sábado, 15 de novembro de 2014

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É será lançado em Macapá


Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá, cidade
natal do autor, e que se debruça na margem esquerda do rio
Amazonas, a cerca de 250 quilômetros da foz, quando despeja pelo
menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, por
segundo. A foto foi feita em dezembro de 2010, pelo sociólogo,
ensaísta,
 ficcionista e compositor Fernando Canto


RAY CUNHA

BRASÍLIA, 15 DE NOVEMBRO DE 2014 – Estarei autografando em Macapá, minha cidade natal, neste mês de dezembro, o livro de contos NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 30), 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, personagem subjacente no livro, que fecha a trilogia iniciada com A GRANDE FARRA (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30). O dia e o local do evento ainda não foram definidos.

Estarei ainda autografando dois romances policiais lançados em agosto deste ano: HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM, ambos publicados pelo Clube de Autores (HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM) e pela Amazon.com (HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM), que atendem somente a pedidos, enviando o livro pelos Correios. Caso leitores de Macapá os tenham adquirido e os levarem durante o lançamento do livro NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, será um prazer autografar também os dois thrillers.

Seguem-se um artigo e uma entrevista feita comigo pelo escritor e mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, Marcelo Larroyed, que, entre outros trabalhos meus, fez a revisão do livro NA BOCA DO JACARÉ-AÇU.


UMA TOMOGRAFIA DA AMAZÔNIA HUMANA

MARCELO LARROYED

Capa da edição do
Clube de Autores
“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha. 

O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.

Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

Capa da edição da
Amazom.com
É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Capa da edição da
Amazom.com
Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu.

Capa da edição do
Clube de Autores
A ENTREVISTA – Como e por que você escolheu o título NA BOCA DO JACARÉ-AÇU?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


Veja entrevista concedida pelo autor ao programa Tirando de Letra, da UnBTV, em dois blocos:

https://www.youtube.com/watch?v=mepLTQnV0bw

https://www.youtube.com/watch?v=SkoxPi5dW1M

domingo, 9 de novembro de 2014

O voo da luz

Talvez o maior objetivo da moda seja a sensualidade, tanto na confecção de tecidos quanto no corte. Uma mulher vestida de modo a realçar a beleza física terá sempre os homens dominados pela loucura, pois jogamos fora a sensatez, toda a racionalidade, toda a liberdade, para nos aprisionarmos à passagem de uma potra vestida em seda, como mariposas atraídas pela luz; relinchamos, esmagados pelo perfume das virgens ruivas, embora fugaz como o gemer do acme, porém fatal.

Nádegas se movendo sob vestido de seda, justo, blusas que mal encobrem mamilos grandes como jambo, barriguinhas que surgem e desaparecem como fontes cristalinas ao sol, do tipo tábua, ou renascentistas, na mira de sedentos olhos vampirescos, são pedras preciosas que cravejam as avenidas das grandes cidades e, assim, de Brasília também.

É da natureza feminina a ambiguidade. Elas querem, mas juram que não. Nem Freud explica. E a barriguinha é uma prova cabal disso. Puxam a blusinha para encobrir a barriga, ou puxam as calças para cima, dando algumas sacudidelas nas ancas, numa tentativa sempre inútil de cobrir o objeto do tormento masculino, e tudo o que fazem é ampliar o mistério; sabem disso tudo, e que nossos corações disparam. Matam-nos, deixando-nos vivos.

Às mulheres, só a beleza importa, pois são como as rosas que vicejam nos jardins azuis, delicadas, perfumadas, lindas como mulher nua, e que, evanescentes, me ignoram. Só querem saber de luz, que as tornam ainda mais esplendorosas. Resigno-me, pois me basta ter certeza da existência delas, que são, afinal, o triunfo de Deus.

Mas quando as mulheres puxam a blusinha para encobrir a barriga, inutilmente, e quando puxam as calças e sacodem as ancas, elas nos conduzem para o labirinto da imaginação, o mergulho em um abismo de rosas. Fechamos os olhos e choramos em silêncio, morrendo no voo da luz.