segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Velhice

A preocupação com a velhice perpassa idades, gêneros, etnias, regiões e sociedades. Quase todo mundo se preocupa com ela, mas noto que a velhice atinge mais os jovens, e de maneira concreta. Quanto menos esclarecido, menos espiritualizado, menos educado é o jovem mais ele desdenha, e até hostiliza, os velhos, tratando-os com desprezo e nojo. O que é, pois, a velhice? Por que inspira tanta repugnância? Por que é tão menosprezada?

Envelhecer é morrer, pois que todos nascem com destino físico traçado, o código genético. A vida mental determinará o dia e a hora da morte, mas morrer é certo; podemos até voltar do corredor espiritual e ressuscitar, contudo, o corpo carnal não durará mais do que um século, e, se durar, não será por muito mais tempo. E até chegar ao fim, vai-se deslizando num tobogã mais e mais liso; são as células morrendo, a pele se enrugando, os ossos encolhendo, os órgãos falindo, até esvair-se a energia vital, a centelha, o mistério da vida, e surgir o abismo, mas também a luz.

O desdém que alguns jovens e adultos dispensam aos velhos decorre de dois fatores: um, a animalidade dos jovens. Nela, a morte, e a velhice, não existem; no seu mundo só há beleza, vigor, primavera. O outro fator é o apego, a ilusão de que nossas quatro dimensões são para sempre.

Notaram que as crianças não excluem os velhos? Pois elas ainda têm aberto o portal que transcende as quatro dimensões, e que só pode ser transposto por meio da inexistência do apego, da pureza.

O fato é que o tempo nem é importante. Importante é a energia. Há velhos que jamais deixam de trabalhar, de produzir, de ajudar os jovens a construírem seus mundos, e de amar. E há os que morrem mentalmente, mas seus corpos continuam vagando por aí, deteriorando-se. A energia está na mente; os corpos são apenas prisão, da qual saímos porque amamos.

Já passei dos 60 e convivo com todo mundo, inclusive jovens. Não quero nada dos jovens além da oportunidade de vê-los na sua beleza imortal. O fato é que transcendi o tempo, porque de tanto ouvir o riso das crianças, de tanto observar as rosas, de sentir os jasmineiros umedecendo as noites tórridas do trópico, de inalar a fragrância do mar, que inunda minha alma, de tanto montar a luz no cataclismo do primeiro beijo, acabei por ouvir o atrito da Terra no espaço e de sentir que a eternidade é agora.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Tia Graça

Maria das Graças de Almeida Souza, tia da minha esposa, Josiane Souza Moreira Cunha, e da minha princesa, Iasmim Moreira Cunha, é o anjo do nosso núcleo familiar. Ela estendeu a mão a mim, como chefe de família, em situações em que eu escorregava para o abismo, correndo o risco de perder tudo o que me é mais precioso. Sou eternamente grato à tia Graça. Inscrevi, pois, um soneto no jardim da tua primavera, que a cada ano fica mais azul!


Tu és o anjo das nossas vidas
Teu gesto mais simples preenche de amor a luz
Deixa prenhe de fé o mundo, quando a esperança quebrou-se como cristal fino
Quando não havia mais, no caminho, alento algum

Tu és perfume que se entranhou nas nossas vidas
Do grande rio que rasga a Amazônia, as nascentes
Música de Mozart, que flui serena, vibração divina
Sol na espiral dos nossos caminhos, para sempre

Josiane, a cafuza mais linda do mundo
Iasmim, a princesa mais amada
E eu, somos gratos por tudo

A poesia, oceano destes versos, é minha essência, minha alma, sou eu
Todo o meu tesouro, que te dedico, tia Graça
Eu, que sou também Josiane e Iasmim, sou tudo o que tenho

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Senador é degolado numa Brasília de duas faces: a corrupta e a luminosa. Neste romance policial de Ray Cunha criaturas fictícias convivem com personagens de carne e osso, vivas ou mortas

Capa da edição da Amazon.com

Capa da edição do Clube de Autores
O país afunda em corrupção e o erário escorre pelo ralo em obras bilionárias e superfaturadas, e que nunca terminam. Nada a ver com o Brasil atual. É ficção, mesmo. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana no suntuoso Tropical Hotel, que ocupa uma quadra inteira do Setor Hoteleiro Sul e onde voejam prostitutas de luxo, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.

Trata-se do último romance de Ray Cunha, escritor nascido em Macapá, na Amazônia Caribenha, e que vive em Brasília desde 1987. Devido ao seu trabalho como jornalista, conhece os subterrâneos, bem como os bastidores da cidade-estado, além de ser também observador privilegiado dos seus palácios e shoppings, catedrais pós-modernas da Ilha da Fantasia.

Neste romance desfila um magote de personalidades reais, como, por exemplo, o maestro Silvio Barbato, ressuscitado para reger a Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro em dois clássicos: o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, e o Bolero de Ravel; as cantoras paraenses Carmen Monarcha, que se apresenta com André Rieu, e Joelma, da Banda Calypso; três artistas plásticos: José Pires de Moraes Rego, Olivar Cunha e André Cerino; e até a famosa personagem de ficção Brigitte Montfort.

Por enquanto, HIENA está à venda somente no Clube de Autores e na Amazon.com. Faça o seu pedido!

Ray Cunha, fotografado pelo artista plástico André Cerino, no ateliê do pintor

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Conheça o Brasil em 27 livros de ficção


O romance A CASA AMARELA (Editora Cejup, Belém, 2005, 158 páginas), de Ray Cunha, foi selecionado para representar o estado do Amapá na página UOL Educação - Literatura: conheça o Brasil em 27 livros de ficção:


Esgotado nas livrarias, A CASA AMARELA receberá nova edição em 2016. A história, que se passa em 1964, início da Ditadura dos Generais (1964-1985), narra como o regime militar afetou a cidade, encravada na Hileia, especialmente a família Picanço Cardoso, que perde um filho, líder estudantil, preso na fortaleza São José de Macapá.

A CASA AMARELA é um mergulho no Amapá, o estado mais setentrional da costa atlântica, e na Macapá dos anos de 1960. A cidade das bacabeiras é a mais emblemática da Amazônia. À margem esquerda do estuário do maior rio do mundo, o Amazonas, é seccionada ao meio pela Linha Imaginária do Equador, constituindo-se, ao norte do Mundo das Águas, a entrada para o Inferno Verde.

Seguem-se duas resenhas sobre o livro.

Amazônia impressionista

LUIZ ADOLFO PINHEIRO

Ray Cunha é um bom contador de histórias sobre a gente da Amazônia, porque ele também é gente da Amazônia. E os anos de distância da terra natal em nada comprometeram suas lembranças e sua vivência do povo e da paisagem amazônicos. Ele já provou isso em outras obras, como TRÓPICO ÚMIDO, a minha preferida, e só para citar uma única.

Por isso, é sempre um prazer renovado mergulhar em nova obra do Ray, como este romance A CASA AMARELA, tão oportuno quanto perturbador. Pois o autor não busca a linguagem expressionista, aquela que tanto seduz novelistas deslumbrados com o significado das palavras em si mesmas. Ele pratica a linguagem impressionista, aquela que vai diretamente à medula do osso e conta, sem rodeios, o que pretende contar.

Em A CASA AMARELA, Ray Cunha desloca sua narrativa da Belém cenário do conto Inferno Verde, do livro TRÓPICO ÚMIDO, para a sua Macapá natal. No universo amazônico, as duas cidades se distinguem pelo tamanho, população e importância política e econômica, mas no cotidiano são o mesmo mundo de água, sol, paixão e esperanças - algumas vividas, outras perdidas. A saga é da família Picanço Cardoso, que, como as demais do Brasil, foi de alguma forma afetada direta ou indiretamente pelo Golpe Civil-Militar de 1964.

Que não se espere da leitura, entretanto, um tratado político-ideológico a respeito do significado de 1964 para a história recente do país. O autor não escreveu um ensaio, mas um romance - cheio de vida, de amor, de misérias, de namoros e de estupros, de torturas e de mentiras. E, de permeio, o inconfundível mundo amazônico, a natureza bela e áspera, como descreve o próprio Ray: “Ouvia-se, nitidamente, em meio aos sons da selva, o silêncio da tocaia. Aquele silêncio entremeado de sons remotos e crepitar de insetos. O céu era azul-escuro e, ao mesmo tempo, azul-claro, até ficar translúcido”.

E, em outro trecho, a riqueza do rio e da mata, que alimenta o homem e o prende ainda mais à telúrica mãe amazônica: “Nenhuma comida do mundo era melhor do que a de mamãe. Seu feijão era algo de outro mundo. Bastava misturá-lo ao arroz, farinha e um bife ao molho. Às vezes, papai comprava fígado ou bucho. Às vezes, havia bicho de casco, tatu, paca, cotia, capivara ou camarão, piracuí ou peixe. Gostava também de açaí, melancia, graviola, taperabá, ata, tucumã, mucajá, pupunha com café. Às vezes, quando o mar estava para peixe, o desjejum era feito com tapioquinha amanteigada ou bolo de macaxeira. Outras vezes, abundavam banana chorona e mangas”.

O Amapá emerge vigoroso com sua gente destemida, seus aventureiros, seus sonhos de grandeza - ora de virar um Estado da Federação, como de fato ocorreu, ora até como um Estado independente deste Brasil tão longe, tão distante, tão distinto. E, no meio do cenário, a saga de Mel Picanço Cardoso, a jovem de dezessete anos, “pele rosada, longos cabelos em cascatas, arruivados, grandes olhos cor de mel, lábios polpudos como frutos maduros e longos dedos, em mãos prenhes de meiguice”, a princesa da Casa Amarela, sua residência, que um dia, como tudo na vida, seria demolida - como demolidos foram tantos sonhos e esperanças, dela própria e de outros.

Ao se comentar resumidamente um romance cheio de vida, como A CASA AMARELA, sem revelar ao leitor os meandros da história, conforta-nos a certeza de que a ditadura cultural e econômica exercida no país pelo eixo Rio-São Paulo não faz calar a voz dos que, em todos os rincões da pátria comum, principalmente como Ray Cunha na vasta e misteriosa Amazônia, permanecem fiéis aos valores e ao sentimento de profundo amor à sua gente e à sua terra natal.

Amazônia ensanguentada

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA

Autor conhecido na região amazônica - já publicou seis livros, incluindo contos e poesia -, mas pouco lido por aqui (Brasília), Ray Cunha nos brinda agora com o segundo romance. A CASA AMARELA conta a história, fascinante e trágica, da família Picanço Cardoso durante o Golpe de 1964, em Macapá, capital do Amapá e berço do autor. Fascinante porque nos leva aos tempos de criança, irresponsavelmente desbravando matas atrás de pássaros, garimpando frutos nas grimpas de árvores frondosas, mergulhando escondidos dos pais em rios para fugir do calor; fascinante porque nos remete à adolescência, aos primeiros beijos, à primeira experiência sexual. E trágico porque nos aviva, com o assassinato do adolescente Alexandre Picanço Filho, na masmorra do regime militar, o período de trevas por que o país passou, com sua carga de sangue a escorrer dos porões.

Alexandre era apenas um jovem inteligente, um líder estudantil que queria ver a Amazônia desenvolvida por meio de sua riqueza natural e integrada ao Caribe. Acabou preso como comunista. Saiu morto da prisão, nos braços do pai. A mãe e a irmã prepararam o corpo para descer à sepultura, em um ritual que deixa o leitor com um nó na garganta.

A CASA AMARELA é uma obra carregada de emoções fortes, entremeada de passagens cômicas, como as sacanagens do Velho Rocha, que não perde oportunidade de deixar um amigo em situação constrangedora. Não perdoa nem as crianças que invadem a sua mata, a Mata do Rocha.

Com o olhar do bom jornalista que é, Ray Cunha vai fundo nas emoções e pinta, por meio dos personagens, uma Macapá deslumbrante.

Dá vontade de sair correndo e cair nos braços dela.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Trecho de Inferno Verde, publicado no livro Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos

A excrescência lembrou-lhe um piolho sob uma lente de aumento. Camundongo examinava seu rosto no espelho do banheiro, na luz amarela de uma lâmpada de duzentas velas. Poderia ser um tumor, uma espinha, um cravo inflamado, um fungo, uma imundície qualquer na pele. Naquele rosto engelhado como maracujá de gaveta poderia ser qualquer coisa, até mesmo uma sinistra ruga de células cancerosas. Seu rosto no espelho, iluminado à luz de duzentas velas, era um neo-realismo deprimente. Uma ruína viva, arquejando em silêncio, suplicando para morrer e finalmente transformar-se em adubo e desaparecer para sempre no nada. Tornara-se aquele degenerado olhando-o do espelho. A carne crescida, inflamada pela vigília literária, estava como uma posta de sangue. Mesmo assim Camundongo enxergava bem. A visão, inclusive a interior, fora um dom que Deus lhe dera. Podia ler em corpo oito, sem óculos, e podia ver, também, numa clarividência, quando alguém estava caminhando sobre o fio da navalha. As maçãs do rosto eram secas como tetas muito chupadas e apalpadas por muitos homens, com força, e por muito tempo. Os lábios assemelhavam-se a um fio pálido e encarquilhado. Orelhas de abano, com os lóbulos enormes como colhões velhos, davam-lhe um aspecto de morcego. O nariz de anta, o queixo atrofiado e o rosto miúdo é que lembravam um camundongo, desenhado por um desses pintores neo-realistas, em escala ampliada. Tinha olhos tristes, que não mentiam, que provocavam calafrios nas suas confissões. O único fator que o tornava tolerável era a bondade que emanava do seu ser. Sem isso, ninguém poderia olhar para sua cara e suportá-lo. Enquanto observava a pele do rosto - como um proctologista examina o ânus em busca do indício de hemorróidas -, Camundongo namorava com a morte. Escolhera a cidade mais estrangeira para viver. Ou morrer?

As cigarras gritavam no ar seco da superquadra. Sombras acamavam-se, lentas, sobre o bosquinho que ladeava o prédio, quando Camundongo deixou o apartamento e dirigiu-se para seu velho Alfa Romeo marron. Tomou a L-2 Sul rumo ao Conjunto Nacional. Gostava de ver os luminosos gigantescos da fachada do shopping, e também de tomar o expresso do Café Doce Café. Compreendia como ninguém aquela cidade. “Em Brasília, não há lugar para fracassados; só há lugar para vencedores. Os perdedores caem fora” - dissera-lhe Cacique, chefe da sucursal do Observador Amazônico. Agora, oito anos depois, sabia que o comentário de Cacique era um equívoco. Um equívoco, ou apenas a realidade vista da ótica de Cacique. Fosse lá como fosse, Brasília estava cheia de perdedores, gente que fracassara nas suas cidades de origem e que correra para Brasília. Os goianos já estavam lá. A primeira leva que chegou ao Cerrado foi de nordestinos. A segunda leva foi de cariocas, com seu sotaque gracioso. Os mineiros chegaram depois, e tomaram conta da cidade. Cercaram-na de montanhas, como o é o próprio estado de Minas Gerais, e desde então desenvolveram sua política de cochichos. Além disso, os mineiros se conhecem por um sinal invisível na testa, de modo que quando vieram os paulistanos, os gaúchos e os amazônidas formaram todos uma república babélica sob o domínio mineiro. Os primeiros ciclopes a chegar auto-intitularam-se pioneiros, espetaram uma estrela de xerife no peito e impuseram-se a missão de defender o Patrimônio Cultural da Humanidade.

Naquele dia de 1989, recém-chegado de Belém do Pará, quando Cacique lhe dissera que Brasília era uma cidadela de vencedores, Camundongo assumiu a cobertura do Congresso Nacional. Estava com cinqüenta e um anos de idade e já tinha entrado naquele processo de envelhecimento resultado de quatro décadas de álcool e cigarro. Era mais um apátrida fracassado que engrossava a poeira vermelha que se erguia alto no céu do Distrito Federal. Chamava-se Joaquim Silva Gomes. Desde criança ganhara o apelido de Comundongo. Achava melhor do que rato. Seu pai era um português, já morto, que se casara com uma cafuza a quem escravizara. Camundongo nascera desse casamento infame, mas tivera uma infância dourada em Mosqueiro, ilha paradisíaca, de águas salobras, em Belém do Pará. A boa vida terminara com uma sucessão de estocadas do azar. Apaixonou-se mortalmente por uma sobrinha, Mena, que se casou com um funcionário da empresa de pesca do pai de Camundongo e tinha atualmente cinqüenta anos de idade, pelancas e incontáveis filhos, mas que ainda era o grande amor da sua vida e, por essa razão, deixara sua alma aleijada. Teve de se mudar para Belém, para prosseguir nos estudos, e conheceu uma turma de literatos que lhe inocularam o veneno do ato de ler, para sempre. Foi quando seu pai perdeu tudo e se matou nadando baía afora. Tinha, então, graduado-se em letras, levado pelo maravilhoso talento de leitor nato. Isso, mais o poder de enxergar a alma dos atores sociais com olhos de navalha, levou-o ao jornalismo. Conheceu Sílvia, com quem se casou e teve uma filha retardada, a quem chamava de Luz da Minha Vida, “a dor que faço questão de sofrer”. Numa tarde infernal de 1989, Camundongo cochilou no volante na Belém-Mosqueiro e matou sua mulher e a luz da sua vida, seccionando sem anestesia seu único prazer de viver. Cacique, velho amigo da família, o socorreu na sua dor sem remédio e que oito anos depois continuava latejando e doendo sem parar.

Assim é que Brasília ajustava-se-lhe como uma luva. Uma cidade sem alma para um homem morto. Brasília era sua sepultura, com suas ruas sem nome e sem esquina, seus cerrados solitários, seu modernismo equivocado e seus pioneiros ciosos de garantir o apodrecimento do Patrimônio Cultural da Humanidade. O remorso assassino que ocupava sua memória desde que matara, num cochilo irresponsável, a própria luz da sua vida, era de certo modo atenuado pela cidade, que produzia o efeito, sobre ele, de um local asséptico, com ladrilhos brancos, cheirando a desinfetante. Mas por trás disso escorria o miasma da podridão.

Havia um restaurante anexo ao prédio onde ficava a sucursal, no Setor de Indústrias Gráficas, dirigido por um paraense conhecido por Seu Primo. Quando Camundongo entrou, Seu Primo foi cumprimentá-lo e acendeu-lhe o Malboro. Depois, compreendendo que Camundongo queria ficar a sós com Brito, o outro repórter da sucursal, retirou-se para detrás do balcão.

- E então? - Camundongo perguntou.

- Descobri o endereço - disse Brito, com sua pronúncia límpida, como só os mineiros de Belo Horizonte conseguem entoar. - O Frazão, da Costumes, está investigando.

Camundongo chupou uma grande quantidade de fumaça e foi expelindo-a aos pouquinhos. Observava seu colega, um tipo de trinta anos de idade, mais ou menos. Usava cavanhaque e óculos, era alto e tinha a ambição na mesma altura. Camundongo sabia, por intermédio do velho amigo Cacique, que Brito ambicionava cobrir o Congresso Nacional; por isso vigiava Camundongo, à espera de algum deslize “daquele rato velho”. Brito decidira que a cobertura do Congresso Nacional não podia ficar nas mãos de alguém do Norte. “Esses índios do Norte sabem pelo menos o que é jornal?” - perguntava-se. Além disso, Camundongo já deveria estar quietinho no Campo da Esperança, onde Brito poderia dar uma mijada de vez em quando na sepultura dele. Mas havia dois problemas que lhe impediam de mijar sobre a sepultura de Camundongo: a sucursal era de um jornal paraense; mineiro não oficiava seu culto ali dentro. O outro problema era o próprio Camundongo, com seu refinado espírito investigativo, que já rendera várias manchetes políticas e econômicas ao Observador Amazônico.

- Já não pretendo ficar muito tempo no jornal. Posso me aposentar na hora que bem entender. Mas quero resolver esse caso - disse Camundongo, olhando fixamente para Brito. - Acho que tu deverias me dizer logo de uma vez a verdade.

Brito engoliu em seco. Como aquele rato do Norte podia falar assim com ele, um mineiro?

- O delegado Frazão vem se dedicando ao sumiço de meninas há anos. Ele descobriu que há um senador metido nisso. O cara é do Pará - Brito desembuchou, esmigalhado pelo olhar suicida de Camundongo.

- Qual o nome dele? - Camundongo perguntou.

- Babá Carvalho - Brito se mexeu na cadeira.

- Lembras-te: este é meu último caso - disse Camundongo. Quero saber tudo.

Momentos depois, Camundongo dirigia pela Estrada Parque Taguatinga, a EPTG. Não demorou para que chegasse a Taguatinga, uma cidade a vinte quilômetros de Brasília. Tomou a Avenida Comercial Sul em direção à Vila Dimas.

A casa não tinha nada de especial.

- Boa noite! - disse Camundongo. - Procuro pela senhora Nathalia. Quero tomar uma Bohemia - disse à moça que o atendeu. Ela murmurou alguma coisa e Camundongo a seguiu através de um corredor lateral, entre o muro e a parede da casa. Entraram à esquerda, numa salinha mal iluminada. Depois seguiram por outro corredor, paralelo ao primeiro, até darem num salão onde havia um balcão e um homem atrás do balcão. O homem sorriu para Camundongo e lhe perguntou o que queria beber.

- Tem Cerpinha? - perguntou Camundongo.

- Aqui temos tudo, “míster” - disse o homem.

- Pode me chamar de Camundongo.

O homem foi apanhar a cerveja e enquanto servia-a examinava o recém-chegado.

- Qual o seu ramo, “míster”? - indagou.

- Sou amigo do senador Babá Carvalho - disse Camundongo.

O homem do balcão pensou um pouco.

- Aqui, atendemos de empresários a senadores. Temos tudo o que possam querer. O senador Babá Carvalho, por exemplo, só bebe Cerpa, como o senhor. O senhor é do Norte, também? - disse o homem do balcão.

- Precisamente do Pará - disse Camundongo.

- O senhor só toma Cerpa?

- Só vario a taça.

- Como assim?

- Às vezes, gosto de usar uma taça pubiana.

O homem do balcão pareceu não entender.

- As taças pubianas só a mulheres as têm. No meio das pernas - prosseguiu Camundongo.

- Ah! entendo! - disse o homem do balcão. - Chamo-me Padre - apresentou-se. - Faz sentido, pois escuto as confissões dos clientes. Na verdade são fantasiosas, mas procuro satisfazê-las, entende?

- Estou satisfeito de ter vindo aqui. É justamente este lugar que procurava. Estou disposto a pagar o que for necessário, mas antes preciso ver a mercadoria - disse Camundongo.

- Confesse! confesse! - disse Padre. - Estou aqui para ouvir - e serviu mais uma Cerpinha.

- Bom, sou muito sofisticado. E objetivo também. Procuro uma menina. De preferência paraense. - Disse isso e corou. Sentiu-se corar, mas esse pudor certamente passaria desapercebido no seu rosto de maracujá de gaveta.

O homem do balcão pensou um pouco.

- Realmente seu gosto é refinado. Vou apresentá-lo à Nathalia. - E foi até uma porta nos fundos do bar, de onde saiu com um barman. Padre convidou Camundongo a acompanhá-lo. Saíram da casa pelos fundos e dirigiram-se para o muro, onde, por trás, erguia-se uma mansão. Padre abriu um portão de ferro e ambos passaram por ele, o qual o cicerone voltou a trancar com cadeado. Estavam no terreno da mansão que aparecia nos fundos da casa onde ficava o bar. Entraram numa sucessão de compartimentos que lembrava a Camundongo um hotel, até chegarem a um salão, onde madame Nathalia aguardava. Padre apresentou-os e sumiu. Madame Nathalia devia ter cinqüenta anos. Era bonita e elegante.

- Então o senhor quer uma garotinha paraense? - perguntou-lhe. - Dizem que as meninas do Pará são precoces. Na verdade tenho muitas.

“Essa vaca ouve tudo o que se diz nesta casa, inclusive murmúrios. O confessionário do Padre tem mais de dois ouvidos” - Camundongo pensou.

- Muitas? Serão melhores do que as goianas, as mineiras? - camundongo perguntou.

- É como lhe disse: são precoces. Tenho um cliente que as prefere.

- O senador Babá Carvalho.

- O senhor o conhece?

- Somos velhos conhecidos.

- Foi ele que lhe indicou nosso clube? - madame perguntou.

- Oh! Sim.

Padre entrou com uma bandeja, na qual havia uma garrafa de licor e dois cálices. Antes de pôr a bandeja na mesinha, abaixou-se e cochichou com madame Nathalia. Camundongo ouviu as palavras “boca de sacola” e “Belém”.

- Mas voltando ao nosso assunto, o senhor quer ver nossos álbuns? - madame perguntou, servindo-os do licor de bacuri.

- A senhora é paraense? - Camundongo lhe perguntou.

- Sou. Estou há muito tempo aqui.

- Entendo. Sim, quero ver a cocaína.

- Cocaína? - disse madame, quase deixando o cálice cair.

- Por que não? - disse camundongo, com fingida casualidade.

- O que você sabe da cocaína? - madame perguntou.

- Bom, eu me referia às meninas, mas já que há também cocaína... Na verdade, estou interessado mesmo é por cocaína. Há muito tempo que não me interesso por mulheres, quanto mais por meninas.

Madame pensava a mil por hora. De repente, perpassou-lhe uma espécie de alívio no rosto, como quem acaba de matar uma charada.

- Afinal, o que é que o senhor quer?

Camundongo sentiu de repente uma ansiedade mortal, como se algo diabólico fosse-lhe acontecer naquele exato momento. Desesperado, levantou-se e pediu para ir ao banheiro. Sacou o celular do bolso e ligou para Isaías Oliveira, que naquele momento dirigia-se para a casa de Elza Ladrona.

- Uma tal Nathalia, que trafica crianças daí de Belém e as traz para Brasília, confirmou que a Ratazana está por trás do tráfico de cocaína da Colômbia, fazendo conexão no Marajó. Devo tê-la ouvido mencionar “boca de sacola” e “Belém” a um sujeito que trabalha com ela. Deu-me a impressão de que se tratava de uma pessoa...

Isaías Oliveira ouviu uma explosão do outro lado da linha.

- Alô! Alô!

Nada.

O Alfa Romeo foi encontrado, no dia seguinte, entre os arbustos tortos do Cerrado. A morte dera a Camundongo a paz que tanto buscou, pois seu rosto cadavérico parecia sorrir.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Mulher se pintando

Devido ao ângulo em que me encontrava podia vê-la impunemente, como um velho voyeur, que toma todos os cuidados ao praticar seu poético desvio, se o interesse é apenas ver mulheres entregues a si mesmas. A tarde expirava, e a noite ia tomando conta da cidade, lenta, mas firme. Eu tomara o metrô na Praça do Relógio, em Taguatinga, e desceria na 112 Sul, no Plano Piloto. O vagão não tinha quase ninguém e de onde eu me posicionara podia vê-la de perfil. Seus ombros eram graciosos e tinha longo pescoço, que lembrava um Modigliane. Seus cabelos, negros, eram curtos, deixando-me ver o brinco, balançando como estrela cadente. Seu nariz era pequeno e as pestanas longas. Pressionada pelo meu olhar vampiresco, ela se virou nervosa em minha direção e vi que seus lábios eram quase finos. Foi então que começou o espetáculo. 

Ela abriu a bolsa e sacou um estojo de onde tirou várias ferramentas, entre as quais um espelhinho. Mirou-se, passou blush no rosto, espalhou-o, e quando abriu o batom ajeitei-me no banco. Ver uma mulher passando batom nos lábios me arrepia. Ela deslizou o bastonete vermelho em toda a extensão de ambos os lábios e depois esfregou um no outro. Eu respirei forte. Então ela guardou o estojo e se acomodou, segura de si e relaxada.

Desci na 112 Sul e quando passei por ela me voltei rapidamente, com o olhar clínico armado. Ela não era bonita para os padrões televisivos, mas rescendia à beleza da sensualidade que só existe no mistério. Para onde iria? Para quem pintara aqueles lábios, agora salientes como os de Angelina Jolie? Em quem deixaria aquela tinta vermelha que a fazia belíssima?

Quando emergi da estação do metrô já era possível sentir a força de gravidade da noite. Ia pensando na mulher do metrô e na beleza feminina, e então me dei conta de algo que me intrigava há bastante tempo. Por que certas mulheres, com traços perfeitos, são tão sem graça? Percebi que a beleza feminina é como as rosas no mistério da sua solidão, e que só podemos senti-la completamente se captamos as mulheres no momento de entrega a elas mesmas.

Em O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, há uma sequência em que numa sala há um homem e duas mulheres. As mulheres parecem não ver o homem. Estão entregues a si mesmas, e são tão lindas que parecem flutuar na tarde. O homem aspira a cena, como um vampiro de luz.

Quando eu tinha 14, 15 anos, e recebi os primeiros beijos, de ninfetas tão lindas como rosas, havia um terremoto no coração, só comparado ao que sinto quando vejo uma mulher nua sentada ao toucador, a escovar os cabelos e a passar no pescoço e no colo fragrâncias de cio, os cabelos esvoaçando no mesmo abandono delas mesmas. Então, mais do que nunca, são como as rosas, que se bastam a si mesmas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Eternidade

Ray Cunha (foto de Iasmim Cunha - 7 de agosto de 2014)


Não consigo mais, durante toda uma noite, aspirar teu perfume
E beber a calidez que emana dos teus seios, e do teu púbis
Não consigo mais passar a noite inteira te amando
Mas isso tudo pulsa no meu coração como a eternidade

Meus cabelos vão rareando, embranquecidos
E os músculos, sem tônus, são cicatrizes
Quedo-me, silencioso, mas intenso como espilantol
Inexpugnável como rosas de agosto

Sinto meu corpo se desvanecer, e se condensar
A 300 mil quilômetros por segundo
Como se do azul eu fosse asas

Exploro as tuas dimensões
E ouço o som da Terra no espaço, durante o mergulho
Deus, risos de crianças, a eternidade, o agora


Meu pai, João Raimundo Cunha, e Ernest Hemingway, talvez o escritor que mais amplamente li, tinham 61 anos quando partiram para o mundo espiritual. Sei como as coisas são nessa idade. Nós três nos encontramos no Quartinho da Casa Amarela, portal onde mortos e vivos confabulam numa festa sem fim. Papa gosta do balcão do bar; papai prefere o quintal. Quanto a mim, curto intensamente tudo o que tenho.

Aos 21 anos, perdi-me, durante décadas, num emaranhado de labirintos, até descobrir que estivera andando em círculos no elemento feminino. Hoje, caminho melhor nesse mergulho, guiado pela experiência da longa caminhada. Meus sentidos, inclusive o sexto, estão encharcados de espilantol. Meu corpo denso começa a desaparecer, e sinto-me flutuando no éter.

Tantas coisas proporcionam-me prazer intenso: ver as pessoas que amo; ouvir o som da Terra no espaço, a madrugada, riso de crianças, Mozart, gemidos da mulher amada, ler, dormir, meditar, andar à toa, especialmente em grandes livrarias, beber tacacá, montar a luz, sentir cheiro de mulher nua. O tempo vai deixando de existir, dilui-se, o passado são cinzas atiradas ao mar, e não há amanhã; só há o agora e o agora eternizando-se.

Erguer universos com palavras, tem sido isso que me sustenta, e que me faz enxergar a nudez das rosas e o mistério que as mulheres exalam, nunca desvendado, porque eterno. Sou dono de tesouros imensos, de valor inestimável, pois desenvolvi a capacidade de sentir o voo da luz, o cheiro mar e o choro dos jasmineiros, nas tórridas noites do mundo, em agosto. Tenho telas de Olivar Cunha e sinto a presença das rosas que Isnard Brandão Lima Filho ofertou para a madrugada. E sou capaz, como um mágico, de aliviar dores com agulhas.

Não desejo mais descobrir ouro no morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene, no estado do Amapá, nem escalar o Pico da Neblina, nem pilotar um Boeing 777, nem praticar kendo, nem saltar de paraquedas, nem de mergulhar no coração das trevas da Amazônia. Basta-me a companhia de Hemingway, ou de Gabriel García Márquez, ou de Vargas Llosa, ou de Graciliano Ramos, ou de Machado de Assis, para viajar por mundos insuspeitos. Ou tomar Cerpinha enevoada no quarto de um hotel, no sétimo andar, ou na hora de ser enforcado ser salvo e dormir com a princesa.

Tudo o que quero é comparecer ao encontro marcado com a mulher amada, criar universos, sentir a noite, como um navio iluminado, embriagar-me com o perfume das virgens ruivas, ouvir o som da madrugada, sentir a presença do mar, do trópico, do sol das oito no rosto, diluir-me no acme e reaparecer no azul.

domingo, 5 de julho de 2015

Papo com Walmir Botelho D’Oliveira

Jornalista Walmir Botelho D'Oliveira e filhos
BRASÍLIA, 5 DE JULHO DE 2015 – Recebemos na confraria um jornalista brilhante: Walmir Botelho D’Oliveira, irmão querido, e mestre. Gabriel García Márquez está batendo altos papos com ele. Walmir foi para o mundo espiritual, ontem, aos 67 anos. Ele foi meu grande mestre no jornalismo, orientou-me na literatura, leitor voraz que era, e deu-me água em momentos de desesperança. Protegeu-me, estendeu-me as mãos nos meus voos cegos na caminhada. Conheci-o em Macapá, minha cidade natal; eu tinha 17 anos e ele já era um gênio, e se casou com uma ninfeta linda, minha amiga para sempre, Deury Farias. Depois, em Belém, trabalhei junto com ele e Octávio Ribeiro, o Pena Branca, em O Estado do Pará, e depois, em Brasília, no Correio do Brasil e no BSB Brasil, do Oliveira Bastos; e de volta a Belém, em O Liberal, em 1996/1997. Seu texto era impecável, e será sempre um farol nas minhas incursões jornalísticas. Cansamos de beber a noite toda, até o sol surgir, e de bater papo durante horas. Falávamos sobre literatura, mulheres, bebida, jornalismo, sobre tudo, e não cansávamos de voltar a conversar sobre todas essas coisas. Walmir amava a intensidade, a luz, o azul, não tinha apego a nada, nem ambicionava nada. Belém perdeu um pouco da sua graça sem Walmir. Em compensação, o Quartinho da Casa Amarela, que é na verdade o portal da confraria, está em ebulição, numa festa que não acaba nunca.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Estante comercial de jornalistas-escritores no SJPDF tem três livros de contos de Ray Cunha


MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 1 DE JULHO DE 2015 – O escritor e jornalista amazônida, natural do estado do Amapá e que vive em Brasília, Ray Cunha, está com três livros na recém-inaugurada estante dos jornalistas-escritores, no hall de entrada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), localizado no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora – atual Libri Editorial –, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 30); TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30); e O CASULO EXPOSTO (LGE Editora – atual LibriEditorial –, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 30).

Segundo o Sindicato, a estante é uma das ações que compõe o Projeto Jornalistas- Escritores, lançado em junho pelo SJPDF. “A iniciativa congrega uma série de ações que visam incentivar a divulgação dos livros escritos por jornalistas e a participação em feiras do setor, bem como monitorar os profissionais da área com informações pertinentes sobre a organização, elaboração e publicação de um livro” – diz matéria publicada no site do SJPDF, que firmou parceria com o Sindicato dos Escritores. “Ambas as instituições têm o intuito não só de divulgar as obras, mas também de realizar atividades conjuntas, como é o caso da realização de eventos. A oficina Como Fazer o Seu Livro, que deverá ocorrer ainda neste mês, é outro exemplo de atividade integrada proposta pelos dois sindicatos. O evento visa expor para os jornalistas-escritores os principais passos para organizar, escrever e publicar um livro.” LEIA MAIS sobre a estante dos jornalistas- escritores

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU fecha a trilogia que começou com A GRANDE FARRA (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS, e que tem como espinha dorsal tanto o Inferno Verde quanto as metrópoles da Hileia. O livro reúne 14 histórias curtas ambientadas em Belém, personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará).

Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar de que a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – observa o escritor.

Trata-se de uma tomografia da Amazônia. “O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha.

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de Na Boca do Jacaré-Açu, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.

Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu.

PING-PONG COM RAY CUNHA – Como e por que você escolheu o título NA BOCA DO JACARÉ-AÇU?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É está à venda também na Livraria Cultura CasaPark e na Libri Editorial, pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, telefone: (55-61) 3362-0008, ou na editora, no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430.

Veja entrevista de Ray Cunha ao programa Tirando de Letra, da UnB TV, sobre NA BOCA DO JACARÉ-AÇU


TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – O segundo livro da trilogia Amazônia reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó. Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário rio Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca. A Grande Farra narra peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

Em artigo sobre TRÓPICO ÚMIDO, o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras, na TV Senado, diz o seguinte: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi.”

O CASULO EXPOSTO – Ray Cunha trabalhou como repórter em Brasília durante mais de duas décadas, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que lhe proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que lhe serviu para criar as personagens e o cenário das 17 histórias curtas ambientados no Distrito Federal, que compõem O CASULO EXPOSTO, “uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra” – assim Ray Cunha define o livro.

Novamente Maurício Melo Júnior, que prefaciou O CASULO EXPOSTO: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

O CASULO EXPOSTO está à venda na Livraria Leitura do Conjunto Nacional de Brasília, além da Libri Editorial, pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, telefone: (55-61) 3362-0008, ou na editora, no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430.

RAY CUNHA POR RAY CUNHA – “Sou caboco (sic) de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde, além de trabalhar como jornalista freelance, é aluno do curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (Enac).

HIENA E A CONFRARIA CABANAGEM – Dois romances do autor estão à venda na Amazom.com e no Clube de Autores: HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM. Em HIENA, senador é encontrado morto, degolado com uma katana, a espada samurai, no luxuoso Tropical Hotel, no centro de Brasília, frequentado por políticos e prostitutas esculturais. A viúva do senador contrata o detetive Hiena para encontrar a agenda do parlamentar, um livro de capa preta, com nomes e contas em paraísos fiscais de um esquema que atinge toda a cúpula do governo. Dias depois, no mesmo hotel, some uma superagente da Polícia Federal. Ao investigar o caso, Hiena faz a maior descoberta da sua vida. O thriller é ambientado numa Brasília com o charme da arquitetura de Oscar Niemeyer, e nele transitam personagens reais, como o maestro Silvio Barbato e os pintores André Cerino e Olivar Cunha.

HIENA poderá ser adquirido na Amazom.com


Em a CONFRARIA CABANAGEM, a capital do estado do Pará, Belém, está imersa em corrupção, e para a misteriosa Confraria Cabanagem só o senador Fonteles, candidato ao governo, é capaz de acabar com a sangria, mas descobre um complô para assassiná-lo num crime perfeito. Assim, contrata o único homem capaz de impedir que eliminem o senador Fonteles: o detetive Apolo Brito, ex-delegado da Polícia Civil do Pará, e que atualmente mora em Brasília. Neste romance ensaístico emerge a Amazônia profunda e personalidades de carne e osso, como o jornalista Lúcio Flávio Pinto, misturam-se a personagens de ficção.

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*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília