quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CONTO/Apego

Nunca vi mulher tão bonita como a socialite Gislaine Cagnotto, 40 anos. Pequena – um metro e sessenta, mais ou menos, e em torno de 55 quilos –, de pele rosada, boca semelhante a da atriz Alinne Moraes, cabelos ruivos, olhos verdes, seios fartos e garupa equina, tudo isso foi aquinhoado ainda com seu dom literário. Gislaine Cagnotto é poeta acima da média, o que quer dizer que não amontoa palavras apenas, mas vasculha as vísceras. E foi precisamente isto que a fez procurar-me: as vísceras.

Somos amigos há um bom tempo, exatamente por frequentarmos as mesmas festas da alta sociedade; eu, por força da minha família, que é bastante endinheirada. Porém, na minha juventude, estourei um joelho escalando o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil e na Amazônia, com 2.994 metros, e que jamais consegui escalar. Depois de ter meu joelho remexido durante tempo demais por uma junta de ortopedistas, fui alertado a procurar um acupunturista, de preferência que não fosse médico, mas terapeuta iniciado em Medicina Tradicional Chinesa. Quem me indicou isso foi um amigo mais velho. Encontrei um chinês que estava há muito tempo no Brasil e após algumas sessões com agulhas e massagens voltei a andar normalmente, sem sentir dor nem mancar. Fiquei, então, curioso com a magia daquele tratamento e acabei entrando na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), onde me formei já faz algum tempo, e atendo vários amigos meus.

Gislaine chegou às 10 horas em ponto ao meu consultório, no Lago Sul. Sentamo-nos confortavelmente e comecei a fazer a anamnese. Sua principal queixa era constipação intestinal, o que confirmei examinando sua língua e seu pulso. Mas descobri também que havia outro problema: ela não conseguia mais criar.

– Você tem muitos pares de sapatos? – perguntei-lhe, imprimindo um tom casual à pergunta.

Ela me olhou sem entender, mas respondeu-me automaticamente.

– Tenho! Acho que tenho uns 300 pares de sapatos! Por quê?

– Na Medicina Tradicional Chinesa, nós, terapeutas, não exatamente curamos doenças; nós tratamos o paciente como um todo, até porque toda a qualquer doença nada mais é do que desarmonia da energia mental – expliquei-lhe.

Aí é que ela não entendeu mesmo.

– E você costuma juntar muitas coisas que não usa e que estão guardadas? – perguntei-lhe.

– Muitas! – ela disse. – Há uma dependência, em casa, e é uma dependência grande, cheia de sapatos, roupas, bijuterias e até móveis que não usamos mais.

– Vou aplicar agulhas em alguns acupontos e preciso que você tire a blusa, tudo bem?

– É claro! – ela disse. – Estou aqui escondida do meu marido! Ele sente ciúme até da minha sombra!

Somos bastante amigos.

– E por que você se submete a esse regime islâmico? – perguntei-lhe, em tom de brincadeira.

– Sou mulher mineira; gostamos de dinheiro, e ele compra tudo o que eu quero! – ela sussurrou, deitando-se na maca. Seu sutiã era negro e contrastava com a pele rosada. A saia, vermelha, era justa, deixando à mostra as pernas mais bem torneadas entre as inúmeras que eu já vira.

Entre os pontos em que apliquei agulhas utilizei o BP 15, daheng em mandarim, localizado numa distância de quatro “cun”, cerca de 10 centímetros, na lateral do umbigo. Ele serve para debelar constipação crônica, resultado de letargia do intestino grosso. Mas eu já sabia qual era a causa do que estava afligindo minha bela amiga, e também a solução. Mais tarde, degustando Café Três Corações, gourmet, ministrei-lhe uma prática para sanar o mal pela raiz.

– Gislaine, vou indicar um lar de velhinhos e providenciar um furgão para, amanhã de manhã, irem à sua casa buscar tudo o que você realmente não vai mais utilizar; isso será precioso para eles – propus-lhe. Gislaine é do germânico “refém”, e, por coincidência, ela era refém do apego.

Três dias depois voltei a atender minha amiga. Ela estava mais linda do que nunca. Deslumbrante.

– Quase me acabo de tanto defecar – disse-me, rindo. Tínhamos intimidade para dizer o que quiséssemos.

– Gislaine, a prisão de ventre era provocada pelo apego, que guardava não somente fezes, mas também tudo aquilo que não tem mais utilidade para você, ou que você esteja guardando para uma ocasião fantasiosa, que jamais ocorrerá. E da mesma forma que um quarto pode guardar trastes a vida toda, também o intestino grosso pode reter fezes vida afora, que vão ficando cada vez mais putrefatas e contaminando, aos poucos, todo o organismo. Num plano mais sutil, o apego também vai sufocando suas vítimas, que se tornam, sem se aperceberem disso, escravas da luxúria – disse-lhe. Ela estava atenta. – Agora que você se libertou dos trastes a criatividade vai voltar a fluir, e dos seus lábios surgirão mais rosas, mais jardins, mais perfumes azuis sangrando – declamei, parafraseando um poema de Gislaine: De tão azul, sangra!

Ela riu com gosto, feliz.

– Impressionante! Hoje, no café, comuniquei ao meu marido que viria ao seu consultório e sabe o que ele me disse?, mandou lembranças! Normalmente teria me proibido de vir aqui, até porque, como você sabe, o ciúme dele aumenta quando homens charmosos como você se aproximam de mim – ela comentou, rindo. – Vamos para a maca? – propôs, despindo-se do vestido. Já havia visto seu corpo no Iate Clube, mas ali, de sapatos altos e com aquele batom vermelho nos lábios sensuais, e de sutiã e calcinha, era, literalmente, de parar o trânsito. E podia-se dizer que deu mesmo mole para mim.

“Acupuntura como pretexto para a luxúria não pode redundar em boa coisa; gerará aquele tipo de equilíbrio à beira do abismo” – pensei, abrindo um saquinho de agulhas. Um professor, na ENAc, me transmitiu um princípio que adotei não somente como terapeuta, mas em todas as circunstâncias da vida: jamais acumplicie-se com a corrupção. 


Brasília, 29 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Brasil e a Amazônia pós-eleições

BRASÍLIA, 27 DE OUTUBRO DE 2014 – A petista Dilma Rousseff foi reeleita ontem para o segundo mandato presidencial. Obteve 54.501.118 votos, 51,64%. Seu opoente, o tucano Aécio Neves, também mineiro, conquistou 51.041.155 sufrágios, 48,3%. Não compareceram às urnas 30.137.479 eleitores, 21,1% do total dos 142.821.348 registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE); 1.921.819 (1,71%) votaram em branco; e 5.219.787 (4,63%) anularam o voto. Logo, como analisa o jornalista Reinaldo Azevedo, da Veja.com, “Dilma foi eleita por apenas 38% dos eleitores: 37.279.085 pessoas – quase a população da Argentina – preferiram não votar em ninguém; estamos falando de mais de um quarto do eleitorado – 27,44%”.

Até os vira-latas sabem que Lula elegeu seu fantoche com contrainformação em escala: replicou para dezenas de milhões de eleitores apavorados que se Aécio ganhasse acabaria com a Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Claro, era mentira. Também um exército petista se dedicou a forjar um perfil depravado de Aécio Neves. Ainda, a máquina pública foi usada como nunca se viu neztepaiz, inclusive os Correios.

Será o quarto mandato do PT, que se mantém no Palácio do Planalto desde 2003, primeiramente com Lula e agora com Dilma, embora Lula jamais tenha deixado de governar, como senhor absoluto do PT. Aliás, o PT vem se empenhando nesses 12 anos em implantar no Brasil um regime de partido único.

No seu discurso, ontem, Dilma disse que vai comandar a reforma eleitoral por meio de plebiscito, o mesmo recurso utilizado por Hugo Chávez Maduro no golpe que aplicou na Venezuela. Isso, mais a criação de conselhos populares, os soviets, e a mordaça à imprensa, são os pilares do plano de Lula para instalação de partido único. O aparelhamento do Estado está em curso desde 2003.

Esse é o sonho de Lula, mas seu pesadelo é também de arrepiar os cabelos, protagonizado pela mesma Dilma que se reelegeu, e que pode sofrer impeachment. Sobre isso, é só o que se lê na mídia, e vai se ler bastante ainda sobre a impossibilidade de Lula Rousseff governar mais quatro anos, por duas razões: a roubalheira na Petrobrás (cada vez mais o lamaçal avança para cima dela) e a economia brasileira, que está em frangalhos.

Além disso, Lula Rousseff enfrentará, pela primeira vez, oposição. Também há um Congresso Nacional mudado e, nesse contexto, um PMDB louco pelo impeachment de Dilma, pois a raposa velha Michel Temer assumiria a Presidência.

AMAZÔNIA – Até a fuga de Dom João VI de Napoleão Bonaparte, a Amazônia era independente do Brasil, que ia, então, do Nordeste até o Rio Grande do Sul, mas era também colônia de Portugal. Durante a regência de Diogo Antônio Feijó, quando Dom Pedro II era ainda criança, a Amazônia foi definitivamente anexada ao Brasil, de quem se tornou colônia. Este ano, o deputado fluminense Sergio Zveiter (PSD) tentou, inutilmente, emplacar na Câmara o Projeto de Lei (5.692/2013) de Proteção das Riquezas da Amazônia, que esconde o propósito de federalizar o subcontinente.

A Amazônia sumiu nas eleições presidenciais, numa confirmação de que é, de fato, mera colônia de Brasília, e onde se vai buscar energia hidrelétrica, o equilíbrio da balança comercial com a exportação de minérios, madeira e pescado.

De qualquer modo houve também segundo turno, lá, do qual pinçarei quatro estados emblemáticos: Pará, Amazonas, Acre e Amapá. No Pará, o mais importante do Trópico Úmido, pela sua história, economia e geografia, o tucano Simão Jatene foi reeleito, derrotando o rebento de Jader Barbalho, Helder (PMDB), que recebeu o apoio pessoal de Lula. Isso significa dizer que o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB), que comandou de forma vitoriosa a não divisão do Pará, posiciona-se como virtual sucessor de Simão Jatene.

No Amazonas, José Melo (Pros) derrotou o senador e líder de Dilma Rousseff, Eduardo Braga (PMDB), que já governou o estado em dois mandatos. Melo recebeu apoio do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, um dos tucanos mais emplumados, e que se credencia a suceder Melo no governo.

O Acre é o único estado da Amazônia nas garras do PT, desde 2003. Tião Viana foi reeleito. O tucano Márcio Bittar perdeu.

O Amapá, no setentrião da costa brasileira, é um estado dividido entre a família Capiberibe – que fez o atual governador, Camilo; senador, João, pai de Camilo; e deputada federal, Janete, a mãe – e Jeca Sarney, que renunciou este ano à vaga vitalícia que os tucujus lhe deram no Senado, mas anexou sua metade do estado ao Maranhão, do qual é dono.

Camilo Capiberibe, o atual governador, 42 anos, foi empurrado para o governo pelo seu pai, mas não deu conta de reeleger-se. Quem ganhou foi Waldez Góes, que já governou o Amapá por oito anos e tem uma folha corrida do mesmo tamanho: foi preso pela Polícia Federal e é acusado de comandar um esquema que desviou R$ 1 bilhão da burra. Waldez Góes é assim! com Jeca Sarney.

sábado, 25 de outubro de 2014

Cuba ou Brasil?


BRASÍLIA, 25 DE OUTUBRO DE 2014 – O segundo turno das eleições ocorrerá amanhã, quando os brasileiros decidirão se querem transformar o país numa Cuba ou numa nação hegemônica. Em Brasília também haverá segundo turno, bem como em 13 estados, dos quais pincei três da Amazônia, porque, mais uma vez, a Hileia ficou fora dos debates presidenciais na televisão e também porque são unidades da federação emblemáticas no atual contexto. São elas: Pará, Amazonas, Acre e Amapá.

Na questão federal, Lula, o capo di tutti i capi do PT, assumiu a presidência em 1 de janeiro de 2003, dando início a um retrocesso político, sucateamento da infraestrutura do país, desvio de centenas de bilhões de reais da burra, corrupção em todos os níveis administrativos e depravação total sem precedentes. Em 2010, teve início um governo fantoche, com Dilma Rousseff, que tenta reeleger-se.

Desde 2003, Lula e sequazes tentam instalar uma ditadura, nos moldes dos seus ídolos, os sanguinários Fidel Castro e Hugo Chávez Maduro. Mas as instituições democráticas que integram o estado brasileiros, entre as quais a revista semanal Veja, estão consolidadas, e a Polícia Federal, o Ministério Público, a inteligência das Forças Armadas e a Central Intelligence Agency (CIA) sempre estiveram de olho em Lula e bando.

Doze anos depois, o PT aparelhou até o Supremo Tribunal Federal (STF), saqueou a Petrobras, apoia todas as ditaduras planeta afora, especialmente Cuba, a quem financia com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), bem como financia Hugo Chávez Maduro e Evo Morales, da Bolívia, que, com o beneplácito do PT, se apossou das instalações da Petrobras em solo boliviano e trafica para o Brasil boa parte das drogas que entram no país e matam milhares de jovens. Isso é só a ponta do iceberg.

A outra opção é Aécio Neves, do PSDB, que despensa apresentação, pois já mostrou o que é nos debates na televisão e na sua propaganda eleitoral. O meu voto é dele, pela democracia e pelo meu país.

BRASÍLIA – Na capital, o PT de Agnelo Queiroz já foi para o espaço. Agnelo, também conhecido como Agnulo, é página virada. O segundo turno está entre Rollemberg (PSB) e Jofran Frejat (PR). Rollemberg é um rapaz contra quem não há nenhuma acusação de roubalheira, é muito estimado pelo povo da área cultural e parece ter disposição para colocar Brasília nos trilhos.

Brasília, que, equivocadamente, é chamada por muita gente como a cidade mais moderna do mundo, de moderna não tem nada. O pessoal confunde a arquitetura de Oscar Niemeyer com cidade moderna. Cidade moderna é Nova York, Paris, Tókyo etc. Brasília tem muito lixo nas ruas, asfalto ruim, as calçadas parece que foram bombardeadas, tem poucas linhas de ônibus, é caríssima, o serviço público de saúde é o mesmo matadouro das outras grandes cidades brasileiras, a Educação é precária e chega-se a matar num fim de semana, aqui, mais de uma dúzia de pessoas. Também não há política cultural, nem de turismo, nem de nada. É um três por quatro do gigante tupiniquim que o PT amarrou e todo dia dá uma estuprada nele. Rollemberg é a esperança de minimizar isso.

Jofran Frejat se queixou porque entendeu que Rollemberg o chamou indiretamente de velho. É velho não somente de corpo, mas também de ideias. Veio com a ideia eleitoreira, populista, de passagem de ônibus a R$ 1. E o resto? Frejat é cria do notório Joaquim Roriz, que inchou Brasília, e se acumpliciou com os chefões da indústria civil local e construiu uma selva de pedras sem estacionamentos. Chegou a tirar dinheiro da rubrica Educação para dar a donos de dezenas de devezenquandários. Especialista em vaca, ficou conhecido como o homem da bezerra de ouro. Meu voto é de Rolemberg.

PARÁ – A Hileia, que já foi independente do Brasil, é hoje uma colônia de Brasília, onde os governos que por aqui passam vão buscar lá energia elétrica, minerais, madeira, peixe e commodities em geral. Não só Brasília faz isso, como também as nações hegemônicas, e os traficantes levam de lá animais, mulheres e crianças, principalmente para escravidão sexual. Também empresários se instalam na região e escravizam índios, ribeirinhos, quilombolas, caboclos em geral e arigós. Os presidentes da República governam de costas para a Hileia. Grandes projetos federais são instalados na Amazônia e não para os amazônidas.

Mas parte dessa responsabilidade é dos governos locais. Vamos começar com o estado mais importante do Trópico Úmido, o Pará; mais importante pela sua história, sua economia e sua geografia. Lá, o segundo turno é entre o tucano Simão Jatene e Helder Barbalho, filho de Jader Barbalho, do PMDB, e o mesmo que ajudou a eleger governadora Ana Júlia Carepa, do PT, de incompetência rousseffiana. Jatene é competente. Seu pecado é nepotismo e inapetência para trabalhar. Mesmo assim vem modernizando o Pará, e Belém. Já o rapaz, filho do notório Jader Barbalho, não tem nada além de pose.

AMAZONAS – Ocorreu algo estarrecedor no Amazonas, nestas eleições. A propósito, Lula Rousseff gosta de utilizar a palavra estarrecedor, mas a mim parece que ela não sabe direito seu significado. Pois bem, o major Carliomar Barros Brandão, subsecretário de Justiça do candidato à reeleição, o professor José Melo (Pros), foi ao Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), maior penitenciária do Amazonas, negociar com o maior traficante do estado, José Roberto Fernandes Barbosa, o Zé Roberto, o apoio da quadrilha ao candidato à reeleição (leia mais). Isso, sim, é estarrecedor.

Também José Melo discrimina os paraenses, e há bastante paraenses em Manaus. Seu rival, Eduardo Braga (PMDB), é paroara, mas foi criança para o Amazonas. Os amazonenses de um modo geral detestam os paraenses. Não sei por que, mas isso é um fato. Tanto que em Manaus já ocorreu assassinato porque o assassino foi chamado de paraense. Pois bem, durante o debate na Globo José Melo jogou uma indireta para Eduardo Braga, ressaltando que, apesar dos pesares, Braga foi bem recebido pelos amazonenses. Braga, que é senador, já governou o Amazonas por oito anos, apesar de ser belenense.

A questão, aqui, é que se um governador, que é professor, é capaz de negociar com um chefão do tráfico para se reeleger, entregará a população à própria sorte.

ACRE – Se há corrupção em Brasília, onde toda a mídia nacional tem escritório, imaginem na Amazônia, sobre a qual, Brasília para baixo, raramente se ouve falar. O Acre, no extremo oeste do continente amazônico, é governado pela família Viana, do PT, há 12 anos. Neste segundo turno, Tião Viana tenta se reeleger, contra o deputado federal tucano Márcio Bittar.

Assim como no Brasil, também no Acre a classe média, empresários, investidores, e parte do povão, mesmo, não suportam mais a atual  de aparelhamento do Estado, a tentativa de calar a imprensa, a roubalheira, a corrupção generalizada, a depravação total. De qualquer modo, também como se vê em nível nacional, a cumplicidade com o PT é muito forte; o PT paga mais do que um salário mínimo até para os milhares de presidiários em todo o país. Há pessoas que fazem filho só para ganhar a bolsa-família! E assim a ignorância, que é combustível para ditaduras, vai crescendo como uma sequoia.
Amanhã, os acreanos decidirão sua sorte!

AMAPÁ – O Amapá é o mais emblemático estado da Amazônia. De um lado, Camilo Capiberibe (PSB) tenta a reeleição; do outro, Waldez Góes (PDT) quer voltar ao governo. Capiberibe foi empurrado para ser governador pelo seu pai, João Capiberibe (PSB), hoje senador. Janete Capiberibe (PSB), mulher dele, é deputada federal. Como se vê, o Amapá, hoje, está dividido entre os Capiberibe e Jeca Sarney dos Atos Secretos, que caiu de paraquedas em Macapá, em 1990, e recebeu dos tucujus o cargo de senador vitalício. Renunciou recentemente a ele porque não tem mais forças para manter o bigode na teta amapaense, mas deixou seus sequazes no comando do negócio, mantendo, assim, a anexação do Amapá ao Maranhão, de quem é dono.

Waldez Góes, chegado de Jeca, é outro caso estarrecedor. Investigado e preso pela Polícia Federal, foi acusado de comandar esquema que desviou R$ 1 bilhão da burra amapaense, durante oito anos de mandato como governador. Mesmo assim lidera as pesquisas. Nesse cenário, Camilo Capiberibe, que sofre grande rejeição e trabalha a passos de cágado, mas trabalha, é a única saída para os amapaenses que se preocupam com o desenvolvimento do estado, e não somente com os bolsos, sem se importar com a raposa que toma conta do galinheiro. Todos sabem que o desvio de verbas causa a morte de bebês, crianças e velhos, de todo mundo, pois são saqueados de merenda escolar a álcool nos hospitais.

Para se desenvolver, a Amazônia precisa de alguns projetos fundamentais, como a construção de hidrovias, rodovias, portos, aeroportos, polos biotecnológicos, estaleiros, investimento na academia e em pesquisa, instalação de linhões para distribuição de energia hidrelétrica para todos os municípios dos diversos estados, contrapartida nos projetos de exploração mineral e um mundo de etc. No caso específico do Amapá, há um exemplo de como os governadores de lá trabalham. A BR-156, única rodovia federal de fato no Amapá, e que liga Macapá à Caiene, a capital da Guiana Francesa, começou a ser construída em 1943, quando o Amapá foi desmembrado do Pará, como território federal, e jamais foi inteiramente pavimentada.

Outra coisa impressionante: as costas amapaenses são as mais piscosas do planeta, vive coalhada de piratas e a Universidade Federal do Amapá (Unifap) não conta com cursos de oceanografia e de engenharia naval e de pesca.

ATENÇÃO! – Quero deixar uma mensagem aos meus amigos. Amizades são filões de pedras preciosas que conquistamos com amor, por isso as amizades verdadeiras estão acima de ideologias. Meus amigos votam em quem quiserem, até porque só pode haver amigos se houver liberdade.

Já li tanto Gabriel García Márquez que me tornei seu amigo. Nunca sequer o vi, mas quando penso nele é como se fosse comum nos encontrarmos num café e bater papo. Considero Fidel Castro um dos maiores carniceiros que já surgiram na face da Terra, e Gabo era seu amigo. Nem por isso deixei de ser amigo de Gabo, embora desconfie que meu amigo Gabo gostava da companhia de Fidel apenas para estudá-lo e utilizá-lo na sua criação mágica.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O triunfo do azul

Ah! meu amor, tu és meu amor porque o teu riso impulsiona meu coração
Porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam
E a luz infinita vibra em oração
Que escapa dos teus lábios

Quisera eu ser poeta, e dominar a força de gravidade com palavras
Para te dedicar versos
Que contivessem o mar
Um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu

Depois que te conheci, exorcizei o medo
Aprendi a escutar o silêncio das madrugadas
Comecei a voar no perfume dos jasmineiros

Sou teu, todo teu, inteiramente teu
Pertencer-te é o mesmo que a liberdade
É ascender, vencer a eternidade, e sentir a presença de Deus!


Brasília, 20 de outubro de 2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Capítulo 9 de A CONFRARIA CABANAGEM. O jornalista Montezuma Cruz pontifica no MPEG

Pugilista amador na juventude, Ray Cunha posa para a
fotógrafa Márcia do Carmo, em 1996, em Belém, logo
depois da publicação da novela A CAÇA, pela Editora
Cejup. O autor nasceu em 1954, em Macapá

A CONFRARIA CABANAGEM, novo romance de Ray Cunha, é, da mesma forma que HIENA, que o antecedeu, uma história de detetive. Desta vez, porém, em vez de Hiena, é Apolo Brito quem protagoniza o thriller político-policial, e também a ação se desenrola quase toda em Belém do Pará. Nesta aventura, além de personagens de ficção, como Apolo Brito, transitam personagens reais, como o lendário jornalista Lúcio Flávio Pinto. O argumento de A CONFRARIA CABANAGEM é o seguinte: um senador da República, candidato a governador do Pará, é a única pessoa que poderá tirar o Estado das mãos de uma quadrilha que vem se locupletando há 12 anos, mas uma irmandade, a Confraria Cabanagem, descobre que o senador Fonteles será assassinado no segundo turno das eleições, e contrata o único homem que poderá impedir isso: Apolo Brito.
  
MONTEZUMA CRUZ, assessor de imprensa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), estava feliz com a visita do seu velho amigo. Ficara mesmo emocionado, mas intrigado com a aparição súbita de Apolo Brito, que fora lá para saber mais sobre a Phyllobates terribilis. Justamente sobre a Phyllobates terribilis. A surpresa foi mútua. Apolo Brito quase caiu para trás ao saber que havia uma Phyllobates terribilis no museu, pois um biólogo, doutor em biotecnologia, estava fazendo experiências com uma das mais de cem toxinas da rã, a homobatracotoxina, composto químico mortal, que causava um só sintoma em quem entrasse em contato direto com o animal: a falência múltipla dos órgãos. Montezuma Cruz abriu sua gaveta do meio e de lá tirou um exemplar da revista Superinteressante, folheou-a e entregou-a dobrada para Apolo Brito ler. Dizia o texto: “É minúsculo. Mas seu veneno mata na hora. Sapo de apenas 2,5 centímetros é o mais venenoso do mundo. O sapo Phyllobates terribilis, que tem apenas 2,5 centímetros de comprimento, é um dos animais mais venenosos do mundo. Sua arma é uma gosma que reveste o corpo. Dois milionésimos de grama liquidam um homem de 70 quilos instantaneamente. Nem é preciso engolir o veneno. Basta que a substância viscosa encoste numa pequena ferida aberta. O especialista em sapos Mike Ryan, da Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, explicou à Super que existem outras cinquenta espécies da mesma família, a dos dendrobatídeos. Mas nenhuma é tão venenosa. Segundo o biólogo Adão Cardoso, da Universidade de Campinas (Unicamp), estado de São Paulo, os dendrobatídeos saltam entre folhas mortas e galhos em decomposição, nas florestas de Cauca, região oeste da Colômbia. Os índios da área usam o veneno dos anfíbios para preparar a ponta das flechas para a caça”.
“Setenta quilos é o peso do senador Fonteles” – pensou Apolo Brito.
– Pensei que fosse rã e não sapo – disse.
– Sapos têm pele enrugada e são peçonhentos; rã tem pele lisa e é comestível, mas tanto faz, rã, sapo ou jia, sumiu um pequeno frasco com uma porção microscópica da homobatracotoxina – disse Montezuma Cruz. Apolo Brito olhou-o boquiaberto.
– O quê? – perguntou o detetive, sem acreditar no que ouviu. – A polícia descobriu alguma coisa? – perguntou, após pesado silêncio.
– Nada – respondeu o jornalista, pensativo. – Simplesmente o frasco desapareceu. – Por curiosidade, fiz uma pesquisa no Google e olha o que descobri – disse Montezuma Cruz, pegando duas laudas impressas na gaveta do meio da sua mesa.
“Segundo a Wikipedia, esta simples rãzinha é uma das criaturas mais venenosas que existem neste planeta. O nome da espécie é Phyllobates terribilis – o terribilis tem um certo sentido de ser, porque o veneno alcaloide desta rã causa parada respiratória imediata e um único adulto da Phyllobates terribilis tem homobatracotoxina suficiente para matar 20 mil cobaias ou 100 pessoas! Para se ter uma ideia do veneno, galinhas e cães que entraram em contato com um papel-toalha onde o sapo andou morreram.
“O veneno da Phyllobates Terribilis, a homobatracotoxina, é extremamente raro na natureza, só sendo encontrado em outros três sapos da Colômbia e dois pássaros venenosos de Papua, na Nova Guiné. Embora mate tudo que eventualmente o coma, o sapo tem como predador principal uma cobra, Liophis epinephelus, que é bem resistente ao veneno do sapo, mas não totalmente imune. O veneno alcaloide provém de insetos venenosos que fazem parte da dieta da rã. Isso explica por que ao longo do tempo em cativeiro o Phyllobates terribilis perde lentamente seu veneno. A criatura que transmite os alcalóides assassinos para a rã é um besouro da família Melyridae. Para se ter uma ideia do poder letal do veneno, dois décimos de micrograma dessa toxina pode matar um humano em poucos minutos. Cada adulto contém 200 microgramas em sua pele.
“Os índios pegam essas rãs com muito medo e passam as pontas das flechas nas costas delas. Depois de esfregadas, as flechas ficam letais por mais de dois anos. Assim, os índios matam macacos e outros animais com mais facilidade. Para capturar a bizarra rãzinha, os índios utilizam uma folha de bananeira como luva de proteção.
“Os médicos e laboratórios farmacêuticos estão estudando as moléculas da homobatracotoxina para encontrar um caminho para remédios mais potentes, como relaxantes musculares e anestésicos, uma vez que o veneno da rã teria potencial para dar origem a um anestésico bem mais potente que a morfina.
“Mais de 100 toxinas foram identificadas nesta rã. Para se ter uma ideia do poder letal do veneno deste sapinho, dois décimos de micrograma dessa toxina pode matar um humano em poucos minutos. Cada P. terribilis adulta contém 200 microgramas em sua pele. O veneno em destaque é a homobatracotoxina, um composto químico mortal cujo único sintoma é a falência múltipla dos órgãos e parada respiratória imediata em um adulto.
“A Phyllobates terribilis pode ser dourada, verde, branca e creme. Ele é encontrado na Colômbia, Bolívia, Equador, Brasil e por toda a área tropical da América do Sul, sobretudo na Amazônia, pois a rã vive em lugares úmidos e com muita chuva e calor.”
– Então há Phyllobates na Amazônia? – Apolo Brito perguntou.
– Sim, é encontrada em Almeirim, no alto rio Paru, que nasce na Serra de Tumucumaque, na fronteira do Pará com o Suriname – disse Montezuma Cruz. Adorava a Hileia e seu trabalho de jornalista especializado no Trópico Úmido. – Agora mesmo há pesquisadores investigando a calha norte do baixo Amazonas. Nessa região há santuários que os europeus e os americanos jamais viram, seja de helicóptero ou por meio de satélite, quanto mais pondo os pés. Trata-se de metade do estado do Pará, do rio Nhamundá, no município de Faro, passando pelos municípios de Terra Santa, Oriximiná, Óbidos, Curuá, Alenquer, Monte Alegre, Prainha e Almeirim, e o estado do Amapá, especialmente a região do alto Jari. É o último reduto desconhecido da superfície da Terra, o mais fascinante, por ser o mais desconhecido, mais deslumbrante do que as fossas marinhas, pois na Calha Norte a vida pulsa na superfície, sob o sol da Linha Imaginária do Equador. – Disse isso e ficou em silêncio.
– Só o biotecnólogo tem acesso ao sapo e ao veneno? – Apolo Brito perguntou. – Quem roubou o frasco conhece o dia a dia do museu e sabe o que está fazendo.
– Não, não é apenas o biotecnólogo que tem acesso ao veneno. Um veterinário também tem acesso ao Phyllobates terribilis, mas ele viajou uma semana antes do sumiço da toxina. A polícia já o ouviu. Está limpo. Quanto ao cientista, é simplesmente insuspeito. É um dos mais eminentes cientistas brasileiros, com uma folha de serviço impecável, extensa. Ele criou antibióticos à base de copaíba e andiroba, e vermífugos que têm salvado populações inteiras de ribeirinhos. Trata-se do dr. Waldemiro Gomes. É insuspeito.
– Waldemiro Gomes? Conheço-o. Esse está fora de qualquer suspeita, mas o veterinário, não – disse Apolo Brito.
– Ele tinha ido a Macapá para participar de uma pesquisa na Universidade Federal do Amapá sobre água – disse Montezuma Cruz.
– Água! Seria possível eu falar com ele? – disse Apolo Brito. – Montezuma Cruz olhou para o detetive tentando adivinhar o que ele sabia. – Vou abrir o jogo – continuou Apolo Brito. – Estou investigando isso pela Abin. – O outro o olhou sem acreditar. Mas Apolo Brito conhecia o terreno onde estava pisando. Tinha um contato, um coronel, da cúpula da comunidade de inteligência, a quem ele recorreria, se fosse preciso, inclusive contando que o senador Fonteles poderia ser morto pela homobatracotoxina. – Os americanos querem a homobatracotoxina – Apolo Brito chutou.
Montezuma Cruz o olhou sem entender. Ora, os americanos já estavam na Colômbia...
– O nome dele é Alfredo Cardoso, Alfredão. Ele mora no lado do China Bar, na Transcoqueiro 155 – disse Montezuma Cruz, consultando um papel que também tirou da gaveta do meio. – Ele vive no China Bar. É um sujeito alto, com uma pança descomunal. A pança e a cor da pele dele são únicas; ele não é nem branco nem negro, é cinzento. – Olhou para Apolo Brito e sentiu que estava enrolando. – Não adianta ir lá. Ele está em Macapá, e a Polícia Federal está vigiando ele – disse.
Apolo Brito sentia, desde o começo, que Montezuma Cruz não havia contado tudo.
– E onde estava guardada a toxina? – perguntou.
Montezuma Cruz fez um longo silêncio. Suspirou. Olhou para os olhos negros e úmidos do detetive.
– Estava em um cofre do tamanho de uma sala. O biotecnólogo separou uma parte para suas pesquisas e guardou o resto. No cofre havia também um muiraquitã, branco, de jadeíta, de 50 milímetros, pesando 42 gramas, de 2.500 anos, uma peça tapajônica sem preço. Levaram o muiraquitã também.
– E quem tem acesso a essa ala? – Apolo Brito perguntou.
– É aberta com cartão magnético.
– Cartão magnético? Um simples chupa-cabra clona cartão – disse Apolo Brito. – Então o ladrão sabia o que havia de valor no cofre. Isso amplia bastante o número de suspeitos.
– É verdade. Até eu fui ouvido pelo delegado, mas o fato é que a polícia não encontrou a mais tênue pista, e os depoimentos foram checados.
Algo estava latejando na memória de Apolo Brito.
– Tu disseste que o Alfredão participa de uma pesquisa sobre água...
– É. Ele é veterinário, mas é também um dos primeiros oceanógrafos formados pela Universidade Federal do Pará, e está fazendo uma pesquisa sobre a água do rio Amazonas como pesquisador visitante da Unifap.
Uma copeira serviu-lhes água gelada.
– O que mais havia no cofre? – Apolo Brito perguntou.
– Nada – disse Montezuma Cruz. – Fez um silêncio dramático. – Vou abrir o jogo também – disse. – Há coisa de quatro anos, quando comecei a fazer meu doutorado sobre história da Amazônia, descobri indícios de uma sociedade secreta dos americanos, por volta de 1939, em Fordlândia, denominada Confraria Muiraquitã...
– Confraria Muiraquitã? – Apolo Brito indagou, surpreso. “É confraria demais para minha cabeça... conspiração demais; acho que estão todos acometidos da síndrome da conspiração.”
– Sim, Confraria Muiraquitã. Pesquisei nos arquivos do Museu e no Arquivo Público do Pará e descobri evidências, embora frágeis, dessa irmandade, que teria pressentido, naquela época, o valor que a água, cada vez mais, adquire hoje, com a escalada da poluição. A irmandade teria como objetivo a preservação da água, internacionalizar a Amazônia e transformá-la em um gigantesco reservatório de água para o império americano. Descobri ainda que muiraquitã é o nome de uma pousada de um americano. Estive lá e monitorei o americano. Ele gosta de pescar no rio Tapajós, é frequentador assíduo de Alter do Chão, Santarém na verdade, e do rio Paru, mas a pousada fica em Mexiana.
– Mexiana? – Apolo Brito indagou, novamente surpreso.
– Sim, Mexiana – disse Montezuma Cruz, abrindo uma gaveta, desta vez a de baixo, à direita, de onde apanhou uma pasta com elástico e da qual tirou duas folhas de papel A4, que estendeu a Apolo Brito.
“Mexiana fica no delta do rio Amazonas, ao norte da ilha do Marajó, de que é separada pelo Canal do Sul. Da mesma forma que Macapá, ela é cortada pela Linha Imaginária do Equador. Suas várzeas, mangues e floresta equatorial são cheios de animais, como capivara, suçuarana, preguiça, caititu, macaco, jacaré, jiboia, e aves como guará, cegonha, tuiuiú, garça, piaçoca, maguari, além de peixes, os mais comuns, tucunaré, tambaqui, piranha, pirarucu, pirarara, filhote, pescada branca, piramutaba, dourada. Quem olha no mapa pensa que Mexiana é banhada pelo oceano Atlântico a nordeste, mas as águas que a banham são sempre doces, do rio Amazonas. Ela mede aproximadamente 100 mil hectares, ou campos de futebol, e dista de Belém, em linha reta, 190 quilômetros, oito horas de barco e cinquenta minutos de avião. Além de pista de pouso, a ilha conta com um hotel de selva, roteiros ecoturísticos, trilhas, passeio no lombo de búfalo, observação de fauna, pororoca e praias, as quais são: Jaburu Pinto, Japuá, Quebra-Vara, Matupiri e Malhadas. De clima equatorial, chove constantemente na ilha. Os voos, fretados, para Mexiana, saem do aeroporto Val-de-Cães. Depois da pororoca, a pesca esportiva é um dos maiores atrativos da ilha. Pescadores de todo o mundo viajam até lá em busca da emoção de pegar peixes, que chegam a três metros de comprimento” – dizia o impresso.
– O intrigante é que na minha investigação eu descobri que a maior riqueza da Amazônia não é ouro, nem diamante, nem madeira, é água mesmo! – disse Montezuma Cruz, tirando da pasta algumas laudas grampeadas, que estendeu a Apolo Brito. Tratava-se de matéria, assinada pelo jornalista acreano Chico Araújo, publicada no site Agência Amazônia, sob o título: “Navios-tanque traficam água de rios da Amazônia – Falta de fiscalização facilita a ação de criminosos. Autoridades brasileiras já foram informadas da situação”. A matéria dizia o seguinte:
“Brasília, quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 – É assustador o tráfico de água doce no Brasil. A denúncia está na revista jurídica Consulex 310, de dezembro do ano passado, num texto sobre a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o mercado internacional de água. A revista denuncia: “Navios-tanque estão retirando sorrateiramente água do rio Amazonas”. Empresas internacionais até já criaram novas tecnologias para a captação da água. Uma delas, a Nordic Water Supply Co., empresa da Noruega, já firmou contrato de exportação de água com essa técnica para a Grécia, Oriente Médio, Madeira e Caribe.
“Conforme a revista, a captação geralmente é feita no ponto onde o rio deságua no oceano Atlântico. Estima-se que cada embarcação seja abastecida com 250 milhões de litros de água doce, para engarrafamento na Europa e Oriente Médio. Diz a revista ser grande o interesse pela água farta do Brasil, considerando que é mais barato tratar águas usurpadas (US$ 0,80 o metro cúbico) do que realizar a dessalinização das águas oceânicas (US$ 1,50).
“Anos atrás, a Agência Amazônia também denunciou a prática nefasta. Até agora, ao que se sabe, nada de concreto foi feito para coibir o crime batizado de hidropirataria. Para a revista Consulex, “essa prática ilegal não pode ser negligenciada pelas autoridades brasileiras, tendo em vista que são considerados bens da União os lagos, os rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seus domínio (CF, art. 20, III).
“Outro dispositivo, a Lei 9.984, de 17 de julho de 2000, atribui à Agência Nacional de Águas (ANA), entre outros órgãos federais, a fiscalização dos recursos hídricos de domínio da União. A lei ainda prevê os mecanismos de outorga de utilização desse direito. Assinado pela advogada Ilma de Camargos Pereira Barcellos, o artigo ainda destaca que a água é um bem ambiental de uso comum da humanidade. “É recurso vital. Dela depende a vida no planeta. Por isso mesmo impõe-se salvaguardar os recursos hídricos do país de interesses econômicos ou políticos internacionais”, defende a autora.
“Segundo Ilma Barcellos, o transporte internacional de água já é realizado através de grandes petroleiros. Eles saem de seu país de origem carregados de petróleo e retornam com água. Por exemplo, os navios-tanque partem do Alaska, Estados Unidos – primeira jurisdição a permitir a exportação de água –, com destino à China e ao Oriente Médio, carregando milhões de litros de água.
“Nesse comércio, até uma nova tecnologia já foi introduzida no transporte transatlântico de água: as bolsas de água. A técnica já é utilizada no Reino Unido, Noruega ou Califórnia. O tamanho dessas bolsas excede ao de muitos navios juntos, destaca a revista Consulex. “Sua capacidade é muito superior a dos superpetroleiros.” Ainda de acordo com a revista, as bolsas podem ser projetadas de acordo com a necessidade e a quantidade de água e puxadas por embarcações rebocadoras convencionais.
“Há seis anos, o jornalista Erick Von Farfan também denunciou o caso. Numa reportagem no site eco21 lembrava que, depois de sofrer com a biopirataria, com o roubo de minérios e madeiras nobres, agora a Amazônia está enfrentando o tráfico de água doce. A nova modalidade de saque aos recursos naturais foi chamada por Farfan de hidropirataria. Segundo ele, os cientistas e autoridades brasileiros foram informados que navios petroleiros estão reabastecendo seus reservatórios no rio Amazonas antes de sair das águas nacionais.
“Farfan ouviu Ivo Brasil, diretor de Outorga, Cobrança e Fiscalização da Agência Nacional de Águas. O dirigente disse saber desta ação ilegal. Contudo, ele aguarda uma denúncia oficial chegar à entidade para poder tomar as providências necessárias. “Só assim teremos condições legais para agir contra essa apropriação indevida”, afirmou.
“O dirigente está preocupado com a situação. Precisa, porém, dos amparos legais para mobilizar tanto a Marinha como a Polícia Federal, que necessitam de comprovação do ato criminoso para promover uma operação na foz dos rios de toda a região amazônica próxima ao oceano Atlântico. “Tenho ouvido comentários nesse sentido, mas ainda nada foi formalizado”, observa.
“Segundo Farfan, o tráfico pode ter ligações diretas com empresas multinacionais, pesquisadores estrangeiros autônomos ou missões religiosas internacionais. Também lembra que até agora nem mesmo com o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) foi possível conter os contrabandos e a interferência externa dentro da região.
“A hidropirataria também é conhecida dos pesquisadores da Petrobras e de órgãos públicos estaduais do Amazonas. A informação deste novo crime chegou, de maneira não oficial, ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão do governo local. “Uma mobilização até o local seria extremamente dispendiosa e necessitaríamos do auxílio tanto de outros órgãos como da comunidade para coibir essa prática”, afirmou Ivo Brasil.
“A captação é feita pelos petroleiros na foz do rio ou já dentro do curso de água doce. Somente o local do deságue do Amazonas no Atlântico tem 320 quilômetros de extensão e fica dentro do território do Amapá. Nesse lugar, a profundidade média é em torno de 50 metros, o que suportaria o trânsito de um grande navio cargueiro. O contrabando é facilitado pela ausência de fiscalização na área.
“Essa água, apesar de conter uma gama residual imensa e a maior parte de origem mineral, pode ser facilmente tratada. Para empresas engarrafadoras, tanto da Europa como do Oriente Médio, trabalhar com essa água mesmo no estado bruto representaria uma grande economia. O custo por litro tratado seria muito inferior aos processos de dessalinizar águas subterrâneas ou oceânicas. Além de livrar-se do pagamento das altas taxas de utilização das águas de superfície existentes principalmente dos rios europeus. Abaixo, alguns trechos da reportagem de Erick Von Farfan:
“Hidro ou biopirataria? – O diretor de operações da empresa Águas do Amazonas, o engenheiro Paulo Edgard Fiamenghi, trata as águas do rio Negro, que abastece Manaus, por processos convencionais, e reconhece que esse procedimento seria de baixo custo para países com grandes dificuldades em obter água potável. “Levar água para tratar no processo convencional é muito mais barato que o tratamento por osmose reversa”, comenta.
“O avanço sobre as reservas hídricas do maior complexo ambiental do mundo, segundo os especialistas, pode ser o começo de um processo desastroso para a Amazônia. E isto surge num momento crítico, cujos esforços estão concentrados em reduzir a destruição da flora e da fauna, abrandando também a pressão internacional pela conservação dos ecossistemas locais.
“Entretanto, no meio científico ninguém poderia supor que o manancial hídrico seria a próxima vítima da pirataria ambiental. Porém os pesquisadores brasileiros questionam o real interesse em se levar as águas amazônicas para outros continentes. O que suscita novamente o maior drama amazônico, o roubo de seus organismos vivos. “Podem estar levando água, peixes ou outras espécies e isso envolve diretamente a soberania dos países na região”, argumentou Martini.
“A mesma linha de raciocínio é utilizada pelo professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Paraná, Ary Haro. Para ele, o simples roubo de água doce está longe de ser vantajoso no aspecto econômico. “Como ainda é desconhecido, só podemos formular teorias e uma delas pode estar ligada ao contrabando de peixes ou mesmo de microrganismos”, observou.
“Essa suposição também é tida como algo possível para Fiamenghi, pois o volume levado na nova modalidade, denominada “hidropirataria”, seria relativamente pequeno. Um navio petroleiro armazenaria o equivalente a meio dia de água utilizada pela cidade de Manaus, de 1,5 milhão de habitantes. “Desconheço esse caso, mas podemos estar diante de outros interesses além de se levar apenas água doce”, comentou.
“Segundo o pesquisador do Inpe, a saturação dos recursos hídricos utilizáveis vem numa progressão mundial e a Amazônia é considerada a grande reserva do planeta para os próximos mil anos. Pelos seus cálculos, 12% da água doce de superfície se encontram no território amazônico. “Essa é uma estimativa extremamente conservadora, há os que defendem 26% como o número mais preciso”, explicou.
“Em todo o planeta, dois terços são ocupados por oceanos, mares e rios. Porém, somente 3% desse volume são de água doce. Um índice baixo, que se torna ainda menor se for excluído o percentual encontrado no estado sólido, como nas geleiras polares e nos cumes das grandes cordilheiras, contando ainda com as águas subterrâneas. Atualmente, na superfície do planeta, a água em estado líquido representa menos de 1% desse total disponível.
“Água será motivo de guerra – A previsão é que num período entre 100 e 150 anos, as guerras sejam motivadas pela detenção dos recursos hídricos utilizáveis no consumo humano e em suas diversas atividades, como a agricultura. Muito disso se daria pela quebra dos regimes de chuvas, causada pelo aquecimento global. Isso alteraria profundamente o cenário hidrológico mundial, trazendo estiagem mais longas, menores índices pluviométricos, além do degelo das reservas polares e das neves permanentes.
“Sob esse aspecto, a Amazônia se transforma num local estratégico. Muito devido às suas características particulares, como o fato de ser a maior bacia existente na Terra e deter a mais complexa rede hidrográfica do planeta, com mais de mil afluentes. Diante desse quadro, a conclusão é óbvia: a sobrevivência da biodiversidade mundial passa pela preservação dessa reserva.
“Mas a importância desse reduto natural poderá ser, num futuro próximo, sinônimo de riscos à soberania dos territórios pan-amazônicos. O que significa dizer que o Brasil seria um alvo prioritário numa eventual tentativa de se internacionalizar esses recursos, como já ocorre no caso das patentes de produtos derivados de espécies amazônicas. Pois 63,88% das águas que formam o rio se encontram dentro dos limites nacionais.
“Esse potencial conflito é algo que projetos como o Sistema de Vigilância da Amazônia procuram minimizar. Outro aspecto a ser contornado é a falta de monitoramento da foz do rio. A cobertura de nuvens em toda a Amazônia é intensa e os satélites de sensoriamento remoto não conseguem obter imagens do local. Já os satélites de captação de imagens via radar, que conseguiriam furar o bloqueio das nuvens e detectar os navios, estão operando mais ao norte.
“As águas amazônicas representam 68% de todo o volume hídrico existente no Brasil, e sua importância para o futuro da humanidade é fundamental. Entre 1970 e 1995, a quantidade de água disponível para cada habitante do mundo caiu 37% em todo mundo, e, atualmente, cerca de 1,4 bilhão de pessoas não têm acesso à água limpa. Segundo a Water World Vision, somente o rio Amazonas e o Congo podem ser qualificados como limpos”.
– Os muiraquitãs se reúnem anualmente em Soure – disse Montezuma Cruz, quando Apolo Brito devolveu as laudas, lidas atentamente.
– Em Soure? – perguntou o detetive.
– Vamos almoçar – Montezuma Cruz o convidou, pegando uma pasta na qual reunira várias cópias de impressos, enquanto Apolo Brito estivera lendo o artigo de Chico Araújo, e a entregou ao detetive. – Lê este material com calma.

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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Capítulo 5 do thriller político-policial A CONFRARIA CABANAGEM, ambientado em Belém e Brasília. Apolo Brito pontifica


APOLO BRITO se levantou às 5 horas, como sempre. Pôs o roupão de lã e foi para o banheiro. Sentado no vaso, agradeceu ao seu estômago, aos intestinos e ao ânus. Sofrera de prisão de ventre durante longos anos. Certa vez comeu banana em excesso e fez muita força com o esfíncter; acreditava que isso originara uma hemorroida. A solução imediata fora estocar ameixa em calda para consumo diário. Embora continuasse comendo ameixa, que se tornara sua fruta predileta, bastava-lhe, agora, agradecer ao seu aparelho digestivo para ele funcionar como se seu corpo ainda fosse azeitado pela juventude. Lavou as mãos e entrou no banheiro, ajustou a ducha até a água cair quase morna, tomou banho e depois raspou o rosto. Era peludo, tinha o queixo quadrado, rosto oval e grandes olhos negros, quase tristes. Saiu do banheiro e foi para a cozinha. Comprara uma pequena máquina italiana e mantinha em estoque grãos arábica Três Corações, gourmet, de Santa Luzia, Minas Gerais. Tirou uma xícara de café, encorpado e cremoso, adoçou-o com açúcar refinado União e o levou para o quarto da frente, no primeiro andar. Afastou duas lâminas da persiana e observou a Avenida W3 Sul. Àquela hora, o movimento de carros era quase nenhum. Fechou a veneziana e retornou à cozinha, no térreo. Depositou o pires e a xícara na pia e se dirigiu para os fundos da casa, localizada na HIGS, Quadra 703. Havia um pequeno jardim nos fundos, onde Apolo Brito cultivava rosas colombianas vermelhas e zínias multicoloridas. No centro do jardim plantara uma buganvília e um jasmineiro, ambos escorados em esteio preso à sacada do seu quarto, no primeiro andar. Nas noites quentes, podia sentir o intenso perfume exalado pelo jasmineiro. Satisfeito com a ronda matutina, Apolo Brito foi para a biblioteca, onde instalara o oratório. A sala era iluminada por uma lâmpada amarela de duzentas velas; o abajur fora desenhado para que a claridade inundasse o ambiente. Ao se dirigir ao oratório, Apolo Brito lançou uma olhada para o pátio, onde vicejava belo comigo-ninguém-pode. O oratório era precedido de um tapete indiano. Na extremidade do tapete oposta ao altar havia o desenho de um demônio. Um grande gato vira-lata dormia sobre ele. Ao tirá-lo das ruas, Apolo Brito lhe dera o nome de Betão, homenagem a um querido amigo seu, de olhos furta-cores, ora azuis, ora verdes. Ao passar por cima do gato o bichano mal abriu os olhos, apenas para constatar que se tratava de Apolo Brito, e voltou a dormir. O detetive acendeu uma grande vela branca e uma vareta de incenso. Examinou as laranjas-peras e a palma de banana prata, arrumadas em duas bandejas. Havia, ainda, duas tigelas de porcelana chinesa contendo arroz e sal, um copo de cristal com água e um pote cheio de bombons, entre os quais um tablete de cem gramas de Talento, chocolate branco com uvas-passas, fabricado pela Garoto. Sentou-se na cadeira, à extremidade do tapete oposta ao gato, juntou os calcanhares em linha reta com o períneo, mantendo a coluna na vertical como um fio de prumo, uniu levemente as mãos diante do rosto, a ponta dos polegares à altura do nariz, quase tocando-o, e fechou os olhos, voltados, ligeiramente, para cima.

   Oh! Deus-Pai, que dais vida
            a todos os seres viventes
            abençoai-me com Vosso Espírito.

            Eu vivo
            não pela minha própria força,
            mas pela vida de Deus-Pai
            que permeia os céus e a terra.

            As minhas obras,
            não sou eu quem as realiza,
            mas a força de Deus-Pai
            que permeia os céus e a terra.

            Oh! Deus, que Vos manifestastes
            através da Seicho-no-Ie
            para indicar o Caminho
            dos céus e da terra, protegei-me.

            Às 9 horas, Apolo Brito já estava no seu escritório. Pela janela, entre as frestas da folhagem das frondes que se cruzavam de duas árvores de pau-brasil, na altura do primeiro andar do Edifício Yara Medeiros, viu quando Gilberto Soares Fonteles atravessou a rua entre as Quadras Dois e Três do Setor Comercial Sul. “Deve ter estacionado o carro defronte ao Palácio do Comércio” – pensou. Gilberto Soares Fonteles media 1,80 metro de altura, usava os cabelos, castanhos, bem aparados, e estava sempre barbeado. Betão era como Apolo Brito chamava seu velho amigo. Editara Polícia no jornal Observador Amazônico. Agora, era correspondente na Amazônia do jornal O Estado de S.Paulo. Estreitaram amizade na Homicídios, em Belém, na época em que Apolo Brito fora delegado titular. O acidente ocorrera em um momento tenso na Homicídios. Apolo Brito flagrou o delegado substituto torturando um preso, e havia indícios de que esse delegado se envolvera em extorsão e tráfico de drogas. Encaminhara o caso à Corregedoria. O escorregadio Peixe Ensaboado, chefão do tráfico, que já liquidara 13, apenas do que se sabia, e que Apolo Brito caçava há anos, voltara a dar as caras. Um informante comunicara a Apolo Brito que Peixe Ensaboado embarcaria, na madrugada do dia seguinte ao do acidente, no barco Flor do Tocantins, no Porto do Sal, com destino à ilha Mexiana. Assim que se levantou do leito no Hospital Sara Kubitschek, em Brasília, Apolo Brito recebeu um dossiê do seu amigo escrivão Eduardo Rocha dando conta de que após exaustiva investigação de dois delegados da Corregedoria concluíra-se que o delegado substituto da Homicídios armara uma emboscada para Apolo Brito, que seria assassinado no Flor do Tocantins e desovado na baía de Marajó. Peixe Ensaboado seria a isca, e sócio também. O delegado substituto e Peixe Ensaboado foram flagrados a bordo do Flor do Tocantins com uma tonelada da cocaína mais pura que já se viu no Pará, que seria descarregada à luz do dia, para não dar na vista. Na noite anterior, na Belém-Mosqueiro, Apolo Brito cochilou ao volante e acabou estirado numa cama do Hospital Sara Kubitschek, em Brasília, durante exatos nove meses. Fora transportado por Linda, sua irmã, também solteirona, e que se dedicava a um orfanato, Lar do Pequeno Príncipe, em Belém. No Hospital Sara Kubitschek ficou aos cuidados da fisioterapeuta e psicóloga Maria Augusta. Os primeiros meses, Apolo Brito os passou mergulhado no que lhe parecia uma banheira cheia de líquido morno e viscoso. Na escuridão via brilharem dois lápis-lazúlis, e ouvia murmúrios que lhe lembravam sua mãe rezando. Um dia, divisou uma mulher diáfana, que orava, ao seu lado, todas as manhãs. Soube depois que lia o Sutra Sagrado Contínuo Chuva de Néctar da Verdade, de autoria do filósofo japonês Masaharu Taniguchi, e agradecia ao perfeito estado dos órgãos de Apolo Brito, aos seus sentidos, membros, ossos, músculos, sistema nervoso, às vísceras, ao cérebro... Ele ouvia os agradecimentos diariamente e pensava sobre a razão daquela bela mulher agradecer pela saúde do seu corpo estirado numa cama. Como podia dizer que ele era perfeito? Pois aquilo durou exatos nove meses, ao cabo dos quais Apolo Brito simplesmente se levantou da cama, precisamente no dia em que completou 54 anos. Segundo o laudo médico, sua medula espinhal, próxima ao pescoço, fora seriamente afetada, mas, inexplicavelmente, novas radiografias mostravam que a parte atingida estava intacta. Quando fora transportado para Brasília, Esmeralda, que tinha então 23 anos, o acompanhara, e aproveitara para fazer o curso de Biologia na Universidade de Brasília. Quando Apolo Brito se instalou como detetive particular, Esmeralda se tornou sua assistente. Durante sua estada, Esmeralda morou primeiramente em um hotel e depois com Maria Augusta, por insistência da médica; às vezes passava temporadas com Apolo Brito na W3 Sul. Assim que se levantara do leito de morte, Apolo Brito poderia, se quisesse, retornar para Belém e reassumir na polícia, mas acabou ficando. Ocorrera um caso pavoroso. Um atleta entrou num hospital de Brasília para um check-up e dele só encontraram a carcaça. Apolo Brito identificara uma quadrilha especializada em matar e extrair órgãos das vítimas. O chefão era médico e deputado federal. Gilberto Soares Fonteles escrevera uma séria de matérias com informações em primeira mão para o Observador Amazônico e logo depois o Estadão o convidou para trabalhar como correspondente na Amazônia Internacional. A doutora Maria Augusta, 51 anos, viúva, oriunda de Patos de Minas, era proprietária de uma clínica no Lago Sul e herdara uma fortuna em imóveis, incluindo a casa na Avenida W3 Sul, onde Apolo Brito morava. Junto à doutora Maria Augusta, Apolo Brito sentia-se livre como o vento, que vai aonde quer. Gostavam de quedar-se juntos, mas jamais tomaram posse um do outro, mesmo no tempo em que se devoravam como fogo.
Assim que Gilberto Soares Fonteles entrou na sala de Apolo Brito, Esmeralda serviu café aos dois homens. Ela utilizava coador de algodão e Café Dois Corações, gourmet. O aroma da bebida, encorpada, recém-coada, espalhara-se na sala. A louça de porcelana chinesa e as baixelas de prata combinavam com os móveis, em madeira trabalhada artesanalmente, escolhidos pela doutora Maria Augusta. Óleos cobriam as paredes. Telas de Olivar Cunha. Mendigos, cenas no bairro do Guamá, em Belém, e no Igarapé das Mulheres, em Macapá, guarita de baluarte da Fortaleza São José de Macapá, naturezas mortas de frutas e vasilhames típicos da Amazônia. Entre os quadros, havia um impressionante, um tuiuiú crucificado pairando sobre a boca de um cano de esgoto. Acomodado na grande poltrona de couro, diante da mesa de trabalho, Apolo Brito virou-se e bisbilhotou a rua por uma fresta na persiana. Abriu o estojo de Cohiba e o ofereceu a Gilberto Soares Fonteles, que o recusou. Acendeu um para si.
            – O titio poderá ser assassinado para que Jarbas Barata ganhe a eleição - disse o jornalista.
– Como assim? – Apolo Brito perguntou.
– Vou te contar algo que jamais deverá ser mencionado, e não preciso dizer que confiamos plenamente em ti. Sou membro de uma sociedade secreta, a Confraria Cabanagem, uma espécie de Cabanagem contemporânea – disse Gilberto, olhando nos olhos de Apolo Brito. – Pois bem, descobrimos um plano para, simplesmente, eliminar meu tio. No segundo turno, em caso de morte de um dos dois candidatos, o outro é eleito...
– Tudo bem, mas como assassinato? – Apolo Brito perguntou de novo.
– Aí é que está. Deverá ser um acidente que parecerá morte natural. Não sei como pretendem fazer isso e é por essa razão que precisas ir para Belém imediatamente. A contar de hoje, eles têm 23 dias para assassinar meu tio. O segundo turno será dia 31. Hoje, são 7.
– Mas por que eles fariam isso? – Apolo Brito perguntou.
– Se Jarbas Barata perder as eleições, sabe que estará literalmente perdido, não apenas nas urnas. A elite belenense, aquela que continua a escravizar os caboclos, sabe que meu tio fará, ao seu modo, uma revolução, e os lucros exorbitantes dessa elite evaporarão. Muita gente boa terá que desgrudar suas ventosas das tetas do erário, pessoas que vêm furtando verbas públicas há anos. Essa possibilidade deve tirar o sono das sanguessugas. Para a confraria, o senador Fonteles é a única pessoa que poderá resgatar o Pará da sua, digamos, tragédia, o colonialismo; resgatá-lo por meio de sociedades sustentáveis, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos quilombolas, dos povos da floresta. Mas para fazer isso será necessário estancar a sangria de dinheiro público, o que desagradará muita gente poderosa, e há muita gente metida nisso – empresários, juízes, procuradores públicos, jornalistas, policiais... a perspectiva de meu tio ser eleito – e tudo leva a crer que ele será eleito – os aterroriza, daí porque farão tudo, absolutamente tudo, para impedir isso. Se for eleito, e tomar posse, a Confraria Cabanagem vai ajudá-lo sem que ele saiba disso; a ajuda necessária para vencer a tremenda resistência que ele enfrentará. Somos poderosos também, e todas essas pessoas, sobre as quais temos dossiês, serão vigiadas mais de perto do que possam imaginar. Se for preciso, sofrerão acidentes fatais. Meu tio jamais concordaria com isso. Ele é profundamente democrata e rigorosamente pelo estado pleno de direito, além de pacifista. O senador Fonteles não sabe da existência da confraria. Aliás, a Confraria Cabanagem não existe. O fato é que descobrimos o complô; é assustador, mas verdadeiro. Este dinheiro é do fundo da confraria – disse Gilberto, pondo diante de Apolo Brito um cheque nominal de 7 mil reais. Apolo Brito examinou o cheque.
– É muito dinheiro – disse, repondo-o sobre a mesa.
– É necessário que viajes imediatamente para Belém e tenhas recursos para fazer o que for preciso – disse Gilberto.
Apolo Brito abriu uma fresta na persiana e deu uma olhada para fora. Pegou novamente o cheque e olhou-o.
– Como foi o primeiro turno? E como foi que vocês descobriram esse... complô? – perguntou.
– Titio obteve mais votos do que Jarbas Barata no primeiro turno. Em casos assim, quando um dos dois candidatos morre, ou fica impedido, a Constituição garante ao outro a vitória. Ocorre que Dashiell Hammett, que é, como sabes, o diretor de redação do Observador Amazônico, e que é cabano, presenciou, na sala dele, no jornal, uma conversa entre o Arigó Italiano e Jarbas Barata, que foram lá tratar de uma nota para a coluna Redator 21. Dashiell Hammett ouviu JB cochichando para o Arigó Italiano. Crê que ouviu, a certa altura, que falavam do senador Fonteles e em colapso cardíaco. Dashiell Hammett fez que estava concentrado na redação da nota. Nessa hora alguém pôs a cabeça na porta e chamou Dashiell com urgência. Segundo sua impressão, os dois não notaram que ele ouviu parte do que cochichavam. Dashiell está certo de que se referiam às eleições e ao titio. Chegamos à conclusão de que o titio pode ser induzido a um colapso cardíaco, pois ele é hipertenso e toma remédio controlado para o coração – disse Gilberto.
Apolo Brito pensou um pouco. O que Gilberto Soares Fonteles lhe dizia não deixava de fazer sentido.
– Bem, preciso me inteirar do dia a dia do senador e ir à casa dele, aqui em Brasília, antes de viajar para Belém. Essas coisas sempre são um começo – disse. Gilberto Soares Fonteles assentiu.
– Como sabes, o titio está licenciado do Senado. Ele preside a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. De qualquer forma, aqui ou em Belém, trabalha até tarde, meia-noite, início da madrugada, sempre na biblioteca. Esquematiza seus pronunciamentos à mão. Na sua casa, no Lago Sul, tem um fila que só falta falar. Obedece a todas as ordens do titio. Ninguém se aproxima dele se ele não ordenar ao cão que fique quieto. Os criados – um motorista, dois vigilantes, o cozinheiro, uma arrumadeira e o jardineiro – estão limpos, naturalmente, pois o titio não vem aqui desde junho. De qualquer modo, conversei com todos eles. São daqui da região e não têm a mínima ideia do que se passa no Pará, nem sequer se o Pará existe, e são simplórios demais para receber a proposta de matar o titio sem praticamente anunciarem isso ao mundo – disse Gilberto, sorrindo. – Pois bem, normalmente o titio vai, rotineiramente, às quintas-feiras, à noite, para Belém, e costuma ficar até segunda-feira, à noite; então, retorna para Brasília. Essa rotina, óbvio, foi quebrada quando a campanha começou para valer, em junho.
– Alguma novidade na família que eu ainda não saiba? – disse Apolo Brito.
Gilberto Soares Fonteles pensou um pouco.
– Ele se casou de novo; há coisa de um ano. Foi um casamento discreto; pouca gente soube. Sua segunda mulher se chama Eleonora – disse, com a expressão de quem acaba de se lembrar de algo óbvio.
– Eleonora? – perguntou o detetive.
A noite chegou, lenta. Apolo Brito deixou seu Alfa Romeo numa vaga no estacionamento público a leste do Centro Comercial Gilberto Salomão e procurou um café. Uma jovem o atendeu. A iluminação do ambiente, a juventude da moça e o espresso transmitiram sensação de conforto ao detetive. Havia também muitas pessoas bonitas caminhando por ali. Deixou-se ficar algum tempo. Então, tomou a direção de onde deixara o carro e se dirigiu para um estacionamento pago, nos fundos do qual havia um portão no muro; cruzou-o e saiu defronte a um prédio de dois andares, a Casa 21 do Conjunto 16 das Quadras Internas 5, Setor Habitacional Individual Sul. Acionou a campainha. Quando o vigilante abriu a porta, Apolo Brito ouviu o fila. Gilberto Soares Fonteles o aguardava no saguão.
– Eu gostaria de ficar só – Apolo Brito pediu.
– Vou para meu quarto – disse Gilberto Soares Fonteles. – O vigilante estará na sala dele.
O andar de baixo era composto de um salão, duas salas, ampla cozinha, dois banheiros, dependências do vigilante e duas varandas, além do quintal – um jardim impecavelmente cuidado, uma pequena piscina e a casa do cachorro. O andar de cima compunha-se de três suítes e dois quartos, biblioteca contígua a uma das suítes – e que era também o escritório do senador –, dois banheiros coletivos, duas saletas e duas varandas. Apolo Brito se dirigiu diretamente para a biblioteca. Tratava-se de ampla sala, com estantes de portas envidraçadas e corrediças cobrindo as paredes do chão ao teto. Os livros estavam arrumados por assunto. A um rápido exame, Apolo Brito percebeu que aquelas estantes guardavam o suprassumo da ficção, história e filosofia universais. Uma parede inteira abrigava somente livros relativos à Amazônia, ao Caribe e à Ibero-América. Leu os nomes de alguns autores: Ferreira de Castro, Dalcídio Jurandir, Benedicto Monteiro, João de Jesus Paes Loureiro, Luiz Bacelar, Jorge Tufic, Antísthenes de Oliveira Pinto, Thiago de Melo, Isnard Brandão Lima Filho, Vicente Salles, Gabriel García Márquez, Ruan Rulfo, Mario Vargas Llosa, Lúcio Flávio Pinto (de quem havia os seguintes livros: CVRD – A sigla do enclave na Amazônia – As mutações da estatal e o Estado imutável no Pará; Guerra Amazônica – O jornalismo na linha de tiro de grileiros, madeireiros, intelectuais etc. & cia.; Contra o poder – 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica; e A agressão – Imprensa e violência na Amazônia)... Retirou um livro da estante, Memorial da Cabanagem, de Vicente Salles. Devolveu o livro ao seu lugar, entre mais dois volumes de Vicente Sales, O Negro no Pará – Sob o Regime da Escravidão e Marxismo, Socialismo e os Militantes Excluídos. Apolo Brito fechou a estante, olhou em torno. Foi se sentar na poltrona do senador. A mesa era enorme, de sete gavetas. Abriu a primeira delas, à sua direita. Havia, ali, vários objetos de escritório e uma agenda. Gilberto já analisara minuciosamente a agenda. Na segunda gaveta encontrou pastas com documentos. Na última, havia fitas, CDs, DVDs e disquetes. Tudo fora examinado por Gilberto. Do outro lado, as gavetas praticamente repetiam o conteúdo das outras. Na do meio da mesa havia uma pilha de papéis com anotações de um discurso aparentemente sobre internacionalização da Amazônia. Levantou-se. Foi até o quarto do casal. Sobre o toucador, uma fotografia do senador e dona Eleonora. A mulher era mais alta do que o senador, branca, de olhos claros e belo nariz afilado. Betão lhe informara que Eleonora era natural de Macapá, filha de uma ex-Miss Amapá e de um americano, de quem herdou a Industrialização e Comercialização de Minerais S.A. (Icomisa), sediada em Belém e com atuação no Pará e Amapá. O senador a conhecera numa visita à empresa. Apolo Brito devolveu o porta-retratos ao toucador. Começou a vasculhar gavetas, guarda-roupa e armários. Nada lhe chamou a atenção. Então viu os criados-mudos. Abriu a gaveta do primeiro. Era o do senador. Havia nele o livro Cheiro de Goiaba, longa entrevista que o escritor Plínio Apuleyo Mendoza fizera com seu conterrâneo Gabriel García Márquez; embaixo do livro encontrou o Dicionário Histórico de Palavras Portuguesas de Origem Tupi, de Antônio Geraldo da Cunha, prefaciado por Antônio Houaiss. Cheiro de Goiaba, O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e Verde Vagomundo, de Benedicto Monteiro, eram três dos livros dos quais o senador Fonteles mais gostava. Apolo Brito lera essa informação em algum lugar. Eram também os livros de cabeceira do detetive. No outro criado-mudo encontrou um envelope pardo, de papel amadeirado. Abriu-o. Havia um mapa assinalando o município de Almeirim, no Pará, a sudoeste; ao norte, demarcava os altos rios Jari e Paru de Este, e a fronteira entre o Pará e o Suriname; a noroeste, o Parque Indígena do Tumucumaque, a Serra do Tumucumaque e o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque; e, a leste, os municípios de Serra do Navio e Laranjal do Jari, no Amapá. No rodapé do mapa estava escrito a lápis “Phyllobates terribilis”, ao lado de um muiraquitã. Anotou mentalmente o mapa e, numa caderneta, o nome científico do rodapé. Devolveu o envelope ao criado-mudo, olhou mais uma vez em volta e saiu do quarto. Retornou à biblioteca e voltou a se sentar na poltrona do senador. Ficou ali por longo tempo. “A morte pode vir de muitas formas, inclusive de forma inacreditável, e, por isso mesmo, perfeitamente natural. Mas que poder poderá calar para sempre o senador sem deixar nenhuma pista?” – disse Apolo Brito, para si mesmo, o pensamento divagando.
Naquela noite, Apolo Brito foi dormir na casa de Maria Augusta. Às cinco horas, quando se levantou, ela dormia. Um sorriso se desenhara no seu rosto. Seus cabelos, antes dourados, começavam a ficar prateados; quedavam-se como jorro de ouro esmaecido e prata. Seu corpo continuava esguio, e a pele, sedosa e perfumada. Apolo Brito olhou-a com carinho. Levantou-se e foi ao banheiro. Retornou ao quarto e voltou a dormir. Acordou com o sol empurrando as cortinas, imperando na manhã límpida. Maria Augusta continuava dormindo. Acabara de se tornar preletora internacional da Seicho-no-Ie, e, por isso, a partir de então, viveria viajando pelo mundo, difundindo a mensagem do mestre Masaharu Taniguchi. Seus filhos, um casal, moravam em Tóquio; estavam se especializando em japonês. Olhando o rosto suave de Maria Augusta, Apolo Brito via os dias frios de julho, as chuvas, que começam a cair para valer em novembro, quando as mangueiras da Praça do Buriti ficam prenhes de mangas, que, de tão bonitas, lembram seios de mulher, a explosão de cores, as cigarras e os sabiás cantando o dia todo na primavera, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, a fachada do Conjunto Nacional à noite, as compras aos sábados na Feira do Guará, onde fazia o desjejum comendo pastel de carne e azeitona com caldo de cana, e comprava peixe fresco, trazido do Araguaia-Tocantins. Todas essas coisas já estavam para sempre no seu coração. Naquela noite, partiria para Belém.

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