sábado, 18 de outubro de 2014

Capítulo 9 de A CONFRARIA CABANAGEM. O jornalista Montezuma Cruz pontifica no MPEG

Pugilista amador na juventude, Ray Cunha posa para a
fotógrafa Márcia do Carmo, em 1996, em Belém, logo
depois da publicação da novela A CAÇA, pela Editora
Cejup. O autor nasceu em 1954, em Macapá

A CONFRARIA CABANAGEM, novo romance de Ray Cunha, é, da mesma forma que HIENA, que o antecedeu, uma história de detetive. Desta vez, porém, em vez de Hiena, é Apolo Brito quem protagoniza o thriller político-policial, e também a ação se desenrola quase toda em Belém do Pará. Nesta aventura, além de personagens de ficção, como Apolo Brito, transitam personagens reais, como o lendário jornalista Lúcio Flávio Pinto. O argumento de A CONFRARIA CABANAGEM é o seguinte: um senador da República, candidato a governador do Pará, é a única pessoa que poderá tirar o Estado das mãos de uma quadrilha que vem se locupletando há 12 anos, mas uma irmandade, a Confraria Cabanagem, descobre que o senador Fonteles será assassinado no segundo turno das eleições, e contrata o único homem que poderá impedir isso: Apolo Brito.
  
MONTEZUMA CRUZ, assessor de imprensa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), estava feliz com a visita do seu velho amigo. Ficara mesmo emocionado, mas intrigado com a aparição súbita de Apolo Brito, que fora lá para saber mais sobre a Phyllobates terribilis. Justamente sobre a Phyllobates terribilis. A surpresa foi mútua. Apolo Brito quase caiu para trás ao saber que havia uma Phyllobates terribilis no museu, pois um biólogo, doutor em biotecnologia, estava fazendo experiências com uma das mais de cem toxinas da rã, a homobatracotoxina, composto químico mortal, que causava um só sintoma em quem entrasse em contato direto com o animal: a falência múltipla dos órgãos. Montezuma Cruz abriu sua gaveta do meio e de lá tirou um exemplar da revista Superinteressante, folheou-a e entregou-a dobrada para Apolo Brito ler. Dizia o texto: “É minúsculo. Mas seu veneno mata na hora. Sapo de apenas 2,5 centímetros é o mais venenoso do mundo. O sapo Phyllobates terribilis, que tem apenas 2,5 centímetros de comprimento, é um dos animais mais venenosos do mundo. Sua arma é uma gosma que reveste o corpo. Dois milionésimos de grama liquidam um homem de 70 quilos instantaneamente. Nem é preciso engolir o veneno. Basta que a substância viscosa encoste numa pequena ferida aberta. O especialista em sapos Mike Ryan, da Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, explicou à Super que existem outras cinquenta espécies da mesma família, a dos dendrobatídeos. Mas nenhuma é tão venenosa. Segundo o biólogo Adão Cardoso, da Universidade de Campinas (Unicamp), estado de São Paulo, os dendrobatídeos saltam entre folhas mortas e galhos em decomposição, nas florestas de Cauca, região oeste da Colômbia. Os índios da área usam o veneno dos anfíbios para preparar a ponta das flechas para a caça”.
“Setenta quilos é o peso do senador Fonteles” – pensou Apolo Brito.
– Pensei que fosse rã e não sapo – disse.
– Sapos têm pele enrugada e são peçonhentos; rã tem pele lisa e é comestível, mas tanto faz, rã, sapo ou jia, sumiu um pequeno frasco com uma porção microscópica da homobatracotoxina – disse Montezuma Cruz. Apolo Brito olhou-o boquiaberto.
– O quê? – perguntou o detetive, sem acreditar no que ouviu. – A polícia descobriu alguma coisa? – perguntou, após pesado silêncio.
– Nada – respondeu o jornalista, pensativo. – Simplesmente o frasco desapareceu. – Por curiosidade, fiz uma pesquisa no Google e olha o que descobri – disse Montezuma Cruz, pegando duas laudas impressas na gaveta do meio da sua mesa.
“Segundo a Wikipedia, esta simples rãzinha é uma das criaturas mais venenosas que existem neste planeta. O nome da espécie é Phyllobates terribilis – o terribilis tem um certo sentido de ser, porque o veneno alcaloide desta rã causa parada respiratória imediata e um único adulto da Phyllobates terribilis tem homobatracotoxina suficiente para matar 20 mil cobaias ou 100 pessoas! Para se ter uma ideia do veneno, galinhas e cães que entraram em contato com um papel-toalha onde o sapo andou morreram.
“O veneno da Phyllobates Terribilis, a homobatracotoxina, é extremamente raro na natureza, só sendo encontrado em outros três sapos da Colômbia e dois pássaros venenosos de Papua, na Nova Guiné. Embora mate tudo que eventualmente o coma, o sapo tem como predador principal uma cobra, Liophis epinephelus, que é bem resistente ao veneno do sapo, mas não totalmente imune. O veneno alcaloide provém de insetos venenosos que fazem parte da dieta da rã. Isso explica por que ao longo do tempo em cativeiro o Phyllobates terribilis perde lentamente seu veneno. A criatura que transmite os alcalóides assassinos para a rã é um besouro da família Melyridae. Para se ter uma ideia do poder letal do veneno, dois décimos de micrograma dessa toxina pode matar um humano em poucos minutos. Cada adulto contém 200 microgramas em sua pele.
“Os índios pegam essas rãs com muito medo e passam as pontas das flechas nas costas delas. Depois de esfregadas, as flechas ficam letais por mais de dois anos. Assim, os índios matam macacos e outros animais com mais facilidade. Para capturar a bizarra rãzinha, os índios utilizam uma folha de bananeira como luva de proteção.
“Os médicos e laboratórios farmacêuticos estão estudando as moléculas da homobatracotoxina para encontrar um caminho para remédios mais potentes, como relaxantes musculares e anestésicos, uma vez que o veneno da rã teria potencial para dar origem a um anestésico bem mais potente que a morfina.
“Mais de 100 toxinas foram identificadas nesta rã. Para se ter uma ideia do poder letal do veneno deste sapinho, dois décimos de micrograma dessa toxina pode matar um humano em poucos minutos. Cada P. terribilis adulta contém 200 microgramas em sua pele. O veneno em destaque é a homobatracotoxina, um composto químico mortal cujo único sintoma é a falência múltipla dos órgãos e parada respiratória imediata em um adulto.
“A Phyllobates terribilis pode ser dourada, verde, branca e creme. Ele é encontrado na Colômbia, Bolívia, Equador, Brasil e por toda a área tropical da América do Sul, sobretudo na Amazônia, pois a rã vive em lugares úmidos e com muita chuva e calor.”
– Então há Phyllobates na Amazônia? – Apolo Brito perguntou.
– Sim, é encontrada em Almeirim, no alto rio Paru, que nasce na Serra de Tumucumaque, na fronteira do Pará com o Suriname – disse Montezuma Cruz. Adorava a Hileia e seu trabalho de jornalista especializado no Trópico Úmido. – Agora mesmo há pesquisadores investigando a calha norte do baixo Amazonas. Nessa região há santuários que os europeus e os americanos jamais viram, seja de helicóptero ou por meio de satélite, quanto mais pondo os pés. Trata-se de metade do estado do Pará, do rio Nhamundá, no município de Faro, passando pelos municípios de Terra Santa, Oriximiná, Óbidos, Curuá, Alenquer, Monte Alegre, Prainha e Almeirim, e o estado do Amapá, especialmente a região do alto Jari. É o último reduto desconhecido da superfície da Terra, o mais fascinante, por ser o mais desconhecido, mais deslumbrante do que as fossas marinhas, pois na Calha Norte a vida pulsa na superfície, sob o sol da Linha Imaginária do Equador. – Disse isso e ficou em silêncio.
– Só o biotecnólogo tem acesso ao sapo e ao veneno? – Apolo Brito perguntou. – Quem roubou o frasco conhece o dia a dia do museu e sabe o que está fazendo.
– Não, não é apenas o biotecnólogo que tem acesso ao veneno. Um veterinário também tem acesso ao Phyllobates terribilis, mas ele viajou uma semana antes do sumiço da toxina. A polícia já o ouviu. Está limpo. Quanto ao cientista, é simplesmente insuspeito. É um dos mais eminentes cientistas brasileiros, com uma folha de serviço impecável, extensa. Ele criou antibióticos à base de copaíba e andiroba, e vermífugos que têm salvado populações inteiras de ribeirinhos. Trata-se do dr. Waldemiro Gomes. É insuspeito.
– Waldemiro Gomes? Conheço-o. Esse está fora de qualquer suspeita, mas o veterinário, não – disse Apolo Brito.
– Ele tinha ido a Macapá para participar de uma pesquisa na Universidade Federal do Amapá sobre água – disse Montezuma Cruz.
– Água! Seria possível eu falar com ele? – disse Apolo Brito. – Montezuma Cruz olhou para o detetive tentando adivinhar o que ele sabia. – Vou abrir o jogo – continuou Apolo Brito. – Estou investigando isso pela Abin. – O outro o olhou sem acreditar. Mas Apolo Brito conhecia o terreno onde estava pisando. Tinha um contato, um coronel, da cúpula da comunidade de inteligência, a quem ele recorreria, se fosse preciso, inclusive contando que o senador Fonteles poderia ser morto pela homobatracotoxina. – Os americanos querem a homobatracotoxina – Apolo Brito chutou.
Montezuma Cruz o olhou sem entender. Ora, os americanos já estavam na Colômbia...
– O nome dele é Alfredo Cardoso, Alfredão. Ele mora no lado do China Bar, na Transcoqueiro 155 – disse Montezuma Cruz, consultando um papel que também tirou da gaveta do meio. – Ele vive no China Bar. É um sujeito alto, com uma pança descomunal. A pança e a cor da pele dele são únicas; ele não é nem branco nem negro, é cinzento. – Olhou para Apolo Brito e sentiu que estava enrolando. – Não adianta ir lá. Ele está em Macapá, e a Polícia Federal está vigiando ele – disse.
Apolo Brito sentia, desde o começo, que Montezuma Cruz não havia contado tudo.
– E onde estava guardada a toxina? – perguntou.
Montezuma Cruz fez um longo silêncio. Suspirou. Olhou para os olhos negros e úmidos do detetive.
– Estava em um cofre do tamanho de uma sala. O biotecnólogo separou uma parte para suas pesquisas e guardou o resto. No cofre havia também um muiraquitã, branco, de jadeíta, de 50 milímetros, pesando 42 gramas, de 2.500 anos, uma peça tapajônica sem preço. Levaram o muiraquitã também.
– E quem tem acesso a essa ala? – Apolo Brito perguntou.
– É aberta com cartão magnético.
– Cartão magnético? Um simples chupa-cabra clona cartão – disse Apolo Brito. – Então o ladrão sabia o que havia de valor no cofre. Isso amplia bastante o número de suspeitos.
– É verdade. Até eu fui ouvido pelo delegado, mas o fato é que a polícia não encontrou a mais tênue pista, e os depoimentos foram checados.
Algo estava latejando na memória de Apolo Brito.
– Tu disseste que o Alfredão participa de uma pesquisa sobre água...
– É. Ele é veterinário, mas é também um dos primeiros oceanógrafos formados pela Universidade Federal do Pará, e está fazendo uma pesquisa sobre a água do rio Amazonas como pesquisador visitante da Unifap.
Uma copeira serviu-lhes água gelada.
– O que mais havia no cofre? – Apolo Brito perguntou.
– Nada – disse Montezuma Cruz. – Fez um silêncio dramático. – Vou abrir o jogo também – disse. – Há coisa de quatro anos, quando comecei a fazer meu doutorado sobre história da Amazônia, descobri indícios de uma sociedade secreta dos americanos, por volta de 1939, em Fordlândia, denominada Confraria Muiraquitã...
– Confraria Muiraquitã? – Apolo Brito indagou, surpreso. “É confraria demais para minha cabeça... conspiração demais; acho que estão todos acometidos da síndrome da conspiração.”
– Sim, Confraria Muiraquitã. Pesquisei nos arquivos do Museu e no Arquivo Público do Pará e descobri evidências, embora frágeis, dessa irmandade, que teria pressentido, naquela época, o valor que a água, cada vez mais, adquire hoje, com a escalada da poluição. A irmandade teria como objetivo a preservação da água, internacionalizar a Amazônia e transformá-la em um gigantesco reservatório de água para o império americano. Descobri ainda que muiraquitã é o nome de uma pousada de um americano. Estive lá e monitorei o americano. Ele gosta de pescar no rio Tapajós, é frequentador assíduo de Alter do Chão, Santarém na verdade, e do rio Paru, mas a pousada fica em Mexiana.
– Mexiana? – Apolo Brito indagou, novamente surpreso.
– Sim, Mexiana – disse Montezuma Cruz, abrindo uma gaveta, desta vez a de baixo, à direita, de onde apanhou uma pasta com elástico e da qual tirou duas folhas de papel A4, que estendeu a Apolo Brito.
“Mexiana fica no delta do rio Amazonas, ao norte da ilha do Marajó, de que é separada pelo Canal do Sul. Da mesma forma que Macapá, ela é cortada pela Linha Imaginária do Equador. Suas várzeas, mangues e floresta equatorial são cheios de animais, como capivara, suçuarana, preguiça, caititu, macaco, jacaré, jiboia, e aves como guará, cegonha, tuiuiú, garça, piaçoca, maguari, além de peixes, os mais comuns, tucunaré, tambaqui, piranha, pirarucu, pirarara, filhote, pescada branca, piramutaba, dourada. Quem olha no mapa pensa que Mexiana é banhada pelo oceano Atlântico a nordeste, mas as águas que a banham são sempre doces, do rio Amazonas. Ela mede aproximadamente 100 mil hectares, ou campos de futebol, e dista de Belém, em linha reta, 190 quilômetros, oito horas de barco e cinquenta minutos de avião. Além de pista de pouso, a ilha conta com um hotel de selva, roteiros ecoturísticos, trilhas, passeio no lombo de búfalo, observação de fauna, pororoca e praias, as quais são: Jaburu Pinto, Japuá, Quebra-Vara, Matupiri e Malhadas. De clima equatorial, chove constantemente na ilha. Os voos, fretados, para Mexiana, saem do aeroporto Val-de-Cães. Depois da pororoca, a pesca esportiva é um dos maiores atrativos da ilha. Pescadores de todo o mundo viajam até lá em busca da emoção de pegar peixes, que chegam a três metros de comprimento” – dizia o impresso.
– O intrigante é que na minha investigação eu descobri que a maior riqueza da Amazônia não é ouro, nem diamante, nem madeira, é água mesmo! – disse Montezuma Cruz, tirando da pasta algumas laudas grampeadas, que estendeu a Apolo Brito. Tratava-se de matéria, assinada pelo jornalista acreano Chico Araújo, publicada no site Agência Amazônia, sob o título: “Navios-tanque traficam água de rios da Amazônia – Falta de fiscalização facilita a ação de criminosos. Autoridades brasileiras já foram informadas da situação”. A matéria dizia o seguinte:
“Brasília, quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 – É assustador o tráfico de água doce no Brasil. A denúncia está na revista jurídica Consulex 310, de dezembro do ano passado, num texto sobre a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o mercado internacional de água. A revista denuncia: “Navios-tanque estão retirando sorrateiramente água do rio Amazonas”. Empresas internacionais até já criaram novas tecnologias para a captação da água. Uma delas, a Nordic Water Supply Co., empresa da Noruega, já firmou contrato de exportação de água com essa técnica para a Grécia, Oriente Médio, Madeira e Caribe.
“Conforme a revista, a captação geralmente é feita no ponto onde o rio deságua no oceano Atlântico. Estima-se que cada embarcação seja abastecida com 250 milhões de litros de água doce, para engarrafamento na Europa e Oriente Médio. Diz a revista ser grande o interesse pela água farta do Brasil, considerando que é mais barato tratar águas usurpadas (US$ 0,80 o metro cúbico) do que realizar a dessalinização das águas oceânicas (US$ 1,50).
“Anos atrás, a Agência Amazônia também denunciou a prática nefasta. Até agora, ao que se sabe, nada de concreto foi feito para coibir o crime batizado de hidropirataria. Para a revista Consulex, “essa prática ilegal não pode ser negligenciada pelas autoridades brasileiras, tendo em vista que são considerados bens da União os lagos, os rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seus domínio (CF, art. 20, III).
“Outro dispositivo, a Lei 9.984, de 17 de julho de 2000, atribui à Agência Nacional de Águas (ANA), entre outros órgãos federais, a fiscalização dos recursos hídricos de domínio da União. A lei ainda prevê os mecanismos de outorga de utilização desse direito. Assinado pela advogada Ilma de Camargos Pereira Barcellos, o artigo ainda destaca que a água é um bem ambiental de uso comum da humanidade. “É recurso vital. Dela depende a vida no planeta. Por isso mesmo impõe-se salvaguardar os recursos hídricos do país de interesses econômicos ou políticos internacionais”, defende a autora.
“Segundo Ilma Barcellos, o transporte internacional de água já é realizado através de grandes petroleiros. Eles saem de seu país de origem carregados de petróleo e retornam com água. Por exemplo, os navios-tanque partem do Alaska, Estados Unidos – primeira jurisdição a permitir a exportação de água –, com destino à China e ao Oriente Médio, carregando milhões de litros de água.
“Nesse comércio, até uma nova tecnologia já foi introduzida no transporte transatlântico de água: as bolsas de água. A técnica já é utilizada no Reino Unido, Noruega ou Califórnia. O tamanho dessas bolsas excede ao de muitos navios juntos, destaca a revista Consulex. “Sua capacidade é muito superior a dos superpetroleiros.” Ainda de acordo com a revista, as bolsas podem ser projetadas de acordo com a necessidade e a quantidade de água e puxadas por embarcações rebocadoras convencionais.
“Há seis anos, o jornalista Erick Von Farfan também denunciou o caso. Numa reportagem no site eco21 lembrava que, depois de sofrer com a biopirataria, com o roubo de minérios e madeiras nobres, agora a Amazônia está enfrentando o tráfico de água doce. A nova modalidade de saque aos recursos naturais foi chamada por Farfan de hidropirataria. Segundo ele, os cientistas e autoridades brasileiros foram informados que navios petroleiros estão reabastecendo seus reservatórios no rio Amazonas antes de sair das águas nacionais.
“Farfan ouviu Ivo Brasil, diretor de Outorga, Cobrança e Fiscalização da Agência Nacional de Águas. O dirigente disse saber desta ação ilegal. Contudo, ele aguarda uma denúncia oficial chegar à entidade para poder tomar as providências necessárias. “Só assim teremos condições legais para agir contra essa apropriação indevida”, afirmou.
“O dirigente está preocupado com a situação. Precisa, porém, dos amparos legais para mobilizar tanto a Marinha como a Polícia Federal, que necessitam de comprovação do ato criminoso para promover uma operação na foz dos rios de toda a região amazônica próxima ao oceano Atlântico. “Tenho ouvido comentários nesse sentido, mas ainda nada foi formalizado”, observa.
“Segundo Farfan, o tráfico pode ter ligações diretas com empresas multinacionais, pesquisadores estrangeiros autônomos ou missões religiosas internacionais. Também lembra que até agora nem mesmo com o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) foi possível conter os contrabandos e a interferência externa dentro da região.
“A hidropirataria também é conhecida dos pesquisadores da Petrobras e de órgãos públicos estaduais do Amazonas. A informação deste novo crime chegou, de maneira não oficial, ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão do governo local. “Uma mobilização até o local seria extremamente dispendiosa e necessitaríamos do auxílio tanto de outros órgãos como da comunidade para coibir essa prática”, afirmou Ivo Brasil.
“A captação é feita pelos petroleiros na foz do rio ou já dentro do curso de água doce. Somente o local do deságue do Amazonas no Atlântico tem 320 quilômetros de extensão e fica dentro do território do Amapá. Nesse lugar, a profundidade média é em torno de 50 metros, o que suportaria o trânsito de um grande navio cargueiro. O contrabando é facilitado pela ausência de fiscalização na área.
“Essa água, apesar de conter uma gama residual imensa e a maior parte de origem mineral, pode ser facilmente tratada. Para empresas engarrafadoras, tanto da Europa como do Oriente Médio, trabalhar com essa água mesmo no estado bruto representaria uma grande economia. O custo por litro tratado seria muito inferior aos processos de dessalinizar águas subterrâneas ou oceânicas. Além de livrar-se do pagamento das altas taxas de utilização das águas de superfície existentes principalmente dos rios europeus. Abaixo, alguns trechos da reportagem de Erick Von Farfan:
“Hidro ou biopirataria? – O diretor de operações da empresa Águas do Amazonas, o engenheiro Paulo Edgard Fiamenghi, trata as águas do rio Negro, que abastece Manaus, por processos convencionais, e reconhece que esse procedimento seria de baixo custo para países com grandes dificuldades em obter água potável. “Levar água para tratar no processo convencional é muito mais barato que o tratamento por osmose reversa”, comenta.
“O avanço sobre as reservas hídricas do maior complexo ambiental do mundo, segundo os especialistas, pode ser o começo de um processo desastroso para a Amazônia. E isto surge num momento crítico, cujos esforços estão concentrados em reduzir a destruição da flora e da fauna, abrandando também a pressão internacional pela conservação dos ecossistemas locais.
“Entretanto, no meio científico ninguém poderia supor que o manancial hídrico seria a próxima vítima da pirataria ambiental. Porém os pesquisadores brasileiros questionam o real interesse em se levar as águas amazônicas para outros continentes. O que suscita novamente o maior drama amazônico, o roubo de seus organismos vivos. “Podem estar levando água, peixes ou outras espécies e isso envolve diretamente a soberania dos países na região”, argumentou Martini.
“A mesma linha de raciocínio é utilizada pelo professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Paraná, Ary Haro. Para ele, o simples roubo de água doce está longe de ser vantajoso no aspecto econômico. “Como ainda é desconhecido, só podemos formular teorias e uma delas pode estar ligada ao contrabando de peixes ou mesmo de microrganismos”, observou.
“Essa suposição também é tida como algo possível para Fiamenghi, pois o volume levado na nova modalidade, denominada “hidropirataria”, seria relativamente pequeno. Um navio petroleiro armazenaria o equivalente a meio dia de água utilizada pela cidade de Manaus, de 1,5 milhão de habitantes. “Desconheço esse caso, mas podemos estar diante de outros interesses além de se levar apenas água doce”, comentou.
“Segundo o pesquisador do Inpe, a saturação dos recursos hídricos utilizáveis vem numa progressão mundial e a Amazônia é considerada a grande reserva do planeta para os próximos mil anos. Pelos seus cálculos, 12% da água doce de superfície se encontram no território amazônico. “Essa é uma estimativa extremamente conservadora, há os que defendem 26% como o número mais preciso”, explicou.
“Em todo o planeta, dois terços são ocupados por oceanos, mares e rios. Porém, somente 3% desse volume são de água doce. Um índice baixo, que se torna ainda menor se for excluído o percentual encontrado no estado sólido, como nas geleiras polares e nos cumes das grandes cordilheiras, contando ainda com as águas subterrâneas. Atualmente, na superfície do planeta, a água em estado líquido representa menos de 1% desse total disponível.
“Água será motivo de guerra – A previsão é que num período entre 100 e 150 anos, as guerras sejam motivadas pela detenção dos recursos hídricos utilizáveis no consumo humano e em suas diversas atividades, como a agricultura. Muito disso se daria pela quebra dos regimes de chuvas, causada pelo aquecimento global. Isso alteraria profundamente o cenário hidrológico mundial, trazendo estiagem mais longas, menores índices pluviométricos, além do degelo das reservas polares e das neves permanentes.
“Sob esse aspecto, a Amazônia se transforma num local estratégico. Muito devido às suas características particulares, como o fato de ser a maior bacia existente na Terra e deter a mais complexa rede hidrográfica do planeta, com mais de mil afluentes. Diante desse quadro, a conclusão é óbvia: a sobrevivência da biodiversidade mundial passa pela preservação dessa reserva.
“Mas a importância desse reduto natural poderá ser, num futuro próximo, sinônimo de riscos à soberania dos territórios pan-amazônicos. O que significa dizer que o Brasil seria um alvo prioritário numa eventual tentativa de se internacionalizar esses recursos, como já ocorre no caso das patentes de produtos derivados de espécies amazônicas. Pois 63,88% das águas que formam o rio se encontram dentro dos limites nacionais.
“Esse potencial conflito é algo que projetos como o Sistema de Vigilância da Amazônia procuram minimizar. Outro aspecto a ser contornado é a falta de monitoramento da foz do rio. A cobertura de nuvens em toda a Amazônia é intensa e os satélites de sensoriamento remoto não conseguem obter imagens do local. Já os satélites de captação de imagens via radar, que conseguiriam furar o bloqueio das nuvens e detectar os navios, estão operando mais ao norte.
“As águas amazônicas representam 68% de todo o volume hídrico existente no Brasil, e sua importância para o futuro da humanidade é fundamental. Entre 1970 e 1995, a quantidade de água disponível para cada habitante do mundo caiu 37% em todo mundo, e, atualmente, cerca de 1,4 bilhão de pessoas não têm acesso à água limpa. Segundo a Water World Vision, somente o rio Amazonas e o Congo podem ser qualificados como limpos”.
– Os muiraquitãs se reúnem anualmente em Soure – disse Montezuma Cruz, quando Apolo Brito devolveu as laudas, lidas atentamente.
– Em Soure? – perguntou o detetive.
– Vamos almoçar – Montezuma Cruz o convidou, pegando uma pasta na qual reunira várias cópias de impressos, enquanto Apolo Brito estivera lendo o artigo de Chico Araújo, e a entregou ao detetive. – Lê este material com calma.

Você pode adquirir, agora, seu exemplar de A CONFRARIA CABANAGEM. Para quem mora no Brasil e países vizinhos, peça-o ao Clube de Autores. Se você vive na Europa, Estados Unidos ou na Ásia, será mais prático pedi-lo à Amazon.com. Boa leitura!

Nenhum comentário:

Postar um comentário