Nunca vi mulher tão bonita como a socialite Gislaine
Cagnotto, 40 anos. Pequena – um metro e sessenta, mais ou menos, e em torno de
55 quilos –, de pele rosada, boca semelhante a da atriz Alinne Moraes, cabelos ruivos,
olhos verdes, seios fartos e garupa equina, tudo isso foi aquinhoado ainda com
seu dom literário. Gislaine Cagnotto é poeta acima da média, o que quer dizer
que não amontoa palavras apenas, mas vasculha as vísceras. E foi precisamente
isto que a fez procurar-me: as vísceras.
Somos amigos há um bom tempo, exatamente por frequentarmos
as mesmas festas da alta sociedade; eu, por força da minha família, que é
bastante endinheirada. Porém, na minha juventude, estourei um joelho escalando
o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil e na Amazônia, com 2.994 metros, e que
jamais consegui escalar. Depois de ter meu joelho remexido durante tempo demais
por uma junta de ortopedistas, fui alertado a procurar um acupunturista, de
preferência que não fosse médico, mas terapeuta iniciado em Medicina
Tradicional Chinesa. Quem me indicou isso foi um amigo mais velho. Encontrei um
chinês que estava há muito tempo no Brasil e após algumas sessões com agulhas e
massagens voltei a andar normalmente, sem sentir dor nem mancar. Fiquei, então,
curioso com a magia daquele tratamento e acabei entrando na Escola Nacional de
Acupuntura (ENAc), onde me formei já faz algum tempo, e atendo vários amigos
meus.
Gislaine chegou às 10 horas em ponto ao meu consultório, no
Lago Sul. Sentamo-nos confortavelmente e comecei a fazer a anamnese. Sua
principal queixa era constipação intestinal, o que confirmei examinando sua
língua e seu pulso. Mas descobri também que havia outro problema: ela não
conseguia mais criar.
– Você tem muitos pares de sapatos? – perguntei-lhe,
imprimindo um tom casual à pergunta.
Ela me olhou sem entender, mas respondeu-me automaticamente.
– Tenho! Acho que tenho uns 300 pares de sapatos! Por quê?
– Na Medicina Tradicional Chinesa, nós, terapeutas, não exatamente
curamos doenças; nós tratamos o paciente como um todo, até porque toda a
qualquer doença nada mais é do que desarmonia da energia mental – expliquei-lhe.
Aí é que ela não entendeu mesmo.
– E você costuma juntar muitas coisas que não usa e que
estão guardadas? – perguntei-lhe.
– Muitas! – ela disse. – Há uma dependência, em casa, e é
uma dependência grande, cheia de sapatos, roupas, bijuterias e até móveis que
não usamos mais.
– Vou aplicar agulhas em alguns acupontos e preciso que você
tire a blusa, tudo bem?
– É claro! – ela disse. – Estou aqui escondida do meu
marido! Ele sente ciúme até da minha sombra!
Somos bastante amigos.
– E por que você se submete a esse regime islâmico? –
perguntei-lhe, em tom de brincadeira.
– Sou mulher mineira; gostamos de dinheiro, e ele compra
tudo o que eu quero! – ela sussurrou, deitando-se na maca. Seu sutiã era negro
e contrastava com a pele rosada. A saia, vermelha, era justa, deixando à mostra
as pernas mais bem torneadas entre as inúmeras que eu já vira.
Entre os pontos em que apliquei agulhas utilizei o BP 15,
daheng em mandarim, localizado numa distância de quatro “cun”, cerca de 10
centímetros, na lateral do umbigo. Ele serve para debelar constipação crônica,
resultado de letargia do intestino grosso. Mas eu já sabia qual era a causa do
que estava afligindo minha bela amiga, e também a solução. Mais tarde,
degustando Café Três Corações, gourmet, ministrei-lhe uma prática para sanar o
mal pela raiz.
– Gislaine, vou indicar um lar de velhinhos e providenciar
um furgão para, amanhã de manhã, irem à sua casa buscar tudo o que você
realmente não vai mais utilizar; isso será precioso para eles – propus-lhe. Gislaine
é do germânico “refém”, e, por coincidência, ela era refém do apego.
Três dias depois voltei a atender minha amiga. Ela estava
mais linda do que nunca. Deslumbrante.
– Quase me acabo de tanto defecar – disse-me, rindo.
Tínhamos intimidade para dizer o que quiséssemos.
– Gislaine, a prisão de ventre era provocada pelo apego, que
guardava não somente fezes, mas também tudo aquilo que não tem mais utilidade
para você, ou que você esteja guardando para uma ocasião fantasiosa, que jamais
ocorrerá. E da mesma forma que um quarto pode guardar trastes a vida toda,
também o intestino grosso pode reter fezes vida afora, que vão ficando cada vez
mais putrefatas e contaminando, aos poucos, todo o organismo. Num plano mais
sutil, o apego também vai sufocando suas vítimas, que se tornam, sem se
aperceberem disso, escravas da luxúria – disse-lhe. Ela estava atenta. – Agora que
você se libertou dos trastes a criatividade vai voltar a fluir, e dos seus
lábios surgirão mais rosas, mais jardins, mais perfumes azuis sangrando –
declamei, parafraseando um poema de Gislaine: De tão azul, sangra!
Ela riu com gosto, feliz.
– Impressionante! Hoje, no café, comuniquei ao meu marido
que viria ao seu consultório e sabe o que ele me disse?, mandou lembranças!
Normalmente teria me proibido de vir aqui, até porque, como você sabe, o ciúme
dele aumenta quando homens charmosos como você se aproximam de mim – ela comentou,
rindo. – Vamos para a maca? – propôs, despindo-se do vestido. Já havia visto
seu corpo no Iate Clube, mas ali, de sapatos altos e com aquele batom vermelho
nos lábios sensuais, e de sutiã e calcinha, era, literalmente, de parar o
trânsito. E podia-se dizer que deu mesmo mole para mim.
“Acupuntura como
pretexto para a luxúria não pode redundar em boa coisa; gerará aquele tipo de
equilíbrio à beira do abismo” – pensei, abrindo um saquinho de agulhas. Um
professor, na ENAc, me transmitiu um princípio que adotei não somente como
terapeuta, mas em todas as circunstâncias da vida: jamais acumplicie-se com a
corrupção.
Brasília, 29 de outubro de 2014
Excelente conto, Ray! Quem sabe não é o início de uma série sobre os principais males humanos vistos sob a ótica da sabedoria oriental, via acupuntura? E, claro, sempre com a visão aguçada e o texto bem cuidado de um escritor de talento.
ResponderExcluirEste é o terceiro conto que crio com personagens que transitam no âmbito da Medicina Tradicional Chinesa, e que poderá integrar um livro com esse fio condutor. Também pretendo, daqui a dois romances, escrever uma história longa envolvendo personagens acupunturistas. Ainda, escrevi alguns poemas que vibram nos vários corpos do azul!
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