sábado, 30 de agosto de 2014

Polo Industrial de Manaus consolida-se como o coração do Amazonas; sem ele, estado voltaria à Capitania de São José do Rio Negro

Rebecca Garcia pretende coordenar a implementação de
ensino técnico em todos os municípios do Amazonas; a
modernização da malha de 
escoamento 
do Polo 
Industrial

da Zona 
Franca; e o saneamento básico de Manaus



Rebecca Garcia coordena em Brasília debate sobre logística e infraestrutura da Zona Franca de Manaus


BRASÍLIA, 30 DE AGOSTO DE 2014 – A Zona Franca de Manaus (ZFM) se tornou, ao longo do tempo, o único filão econômico capaz de garantir o desenvolvimento sustentável do Amazonas, mantendo praticamente intacta a parte que lhe cabe na maior floresta tropical do planeta. O resultado disso é que uma parcela expressiva da população da hinterlândia mudou-se para a capital, atrás de emprego, e a maioria dessas famílias foi morar em favelas, sobre esgoto a céu aberto. Agora, o desafio do próximo governo é sanear Manaus; construir modernas vias de escoamento dos produtos de um dos mais estratégicos projetos econômicos da Amazônia; e levar o ensino técnico para todos os municípios do estado, para ampliar a produção e conter o êxodo rural.

É sobre isso que a deputada federal Rebecca Garcia (PP/AM), candidata a vice-governadora do Amazonas na chapa do senador Eduardo Braga (PMDB/AM), coordenará debate, nesta terça-feira 2, na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Câmara dos Deputados. Inúmeros estudos apontam gargalos nos modais de transporte, especialmente portos, hidrovias e aeroportos, problemas que, somados à falta de investimentos na infraestrutura e logística, transformam-se num pesadelo para o país e num inferno para a Amazônia, como no caso do Polo Industrial de Manaus (PIM).

“A problemática no abastecimento de insumos e na distribuição de mercadorias afeta diretamente a rotina das indústrias e seus operários. Por isso, é urgente e necessário aprofundarmos o debate sobre as alternativas de investimentos” – alerta Rebecca, sobre os prejuízos do setor produtivo do Brasil, especialmente da Zona Franca de Manaus (ZFM).

No evento, serão discutidas as soluções apontadas no Plano Brasil de Infraestrutura Logística, trabalho coordenado pelo amazonense Antônio Jorge Cunha Campos, doutor em Engenharia de Produção, Logística e Transporte, e desenvolvido com participação de todos os conselhos regionais de administração do Brasil.

“O estudo será apresentado no debate porque traz um panorama completo sobre a necessidade de investimento na infraestrutura e logística do país, além de soluções para integração dos modais de transporte. Essa integração é o fôlego que a Zona Franca de Manaus precisa para ter preço e condições competitivas em relação aos outros países” – explica a deputada amazonense.

O Congresso Nacional promulgou dia 5 a prorrogação dos incentivos fiscais da ZFM até 2073. O PIM abriga mais de 600 indústrias, gerando mais de meio milhão de empregos, diretos e indiretos, principalmente nos segmentos de eletroeletrônicos, duas rodas e químico. Em 2006, o estado arrecadou das empresas do polo R$ 3,6 bilhões (com aumento de 71,52% em relação a 2002) e o governo federal, R$ 6,8 bilhões (alta de 102,86% em relação a 2002).

Na primeira reunião do Conselho de Administração da Superintendência da Zona Franca de Manaus (CAS/Suframa), após a prorrogação ZFM, foram aprovados 36 projetos industriais e de serviços, com investimentos de aproximadamente US$ 402 milhões, dos quais investimentos fixos, com geração de empregos projetada em 1.727 postos de trabalho.

Mas infraestrutura, logística e transporte deficientes oneram o preço final dos produtos, reduzindo a competitividade da ZFM no mercado nacional.

EDUARDO BRAGA

Pesquisa do Ibope/Rede Amazônica, divulgada dia 12, mostra que Eduardo Braga pode se eleger governador no primeiro turno, com    52%; José Melo (Pros), atual governador, segue-lhe com 24%.

Paraense de Belém, 54 anos, Eduardo Braga é amazonense até os ossos. Vereador em Manaus (1983-1985), deputado estadual (1987-1991), deputado federal (1991-1992), vice-prefeito (1993-1994), prefeito de Manaus (1994-1996) e governador do Amazonas (2003-2010), elegeu-se senador em 2010, pelo PMDB, com 42,07% dos votos (1.236.970).

Em caso de eleição de Eduardo Braga e Rebecca Garcia, a vice-governadora deverá ocupar uma secretaria especial, na qual pretende coordenar três grandes projetos: levar ensino técnico a todos os municípios do estado; construir moderna malha de escoamento dos produtos da Zona Franca; e sanear Manaus.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Capiberibe é o mais rejeitado para o governo do Amapá e Waldez Góes, acusado de desviar R$ 1 bilhão, lidera pesquisa do Ibope

BRASÍLIA, 21 DE AGOSTO DE 2014 – As costas do Amapá, o mais setentrional da Amazônia Azul e portal brasileiro para a América Central e o Caribe, recebem 20% da água doce superficial do planeta e 3 milhões de toneladas de húmus do rio Amazonas, por dia, o que as tornam as mais ricas do mundo em vidas do mar, embora sejam as mais mal guardadas pela Marinha de Guerra e, também por isso, as mais disputadas pela pirataria global.

A capital do estado, Macapá, na margem esquerda do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do Mar Doce, e seccionada pela Linha Imaginária do Equador, conta com aeroporto internacional, o porto mais estratégico da Amazônia, o de Santana, a BR-156, que a liga a Caiena, a capital da colônia francesa da Guiana, e esta às Américas Central e do Norte, e dista 8 horas de navio, ou 16 horas de barco, ou 40 minutos de 447, de Belém, o portal mais importante do Trópico Úmido, numa península, que, à noite, assemelha-a a uma gigantesca nave espacial, posicionada ao sul do Mundo das Águas – os rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá.

O Território Federal do Amapá foi criado em 1943 e passou a ser estado em 1990. Desde então, vem sendo objeto de pilhagem, que recrudesceu a partir de 2003, quando Lula Rousseff instalou a era da mediocridade, do mensalão e da roubalheira, em escala castrista-bolivariana. Os governadores que se sucederam nas terras da extinta nação dos tucujus fizeram apenas obras cosméticas e nenhuma estrutura de desenvolvimento estratégico.

Por exemplo: Macapá fica à margem do maior rio do planeta, o Amazonas, mas costuma faltar água na cidade; na capital do Amapá há edifício de 20 andares, mas não há esgotamento sanitário, muito menos estação de tratamento de esgoto; o Amapá conta com a hidrelétrica de Paredão e virtualmente com Tucuruí, mas blecautes são comuns na capital tucuju, e muitas das localidades do estado não conta com energia firme; o Amapá tem o maior potencial piscoso do planeta, mas sua universidade federal não oferece curso de oceanografia, muito menos de engenharia naval, ou de pesca; e a BR-156, única rodovia federal no estado e que o corta longitudinalmente, ligará Macapá à Caiena por asfalto, quando for concluída – a ponte cruzando o rio Oiapoque, construída em consórcio com a França, já está pronta.

Essa rodovia se constitui numa das maiores desfaçatezes perpetradas contra a burra na colônia – de Brasília, de São Paulo (que recebe 90% das toras ilegais arrancadas da Região Norte), dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia – que é a Amazônia. Começou a ser pensada junto com a criação do Território Federal do Amapá, em 1943, e a ser construída há mais de meio século, mas continua em construção, consumindo toneladas de dinheiro e cada vez mais cara.

Nestas eleições para governador, um magote de candidatos, todos afinados no canto da sereia, está de olho no Palácio do Setentrião. No dia 12, a jornalista mais lida de Macapá, Alcinéa Cavalcante, publicou no seu blog pesquisa do Ibope/Rede Amazônica de Televisão apontando o ex-governador Waldez Góes (PDT), de extensa folha corrida, liderando as intenções de voto. O atual governador, Camilo Capiberibe (PSB), filho do senador e ex-governador João Alberto Capiberiba (PSB/AP) e da deputada federal Janete Capiberibe (PSB/AP), vem em terceiro lugar, apesar de os Capiberibe mandarem no Amapá, principalmente agora que o senador Jeca Sarney (PTMDB/AP), que pulou (sic) de paraquedas em Macapá, pendurou sua escopeta de maior patrimonialista do país (anexou o Amapá ao Maranhão, onde até pouco tempo mandava e desmandava).

Na pesquisa – realizada de 8 a 10 de agosto, ouvidos 812 eleitores, com margem de erro de 3% para mais e para menos e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo 00348/2014 –, Waldez Góes (PDT) tem 40%; Lucas Barreto (PSD) 15%; Camilo Capiberibe  (PSB) 12%; Bruno Mineiro (PTdoB) 7%; Jorge Amanajás (PPS) 7%; Genival Cruz (PSTU) 2%; Décio Gomes (PCB) 1%; brancos e nulos 9%; e eleitores que não responderam ou disseram não saber em quem votar 7%. No quesito rejeição, Camilo Capiberibe (PSB) lidera com 68%; Waldez Góes 16%; Jorge Amanajás 6%; Lucas Barreto 5%; Bruno Mineiro 5%; Genival Cruz 4%; Décio Gomes 2%.

Carlos Camilo Góes Capiberibe, 42 anos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB) – de Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, governador de Pernambuco e candidato a presidente da República, morto recentemente em desastre aéreo –, nasceu em Santiago do Chile, em 1972, em razão do exílio político dos seus pais. É formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP) e mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Montreal, Canadá. Iniciou sua vida política no movimento estudantil e, em 2006, elegeu-se deputado estadual. Em 2008, tentou eleger-se prefeito de Macapá, mas foi derrotado. Em 2010, elegeu-se governador.

Antônio Waldez Góes da Silva, 53 anos, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), nascido em 1961 em Gurupá (PA), foi governador do Amapá de 2003 e 2010. Em 10 de setembro de 2010, foi preso pela Polícia Federal, durante a Operação Mãos Limpas, juntamente com outras 17 pessoas, dentre elas o vice-governador, Pedro Paulo Dias, todos acusados de integrar uma quadrilha que teria metido a mão em dinheiro da Educação do estado e da União, soma avaliada em R$ 300 milhões. Foi solto da carceragem da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, juntamente com o vice, em 20 de setembro daquele ano, quando recebeu um mandado de condução coercitiva na operação Mãos Limpas, resultado de investigações de desvio de verbas públicas no valor de R$ 1 bilhão no Governo do Amapá durante a sua gestão, com extensão na prefeitura de Macapá.

Deputado estadual de 1995 a 1999, concorreu à prefeitura de Macapá em 1996, mas perdeu para Aníbal Barcelos. Em 1998, disputou o governo do estado, mas foi derrotado por João Capiberibe, no segundo turno. Em 2002, quando foi eleito governador do Amapá, disputou o cargo no segundo turno com Dalva Figueiredo, do PT, reelegendo-se em 2006, já no primeiro turno. Deixou o governo no dia 4 de abril de 2010 para concorrer ao Senado, mas foi derrotado por Randolfe Rodrigues, do Psol, e por Gilvam Borges, do PMDB de Jeca Sarney.

Apontado pelo Ministério Público Federal como um dos pivôs do esquema de desvios, o ex-governador foi generosamente abrigado pelo deputado federal Bala Rocha (PDT) como assessor no escritório político que mantém em Macapá, onde trabalha para “recuperar a influência do PDT” no Estado, e nega qualquer participação nos desvios investigados pela Mãos Limpas.
O ex-prefeito de Macapá, Roberto Góes (PDT), primo de Waldez, também foi preso em outra fase da Mãos Limpas, por suspeita de participação num esquema de fraude nas licitações do município. Em 18 de dezembro de 2010, Roberto Góes voltou a ser preso pela Polícia Federal. Uma semana antes, os federais apreenderam R$ 35 mil na Secretaria Municipal de Finanças de Macapá, dinheiro supostamente oriundo de licitações fraudulentas. Escutas da PF captaram um diálogo em que Roberto Góes pede à irmã, Queila Simone Rodrigues da Silva, procuradora-geral do município, medidas que obstruíssem as investigações da PF. Roberto Góes ficou preso por quase 60 dias na penitenciária da Papuda, em Brasília. Solto em 11 de fevereiro de 2011, voltou ao cargo como se nada tivesse acontecido.

Em agosto de 2012, foi suspenso procedimento licitatório instaurado pela Secretaria Municipal de Saúde visando contratar a empresa Criativa Construções Ltda., ligada a um parente de Roberto Góes. Segundo o Ministério Público, a contratação teria como finalidade desviar receita para alimentar caixa 2 da campanha de reeleição do prefeito, derrotado por Clécio Luís, do Psol.

Luiz Cantuária Barreto, Lucas Barreto, 50 anos, aparece, na pesquisa do Ibope, na frente de Camilo Capiberibe. Do pragmático Partido Social Democrático (PSD), Lucas, natural de Macapá, foi deputado estadual quatro vezes, eleito a partir de 1990. Em 2008, foi candidatou à Prefeitura de Macapá, e em 2010, ao governo, pelo PTB, sempre derrotado. É vereador por Macapá.

Bruno Manoel Rezende, o Bruno Mineiro, 34 anos, do Partido Trabalhista do Brasil (PTdoB), nasceu em Belém, no Pará, em 1980; é formado em Engenharia Civil pela Universidade Fundação Mineira de Educação e Cultura, e empresário. Eleito deputado estadual em 2010, dois anos depois foi nomeado Secretário Estadual dos Transportes.

Décio Araújo Gomes, 45 anos, macapaense, é candidato ao governo pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Genival Cruz de Araújo, 36 anos, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), é de Caxias, Maranhão, é motorista de ônibus, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários (Sincottrap).

Jorge Emanuel Amanajás Cardoso, 48 anos, do Partido Popular Socialista (PPS), antigo Partido Comunista, natural de Chaves (PA), é professor, licenciado em Física e Engenharia Civil e pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal do Pará. Foi deputado estadual por três mandatos e chegou à Presidência da Assembleia Legislativa por duas vezes. Em 2010, candidato ao governo do Amapá, ficou em terceiro lugar.

Afinal, por que Camilo Capiberibe, com a máquina na mão, apresenta uma rejeição tão grande? E por que Waldez Góes, acusado de desviar R$ 1 bilhão dos cofres públicos, é franco favorito? Fica a pergunta ao eleitor do estado do Amapá.

sábado, 16 de agosto de 2014

CAROS LEITORES!

Aos que desejam adquirir meus livros disponíveis no mercado, segue-se lista a partir do mais recente.



















A CONFRARIA CABANAGEM – Thriller político-policial que mistura realidade e ficção. Personagens de ficção convivem com personalidades reais, como é o caso do lendário jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto. Interesses poderosos conspiram para que senador que lidera nas pesquisas para governador do Pará seja assassinado, aparentando morte natural. Confraria contrata detetive para impedir o assassinato. À medida que Apolo Brito investiga o caso, as entranhas da Amazônia vão sendo reveladas. Este romance de 210 páginas, lançado em setembro de 2014, está à venda somente no Clube de Autores na Amazon.com.

HIENA – História de detetive ambientada numa Brasília atolada em corrupção. Hiena investiga o assassinato de um senador degolado com uma katana em um hotel infestado de prostitutas de luxo, e faz a mais importante descoberta de sua vida. Este romance de 157 páginas, lançado em junho de 2014, está à venda somente no Clube de Autores e na Amazom.com.

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25) – Terceiro volume da trilogia de contos AMAZÔNIA.

Pode ser adquirido diretamente no site: www.lereditora.com.br

Livreiros devem fazer pedidos ao editor pelo e-mail:


Ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008

Endereço da Ler Editora: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430

À venda também:

Livraria do Chico, Ala Norte do Minhocão, no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), telefone (55-61) 3307-3254

O CASULO EXPOSTO (LGE/Ler Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 28) – Coletânea de contos ambientados numa Brasília real, e não na ilha da fantasia.

À venda:

Livraria Leitura do Conjunto Nacional de Brasília

Livraria do Chico, Ala Norte do Minhocão, no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), telefone (55-61) 3307-3254

Livraria Cope Espaço Cultural: Telefone (55-61) 3037-1017 – E-mail: copelivros@ibest.com.br – Endereço: Asa Norte – Quadra 409, Bloco D, Loja 19/43

Pode ser adquirido diretamente no site: www.lereditora.com.br

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Ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008

Endereço da Ler Editora: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Bloco B, Lote 49, Loja 59 – Brasília/DF - CEP 70610-430

TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (Edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 20) – Segundo volume da trilogia AMAZÔNIA

À venda:

Livraria do Chico, Ala Norte do Minhocão, no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), telefone (55-61) 3307-3254

Livraria Cope Espaço Cultural: Telefone (55-61) 3037-1017 – E-mail: copelivros@ibest.com.br – Endereço: Asa Norte – Quadra 409, Bloco D, Loja 19/43

Boa leitura! 

SENADOR É DEGOLADO EM HOTEL INFESTADO DE PROSTITUTAS NUMA BRASÍLIA ATOLADA EM CORRUPÇÃO


O país afunda em corrupção e o erário escorre pelo ralo em obras bilionárias e superfaturadas, que nunca terminam. Nada a ver com o Brasil atual. Trata-se de ficção, mesmo. Uma história de detetive. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana no suntuoso Tropical Hotel, infestado de prostitutas de luxo e que ocupa uma quadra inteira do Setor Hoteleiro Sul, na capital da República, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.

HIENA é o último romance de Ray Cunha, escritor nascido em Macapá, na Amazônia Caribenha, e que mora em Brasília, da qual, devido ao seu trabalho como jornalista, conhece os subterrâneos, bem como os bastidores do Congresso Nacional, além de ser também observador privilegiado dos seus palácios e dos seus shoppings, catedrais pós-modernas da Ilha da Fantasia.

Neste romance desfila um magote de personalidades reais, como, por exemplo, o maestro Silvio Barbato, ressuscitado para reger a Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro em dois clássicos: o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, e o Bolero de Ravel; as cantoras paraenses Carmen Monarcha, que se apresenta com André Rieu, e Joelma, da Banda Calypso; três artistas plásticos: José Pires de Moraes Rego, Olivar Cunha e André Cerino; e até a famosa personagem de ficção Brigitte Montfort.

UMA TOMOGRAFIA DA AMAZÔNIA HUMANA

Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25), fecha a trilogia que começou com A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com Trópico Úmido Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30), e que tem como espinha dorsal tanto o Inferno Verde quanto as metrópoles da Hileia. Na Boca reúne 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará).

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha.
“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de Na Boca do Jacaré-Açu, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.
Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu. Segue-se entrevista com RAY CUNHA.

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

O CASULO EXPOSTO: BRASÍLIA COMO ELA É

O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28), de Ray Cunha, enfeixa 17 histórias curtas ambientadas no submundo, inclusive político, de Brasília. O escritor trabalha desde 1987 como jornalista em Brasília, cobrindo amplamente a cidade-estado e o Congresso Nacional. “Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia, mas, como o escritor acaba envolvido ao meio onde vive, surgiu, assim, O casulo exposto” – lê-se na quarta-capa do livro, prefaciado pelo escritor Maurício Melo Júnior, apresentador do programa Leituras, da TV Senado. A capa é assinada pelo artista plástico, cartunista e chargista André Cerino.

O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte nos subterrâneos da cidade dos exilados. A fauna que transita na esfera política e chafurda nos subterrâneos da cidade-estado é heterogênea. Amazônidas que deixaram a Hiléia para trás e tentam sobreviver na fogueira das vaidades da ilha da fantasia, jornalistas se equilibrando no fio da navalha, políticos daquele tipo mais vagabundo, que não pensa duas vezes antes de roubar merenda escolar, estupradores, assassinos, bandidos de todos os calibres, tipos fracassados e duplamente fracassados misturam-se numa zona de fronteira fracamente iluminada. Mas a ambientação de sombra e luz tresanda, também, a perfume e romance.

*MARCELO LARROYED é mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília e autor, entre outros livros, do romance Eco


HUMOR E POLÍTICA NO COTIDIANO BRASILIENSE


O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

Neste seu novo livro de contos e novelas, Brasilienses, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor é são resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopéias.

Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Vêem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acreano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos Brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los.


JORNALISTA ALDEMYR FEIO ENTREVISTA RAY CUNHA

O que o levou a escrever O Casulo Exposto?

Costumo ambientar meus livros na Amazônia, especialmente Belém, minha cidade predileta. Porém vivo em Brasília, desde 1987. Do início de 1996 ao fim de 1997, voltei a morar em Belém, mas por questões profissionais retornei a Brasília. Uma estada tão longa nos leva a conhecer bem o ambiente onde vivemos; assim, é natural que comecemos a escrever algumas histórias com a geografia da cidade onde moramos. Em 2008, observei que já escrevera 17 contos ambientados em Brasília e com personagens que são, quase sempre, migrantes, que transitam nas ruas e nos meios jornalísticos e políticos da cidade-estado. Submeti os 17 contos à leitura do Maurício Melo Júnior, escritor talentoso e crítico literário bem-preparado. Ele escreveu a apresentação do livro e sugeriu que o levasse ao Antonio Carlos Navarro, diretor da LGE Editora, que resolveu editá-lo.

Maurício Melo Júnior, ao apresentar o livro, afirma que “O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias”. Por que?

Um dos fios condutores de O casulo exposto são as personagens, em geral migrantes, às vezes frustrados ou duplamente frustrados. As epopeias a que Maurício se refere é a construção de Brasília - uma fase da cidade que já acabou. Restaram os candangos bem-sucedidos, como o empresário Paulo Octávio, dono de boa parte da cidade, e muita gente que mora em assentamentos e invasões. Migrantes continuam chegando, mas agora tudo está lotado. Os contos, portanto, não enfocam uma epopeia, mas a miudeza do dia-a-dia na capital da república.

Maurício também afirma: “Ray Cunha ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel”. O que ele quis dizer com isso?

Algumas das personagens dos contos são tragicômicas. Outras, apenas trágicas. Creio que o humor cáustico a que Maurício se refere é o que costumamos chamar de humor negro, quando situações, apesar de dramáticas, ou trágicas, contêm, mesmo assim, viés risível.

Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia. Qual a sensação de escrever um livro "candango", ou seja, produzido com as coisas que acontecem em Brasília?

É a mesma sensação de trocar pirão de açaí com dourada frita por pão de queijo, ou de trocar a Estação das Docas por shopping. São duas situações absolutamente diferentes. No meu caso pessoal, caio de joelhos por tudo o que diz respeito à Amazônia, mas também curto Brasília. Assim, sinto-me perfeitamente à vontade tanto na Amazônia como em Brasília.

“O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade...” mas “também tresanda a perfume, romance e esperança, nas luzes da grande cidade”. Dá para explicar?

O casulo do título evoca o fato de que Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em termos práticos, não se pode mudar a arquitetura original do Plano Piloto de Brasília, que compreende o projeto do urbanista Lúcio Costa, excluindo-se as cidades-satélites. Então, o Plano Piloto é protegido sob uma redoma legal, um engessamento legal. É Patrimônio Cultural da Humanidade, mas nas suas ruas e nos seus subterrâneos não há romantismo, como em toda metrópole brasileira, inchadas e perigosas. Apesar disso, há contos de puro perfume, romance e esperança. O conto que encerra o livro, A Caça - que inclusive já foi publicado pela Editora Cejup (editora de Belém do Pará) -, quase no fim, refere-se às luzes de Brasília e termina no quarto de um bom hotel.

Você acha que o leitor vai entender as suas colocações contidas no Casulo?

Certamente que sim. A literatura, como qualquer arte, tem algo maravilhoso. No seu caso específico, as palavras remetem o leitor a mundos que são somente dele. O escritor é um mero porteiro. Lembrei-me de um caso que ocorreu com William Faulkner. Alguém o informou que leu duas vezes um livro seu e não entendeu a história. Faulkner sugeriu que lesse mais uma vez.

Nos casos relatados no livro você teve alguma participação ou foram vivenciados apenas superficialmente?

O senso comum mistura atores com personagens e acredita que ficção é o que conhecemos como realidade. Se assim fosse, quantos escritores não estariam atrás das grades por assassinato? O fato é que até nas autobiografias há mais ficção do que realidade. O escritor que faz seu trabalho com seriedade não está interessado em jornalismo. Estou certo de que pelo menos 75% do que os jornais publicam originam-se de interesses dos donos, de ideologia, de conjecturas, de boatos, ou de mentiras pura e simplesmente. Também o escritor não está interessado em si mesmo, pois todos os escritores são pessoas comuns e, muitas vezes, introvertidas. Qual a participação que um escritor pode ter numa história que se passa em outro planeta? Como Antoine de Saint-Exupéry criou O Pequeno Príncipe? Esta é a diferença: as antenas especiais com que os escritores nascem, o que permitiu, por exemplo, que Ernest Hemingway criasse uma mulher abortando, em Adeus às Armas, ou que John Steinbeck desse vida a uma mulher que acaba de perder seu bebê recém-nascido e dá de mamar a um ancião que está morrendo de fome, em Vinhas da Ira.

Quem é Ray Cunha?

Nasci em Macapá, na margem direita do estuário do rio Amazonas, cortada pela Linha Imaginária do Equador, em 7 de agosto de 1954. Fui educado na Amazônia. Conheço a Hiléia razoavelmente, por longa leitura e por ter estado lá. Vivo em Brasília por uma questão de mercado de trabalho. Aqui, consigo oferecer à minha família razoável padrão de vida, sustentado pela minha profissão, jornalismo. Literatura, para mim, é minha missão pessoal. Embora morando em Brasília, a internet me permite ficar ligado o tempo todo à Amazônia. Tenho ligação íntima com Belém, um dos meus grandes amores, e, naturalmente, com Macapá. Quanto a Brasília, já somos velhos namorados. Brasília me deu duas mulheres fundamentais: minha esposa, Josiane, e minha filha, Iasmim.

TRÓPICO ÚMIDO

Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 20) reúne três histórias curtas com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó. Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador; um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca. A Grande Farra narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA


A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi.

sábado, 9 de agosto de 2014

Lúcio Flávio Pinto, lendário jornalista da Amazônia, vira personagem em A CONFRARIA CABANAGEM, novo romance de Ray Cunha



O lendário jornalista LÚCIO FLÁVIO PINTO, execrado pelo stablishment de Belém
do Pará, só não foi eliminado, 
literalmente, porque se tornou uma
celebridade internacional. No novo romance de Ray Cunha, A CONFRARIA
CABANAGEM, Lúcio transita entre personagens de ficção







Por MARCELO LARROYED*

BRASÍLIA, 9 DE AGOSTO DE 2014 – O senador Fonteles, conhecedor da Amazônia profunda e ciente de que a tragédia do Trópico Úmido é a mentalidade do colonizado, tornou-se a esperança de todos que querem tirar da Idade Média o Pará, concorrendo ao governo contra o ex-governador Jarbas Barata, que domina o estado. Porém, uma organização clandestina, a Confraria Cabanagem, que luta pela democracia e o desenvolvimento do Pará, detecta uma conspiração para assassinar o senador Fonteles, e convoca o único homem capaz de deter o assassino: o ex-delegado de polícia e detetive particular Apolo Brito, que mora em Brasília. Ao investigar o complô, Apolo Brito mergulha na questão amazônica.

Eis a trama do novo romance de Ray Cunha, A CONFRARIA CABANAGEM, a ser lançado em setembro, provavelmente por uma editora de São Paulo. Como romance ensaístico, a questão amazônica permeia a trama político-policial deste thriller de tirar o fôlego, com ação intensa que lembra outros trabalhos do escritor amapaense, como, por exemplo, no conto INFERNO VERDE, publicado no livro TRÓPICO ÚMIDO, segundo volume da trilogia AMAZÔNIA, e também no O CASULO EXPOSTO.

O lendário jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores intérpretes do enigma da Amazônia, vira personagem do romance ensaístico A CONFRARIA CABANAGEM, assim como a própria Belém do Pará, protagonista em vários contos de Ray Cunha.

O último lançamento do escritor macapaense é o romance HIENA, também uma história de detetive, mas agora ambientada numa Brasília atolada até o pescoço em corrupção. “Nada a ver com a ilha da fantasia real” – adverte Ray Cunha. O detetive Hiena investiga o assassinato de um senador, degolado com uma katana, no Tropical Hotel, catedral de prostitutas de luxo, no Setor Hoteleiro Sul, e faz a mais importante descoberta da sua vida.

Já no início deste ano, Ray Cunha lançou o livro de contos NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, terceiro volume da trilogia AMAZÔNIA, que teve início com A GRANDE FARRA (1992).


SERVIÇO

HIENA – À venda no Clube de Autores; e na Amazon.com

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É – À venda na Ler Editora; Sebinho; e Livraria do Chico (UnB, Minhocão Norte)

O CASULO EXPOSTO – À venda na Ler Editora; Livraria Leitura do Conjunto Nacional/Brasília; Livraria Cope Espaço Cultural (Telefone 3037-1017; e-mail: copelivros@ibest.com.br – 409 Norte, Bloco D, Loja 19/43); e Livraria do Chico (UnB, Minhocão Norte)

TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – À venda na Livraria Cope Espaço Cultural (Telefone 3037-1017; e-mail: copelivros@ibest.com.br – 409 Norte, Bloco D, Loja 19/43); e Livraria do Chico (UnB, Minhocão Norte)


O jornalista que mais entende de Amazônia

RAY CUNHA

Qualquer estudioso que pretenda entender o Brasil não pode se furtar a compreender também a Amazônia, a mais rica província biológica e mineral do planeta, e de uma beleza arrebatadora para quem aprende a vê-la além do coração das trevas. E o cânone para entender a Amazônia lista cinco escritores paraenses: os romancistas Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro, ambos mortos; o poeta e ensaísta João de Jesus Paes Loureiro; o ensaísta Vicente Salles; e o ensaísta e jornalista Lúcio Flávio Pinto. É de Lúcio Flávio Pinto que vou falar.

Ele é um dos mais importantes jornalistas brasileiros e o intelectual que mergulhou mais profundamente nos tecidos da Amazônia, até conhecê-la tão intimamente, e transmitir isso com tanta propriedade, que seu Jornal Pessoal e seus livros se tornaram consulta obrigatória de estudiosos e do stablishment, principalmente o stablishment do estado do Pará, especialmente os que têm pavor da sua caneta.

Lúcio Flávio Pinto nasceu em Santarém, em 23 de setembro de 1949. Jornalista profissional desde 1966, trabalhou em algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Em 1988, deixou a grande imprensa para se dedicar ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde a primeira quinzena de setembro de 1987, em Belém, tornando-se a publicação alternativa de existência mais duradoura do país.

Lúcio Flávio Pinto recusa publicidade no Jornal Pessoal, que sobrevive da venda avulsa, sobretudo em bancas de revista e livrarias de Belém, a mais importante cidade da Amazônia. O Jornal Pessoal, em formato ofício, tem 12 páginas e não tem fotos.

Certas informações e abordagens sobre a Amazônia só aparecem no Jornal Pessoal, razão pela qual Lúcio Flávio Pinto é vítima de implacável perseguição dos donos do poder. Já sofreu mais de 30 processos na Justiça do Pará e foi condenado quatro vezes pelo crime de escrever a verdade, vivendo em um Estado mergulhado na Idade Média, região bárbara de um país violento. Lúcio Flávio Pinto já foi surrado em público e só continua vivo porque se tornou maior do que o Pará.

Sociólogo, formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1973), foi professor visitante (1983/1984) no Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida, em Gainesville, Estados Unidos, e foi professor visitante no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) e no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), que, em 1988, considerou o Jornal Pessoal a melhor publicação do Norte e Nordeste do país. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005, recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection, de Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos.

Tem mais de uma dúzia de livros publicados, todos sobre a Amazônia, entre os quais: Hidrelétricas na Amazônia; Internacionalização da Amazônia; CVRD: A sigla do enclave na Amazônia; Guerra Amazônica; Jornalismo na linha de tiro; e Contra o Poder.

O site www.lucioflaviopinto.com.br contém as edições do Jornal Pessoal, “disponíveis para consultas por todos aqueles que se interessam pela Amazônia e pelo jornalismo independente”. Todo acervo da publicação vem sendo, aos poucos, disponibilizado no site.

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*MARCELO LARROYED é escritor, mestre em Teoria Literária pela UnB