quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Estarei autografando três livros na Livraria Cultura CasaPark e no Sindicato dos Jornalistas

BRASÍLIA, 26 DE FEVEREIRO DE 2015 – Estarei autografando o livro de contos NA BOCA DOJACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25) na Livraria Cultura CasaPark, quinta-feira 5 de março, às 20 horas, juntamente com outros escritores de Brasília e de várias regiões do país, durante desfile de moda em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, dentro do projeto Vestindo Cultura, realizado pelo o grupo Mulheres de Sucesso.

Dia 25 de abril, um sábado, estarei autografando o dia todo no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (Setor Gráfico, Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura) três livros: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30) e O CASULO EXPOSTO (LGE Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 30).

Será um dia especial no Sindicato dos Jornalistas, que começará com café da manhã, seguido de bate papo com o diretor da Escola Nacional deAcupuntura (Enac), Ricardo Antunes, sobre medicina tradicional chinesa, em especial, acupuntura, o que é e quem pode atender em acupuntura, mitos e verdades sobre essa terapia, cada vez mais difundida e respeitada no Ocidente. Seguir-se-á, de manhã e à tarde, atendimento gratuito em acupuntura, auriculoterapia e massagens.

Será cumprida intensa pauta cultural, apresentando a produção de jornalistas que são, também, artistas, com o autógrafo de livros, exposição de artes plásticas e apresentação musical.


NA BOCA DO JACARÉ-AÇU está à venda na Livraria Cultura CasaPark

O CASULO EXPOSTO está à venda na Livraria Leitura do Conjunto Nacional de Brasília

TRÓPICO ÚMIDO deve ser pedido para: raycunha@gmail.com

HIENA (romance) está à venda no Clube de Autores e na Amazom.com

A CONFRARIA CABANAGEM (romance) está à venda no Clube de Autores e na Amazom.com

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Amazônia em homenagem à Mulher


Ray Cunha festeja o lançamento do livro NA BOCA DO JACARÉ-AÇU
no ateliê do artista plástico André Cerino, em foto feita pelo pintor,
em dezembro de 2013. Pugilista amador na juventude, Ray Cunha
compara seu último livro de contos, que fecha uma trilogia, ao
terceiro round numa luta de boxe, com decisão por nocaute

Por MARCELO LARROYED*

BRASÍLIA, 23 DE FEVEREIRO DE 2015 – Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher o grupo Mulheres de Sucesso e a Livraria Cultura CasaPark realizarão o projeto Vestindo Cultura, dia 5 de março (quinta-feira), a partir das 18 horas, com desfile temático de moda baseado em trabalhos de escritores de Brasília, entre os quais Ray Cunha, que estará autografando, às 20 horas, o livro de contos NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 25).

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU fecha a trilogia que começou com A GRANDE FARRA (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30), e que tem como espinha dorsal tanto o Inferno Verde quanto as metrópoles da Hileia. O livro reúne 14 histórias curtas ambientadas em Belém, personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará).

Trata-se de uma tomografia da Amazônia. “O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha.

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de Na Boca do Jacaré-Açu, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.
Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu.

PING-PONG COM RAY CUNHAComo e por que você escolheu o título NA BOCA DO JACARÉ-AÇU?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

*MARCELO LARROYED é mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília e autor, entre outros livros, do romance ECO


SERVIÇO
NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É está à venda na Ler Editora, pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br

Ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008

SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430

Veja entrevista de Ray Cunha ao programa Tirando de Letra, da UnB TV, sobre NA BOCA DO JACARÉ-AÇU

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Conto/A REDE

Durante o dia, a umidade relativa do ar caía para 11% e a sensação térmica ficava acima de 40 graus centígrados; agora, no início daquela madrugada de domingo, a temperatura estava bastante agradável no Fran’s Café – na Quadra 302, Bloco C, Edifício Athenas, no Sudoeste, bairro chique de Brasília –, aberto 24 horas por dia. O jornalista consultou sua caderneta Tilibra, tipo Moleskine. Já estivera em Uruaçu (GO), hospedara-se durante alguns dias nos hotéis Itajubá e Rio Vermelho, em Goiânia, e passara uma semana no Meliá Brasil 21. A jovem com quem se encontraria dali a pouco era o elo que faltava para concluir a reportagem. Pensava nisso quando seu telefone celular emitiu os primeiros acordes de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven. Era ela. Pagou o espresso que tomara e seguiu para um prédio distante cerca de 200 metros dali. Disse ao porteiro aonde ia. Subiu pelo elevador e desceu no primeiro andar. Ela trajava uma camisola vermelha, tinha quadris largos e seios empinados, pele rosada, olhos verdes, duas grandes esmeraldas, e lábios que lembravam os de Alinne Moraes. Parecia medir 1,60 metro e pesar 55 quilos.

– Você bebe o quê? – ela perguntou ao jornalista, que se sentara numa poltrona.

– Não vou beber nada – ele respondeu, tirando da bolsa um pequeno gravador.

A jovem havia se sentado à frente dele e cruzado as pernas.

“É linda demais” – pensou o jornalista.

Era em torno de 8 horas quando ele deixou o apartamento. O porteiro olhou-o com inveja. Caminhou até o Fran’s e pediu café com leite e uma baguete tostada com manteiga. Depois, foi a uma banca ali perto e comprou a revista Veja e o jornal O Globo e se dirigiu para seu carro, um Gol vermelho, estacionado na extremidade leste da quadra. Na entrada da confeitaria Pão de Ouro havia uma dupla de mendigos. Passou por eles, desejando-lhes boa sorte, para desencanto de ambos. O carro estava estacionado próximo de um monturo. Centenas de pombos fervilhavam ali; havia até um gavião, que, solene, bicava alguma coisa presa numa de suas garras. Quando pôs o carro para funcionar os ratos de asas pararam um segundo e logo voltaram a fervilhar, como formigueiro assanhado. Reinaldo pôs o carro em marcha e minutos depois tomou o Eixo Monumental. Passou defronte à Câmara Legislativa, “o albergue dos parasitas”, e logo alcançou a Esplanada dos Ministérios, com as bacias do Congresso Nacional destacando-se ao fundo. Cruzou o Lago Paranoá pela ponte Juscelino Kubitschek. “O sol já está a ponto de matar europeu sem protetor solar e chapéu” – pensou. “A bacanal de alguns príncipes do Congresso Nacional, empresários, diplomatas e turistas libidinosos vindos do frio vai sofrer um abalo, a partir de quarta-feira, quando o Observador de Brasília chegar às bancas. Brasília vai pegar fogo.”

Só prestou atenção à moto quando ela já estava ao lado da sua janela. O carona disparou duas vezes. O carro entrou no cerrado e parou logo adiante. O que atirou correu até lá, pegou a bolsa do jornalista e deu mais dois tiros na cabeça dele.

Vistos ao longe, as casas e o comércio do Lago Sul, margeando ruas vazias, entre as escarpas, dormiam, indiferentes, ao sol.


Brasília, 19 de março de 2013

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Macapá

Macapá, dividida pela Linha Imaginária do Equador e quase na boca do rio
Amazonas, o maior do planeta, na Amazônia Caribenha. A cidade do meio do
mundo, porta de entrada para o Caribe, comemora, hoje, 257 anos. A foto, de
Caio Gato, é um flagrante de tromba d'água no inverno amazônico de 2014

BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2015 
– Macapá é uma miragem que vai se materializando na medida em que o sol, gigantesca bola de ouro do outro lado do Canal do Norte, na cabeceira da Linha Imaginária do Equador, começa a se levantar, e, de repente, como mulher que emerge do mergulho, respingando água, mostra-se toda nua. À beira-rio, e no início da BR-156, sente-se o tumor latejando. A população avança natureza adentro, sem contar com nenhum metro de rede de esgoto. Macapá é uma cidade ribeirinha emblemática. Seu nome vem do tupi macapaba, lugar de muitas bacabeiras, palmeira nativa da região, de fruto, a bacaba, gerador de suco delicioso, quase tanto quanto açaí, este, de grande significado para os amapaenses, que já foram paraenses, pois o estado do Amapá é um naco da antiga Província do Grão-Pará, e os parauaras são os mais ávidos tomadores de açaí da face da Terra.

Assaltados pela sede mais desmedida de ambição, os espanhóis, que instalaram no continente ibero-americano uma aristocracia escravocrata e medieval, que os portugueses potencializaram até a loucura, sondaram o setentrião da Amazônia Azul antes de Pedro Álvares Cabral, de modo que em 1544, Carlos V de Espanha sentiu-se à vontade para chamar aquelas paragens de Adelantado de Nueva Andaluzia, ao conceder a província ao navegador espanhol Francisco de Orellana, que, cego pela ambição, vagou pela Amazônia em busca da cidade de ouro, El Dorado, mas, como seus colegas, foi vencido pelo Inferno Verde.

Em 1738, colonos portugueses instalaram, ali, um destacamento militar, a Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral, onde, em 4 de fevereiro de 1758, foi levantado o Pelourinho, um dos símbolos do implacável poder lusitano, na presença do capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundando-se a Vila de São José de Macapá e selando-se o fim da nação que dominava aquela beirada de rio, o povo tucuju, do tupi tucumã, também palmeira natural da Amazônia, de frutos doces e oleosos, matéria-prima para vinho, licor e mingau.

Em 1764, Portugal deu uma demonstração do seu poderio na Amazônia, iniciando a construção de projeto do engenheiro italiano Henrique Antônio Gallúcio, a Fortaleza de São José de Macapá, concluída 18 anos depois, no ano de 1782, alicerçando a Vila de São José de Macapá, da qual se tornou baluarte e cartão postal, encravado na frente do Canal do Norte, a cerca de 200 quilômetros da boca do Amazonas, quando o rio despeja pelo menos 200 mil metros cúbicos de água túrbida de húmus no oceano Atlântico, por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías de Guanabara em um dia; em média, verte 400 mil metros cúbicos de água por segundo, chegando, portanto, a derramar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar, além de espantosos 3 milhões de toneladas de sedimento, por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo.

A boca do rio, escancarando-se do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias e, juntamente com outros gigantes do Pará e Amapá, fertiliza o Atlântico com cerca de 20% da água doce de superfície da Terra, contribuindo para que a costa do Amapá e do Pará sejam as mais ricas do planeta em todo tipo de criatura do mar, especialmente a costa amapaense, pois o húmus despejado pelo Mar Doce no Atlântico torna a Amazônia Azul setentrional uma explosão de vida marinha, seu ponto mais esplendoroso, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia.

Enquanto os tucujus se tornaram símbolo de um tempo antigo, espanhóis e portugueses legaram os tempos heroicos, e persistentes, de colonos e colonizados, o drama que perpassa a Ibero-América, a tragédia da Amazônia. A construção da Fortaleza por meio do trabalho escravo de negros e índios foi o cadinho em que se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, e todos unidos pelo sotaque caboco, a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela, isso e a seminudez dos habitantes do Trópico Úmido, que, antes de ser sensual, é inocente, como o olhar da mulher amazônida, espilantol se espalhando nas papilas gustativas da alma, o embalar de rede no rio da tarde, o choro dos jasmineiros noturnos.

Ao olhar superficial do leigo, que acidentalmente caiu na Amazônia, a Hileia lhe parecerá o Inferno Verde, onde encurtará sua vida, devorado por microrganismos e insetos, ou torrado pelo sol equatorial, ou afogado pela água, não do Mar Doce, mas em estado gasoso, nos 100% da umidade relativa do ar. Assim, o incauto será corrido daquelas paragens, grávido da antiga ideia dos colonos – agora, os governos que se sucedem em Brasília, paulistanos, americanos, japoneses e os europeus de sempre –, de que a Amazônia só serve para três fins: construção de hidrelétricas; extração de madeira e mineral; e reserva de caça, pesca e escravos, especialmente para o pugilato do sexo, além da crença de que os rios são esgotos naturais. Esse pensamento assenta-se na crença de que os colonos são deuses e os colonizados, seres inferiores, que existem para servir aos sangues-azuis; razão pela qual o Trópico Úmido ferve no ventre das trevas. Já ao escrutínio do iniciado, desvanecem-se as brumas da cegueira e começa-se a enxergar com o terceiro olho; então, surge o paraíso no coração das trevas.