domingo, 15 de junho de 2014

SAIBA ONDE COMPRAR HIENA, O NOVO ROMANCE DE RAY CUNHA. LEIA TRECHO

Trata-se de uma história de detetive que se passa numa Brasília mergulhada na corrupção. Nada a ver com o Brasil real. Agora, leia trecho:

Em torno de 21 horas, Hiena deixou o jornal e foi ao Café Doce Café, sentando-se numa confortável cadeira de vime (palhinha, como sua mãe adotiva chamava), e pediu um Illy. Gostava de ir ali, onde podia tomar seu café predileto, e que estocava em casa. Comprava grandes latas de sachê de Illy, vindas de São Paulo, e o preparava numa pequena máquina italiana, com dispositivo de moagem acoplado, pois gostava também de moer grãos gourmet Antonello Monardo. Não demorou muito para Frênia chegar. Ela trabalhava numa agência, a Protoativa Assessoria de Comunicação, no quinto andar do shopping. Hiena a conheceu durante o caso Myrta Vasconcellos. Frênia Souza atendia a conta da perfumaria do Grupo Myrta Vasconcellos. Agora, era coordenadora executiva na agência e vivia às turras com seu patrão, Mário Alves, yuppie, coach e trabalhador compulsivo, com voz de falsete. Além disso, Frênia tinha uma dor de cabeça adicional: atendia, pessoalmente, a multinacional PVC, que não era o problema em si, pois se trata de um dos grupos empresariais com melhor ambiente de trabalho do planeta. A questão era a executiva da área de comunicação da PVC Brasil, sediada em São Paulo: Carminha Aruc, que tratava Frênia como se ela fosse débil mental, o que a deixava meio enlouquecida, principalmente nas conferências telefônicas mensais entre assessores de imprensa de todo o Brasil, quando era obrigada a ouvir o carregado sotaque paulista de Carminha Aruc comandando a reunião ao longo de pelo menos uma hora, ao fim da qual não se resolvia absolutamente nada.

A temperatura caíra para 16 graus.

Frênia submetera-se, naquele dia, a treinamento motivacional, coaching, “escravidão mansa”, como dizia Hiena, lembrando o que dissera William Faulkner à dupla de repórteres da Paris Review: “É uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas diárias, dia após dia, é trabalhar. A gente não pode comer, beber ou fazer amor durante oito horas diárias; só o que se pode fazer, durante oito horas, é trabalhar. Eis aí a razão por que o homem torna a si próprio e a todos os demais tão miseráveis e infelizes”. Porém nada tinha muita importância às 9 da noite no Café Doce Café. Exceto Frênia. Lembrava jambo maduro, com sua alva pele cafuza e longos cabelos de índia descendo-lhe como erva daninha até a garupa de DNA africano. Trajava um lindo casacão preto sobre vestido de seda, branco, estampado de amarelo e vermelho, o que combinava com a gravata de Hiena, e meias também pretas. Caminhava como potra, os quadris maravilhosos movendo-se, graciosos, e os cabelos sacudindo-se. À sua passagem, deixava um rastro de jasmineiros chorando em noites tórridas na sua cidade natal, Macapá, que flutua na margem esquerda do estuário do maior rio do mundo, o Amazonas, seccionado pela Linha Imaginária do Equador, na Amazônia Caribenha. Beijou-o e sentou-se.

– Quais são as novidades, querido? – disse. Perguntava sempre isso. “Quais são as novidades, querido?” A frase, dita com o belo sotaque de Belém do Pará, onde recebera parte da sua educação, soava como uma senha. Ele pediu água tônica para ambos. Estava refrescante, com sabor de certa noite em Caiena, a capital da Guiana Francesa, colônia que os franceses mantêm no norte da América do Sul, vizinha ao estado do Amapá.

– A novidade é sempre tu, jambu – rimou o detetive, referindo-se à erva largamente utilizada na culinária paraense e que para ele decifrava toda a Amazônia. Frênia transmitia-lhe a mesma sensação que sentia ao tomar, às 6 horas de certa tarde, na banca do Colégio Nazaré, em Belém, o melhor tacacá do mundo; a sensação de jambu nas papilas gustativas, evolando-se para o olfato e deste para os labirintos da memória, prenhe de jasmineiros lagrimando; Cerpinha; o céu de julho na Amazônia, tão azul que sangra; maresia; o balanço de uma rede; jambo, doce como seios; leite da mulher amada.

Hiena pegou o Observador de Brasília, abriu-o diretamente na página 7, na coluna Para Ler na Poltrona, do jornalista Eduardo Rocha. Não passava um dia sem a ler.

– Parece que o Eduardo Rocha escreveu a coluna de hoje inspirado em ti – disse. – Ouça! – e se pôs a ler a crônica.

“Negra em vestido de seda

“Degustava um Illy no café da Livraria Leitura do Pátio Brasil quando a vi, e seu perfume se misturou ao sortilégio do espresso, o aroma dos melhores arábicas do mundo. À sua passagem, infinitas possibilidades se iluminaram, de repente, velhos prazeres esquecidos, projetos de viagens adiados, sensações adormecidas, acordaram.

“Entendo que seda é o melhor tecido para sugerir as curvas de uma mulher, para desenhar, na nossa imaginação, seus encantos inacessíveis, para exalar a química do prazer que captamos com as antenas dos sentidos, e ela trajava um vestido de seda amarelo, estampado com rosas colombianas vermelhas.

“Seu andar – andar, não, trote – tinha a cadência das potras nascidas em cavalariça de ouro, trotar de bailarina clássica, o caminhar de mulheres sobre saltos tão altos que as fazem deslizar na ponta dos pés. E o vestido de seda lhe desenhava as formas no seu passeio pelo shopping.

“Tudo foi num instante, mas na dimensão em que a vi pude examiná-la minuciosamente. A primeira impressão que nos causava era sua pele de jambo maduro, sedosa como o tecido do seu vestido. Tinha nariz português, boca de negra e olhos verdes. E dentro do instante intenso, me encontrei na Estação das Docas, em Belém, e em Macapá, onde a Linha Imaginária do Equador faz esquina com o maior rio do mundo, e o rio Amazonas me conduziu ao Caribe de Gabriel García Márquez.

“A negra misteriosa passou rente a mim e me ofertou seu perfume, que identifiquei imediatamente: Chanel 5, o que mais gosto de aspirar na pele feminina. Ela passou tão rente a mim que tive a sensação de que a seda do seu vestido roçou na minha mão, e entrou na livraria. Quis segui-la, mas o compromisso na embaixada de Portugal estava em cima da hora. Dali a pouco estaria bebericando vinho do Porto no Instituto Camões”.

– Lindo! – disse Frênia. – Hoje foi um dia de cão! – murmurou, anotando alguma coisa num caderno Tilibra, tipo Moleskine. Seus olhos eram luminosos como um relicário de joias.

– Jambu, nada pode perturbar a Grande Força Inesgotável; tudo o que temos de fazer é nos alinhar a Ela – disse Hiena.

– Além do call com Carminha Aruc ainda tive que ouvir Mário Alves durante uma hora sobre o relatório mensal para a PVC – Frênia comentou, sem largar as anotações que estava fazendo. – O relatório é mais complicado do que um projeto de engenharia espacial, e é apenas um dos que são apresentados periodicamente à PVC – explicou, fechando o Moleskine e guardando-o na bolsa. Hiena fez sinal ao garçom para que trouxesse mais uma garrafa de água tônica.

Mais tarde, na casa de Frênia, no Bloco H da 711 Sul, ela pôs para ouvirem, no banheiro, sua música predileta: Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor, de Mozart. Música era seu antídoto contra Mário Alves, Carminha Aruc, PVC, e toda a fauna que frequentava a Protoativa Assessoria de Comunicação. Quando Hiena entrou no banheiro, observou, através do plástico da porta do boxe, quase transparente, a silhueta de Frênia preparando a banheira. Entrou e abraçou-a por trás; sentiu seus quadris, fartos e redondos, e, nas mãos, os seios, que lembravam mangas rosas. Ela cheirava ao Trópico Úmido. Voltou-se e o beijou. Hiena sentiu o sabor indescritível de jambu, de desjejum de ostra com Cerpinha, em Salinas, bela praia atlântica da costa paraense; o beijo evocava-lhe maresia, grandes hotéis, sussurros e gemidos na madrugada. Entraram na banheira. A água era tépida e transmitia a sensação, volátil, de sais. Aquilo era só sensações, principalmente a consciência que um tinha do outro. Ela pôs-se a esfregar-lhe com bucha as costas. Hiena entregava-se com prazer àquele tipo de massagem. Agora Frênia fazia fricção no peito de Hiena, beijando-o de vez em quando. Frênia encharcou a esponja e a entregou a ele, para massageá-la. A pela da cafuza era alva, sem mácula, doce como jambo, com a contextura de pétala de rosa. As auréolas dos mamilos eram enormes, as maiores que Hiena jamais vira, entre as mulheres que mergulharam com ele no Nirvana, ao longo, às vezes, de uma noite inteira de intensa criatividade. Ergueram-se e saíram da banheira. Passaram-se levemente a espessa toalha branca de algodão, recém-lavada, e foram para a cama.

Passava pouco da meia-noite quando Hiena chegou a casa, no Cruzeiro Velho. Quase nunca pernoitava fora. Seu porto seguro era ali.

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