sexta-feira, 6 de junho de 2014

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A quintessência de Oscar Niemeyer, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, é uma pirâmide irregular como um desenho de Pablo Picasso, sem ápice, característica da arquitetura asteca; surge da terra como uma nave – em um “jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, como disse Le Corbusier –, pousando na Via N2, do Setor Cultural Norte. As fachadas sul e norte do prédio são a obra-prima do artista plástico Athos Bulcão; a lateral sul tem 1.693 blocos de concreto e a norte, 1.698 – totalizando 3.391 retângulos em sete tamanhos diferentes, compondo um painel medindo 125 metros na base maior por 27 metros de altura. Oscar Niemeyer disse a Athos Bulcão que queria o Teatro Nacional sólido, pesado e leve. Então, Athos Bulcão criou os paralelepípedos. As paredes inclinadas, a festa do sol e a sombra dos paralelepípedos se movendo nos paredões deram ao conjunto a liberdade do voo. O projeto paisagístico de Burle Marx e esculturas de Alfredo Ceschiatti e Marianne Peretti levam o complexo ao esplendor. Defronte à entrada principal do teatro ergue-se um dos mais difundidos cartões postais de Brasília: a fachada noturna do Conjunto Nacional, com outdoors verticais gigantescos, iluminados por spotlights, de modo que, de longe, transformam-se numa miragem urbana. Os dois prédios fazem um triângulo com a Rodoviária do Plano Piloto, o coração de Brasília, que recebe e envia para as entranhas da cidade e do seu entorno cerca de 700 mil passageiros por dia. Hiena entrou pelos fundos do teatro, tomou o longo corredor sul e se dirigiu para a entrada principal, onde encontrou Brigitte Montfort; entraram na fila e subiram a rampa que leva à sala Villa-Lobos. Hiena consultou os bilhetes e constatou que suas cadeiras ficavam na extremidade da terceira fila à frente e à esquerda de quem entra. Naquela noite, o maestro Silvio Sergio Bonaccorsi Barbato regeria a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, apresentando, no primeiro ato, o Bolero, de Maurice Ravel, e, no segundo, o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart, com solo da pianista portuguesa Maria João Pires. O espetáculo estava prestes a começar quando entraram.

– Acho melhor conversarmos daqui a 14 minutos e 10 segundos – Brigitte Montfort cochichou.

– Ok! – aquiesceu Hiena. “Ela é do ramo” – pensou, nocauteado pelo cheiro da agente: “Chanel Número 5, choro de jasmineiros, maresia, Dom Pérignon, safra de 1954” – aquela alquimia transcendental era um de seus jogos favoritos.

O Bolero, de Maurice Ravel, consiste num único movimento, de 14 minutos e 10 segundos, em ritmo invariável e melodia repetitiva, num crescendo apoteótico. “Silvio Barbato sabe o que faz; imagino o que será o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, aliado ao perfume do acme” – pensou Hiena, que ouvia, de olhos fechados, a espiral do Bolero, o nariz em ângulo de modo a sugar o cheiro da mulher; sorvia-o como se fosse a garrafa de Dom Pérignon, safra de 1954, que certa vez degustou, bebendo alguns goles – mais cheiro do que líquido –, na taça de Frênia. Quando o Bolero atingiu o paroxismo, Hiena abriu os olhos e enxergou o halo vermelho dos negros cabelos que emolduravam os olhos azuis como o céu de Brasília, de Brigitte Montfort, que voltara-se para o detetive, nem bem terminou o Bolero, e cochichou.

– Estou investigando a morte do senador – disse. – Você já encontrou alguma coisa?

– Desde quando estás hospedada no hotel? – Hiena lhe perguntou.

– Desde 31 de julho – ela respondeu.

– Então começaste a investigar a morte do senador um dia antes do assassinato – disse Hiena.

Ela se mexeu na cadeira.

– Estou atrás de uma agenda do senador, com os nomes de políticos que estariam recebendo propina para aprovarem negociatas da Construtora Estuário – disse, com sua voz de contralto.

– E eu quero saber quem mandou matar o senador – disse Hiena, degustando os olhos da mulher. Ela parecia corresponder a isso. Quantas mulheres, inclusive casadas, ajoelharam-se, súplices, ante os olhos verdes e a virilidade leonina do detetive? Ele era o Hiena, é verdade, mas tinha algumas qualidades leoninas, como a juba e a virilidade. Verdade também que seu código pessoal não lhe permitia aproveitar-se de mulheres fragilizadas (as hienas começam a devorar filhotes e animais mortalmente feridos ainda vivos); sabia que poder é, também, o domínio sobre si mesmo, e que isso se dá por meio do pensamento, tão convicto que esmague as emoções.

– Podemos nos ajudar mutuamente – ela propôs.

– Sim, podemos – ele disse, sentindo incontrolável jorro de testosterona.

O primeiro movimento do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor, número 20, K. 466, allegro, começa como um pulsar: ouve-se o sangue circulando nos tímpanos; longínquo, o som de maresia; o atrito da Terra no espaço; gemidos femininos se esvaindo na madrugada. O segundo movimento, romanze, é uma das melodias mais populares de Mozart, na qual piano e orquestra se tornam um só, como chuva de estrelas acamando-se no azul da alma; caminhada num jardim eterno, em manhã arrumada por Deus. O terceiro movimento, rondó, são flores se abrindo, riso de crianças, o triunfo da luz.

Hiena e Brigitte Monfort ouviram o final do último movimento caminhando rumo à rampa, tomaram o corredor sul e saíram pela portaria lateral leste. Não viram ninguém suspeito no átrio central. “Devem estar vigiando o carro de Brigitte” – Hiena pensou. O Gol do detetive tomou o Eixo Monumental norte, dobrou à esquerda e entrou no Eixo Monumental Sul, rumo à Praça dos Três Poderes, tomando, minutos depois, a Ponte Juscelino Kubitschek e desembocando no Lago Sul. Alcançaram, em poucos minutos, o motel, onde poderiam conversar tranquilamente.

– Então estás neste caso por conta própria? – Hiena perguntou.

– A Polícia Federal investiga, já de algum tempo, o monopólio e o enriquecimento meteórico de C. Almeida, dono da Construtora Estuário; sabíamos do envolvimento do senador Lucas Saraceni com C. Almeida, e da ligação dos dois com o Partido Socialista, mas eu não contava com o assassinato do senador. Hospedei-me no hotel justamente para encontrar a tal agenda dele, que teria nomes e cifras de propina a parlamentares, para aprovarem financiamento, principalmente pelo BNDES, de megaobras realizadas, ad eternum, pela Estuário, como a Ferrovia Belém-Porto Alegre e a transposição do rio Amazonas, por exemplo, para só ficar em duas obras emblemáticas – disse Brigitte Montfort. Sentara-se numa cadeira e cruzara as pernas.

– Supondo que o matador queria apenas a agenda, e teve que matar o senador porque foi descoberto e o senador o conhecia, o assassino seria do esquema e estaria interessado somente em dinheiro, pois, se fosse um agente da oposição, não teria matado o senador, pelo contrário, teria zelado pela sua vida, já que o senador seria testemunha fundamental para o processo que, provavelmente, se seguiria no Supremo Tribunal Federal. O intrigante é que quem fez aquilo é exímio na arte da katana – Hiena observou.

– Você não está achando que fui eu?!... – exclamou a agente, com seu sotaque carioca.

– Deveria achar? – retrucou o detetive.

– Não! Por que eu mataria o senador? Ele, como você mesmo disse, seria mais precioso vivo. Lembre-se, sou uma agente do Estado, e não do governo, seja ele qual for. Mas vamos ao que interessa: o que você descobriu? – a voz de Brigitte Montfort era rica em tonalidades. Bebericava Chateau Charmeton.

– Trabalho para a senhora Eleonora Barata Maiorana Saraceni – respondeu Hiena.


– E o que ela quer? Descobrir o mandante da morte do marido ou a agenda? – perguntou a delegada especial.

– Dinheiro é do que dona Eleonora menos precisa; acho que ela quer que seja feita justiça. E depois, até onde eu saiba, dona Eleonora não se metia nos negócios do marido, muito menos em política. Contudo, há indícios de que o mandante seja C. Almeida, o que torna o caso mais intrigante. Se tudo ia bem, por que C. Almeida mandaria matar o senador, que era o operador do esquema, o elo mais forte entre a Estuário e o governo? – redarguiu o detetive.

– Vimos grampeando o Tropical Hotel há algum tempo. Descobrimos uma rede de prostituição, na qual o elo era também o senador Lucas Saraceni. Parece que nem só de propina vivem suas excelências. A Boite Equatorial é uma espécie de quartel general da prostituição – comentou Brigitte Montfort.

– Isso é irrelevante; qual hotel cinco estrelas do Brasil que não abriga uma rede de prostituição? – Hiena perguntou.

– É verdade, mas vamos que Lucas Saraceni tenha anotado na tal agenda o envolvimento de algum figurão do governo com uma ou mais prostitutas; convenhamos, se isso viesse a público destruiria sua família – replicou Brigitte Montfort, apreciando seu Chateau Charmeton.

Hiena notou que ambos não haviam descoberto nada e que ela estava dando voltas. Seus caminhos já haviam se cruzado na comunidade de inteligência, uma ou duas vezes, e haviam cruzado os olhares. De repente Brigitte Montfort se levantou e andou até a frente do detetive, que estava sentado na cama. Tirou o casaco, atirou-o ao lado de Hiena, baixou as alças do vestido de seda com estampas rosas e deixou-o cair. Estava nua.


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