quinta-feira, 19 de junho de 2014

Capítulo 8 de HIENA, romance de Ray Cunha. O detetive Hiena investiga o assassinato de um senador numa Brasília atolada em corrupção

Hiena a reconheceu no Café Picasso. A superagente da Polícia Federal era um paradoxo. Devia medir pouco mais de 1,65 metro e pesar, talvez, 60 quilos, mas, certa vez, vira-a derrubar um peso pesado facilmente; também ficara impressionado observando-a manejar uma katana. “O que estará fazendo aqui? Investigando a morte do senador? Ou será, ela mesma, a morte?” – pensou. Pairava, em torno de Brigitte Montfort, um halo de leveza; era como se o éter, ao seu redor, se tornasse visível. “É bonita demais para ser o que é, e, no entanto, é uma máquina de triturar, literalmente, e também um Boeing levantando voo. Mas o corpo nada tem a ver com o poderio dessa mulher; sua mente é quem comanda essa usina de hormônios.” Brigitte Montfort sentara-se defronte para a mesa estratégica do detetive, a uma distância que permitia a Hiena ver até seus olhos, grandes e tão azuis que pareciam o mar, numa certa manhã, em Copacabana. A boca era todinha a da atriz Alinne Moraes; os cabelos negros, e um halo estranhamente avermelhado, emolduravam-lhe a cabeça, contrastando com as nuanças rosáceas da boca, da pele e da seda do vestido. Hiena apurou o olfato em direção a ela; sentiu uma profusão de cheiros: grãos arábica, maresia, noites úmidas do choro dos jasmineiros, Chanel 5, rosas banhando-se ao sol, mulher nua. Mais uma evocação do que propriamente um cheiro, como a lembrança de tardes se esvaindo, de navio chegando, de grandes hotéis, de gemidos de Frênia misturando-se com a madrugada. Acordou com o garçom lhe entregando um papel. “Vamos nos encontrar precisamente às 18 horas na Catedral. Extremidade direita do último banco à direita de quem entra. BM.” Olhou para a mesa de Brigitte Montfort; ela se fora enquanto Hiena estivera lendo o bilhete. O relógio marcava 17h30. Dirigiu-se para o estacionamento do hotel e rumou, minutos depois, no seu Gol, para a Esplanada. A Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida é, provavelmente, a escultura mais representativa de Oscar Niemeyer. O arquiteto radicalizou ao mandar às favas o funcional; o que lhe importava era somente a luz da criatividade; deu asas à “curva do concreto”, como observou o cineasta Renato Cunha, graças ao recifense Joaquim Maria Moreira Cardozo, “o poeta que calculava”. A Catedral “de verso e cimento” eleva-se na Esplanada dos Ministérios como uma nave que lembra de pronto a coroa de espinhos de Jesus Cristo.

Hiena passou pelas quatro esculturas em bronze, de três metros de altura, de Dante Croce, e entrou na nave. Através do teto de vidro a noite caía. Os três anjos de Alfredo Ceschiatti flutuavam na claridade, suspensos por cabos de aço, entre os vitrais de Marianne Peretti. Era oficiada uma missa de sétimo dia para alguém que certamente fora importante, a julgar pelas pessoas elegantemente vestidas que marcavam presença no templo. Brigitte Montfort estava sozinha no banco, e Hiena foi ao seu encontro.
           
– Estou sendo seguida – ela murmurou.
            
– Eu também – disse Hiena, sem olhar para ela. – Há uma apresentação de Mozart, às 21 horas, no Teatro Nacional. Tenho dois bilhetes. Podemos sentar-nos juntos e cochichar à vontade.
            
– Ok! – Hiena olhou para o lado. Brigitte Montfort era toda a criatura de David Nasser, que povoou sua adolescência. Seu nome verdadeiro era Giselle Cunha.
            
A quintessência de Oscar Niemeyer, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, é uma pirâmide irregular como um desenho de Pablo Picasso, sem ápice, característica da arquitetura asteca; surge da terra como uma nave, pousando na Via N2, do Setor Cultural Norte, em um “jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, como disse Le Corbusier. As fachadas sul e norte do prédio são a obra-prima do artista plástico Athos Bulcão; a lateral sul tem 1.693 blocos de concreto e a norte, 1.698 – totalizando 3.391 retângulos em sete tamanhos diferentes, compondo um painel medindo 125 metros na base maior por 27 metros de altura. Oscar Niemeyer disse a Athos Bulcão que queria o Teatro Nacional sólido, pesado e leve. Então, Athos Bulcão criou os paralelepípedos. As paredes inclinadas, a festa do sol e a sombra dos paralelepípedos se movendo nos paredões deram ao conjunto a liberdade do voo. O projeto paisagístico de Burle Marx e esculturas de Alfredo Ceschiatti e Marianne Peretti levam o complexo ao esplendor. Defronte à entrada principal do teatro ergue-se um dos mais difundidos cartões postais de Brasília: a fachada noturna do Conjunto Nacional, com outdoors verticais gigantescos, iluminados por spotlights, de modo que, de longe, transformam-se numa miragem urbana. Os dois prédios fazem um triângulo com a Rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília, que recebe e envia para as entranhas da cidade e do seu entorno cerca de 700 mil passageiros por dia. Hiena entrou pelos fundos do teatro, tomou o longo corredor sul e se dirigiu para a entrada principal, onde encontrou Brigitte Montfort; entraram na fila e subiram a rampa que leva à sala Villa-Lobos. Hiena consultou os bilhetes e constatou que suas cadeiras ficavam na extremidade da terceira fila à frente e à esquerda de quem entra. Naquela noite, o maestro Silvio Sergio Bonaccorsi Barbato regeria a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, apresentando, no primeiro ato, o Bolero, de Maurice Ravel, e, no segundo, o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart, com solo da pianista portuguesa Maria João Pires. O espetáculo estava prestes a começar quando entraram.
            
– Acho melhor conversarmos daqui a 14 minutos e 10 segundos – Brigitte Montfort cochichou.
            
– Ok! – aquiesceu Hiena. “Ela é do ramo” – pensou, nocauteado pelo cheiro da agente: “Chanel 5, choro de jasmineiros, maresia, Dom Pérignon, safra de 1954” – aquela alquimia transcendental era um de seus jogos favoritos.

O Bolero, de Maurice Ravel, consiste num único movimento, de 14 minutos e 10 segundos, em ritmo invariável e melodia repetitiva, num crescendo apoteótico. “Silvio Barbato sabe o que faz; imagino o que será o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, aliado ao perfume do acme” – pensou Hiena, que ouvia, de olhos fechados, a espiral do Bolero, o nariz em ângulo de modo a sugar o cheiro da mulher; sorvia-o como se fosse a garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954, que certa vez degustou, bebendo alguns goles – mais cheiro do que líquido –, na taça de Frênia. Quando o Bolero atingiu o paroxismo, Hiena abriu os olhos e enxergou o halo vermelho dos negros cabelos que emolduravam os olhos azuis como o céu de Brasília, de Brigitte Montfort, que voltara-se para o detetive, nem bem terminou o Bolero, e cochichou.

– Estou investigando a morte do senador – disse. – Você já encontrou alguma coisa?

– Desde quando estás hospedada no hotel? – Hiena lhe perguntou.

– Desde 31 de julho – ela respondeu.

– Então começaste a investigar a morte do senador um dia antes do assassinato – disse Hiena.

Ela se mexeu na cadeira.

– Estou atrás de uma agenda do senador, com os nomes de políticos que estariam recebendo propina para aprovarem negociatas da Construtora Estuário – disse, com sua voz de contralto.

– E eu quero saber quem mandou matar o senador – disse Hiena, degustando os olhos da mulher. Ela parecia corresponder a isso. Quantas mulheres, inclusive casadas, ajoelharam-se, súplices, ante os olhos verdes e a virilidade leonina do detetive? Ele era o Hiena, é verdade, mas tinha algumas qualidades leoninas, como a juba e a virilidade. Verdade também que seu código pessoal não lhe permitia aproveitar-se de mulheres fragilizadas, diferentemente das hienas, que começam a devorar filhotes e animais mortalmente feridos ainda vivos; sabia que poder é, também, o domínio sobre si mesmo, e que isso se dá por meio do pensamento, tão convicto que esmague as emoções.

– Podemos nos ajudar mutuamente – ela propôs.

– Sim, podemos – ele disse, sentindo incontrolável jorro de testosterona.

O primeiro movimento do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, número 20, K. 466, allegro, começa como um pulsar: ouve-se o sangue circulando nos tímpanos; longínquo, o som de maresia; o atrito da Terra no espaço; gemidos femininos se esvaindo na madrugada. O segundo movimento, romanze, é uma das melodias mais populares de Mozart, na qual piano e orquestra se tornam um só, como chuva de estrelas acamando-se no azul da alma; caminhada num jardim eterno, em manhã arrumada por Deus. O terceiro movimento, rondó, são flores se abrindo, riso de crianças, o triunfo da luz.

Hiena e Brigitte Monfort ouviram o final do último movimento caminhando rumo à rampa, tomaram o corredor sul e saíram pela portaria lateral leste. Não viram ninguém suspeito no átrio central. “Devem estar vigiando o carro de Brigitte” – Hiena pensou. O Gol do detetive tomou o Eixo Monumental norte, dobrou à esquerda e entrou no Eixo Monumental Sul, rumo à Praça dos Três Poderes, cruzando, minutos depois, a Ponte Juscelino Kubitschek e desembocando no Lago Sul. Alcançaram, em poucos minutos, o motel, onde poderiam conversar tranquilamente.

– Então estás neste caso por conta própria? – Hiena perguntou.

– A Polícia Federal investiga, já de algum tempo, o monopólio e o enriquecimento meteórico de C. Almeida, dono da Construtora Estuário; sabíamos do envolvimento do senador Lucas Saraceni com C. Almeida, e da ligação dos dois com o Partido Socialista, mas eu não contava com o assassinato do senador. Hospedei-me no hotel justamente para encontrar a tal agenda dele, que teria nomes e cifras de propina a parlamentares, para aprovarem financiamento, principalmente pelo BNDES, de megaobras realizadas, ad eternum, pela Estuário, como a Ferrovia Belém-Porto Alegre e a transposição do rio São Francisco, por exemplo, para só ficar em duas obras emblemáticas – disse Brigitte Montfort. Sentara-se numa cadeira e cruzara as pernas.

– Supondo que o matador queria apenas a agenda, e teve que matar o senador porque foi descoberto e o senador o conhecia, o assassino seria do esquema e estaria interessado somente em dinheiro, pois, se fosse um agente da oposição, não teria matado o senador, pelo contrário, teria zelado pela sua vida, já que o senador seria testemunha fundamental para o processo que, provavelmente, se seguiria no Supremo Tribunal Federal. O intrigante é que quem fez aquilo é exímio na arte da katana – Hiena observou.

– Você não está achando que fui eu?!... – exclamou a agente, com seu sotaque carioca.

– Deveria achar? – retrucou o detetive.

– Não! Por que eu mataria o senador? Ele, como você mesmo disse, seria mais precioso vivo. Lembre-se, sou uma agente do Estado, e não do governo, seja ele qual for. Mas vamos ao que interessa: o que você descobriu? – a voz de Brigitte Montfort era rica em tonalidades. Bebericava Chateau Charmeton.
            
– Trabalho para a senhora Eleonora Barata Maiorana Saraceni – respondeu Hiena.
            
– E o que ela quer? Descobrir o mandante da morte do marido ou a agenda? – perguntou a delegada especial.
            
– Dinheiro é do que dona Eleonora menos precisa; acho que ela quer que seja feita justiça. E depois, até onde eu saiba, dona Eleonora não se metia nos negócios do marido, muito menos em política. Contudo, há indícios de que o mandante seja C. Almeida, o que torna o caso mais intrigante. Se tudo ia bem, por que C. Almeida mandaria matar o senador, que era o operador do esquema, o elo mais forte entre a Estuário e o governo? – redarguiu o detetive.
            
– Vimos grampeando o Tropical Hotel há algum tempo. Descobrimos uma rede de prostituição, na qual o elo era também o senador Lucas Saraceni. Parece que nem só de propina vivem suas excelências. A Boite Equatorial é uma espécie de quartel general da prostituição – comentou Brigitte Montfort.
            
– Isso é irrelevante; qual hotel cinco estrelas do Brasil não abriga uma rede de prostituição? – Hiena perguntou.
            
– É verdade, mas vamos que Lucas Saraceni tenha anotado na tal agenda o envolvimento de algum figurão do governo com uma ou mais prostitutas; convenhamos, se isso viesse a público destruiria sua família – replicou Brigitte Montfort, apreciando seu Chateau Charmeton.
       
Hiena notou que ambos não haviam descoberto nada e que ela estava dando voltas. Seus caminhos já haviam se cruzado na comunidade de inteligência, uma ou duas vezes, e haviam cruzado os olhares. De repente Brigitte Montfort se levantou e andou até a frente do detetive, que estava sentado na cama. Tirou o casaco, atirou-o ao lado de Hiena, baixou as alças do vestido de seda com estampas rosas e deixou-o cair. Estava nua.


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