segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Conto/A REDE

Durante o dia, a umidade relativa do ar caía para 11% e a sensação térmica ficava acima de 40 graus centígrados; agora, no início daquela madrugada de domingo, a temperatura estava bastante agradável no Fran’s Café – na Quadra 302, Bloco C, Edifício Athenas, no Sudoeste, bairro chique de Brasília –, aberto 24 horas por dia. O jornalista consultou sua caderneta Tilibra, tipo Moleskine. Já estivera em Uruaçu (GO), hospedara-se durante alguns dias nos hotéis Itajubá e Rio Vermelho, em Goiânia, e passara uma semana no Meliá Brasil 21. A jovem com quem se encontraria dali a pouco era o elo que faltava para concluir a reportagem. Pensava nisso quando seu telefone celular emitiu os primeiros acordes de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven. Era ela. Pagou o espresso que tomara e seguiu para um prédio distante cerca de 200 metros dali. Disse ao porteiro aonde ia. Subiu pelo elevador e desceu no primeiro andar. Ela trajava uma camisola vermelha, tinha quadris largos e seios empinados, pele rosada, olhos verdes, duas grandes esmeraldas, e lábios que lembravam os de Alinne Moraes. Parecia medir 1,60 metro e pesar 55 quilos.

– Você bebe o quê? – ela perguntou ao jornalista, que se sentara numa poltrona.

– Não vou beber nada – ele respondeu, tirando da bolsa um pequeno gravador.

A jovem havia se sentado à frente dele e cruzado as pernas.

“É linda demais” – pensou o jornalista.

Era em torno de 8 horas quando ele deixou o apartamento. O porteiro olhou-o com inveja. Caminhou até o Fran’s e pediu café com leite e uma baguete tostada com manteiga. Depois, foi a uma banca ali perto e comprou a revista Veja e o jornal O Globo e se dirigiu para seu carro, um Gol vermelho, estacionado na extremidade leste da quadra. Na entrada da confeitaria Pão de Ouro havia uma dupla de mendigos. Passou por eles, desejando-lhes boa sorte, para desencanto de ambos. O carro estava estacionado próximo de um monturo. Centenas de pombos fervilhavam ali; havia até um gavião, que, solene, bicava alguma coisa presa numa de suas garras. Quando pôs o carro para funcionar os ratos de asas pararam um segundo e logo voltaram a fervilhar, como formigueiro assanhado. Reinaldo pôs o carro em marcha e minutos depois tomou o Eixo Monumental. Passou defronte à Câmara Legislativa, “o albergue dos parasitas”, e logo alcançou a Esplanada dos Ministérios, com as bacias do Congresso Nacional destacando-se ao fundo. Cruzou o Lago Paranoá pela ponte Juscelino Kubitschek. “O sol já está a ponto de matar europeu sem protetor solar e chapéu” – pensou. “A bacanal de alguns príncipes do Congresso Nacional, empresários, diplomatas e turistas libidinosos vindos do frio vai sofrer um abalo, a partir de quarta-feira, quando o Observador de Brasília chegar às bancas. Brasília vai pegar fogo.”

Só prestou atenção à moto quando ela já estava ao lado da sua janela. O carona disparou duas vezes. O carro entrou no cerrado e parou logo adiante. O que atirou correu até lá, pegou a bolsa do jornalista e deu mais dois tiros na cabeça dele.

Vistos ao longe, as casas e o comércio do Lago Sul, margeando ruas vazias, entre as escarpas, dormiam, indiferentes, ao sol.


Brasília, 19 de março de 2013

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Macapá

Macapá, dividida pela Linha Imaginária do Equador e quase na boca do rio
Amazonas, o maior do planeta, na Amazônia Caribenha. A cidade do meio do
mundo, porta de entrada para o Caribe, comemora, hoje, 257 anos. A foto, de
Caio Gato, é um flagrante de tromba d'água no inverno amazônico de 2014

BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2015 
– Macapá é uma miragem que vai se materializando na medida em que o sol, gigantesca bola de ouro do outro lado do Canal do Norte, na cabeceira da Linha Imaginária do Equador, começa a se levantar, e, de repente, como mulher que emerge do mergulho, respingando água, mostra-se toda nua. À beira-rio, e no início da BR-156, sente-se o tumor latejando. A população avança natureza adentro, sem contar com nenhum metro de rede de esgoto. Macapá é uma cidade ribeirinha emblemática. Seu nome vem do tupi macapaba, lugar de muitas bacabeiras, palmeira nativa da região, de fruto, a bacaba, gerador de suco delicioso, quase tanto quanto açaí, este, de grande significado para os amapaenses, que já foram paraenses, pois o estado do Amapá é um naco da antiga Província do Grão-Pará, e os parauaras são os mais ávidos tomadores de açaí da face da Terra.

Assaltados pela sede mais desmedida de ambição, os espanhóis, que instalaram no continente ibero-americano uma aristocracia escravocrata e medieval, que os portugueses potencializaram até a loucura, sondaram o setentrião da Amazônia Azul antes de Pedro Álvares Cabral, de modo que em 1544, Carlos V de Espanha sentiu-se à vontade para chamar aquelas paragens de Adelantado de Nueva Andaluzia, ao conceder a província ao navegador espanhol Francisco de Orellana, que, cego pela ambição, vagou pela Amazônia em busca da cidade de ouro, El Dorado, mas, como seus colegas, foi vencido pelo Inferno Verde.

Em 1738, colonos portugueses instalaram, ali, um destacamento militar, a Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral, onde, em 4 de fevereiro de 1758, foi levantado o Pelourinho, um dos símbolos do implacável poder lusitano, na presença do capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundando-se a Vila de São José de Macapá e selando-se o fim da nação que dominava aquela beirada de rio, o povo tucuju, do tupi tucumã, também palmeira natural da Amazônia, de frutos doces e oleosos, matéria-prima para vinho, licor e mingau.

Em 1764, Portugal deu uma demonstração do seu poderio na Amazônia, iniciando a construção de projeto do engenheiro italiano Henrique Antônio Gallúcio, a Fortaleza de São José de Macapá, concluída 18 anos depois, no ano de 1782, alicerçando a Vila de São José de Macapá, da qual se tornou baluarte e cartão postal, encravado na frente do Canal do Norte, a cerca de 200 quilômetros da boca do Amazonas, quando o rio despeja pelo menos 200 mil metros cúbicos de água túrbida de húmus no oceano Atlântico, por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías de Guanabara em um dia; em média, verte 400 mil metros cúbicos de água por segundo, chegando, portanto, a derramar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar, além de espantosos 3 milhões de toneladas de sedimento, por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo.

A boca do rio, escancarando-se do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias e, juntamente com outros gigantes do Pará e Amapá, fertiliza o Atlântico com cerca de 20% da água doce de superfície da Terra, contribuindo para que a costa do Amapá e do Pará sejam as mais ricas do planeta em todo tipo de criatura do mar, especialmente a costa amapaense, pois o húmus despejado pelo Mar Doce no Atlântico torna a Amazônia Azul setentrional uma explosão de vida marinha, seu ponto mais esplendoroso, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia.

Enquanto os tucujus se tornaram símbolo de um tempo antigo, espanhóis e portugueses legaram os tempos heroicos, e persistentes, de colonos e colonizados, o drama que perpassa a Ibero-América, a tragédia da Amazônia. A construção da Fortaleza por meio do trabalho escravo de negros e índios foi o cadinho em que se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, e todos unidos pelo sotaque caboco, a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela, isso e a seminudez dos habitantes do Trópico Úmido, que, antes de ser sensual, é inocente, como o olhar da mulher amazônida, espilantol se espalhando nas papilas gustativas da alma, o embalar de rede no rio da tarde, o choro dos jasmineiros noturnos.

Ao olhar superficial do leigo, que acidentalmente caiu na Amazônia, a Hileia lhe parecerá o Inferno Verde, onde encurtará sua vida, devorado por microrganismos e insetos, ou torrado pelo sol equatorial, ou afogado pela água, não do Mar Doce, mas em estado gasoso, nos 100% da umidade relativa do ar. Assim, o incauto será corrido daquelas paragens, grávido da antiga ideia dos colonos – agora, os governos que se sucedem em Brasília, paulistanos, americanos, japoneses e os europeus de sempre –, de que a Amazônia só serve para três fins: construção de hidrelétricas; extração de madeira e mineral; e reserva de caça, pesca e escravos, especialmente para o pugilato do sexo, além da crença de que os rios são esgotos naturais. Esse pensamento assenta-se na crença de que os colonos são deuses e os colonizados, seres inferiores, que existem para servir aos sangues-azuis; razão pela qual o Trópico Úmido ferve no ventre das trevas. Já ao escrutínio do iniciado, desvanecem-se as brumas da cegueira e começa-se a enxergar com o terceiro olho; então, surge o paraíso no coração das trevas.