sexta-feira, 4 de julho de 2014

Trecho de HIENA, uma aventura de detetive ambientada numa Brasília atolada em corrupção

O país está afundando em corrupção e o erário escorre pelo ralo, em obras bilionárias e superfaturadas, que nunca terminam, ou simplesmente são inúteis. Nada a ver com o Brasil atual. Trata-se de ficção. Uma história de detetive. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana, no Tropical Hotel, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida. Segue-se trecho de HIENA, o novo romance de RAY CUNHA.

Hienas são como bactérias grandes. Bandidos do reino animal. Atarracadas, quartos traseiros caídos, andar manquejante, começam a comer a vítima ainda na perseguição, rasgando-lhe o ventre, as vísceras espirrando. O humorista carioca Juca Chaves, Jurandyr Czaczkes, cunhou uma frase que se tornou um mito persistente: “A hiena é um animal que come fezes dos outros animais, só tem relações sexuais uma vez por ano e ri… mas ri de quê?” O riso que elas emitem é um amplo e variado repertório de sons com os quais se comunicam entre si. A espécie Hyaenidae, a hiena-malhada, Crocuta crocuta, é a maior delas. De sociedade matriarcal, os machos são completamente submissos às fêmeas, que chegam a atingir mais de 70 quilos e a medir até um metro e meio de comprimento, 20% maiores do que os machos, que só fornicam quando elas permitem, do contrário podem perder a vida na tentativa. Vem daí a expressão homem-hiena, empregada aos homens criados debaixo da saia da mãe, e que, quando adultos, são inteiramente submissos às mulheres, obedecendo-as cegamente. A Crocuta crocuta é encontrada em toda a África e na Ásia Meridional, desde o Mediterrâneo até a baía de Bengala, na Índia; vive nas savanas do continente africano, onde reina como um predador sem igual. É caçadora formidável, chegando a perseguir suas presas à velocidade de até 55 quilômetros por hora, em grupos que chegam a 100 indivíduos. O segredo desse vigor é um coração poderoso. Mas o que as tornam resistentes como baratas é que podem se alimentar de praticamente tudo, desde filhotes de leão, passando por insetos a ovos de avestruz, até carniça já cheia de vermes, e de outras hienas, além de suas próprias fezes. Contudo, caçam animais de médio e grande portes, como gazelas, impalas, gnus e zebras. Outro mito que se criou sobre as hienas é o da covardia. Quando o alimento se torna escasso, o bando ataca até búfalos e mesmo rinocerontes – embora filhotes e animais velhos ou doentes. Suas mandíbulas são tão potentes que comem, normalmente, os ossos das suas presas, razão pela qual suas fezes são esbranquiçadas. O clitóris da fêmea é semelhante ao pênis do macho. Por isso, até a década de 1990, quando os norte-americanos começaram a estudar as hienas para valer, pensava-se que eram hermafroditas. O macho penetra a fêmea pelo clitóris, que é também por onde ela pare, e, às vezes, morre ao parir. A gestação costuma durar de 98 a 110 dias, resultando em uma ou duas crias. Nascem com os olhos abertos e os dentes afiados; quando são duas fêmeas, começam a lutar instantaneamente, até que só reste uma. Assim, a mais forte disporá de toda a atenção da alcateia. Mas ocorre com alguma frequência nascerem três ou quatro crias. A fêmea engole o máximo de comida de que é capaz e vomita no buraco onde cria os filhotes, que comem satisfeitos o vômito, de carne podre ou fezes. Vivem até 20 anos; no cativeiro chegam aos 41 anos. Na África, há quem tente domesticá-las, mas é como pretender que um jacaré atenda por nome próprio. É assassina por natureza.

            O detetive Hiena, Crocuta crocuta, como chama a si mesmo, não é bem o que Jurandyr Czaczkes, o Juca Chaves, disse. Embora discreto, quando ri para valer sua gargalhada é atroadora. Gastrônomo, elegeu a cozinha paraense a melhor do mundo. Vive só, embora tenha namorada. Contudo, têm em comum com a Crocuta crocuta alguns traços, como o sistema imunológico, pois nunca ficou sequer resfriado; pode se alimentar de comida estragada sem se preocupar, já que não se intoxica; conta com dentes de aço; é resistente como as baratas; e capaz de atravessar qualquer circunstância de extrema tensão sem que seu batimento cardíaco se altere. Também guarda um traço físico em comum com a Crocuta crocuta: o tórax largo, sem ser do tipo cangula (sinônimo de pipa na terra das suas duas mães, Belém do Pará), largo em cima e fino em baixo. O fato é que adotou o cognome Hiena por uma série de circunstâncias. Afinal, como disse José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância”. Hiena tem 43 anos. Nasceu, portanto, em 1969, a meia década do golpe militar que instalou no país a Ditadura dos Generais (1964-1985). Chama-se Lindomar Silva e Silva. Sua mãe biológica, Sebastiana Silva e Silva, Tiana, como era conhecida, professora, formada no Instituto de Educação do Pará, poliglota, migrou para Brasília em 1961. Quando a degolaram, Hiena tinha 7 anos e foi adotado pela assistente social Maria das Graças Batista Campos, amiga de infância de Tiana. Moravam todos no Cruzeiro Velho, na Quadra 6, Bloco P. A mãe adotiva de Hiena comprou a casa depois da morte de Tiana. Certo dia, Maria das Graças Batista Campos e Hiena almoçavam na companhia de um amigo da família, um biólogo que trabalhava no Jardim Zoológico Sargento Sílvio Delmar Hollembach; depois de olhar o garoto durante tempo inquietante, disse, de repente: “Você parece uma hiena; apenas devido à sua mandíbula e dentes”. O menino estava mastigando um fêmur de galinha. Hiena devia muito do que era à sua mãe adotiva. A mãe biológica o ensinara a ler e a escrever, e a mãe adotiva o pôs na Escola Paroquial Santo Antônio e depois no Centro Educacional Elefante Branco. Em 1987, Hiena completara 18 anos quando ela morreu de câncer, aos 61 anos de idade (nascera em 1926), deixando para ele, em testamento autenticado em cartório, tudo o que tinha: a casa no Cruzeiro Velho, onde Hiena continuava morando, e sábias aplicações no mercado financeiro, em dólar, as quais sobreviveram à inflação galopante do governo José Sarney. Porém a maior fortuna que sua mãe adotiva lhe deixou foi o ensinamento do filósofo japonês Masaharu Taniguchi, de que podemos, por meio da prática voltada a ajudar o próximo, mudar nosso destino; o viver naturalmente; o desapegar-se mentalmente do mundo material. Em 1987, Hiena se tornou terceiro dan em aikido, pelo Aizen Dojo da 509 Sul, Bloco A, Entrada 61; nanadan/shichidan/sétimo dan em kendo, treinando com vários mestres; e passou no vestibular da Universidade de Brasília para o curso de Direito. Em 1992, submeteu-se, com brilho, ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil e foi o primeiro colocado em concurso para delegado da Polícia Civil do Distrito Federal. Logo na primeira semana de trabalho na delegacia onde fora lotado, em Ceilândia, o delegado titular deu uma cabeçada num velho acusado de furto que o idoso desmoronou. Hiena segurou seu colega. Embora o ancião tenha amanhecido morto na cela para onde fora arrastado, o delegado titular, velho torturador nos anos de chumbo, não gostara da intervenção do seu adjunto e se queixou na Corregedoria; foi instaurado um processo por indisciplina que durou três meses e inocentou Hiena, ao fim do qual pediu demissão, não por causa do incidente, que funcionou, na verdade, como a gota d’água para seu despertar. Quis, sempre, inconscientemente, ser detetive particular, movido por dois acontecimentos: encontrar o assassino da sua mãe e descobrir o paradeiro do seu pai. No dia em que Tiana foi assassinada, Hiena sonhou com ela e com Maria das Graças Batista Campos. Apareceram-lhe serenas e resplandecentes como Nossa Senhora nos calendários. “Eu estou tão bem, meu filho! Agora, tu vais viver com a tua outra mãe!” – dissera-lhe Tiana. Já adulto, Hiena fora a Belém para conhecer a família da sua mãe biológica. Seus avós, pernambucanos de ascendência holandesa, já haviam morrido quando Tiana migrou para Brasília. Localizou o tio a quem ela enviava dinheiro, e que o levou ao cemitério onde os avós foram sepultados. Segundo sua mãe adotiva, Tiana era uma mulher exuberante. Media cerca de um metro e setenta, pesava em torno de 65 quilos, tinha cabelos abundantes e ruivos e seus olhos eram azuis como o anoitecer de Belém, em julho. Aparentemente era professora de línguas, mas tudo fazia supor que era prostituta, e sua clientela fossem políticos. Sobre seu pai, Hiena ignorava qualquer coisa.

Com um metro e oitenta, lábios carnudos, cabelos de Al Pacino, o que mais chamava atenção em Hiena, porém, eram seus olhos bicolores, que amanheciam com um tom azul claro, permanecendo assim nos dias frios, mas à medida que a temperatura subia, iam ficando como lápis-lazúli e, à noite, independentemente do tempo que estivesse fazendo, eram sempre duas esmeraldas. Tão logo saiu da polícia fez um curso de dois anos e meio de espionagem e se tornou detetive particular, atuando muito em casos de traição conjugal. Sentia-se, às vezes, na fronteira, tênue e sempre sombria, entre a razão e a lei da selva. Seu escritório era contíguo à sala de visita. Da sua mesa de trabalho podia ver o pequeno jardim na frente da casa, criado pelas suas mães e cuidado uma vez por semana por um jardineiro. Amava o jardim, onde rosas se desnudavam ao sol, grandes e vermelhas como sangue, escorrendo para um pé de primavera e se transformando em gotas de rubi. Tufos de zínias irrompiam como veios de pedras preciosas e orquídeas esquivavam-se do sol em velhos troncos ao pé de uma palmeira imperial, que, sem pressa, se espreguiçava ao tempo, e, nas noites quentes, o jasmineiro chorava Chanel 5. Atrás da sua mesa, Hiena afixou um Cristo, do pintor recifense-brasiliense André Cerino, seu amigo, a quem chamava de Grande Picasso. O quadro era uma acrílica sobre tela em preto e branco, de um metro e meio por um metro e meio, retratando o rosto de Jesus Cristo, sincero no seu sofrimento, na cruz, contraste do Cristo hollywoodiano masoquista de calendário. Os móveis do escritório eram antigos e a mesa de trabalho estava atulhada dos mais diversos objetos. Ao lado dela reinava um computador cinematográfico. Hiena era hacker, e utilizava esses conhecimentos para desvendar mistérios e extinguir sofrimentos. Quando estava em casa, normalmente jantava em torno das 18 horas, sopa, quase sempre, ou mingau, ou caldo, guloseima preparada pela sua assistente, a jovem Joyce Moreira, uma pernambucana de 21 anos de idade, casada, um filho, ex moradora de Águas Lindas de Goiás, violenta cidade vizinha a Brasília. Ele a descobrira numa agência de empregadas domésticas, chamara-a a casa, e a seu marido, Mário Silva, 30 anos, que se tornara seu jardineiro. Tivera uma longa conversa com os dois, que haviam migrado há pouco tempo da periferia do Recife, tinham um menino de um ano, Maurício, e estavam passando necessidade. Hiena ofereceu a eles um salário que lhes deu condições de se mudarem para Taguatinga, a 19 quilômetros do Plano Piloto; providenciou a vinda de uma irmã de Joyce, Jaqueline, de Pernambuco, para cuidar da criança quando ela não estivesse na creche, e também estudar; Mário Silva fez um curso de vigilante, que é o que ele queria; e Joyce Moreira, que tinha o curso médio completo, começou a fazer faculdade de gastronomia, para o que tinha talento, no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). Deu tudo certo. Mário Silva dispensava dedicação canina a Hiena e Joyce Moreira era de confiança absoluta, e se tornou especialista no paladar do detetive, de modo que havia sempre um estoque de açaí, Tuíra, que Hiena comprava no quiosque de dona Zenaide, na Feira do Guará, e que era servido à moda paraense. A barra congelada derretia naturalmente, dentro de uma panela com água, e depois o açaí era batido no liquidificador, para ficar bem misturado. Hiena despejava numa tigela grande a farinha de tapioca especial, também comprada no quiosque da dona Zenaide, colocava sobre a farinha duas colheres das de sopa bem cheias de açúcar refinado União e despejava a papa de açaí na tigela, misturava-o bem e o degustava com camarão pitu ou rosa, ao alho e óleo. “Um dos melhores pratos do mundo!” – dizia para si mesmo. Também ficara tácito entre Hiena e o casal, ao longo do processo de contratação e adaptação, que Mário e Joyce fariam seu próprio horário, para o que Hiena lhes entregou a chave da casa; mas os três falavam-se todos os dias, seja pessoalmente, ao telefone ou por e-mail, de modo que havia um compromisso sempre renovado entre eles. Geralmente, ao anoitecer, Hiena estava sozinho. Após jantar, às 18 horas, lia até às 21 horas, quando fazia a meditação Shinsokan e ia para a cama, levantando-se, invariavelmente, às 5 horas, não importava o horário em que fosse dormir. Na noite anterior, chegara a casa no início da madrugada de 8 de agosto. Às 7 horas, já se encontrava no Tropical Hotel. Enquanto aguardava Bruno Ipanema, deu uma olhada no Observador de Brasília; leu a crônica da coluna Para Ler na Poltrona:

“Núbia Santana, Anthony Quinn, Wolfgang Amadeus Mozart

“Fora entrevistar a atriz e cineasta Núbia Santana no apartamento dela, mas o porteiro me disse que saíra no dia anterior e não retornara. Estaria na França, para o Festival de Cinema Brasileiro de Paris? Seu documentário em longa metragem Pra Ficar de Boa retrata o cotidiano de violência e abandono de crianças e adolescentes que vivem nas ruas de Brasília e de internos do Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). Esses jovens têm em comum uma vida marcada por abusos dentro e fora de casa, drogas, crimes, guerras e morte. Entretanto, essa cruel realidade não impede que eles sonhem com um futuro melhor – diz a sinopse do filme.

“Era um sábado azul escuro, com a intensidade do rio das tardes de julho, na Amazônia; 18 horas, se esvaindo no silêncio da grande cidade, o sol agonizando, as luzes dos carros, as pessoas caminhando dentro da noite.

“Núbia, que foi Miss, é dona de uma beleza ainda mais impressionante, a de uma leoa que enfrentou a falta de perspectiva do agreste pernambucano, com a missão de transformar o mundo em tardes azuis. Este ano, ela fez novamente o papel de Maria na representação da Via Sacra de Taguatinga. Ela tem tanta coisa a fazer que certamente não pôde me aguardar. Quem sabe me dará a entrevista na volta de Paris? – disse para mim mesmo.

“Do prédio de Núbia fui caminhando até ao restaurante Raízes da Amazônia. O bairro do Sudoeste é um dos metros quadrados mais caros de Brasília. É agradável caminhar, ao anoitecer, num bairro urbanizado, ouvindo os murmúrios da noite se sobrepondo aos derradeiros sons da tarde que desaparece sob as luzes noturnas. O Raízes da Amazônia é especializado na cozinha paraense, a mais saborosa do mundo. Pedi tacacá. O tucupi é novo, chegou hoje – informaram-me. Degustei o tacacá e pedi uma unha de caranguejo. Ia também tomar sorvete de tapioca, da sorveteria Cairu, de Belém, mas me senti cheio. Paguei e fui apanhar um táxi. Aos poucos, o Sudoeste foi ficando para trás.

“Desci no Setor Hoteleiro Sul. Gosto de grandes hotéis e me agrada até mesmo passar diante deles e vislumbrar a vida que pulsa nos seus átrios e cafés, a alegria de viajores, o requinte dos serviços, a beleza e o mistério das mulheres que só encontramos nos grandes aeroportos. Tomei pela frente do Tropical Hotel, cruzei a rua, entrei no Pátio Brasil e me dirigi à livraria Leitura. Comprei dois filmes: Zorba, o Grego, dirigido por Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn, a belíssima Irene Papas e Lila Kedrova, Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel da doce Bubulina, e Amadeus, de Milos Forman.

“Em casa, encontrei duas das mulheres mais importantes da minha vida – minha esposa, Nanci, e minha filha, Celina. Escolhemos Zorba. Anthony Quinn dançando a música de Mikos Theodorakis é antológico, e o romance de Nikos Kazantzakis é desses livros que se movem para sempre. Quanto a Amadeus, é outra crônica”.


Se moras no Brasil, ou na Ibero-América, poderás
fazer o pedido de HIENA no site do Clube de Autores,
e o livro será entregue na tua casa

Se moras nos Estados Unidos, ou na Europa, ou na Ásia,
é mais prático adquirir HIENA via Amazon.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário