quinta-feira, 17 de julho de 2014

Senador é degolado em hotel infestado de prostitutas numa Brasília atolada em corrupção

Ray Cunha e os embaixadores Jozef Smets, da Bélgica,
e Milena Smit, da Eslovênia, no lançamento do livro
(Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25),
no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e
restaurante na 406 Norte, Bloco C



O país afunda em corrupção e o erário escorre pelo ralo em obras bilionárias e superfaturadas, que nunca terminam, ou são inúteis. Nada a ver com o Brasil atual. Trata-se de ficção, mesmo. Uma história de detetive. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana no suntuoso Tropical Hotel, infestado de prostitutas de luxo e que ocupa uma quadra inteira do Setor Hoteleiro Sul, na capital da República, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.

HIENA é o último romance de Ray Cunha, escritor nascido em Macapá, na Amazônia Caribenha, e que mora em Brasília, da qual, devido ao seu trabalho como jornalista, conhece os seus subterrâneos, bem como os bastidores do Congresso Nacional, além de ser também observador privilegiado dos seus palácios e shoppings, catedrais pós-modernas da Ilha da Fantasia.

Neste romance desfila um magote de personalidades reais, como, por exemplo, o maestro Silvio Barbato, que é ressuscitado para reger a Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro em dois clássicos: o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, e o Bolero de Ravel; as cantoras paraenses Carmen Monarcha, que se apresenta com André Rieu, e Joelma, da Banda Calypso; dois artistas plásticos: Olivar Cunha e André Cerino; e até a famosa personagem de ficção Brigitte Montfort.

A utilização de personagens reais num trabalho de ficção é a segunda experiência de Ray Cunha. A primeira vez que fez isso foi no romance A CONFRARIA CABANAGEM, um thriller político-policial que se passa em Brasília e Belém do Pará, no qual o jornalista Lúcio Flávio Pinto, uma das maiores autoridades do planeta em Amazônia, é personagem. A CONFRARIA CABANAGEM deverá ser publicada este ano, ou em 2015, pelo Clube de Autores e pela Amazon.com.


*MARCELO LARROYED, escritor e mestre em teoria da literatura pela UnB, é revisor de HIENA e NA BOCA DO JACARÉ-AÇU


HIENA está disponível, tanto no formado impresso quanto eletrônico, no Clube de Autores

Bem como na Amazon.com

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Medicina da alma e acupuntura

BRASÍLIA, 9 DE JULHO DE 2014 – Os nazistas quase produzem a bomba atômica antes dos americanos. Só não conseguiram seu intento devido aos cuidados que os assessores de Hitler tomavam. A bomba era desenvolvida por vários cientistas, cada qual assumindo apenas uma parte do projeto, sem uma das quais não haveria o artefato. Ao físico judeu-alemão Joseph Gleber coube uma dessas partes da bomba. Então, a cúpula nazista descobriu que Gleber estivera protelando sua participação no projeto, à espera de que a guerra acabasse antes que aquela terrível arma fosse posta à serviço de um dos psicopatas mais bem-sucedidos da História, na sua trilha de horror: Hitler. Gleber foi ameaçado de ser posto num forno, juntamente com sua esposa e os dois filhos, vivos, para serem assados. Não cedeu, e no dia 13 de abril de 1942, foi cremado.

Medicina da Alma (Editora Casa dos Espíritos, Contagem-MG, 254 páginas, R$ 75, capa dura, papel couchê), psicografado por Robson Pinheiro, pelo espírito de Joseph Gleber, representa uma extraordinária iniciação à medicina desenvolvida pela ciência espiritual, da qual Jesus Cristo é mestre. Estudiosos do assunto listaram sete universos paralelos, ou dimensões, com medidas próprias e que não estão separados pelo espaço, mas se interpenetram. “No mundo mais denso (o físico), a vibração é diminuta quando comparada à rapidíssima vibração do mundo astral, o mais próximo do físico” – ensina Robson Pinheiro. Estudiosos da Grande Fraternidade Branca classificam esses planos em: físico, astral, mental, búdico, átmico (essência divina), monádico (uma espécie de portal entre o divino e os veículos inferiores) e logóico (o Eu Superior).

Entre os corpos físico e astral há o duplo etérico, ou corpo etérico. No caso de adoecimento, o duplo é atingido, antes da matéria, por microrganismos e larvas que só se proliferam nesse plano, e que se refletem no mundo físico nas mais diversas doenças.

A propósito do corpo etérico, a história da medicina tradicional chinesa registra que a acupuntura é uma técnica com mais de 5 mil anos. Embora com essa idade, ainda assim é um sistema complexo demais para que o ser humano o tenha criado apenas observando a natureza. O pesquisador e escritor Jorge Bessa, autor da trilogia O mistério dos senhores de Vênus (Thesaurus Editora, Brasília, 2012), composta por Os deuses que vieram do céu (147 páginas); Pluralidade dos mundos habitados e a evolução do homem (155 páginas); e Deuses, venusianos e capelinhos (174 páginas), sustenta a tese de que a Humanidade recebe desde sempre reforço extra terrestre na sua caminhada taoista. Pois bem, tecnologia de ponta já detectou que os meridianos da acupuntura situam-se no corpo etérico. Eu desconfio que seres extra terrestres é que iniciaram os chineses na acupuntura.

É importante saber isso para se entender que a acupuntura praticada por médicos alopatas só faz piorar o estado do paciente. A propósito, leia artigo de Ricardo Antunes sobre o ato médico, no site Escola Nacional de Acupuntura (ENAc). Se for o caso, procure um acupuntor. De preferência um que saiba muito sobre o Tao. Contudo, a medicina da alma é muito mais eficiente, mas só funciona à vibração da luz.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Trecho de HIENA, uma aventura de detetive ambientada numa Brasília atolada em corrupção

O país está afundando em corrupção e o erário escorre pelo ralo, em obras bilionárias e superfaturadas, que nunca terminam, ou simplesmente são inúteis. Nada a ver com o Brasil atual. Trata-se de ficção. Uma história de detetive. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana, no Tropical Hotel, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida. Segue-se trecho de HIENA, o novo romance de RAY CUNHA.

Hienas são como bactérias grandes. Bandidos do reino animal. Atarracadas, quartos traseiros caídos, andar manquejante, começam a comer a vítima ainda na perseguição, rasgando-lhe o ventre, as vísceras espirrando. O humorista carioca Juca Chaves, Jurandyr Czaczkes, cunhou uma frase que se tornou um mito persistente: “A hiena é um animal que come fezes dos outros animais, só tem relações sexuais uma vez por ano e ri… mas ri de quê?” O riso que elas emitem é um amplo e variado repertório de sons com os quais se comunicam entre si. A espécie Hyaenidae, a hiena-malhada, Crocuta crocuta, é a maior delas. De sociedade matriarcal, os machos são completamente submissos às fêmeas, que chegam a atingir mais de 70 quilos e a medir até um metro e meio de comprimento, 20% maiores do que os machos, que só fornicam quando elas permitem, do contrário podem perder a vida na tentativa. Vem daí a expressão homem-hiena, empregada aos homens criados debaixo da saia da mãe, e que, quando adultos, são inteiramente submissos às mulheres, obedecendo-as cegamente. A Crocuta crocuta é encontrada em toda a África e na Ásia Meridional, desde o Mediterrâneo até a baía de Bengala, na Índia; vive nas savanas do continente africano, onde reina como um predador sem igual. É caçadora formidável, chegando a perseguir suas presas à velocidade de até 55 quilômetros por hora, em grupos que chegam a 100 indivíduos. O segredo desse vigor é um coração poderoso. Mas o que as tornam resistentes como baratas é que podem se alimentar de praticamente tudo, desde filhotes de leão, passando por insetos a ovos de avestruz, até carniça já cheia de vermes, e de outras hienas, além de suas próprias fezes. Contudo, caçam animais de médio e grande portes, como gazelas, impalas, gnus e zebras. Outro mito que se criou sobre as hienas é o da covardia. Quando o alimento se torna escasso, o bando ataca até búfalos e mesmo rinocerontes – embora filhotes e animais velhos ou doentes. Suas mandíbulas são tão potentes que comem, normalmente, os ossos das suas presas, razão pela qual suas fezes são esbranquiçadas. O clitóris da fêmea é semelhante ao pênis do macho. Por isso, até a década de 1990, quando os norte-americanos começaram a estudar as hienas para valer, pensava-se que eram hermafroditas. O macho penetra a fêmea pelo clitóris, que é também por onde ela pare, e, às vezes, morre ao parir. A gestação costuma durar de 98 a 110 dias, resultando em uma ou duas crias. Nascem com os olhos abertos e os dentes afiados; quando são duas fêmeas, começam a lutar instantaneamente, até que só reste uma. Assim, a mais forte disporá de toda a atenção da alcateia. Mas ocorre com alguma frequência nascerem três ou quatro crias. A fêmea engole o máximo de comida de que é capaz e vomita no buraco onde cria os filhotes, que comem satisfeitos o vômito, de carne podre ou fezes. Vivem até 20 anos; no cativeiro chegam aos 41 anos. Na África, há quem tente domesticá-las, mas é como pretender que um jacaré atenda por nome próprio. É assassina por natureza.

            O detetive Hiena, Crocuta crocuta, como chama a si mesmo, não é bem o que Jurandyr Czaczkes, o Juca Chaves, disse. Embora discreto, quando ri para valer sua gargalhada é atroadora. Gastrônomo, elegeu a cozinha paraense a melhor do mundo. Vive só, embora tenha namorada. Contudo, têm em comum com a Crocuta crocuta alguns traços, como o sistema imunológico, pois nunca ficou sequer resfriado; pode se alimentar de comida estragada sem se preocupar, já que não se intoxica; conta com dentes de aço; é resistente como as baratas; e capaz de atravessar qualquer circunstância de extrema tensão sem que seu batimento cardíaco se altere. Também guarda um traço físico em comum com a Crocuta crocuta: o tórax largo, sem ser do tipo cangula (sinônimo de pipa na terra das suas duas mães, Belém do Pará), largo em cima e fino em baixo. O fato é que adotou o cognome Hiena por uma série de circunstâncias. Afinal, como disse José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância”. Hiena tem 43 anos. Nasceu, portanto, em 1969, a meia década do golpe militar que instalou no país a Ditadura dos Generais (1964-1985). Chama-se Lindomar Silva e Silva. Sua mãe biológica, Sebastiana Silva e Silva, Tiana, como era conhecida, professora, formada no Instituto de Educação do Pará, poliglota, migrou para Brasília em 1961. Quando a degolaram, Hiena tinha 7 anos e foi adotado pela assistente social Maria das Graças Batista Campos, amiga de infância de Tiana. Moravam todos no Cruzeiro Velho, na Quadra 6, Bloco P. A mãe adotiva de Hiena comprou a casa depois da morte de Tiana. Certo dia, Maria das Graças Batista Campos e Hiena almoçavam na companhia de um amigo da família, um biólogo que trabalhava no Jardim Zoológico Sargento Sílvio Delmar Hollembach; depois de olhar o garoto durante tempo inquietante, disse, de repente: “Você parece uma hiena; apenas devido à sua mandíbula e dentes”. O menino estava mastigando um fêmur de galinha. Hiena devia muito do que era à sua mãe adotiva. A mãe biológica o ensinara a ler e a escrever, e a mãe adotiva o pôs na Escola Paroquial Santo Antônio e depois no Centro Educacional Elefante Branco. Em 1987, Hiena completara 18 anos quando ela morreu de câncer, aos 61 anos de idade (nascera em 1926), deixando para ele, em testamento autenticado em cartório, tudo o que tinha: a casa no Cruzeiro Velho, onde Hiena continuava morando, e sábias aplicações no mercado financeiro, em dólar, as quais sobreviveram à inflação galopante do governo José Sarney. Porém a maior fortuna que sua mãe adotiva lhe deixou foi o ensinamento do filósofo japonês Masaharu Taniguchi, de que podemos, por meio da prática voltada a ajudar o próximo, mudar nosso destino; o viver naturalmente; o desapegar-se mentalmente do mundo material. Em 1987, Hiena se tornou terceiro dan em aikido, pelo Aizen Dojo da 509 Sul, Bloco A, Entrada 61; nanadan/shichidan/sétimo dan em kendo, treinando com vários mestres; e passou no vestibular da Universidade de Brasília para o curso de Direito. Em 1992, submeteu-se, com brilho, ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil e foi o primeiro colocado em concurso para delegado da Polícia Civil do Distrito Federal. Logo na primeira semana de trabalho na delegacia onde fora lotado, em Ceilândia, o delegado titular deu uma cabeçada num velho acusado de furto que o idoso desmoronou. Hiena segurou seu colega. Embora o ancião tenha amanhecido morto na cela para onde fora arrastado, o delegado titular, velho torturador nos anos de chumbo, não gostara da intervenção do seu adjunto e se queixou na Corregedoria; foi instaurado um processo por indisciplina que durou três meses e inocentou Hiena, ao fim do qual pediu demissão, não por causa do incidente, que funcionou, na verdade, como a gota d’água para seu despertar. Quis, sempre, inconscientemente, ser detetive particular, movido por dois acontecimentos: encontrar o assassino da sua mãe e descobrir o paradeiro do seu pai. No dia em que Tiana foi assassinada, Hiena sonhou com ela e com Maria das Graças Batista Campos. Apareceram-lhe serenas e resplandecentes como Nossa Senhora nos calendários. “Eu estou tão bem, meu filho! Agora, tu vais viver com a tua outra mãe!” – dissera-lhe Tiana. Já adulto, Hiena fora a Belém para conhecer a família da sua mãe biológica. Seus avós, pernambucanos de ascendência holandesa, já haviam morrido quando Tiana migrou para Brasília. Localizou o tio a quem ela enviava dinheiro, e que o levou ao cemitério onde os avós foram sepultados. Segundo sua mãe adotiva, Tiana era uma mulher exuberante. Media cerca de um metro e setenta, pesava em torno de 65 quilos, tinha cabelos abundantes e ruivos e seus olhos eram azuis como o anoitecer de Belém, em julho. Aparentemente era professora de línguas, mas tudo fazia supor que era prostituta, e sua clientela fossem políticos. Sobre seu pai, Hiena ignorava qualquer coisa.

Com um metro e oitenta, lábios carnudos, cabelos de Al Pacino, o que mais chamava atenção em Hiena, porém, eram seus olhos bicolores, que amanheciam com um tom azul claro, permanecendo assim nos dias frios, mas à medida que a temperatura subia, iam ficando como lápis-lazúli e, à noite, independentemente do tempo que estivesse fazendo, eram sempre duas esmeraldas. Tão logo saiu da polícia fez um curso de dois anos e meio de espionagem e se tornou detetive particular, atuando muito em casos de traição conjugal. Sentia-se, às vezes, na fronteira, tênue e sempre sombria, entre a razão e a lei da selva. Seu escritório era contíguo à sala de visita. Da sua mesa de trabalho podia ver o pequeno jardim na frente da casa, criado pelas suas mães e cuidado uma vez por semana por um jardineiro. Amava o jardim, onde rosas se desnudavam ao sol, grandes e vermelhas como sangue, escorrendo para um pé de primavera e se transformando em gotas de rubi. Tufos de zínias irrompiam como veios de pedras preciosas e orquídeas esquivavam-se do sol em velhos troncos ao pé de uma palmeira imperial, que, sem pressa, se espreguiçava ao tempo, e, nas noites quentes, o jasmineiro chorava Chanel 5. Atrás da sua mesa, Hiena afixou um Cristo, do pintor recifense-brasiliense André Cerino, seu amigo, a quem chamava de Grande Picasso. O quadro era uma acrílica sobre tela em preto e branco, de um metro e meio por um metro e meio, retratando o rosto de Jesus Cristo, sincero no seu sofrimento, na cruz, contraste do Cristo hollywoodiano masoquista de calendário. Os móveis do escritório eram antigos e a mesa de trabalho estava atulhada dos mais diversos objetos. Ao lado dela reinava um computador cinematográfico. Hiena era hacker, e utilizava esses conhecimentos para desvendar mistérios e extinguir sofrimentos. Quando estava em casa, normalmente jantava em torno das 18 horas, sopa, quase sempre, ou mingau, ou caldo, guloseima preparada pela sua assistente, a jovem Joyce Moreira, uma pernambucana de 21 anos de idade, casada, um filho, ex moradora de Águas Lindas de Goiás, violenta cidade vizinha a Brasília. Ele a descobrira numa agência de empregadas domésticas, chamara-a a casa, e a seu marido, Mário Silva, 30 anos, que se tornara seu jardineiro. Tivera uma longa conversa com os dois, que haviam migrado há pouco tempo da periferia do Recife, tinham um menino de um ano, Maurício, e estavam passando necessidade. Hiena ofereceu a eles um salário que lhes deu condições de se mudarem para Taguatinga, a 19 quilômetros do Plano Piloto; providenciou a vinda de uma irmã de Joyce, Jaqueline, de Pernambuco, para cuidar da criança quando ela não estivesse na creche, e também estudar; Mário Silva fez um curso de vigilante, que é o que ele queria; e Joyce Moreira, que tinha o curso médio completo, começou a fazer faculdade de gastronomia, para o que tinha talento, no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). Deu tudo certo. Mário Silva dispensava dedicação canina a Hiena e Joyce Moreira era de confiança absoluta, e se tornou especialista no paladar do detetive, de modo que havia sempre um estoque de açaí, Tuíra, que Hiena comprava no quiosque de dona Zenaide, na Feira do Guará, e que era servido à moda paraense. A barra congelada derretia naturalmente, dentro de uma panela com água, e depois o açaí era batido no liquidificador, para ficar bem misturado. Hiena despejava numa tigela grande a farinha de tapioca especial, também comprada no quiosque da dona Zenaide, colocava sobre a farinha duas colheres das de sopa bem cheias de açúcar refinado União e despejava a papa de açaí na tigela, misturava-o bem e o degustava com camarão pitu ou rosa, ao alho e óleo. “Um dos melhores pratos do mundo!” – dizia para si mesmo. Também ficara tácito entre Hiena e o casal, ao longo do processo de contratação e adaptação, que Mário e Joyce fariam seu próprio horário, para o que Hiena lhes entregou a chave da casa; mas os três falavam-se todos os dias, seja pessoalmente, ao telefone ou por e-mail, de modo que havia um compromisso sempre renovado entre eles. Geralmente, ao anoitecer, Hiena estava sozinho. Após jantar, às 18 horas, lia até às 21 horas, quando fazia a meditação Shinsokan e ia para a cama, levantando-se, invariavelmente, às 5 horas, não importava o horário em que fosse dormir. Na noite anterior, chegara a casa no início da madrugada de 8 de agosto. Às 7 horas, já se encontrava no Tropical Hotel. Enquanto aguardava Bruno Ipanema, deu uma olhada no Observador de Brasília; leu a crônica da coluna Para Ler na Poltrona:

“Núbia Santana, Anthony Quinn, Wolfgang Amadeus Mozart

“Fora entrevistar a atriz e cineasta Núbia Santana no apartamento dela, mas o porteiro me disse que saíra no dia anterior e não retornara. Estaria na França, para o Festival de Cinema Brasileiro de Paris? Seu documentário em longa metragem Pra Ficar de Boa retrata o cotidiano de violência e abandono de crianças e adolescentes que vivem nas ruas de Brasília e de internos do Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). Esses jovens têm em comum uma vida marcada por abusos dentro e fora de casa, drogas, crimes, guerras e morte. Entretanto, essa cruel realidade não impede que eles sonhem com um futuro melhor – diz a sinopse do filme.

“Era um sábado azul escuro, com a intensidade do rio das tardes de julho, na Amazônia; 18 horas, se esvaindo no silêncio da grande cidade, o sol agonizando, as luzes dos carros, as pessoas caminhando dentro da noite.

“Núbia, que foi Miss, é dona de uma beleza ainda mais impressionante, a de uma leoa que enfrentou a falta de perspectiva do agreste pernambucano, com a missão de transformar o mundo em tardes azuis. Este ano, ela fez novamente o papel de Maria na representação da Via Sacra de Taguatinga. Ela tem tanta coisa a fazer que certamente não pôde me aguardar. Quem sabe me dará a entrevista na volta de Paris? – disse para mim mesmo.

“Do prédio de Núbia fui caminhando até ao restaurante Raízes da Amazônia. O bairro do Sudoeste é um dos metros quadrados mais caros de Brasília. É agradável caminhar, ao anoitecer, num bairro urbanizado, ouvindo os murmúrios da noite se sobrepondo aos derradeiros sons da tarde que desaparece sob as luzes noturnas. O Raízes da Amazônia é especializado na cozinha paraense, a mais saborosa do mundo. Pedi tacacá. O tucupi é novo, chegou hoje – informaram-me. Degustei o tacacá e pedi uma unha de caranguejo. Ia também tomar sorvete de tapioca, da sorveteria Cairu, de Belém, mas me senti cheio. Paguei e fui apanhar um táxi. Aos poucos, o Sudoeste foi ficando para trás.

“Desci no Setor Hoteleiro Sul. Gosto de grandes hotéis e me agrada até mesmo passar diante deles e vislumbrar a vida que pulsa nos seus átrios e cafés, a alegria de viajores, o requinte dos serviços, a beleza e o mistério das mulheres que só encontramos nos grandes aeroportos. Tomei pela frente do Tropical Hotel, cruzei a rua, entrei no Pátio Brasil e me dirigi à livraria Leitura. Comprei dois filmes: Zorba, o Grego, dirigido por Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn, a belíssima Irene Papas e Lila Kedrova, Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel da doce Bubulina, e Amadeus, de Milos Forman.

“Em casa, encontrei duas das mulheres mais importantes da minha vida – minha esposa, Nanci, e minha filha, Celina. Escolhemos Zorba. Anthony Quinn dançando a música de Mikos Theodorakis é antológico, e o romance de Nikos Kazantzakis é desses livros que se movem para sempre. Quanto a Amadeus, é outra crônica”.


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quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONTO/Memorial dos Gatos

Os três animais estavam quietos na antessala do ambulatório do curso de graduação em veterinária da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, junto aos seus donos. Eu os via através do vidro que separava o ambulatório da antessala. Lembravam criminosos baleados, capturados pela polícia e levados ao pronto socorro. Atendi primeiramente o cachorro, que fora esfaqueado.
– Doutor, este meu cachorro não tem culpa. Não deixe prenderem ele. Só atacou meu vizinho, que é açougueiro de profissão e assassino de cachorro por prazer. Só porque meu Hércules avançou nele deu essa baita facada no bichinho. Sorte que não degolou o pobre. Se a facada não tivesse pegado de jeito nele, meu Hércules teria arrancado os colhões daquele assassino, com licença da palavra.
– Foi só de raspão, madame.
– Sempre me disseram que aqui o tratamento é de primeira; posso consultar o senhor?
– Só animais, senhora.
– Me disseram que o senhor é o mandachuva daqui, por isso faço questão que meu Hércules seja atendido pelo senhor.
– Sou apenas um dos professores e atendo a comunidade todas as segundas e sextas-feiras – disse à mulher.
– Mas o senhor merecia ser médico. Tem jeito para pegar no meu Hércules. Como é que eu vou lhe pagar, meu santo doutor?
– Aqui, tudo é de graça.
– Meu Deus, onde já se viu isso! Vou acender uma vela para o dono disto aqui. Na minha cidade, Abaetetuba, o médico de lá cobra por tudo e corta todo mundo. Diz que todo mundo tem o tal de câncer. Depois que vim pra cá pra Belém tudo é de graça e do bom e do melhor. Até remédio é de graça; o senhor não poderia me arranjar alguns?
– O que é que a senhora sente?
– Uma opressão aqui no peito! Quando vi meu Hércules sangrando na peixeira daquele assassino tive uma vertigem. Só não fui dar parte na polícia porque ainda iam querer prender meu Hércules. O Geronço açougueiro é irmão de um investigador muito brabo. Mas vou mandar darem uma surra naquele assassino. Só tenho medo do investigador descobrir, me prender, bater em mim e em todo mundo lá em casa e depois expulsar a gente da cidade sem direito a levar nada. Mas vou acender uma vela preta que é pra ele ver o que é bom.
– A senhora tem de trazer o cachorro de novo, sexta-feira. Traga neste mesmo horário. E não o deixe atacar as pessoas.
– Mas ele é manso, doutor. Avança nos outros só de brincadeira.
– Dê esse remédio para ele, de seis em seis horas. Dilua num pouco d’água.
– Vou trazer uns peixes para o senhor.
– Tudo bem, obrigado. Agora leve o Hércules para descansar e esqueça o açougueiro. Vá com Deus.
– O senhor é um santo! Que Deus lhe pague. Sexta-feira, vou trazer de novo meu Hércules, doutor. Que Deus lhe abençoe!
Olhei os outros dois pacientes. O galo inspirava mais cuidado.
– O que foi que aconteceu a este galo? – perguntei ao dono da ave.
– Este galo é um rei aposentado, doutor. Lutou, ontem à noite, contra o Gigante da Terra Firme. Perdeu um olho, mas acabou com a raça do Gigante; não sei se o dono, o Dicão de Abaeté, comeu ele, ou enterrou. Se fosse este meu rei, aqui, seria enterrado com missa de corpo presente. Conheço um padre que faria isso. Mas agora este bicho vai descansar.
– Está cego mesmo. Só vai dar para fazer um curativo.
– Eu lhe agradeço muito, doutor, e quero convidar o senhor para comer uma tracajazada, domingo, lá em casa. É uma casa humilde, mas farta, graças a Deus. Faça o que for possível pelo meu campeão. Este galo já me deu muita alegria, mais até do que o Paissandu, que só tem me dado raiva.
– Ele tem que ficar de repouso.
– Ele vai é ficar de repouso o resto da vida. Não vou deixar que a Geralda, minha mulher gulosa, aquela mucura velha, coma ele. Já deixei ela comer muitos galos meus, tudo pé-duro.
– Ele vai ficar bem.
– Como é, o senhor aceita a tracajazada?
– Fica para outra vez. Já tenho compromisso para domingo... É, ele só sofreu praticamente uma bicada no olho.
– Que Deus guie sempre suas mãos, doutor. Este galo é como Muhammad Ali, um bailarino, uma borboleta! Mas agora este rei do tablado vai descansar, vai curtir do bom e do melhor.
– Pronto! Agora ele pode se aposentar com dignidade.
– O senhor não sabe como eu fico feliz de ouvir isso, doutor! Sinceramente, não sei como agradecer a sua fineza. Já que o senhor não pode ir domingo lá em casa, vou trazer pro senhor um quilo de tracajá e outro de tucunaré.
– Vá com Deus e o seu campeão. Sei que ele terá uma aposentadoria esplêndida.
– Que Deus abençoe essa sua mão de santo, doutor! Fique com Deus!
Na antessala, aguardavam-me o gato e sua dona. O bichano estava quieto, no regaço da mulher. A água fervente atingira-o apenas em alguns pontos.
– Ele já está conformado com o que aconteceu. Foi a vizinha. Quando voltar pra casa vou tomar satisfação daquele cabo de guarda-sol empertigado.
– Deixe isso pra lá, madame, não é nada grave; por isso atendi primeiramente o cachorro esfaqueado e depois o pugilista.
Adoro gatos. Foi por causa deles que me tornei veterinário e me separei de Tharcilla. Ela não os suportava na mesma medida em que os aprecio. São dóceis, voluntariosos, macios, silenciosos. Valiosos apenas pela sua companhia silenciosa e limpa. Valem pelo que são. Mas, sobretudo, inspiram-me caridade. Tenho, atualmente, 43 bichanos na minha casa, na Estrada do Coqueiro. Herdei de meus pais a casa, onde continuo morando. Meus gatos andam por lá à vontade, caçando e dormindo. Gosto de vê-los. Minha preferida é uma gata homônima de Tharcilla, grande e branca, que já cansou de me trazer rolinhas recém-capturadas. Depeno-as, corto-lhes a cabeça e as pernas, limpo-as e devolvo-as a Tharcilla, que as devora com grande prazer. Meu amor pelos gatos remonta à minha infância; de tanto vê-los morrer. Eles morriam como crianças que apanham até o fim. Eu tinha doze anos quando conheci Tom-Tom, um menino novato no bairro, dono de uma cadela, chamada Barriga. Uma cadela basset. Não era bem basset, mas uma mistura com vira-lata. Barriga era uma cadela assassina. Matava gatos. Um dia, brincávamos no monturo onde nos reuníamos quando percebi que o focinho de Barriga era só cicatrizes. Tom-Tom nos chamou para o fundo do quintal de uma das casas da vizinhança. Um gato, desses comuns, estava deitado numa parte do chão completamente sem mato. Era uma tarde terrivelmente quente e o bicho estava ali, na frescura da terra. Barriga se aproximou dele, devagar, farejando. O gato se voltou para ela, mas não se levantou. Como quem não quer nada, a cadela chegou bem junto ao gato. Nós estávamos escondidos. Então, de repente, rápida como uma cobra, ela mordeu uma patinha do gato. Ele emitiu um miado horrível, mas já estava com uma pata fora de combate. Então Barriga pegou-o na costela e deu-lhe uma dentada. A cadela era rápida como um raio. O gato tentou se arrastar, mas a cadela abocanhou seu pescoço e sacudiu-o. Logo o animal estava morto. Aquilo durou menos de um minuto. Morto, o gato parecia muito feio, ensanguentado e sujo de terra. Assemelhava-se a uma pasta feita de sangue, terra e pelo. Tom-Tom pegou um pedaço de pau e começou a cavar. Nós o ajudamos. Barriga sentara-se próximo de nós e acompanhava o serviço. Seu focinho era sulcado de cicatrizes, uma das quais começava junto do olho esquerdo.
– Este foi fácil – disse Tom-Tom, quando acabamos de enterrar o gato. – Sei onde tem um grande. Vamos lá, cambada!
O gato era ainda jovem, mas estava a caminho de ser realmente grande, e começava a ter cara de mau, com grandes olhos vermelhos e pelo amarronzado, que lhe dava um tom sujo e antipático. Pertencia a um vendedor de peixe. Animal e dono eram ultrajantes. Mas, apesar de repulsivo, aquele gato não merecia ter a morte que teve. Quando o encontramos, comia uns restos de peixe. Percebeu nossa aproximação ainda de longe e se pôs em guarda. Fizemos um cerco, de maneira que ele ficou encantoado no muro de um clube que havia ali, bastante frequentado nos fins de semana, e onde aquele gato feio deveria comer as sobras de comida, engordar e ficar daquele jeito. Na primeira investida de Barriga o bicho ficou todo eriçado e acertou uma patada na orelha da cadela, de onde minou sangue. Barriga conseguiu morder o rabo do bichano – deve ter doído muito, a julgar pelo berro horripilante que o gato emitiu – e pulou em cima dele. Embolaram-se. Ela visava sempre a barriga. Conseguiu morder ali com tanta força que o gato se desequilibrou. A cadela aproveitou e quebrou uma das patas dele com uma dentada terrível. O bichano tentou correr, mas foi tarde demais, pois a cadela enfiou os dentes novamente na barriga dele. Dessa vez o bicho caiu sem forças para resistir. Então, sem pressa, a cadela se aproximou dele, procurando evitar a pata dianteira sã, e segurou-o pelo pescoço. O gato emitiu um lamento lúgubre. Ela apertou os dentes, sem pressa. O gato, agora, só fazia gemer. Barriga o ergueu e o atirou adiante. Fez isso várias vezes. Pensamos que o gato estava morto, mas o animal ainda tentou se arrastar. Aí Barriga acertou-o com uma daquelas dentadas implacáveis na barriga, e o gato não mais se moveu. Enterramos aquele também.
– Mais um – disse Tom-Tom. Era um menino mais velho do que nós, uns cinco garotos que frequentemente brincávamos juntos. Devia ter uns 14 anos. Lembrando-me dele, agora, vejo seus olhinhos de tubarão e nariz de porco.
Certa vez estávamos jogando peteca quando ouvimos os latidos de Barriga. Ela apareceu com o focinho ensanguentado. Queria que a seguíssemos. Pouco adiante, o mato estava revolvido e havia sinais de luta por ali. O gato, enorme, estava deitado, como que descansando, ganhando força. Deve ter sido uma luta e tanto, pois Barriga tinha um corte feio, do pescoço até quase o olho. Quando nos viu, o gato tentou se arrastar. Estava no fim. Barriga o moera literalmente. A cadela nos chamara para vê-la executar o gato, e isso me deixou arrepiado. Sem pressa, o pescoço ensanguentado, ela se aproximou do bichano, que ficou atento, e pegou-o pela única pata sã. Ouvimos quando suas mandíbulas rebentaram aquela pata, e ouvimos o lamento do gato. O animal era uma massa sanguinolenta. Não podia mais sequer se arrastar. Então Barriga o segurou na barriga e deu não sei quantas dentadas, até que aquela massa sanguinolenta se aquietasse definitivamente. Era quase noite. Tom-Tom fora embora para ver os cortes na cadela e os outros meninos o acompanharam. Sentei-me na relva e fiquei ali, sozinho, até que escurecesse de vez. Tom-Tom enterrava sempre os gatos que sua cadela matava, mas dessa vez, como Barriga estivesse sangrando, deixou o cadáver ali. Um pouco mais adiante de mim, mergulhado na negrura da noite que se espalhava como neve caindo, jazia o cadáver do gato. Então ouvi um miado. Parecia que viera de outro mundo. Talvez tenha sido impressão minha, mas um grande cansaço tomou conta de mim. Naquele momento tomei duas decisões: matar Barriga e me tornar veterinário.
Tom-Tom jamais soube quem matou sua cadela. O caso aconteceu da seguinte maneira: um desses circos caindo aos pedaços se instalou na Cidade Nova, no município de Ananindeua, zona metropolitana de Belém. Eles tinham um leão velho e ossudo e soube que o alimentavam com cachorros vira-latas. Combinei tudo com o tratador do leão. Tom-Tom estudava de manhã. Eu também. Disse em casa que não haveria aula naquele dia, peguei Floco de Neve, meu gatinho, agasalhei-o na cestinha da bicicleta e passei defronte à casa de Tom-Tom. Barriga me viu e ficou hipnotizada pelo meu bichano, um lindo gatinho que ganhara de presente. Chamei a cadela. Ela veio. Atraí-a até um terreno baldio próximo de casa, onde já havia guardado a caixa. Abri-a. Barriga viu o pedaço de carne e entrou na caixa para pegá-lo. Fechei-a. Barriga era uma cadela silenciosa. Isso facilitou seu fim. Fui rapidamente a casa, deixei Floco de Neve e a bicicleta e voltei para pegar a caixa com Barriga. Apanhei um ônibus, levando a caixa comigo, e desci na Cidade Nova. O tratador pegou Barriga com uma vara comprida e um laço na extremidade. Vocês precisavam ver como a cadela se debatia e gania no caminho da morte. O leão devia estar doente, pois parecia muito quieto. Era possível ver suas costelas. O tratador abriu uma portinhola na parte de cima da jaula, ergueu Barriga e atirou-a lá dentro. Ela defecou. O leão se levantou. A cadela pulou, tentando sair pela portinhola por onde entrara, e que agora estava fechada. O leão lhe deu uma patada e ela caiu tremendo. Então a fera abocanhou a cadela no pescoço. Ouvimos ossos sendo partidos. Pedi ao tratador a cabeça de Barriga, que pus num saco e a escondi numa árvore até tarde da noite, quando dei um jeito de sair de casa e joguei a cabeça na varanda da casa de Tom-Tom. Pouco depois sua família mudou-se do bairro e nunca mais o vi.
Minha ex-mulher é policial, exímia atiradora. Eram duas horas da tarde. Fazia um calor dos diabos. Tharcilla estava de folga e tentava cochilar. Naquela época eu criava um gato grande, branco, malhado de preto. Chamava-se Colhudo, porque o bicho tinha um par de ovos que pareciam de carneiro. Era um gato sacana. Vivia na sacanagem com as gatas da vizinhança. Pois bem, naquele dia, em pleno sol de rachar, o bichano estava tentando comer uma gata. Minha ex-mulher se levantou da cama, aborrecida, pegou o rifle, foi para a janela e fez pontaria. Foi tudo muito rápido. Eu estava sentado à escrivaninha, lendo e dormitando, próximo à cama.
– Grita agora, sacana! – ela disse.
Levantei-me e olhei em direção ao tiro e vi Colhudo tombado sobre a latada de maracujá. Saí de casa e corri para a latada. Colhudo parecia estar deitado. Sua cabeça fora pulverizada. Seus miolos voaram longe. Retornei a casa.
– Cai fora, cadela – disse à Tharcilla. Ela não se mexeu. Só se mexeu três dias depois, quando viu que eu não estava brincando. Casáramos com separação de bens e a casa era herança do meu velho.
Como se aquela puta não fizesse barulho quando gozava.


Este conto integra o livro NA BOCA DO JACARÉ-AÇU  A AMAZÔNIA COMO ELA É, terceiro volume da trilogia AMAZÔNIA. Caro leitor, você pode encontrá-lo na Livraria Cultura CasaPark ou na Estante dos Escritores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), localizado no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura.


RAY CUNHA é natural de Macapá, à margem esquerda, quase na
boca, do maior rio do planeta, o Amazonas, esquina com a Linha
Imaginária do Equador, na Amazônia caribenha; mora em Brasília



terça-feira, 1 de julho de 2014

VIAGEM DENTRO DE TI

Estou pronto para ti
Sereno como um homem deve ficar diante de uma mulher nua
Pegar-te-ei com tanta suavidade, e firmeza,
Que lamentarás o prazer, intenso como o voo do orgasmo
Tocarei cada ponto dos teus meridianos
No fundo mais recôndito dos teus abismos insondáveis, e infinitos
Cavalgar-te-ei, preso em ti, seguro na tua boca, nos teus seios, no teu sexo
Como a Terra gravitando em torno do Sol a 108 mil quilômetros por hora
O sistema solar girando em volta do núcleo da Via Láctea a 830 mil quilômetros por hora
A Via Láctea indo para o Grupo Local a 144 mil quilômetros por hora
O Grupo Local caminhando para o aglomerado de Virgem a 900 mil quilômetros por hora
E tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator a 2,2 milhões de quilômetros por hora
O Grande Atrator fica para além de Centauro, a 137 milhões de anos-luz da Terra