quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Capítulo I de A CONFRARIA CABANAGEM

Vista de madrugada, a bordo de um jato prestes a pousar no Aeroporto de Val-de-Cães, Belém emerge da baía de Guajará como uma península de luzes, cada vez mais tangível à medida que o avião se aproxima do chão, até tocá-lo, num choque no concreto, amortecido pela borracha maciça dos gigantescos pneus da aeronave. Aparentemente a cidade dorme, mas seu ventre ferve na madrugada, e escorre, cedo, na manhã, espalhando sua podridão no meio-fio das ruas e quedando-se, morto, à medida que o sol surge e os belenenses começam a se mover e a expelir dejetos. Almas penadas, andarilhos da madrugada, vendedores ambulantes, mendigos, caminhantes, comerciários, povoam o Ver-O-Peso, o calçadão da Praça da República, o Terminal Rodoviário Hildegardo da Silva Nunes, a Praça do Operário, o Mercado de São Brás, a Praça Batista Campos, a Doca de Souza Franco, todos os pontos preferidos dos exilados na noite, porque, de uma forma ou de outra, esses locais lhes proporcionam luz, segurança e esperança. A periferia se move como piolho no caldeirão da manhã, a caminho do centro da cidade, nas avenidas atulhadas de carros, sob a fumaceira dos ônibus, que empesta o ar. Ambulantes vendem de tudo nas suas bicicletas de padeiro, estacionadas em esquinas e calçadões estratégicos. Uma índia velha, obesa, seminua, dorme, bêbeda, sobre um banco decrépito, protegida pelas mangueiras gigantescas que pontilham a Praça da República, e pela indiferença da manhã ao triunfo do sol. O odor mefítico se espalha pela cidade, adocicado, de cavalo morto exposto ao sol e à chuva, anestesiando o olfato. Os dias amanhecem calorentos e, à tarde, chove sempre. É outubro.
Batista Campos seguiu o estreito caminho do calçadão da Avenida Presidente Vargas, no sentido Estação das Docas-Praça das Sereias, tomado por barracas de marreteiros acampados, numa favela crescente, em pleno calçadão, e entrou no prédio da Editora e Livraria Guajará, a noroeste da Praça da República. O interior da loja era bem iluminado. Lâmpadas amarelas, de 150 velas, encaixadas na boca de abajures em formato de poraquê, inundavam de luz o silencioso ambiente, iluminando um labirinto de estantes com livros expostos de modo a que se pudessem ver as capas inteiras. Não se ouvia o ronronar do sistema de ar condicionado, de forma que os 25 graus centígrados dentro da loja pareciam mesmo a temperatura natural da manhã belenense. Como sempre, Batista Campos já encontrou Gabriel, o gerente, no escritório; Gabriel chegava cedinho, acendia as lâmpadas, ligava o sistema de ar refrigerado e ia para o escritório aguardar Batista Campos. Ouvia sempre música clássica; naquela manhã, deleitava-se com Amadeus Wolfgang Mozart. O som fluía tão baixinho que era quase o pulsar do sangue nos tímpanos. Do seu aquário, Gabriel viu os cabelos de Batista Campos, inteiramente brancos, levantando-se como juba leonina, emoldurando testa larga e rosto barbeado à navalha. O nariz era quase grande e os lábios excessivamente finos. Baixo, magro, rijo como um peso pena, trajava, sempre, camisa de mangas compridas, calças de linho branco e macios sapatos marrons de couro, da mesma cor que o cinto. Sua pele revelava um organismo em pleno funcionamento, e sua voz irradiava autodomínio completo. Tinha exatos 61 anos de idade. Criara a disciplina História da Amazônia, na Universidade Federal do Pará, para logo depois se retirar do mundo acadêmico e se dedicar à sua editora e livraria, e à carreira de ensaísta e biógrafo. Suprimira seu nome de batismo, Alexandre Cunha Silva e Silva, e adotara o nome do padre revolucionário Batista Campos. Fruto do amor proibido do filho de um colono português rico e de uma cafuza que morreu ao dar à luz, na ilha Mexiana, num dia de intensa pororoca, Batista Campos tinha um anjo da guarda, o cirurgião Henrique Bolonha, octogenário milionário, que se dava ao luxo de atender gratuitamente na Santa Casa de Misericórdia do Pará e no Lar do Pequeno Príncipe. Durante a Ditadura dos Generais, Batista Campos fora encerrado no Presídio São José, pois escrevera no jornal A Província do Pará: “O Golpe Militar de 1964 é comandado por um cágado”. Estava desidratado quando foi levado para a Santa Casa de Misericórdia do Pará, acometido de diarreia e vômito. Sete dias depois, disfarçado de freira, sumiu na noite, reaparecendo na Guiana Francesa, de onde seguiu para a França. Resumia, nas suas veias, o trópico, reunindo o português colonizador, o gentio colonizado e o africano escravizado. Dessa amálgama era sua natureza, o cadinho étnico do português lusitano com o tupi e línguas africanas, e o sol e a riqueza do trópico – a maior variedade de alimentos do planeta, as iguarias mais saborosas e inigualáveis do globo, as mais belas praias do mundo e o Mundo das Águas, a Amazônia. Os europeus vieram e saquearam a Amazônia, e depois os paulistanos os imitaram. Acham tudo isso fantástico, especialmente a Hileia, e bem que tentam colonizá-la. Aparentemente conseguem levar a cabo seu intento, mas é ilusão, pois não compreendem a Amazônia profunda, muito menos a alma do amazônida. Tudo o que conseguem é corromper. Mas os que ficaram nunca mais foram os mesmos. Amam a Amazônia, e então a compreendem, pois só se pode compreendê-la amando-a. Batista Campos sentia a Amazônia dentro dele. Por isso nunca seria colonizado, muito menos escravizado; seria sempre e totalmente livre, como o trópico o é em si mesmo.
– Bom dia, professor. O dr. Henrique Bolonha e o Gilberto chegarão às dez. Entrarão diretamente pelo café – disse Gabriel.
O Café Internacional, único em Belém a servir o saboroso expresso Illy, tirado por um barista formado em São Paulo, dava também para o calçadão da Avenida Presidente Vargas, no mesmo prédio da Editora e Livraria Guajará. Embora contasse com elevador, Batista Campos subiu as escadas e entrou no seu escritório, no segundo andar, onde funcionava a editora, e se dirigiu para uma saleta nos fundos, tomou por um corredor, entrou numa saleta semelhante à primeira e desta para outro escritório, nos altos do Café Internacional. Acabara de lançar as obras completas e uma alentada biografia de Dalcídio Jurandir, em impecável coleção em capa dura, e agora trabalhava nas de Benedicto Monteiro. Pretendia publicar também o intelectual paraense Vicente Salles e o jornalista belenense, nascido mocorongo, Lúcio Flávio Pinto, incluindo duas décadas do Jornal Pessoal, a trincheira do lendário jornalista. Nas três horas seguintes trabalhou com afinco na leitura final de Verde Vagomundo. Faltavam 15 para as 10 quando Henrique Bolonha chegou, sucedido pelo jornalista Gilberto Soares Fonteles.
– A situação é grave, como vocês já sabem, e temos que agir rapidamente. O que o nosso homem nas Organizações Rio-Mar ouviu parece-me claro, tangível mesmo. A Constituição é óbvia sobre isso: no Capítulo II, Do Poder Executivo, ela diz, no artigo 77, parágrafo 4: “Se, antes de realizado o segundo turno, ocorrer morte, desistência ou impedimento legal de candidato, convocar-se-á, dentre os remanescentes, o de maior votação”. Pois bem, se o senador Fonteles for assassinado, Jarbas Barata será o governador. Assim, a morte do senador Fonteles terá que parecer, inequivocamente, natural. Nós vamos impedir que isso aconteça. O Partido Democrático Brasileiro, desde que, há doze anos, assumiu o governo desta federação capenga, que é o Brasil, e o governo do Pará, aparelhou o país e o nosso estado com descaramento de cachorro vira-lata e nepotismo de imperador; o governador já socou no seu gabinete 3 mil assessores especiais, 3 mil! Os pedebistas ocupam todos os escalões da administração pública, do governador ao faxineiro. Fizemos uma contabilidade minuciosa: nesses 12 anos, pelo menos 4 bilhões de reais foram malversados, em obras superfaturadas, em nepotismo, ou, simplesmente, desviados do erário. As Organizações Rio-Mar banqueteiam-se da burra há décadas; faturam, hoje, 100 milhões de reais por ano, 400 milhões de reais a cada quatro anos, um bilhão de reais a cada década. Esse dinheiro é oriundo praticamente do governo do estado, enquanto curumins morrem de fome, devorados por vermes, giárdia, ameba ou, simplesmente, malária; muitas vezes, para não morrer de fome, essas crianças são prostituídas pelas suas próprias famílias. A maior parte dos 143 municípios paraenses não conta sequer com energia elétrica firme, apesar da hidrelétrica de Tucuruí. Jarbas Barata começou essa dinastia; reelegeu-se. Como a legislação não permite, ainda, aos governantes, eleger-se para sempre, Jarbas Barata elegeu um lacaio, o Poste, para poder voltar agora. Contudo, o senador Fonteles ganhou no primeiro turno e deverá ganhar no segundo, por razões sólidas: lentamente, muitas das comunidades do Pará vêm se conscientizando, de modo que começaram a perceber a ladroagem, a miséria e a injustiça cada vez maiores na hinterlândia. O senador Fonteles vem costurando sua eleição junto à sociedade há muito tempo, em todos os municípios, mostrando-lhe que a redenção do Pará consiste, basicamente, em se investir, maciçamente, sistematicamente, de forma nunca desestimulada, sempre continuada, em educação, em pesquisa científica, além de se estender energia elétrica de Tucuruí para todos os munícipes, todos. E depois, o trabalho do senador nas áreas educacional, cultural, social e ecológica já se tornou conhecido nacional e internacionalmente. A Fundação Fonteles dá assistência técnica e jurídica a dezenas de cooperativas de ribeirinhos, quilombolas e povos da floresta, proporciona a ex-escravos e índios aculturados certidão de nascimento, alfabetização e ensino técnico e os encaminha para o mercado de trabalho, retira crianças que vivem nas ruas e dá assistência às famílias dessas crianças, além de proporcionar um lar, amor e carinho, a crianças cancerosas pobres e a órfãs que viviam nas ruas. E vai varrer de Belém o tráfico de drogas. Jarbas Barata já viu que o boicote imposto ao senador nos jornais, rádios e televisão das Organizações Rio-Mar não é suficiente para derrotar o senador Fonteles, e nada o deterá rumo ao terceiro mandato. Por essa razão, é necessário que nenhum mal aconteça ao senador. Sua vida deve ser preservada a qualquer custo, pois ele é a única esperança de desenvolvimento do estado, de se extirpar a cultura do privilégio. Somente o senador Fonteles poderá mudar isso. A questão é: o senador já foi sentenciado a ser morto, num assassinato sem pistas! Assim, deverá ser eliminado em casa, de morte súbita. E só há um homem que reúne condições de descobrir como pretendem eliminar o senador Fonteles. Esse homem é Apolo Brito – Batista Campos pontuava seu discurso com ênfases e longas pausas.
– Não será melhor o Gilberto conversar com o senador para vermos o que ele pensa da possibilidade de vir a ser assassinado? Embora não creio que cheguem a esse ponto – disse Henrique Bolonha, que descendia de linhagem portuguesa aristocrática e representava a elite da sociedade belenense, a que se reunia na Assembleia Paraense, o clube mais chique da cidade. Cirurgião talentoso, de mãos firmes apesar da idade, atendia gratuitamente na Santa Casa de Misericórdia do Pará, criaturas que, além de miseráveis, nasceram monstruosas.
Batista Campos meneou a mão direita, quase imperceptivelmente, para o jornalista Gilberto Soares Fonteles.
– Meu tio é visceralmente pacifista e, de certa forma, ingênuo. Não acreditaria num complô contra a vida dele – respondeu o jornalista. – O detetive Apolo Brito, irmão da Linda, que dirige o Lar do Pequeno Príncipe, e velho amigo meu, foi delegado titular na Homicídios e já solucionou casos bastante obscuros em Brasília. Tem um lado intuitivo muito forte e desvenda as coisas, às vezes, apenas indo a certos lugares frequentados pelas vítimas ou algozes. É da mais absoluta confiança – disse Gilberto Soares Fonteles.
Pela janela, Batista Campos via as copas das mangueiras da Praça da República sob céu translúcido. Um urubu navegava no cristal líquido, imóvel, misterioso na distância. “Até quando os poderosos se espojarão nas crianças pobres? Até quando gente como Jarbas Barata escravizará miseráveis, nas suas fazendas? Até quando a quadrilha encastelada no poder, essa aristocracia deletéria, dará suas cartas viciadas? O senador Fonteles é quem romperá os grilhões que os cabanos não conseguiram quebrar. Só alguém com sua luz poderá romper os grilhões do poder e proporcionar uma vida fraterna a todos – nativos, quilombolas, caboclos, ribeirinhos, cafuzos, mamelucos, mulatos, descendentes de    portugueses –, todos com direito às mesmas oportunidades e com a liberdade de optar por viver suas vidas com liberdade” – o cabano mergulhara nos seus pensamentos revolucionários, o olhar perdido no vitral azul sobre a Praça da República.
– E a campanha? – perguntou Henrique Bolonha, tirando Batista Campos do mergulho no azul.
– Estou acompanhando a campanha pessoalmente – disse Gilberto -, bem como a campanha deles. Jarbas Barata prometeu, em caso de vitória, cestas básicas e bolsas em escala enquanto durar seu governo. Porém essa mensagem não está chegando direito ao seu destino. O Bezerro, marqueteiro de Jarbas Barata, é competente, mas corrupto. Embora com a máquina nas mãos, ou porque está com a máquina nas mãos, vem desviando grande parte dos recursos, inclusive para Jarbas Barata mesmo, e um pouco para o Poste. De qualquer modo, contam com muito dinheiro. E dentro do quartel general do PDB há uma briga surda, mas encarniçada, e sobretudo cega, por cargos, entre os caciques, que são muitos. Contudo, a leitura mais clara que podemos fazer da disputa são as pesquisas de opinião: o titio não sofre rejeição alguma, enquanto que Jarbas Barata não tem perspectivas de virar o resultado do primeiro turno. Derrotado, teme que sua vida seja vasculhada e de ir para a cadeia. Isso, além da perspectiva de não poder mais lavar dinheiro; ficar fora do poder o apavora. A derrota de Jarbas Barata significará uma multidão de viúvas carpindo o leite derramado. O que estamos fazendo agora é convencer os caboclos de que o estado precisa, basicamente, de investimentos maciços e nunca descontinuados na área de educação. Só assim seus filhos poderão chegar à escola e à universidade – disse Gilberto Soares Fonteles.
– Carpir não é do feitio do PDB; antes, mordem. Mordem, não, bicam, como urubus. Vi o PDB nascer e se propagar por meio do seu discurso retrógrado, hipócrita, interesseiro, de socializar o que é dos outros. Quando chegaram ao poder, aparelharam o estado, com a ideia fixa de criar um estado partidário vitalício, para se locupletarem, como porcos velhacos – disse Batista Campos.
Bateram à porta. Um garçom entrou e lhes serviu café em belas xícaras de porcelana. Café Illy, de sabor inigualável. Os homens relaxaram. As paredes da sala eram cobertas por telas de P. P. Condurú e fotografias de Luiz Braga. Os óleos lembravam casulos, fetos, criaturas em metamorfose, num contraste gritante com a luz e a paz nas fotografias de Luiz Braga: o lusco-fusco do rio da tarde, uma amassadeira de açaí à noite, o rosto bonito de uma cafuza, caboclos arrastando um barco para a água, cenas noturnas de Belém, uma mulher e uma criança olhando a baía de Guajará. Havia também a célebre foto do autor de Verde Vagomundo, Benedicto Monteiro, desembarcando em Belém, descalço e algemado, preso que fora pelos militares, em 1964, nas matas de Alenquer, sua terra natal.
– O Gilberto partirá hoje à noite para Brasília. O Apolo Brito o aguarda e penso que pronto para vir – disse Batista Campos.

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