quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CONTO/Apego

Nunca vi mulher tão bonita como a socialite Gislaine Cagnotto, 40 anos. Pequena – um metro e sessenta, mais ou menos, e em torno de 55 quilos –, de pele rosada, boca semelhante a da atriz Alinne Moraes, cabelos ruivos, olhos verdes, seios fartos e garupa equina, tudo isso foi aquinhoado ainda com seu dom literário. Gislaine Cagnotto é poeta acima da média, o que quer dizer que não amontoa palavras apenas, mas vasculha as vísceras. E foi precisamente isto que a fez procurar-me: as vísceras.

Somos amigos há um bom tempo, exatamente por frequentarmos as mesmas festas da alta sociedade; eu, por força da minha família, que é bastante endinheirada. Porém, na minha juventude, estourei um joelho escalando o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil e na Amazônia, com 2.994 metros, e que jamais consegui escalar. Depois de ter meu joelho remexido durante tempo demais por uma junta de ortopedistas, fui alertado a procurar um acupunturista, de preferência que não fosse médico, mas terapeuta iniciado em Medicina Tradicional Chinesa. Quem me indicou isso foi um amigo mais velho. Encontrei um chinês que estava há muito tempo no Brasil e após algumas sessões com agulhas e massagens voltei a andar normalmente, sem sentir dor nem mancar. Fiquei, então, curioso com a magia daquele tratamento e acabei entrando na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), onde me formei já faz algum tempo, e atendo vários amigos meus.

Gislaine chegou às 10 horas em ponto ao meu consultório, no Lago Sul. Sentamo-nos confortavelmente e comecei a fazer a anamnese. Sua principal queixa era constipação intestinal, o que confirmei examinando sua língua e seu pulso. Mas descobri também que havia outro problema: ela não conseguia mais criar.

– Você tem muitos pares de sapatos? – perguntei-lhe, imprimindo um tom casual à pergunta.

Ela me olhou sem entender, mas respondeu-me automaticamente.

– Tenho! Acho que tenho uns 300 pares de sapatos! Por quê?

– Na Medicina Tradicional Chinesa, nós, terapeutas, não exatamente curamos doenças; nós tratamos o paciente como um todo, até porque toda a qualquer doença nada mais é do que desarmonia da energia mental – expliquei-lhe.

Aí é que ela não entendeu mesmo.

– E você costuma juntar muitas coisas que não usa e que estão guardadas? – perguntei-lhe.

– Muitas! – ela disse. – Há uma dependência, em casa, e é uma dependência grande, cheia de sapatos, roupas, bijuterias e até móveis que não usamos mais.

– Vou aplicar agulhas em alguns acupontos e preciso que você tire a blusa, tudo bem?

– É claro! – ela disse. – Estou aqui escondida do meu marido! Ele sente ciúme até da minha sombra!

Somos bastante amigos.

– E por que você se submete a esse regime islâmico? – perguntei-lhe, em tom de brincadeira.

– Sou mulher mineira; gostamos de dinheiro, e ele compra tudo o que eu quero! – ela sussurrou, deitando-se na maca. Seu sutiã era negro e contrastava com a pele rosada. A saia, vermelha, era justa, deixando à mostra as pernas mais bem torneadas entre as inúmeras que eu já vira.

Entre os pontos em que apliquei agulhas utilizei o BP 15, daheng em mandarim, localizado numa distância de quatro “cun”, cerca de 10 centímetros, na lateral do umbigo. Ele serve para debelar constipação crônica, resultado de letargia do intestino grosso. Mas eu já sabia qual era a causa do que estava afligindo minha bela amiga, e também a solução. Mais tarde, degustando Café Três Corações, gourmet, ministrei-lhe uma prática para sanar o mal pela raiz.

– Gislaine, vou indicar um lar de velhinhos e providenciar um furgão para, amanhã de manhã, irem à sua casa buscar tudo o que você realmente não vai mais utilizar; isso será precioso para eles – propus-lhe. Gislaine é do germânico “refém”, e, por coincidência, ela era refém do apego.

Três dias depois voltei a atender minha amiga. Ela estava mais linda do que nunca. Deslumbrante.

– Quase me acabo de tanto defecar – disse-me, rindo. Tínhamos intimidade para dizer o que quiséssemos.

– Gislaine, a prisão de ventre era provocada pelo apego, que guardava não somente fezes, mas também tudo aquilo que não tem mais utilidade para você, ou que você esteja guardando para uma ocasião fantasiosa, que jamais ocorrerá. E da mesma forma que um quarto pode guardar trastes a vida toda, também o intestino grosso pode reter fezes vida afora, que vão ficando cada vez mais putrefatas e contaminando, aos poucos, todo o organismo. Num plano mais sutil, o apego também vai sufocando suas vítimas, que se tornam, sem se aperceberem disso, escravas da luxúria – disse-lhe. Ela estava atenta. – Agora que você se libertou dos trastes a criatividade vai voltar a fluir, e dos seus lábios surgirão mais rosas, mais jardins, mais perfumes azuis sangrando – declamei, parafraseando um poema de Gislaine: De tão azul, sangra!

Ela riu com gosto, feliz.

– Impressionante! Hoje, no café, comuniquei ao meu marido que viria ao seu consultório e sabe o que ele me disse?, mandou lembranças! Normalmente teria me proibido de vir aqui, até porque, como você sabe, o ciúme dele aumenta quando homens charmosos como você se aproximam de mim – ela comentou, rindo. – Vamos para a maca? – propôs, despindo-se do vestido. Já havia visto seu corpo no Iate Clube, mas ali, de sapatos altos e com aquele batom vermelho nos lábios sensuais, e de sutiã e calcinha, era, literalmente, de parar o trânsito. E podia-se dizer que deu mesmo mole para mim.

“Acupuntura como pretexto para a luxúria não pode redundar em boa coisa; gerará aquele tipo de equilíbrio à beira do abismo” – pensei, abrindo um saquinho de agulhas. Um professor, na ENAc, me transmitiu um princípio que adotei não somente como terapeuta, mas em todas as circunstâncias da vida: jamais acumplicie-se com a corrupção. 


Brasília, 29 de outubro de 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O triunfo do azul

Ah! meu amor, tu és meu amor porque o teu riso impulsiona meu coração
Porque tu crias a vida, pois à tua passagem os jardins se levantam
E a luz infinita vibra em oração
Que escapa dos teus lábios

Quisera eu ser poeta, e dominar a força de gravidade com palavras
Para te dedicar versos
Que contivessem o mar
Um oceano inteiro de rubis, azuis como o céu

Depois que te conheci, exorcizei o medo
Aprendi a escutar o silêncio das madrugadas
Comecei a voar no perfume dos jasmineiros

Sou teu, todo teu, inteiramente teu
Pertencer-te é o mesmo que a liberdade
É ascender, vencer a eternidade, e sentir a presença de Deus!


Brasília, 20 de outubro de 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Amazônia, colônia de Brasília. O que dizem os presidenciáveis Dilma Rousseff e Aécio Neves?

BRASÍLIA, 7 DE OUTUBRO DE 2014 – O deputado fluminense Sergio Zveiter (PSD) tentou, este ano, emplacar na Câmara o Projeto de Lei (5.692/2013) de Proteção das Riquezas da Amazônia, que revela, de forma inequívoca, o que a Amazônia representa para os governos que se sucedem em Brasília: mera colônia, onde, basicamente, busca-se energia hidrelétrica e o equilíbrio da balança comercial com a exportação de minérios, numa política de grandes projetos na Amazônia, e nunca para os amazônidas. Outro motivo do desprezo pelo subcontinente úmido seria o tamanho e a inexpressividade da bancada amazônica no Congresso Nacional, de amazônica só no nome, pois se comparada a apenas à bancada do estado de São Paulo já se vê claramente que tipo de república é o Brasil.

Mas o que tem de tão grave o projeto de Zveiter, ex-secretário de estado do Rio em várias pastas e ex-presidente da Ordem dos Advogados, seccional fluminense? Cria o Conselho Nacional de Política da Amazônia, a Agência Nacional de Exploração dos Recursos Naturais da Amazônia (Anra) e a Companhia da Amazônia Brasileira SA (Amabras), sociedade de economia mista para exploração da Amazônia. Isto é: amarra juridicamente a colônia que o Trópico Úmido já é. Quem explora para valer a Amazônia é a União. Os amazônidas ficam a ver navios singrando o Amazonas/Solimões.

No Capítulo V – Da Exploração e da produção, por exemplo, lê-se: “Todos os direitos de exploração e produção dos recursos naturais da Amazônia, nele compreendidos a parte terrestre e a bacia hidrográfica, pertencem à União, cabendo sua administração à Anra, ressalvadas as competências de outros órgãos e entidades expressamente estabelecidas em lei”.

A justificativa de Zveiter foca num fato: as potências hegemônicas não descansarão até pôr as garras na Amazônia, a maior província de commodities do planeta, seja reconhecendo por meio da Organização das Nações Unidas (ONU) algumas das gigantescas reservas indígenas como nações, ou, se necessário, por meio de armas. No Brasil, em vez de se implementar cidadania para os índios, os governos que se sucedem os isolam cada vez mais, entregando-os, de bandeja, para os países hegemônicos. E também desde a derrocada da Ditadura dos Generais (1964-1985) que os governos que se sucedem vêm desmontando as Forças Armadas. Bem ou mal, foram os militares que contribuíram para aumentar o povoamento na região.

Só para dar uma amostra do descaramento de como se manifesta a cobiça internacional pela Amazônia, em 1991, François Mitterrand, então presidente da França, a mesma que já tem uma colônia na Amazônia, a Guiana Francesa, sugeriu soberania restrita do Brasil sobre a região amazônica, com apoio de George Bush, dos Estados Unidos; e de Mikhail Gorbachev, da falida União Soviética (que Putin tenta reviver).

Nisso Zveiter tem razão. Se não tomarmos cuidado, acabaremos perdendo a Amazônia. E se for para os Estados Unidos, muitos ficarão felizes por se tornarem cidadãos de um protetorado americano e com a possibilidade de até tomarem caxiri com Brad Pitt e Angelina Jolie. Só que pelo jeito a União não vai desenvolver a Amazônia; vai exauri-la. Somente investimentos maciços e nunca descontinuados é que poderão desenvolver os povos da Grande Floresta, além de investimentos pesados nas Forças Armadas, na Polícia Federal e nas instituições de ensino e pesquisa da região.

O projeto de Zveiter fala, basicamente, em exploração das riquezas da Amazônia; nunca em desenvolvimento sustentável, isto é, desenvolvimento dos amazônidas. Muito menos de res publica. É como se não houvesse estados nem municípios na Amazônia; a Hileia surge, no mapa de Zveiter, como território federal.

Pois bem, o que dizem os candidatos à presidência da  República, a petista Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves, sobre a Amazônia? Nada! Assim, danem-se a BR-156, no Amapá, a Perimetral Norte, Amapá-Roraima; a BR-319, Amazonas-Rondônia; a Hidrovia Marajó, Pará-Amapá; energia elétrica firme para tirar a Amazônia da Idade-Média; o saneamento básico das cidades da Hileia; o pagamento justo e atualizado de commodities sobre a exportação de minérios; a fiscalização do garimpo ilegal, da grilagem, do desmatamento de terra arrasada, da bacanal das ONGs estrangeiras; o combate ao narcotráfico das Farcs e da Bolívia, e do bolivarianismo venezuelano; viva a corrupção do Mercosul!; dane-se o Projeto Calha Norte; viva a pirataria nas costas do Amapá, a maior província piscosa do planeta etc. etc. etc.

Até agora, nem Dilma nem o tucano se manifestou para falar sobre o Trópico Úmido; tampouco algum político, ou alguma instituição, promoveu debate com ambos sobre a Amazônia. Aqui em Brasília, onde se ouve, vê e faz no Rio de Janeiro e em São Paulo, é como se a Amazônia não existisse. Dia 5, por exemplo, quando os craques da Globo News cobriam a apuração das urnas, a Amazônia aparecia nos seus comentários como outro país, como, aliás, era de direito e continua a ser de fato.

O CORAÇÃO DAS TREVAS – A Amazônia é um paradoxo. O mais belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad; uma zona imprecisa da alma. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas, o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, como disse o labiríntico Jorge Luís Borges, recria um mundo obsceno como ataque de hienas, como a face obscura da Amazônia, o Inferno Verde, o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista.

A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças; é uma das regiões onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam o erário em lavanderia. Os presidentes da República que se sucedem governam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas.

Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Belém, constitui-se uma metáfora da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário, atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa criança foi currada dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima da garotinha como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo.

Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, já que a delegacia era um prédio velho praticamente aberto para a rua, e ninguém moveu uma palha pela menina. “Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas” – disse a mãe da jovem. “Cortaram o cabelo dela com um terçado (facão) para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha.” O tempo todo, L ficou com as roupas que usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela media 1,40 metro. “Aqui, no Pará, colocar homem e mulher na mesma cela é mais comum do que se imagina” – disse, na época, frei Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba. Há caso de atirarem uma mulher a 70 presos.

“Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada” – disse uma mulher na delegacia a jornalistas. “Antes de comer, os presos se serviam dela” – afirmou outra mulher, explicando que a menina só comia se não dificultasse a curra. “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar” – afirmou outra mulher, explicando que era possível ver e ouvir da rua muito do que se passava na delegacia.

Seis delegados estiveram na delegacia durante o suplício da jovem. A delegada plantonista responsável pelo flagrante foi Flávia Verônica Monteiro e o delegado titular de Polícia de Abaetetuba, Celso Viana. “Embora ela estivesse misturada com os homens, o setor onde ela estava é aberto e permite uma ampla visão de qualquer policial” – declarou o próprio delegado Celso Viana. Flávia Verônica Pereira e três policiais tinham conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais ameaçaram a menina de morte se não participasse de fraude em cartório para alterar-lhe a idade na certidão de nascimento.

O delegado Celso Viana alegou em depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a responsabilidade da prisão da menor seria do sistema penal; a delegada Flávia Verônica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem, indicando que ela tinha 20 anos. Flávia disse ainda que não transferiu a adolescente da delegacia para outra instituição porque esse procedimento só poderia ser feito com ordem judicial.

Em 27 de novembro de 2007, durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o então delegado-geral do estado do Pará, Raimundo Benassuly Maués Júnior, insinuou que a jovem é que foi responsável pelo episódio e que devia ter “alguma debilidade mental” por não ter dito que era menor de idade. “Não sou médico legista nem tenho formação na área, mas essa moça tem certamente algum problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade penal” – afirmou o gênio.

No dia 3 de outubro de 2013, leio na mídia que a juíza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba quando a adolescente esteve presa, fora promovida, um dia antes, pelo Tribunal de Justiça do Pará, a titular da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes de Belém. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento, o critério para a promoção de Clarice foi por merecimento.

Clarice Maria de Andrade foi considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante o período em que a jovem paraense foi supliciada, e recebeu a punição de aposentadoria compulsória, em 2010. Mas a Associação dos Magistrados do Pará (Amepa) recorreu da decisão e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que a punição foi exagerada, já que a magistrada não teria como saber da situação da carceragem da delegacia de Abaetetuba.

O fato é que quando o caso estourou na mídia, em novembro de 2007, a então governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, tratou-o com habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

PEQUENO ROTEIRO DO MAPA DA ESCRAVIDÃO SEXUAL – Em 27 de junho de 2006, publiquei na minha antiga coluna Enfoque Amazônico, no site brasiliense ABC Politiko, o mapa da escravidão sexual infantil na Amazônia. Relendo o texto, vejo que essa realidade continua como um nervo exposto. O tráfico de crianças para escravidão sexual é um dos crimes mais repudiados pela sociedade, por sua feição abjeta, mas é corriqueiro na Amazônia. Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, no extremo oeste da Hileia, uma reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, ligando o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e bisbilhotei registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente fugiam da miséria. Trinta e cinco anos depois a situação piorou, e muito. A tragédia, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.

Foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional, há seis anos atrás. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilhões por ano.

Nesse comércio negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas, em atividade na Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.

Em 2006, adolescentes de Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas contra três dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e vários adultos envolvidos; é preciso que haja vontade política para que se chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Em março daquele ano, a polícia de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e balneários no município, onde as bacanais duravam dias.

Ameaçadas de morte, vítimas e suas famílias, e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi ameaçada na porta da escola onde estuda, e sua família recebeu bilhetes com ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.

As adolescentes foram, ainda, humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de crime” – comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”

Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó, Pará. Nessas balsas, na cabine de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas, Pará e Tocantins, e pelo Oceano Atlântico.

“Foi constatado no início da década de 1990 pelo jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, que no Vale do Jari haveria prostituição infantil em larga escala” – comentou, em 2007, o governador (eleito) do Amapá, deputado estadual Camilo Capiberibe. O rio Jari divide o Amapá do Pará desde a Serra do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname, até desaguar no rio Amazonas, no sul do Amapá. O Beiradão, no município amapaense de Laranjal do Jari, é apenas uma das zonas de “fronteira” na Amazônia, nas quais a escravidão sexual infantil é crime banalizado e recorrente.

O comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa, escapando, assim, da miséria.

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo, corrupção endêmica e imigração insuportável, inclusive de gente importante, como o senador maranhense Zé Sarney. A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se situar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.

Próximo de Caiena, a capital da colônia francesa na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. A maior economia do município é, aparentemente, sexo, pois a cidade é a porta de entrada para a prostituição internacional na Amazônia Caribenha. Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são o internato que prepara meninas e meninos para o abate.

Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos – inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde se pode comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, e o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.

SEREIAS – Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.

Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que ganharia R$ 100 por garota.

Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.

Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo.

Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.

Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é paraplégico.

Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.

Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Em 2004, em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o então deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito deputado distrital.

Em 2010, o governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção de dar inveja aos maiores ladrões do país. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico. Este ano, Benício Tavares candidatou-se a deputado distrital, mas não foi eleito.

Como se vê, Brasília não vai à Amazônia apenas por energia hidrelétrica; minerais, principalmente ouro e ferro; e madeira. Quem sabe, por falta de água no rio São Francisco (ou pela grana que isso renderia), não queiram transpor o Amazonas!

A mentalidade de colonizado, predominante nos amazônidas, o calor, a nudez e a corrupção crônica na ex-colônia portuguesa e agora americana, inglesa, brasiliense, paulistana etc., determinaram a perpetuação na Hileia de uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. Em abril passado, escrevendo como correspondente do Portal do Holanda, de Manaus, noticiei que o prefeito Adail Pinheiro (PRP), de Coari (AM), cidade às margens do rio Solimões, a 370 quilômetros de Manaus, e onde se localiza a plataforma da Petrobrás de Urucu para extração de petróleo e gás, se entregou à polícia, levado pelo advogado Alberto Simonnette para a Delegacia Geral, no bairro Dom Pedro, Zona Oeste de Manaus, onde foi formalizada a prisão. Horas antes, garantiu direito à prisão especial, por causa do risco de morte que correria se fosse conduzido para um presídio comum. Foi encaminhado ao Comando de Policiamento de Área (CPA), também na Zona Centro-Oeste.

Cinco assessores seus também foram presos, em Coari, entre os quais o chefe de gabinete da prefeitura, Eduardo Jorge de Oliveira Alves, e o secretário de Terras e Habitação, Francisco Orimar Torres de Oliveira, além de Alzenir Maia Cordeiro, Anselmo do Nascimento Santos e Elias do Nascimento Santos.

Adail era investigado desde 2007 e acusado na Justiça, com fartas provas, de crimes sexuais contra crianças e adolescentes. O Fantástico, da Rede Globo, fez reiteradas denúncias contra ele, apresentando provas robustas de que comandava uma rede de prostituição de menores. A Polícia Federal começou a investigar Adail em 2006, por outro motivo: indícios de desvio de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). No decurso da investigação, as denúncias de pedofilia começaram a aparecer em escutas telefônicas judicialmente autorizadas. As investigações culminaram na Operação Vorax, em 2008, e em 2009 o prefeito foi preso, como neste ano. Adail Pinheiro permanecerá solto como Benício Tavares, babando, impunemente, sobre as cunhantãs?

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Capítulo 11 de A CONFRARIA CABANAGEM. Lúcio Flávio Pinto pontifica

 
O lendário jornalista e ensaísta amazônida Lúcio Flávio
Pinto vira personagem no novo romance de Ray Cunha,
um thriller político-policial que se desenrola durante a
quadra do Círio de Nossa Senhora de Nazaré 

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Ou na Amazom.com

Em a CONFRARIA CABANAGEM, a capital do estado do Pará, Belém, está imersa em corrupção, e para a misteriosa Confraria Cabanagem só o senador Fonteles, candidato ao governo, é capaz de acabar com a sangria, mas descobre um complô para assassiná-lo num crime perfeito. Assim, contrata o único homem capaz de impedir que eliminem o senador Fonteles: o detetive Apolo Brito, ex-delegado da Polícia Civil do Pará, e que atualmente mora em Brasília. Neste romance ensaístico emerge a Amazônia profunda e personalidades de carne e osso, como o jornalista Lúcio Flávio Pinto, misturam-se a personagens de ficção.

Segue-se trecho do romance:

Quarta-feira, 13 de outubro. O restaurante Restô do Parque fica na antiga residência oficial dos governadores do Pará, na Avenida Magalhães Barata 830, antiga Avenida Independência, no bairro de São Brás, onde moraram os dois mais ilustres governantes da história recente do Grão-Pará: Lauro Sodré (1917-1921) e Magalhães Barata (1888-1959). Trata-se de um palácio erguido no início do século passado, em estilo eclético, em que predomina o neoclássico, e elementos de art nouveau. Em 1998, passou a ser chamado de Parque da Residência. Apolo Brito chegou às 13 horas ao Restô, e já encontrou Lúcio Flávio Pinto. Abraçaram-se. Enquanto comiam pirarucu ao molho de castanha-do-pará e arroz com jambu, Lúcio Flávio Pinto pôs-se a falar.

– Há uns poucos anos, um inglês mandou para cá uns documentos que encontrou no Foreign Office, o ministério das relações exteriores da Inglaterra. No meio desses papéis, absolutamente inéditos, jamais utilizados, havia uma carta do embaixador da Inglaterra para Lorde Palmerston, que, em 1835, era o chanceler da mais poderosa nação do planeta. O embaixador estava dizendo para o seu ministro que fora chamado para um encontro reservado no Rio de Janeiro, por Diogo Antônio Feijó, que governava como regente em nome de D. Pedro II, então criança. Nessa reunião, da qual participou também o embaixador da França, Feijó disse que duas rebeliões estavam ameaçando o nascente império brasileiro, infelizmente, nos dois extremos do país. Uma em São Pedro da Aldeia – atual Rio Grande do Sul – e outra na Amazônia, o Grão-Pará e Rio Negro. O governo não tinha forças para reprimir os dois movimentos ao mesmo tempo. Queria que Inglaterra e França, mais Portugal, que seria chamado depois, invadissem o Pará, entrassem em Belém, matassem quantos cabanos fosse preciso, com tropas estrangeiras, e só depois comunicassem o governo, que faria de conta nada saber. Estatelado, o embaixador narrou o encontro e sugeriu a Palmerston que não acatasse a sugestão, lembrando que a constituição brasileira não permitia a entrada de tropa estrangeira em território nacional. Só com a autorização da assembleia provincial, que não a daria. Que isso seria uma guerra e que não valia a pena à Inglaterra. A Inglaterra deveria respeitar a soberania brasileira, embora Feijó tivesse dado a autorização de invasão, secretamente – em caráter não oficial, é evidente. Nessa época, a armada inglesa fora deslocada de Barbados para Belém, porque um navio mercante inglês fora atacado e saqueado na costa do Pará. Toda a tripulação fora assassinada, exceto por um sobrevivente. O comandante dessa expedição da armada mais poderosa do mundo, capitão Charles B. Strong, ao entrar em Belém verificou que, com apenas 150 homens, poderia acabar com aquela rebelião. – Lúcio Flávio Pinto fez uma pausa. – Fiquei perplexo ao ler esse documento dos arquivos oficiais britânicos. Porque toda uma história desmoronava ali. A história real daquele momento e a história que as gerações seguintes criaram a partir dela. Por que Feijó fez essa proposta tão monstruosa, renunciando à soberania nacional? Por que, devendo optar, optou pela revolta farroupilha, no Sul, e entregou a revolta do Norte à repressão externa? O império negociou durante cinco anos para que São Pedro da Aldeia não tentasse – como permanece tentando – separar-se do Brasil e formar um novo país. Nós, aqui da Amazônia, deste distante Grão-Pará e Rio Negro, que não tínhamos relação com a capital nacional, que não éramos exatamente um igual, nós tínhamos que ser reprimidos porque éramos selvagens. Selvagens sem história, que não eram respeitados, nem naquela época nem hoje. Não interessava se ingleses, franceses e portugueses matassem os bugres da Amazônia. Eles não eram iguais, eles eram desconhecidos. O Estado nacional estava pouco se importando, queria manter a integridade nacional como um lastro para o projeto da hegemonia de um poder, de um colonialismo endógeno. E até hoje, na maioria dos palanques, os líderes cabanos neológicos dizem que os estrangeiros, sobretudo a Inglaterra, não tomaram conta da Amazônia porque os cabanos resistiram, porque Angelim resistiu, porque ele recusou as armas que os ingleses lhe teriam oferecido para proclamar a independência da Amazônia. Toda uma mitologia baseada num ouvi dizer de um único testemunho escrito da época, de Domingos Antônio Raiol, autor do livro Motins Políticos. Na verdade, nem Inglaterra nem França queriam naquela época transformar a Amazônia numa colônia de ocupação. Era muito mais rentável explorá-la através do Estado nacional brasileiro, do capitão do mato, economizando mais recursos, investindo menos e extraindo mais, sem o custo da estrutura estatal. Da mesma maneira como é, por uma razão econômica, que hoje se insere o conhecimento tradicional dos índios nos estatutos jurídicos internacionais. Esta é uma lição terrível, e temos que nos relacionar com o mundo exterior. Nós sempre estivemos diante do mundo e só nos afirmaremos diante dele. O que significa jogar no lixo a retórica da geopolítica militar, que é terrível e tem feito mal à Amazônia. De outro lado, o Estado nacional nada nos diz. Somos parte de uma federação por uma abstração chamada língua, comum a todos. Mas esse Estado nacional – seja o Estado nacional de Feijó, no Rio de Janeiro, seja o Estado nacional de hoje, em Brasília – não tem nada para nos dizer. Não tem nada para nos proteger, nos endossar, nos representar. O Estado nacional é um Estado de colonialismo endógeno – dizia Lúcio Flávio Pinto. Aos 61 anos, tinha o ar de um garoto de 40 anos, embora já contasse com 44 anos de jornalismo. O detetive ouvia-o atentamente.
– Tivemos outro momento dessa ligação espasmódica, na época da borracha, e inventamos mais uma mitologia, muito simpática, é certo, reconfortadora, de que nós só perdemos o domínio do mercado da borracha porque Henry Wickham, mais um estrangeiro na nossa vida, contrabandeou sementes de seringueira de Santarém e elas foram adaptadas no Kew Garden, em Londres, e depois plantadas no Oriente. Warren Dean, no primeiro grande livro da história ecológica no Brasil, como ciência autônoma, mostrou que isso é fantasia. Dean exibiu os documentos do despacho das sementes da Hevea brasiliensis. O mundo aprendeu uma lição ali: que não podia depender, ou do Brasil, ou da Amazônia, ou da biodiversidade. Ela podia ser terrível, fazendo com que houvesse distâncias enormes entre uma árvore e outra de seringueira. A Amazônia perdeu, com a borracha, uma guerra ecológica, experimentando o lado negativo de um caleidoscópio que lhe costuma ser positivo. A partir da perda do monopólio de produção e da expressão que nossa produção detinha, até se tornar insignificante no mercado internacional. Logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos mandaram uma missão, em 1924, para que começasse uma nova era na Amazônia. Essa história até hoje permanece nos arquivos estrangeiros, esperando um pesquisador que tenha paciência de ler os documentos primários. Brasileiro gosta mais de ler interpretações e aí florescem as discussões secundárias, exuberantes, repetitivas. A história verdadeira deve estar esperando nos arquivos pelos brasileiros e estrangeiros que queiram recuperar essa documentação. Mas certamente aí começa a nova história, que agora é definitiva. Nós não vamos mais nos desligar do mundo. Queiramos ou não. Com ou sem os albaneses, nós não viraremos mais autarquias. Nossos albaneses do PCdoB, claro. Na década de 1920, os Estados Unidos e o mundo começam a discutir para valer a Amazônia – para valer para eles, é claro. Queriam encontrar o caminho real entre os mitos de celeiro do mundo ou inferno verde. Verificaram que ela é uma área muito diversificada, muito mais complexa. Aos poucos os estrangeiros foram aprendendo muito mais rápido que nós. Porque eles tinham um projeto e nós não tínhamos. Eles tinham a tecnologia que nós não tínhamos, tecnologia compatível com o projeto que eles haviam concebido e que foi se adaptando, apesar de muitos erros cometidos, às peculiaridades locais. Eles começaram a descobrir que a Amazônia é diferente do resto do mundo tropical; que há alguma coisa específica nessa designação de Amazônia, a região que corresponde a mais da metade do território brasileiro e, no continente sul-americano, tem quase o tamanho dos Estados Unidos. No esforço da Segunda Guerra Mundial e no trabalho que se seguiu, da Comissão Mista Militar Brasil-Estados Unidos, eles fizeram o levantamento aerofotogramétrico da calha central do rio Amazonas. Na época se imaginava que havia hidrocarbonetos nessa área, a maior bacia terciária do planeta, de terras muito recentes. Depois, verificaram que havia petróleo, mas que a tecnologia disponível não era suficiente para exploração. As perfurações em águas profundas e o uso de helicóptero viriam depois. A bacia terciária deixou de ser área prioritária à época. O interesse foi desviado para os espinhaços do Pré-Cambriano, geologicamente mais antigos, onde estavam as mineralizações – Lúcio Flávio Pinto mergulhava cada vez mais na Amazônia. A cidade de Santarém, a Pérola do Tapajós, havia dado à Amazônia seu maior jornalista, detentor de quatro prêmios Esso, dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas, um Colombe d’oro per La Pace e um CPJ (Comittee for Jornalists Protection). A elite de Belém odiava-o, porque Lúcio Flávio Pinto a descascava, no seu Jornal Pessoal, como a uma banana.
– Rapidamente foi iniciada a exploração do manganês do Amapá, a partir da metade da década de 1950. Mas nós não chegamos a perceber que aquele manganês constituía uma das melhores jazidas do mundo ocidental, em uma época em que a indústria siderúrgica era toda a base da economia. Faziam-se festas para comemorar a saída, a cada ano, de 800 mil ou um milhão de toneladas de manganês para os Estados Unidos, numa escala tão intensa que, antes do fim da concessão, a Icomi, a empresa formada pela Bethlehem Steel com Azevedo Antunes, devolveu as jazidas – ou melhor, as crateras das jazidas. E aí entram os intelectuais. Os intelectuais da época foram para o meio do mato, uma coisa incomum entre intelectuais. Intelectual só vai para o mato acompanhado. Vieram do sul do país, recrutados pelo Azevedo Antunes, como o Glycon de Paiva. Eles inventaram uma história. De que o manganês do Amapá não tinha preço para ser levado para o Sul, para a industrialização do sul do Brasil. O comércio de cabotagem tornava o frete proibitivo. Muita produção acadêmica passou a mostrar que a matemática era determinante para termos que exportar a preços cada vez menores o manganês para os Estados Unidos. Quando o teor baixou para 42%, 38%, 36% de manganês contido na rocha, a matemática mudou. E aí o Amapá exportava crescentemente para a Bahia, para o Sul, e não houve o combate intelectual contrário a isso. A inteligência da esquerda não conseguiu combater com argumentos. Combateu com plataformas políticas e com gritos de urra. Não demonstrou que aquilo era uma manipulação. Isso é muito importante, porque, em geral, os temas amazônicos são debatidos com exuberância em palanque, mas não quando a galinha deve enfrentar a raposa. Deixando a bacia sedimentar para depois e se concentrando nas terras mais antigas, os americanos descobriram Carajás, a maior província mineral do planeta. E descobriram saindo muito depois de iniciada a corrida ao minério. Havíamos saído em 1954, com o Projeto Araguaia, o maior projeto de mapeamento mineral executado até então. É preciso considerar esse detalhe: o projeto internacional para a Amazônia, liderado pelos Estados Unidos, não era único e o Estado não era apenas caudatário, um mero cão de fila do imperialismo ianque, como se dizia no jargão da época. O Estado também tinha a sua margem de autonomia, a sua margem de interesses específicos, relacionados ao seu caráter patrimonial, burocrático, da sua própria elite, que costuma ser derivada da elite estrangeira, mas nem sempre. Em momento de colisão, ela consegue ser pior do que as elites estrangeiras. O Estado brasileiro chegou à conclusão de que a Amazônia tinha importância, ou viria a ter. Na base orgânica do Estado, agia o pensamento militar – um dos grandes erros que a esquerda cometeu foi não dialogar com os militares. Em geral, a esquerda mantinha com os militares uma relação de Tom & Jerry. Eram militares com espada correndo numa direção e a esquerda, sem espada, correndo em outra. Não houve um fórum para o debate. Os fóruns, em geral, eram a praça pública e nós quebrávamos a cabeça literalmente no momento do choque. Os militares tinham um projeto próprio para a Amazônia. Sempre tiveram. É um dos fundamentos da weltanschaaung dos militares na base da república. Quando perceberam que os estrangeiros estavam na frente, os militares formularam projetos. Com a democratização de 1945, eles souberam se ajustar como categoria moderna ao estado civil e surgiu a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, como um dos elementos da origem do planejamento regional, que começou aqui, apesar de tudo ter passado pelo Nordeste, graças ao brilho de Celso Furtado. O Estado brasileiro se comprometia a aplicar, durante 20 anos, 3% da renda tributária nacional na Amazônia. Os conceitos-chave eram valorizar a Amazônia, conhecer e valorizar a Amazônia. Esse era o jargão. Por quê? Primeiro porque o Estado brasileiro vivia um dos momentos de maior democracia e, por isso, de maior lucidez. Não é mera coincidência a conciliação desses dois termos. Reconheceu a autonomia da região, reconheceu que precisava saber da região, reconheceu que ela não era uma terra vazia. Havia inteligência e desinteligência na Amazônia, mas ambas precisavam ser consideradas. Então, conhecer para valorizar e para utilizar. Em 1956, foi feito o congresso internacional de geografia, aqui. Um dos roteiros oferecidos aos participantes era na Amazônia. Um grande brasileiro, Lúcio de Castro Soares, escreveu o roteiro da visita, contando também a história da Amazônia naquela época, 1956, dez anos antes do congresso internacional sobre a biota amazônica, da criação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, do Banco da Amazônia. E, naquela época, qual era o grande anseio do planejamento regional mais antigo do país? Era de que as dificuldades do inferno verde fossem resolvidas pela ciência e a tecnologia. Lúcio era um homem positivista, um otimista. Achava que o agente de colonização da Amazônia seria o cientista, que herdaria o acervo deixado pelos viajantes estrangeiros, que foram mais longe que os brasileiros no hinterland, exceto os poucos e honrosos brasileiros, como Alexandre Rodrigues Ferreira e Ferreira Pena. Toda a confiança, toda a esperança da região, era de que ela não deveria mais ficar dominada pelo extrativismo, para não ficar inerte pelo extrativismo dos coronéis de barranco, os donos de rios, como José Júlio de Andrade, no rio Jari; José Porfírio de Miranda, no Xingu; Altevir Leal, no Envira. Com ciência e tecnologia à frente seria possível conciliar a expansão econômica, incorporando novas áreas, com a eliminação da Amazônia insalubre, que assustava os estrangeiros, que foi uma das principais causas de, até o início do século 20, nenhuma grande nação tentar tomar essa região de Portugal e, depois, do nascente império brasileiro.
“O inferno verde” – Apolo Brito pensou.
– 1956, quando Juscelino Kubitschek decidiu iniciar a construção da Brasília-Acre e da Belém-Brasília, é um momento de ruptura: um mundo ficaria para trás e outro iria se estabelecer, sem ligação com o passado. Todas as projeções de futuro se fariam em torno de floresta e água. Na floresta, havia uma combinação do conhecimento ocidental com o conhecimento das populações tradicionais. Os índios de língua tupi conheciam a kaigapó, a floresta da várzea. Já então manejavam a floresta da várzea e também tinham um conhecimento – porém mais mitológico que prático, utilitário – sobre a kaaété, que era a floresta de terra firme. Em tupi, ela significa a floresta verdadeira. Os índios tinham a plena consciência de que o grande desafio era a kaaété e não a kaigapó, determinada por suas características, pelo domínio da água, domínio que não podia ser contestado. O rio Amazonas descarrega 200 mil metros cúbicos de água por segundo e a cada dia manda para o oceano 6 milhões de toneladas de material em suspensão. A verdadeira floresta estava na terra firme, com sua madeira de alta consistência, de grande densidade e, ao mesmo tempo, leve. Porque, ali, a floresta verdadeira iria desafiar nossa capacidade de ver a Amazônia. Todos nós achamos que a Amazônia é o nosso ponto em comum, que é o pressuposto, mas esse pressuposto é falso. Porque raros conseguem ver a Amazônia. É preciso ter óculos especiais para vê-la, por mais que se tenha informação cultural, tecnológica e científica. Sempre me lembro de um sobrevoo de helicóptero com um técnico da Eletronorte sobre o que viria a ser o reservatório da hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, no Estado do Amazonas, que eu criticava por causa do afogamento da floresta. E o técnico, bem intencionado, honesto, dizendo: mas como é que você defende isso? Isso aqui é um latossolo amarelo, vagabundo. Sim, e a floresta em cima desse latossolo? 40, 50 metros de altura, densidade fantástica, e aí vem a nossa informação cultural, ocidental. A hileia: o que é a hileia grega, que inspirou Humboldt para fazer o grande batismo da nossa região? É floresta densa. Aquele era o desafio: descobrir o coração, a essência, a alma da Amazônia nessa combinação de água e floresta, que nós teimamos, relutamos, não aceitamos em descobrir até hoje. A Amazônia é uma criação ao mesmo tempo da natureza e da cultura. Mas qual cultura? A cultura que procura descobrir e adaptar, ou a cultura que muda, que transforma a paisagem, a expectativa de quem chega como um emigrante, seja o seu João da Silva, seja Daniel Ludwig. Quando Ludwig chegou à várzea do rio Amazonas, primeiro e único dos capitalistas dos grandes projetos a ir para lá, o que ele fez? Implantou a técnica da Geórgia e fez uma plantação de arroz irrigado inviável, que faliu completamente. O que fez o seu João da Silva quando chegou pela primeira vez à Transamazônica? Desmatou o máximo de floresta que ele pôde ao redor, porque, entre muitas outras coisas, ele ouvia sons que eram agressivos, que ele não conhecia e de que tinha medo. E de lá da floresta densa saia um terrível animal chamado pium, um mosquito com o qual os nativos conviviam sem alarde, mas que provocou febre hemorrágica entre os colonos e muita gente morreu sangrando. Seja o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, seja a multinacional, eles não entendem o que é Amazônia. E querem fazer que a Amazônia deles seja a Amazônia verdadeira. Seja do assentado pobre, do assentado explorado, que vai destruir o capital dele sem saber que aquilo é capital. Por que nós não conseguimos descobrir a Amazônia? Nós nos recusamos a isso. Nós somos os eternos colonizadores. Mesmo aqueles que moram aqui e pensam que são os agentes dos oprimidos, os intelectuais que seguem o sentido da história. E não aprendem história. E não estudam história. O futuro começou para nós em 1973, quando, depois de todas essas preliminares – o levantamento aerofotogramétrico da Comissão Mista Militar Brasil/EUA, o Projeto Radam, o Projeto Araguaia – já se tinha alvos selecionados na Amazônia. E vemos o seguinte: o Estado brasileiro, aquele que fez Feijó oferecer a Amazônia aos franceses, ingleses e portugueses, rompeu com aquele entendimento entre o Brasil e a Amazônia, que vinha da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia e do seu plano regional. Acabou sem nunca ter aplicado na região os tais 3% da receita tributária que lhe foram destinados no papel – nesse momento eram poucas as pessoas almoçando.
– O ministro japonês Saburo Okita visitou Brasília, em 1971, e foi recebido pelo ministro mais poderoso de então, Delfim Neto, depois deputado federal por São Paulo. Na época, os dois países milagreiros eram o Japão e o Brasil, que estava crescendo a mais de 10% ao ano. O ministro japonês quis saber o que o Brasil iria fazer para manter aquela taxa de desenvolvimento, que não pode ser sustentada por muito tempo através de instrumentos como o Ato Institucional número 5. Delfim respondeu, com pança e rompança: mas ainda temos a Amazônia. A nossa poupança é insuficiente, mas nós vamos incorporar uma região fantástica ao processo produtivo. Essa era a lógica que inspirava o Plano de Desenvolvimento da Amazônia, de 1975 a 1979. Ele diz o seguinte: o modelo de desenvolvimento é desequilibrado. Ele gera o caos, ele gera uma concentração de renda fantástica, ele gera irracionalidade. Ele é desequilibrado pela natureza dele, porque nós queremos desenvolver rápido, queremos jogar tudo para fora e gerar dólares. Mas nós, que acreditamos no planejamento, iremos corrigir o desequilíbrio pelo plano. Então, ficou o modelo de desenvolvimento desequilibrado corrigido. Eles foram eficientes na criação do desequilíbrio. Ah!, quanto à correção, bom, isso seria para pensar depois. Delfim Neto dizia: vamos deixar o bolo crescer para depois a gente dividir. Só que quando o bolo cresceu e eles chamaram os convidados o bolo já havia sido roubado. Veja-se bem: o japonês Saburo Okita quis, em 1971, o aval do principal homem do sistema. Os japoneses viriam a fechar todas as fábricas de alumínio, a partir do choque do petróleo. E a maior fábrica de alumínio japonesa foi construída a 20 mil quilômetros do seu território e produz para os japoneses 15% da demanda que eles têm de alumínio, a um preço inferior a que os japoneses teriam se produzissem ali mesmo, no Japão. É fantástica a capacidade desse povo, que realizou a maior transferência industrial conhecida, e é fantástica a incapacidade do povo que permitiu essa solução, que somos nós. – Enquanto Lúcio Flávio Pinto falava, eles comiam, sem pressa, um dos pratos mais deliciosos do planeta. Apolo Brito e Lúcio Flávio Pinto eram velhos amigos. Conversavam muito quando o detetive fora delegado titular da Homicídios.
– Nos próximos anos seremos o terceiro maior produtor do mundo de caulim. Mas o que isso significa? Quando penso, me vem à mente o Jari. Lá, você vê uma fábrica de caulim a 200 metros de uma fábrica de celulose. E você não vê uma fábrica de papel. Lá em Carajás estamos produzindo ferro-gusa à base de carvão vegetal. A primeira lei ecológica do mundo, baixada pelo rei da Suécia há quatro séculos, foi para proibir por 20 anos abate de floresta para produzir carvão para fazer ferro. E nós somos os únicos do mundo que ainda produzimos ferro-gusa a partir de carvão vegetal e mantemos essa produção porque não calculamos quanto de nutrientes estamos destruindo nesse processo, que, num cálculo rigoroso, vale mais que o produto final. Agora, os cearenses, que nós tratamos depreciativamente como arigós, estão tentando fazer a primeira grande siderúrgica do Norte/Nordeste, com o minério de ferro de Carajás, minério nosso, nós, os espertos, e gás natural do Rio Grande do Norte. Fizeram sociedade com a Petrobras para conseguir gás 50% mais barato. E encontraram a tecnologia da escassez, redução direta a frio. A siderúrgica é construída em Pecém, a 50 quilômetros de Fortaleza. Não está em nenhum ponto da ferrovia de Carajás, que tem 870 quilômetros de extensão, no Pará e no Maranhão. Porque nós, acostumados à abundância de recursos naturais, achamos que a abundância vai resolver todos os problemas para nós. Nós não sabemos raciocinar na escassez, e a escassez é a perspectiva do futuro. Só vamos ter essa consciência no futuro? Quando o futuro estiver acabado? No futuro do futuro? Vamos esperar esse futuro? Precisamos ter essa capacidade, que não existe ainda, de descobrir a Amazônia. Descobrir a Amazônia não é ir lá na aldeia indígena e virar pajé. Hoje, descobrir é conquistar o que existe de mais sofisticado no conhecimento humano, e nada existe de mais sofisticado do que a solidariedade. É o produto mais raro. Tem muito cientista bandido, como tem muito capitalista bandido. Mas grande parte do nosso conhecimento é produto da ciência estrangeira. E não tem saída. Nossa maior esperança é de que o conhecimento realmente seja capaz de nos libertar. Será possível escrever outra história que não essa que nos têm imposto? Acho que é possível, e é o que justifica estarmos aqui. Queremos ser contemporâneos da história. E não apenas o coro grego, só para aplaudir. Queremos ser os personagens, porque a história está nos dando uma oportunidade, única – perorava Lúcio Flávio Pinto.
“A tragédia dos caboclos é realmente a cultura do colonizado, que se acamou na mente dos amazônidas; não conseguem ver que a floresta é sua verdadeira riqueza e a destroem em benefício dos imperialistas pós-modernos, entre os quais Brasília e São Paulo. A Amazônia virou moeda de troca dos governos que se sucedem em Brasília e em Belém. Quanto aos bugres, são apenas bagres” – Apolo Brito pensou. O céu continuava fechado, mas o detetive pressentia tênue raio de sol; tênue, contudo, ainda assim, luz.