quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Capítulo 7 do romance A CONFRARIA CABANAGEM, de RAY CUNHA

Eram 9 horas quando Batista Campos embarcou no iate de Henrique Bolonha, ancorado no trapiche do distrito de Icoaraci, a Vila Sorriso, como o batizara o jornalista Aldemyr Feio. Foi conduzido para o convés, onde já se encontravam Henrique Bolonha, Gilberto Soares Fonteles e Apolo Brito. Os homens se sentaram em torno de uma mesa, em confortáveis cadeiras de palhinha. Assim que Batista Campos embarcou o iate se moveu rumo à baía de Guajará, juntando-se a centenas de embarcações que iam se aglomerando ao longo dos 18 quilômetros até a Escadinha do Cais do Porto.
– Enquanto apreciamos a romaria fluvial da Virgem conversaremos sobre política, e o destino do nosso querido estado – disse o líder cabano.
– Certamente – Apolo Brito concordou, saboreando unha de caranguejo e uma xícara de café Três Corações, gourmet.
– Creio que já tens uma linha de ação... baseada na nossa teoria da conspiração – disse Batista Campos, com o belo sotaque do mundo elegante de Belém do Pará.
– Jarbas Barata pode ganhar as eleições? – Apolo Brito perguntou.
– A última pesquisa, ampla, que mandamos fazer, mostra que o titio ganhará, embora com pequena margem – observou Gilberto Soares Fonteles.
– Um empate técnico? – volveu o detetive.
– Um empate técnico – respondeu Gilberto Soares Fonteles.
– Conheci um empresário inglês, um misto de empresário, espião e aventureiro, que me fez uma inconfidência, obviamente sem sequer sonhar que sou alguém além de um velhinho caridoso. E depois, ele estava apenas me sondando também. Conversamos longamente, no café do Hilton Internacional Belém, sobre negócios, especialmente minerais. Ficou claro, na conversa, que a atuação do senador Fonteles na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, contra a demarcação contínua da reserva indígena Raposa e Serra do Sol, na fronteira de Roraima com a região em litígio entre a Venezuela e a Guiana, mudou o entendimento da mídia, e jurídico também, que se tinha da questão das terras indígenas na Amazônia. Raposa e Serra do Sol estão montadas sobre uma província mineral espantosa, tanto de minerais estratégicos quanto de pedras preciosas, como, aliás, grande parte da Amazônia, especialmente Roraima, que, a propósito, foi transformada praticamente em terra indígena, nas quais o Exército é proibido de entrar, mas onde cientistas estrangeiros, principalmente ingleses, entram e saem à vontade. No Pará, há interesse especial numa região que compreende os altos rios Jari e Paru de Este, a tríplice fronteira entre o Pará, o Suriname e a Guiana, o Parque Indígena do Tumucumaque e o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, na Serra do Tumucumaque, e os municípios de Serra do Navio e Laranjal do Jari, no Amapá. Nessa região, também, o potencial mineral é algo inimaginável, sem considerarmos a quantidade incrível de madeira de lei. Como vocês sabem, a região mencionada é uma espécie de cinturão no setentrião brasileiro. A dimensão do que estou dizendo vai além do governo do Pará; é uma questão amazônica, e a soberania do Brasil sobre a Amazônia é frágil – Henrique Bolonha divagou.
– De fato, a região entre o Amapá e o Pará, a Guiana Francesa, o Suriname e a Guiana, forma uma fantástica província mineral, além de biológica. Guarda desde ouro a urânio, de ferro a nióbio, fora, naturalmente, pedras preciosas. A madeira pode vir a ser contrabandeada numa escala que deixaria longe os portugueses, mesmo considerando 400 anos de envio de toras para Portugal e a Europa. Quanto à biotecnologia, somente a região do rio Paru, uma fração do continente amazônico, guarda incalculável tesouro em matéria-prima. Isso, sem falar em ouro. Há mais ouro, ali, do que o lastro do dólar americano. Contudo, descobri também algo interessante: água – disse Apolo Brito.
– Água?!
– Água. Há, em terras ao norte do Pará, água mineral cristalina, além da água dos rios da região, e a do próprio rio Amazonas. Mas há algo ainda mais interessante. Descobri que basta um alfinete embebido em Phyllobates terribilis, na nuca do senador Fonteles, durante uma massagem da sra. Eleonora, e ele irá para o nirvana – continuou Apolo Brito.
–  Phyllobates o quê? – perguntou Batista Campos.
– Phyllobates terribilis – disse Apolo Brito. Gilberto Soares Fonteles não desviava os olhos do detetive. – Sei o que tu estás pensando – disse o detetive, dirigindo-se a Gilberto. – Repetindo as palavras de Batista Campos, Eleonora já foi exaustivamente investigada, grampeada, vigiada, bem como sua família, seus amigos e subordinados, e nada foi encontrado. Além disso, a Juliane já descartou completamente qualquer participação de dona Eleonora em qualquer coisa que possa prejudicar o senador Fonteles. Mas quem poderia chegar mais perto do senador, fora a Juliane e o Betão, senão dona Eleonora?
– Por que ela faria isso? – indagou Batista Campos.
– Há muito dinheiro em jogo. Descobri que a Icomisa é a fachada de outro negócio, que envolve madeira, biotecnologia e até água, e isso vem ao encontro da informação do Henrique Bolonha – respondeu o detetive.
– Então essa teoria de que a Inglaterra está tentando se apossar do setentrião amazônico é verdadeira? – perguntou o cirurgião.
– Eu não diria se apossar. Não, isso não. Não creio que algum país, nem os Estados Unidos, teria disposição para invadir a Amazônia. Além de quebrar, perigosamente, o equilíbrio político global, as baixas nas fileiras do invasor significariam um custo demasiadamente alto, pois ninguém conhece melhor a Amazônia do que os índios enfileirados no Exército e oficiais das Forças Armadas que passaram mais da metade da vida deles na Hileia. A posse da Amazônia não se dá com armas convencionais. Ela sempre aconteceu, desde sempre; agora, de uma maneira moderna. O Japão, por exemplo, em vez de importar bauxita, fabrica alumina no nosso quintal, utilizando energia hidroelétrica de Tucuruí. E a ocupação só se dá porque Brasília trata a Amazônia como lixo. O Brasil não conhece a Amazônia, e se não a conhece, é como se não a tivesse. A Universidade de São Paulo conta com mais pesquisadores do que todas as instituições científicas da Amazônia, embora a Amazônia, sozinha, tenha potencial para bancar o país; bastaria que se desenvolvesse uma política de estado, de pesquisa e industrialização biotecnológica e infraestrutura para o turismo. Essa é a redoma de que a Amazônia precisa – disse Batista Campos. – Mas dona Eleonora está limpa. Seus passos foram acompanhados de perto, para onde quer que fosse. Ela esteve na Inglaterra, nesse meio tempo, mas seus contatos foram checados pelo nosso homem em Londres, um cabano que cumpre doutorado em geociências, devidamente treinado para espionar. Os contatos de dona Eleonora em Londres são estritamente empresariais. No Pará, a mesma coisa. Não descobrimos nada que possa torná-la suspeita.
– Isso a torna a pessoa ideal para eliminar o senador – disse Apolo Brito.
– Sim, é verdade – disse Batista Campos. – Não havia pensado nisso. O que fazer, então? Não podemos afastar dona Eleonora do senador, até o desfecho das eleições, pois ela é um cabo eleitoral importante, conquistou meio mundo empresarial e angariou uma fortuna. Se a sequestrarmos será um baque tão grande para o senador que ele desistirá da campanha; se a matarmos, não teremos mais governador; se conversarmos com o senador, faremos um inimigo; se procurarmos dona Eleonora, estaremos perdidos. O que fazer? A menos que Apolo Brito consiga uma prova convincente de que há uma conspiração em andamento para eliminar o senador Fonteles...
Todos olharam para o detetive.
– E há – disse Apolo Brito. – Juliane encontrou, no cofre no escritório de dona Eleonora, em casa, uma pasta contendo um caderno com o seguinte título: “Propriedades do veneno da Phyllobates terribilis”.
Centenas de embarcações iam se juntando com destino ao Porto de Belém. Navios, catamarãs, iates, barcos, lanchas, veleiros, ubás, canoas, formavam uma correnteza dentro da baía. O iate mais próximo estava todo decorado e se ouvia o hino da Virgem. No seu convés se moviam lindas mulheres, tipos que só era possível se desenvolverem em Belém do Pará, um cadinho depurado ao longo de séculos. As portuguesinhas, por exemplo, descendentes de lusitanos, são encontradas no Brasil todo, principalmente no Sudeste e Sul do país, mas as portuguesinhas de Belém, além do sotaque belenense – aquele som chiado e pontilhado de palavras tupis e o indefectível “Égua!” –, trajam-se com leves vestidos decotados e sandálias japonesas, que as deixam à vontade, como índias, e seus quadris, avolumados pelos genes africanos que em algum momento foram despejados no cadinho, são duplamente convexos, alabastrinos, causadores de delírios. E as mulheres da Amazônia se comportam diferentemente das mulheres de todo o restante do país. Não é conta bancária gorda, nem automóvel, nem status, que as atraem num homem. Se um homem as atrai, vão lá e o pegam, e o levam para seu leito. Simples assim. E também não estão preocupadas se isso desabonaria sua honra. Simples assim.
Uma bela lancha, cheia de mulheres, passou a pequena distância do iate. Ali estava confirmada a tese desenvolvida por Apolo Brito. Entre as jovens, notou a presença de uma mulata cor de canela que o reportou à Praça da Sereia. Um dos seus programas favoritos era flanar pela cidade. Sentava-se na Praça da Sereia para ler O Observador Amazônico. Depois que o lia, punha-se a observar o chafariz e as sereias, de nádegas arredondadas, fartas, esculpidas por um artista consciente da sensualidade das sereias amazônidas. Juliane tinha o mesmo corpo das sereias da praça, e, no lugar de rabo de peixe, pernas bem torneadas.
Às 11h30, duas horas e meia depois, cerca de 500 embarcações de todos os tipos, lideradas pelo navio da Marinha de Guerra que levava a imagem da Virgem, aportaram na Escadinha do Cais do Porto, na Praça Pedro Teixeira, no Boulevard Castilhos França com a Avenida Presidente Vargas. Foguetes explodiam a todo instante. Então a multidão, comprimida na praça, começou a se dispersar, muitos indo para as paradas de ônibus rumo às suas casas. O iate seguira, vagaroso, até fundear ao largo do Forte do Castelo. O almoço foi servido. Pescada ao molho de camarão.
– Era o dia 12 de janeiro de 1616 quando os portugueses desembarcaram aqui, sob o comando de Francisco Caldeira Castelo Branco, oriundos do Maranhão. Começaram a construir o Forte do Presépio e chamaram ao lugar de Santa Maria de Belém, ou Feliz Lusitânia – começou Batista Campos, como se estivesse dando uma aula. – Nós, amazônidas, sempre estivemos à margem do Brasil, e, no entanto, temos 16% de toda a água de rio que desemboca no mar. O rio Amazonas é o maior rio do mundo, 140 quilômetros mais longo do que o rio Nilo, que era tido como o mais comprido do planeta. A comprovação foi feita por uma das mais sérias instituições científicas do Brasil, o Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que utilizou dados obtidos em expedição à nascente do Amazonas e imagens de satélite. A pesquisa foi apresentada à comunidade científica no Simpósio Latino-Americano de Sensoriamento Remoto, em setembro de 2008, em Cuba. Agora, o rio Amazonas mede 6.992,06 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Os livros de geografia que tratam do assunto serão reeditados. O geólogo Paulo Roberto Martini, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, disse que as medições antigas foram feitas sem o uso de metodologias científicas; isso mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm que ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. – Todos se prepararam para mais. Quando Batista Campos começava a divagar sobre o rio Amazonas, que era sua especialidade, juntamente com o arquipélago de Marajó, ao qual chamava de Mundo das Águas, não parava mais de falar. – O Amazonas foi chamado pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pizón, em 1500, de Mar Doce; o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas, em 1542. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões, e nós, do Pará e Amapá, chamamos de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do mundo, formada por 7 mil afluentes, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas, de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, banhando 17% do Peru, 2,2% do Equador, 11% da Bolívia, 63% do Brasil, 5,8% da Colômbia, 0,7% da Venezuela e 0,2% da Guiana. A bacia amazônica conta com 25 mil quilômetros de rios navegáveis. Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que a Europa. – Batista Campos parara de comer para falar sobre o grande rio. – Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, a mil quilômetros do mar e a garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade. Fora do estuário, a parte mais larga se situa próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros; chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz.
– E a vazão? – perguntou Apolo Brito.
– A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías de Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tâmisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos. O Amazonas despeja também no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, escancarando-se do arquipélago do Marajó até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia. Pois bem, as costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhadas de piratas, que vêm pegar, de arrastão, lagosta, camarão e outros frutos do mar – continuou Batista Campos.
– Nunca compreendi direito o Mar Dulce – disse Henrique Bolonha.
– O Mar Dulce é o rio Amazonas. Confunde-se o Amazonas com o emaranhado de água que banha o arquipélago de Marajó. O caso é que o arquipélago de Marajó, que se derrama debaixo da Linha Imaginária do Equador, emerge das águas do maior rio do mundo a noroeste; do rio Pará, ao sul; do rio Tocantins, a sudeste; e do oceano Atlântico, a nordeste. É impossível dizer com precisão quantas ilhas integram o arquipélago, pois há sempre novas ilhas emergindo ou sucumbindo na ditadura das águas. Contudo, registram-se 1.200 ilhas, a maior delas, Marajó, do tamanho de Portugal, a maior do planeta em águas salobras – disse Batista Campos, aproveitando para falar sobre outra de suas paixões: o Marajó. – No Mapa Múndi, Marajó se destaca maior do que a Jamaica, Porto Rico ou Trinidad e Tobago, no Caribe, ou do que a Córsega, na França mediterrânea, ou a ilha de Creta, no mesmo mar europeu-africano. O arquipélago é rico. Suas praias atlânticas são deslumbrantes; seus açaizais, imensos; seu rebanho bubalino, o maior do Brasil; sua cerâmica, exportada para o mundo inteiro, via Icoaraci; sua produção de frutos do mar faz do Pará o maior produtor de peixe do país; e o genial romancista Dalcídio Jurandir nasceu no município marajoara de Ponta de Pedras. No entanto, nesse arquipélago paradisíaco, curumins morrem devorados por verme, ameba, giárdia e malária; crianças são estupradas dentro de carros enquanto balsas cruzam os rios, e no interior de embarcações; ratos d’água atacam casas de ribeirinhos e estupram as mulheres, e contrabandistas pilham sítios arqueológicos e traficam para a Europa a cerâmica mais famosa do Brasil. Os governos federal e do Pará estiveram, sempre, de costas para o paraíso. Bastaria que estendessem o linhão de Tucuruí e construíssem a hidrovia do Marajó para que a região mais estonteante da Terra desabrochasse do seio das águas. A proximidade da hidrovia do Marajó com o porto de Santana, na zona metropolitana de Macapá, possibilitaria que produtos paraenses, como, por exemplo, açaí, piramutaba, cerâmica de Icoaraci e minérios, chegassem aos Estados Unidos, Europa e Japão com redução de custo. Essa é uma das maneiras de desenvolver a Amazônia, e não as balelas do governo federal.
Batista Campos não parava de falar. Lembrava uma enciclopédia ambulante sobre a Amazônia. “Os portugueses dizimaram pelo menos 2 milhões de índios na Amazônia brasileira, cifra estimada pelos pesquisadores, baseados em relatos de quem escreveu a história, que são os próprios portugueses, daí que o número deve ser muito maior, fora o outro tanto assassinado pelos espanhóis. Muitos desses índios foram torturados e mortos de modo infame, como barata, esmagados, seccionados pela espada lusitana. Até a Inquisição condenou índios. São cinco séculos de matança, de perseguição, de discriminação, de intolerância, cinco séculos de saque. Andaram atrás do El Dorado, que supunham localizar-se na mítica cidade de Manoa, à margem de um suposto lago Parima, nas montanhas das Guianas, e estiveram sempre sobre o El Dorado. O El Dorado é a própria Amazônia. Mas eles não poderiam levar a Amazônia para a Europa. Bem que tentaram, e foram derrotados. Nunca, porém, desistiram. O que ficou foi esse cadinho étnico maravilhoso, a amálgama das nações amazônicas com o português invasor e o africano escravo, e formamos este subcontinente sem rumo. Hoje, o caboclo, que odeia ser chamado de índio, e o mestiço, que detesta ser chamado de preto, são subjugados pelos governos mulatos, cafuzos e mamelucos, que se sucedem em Brasília e querem ser chamados de brancos, e também não têm rumo, ou melhor, só enxergam dinheiro. A raça humana viveu, sempre, numa contradição tremenda: sabe que se destruir a natureza destruirá a si mesma. É como um diabético que tem consciência de que quanto mais comer, quanto mais ingerir açúcar, terá primeiramente as extremidades do seu corpo amputadas, depois os membros e, finalmente, seus rins, seu coração, ou qualquer outro órgão fundamental, mas continua comendo em excesso; a raça humana sabe que se destruir a natureza destruirá a si mesma, mas continua devastando-a, destruindo-a, com a mesma determinação hereditária do escorpião, que carrega uma arma mortal no rabo. Somente uma pequena parte da humanidade evoluiu espiritualmente, enquanto a esmagadora maioria deu alguns passos adiante apenas na tecnologia, passos infinitamente pequenos frente ao tamanho de Deus. No Pará, acontecem coisas como prender uma menina numa cela com dezenas de bandidos violentos, durante um mês, e vê-la violentada, torturada, várias vezes por dia, todos os dias, com o consentimento da delegada, do secretário de segurança pública, da juíza de menores e da cidade onde isso ocorreu, Abaetetuba, no quintal de Belém. Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro são o Brasil de fato; nós somos o coração das trevas. A Amazônia nada mais é do que objeto de expectativas, de preconceito, de verdades pré-estabelecidas. Os valores que frequentemente lhe atribuem são falsos, deformados: o El Dorado, as amazonas, o inferno verde, o celeiro do mundo, o pulmão do planeta. Não conseguimos vê-la com lucidez, vemo-la sempre pela ótica dos luso-paulistanos, distorcida, colonialista – dizia Batista Campos.
Chovera. A costumeira chuva de todos os dias, como se fora um ritual da natureza. A tarde escorria, lenta, ao mormaço, a cidade mergulhada nos vagos sons das ruas meio desertas. Apolo Brito tomou a Avenida Presidente Vargas e percorreu-a toda, dobrando na Avenida Nazaré, até o Colégio Gentil Bittencourt, aonde chegou precisamente às 17h30, certo na saída da Transladação, a condução da imagem de Nossa Senhora de Nazaré para a Catedral da Sé, na Cidade Velha. A procissão tomou a Avenida Nazaré e foi fluindo, como um rio que naturalmente corre para a baía de Guajará. Índios, negros, descendentes de europeus, mulatos, mamelucos, cafuzos, ricos e pobres, gente linda e feia, todos se irmanavam diante da Virgem. As portuguesinhas eram sempre lindas, com sua pele leitosa e rosada, quadris e lábios generosos, cabelos geralmente longos e negros, e olhos de mel, de esmeralda, ou da cor do céu de agosto, além do que mais as caracterizavam, o sotaque belenense e pouca roupa. Quando a procissão chegou à Avenida Presidente Vargas, os círios pareciam pequenas bolas de fogo avançando lentamente como a própria noite que se acamava sobre a península belenense, uma grande nave espacial pronta para alçar voo sobre o Mundo das Águas. Apolo Brito tomou pela Avenida Assis de Vasconcelos rumo à sede da Companhia Docas do Pará, na Avenida Presidente Vargas 41, belo edifício em art déco projetado pelo arquiteto alemão Oswald Massler e inaugurado em 1940, para sediar a inglesa Booth Line. Tinha convite VIP para entrar no prédio. Seguiu para o terraço, onde se encontravam várias famílias importantes. Foi até o peitoril e olhou para baixo: centenas de milhares de pessoas aglomeravam-se em torno da Praça dos Estivadores, na esquina de Avenida Presidente Vargas com o Boulevard Castilhos França. Às 19h30, ouviu-se a sirene do prédio em art nouveau, projetado por Francisco Bolonha e inaugurado em 1895, do jornal Folha do Norte, na Rua Gaspar Viana com a Travessa Primeiro de Março, de fundo para a Praça dos Estivadores. Aí começou o espetáculo pirotécnico, homenagem dos estivadores à Virgem. O tempo parou sob as luzes dos foguetes, que se diluíam no ar, em ouro, prata e pedras preciosas, enquanto a romaria, sempre lenta como o rio Amazonas, avançava sob as luzes dos círios e da cidade. Apolo Brito desceu as escadas do prédio da CDP, tomou pela Avenida Presidente Vargas e depois pelas ruas João Alfredo e Padre Champagnat, até a Catedral da Sé, onde aguardou a chegada da Transladação, às 23h43, após 6 horas e 13 minutos de caminhada. Soube depois que segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socieconômicos (Dieese) cerca de 1,3 milhão de pessoas tinham acompanhado a Virgem. “O senador Fonteles não saiu de casa, mas participará do Círio, amanhã” – pensou.

A CONFRARIA CABANAGEM está à venda somente no Clube dos Autores

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Capítulo 8 do thriller político-policial A CONFRARIA CABANAGEM, de RAY CUNHA

Círio Fluvial de Nossa Senhora de Nazaré 2010. Saída
da Vila Sorriso e chegada na Estação das Docas

O novo romance de Ray Cunha mistura realidade e ficção. Senador lidera nas pesquisas para governador do Pará, mas interesses poderosos conspiram para que ele seja assassinado, aparentando morte natural. Conhecedor da Amazônia profunda e ciente de que a tragédia do Trópico Úmido é a mentalidade de colonizado da maioria dos amazônidas, o senador Fonteles, que lidera nas pesquisas eleitorais, se tornou a esperança dos que querem tirar o Pará da Idade Média, concorrendo ao governo contra o ex-governador Jarbas Barata, que governa das sombras o estado. Porém, uma organização clandestina, a Confraria Cabanagem, que luta pela democracia e o desenvolvimento do Pará, detecta uma conspiração para assassinar o senador Fonteles, e convoca o único homem capaz de deter o assassino: o ex-delegado de polícia e detetive particular Apolo Brito, que mora em Brasília.

Some do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) um frasco com ínfima porção de homobatracotoxina, o mortal veneno do Phyllobates terribilis, juntamente com um muiraquitã, branco, de jadeíta, de 50 milímetros, pesando 42 gramas, de 2.500 anos, uma peça tapajônica sem preço. Em conversa com o assessor de imprensa do museu, o jornalista Montezuma Cruz, Apolo Brito descobre indícios de que estariam traficando água do rio Amazonas, e mergulha na chamada questão amazônica, e em símbolos caros aos paraenses, como o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o Ver-O-Peso, a Estação das Docas, o tacacá.

Neste romance ensaístico, personalidades vivas transitam entre personagens de ficção, como é o caso do lendário jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores intérpretes mundiais do enigma da Amazônia, que se encontra com o fictício detetive Apolo Brito no restaurante Restô do Parque, na ex-residência oficial dos governadores do Pará, na Avenida Magalhães Barata 830, antiga Avenida Independência, no bairro de São Brás, palácio erguido no início do século passado, em estilo eclético, em que predomina o neoclássico, e elementos de art nouveau, e que, em 1998, passou a ser chamado de Parque da Residência, onde moraram os dois mais ilustres governantes da história recente do Grão-Pará: Lauro Sodré (1917-1921) e Magalhães Barata (1888-1959).

CAPÍTULO 8

No dia seguinte, a multidão que aguardava a saída da Virgem começou a se mover às 6h30. Apolo Brito colara no senador Fonteles já dentro da Catedral e quando ele enveredou na multidão rumo à Corda.

A corda não é como o cânhamo
a envira, a juta, a malva, manilha
trançada torcida e retorcida
em mãos paradas
em círculo estático
formando uma muralha.
É o caminhar sem caminhar
o andar sem andar
o rezar sem rezar
a simples fé na Santa do lugar...

Enquanto seguia o senador Fonteles, Apolo Brito lembrou o Discurso sobre a Corda, de Benedicto Monteiro, que Batista Campos declamara no dia anterior, e também um poema de João de Jesus Paes Loureiro:

Quisera ser essas folhas de mangueira
à tua passagem
e te roçar de leve com meus lábios.
Quisera ser esse raio de sol
por entre as folhas,
para tocar tua imagem e te aquecer.
Quisera ser essa brisa
das manhãs de Belém,
para agitar levíssimo o teu manto.
Quisera ser um hino
a rebrotar dos lábios das crianças.
Um hino em teu louvor!
Quisera ser os passos da paixão
te acompanhando,
como o peixe acompanha
a procissão das águas,
como o tema da canção
que passa
por entre a melodia.
Quisera ser as sílabas do amor
para a linguagem ser dos que te amam.

A Corda media 400 metros de comprimento e duas polegadas de diâmetro. Utiliza-se aquele tipo de corda na ancoragem de navio. Era de sisal oleado e pesava uma tonelada. Cerca de 7 mil pessoas a carregavam, aglomeradas como formigas, o suor escorrendo sob 33 graus centígrados, potencializados talvez para 40. O senador Fonteles apenas se aproximara da Corda, de modo que pudesse ver aquele formigueiro móvel e assim irmanar-se a ela pela mente, pois se fizesse isso fisicamente estaria morto. Atrás dele, Apolo Brito o seguia. O senador era alto para os padrões dos amazônidas. Lembrava Castro Alves. Dona Eleonora não fora. Apolo Brito identificou dois seguranças. Cabanos, certamente. Mas qualquer pessoa, inclusive os seguranças, poderia se aproximar do senador Fonteles e dar uma insuspeita espetadinha nele. “Maria, a bem-aventurada porque acreditou.” A Corda lembrava a cobra grande, ao som de 2,2 milhões de romeiros que desaguavam dos afluentes no rio principal, de 3,7 quilômetros, numa “demonstração de fé única, que não pode ser descrita, mas vivida” – dissera o arcebispo dom Alberto Taveira. Quando a Virgem chegou o mais perto do edifício Manoel Pinto da Silva, um ícone arquitetônico da Amazônia, inaugurado em 1958, de 25 andares e 100 metros de altura, na confluência da Praça da República e avenidas Presidente Vargas, Nazaré e Serzedelo Correa, uma chuva de papel picado turvou o céu. Apolo Brito julgou ter visto Jarbas Barata no primeiro andar. Dali, o Círio se arrastou pela Avenida Nazaré, sob o túnel de mangueiras, até a Basílica de Nazaré, na Praça Santuário, onde chegou ao meio-dia. Então a população imensa foi se diluindo, rumo ao banquete do Círio. Consome-se cerca de 100 toneladas de pato, 60% congelados, importados do Canadá e do Rio Grande do Sul, porque a produção local não dá conta. Contudo, o prato mais consumido é maniçoba. Além de maniçoba e pato no tucupi, os mais abastados se banqueteiam também de vatapá, caruru, pescada ao molho de camarão, unha de caranguejo, bolo de macaxeira, suco de taperebá, de cupuaçu, de graviola, açaí com farinhas de tapioca e d’água, tacacá.

A CONFRARIA CABANAGEM está à venda somente no Clube de Autores

E na Amazon.com

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

POEMA NOVO/Tocata e Fuga

Quisera escrever um poema perfeito
Com versos alexandrinos
Ritmo de soneto
Sublime

Soneto livre
Com poesia
Capaz de me eriçar os pelos
Toda vez que o lesse

Seria meu templo
O poema
Que profano

Quisera escrever este soneto
No corpo
Da mulher que eu amo

LIVRO EM PREPARAÇÃO

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Capítulo I de A CONFRARIA CABANAGEM

Vista de madrugada, a bordo de um jato prestes a pousar no Aeroporto de Val-de-Cães, Belém emerge da baía de Guajará como uma península de luzes, cada vez mais tangível à medida que o avião se aproxima do chão, até tocá-lo, num choque no concreto, amortecido pela borracha maciça dos gigantescos pneus da aeronave. Aparentemente a cidade dorme, mas seu ventre ferve na madrugada, e escorre, cedo, na manhã, espalhando sua podridão no meio-fio das ruas e quedando-se, morto, à medida que o sol surge e os belenenses começam a se mover e a expelir dejetos. Almas penadas, andarilhos da madrugada, vendedores ambulantes, mendigos, caminhantes, comerciários, povoam o Ver-O-Peso, o calçadão da Praça da República, o Terminal Rodoviário Hildegardo da Silva Nunes, a Praça do Operário, o Mercado de São Brás, a Praça Batista Campos, a Doca de Souza Franco, todos os pontos preferidos dos exilados na noite, porque, de uma forma ou de outra, esses locais lhes proporcionam luz, segurança e esperança. A periferia se move como piolho no caldeirão da manhã, a caminho do centro da cidade, nas avenidas atulhadas de carros, sob a fumaceira dos ônibus, que empesta o ar. Ambulantes vendem de tudo nas suas bicicletas de padeiro, estacionadas em esquinas e calçadões estratégicos. Uma índia velha, obesa, seminua, dorme, bêbeda, sobre um banco decrépito, protegida pelas mangueiras gigantescas que pontilham a Praça da República, e pela indiferença da manhã ao triunfo do sol. O odor mefítico se espalha pela cidade, adocicado, de cavalo morto exposto ao sol e à chuva, anestesiando o olfato. Os dias amanhecem calorentos e, à tarde, chove sempre. É outubro.
Batista Campos seguiu o estreito caminho do calçadão da Avenida Presidente Vargas, no sentido Estação das Docas-Praça das Sereias, tomado por barracas de marreteiros acampados, numa favela crescente, em pleno calçadão, e entrou no prédio da Editora e Livraria Guajará, a noroeste da Praça da República. O interior da loja era bem iluminado. Lâmpadas amarelas, de 150 velas, encaixadas na boca de abajures em formato de poraquê, inundavam de luz o silencioso ambiente, iluminando um labirinto de estantes com livros expostos de modo a que se pudessem ver as capas inteiras. Não se ouvia o ronronar do sistema de ar condicionado, de forma que os 25 graus centígrados dentro da loja pareciam mesmo a temperatura natural da manhã belenense. Como sempre, Batista Campos já encontrou Gabriel, o gerente, no escritório; Gabriel chegava cedinho, acendia as lâmpadas, ligava o sistema de ar refrigerado e ia para o escritório aguardar Batista Campos. Ouvia sempre música clássica; naquela manhã, deleitava-se com Amadeus Wolfgang Mozart. O som fluía tão baixinho que era quase o pulsar do sangue nos tímpanos. Do seu aquário, Gabriel viu os cabelos de Batista Campos, inteiramente brancos, levantando-se como juba leonina, emoldurando testa larga e rosto barbeado à navalha. O nariz era quase grande e os lábios excessivamente finos. Baixo, magro, rijo como um peso pena, trajava, sempre, camisa de mangas compridas, calças de linho branco e macios sapatos marrons de couro, da mesma cor que o cinto. Sua pele revelava um organismo em pleno funcionamento, e sua voz irradiava autodomínio completo. Tinha exatos 61 anos de idade. Criara a disciplina História da Amazônia, na Universidade Federal do Pará, para logo depois se retirar do mundo acadêmico e se dedicar à sua editora e livraria, e à carreira de ensaísta e biógrafo. Suprimira seu nome de batismo, Alexandre Cunha Silva e Silva, e adotara o nome do padre revolucionário Batista Campos. Fruto do amor proibido do filho de um colono português rico e de uma cafuza que morreu ao dar à luz, na ilha Mexiana, num dia de intensa pororoca, Batista Campos tinha um anjo da guarda, o cirurgião Henrique Bolonha, octogenário milionário, que se dava ao luxo de atender gratuitamente na Santa Casa de Misericórdia do Pará e no Lar do Pequeno Príncipe. Durante a Ditadura dos Generais, Batista Campos fora encerrado no Presídio São José, pois escrevera no jornal A Província do Pará: “O Golpe Militar de 1964 é comandado por um cágado”. Estava desidratado quando foi levado para a Santa Casa de Misericórdia do Pará, acometido de diarreia e vômito. Sete dias depois, disfarçado de freira, sumiu na noite, reaparecendo na Guiana Francesa, de onde seguiu para a França. Resumia, nas suas veias, o trópico, reunindo o português colonizador, o gentio colonizado e o africano escravizado. Dessa amálgama era sua natureza, o cadinho étnico do português lusitano com o tupi e línguas africanas, e o sol e a riqueza do trópico – a maior variedade de alimentos do planeta, as iguarias mais saborosas e inigualáveis do globo, as mais belas praias do mundo e o Mundo das Águas, a Amazônia. Os europeus vieram e saquearam a Amazônia, e depois os paulistanos os imitaram. Acham tudo isso fantástico, especialmente a Hileia, e bem que tentam colonizá-la. Aparentemente conseguem levar a cabo seu intento, mas é ilusão, pois não compreendem a Amazônia profunda, muito menos a alma do amazônida. Tudo o que conseguem é corromper. Mas os que ficaram nunca mais foram os mesmos. Amam a Amazônia, e então a compreendem, pois só se pode compreendê-la amando-a. Batista Campos sentia a Amazônia dentro dele. Por isso nunca seria colonizado, muito menos escravizado; seria sempre e totalmente livre, como o trópico o é em si mesmo.
– Bom dia, professor. O dr. Henrique Bolonha e o Gilberto chegarão às dez. Entrarão diretamente pelo café – disse Gabriel.
O Café Internacional, único em Belém a servir o saboroso expresso Illy, tirado por um barista formado em São Paulo, dava também para o calçadão da Avenida Presidente Vargas, no mesmo prédio da Editora e Livraria Guajará. Embora contasse com elevador, Batista Campos subiu as escadas e entrou no seu escritório, no segundo andar, onde funcionava a editora, e se dirigiu para uma saleta nos fundos, tomou por um corredor, entrou numa saleta semelhante à primeira e desta para outro escritório, nos altos do Café Internacional. Acabara de lançar as obras completas e uma alentada biografia de Dalcídio Jurandir, em impecável coleção em capa dura, e agora trabalhava nas de Benedicto Monteiro. Pretendia publicar também o intelectual paraense Vicente Salles e o jornalista belenense, nascido mocorongo, Lúcio Flávio Pinto, incluindo duas décadas do Jornal Pessoal, a trincheira do lendário jornalista. Nas três horas seguintes trabalhou com afinco na leitura final de Verde Vagomundo. Faltavam 15 para as 10 quando Henrique Bolonha chegou, sucedido pelo jornalista Gilberto Soares Fonteles.
– A situação é grave, como vocês já sabem, e temos que agir rapidamente. O que o nosso homem nas Organizações Rio-Mar ouviu parece-me claro, tangível mesmo. A Constituição é óbvia sobre isso: no Capítulo II, Do Poder Executivo, ela diz, no artigo 77, parágrafo 4: “Se, antes de realizado o segundo turno, ocorrer morte, desistência ou impedimento legal de candidato, convocar-se-á, dentre os remanescentes, o de maior votação”. Pois bem, se o senador Fonteles for assassinado, Jarbas Barata será o governador. Assim, a morte do senador Fonteles terá que parecer, inequivocamente, natural. Nós vamos impedir que isso aconteça. O Partido Democrático Brasileiro, desde que, há doze anos, assumiu o governo desta federação capenga, que é o Brasil, e o governo do Pará, aparelhou o país e o nosso estado com descaramento de cachorro vira-lata e nepotismo de imperador; o governador já socou no seu gabinete 3 mil assessores especiais, 3 mil! Os pedebistas ocupam todos os escalões da administração pública, do governador ao faxineiro. Fizemos uma contabilidade minuciosa: nesses 12 anos, pelo menos 4 bilhões de reais foram malversados, em obras superfaturadas, em nepotismo, ou, simplesmente, desviados do erário. As Organizações Rio-Mar banqueteiam-se da burra há décadas; faturam, hoje, 100 milhões de reais por ano, 400 milhões de reais a cada quatro anos, um bilhão de reais a cada década. Esse dinheiro é oriundo praticamente do governo do estado, enquanto curumins morrem de fome, devorados por vermes, giárdia, ameba ou, simplesmente, malária; muitas vezes, para não morrer de fome, essas crianças são prostituídas pelas suas próprias famílias. A maior parte dos 143 municípios paraenses não conta sequer com energia elétrica firme, apesar da hidrelétrica de Tucuruí. Jarbas Barata começou essa dinastia; reelegeu-se. Como a legislação não permite, ainda, aos governantes, eleger-se para sempre, Jarbas Barata elegeu um lacaio, o Poste, para poder voltar agora. Contudo, o senador Fonteles ganhou no primeiro turno e deverá ganhar no segundo, por razões sólidas: lentamente, muitas das comunidades do Pará vêm se conscientizando, de modo que começaram a perceber a ladroagem, a miséria e a injustiça cada vez maiores na hinterlândia. O senador Fonteles vem costurando sua eleição junto à sociedade há muito tempo, em todos os municípios, mostrando-lhe que a redenção do Pará consiste, basicamente, em se investir, maciçamente, sistematicamente, de forma nunca desestimulada, sempre continuada, em educação, em pesquisa científica, além de se estender energia elétrica de Tucuruí para todos os munícipes, todos. E depois, o trabalho do senador nas áreas educacional, cultural, social e ecológica já se tornou conhecido nacional e internacionalmente. A Fundação Fonteles dá assistência técnica e jurídica a dezenas de cooperativas de ribeirinhos, quilombolas e povos da floresta, proporciona a ex-escravos e índios aculturados certidão de nascimento, alfabetização e ensino técnico e os encaminha para o mercado de trabalho, retira crianças que vivem nas ruas e dá assistência às famílias dessas crianças, além de proporcionar um lar, amor e carinho, a crianças cancerosas pobres e a órfãs que viviam nas ruas. E vai varrer de Belém o tráfico de drogas. Jarbas Barata já viu que o boicote imposto ao senador nos jornais, rádios e televisão das Organizações Rio-Mar não é suficiente para derrotar o senador Fonteles, e nada o deterá rumo ao terceiro mandato. Por essa razão, é necessário que nenhum mal aconteça ao senador. Sua vida deve ser preservada a qualquer custo, pois ele é a única esperança de desenvolvimento do estado, de se extirpar a cultura do privilégio. Somente o senador Fonteles poderá mudar isso. A questão é: o senador já foi sentenciado a ser morto, num assassinato sem pistas! Assim, deverá ser eliminado em casa, de morte súbita. E só há um homem que reúne condições de descobrir como pretendem eliminar o senador Fonteles. Esse homem é Apolo Brito – Batista Campos pontuava seu discurso com ênfases e longas pausas.
– Não será melhor o Gilberto conversar com o senador para vermos o que ele pensa da possibilidade de vir a ser assassinado? Embora não creio que cheguem a esse ponto – disse Henrique Bolonha, que descendia de linhagem portuguesa aristocrática e representava a elite da sociedade belenense, a que se reunia na Assembleia Paraense, o clube mais chique da cidade. Cirurgião talentoso, de mãos firmes apesar da idade, atendia gratuitamente na Santa Casa de Misericórdia do Pará, criaturas que, além de miseráveis, nasceram monstruosas.
Batista Campos meneou a mão direita, quase imperceptivelmente, para o jornalista Gilberto Soares Fonteles.
– Meu tio é visceralmente pacifista e, de certa forma, ingênuo. Não acreditaria num complô contra a vida dele – respondeu o jornalista. – O detetive Apolo Brito, irmão da Linda, que dirige o Lar do Pequeno Príncipe, e velho amigo meu, foi delegado titular na Homicídios e já solucionou casos bastante obscuros em Brasília. Tem um lado intuitivo muito forte e desvenda as coisas, às vezes, apenas indo a certos lugares frequentados pelas vítimas ou algozes. É da mais absoluta confiança – disse Gilberto Soares Fonteles.
Pela janela, Batista Campos via as copas das mangueiras da Praça da República sob céu translúcido. Um urubu navegava no cristal líquido, imóvel, misterioso na distância. “Até quando os poderosos se espojarão nas crianças pobres? Até quando gente como Jarbas Barata escravizará miseráveis, nas suas fazendas? Até quando a quadrilha encastelada no poder, essa aristocracia deletéria, dará suas cartas viciadas? O senador Fonteles é quem romperá os grilhões que os cabanos não conseguiram quebrar. Só alguém com sua luz poderá romper os grilhões do poder e proporcionar uma vida fraterna a todos – nativos, quilombolas, caboclos, ribeirinhos, cafuzos, mamelucos, mulatos, descendentes de    portugueses –, todos com direito às mesmas oportunidades e com a liberdade de optar por viver suas vidas com liberdade” – o cabano mergulhara nos seus pensamentos revolucionários, o olhar perdido no vitral azul sobre a Praça da República.
– E a campanha? – perguntou Henrique Bolonha, tirando Batista Campos do mergulho no azul.
– Estou acompanhando a campanha pessoalmente – disse Gilberto -, bem como a campanha deles. Jarbas Barata prometeu, em caso de vitória, cestas básicas e bolsas em escala enquanto durar seu governo. Porém essa mensagem não está chegando direito ao seu destino. O Bezerro, marqueteiro de Jarbas Barata, é competente, mas corrupto. Embora com a máquina nas mãos, ou porque está com a máquina nas mãos, vem desviando grande parte dos recursos, inclusive para Jarbas Barata mesmo, e um pouco para o Poste. De qualquer modo, contam com muito dinheiro. E dentro do quartel general do PDB há uma briga surda, mas encarniçada, e sobretudo cega, por cargos, entre os caciques, que são muitos. Contudo, a leitura mais clara que podemos fazer da disputa são as pesquisas de opinião: o titio não sofre rejeição alguma, enquanto que Jarbas Barata não tem perspectivas de virar o resultado do primeiro turno. Derrotado, teme que sua vida seja vasculhada e de ir para a cadeia. Isso, além da perspectiva de não poder mais lavar dinheiro; ficar fora do poder o apavora. A derrota de Jarbas Barata significará uma multidão de viúvas carpindo o leite derramado. O que estamos fazendo agora é convencer os caboclos de que o estado precisa, basicamente, de investimentos maciços e nunca descontinuados na área de educação. Só assim seus filhos poderão chegar à escola e à universidade – disse Gilberto Soares Fonteles.
– Carpir não é do feitio do PDB; antes, mordem. Mordem, não, bicam, como urubus. Vi o PDB nascer e se propagar por meio do seu discurso retrógrado, hipócrita, interesseiro, de socializar o que é dos outros. Quando chegaram ao poder, aparelharam o estado, com a ideia fixa de criar um estado partidário vitalício, para se locupletarem, como porcos velhacos – disse Batista Campos.
Bateram à porta. Um garçom entrou e lhes serviu café em belas xícaras de porcelana. Café Illy, de sabor inigualável. Os homens relaxaram. As paredes da sala eram cobertas por telas de P. P. Condurú e fotografias de Luiz Braga. Os óleos lembravam casulos, fetos, criaturas em metamorfose, num contraste gritante com a luz e a paz nas fotografias de Luiz Braga: o lusco-fusco do rio da tarde, uma amassadeira de açaí à noite, o rosto bonito de uma cafuza, caboclos arrastando um barco para a água, cenas noturnas de Belém, uma mulher e uma criança olhando a baía de Guajará. Havia também a célebre foto do autor de Verde Vagomundo, Benedicto Monteiro, desembarcando em Belém, descalço e algemado, preso que fora pelos militares, em 1964, nas matas de Alenquer, sua terra natal.
– O Gilberto partirá hoje à noite para Brasília. O Apolo Brito o aguarda e penso que pronto para vir – disse Batista Campos.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A CONFRARIA CABANAGEM


Novo romance de Ray Cunha mistura realidade e ficção. Senador lidera nas pesquisas para governador do Pará, mas interesses poderosos conspiram para que ele seja assassinado, aparentando morte por causa natural




BRASÍLIA, 2014 – Conhecedor da Amazônia profunda e ciente de que a tragédia do Trópico Úmido é a mentalidade de colonizado da maioria dos amazônidas, o senador Fonteles, que lidera nas pesquisas eleitorais, se tornou a esperança dos que querem tirar o Pará da Idade Média, concorrendo ao governo contra o ex-governador Jarbas Barata, que governa das sombras o estado. Porém, uma organização clandestina, a Confraria Cabanagem, que luta pela democracia e o desenvolvimento do Pará, detecta uma conspiração para assassinar o senador Fonteles, e convoca o único homem capaz de deter o assassino: o ex-delegado de polícia e detetive particular Apolo Brito, que mora em Brasília.

Some do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) um frasco com ínfima porção de homobatracotoxina, o mortal veneno do Phyllobates terribilis, juntamente com um muiraquitã, branco, de jadeíta, de 50 milímetros, pesando 42 gramas, de 2.500 anos, uma peça tapajônica sem preço. Em conversa com o assessor de imprensa do museu, o jornalista Montezuma Cruz, Apolo Brito descobre indícios de que estariam traficando água do rio Amazonas, e mergulha na chamada questão amazônica, e em símbolos caros aos paraenses, como o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o Ver-O-Peso, a Estação das Docas, o tacacá.

Neste romance ensaístico, personalidades vivas transitam entre personagens de ficção, como é o caso do lendário jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores intérpretes mundiais do enigma da Amazônia, que se encontra com o fictício detetive Apolo Brito no restaurante Restô do Parque, na ex-residência oficial dos governadores do Pará, na Avenida Magalhães Barata 830, antiga Avenida Independência, no bairro de São Brás, palácio erguido no início do século passado, em estilo eclético, em que predomina o neoclássico, e elementos de art nouveau, e que, em 1998, passou a ser chamado de Parque da Residência, onde moraram os dois mais ilustres governantes da história recente do Grão-Pará: Lauro Sodré (1917-1921) e Magalhães Barata (1888-1959).

Outra personalidade que aparece neste romance ensaístico é o coronel do Exército Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva e fundador do Centro de Instrução de Guerra na Selva. Em entrevista à coluna Enfoque Amazônico, do site ABC Politiko, Fregapani  faz uma declaração polêmica: “O problema crucial da Amazônia é que ainda não foi ocupada. Ledo engano é supor que a região pertence de fato ao Brasil. Será, sim, do Brasil, quando for desenvolvida por nós e devidamente guardada. Daí porque às potências estrangeiras não interessa o desenvolvimento da Amazônia. Por enquanto, Estados Unidos, Inglaterra e França, principalmente, lançam mão, com esse objetivo, da grita ambientalista. Com a região intocada, matam dois coelhos com uma cajadada: mantêm os cartéis agrícolas e de minerais e metais. Dois exemplos: a soja da fronteira agrícola já ameaça a soja americana; e a exploração dos fabulosos veios auríferos da Amazônia poriam em cheque as reservas similares americanas e poderia mergulhar o gigante em recessão.

“O outro coelho é que, despovoada, inexplorada e subdesenvolvida, não haverá grandes problemas para a ocupação militar da região. Aliás, tudo já está preparado para isso. A reserva Ianomâmi – etnia forjada pelos ingleses –, do tamanho de Portugal e na tríplice fronteira em litígio Brasil, Venezuela e Guiana, é a maior e mais rica província mineral do planeta. As Forças Armadas e a Polícia Federal não podem nela entrar, por força de lei. Pois bem, já há manifestação na Organização das Nações Unidas (ONU) de torná-la nação independente do Brasil, por força de armas, se necessário”.

Eis a trama do novo romance de Ray Cunha, A CONFRARIA CABANAGEM, lançado agora em setembro, pelo Clube de Autores e pela Amazon.com. Como romance ensaístico, a questão amazônica permeia a trama político-policial deste thriller de tirar o fôlego, com ação intensa que lembra outros trabalhos do escritor nascido em Macapá, na Amazônia Caribenha, e residente em Brasília, como, por exemplo, os romances A CASA AMARELA e HIENA, e os contos INFERNO VERDE, NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, A CAÇA e A GRANDE FARRA.

*MARCELO LARROYED é escritor, mestre em Teoria Literária pela UnB