiu no seu pescoço e a cabeça voou, esguichando sangue. O corpo tremeu durante alguns segundos e continuou sentado. O ninja, trajado de smoking, recuou, segurando na mão esquerda a agenda de capa preta na qual o senador acabara de fazer anotações, limpou a katana no terno de linho do corpo degolado, guardou-a na bainha, dentro de uma maleta que depositara no chão e que parecia de instrumento musical, e se foi. Quando os agentes da Polícia Federal chegaram, em torno das 10 horas, seguranças do Senado da República haviam mexido em tudo, sem luvas.

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sábado, 7 de junho de 2014

SENADOR É DEGOLADO COM UMA KATANA NO SETOR HOTELEIRO SUL, EM BRASÍLIA

O país está afundando em corrupção e o erário escorre pelo ralo, em obras bilionárias e superfaturadas, que nunca terminam, ou simplesmente são inúteis. Nada a ver com o Brasil atual. Trata-se de ficção. Uma história de detetive. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana, no Tropical Hotel, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.

HIENA é minha segunda experiência do que chamo de romance ensaístico. O primeiro, A CONFRARIA CABANAGEM, thriller político-policial ambientado em Belém do Pará, deverá ser lançado ainda este ano pela Amazon.com, ou pelo Clube de Autores. No caso de HIENA, trata-se de romance ensaístico porque contém uma Brasília viva, que se move subjacente à trama policial.

Também neste romance desfila um magote de personalidades reais, como, por exemplo, dois grandes artistas plásticos: Olivar Cunha e André Cerino; as cantoras paraenses Carmen Monarcha, que se apresenta com André Rieu, e Joelma, da Banda Calypso; o escritor amapaense Fernando Canto; o maestro Silvio Barbato; e até a famosa personagem de ficção Brigitte Montfort.

HIENA está disponível no Clube de Autores, tanto no formado impresso quanto eletrônico. Adquira-o neste endereço: 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

LEIA TRECHO DE HIENA, O NOVO ROMANCE DE RAY CUNHA, À VENDA NO SITE DO CLUBE DE AUTORES



A quintessência de Oscar Niemeyer, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, é uma pirâmide irregular como um desenho de Pablo Picasso, sem ápice, característica da arquitetura asteca; surge da terra como uma nave – em um “jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, como disse Le Corbusier –, pousando na Via N2, do Setor Cultural Norte. As fachadas sul e norte do prédio são a obra-prima do artista plástico Athos Bulcão; a lateral sul tem 1.693 blocos de concreto e a norte, 1.698 – totalizando 3.391 retângulos em sete tamanhos diferentes, compondo um painel medindo 125 metros na base maior por 27 metros de altura. Oscar Niemeyer disse a Athos Bulcão que queria o Teatro Nacional sólido, pesado e leve. Então, Athos Bulcão criou os paralelepípedos. As paredes inclinadas, a festa do sol e a sombra dos paralelepípedos se movendo nos paredões deram ao conjunto a liberdade do voo. O projeto paisagístico de Burle Marx e esculturas de Alfredo Ceschiatti e Marianne Peretti levam o complexo ao esplendor. Defronte à entrada principal do teatro ergue-se um dos mais difundidos cartões postais de Brasília: a fachada noturna do Conjunto Nacional, com outdoors verticais gigantescos, iluminados por spotlights, de modo que, de longe, transformam-se numa miragem urbana. Os dois prédios fazem um triângulo com a Rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília, que recebe e envia para as entranhas da cidade e do seu entorno cerca de 700 mil passageiros por dia. Hiena entrou pelos fundos do teatro, tomou o longo corredor sul e se dirigiu para a entrada principal, onde encontrou Brigitte Montfort; entraram na fila e subiram a rampa que leva à sala Villa-Lobos. Hiena consultou os bilhetes e constatou que suas cadeiras ficavam na extremidade da terceira fila à frente e à esquerda de quem entra. Naquela noite, o maestro Silvio Sergio Bonaccorsi Barbato regeria a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, apresentando, no primeiro ato, o Bolero, de Maurice Ravel, e, no segundo, o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart, com solo da pianista portuguesa Maria João Pires. O espetáculo estava prestes a começar quando entraram.

– Acho melhor conversarmos daqui a 14 minutos e 10 segundos – Brigitte Montfort cochichou.

– Ok! – aquiesceu Hiena. “Ela é do ramo” – pensou, nocauteado pelo cheiro da agente: “Chanel Número 5, choro de jasmineiros, maresia, Dom Pérignon, safra de 1954” – aquela alquimia transcendental era um de seus jogos favoritos.

O Bolero, de Maurice Ravel, consiste num único movimento, de 14 minutos e 10 segundos, em ritmo invariável e melodia repetitiva, num crescendo apoteótico. “Silvio Barbato sabe o que faz; imagino o que será o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, aliado ao perfume do acme” – pensou Hiena, que ouvia, de olhos fechados, a espiral do Bolero, o nariz em ângulo de modo a sugar o cheiro da mulher; sorvia-o como se fosse a garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954, que certa vez degustou, bebendo alguns goles – mais cheiro do que líquido –, na taça de Frênia. Quando o Bolero atingiu o paroxismo, Hiena abriu os olhos e enxergou o halo vermelho dos negros cabelos que emolduravam os olhos azuis como o céu de Brasília, de Brigitte Montfort, que voltara-se para o detetive, nem bem terminou o Bolero, e cochichou.

– Estou investigando a morte do senador – disse. – Você já encontrou alguma coisa?

– Desde quando estás hospedada no hotel? – Hiena lhe perguntou.

– Desde 31 de julho – ela respondeu.

– Então começaste a investigar a morte do senador um dia antes do assassinato – disse Hiena.

Ela se mexeu na cadeira.

– Estou atrás de uma agenda do senador, com os nomes de políticos que estariam recebendo propina para aprovarem negociatas da Construtora Estuário – disse, com sua voz de contralto.

– E eu quero saber quem mandou matar o senador – disse Hiena, degustando os olhos da mulher. Ela parecia corresponder a isso. Quantas mulheres, inclusive casadas, ajoelharam-se, súplices, ante os olhos verdes e a virilidade leonina do detetive? Ele era o Hiena, é verdade, mas tinha algumas qualidades leoninas, como a juba e a virilidade. Verdade também que seu código pessoal não lhe permitia aproveitar-se de mulheres fragilizadas (as hienas começam a devorar filhotes e animais mortalmente feridos ainda vivos); sabia que poder é, também, o domínio sobre si mesmo, e que isso se dá por meio do pensamento, tão convicto que esmague as emoções.

– Podemos nos ajudar mutuamente – ela propôs.

– Sim, podemos – ele disse, sentindo incontrolável jorro de testosterona.

O primeiro movimento do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, número 20, K. 466, allegro, começa como um pulsar: ouve-se o sangue circulando nos tímpanos; longínquo, o som de maresia; o atrito da Terra no espaço; gemidos femininos se esvaindo na madrugada. O segundo movimento, romanze, é uma das melodias mais populares de Mozart, na qual piano e orquestra se tornam um só, como chuva de estrelas acamando-se no azul da alma; caminhada num jardim eterno, em manhã arrumada por Deus. O terceiro movimento, rondó, são flores se abrindo, riso de crianças, o triunfo da luz.

Hiena e Brigitte Monfort ouviram o final do último movimento caminhando rumo à rampa, tomaram o corredor sul e saíram pela portaria lateral leste. Não viram ninguém suspeito no átrio central. “Devem estar vigiando o carro de Brigitte” – Hiena pensou. O Gol do detetive tomou o Eixo Monumental norte, dobrou à esquerda e entrou no Eixo Monumental Sul, rumo à Praça dos Três Poderes, tomando, minutos depois, a Ponte Juscelino Kubitschek e desembocando no Lago Sul. Alcançaram, em poucos minutos, o motel, onde poderiam conversar tranquilamente.

– Então estás neste caso por conta própria? – Hiena perguntou.

– A Polícia Federal investiga, já de algum tempo, o monopólio e o enriquecimento meteórico de C. Almeida, dono da Construtora Estuário; sabíamos do envolvimento do senador Lucas Saraceni com C. Almeida, e da ligação dos dois com o Partido Socialista, mas eu não contava com o assassinato do senador. Hospedei-me no hotel justamente para encontrar a tal agenda dele, que teria nomes e cifras de propina a parlamentares, para aprovarem financiamento, principalmente pelo BNDES, de megaobras realizadas, ad eternum, pela Estuário, como a Ferrovia Belém-Porto Alegre e a transposição do rio Amazonas, por exemplo, para só ficar em duas obras emblemáticas – disse Brigitte Montfort. Sentara-se numa cadeira e cruzara as pernas.

– Supondo que o matador queria apenas a agenda, e teve que matar o senador porque foi descoberto e o senador o conhecia, o assassino seria do esquema e estaria interessado somente em dinheiro, pois, se fosse um agente da oposição, não teria matado o senador, pelo contrário, teria zelado pela sua vida, já que o senador seria testemunha fundamental para o processo que, provavelmente, se seguiria no Supremo Tribunal Federal. O intrigante é que quem fez aquilo é exímio na arte da katana – Hiena observou.

– Você não está achando que fui eu?!... – exclamou a agente, com seu sotaque carioca.

– Deveria achar? – retrucou o detetive.

– Não! Por que eu mataria o senador? Ele, como você mesmo disse, seria mais precioso vivo. Lembre-se, sou uma agente do Estado, e não do governo, seja ele qual for. Mas vamos ao que interessa: o que você descobriu? – a voz de Brigitte Montfort era rica em tonalidades. Bebericava Chateau Charmeton.

– Trabalho para a senhora Eleonora Barata Maiorana Saraceni – respondeu Hiena.


– E o que ela quer? Descobrir o mandante da morte do marido ou a agenda? – perguntou a delegada especial.

– Dinheiro é do que dona Eleonora menos precisa; acho que ela quer que seja feita justiça. E depois, até onde eu saiba, dona Eleonora não se metia nos negócios do marido, muito menos em política. Contudo, há indícios de que o mandante seja C. Almeida, o que torna o caso mais intrigante. Se tudo ia bem, por que C. Almeida mandaria matar o senador, que era o operador do esquema, o elo mais forte entre a Estuário e o governo? – redarguiu o detetive.

– Vimos grampeando o Tropical Hotel há algum tempo. Descobrimos uma rede de prostituição, na qual o elo era também o senador Lucas Saraceni. Parece que nem só de propina vivem suas excelências. A Boite Equatorial é uma espécie de quartel general da prostituição – comentou Brigitte Montfort.

– Isso é irrelevante; qual hotel cinco estrelas do Brasil que não abriga uma rede de prostituição? – Hiena perguntou.

– É verdade, mas vamos que Lucas Saraceni tenha anotado na tal agenda o envolvimento de algum figurão do governo com uma ou mais prostitutas; convenhamos, se isso viesse a público destruiria sua família – replicou Brigitte Montfort, apreciando seu Chateau Charmeton.

Hiena notou que ambos não haviam descoberto nada e que ela estava dando voltas. Seus caminhos já haviam se cruzado na comunidade de inteligência, uma ou duas vezes, e haviam cruzado os olhares. De repente Brigitte Montfort se levantou e andou até a frente do detetive, que estava sentado na cama. Tirou o casaco, atirou-o ao lado de Hiena, baixou as alças do vestido de seda com estampas rosas e deixou-o cair. Estava nua.


HIENA pode ser adquirido pelo site do Clube de Autores

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ROSAS PARA A MADRUGADA

Por que escreves? – pergunta-me o jornalista
– Para viver – respondo
Pois só com as palavras desnudo a luz
E voo até o fim do mundo
Por isso, escrevo granadas intensas como buracos negros
E garimpo o verbo como o primeiro beijo
Escrevo porque escrever traz aos meus sentidos
Cheiro de maresia
Dom Pérignon, safra de 1954
O labirinto do púbis no abismo do acme
Mulher nua como rosa vermelha desabrochando

Brasília, 5 de junho de 2014

domingo, 1 de junho de 2014

HIENA, NOVO ROMANCE DE RAY CUNHA, É PUBLICADO PELO CLUBE DE AUTORES

Ray Cunha, no ateliê do artista plástico André Cerino,
em Brasília, em dezembro de 2013











MARCELO LARROYED*



BRASÍLIA, 1 DE JUNHO DE 2014
Hiena, novo romance de Ray Cunha, escritor amazônida radicado em Brasília, foi disponibilizado, a partir de hoje, no site do Clube de Autores, em versões para impressão (155 páginas, papel couchê 90 gramas, R$ 26,44) e e-book (74 páginas, R$ 5,38). Trata-se de uma história de detetive. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana, no Tropical Hotel, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.

Hienas são como bactérias grandes. Bandidos do reino animal. Atarracadas, quartos traseiros caídos, andar manquejante, começam a comer a vítima viva ainda na perseguição, rasgando-lhe o ventre, as vísceras espirrando. O humorista carioca Juca Chaves, Jurandyr Czaczkes, cunhou uma frase que se tornou um mito persistente: “A hiena é um animal que come fezes dos outros animais, só tem relações sexuais uma vez por ano e ri… mas ri de quê?”

A Crocuta crocuta é predador sem igual. Caçadora formidável, chega a perseguir suas presas à velocidade de até 55 quilômetros por hora, em grupos que chegam a 100 indivíduos. O segredo desse vigor é um coração poderoso. Mas o que as tornam resistentes como baratas é que podem se alimentar de praticamente tudo, desde filhotes de leão, passando por insetos a ovos de avestruz, até carniça já cheia de vermes, e de outras hienas, além de suas próprias fezes. Contudo, caçam também animais de médio e grande portes, como gazelas, impalas, gnus e zebras. Suas mandíbulas são tão potentes que comem, normalmente, os ossos das suas presas, razão pela qual suas fezes são esbranquiçadas.

O detetive Hiena, Crocuta crocuta, como chama a si mesmo, não é bem o que Jurandyr Czaczkes, o Juca Chaves, disse. Embora discreto, quando ri para valer sua gargalhada é atroadora. Gastrônomo, elegeu a cozinha paraense a melhor do mundo. Vive só, embora tenha namorada. Contudo, têm em comum com a Crocuta crocuta alguns traços, como o sistema imunológico, pois nunca ficou sequer resfriado; pode se alimentar de comida estragada sem se preocupar, já que não se intoxica; conta com dentes de aço; é resistente como as baratas; e capaz de atravessar qualquer circunstância de extrema tensão sem que seu batimento cardíaco se altere. Também guarda um traço físico em comum com a Crocuta crocuta: o tórax largo, sem ser do tipo cangula (sinônimo de pipa na terra das suas duas mães, Belém do Pará), largo em cima e fino em baixo.

Com um metro e oitenta, lábios carnudos, cabelos de Al Pacino, o que mais chama atenção em Hiena são seus olhos bicolores, que amanheciam com um tom azul claro, permanecendo assim nos dias frios, mas à medida que a temperatura subia, iam ficando como lápis-lazúli e, à noite, independentemente do tempo que estivesse fazendo, eram sempre duas esmeraldas. Adotou o cognome Hiena por uma série de circunstâncias. Afinal, como disse José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância”.

RAY CUNHA – Nascido em Macapá, cidade que se debruça na margem esquerda do estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na esquina da Linha Imaginária do Equador, Amazônia Caribenha, Ray Cunha é autor de A Casa Amarela; Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos; A Caça; A Grande Farra; e Sob o Céu Nas Nuvens. Vive em Brasília-DF, com sua esposa e filha.

Blog pessoal: raycunha.blogspot.com



*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em teoria da literatura pela UnB