quinta-feira, 30 de abril de 2015

A eutanásia de cada um de nós

É outono em Brasília, e chove. Tem chovido todos os dias, como se ainda estivéssemos no verão. Os dias amanhecem frios, aquele frio dos trópicos, e entardecem nublados. A cidade é a mesma de sempre, parece que foi bombardeada: ruas esburacadas, calçadas estouradas e mato. O matagal cresce com vigor amazônico, chegando até o passeio público, cobrindo as rotas calçadas e invadindo nossa alma, deixando-nos um travo sutil, ao atingir um nervo exposto do corpo etérico. O ex-governador Agnelo Queiroz, que não logrou reeleger-se, deixou para o sucessor um atoleiro. Até hoje, Rodrigo Rollemberg lembra um pugilista que tomou uma saraivada de jabs e no intervalo entre um round e outro é animado pelo seu staff, que o abana, refresca-lhe a cabeça e lhe dá curtos goles de água. Agnelo, que ficou conhecido como Agnulo, homiziou-se na Argentina, deixando para trás a “cidade mais moderna do mundo” mais sucateada do que nunca.

Brasília é um três por quatro do Brasil, especialmente a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios. A sensação que se tem é a de Alice no País das Maravilhas. Há uma mulher, com nome de homem, Lula Rousseff, cleptomaníaca e megalomaníaca. Não se interessa por milhões de reais, mas por bilhões. Seca facilmente uma garrafa de 51, na intimidade, e exibe, aos capangas, Romanée Conti. É o capo di tutti i capi. A impressão que se tem é de que o povo brasileiro gosta de ser assaltado. Por exemplo: Jeca Sarney, o maior patrimonialista do Brasil, e que inclusive anexou o Amapá ao Maranhão, com a ajuda dos próprios amapaenses, é claro, assalta o país há mais de meio século, da mesma forma que o urubu velho Fidel Castro, e agora o zumbi Hugo Chávez Maduro, chupa o tutano de cubanos e venezuelanos. No Congresso Nacional, os políticos gargalham, nas suas bacanais.

Continuo frequentando o Conjunto Nacional, e a tomar o espresso do Café Doce Café. Robusta. O passa-passa é agora mais agitado e as mulheres ainda mais bonitas. Já notei que as mulheres são sempre mais belas, tão lindas que parecem nuas. Quase toda semana passo na Livraria Saraiva para ler a Veja. Sobre mim, um alto falante toca música americana da atualidade; guinchos. Costumo passar também na Livraria Leitura, onde, com um pouco de sorte, ouvimos até concertos. Nesses meus passeios, folheio livros que ambiciono ler, mas que ainda não chegou o momento de fazê-lo; observo-lhes o número de páginas, leio o início, ou alguma coisa sobre o autor, aprecio a edição como um todo, e fico imaginando como será bom ver um livro de minha autoria em edição tão primorosa. Outro dia, fui premiado com duas descobertas. Lendo o início de O Jardineiro Fiel, de John le Carré, percebi que a literatura classe A é sempre uma teia, e nunca um fio, como o jornalismo. E folheando Na Outra Margem da Memória, autobiografia de Vladimir Nabokov, percebi que o escritor de primeira categoria tem, sempre, um pé na dimensão do espírito.

Frequento também a Escola Nacional de Acupuntura (Enac), uma portinha no Bloco A da 404 Sul, onde faço o curso de Medicina Tradicional Chinesa. Lá, é uma universidade por definição, um centro de debates, um corredor de opiniões. Certa vez, ouvi de alguém que uma pessoa muito doente deve morrer, deixar-se matar, ou matar-se, para não exaurir seus familiares; uma exaltação à teoria de Charles Darwin, contribuindo, assim, para a evolução da humanidade, numa comprovação ao delírio ariano de Adolf Hitler. Mas há sempre as luzes de alguns mestres no corredor, equilibrando as opiniões que resvalam para o caos, como numa dança de yin e yang na espiral.

A propósito, a eutanásia pode significar uma zona de conforto para os que ficam, mas não haveria um propósito em deteriorar-se em cima de uma cama durante anos, dependendo dos outros para tudo? Há mais mistério entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia, como disse William Shakespeare. Creio que haja sempre um propósito em tudo, e que cabe a cada qual descobrir isso; cabe a cada um descobrir sua missão. Talvez o grande entrave de um candidato a terapeuta seja a dimensão física. E esse nó somente será desfeito quando ele descobrir que o plano físico é nada mais do que uma ilusão, semelhante ao mundo virtual do inseparável celular.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Ray Cunha autografa três livros durante dia de arte e acupuntura no Sindicato dos Jornalistas


Por MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 20 DE ABRIL DE 2015  O jornalista e escritor Ray Cunha autografará três livros no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), no Setor Gráfico, Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura,  neste sábado 25, durante um dia de congraçamento de jornalistas, familiares, amigos e convidados, com atividades artísticas e atendimento gratuito em acupuntura e massagens terapêuticas. O escritor estará autografando os livros: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 30); TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30); e O CASULO EXPOSTO (LGE Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 30).

Será um dia especial no Sindicato dos Jornalistas, que começará com café da manhã, seguido de bate papo com o diretor da EscolaNacional de Acupuntura (Enac), Ricardo Antunes, sobre medicina tradicional chinesa, em especial, acupuntura, o que é e quem pode atender em acupuntura, mitos e verdades sobre essa terapia, cada vez mais difundida e respeitada no Ocidente. Seguir-se-á, de manhã e à tarde, intensa pauta cultural, apresentando a produção de jornalistas que são, também, artistas, com o autógrafo de livros, exposição de artes plásticas e apresentação musical, além de atendimento gratuito em acupuntura, auriculoterapia e massagens terapêuticas.

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É – Trata-se do terceiro volume da trilogia de contos que começou com A GRANDE FARRA (edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotada) e prosseguiu com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS. A espinha dorsal da trilogia é a Amazônia, tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva. O livro enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, que acaba sendo personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará).

Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar de que a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – observa o escritor.


TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – O segundo livro da trilogia Amazônia reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó. Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário rio Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca. A Grande Farra narra peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

Em artigo sobre TRÓPICO ÚMIDO, o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras, na TV Senado, diz o seguinte: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi.”


O CASULO EXPOSTO – Ray Cunha trabalhou como repórter em Brasília durante mais de duas décadas, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que lhe proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que lhe serviu para criar as personagens e o cenário das 17 histórias curtas ambientados no Distrito Federal, que compõem O CASULO EXPOSTO, “uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra” – assim Ray Cunha define O CASULO EXPOSTO.

Novamente Maurício Melo Júnior, que prefaciou O CASULO EXPOSTO: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

RAY CUNHA POR RAY CUNHA – “Sou caboco (sic) de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde, além de trabalhar como jornalista freelance, é aluno do curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (Enac). Seus livros disponíveis no mercado são:

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É – À venda na Livraria Cultura CasaPark.

Pedidos ao editor: Pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br; ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008; ou diretamente na Ler Editora: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF - CEP 70610-430.

O CASULO EXPOSTO – À venda na Livraria Leitura do Conjunto Nacional de Brasília.

Pedidos ao editor: Pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br; ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008; ou diretamente na Ler Editora: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF - CEP 70610-430.

TRÓPICO ÚMIDO – Pedidos para: raycunha@gmail.com

HIENA (romance) – Pedidos para: Clube de Autores e Amazom.com

A CONFRARIA CABANAGEM (romance) – Pedidos para: Clube de Autores e Amazom.com


*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em língua portuguesa




quarta-feira, 15 de abril de 2015

CONTO/Planalto em chamas

Assim que foi absolvido na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados abriu um grande sorriso e elevou a mão direita fechada, como fazia Pelé. A diferença é que Pelé é o maior atleta de todos os tempos, e não deverá ultrapassado. Ao passo que o braço peludo do deputado corpulento e branco, quase albino, remetia à pata de um porco Yorkshire. O gesto continha alguma coisa indecente. Os “trouxas”, como ele chamava a todos que não fossem da organização a qual pertencia, iludiram-se pensando que o pegariam com míseros R$ 10 mil. Fora flagrado com um depósito de R$ 10 mil na sua conta bancária, feito por um dos operadores da sangria na Petrobras. A oposição – aquilo era oposição, mesmo? – fez a maior grita e ele teve que enfrentar, enfrentar não, apenas teve que passar por aquele tédio, que era a encenação da Comissão de Ética. Não havia o que temer, o país estava todo aparelhado; os três poderes, inclusive as Forças Armadas, que já estavam beijando as mãos do presidente da República e do ministro da Defesa. O Supremo, a Receita, o BNDES, tudo estava aparelhado. Temer o quê? O poder, especialmente o poder de esmagar quem atravessasse seu caminho, excitava-o. Lembrou-se da sua sobrinha, gostosa que só ela, 17 anos. Seu irmão caipira enviara-a para fazer o vestibular na UnB. Sua esposa teve que passar uma semana fora, ele dispensou a empregada e no primeiro dia sozinho com a sobrinha imobilizou-a e em meio a uma tonelada de “não, titio” e a estuprou durante aquela semana inteira, deixando bem claro que se desse com a língua nos dentes seria morta. Simples assim. Quando a esposa do Yorkshire chegou, a menina disse que precisava ir à sua casa, conseguiu dinheiro, foi-se embora e, em casa, se matou. Ironia, havia furtado o revólver do bicho e se matou com ele. Ficou por isso mesmo, pois ela não deixou um bilhete sequer, mas somente o revólver. E depois ele era da cúpula da organização, pois o projeto para calar a imprensa não era dele, tanto o que tramitava na Câmara quanto o de calar a boca da mídia por meio de verba pública? “A esmagadora maioria dos jornalistas, especialmente donos de empresas jornalísticas, é de putas, daquelas que chupam durante três horas seguidas e ainda perguntam se estão chupando direito” – dizia. Chegava a Brasília terça-feira à tarde e retornava para São Paulo quinta-feira à noite. Às quintas-feiras à tarde já só ficavam ele e o chefe de gabinete. Estavam os dois, lá, e o Yorkshire começara a arrumar sua maleta. Era uma maleta especial. Embutidos no seu couro, o porco traficava, a cada saída de Brasília, US$ 10 mil, em cédulas de US$ 1 mil, lavados na agência de publicidade do seu cunhado, em São Paulo.

Os três estudantes chegaram por volta das 14 horas, pela entrada do Senado. A segurança, uma senhora de nariz empinado, olhou suas carteiras de identidade e perguntou a cada um deles aonde iam. À biblioteca, responderam. Passaram pelo detector de metais, sempre sob o olhar vigilante do magote de seguranças, que pareciam se esforçar para parecerem policiais de verdade, e foram diretamente para a Câmara, tomaram a esteira rolante para o Anexo IV e pouco depois entraram no corredor do pavimento onde ficava o gabinete do deputado Yorkshire. Quase não havia movimento naquela hora. Um deles se atrasou e ficou num ponto de onde podia ver o hall e o corredor. Os outros dois foram entrando no gabinete. Enquanto um cumprimentava o chefe de gabinete e desferia-lhe, com a mão esquerda, forte pancada na nuca, o outro estava prestes a fazer a mesma coisa com o deputado. Corpulento, com pescoço de touro, o Yorkshire ficou apenas tonto, mas quando ia reagir recebeu tremenda estocada de caneta Bic na glote e começou a estrebuchar. Lembrava porco morto na roça; depois de uma porretada na cabeça leva uma peixeirada no pescoço. Ele se levantou, guinchando pela glote, derrubou tudo ao seu redor, recebeu um telefone nas orelhas e desabou na sua grande mesa, sempre guinchando, até ficar quieto. O assassino tirou da sua mochila uma faixa e a abriu sobre a mesa, na frente do cadáver, que se tornara ainda mais monstruoso. A faixa dizia: “Comando de Caça aos Corruptos. Este canalha é o primeiro de muitos que irão tombar!” Quando o assassino saiu da sala do deputado o chefe de gabinete começava a recobrar os sentidos, então o atingiu no bulbo occipital, próximo ao nervo vago; quem conhece acupuntura sabe que se trata do ponto da viúva, o VG-15.

Ligaram para o que ficara no corredor. Tudo tranquilo. Tomaram novamente as escadas e saíram pela portaria do Anexo IV, onde um automóvel negro já os aguardava. Dentro do carro tiraram as perucas, barbichas e óculos escuros. Estavam na faixa dos 30 anos. O do volante parecia ter o dobro da idade deles. Dobraram no túnel do Itamaraty e pegaram o Eixo Monumental, ladearam a Praça dos Três Poderes até o Palácio do Planalto e dobraram à esquerda, seguindo novamente pelo Eixo Monumental. Antes de chegarem à Rodoviária do Plano Piloto, dobraram à esquerda, em direção ao Setor de Autarquias Sul. A temperatura ficara insuportável e o chão de concreto do Conjunto Cultural da República parecia em chamas.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Capítulo 7 do romance A CONFRARIA CABANAGEM. Ou o rio que passa por Macapá



Eram 9 horas quando Batista Campos embarcou no iate de Henrique Bolonha, ancorado no trapiche do distrito de Icoaraci, a Vila Sorriso, como o batizara o jornalista Aldemyr Feio. Foi conduzido para o convés, onde já se encontravam Henrique Bolonha, Gilberto Soares Fonteles e Apolo Brito. Os homens se sentaram em torno de uma mesa, em confortáveis cadeiras de palhinha. Assim que Batista Campos embarcou o iate se moveu rumo à baía de Guajará, juntando-se a centenas de embarcações que iam se aglomerando ao longo dos 18 quilômetros até a Escadinha do Cais do Porto.

– Enquanto apreciamos a romaria fluvial da Virgem conversaremos sobre política, e o destino do nosso querido estado – disse o líder cabano.

– Certamente – Apolo Brito concordou, saboreando unha de caranguejo e uma xícara de café Três Corações, gourmet.

– Creio que já tens uma linha de ação... baseada na nossa teoria da conspiração – disse Batista Campos, com o belo sotaque do mundo elegante de Belém do Pará.

– Jarbas Barata pode ganhar as eleições? – Apolo Brito perguntou.

– A última pesquisa, ampla, que mandamos fazer, mostra que o titio ganhará, embora com pequena margem – observou Gilberto Soares Fonteles.

– Um empate técnico? – volveu o detetive.

– Um empate técnico – respondeu Gilberto Soares Fonteles.

– Conheci um empresário inglês, um misto de empresário, espião e aventureiro, que me fez uma inconfidência, obviamente sem sequer sonhar que sou alguém além de um velhinho caridoso. E depois, ele estava apenas me sondando também. Conversamos longamente, no café do Hilton Internacional Belém, sobre negócios, especialmente minerais. Ficou claro, na conversa, que a atuação do senador Fonteles na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, contra a demarcação contínua da reserva indígena Raposa e Serra do Sol, na fronteira de Roraima com a região em litígio entre a Venezuela e a Guiana, mudou o entendimento da mídia, e jurídico também, que se tinha da questão das terras indígenas na Amazônia. Raposa e Serra do Sol estão montadas sobre uma província mineral espantosa, tanto de minerais estratégicos quanto de pedras preciosas, como, aliás, grande parte da Amazônia, especialmente Roraima, que, a propósito, foi transformada praticamente em terra indígena, nas quais o Exército é proibido de entrar, mas onde cientistas estrangeiros, principalmente ingleses, entram e saem à vontade. No Pará, há interesse especial numa região que compreende os altos rios Jari e Paru de Este, a tríplice fronteira entre o Pará, o Suriname e a Guiana, o Parque Indígena do Tumucumaque e o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, na Serra do Tumucumaque, e os municípios de Serra do Navio e Laranjal do Jari, no Amapá. Nessa região, também, o potencial mineral é algo inimaginável, sem considerarmos a quantidade incrível de madeira de lei. Como vocês sabem, a região mencionada é uma espécie de cinturão no setentrião brasileiro. A dimensão do que estou dizendo vai além do governo do Pará; é uma questão amazônica, e a soberania do Brasil sobre a Amazônia é frágil – Henrique Bolonha divagou.

– De fato, a região entre o Amapá e o Pará, a Guiana Francesa, o Suriname e a Guiana, forma uma fantástica província mineral, além de biológica. Guarda desde ouro a urânio, de ferro a nióbio, fora, naturalmente, pedras preciosas. A madeira pode vir a ser contrabandeada numa escala que deixaria longe os portugueses, mesmo considerando 400 anos de envio de toras para Portugal e a Europa. Quanto à biotecnologia, somente a região do rio Paru, uma fração do continente amazônico, guarda incalculável tesouro em matéria-prima. Isso, sem falar em ouro. Há mais ouro, ali, do que o lastro do dólar americano. Contudo, descobri também algo interessante: água – disse Apolo Brito.

– Água?!

– Água. Há, em terras ao norte do Pará, água mineral cristalina, além da água dos rios da região, e a do próprio rio Amazonas. Mas há algo ainda mais interessante. Descobri que basta um alfinete embebido em Phyllobates terribilis, na nuca do senador Fonteles, durante uma massagem da sra. Eleonora, e ele irá para o nirvana – continuou Apolo Brito.

  Phyllobates o quê? – perguntou Batista Campos.

– Phyllobates terribilis – disse Apolo Brito. Gilberto Soares Fonteles não desviava os olhos do detetive. – Sei o que tu estás pensando – disse o detetive, dirigindo-se a Gilberto. – Repetindo as palavras de Batista Campos, Eleonora já foi exaustivamente investigada, grampeada, vigiada, bem como sua família, seus amigos e subordinados, e nada foi encontrado. Além disso, a Juliane já descartou completamente qualquer participação de dona Eleonora em qualquer coisa que possa prejudicar o senador Fonteles. Mas quem poderia chegar mais perto do senador, fora a Juliane e o Betão, senão dona Eleonora?

– Por que ela faria isso? – indagou Batista Campos.

– Há muito dinheiro em jogo. Descobri que a Icomisa é a fachada de outro negócio, que envolve madeira, biotecnologia e até água, e isso vem ao encontro da informação do Henrique Bolonha – respondeu o detetive.

– Então essa teoria de que a Inglaterra está tentando se apossar do setentrião amazônico é verdadeira? – perguntou o cirurgião.

– Eu não diria se apossar. Não, isso não. Não creio que algum país, nem os Estados Unidos, teria disposição para invadir a Amazônia. Além de quebrar, perigosamente, o equilíbrio político global, as baixas nas fileiras do invasor significariam um custo demasiadamente alto, pois ninguém conhece melhor a Amazônia do que os índios enfileirados no Exército e oficiais das Forças Armadas que passaram mais da metade da vida deles na Hileia. A posse da Amazônia não se dá com armas convencionais. Ela sempre aconteceu, desde sempre; agora, de uma maneira moderna. O Japão, por exemplo, em vez de importar bauxita, fabrica alumina no nosso quintal, utilizando energia hidroelétrica de Tucuruí. E a ocupação só se dá porque Brasília trata a Amazônia como lixo. O Brasil não conhece a Amazônia, e se não a conhece, é como se não a tivesse. A Universidade de São Paulo conta com mais pesquisadores do que todas as instituições científicas da Amazônia, embora a Amazônia, sozinha, tenha potencial para bancar o país; bastaria que se desenvolvesse uma política de estado, de pesquisa e industrialização biotecnológica e infraestrutura para o turismo. Essa é a redoma de que a Amazônia precisa – disse Batista Campos. – Mas dona Eleonora está limpa. Seus passos foram acompanhados de perto, para onde quer que fosse. Ela esteve na Inglaterra, nesse meio tempo, mas seus contatos foram checados pelo nosso homem em Londres, um cabano que cumpre doutorado em geociências, devidamente treinado para espionar. Os contatos de dona Eleonora em Londres são estritamente empresariais. No Pará, a mesma coisa. Não descobrimos nada que possa torná-la suspeita.

– Isso a torna a pessoa ideal para eliminar o senador – disse Apolo Brito.

– Sim, é verdade – disse Batista Campos. – Não havia pensado nisso. O que fazer, então? Não podemos afastar dona Eleonora do senador, até o desfecho das eleições, pois ela é um cabo eleitoral importante, conquistou meio mundo empresarial e angariou uma fortuna. Se a sequestrarmos será um baque tão grande para o senador que ele desistirá da campanha; se a matarmos, não teremos mais governador; se conversarmos com o senador, faremos um inimigo; se procurarmos dona Eleonora, estaremos perdidos. O que fazer? A menos que Apolo Brito consiga uma prova convincente de que há uma conspiração em andamento para eliminar o senador Fonteles...

Todos olharam para o detetive.

– E há – disse Apolo Brito. – Juliane encontrou, no cofre no escritório de dona Eleonora, em casa, uma pasta contendo um caderno com o seguinte título: “Propriedades do veneno da Phyllobates terribilis”.

Centenas de embarcações iam se juntando com destino ao Porto de Belém. Navios, catamarãs, iates, barcos, lanchas, veleiros, ubás, canoas, formavam uma correnteza dentro da baía. O iate mais próximo estava todo decorado e se ouvia o hino da Virgem. No seu convés se moviam lindas mulheres, tipos que só era possível se desenvolverem em Belém do Pará, um cadinho depurado ao longo de séculos. As portuguesinhas, por exemplo, descendentes de lusitanos, são encontradas no Brasil todo, principalmente no Sudeste e Sul do país, mas as portuguesinhas de Belém, além do sotaque belenense – aquele som chiado e pontilhado de palavras tupis e o indefectível “Égua!” –, trajam-se com leves vestidos decotados e sandálias japonesas, que as deixam à vontade, como índias, e seus quadris, avolumados pelos genes africanos que em algum momento foram despejados no cadinho, são duplamente convexos, alabastrinos, causadores de delírios. E as mulheres da Amazônia se comportam diferentemente das mulheres de todo o restante do país. Não é conta bancária gorda, nem automóvel, nem status, que as atraem num homem. Se um homem as atrai, vão lá e o pegam, e o levam para seu leito. Simples assim. E também não estão preocupadas se isso desabonaria sua honra. Simples assim.

Uma bela lancha, cheia de mulheres, passou a pequena distância do iate. Ali estava confirmada a tese desenvolvida por Apolo Brito. Entre as jovens, notou a presença de uma mulata cor de canela que o reportou à Praça da Sereia. Um dos seus programas favoritos era flanar pela cidade. Sentava-se na Praça da Sereia para ler O Observador Amazônico. Depois que o lia, punha-se a observar o chafariz e as sereias, de nádegas arredondadas, fartas, esculpidas por um artista consciente da sensualidade das sereias amazônidas. Juliane tinha o mesmo corpo das sereias da praça, e, no lugar de rabo de peixe, pernas bem torneadas.

Às 11h30, duas horas e meia depois, cerca de 500 embarcações de todos os tipos, lideradas pelo navio da Marinha de Guerra que levava a imagem da Virgem, aportaram na Escadinha do Cais do Porto, na Praça Pedro Teixeira, no Boulevard Castilhos França com a Avenida Presidente Vargas. Foguetes explodiam a todo instante. Então a multidão, comprimida na praça, começou a se dispersar, muitos indo para as paradas de ônibus rumo às suas casas. O iate seguira, vagaroso, até fundear ao largo do Forte do Castelo. O almoço foi servido. Pescada ao molho de camarão.

– Era o dia 12 de janeiro de 1616 quando os portugueses desembarcaram aqui, sob o comando de Francisco Caldeira Castelo Branco, oriundos do Maranhão. Começaram a construir o Forte do Presépio e chamaram ao lugar de Santa Maria de Belém, ou Feliz Lusitânia – começou Batista Campos, como se estivesse dando uma aula. – Nós, amazônidas, sempre estivemos à margem do Brasil, e, no entanto, temos 16% de toda a água de rio que desemboca no mar. O rio Amazonas é o maior rio do mundo, 140 quilômetros mais longo do que o rio Nilo, que era tido como o mais comprido do planeta. A comprovação foi feita por uma das mais sérias instituições científicas do Brasil, o Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que utilizou dados obtidos em expedição à nascente do Amazonas e imagens de satélite. A pesquisa foi apresentada à comunidade científica no Simpósio Latino-Americano de Sensoriamento Remoto, em setembro de 2008, em Cuba. Agora, o rio Amazonas mede 6.992,06 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Os livros de geografia que tratam do assunto serão reeditados. O geólogo Paulo Roberto Martini, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, disse que as medições antigas foram feitas sem o uso de metodologias científicas; isso mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm que ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. – Todos se prepararam para mais. Quando Batista Campos começava a divagar sobre o rio Amazonas, que era sua especialidade, juntamente com o arquipélago de Marajó, ao qual chamava de Mundo das Águas, não parava mais de falar. – O Amazonas foi chamado pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pizón, em 1500, de Mar Doce; o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas, em 1542. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões, e nós, do Pará e Amapá, chamamos de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do mundo, formada por 7 mil afluentes, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas, de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, banhando 17% do Peru, 2,2% do Equador, 11% da Bolívia, 63% do Brasil, 5,8% da Colômbia, 0,7% da Venezuela e 0,2% da Guiana. A bacia amazônica conta com 25 mil quilômetros de rios navegáveis. Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que a Europa. – Batista Campos parara de comer para falar sobre o grande rio. – Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, a mil quilômetros do mar e a garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade. Fora do estuário, a parte mais larga se situa próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros; chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz.

– E a vazão? – perguntou Apolo Brito.

– A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías de Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tâmisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos. O Amazonas despeja também no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, escancarando-se do arquipélago do Marajó até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia. Pois bem, as costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhadas de piratas, que vêm pegar, de arrastão, lagosta, camarão e outros frutos do mar – continuou Batista Campos.

– Nunca compreendi direito o Mar Dulce – disse Henrique Bolonha.

– O Mar Dulce é o rio Amazonas. Confunde-se o Amazonas com o emaranhado de água que banha o arquipélago de Marajó. O caso é que o arquipélago de Marajó, que se derrama debaixo da Linha Imaginária do Equador, emerge das águas do maior rio do mundo a noroeste; do rio Pará, ao sul; do rio Tocantins, a sudeste; e do oceano Atlântico, a nordeste. É impossível dizer com precisão quantas ilhas integram o arquipélago, pois há sempre novas ilhas emergindo ou sucumbindo na ditadura das águas. Contudo, registram-se 1.200 ilhas, a maior delas, Marajó, do tamanho de Portugal, a maior do planeta em águas salobras – disse Batista Campos, aproveitando para falar sobre outra de suas paixões: o Marajó. – No Mapa Múndi, Marajó se destaca maior do que a Jamaica, Porto Rico ou Trinidad e Tobago, no Caribe, ou do que a Córsega, na França mediterrânea, ou a ilha de Creta, no mesmo mar europeu-africano. O arquipélago é rico. Suas praias atlânticas são deslumbrantes; seus açaizais, imensos; seu rebanho bubalino, o maior do Brasil; sua cerâmica, exportada para o mundo inteiro, via Icoaraci; sua produção de frutos do mar faz do Pará o maior produtor de peixe do país; e o genial romancista Dalcídio Jurandir nasceu no município marajoara de Ponta de Pedras. No entanto, nesse arquipélago paradisíaco, curumins morrem devorados por verme, ameba, giárdia e malária; crianças são estupradas dentro de carros enquanto balsas cruzam os rios, e no interior de embarcações; ratos d’água atacam casas de ribeirinhos e estupram as mulheres, e contrabandistas pilham sítios arqueológicos e traficam para a Europa a cerâmica mais famosa do Brasil. Os governos federal e do Pará estiveram, sempre, de costas para o paraíso. Bastaria que estendessem o linhão de Tucuruí e construíssem a hidrovia do Marajó para que a região mais estonteante da Terra desabrochasse do seio das águas. A proximidade da hidrovia do Marajó com o porto de Santana, na zona metropolitana de Macapá, possibilitaria que produtos paraenses, como, por exemplo, açaí, piramutaba, cerâmica de Icoaraci e minérios, chegassem aos Estados Unidos, Europa e Japão com redução de custo. Essa é uma das maneiras de desenvolver a Amazônia, e não as balelas do governo federal.

Batista Campos não parava de falar. Lembrava uma enciclopédia ambulante sobre a Amazônia. “Os portugueses dizimaram pelo menos 2 milhões de índios na Amazônia brasileira, cifra estimada pelos pesquisadores, baseados em relatos de quem escreveu a história, que são os próprios portugueses, daí que o número deve ser muito maior, fora o outro tanto assassinado pelos espanhóis. Muitos desses índios foram torturados e mortos de modo infame, como barata, esmagados, seccionados pela espada lusitana. Até a Inquisição condenou índios. São cinco séculos de matança, de perseguição, de discriminação, de intolerância, cinco séculos de saque. Andaram atrás do El Dorado, que supunham localizar-se na mítica cidade de Manoa, à margem de um suposto lago Parima, nas montanhas das Guianas, e estiveram sempre sobre o El Dorado. O El Dorado é a própria Amazônia. Mas eles não poderiam levar a Amazônia para a Europa. Bem que tentaram, e foram derrotados. Nunca, porém, desistiram. O que ficou foi esse cadinho étnico maravilhoso, a amálgama das nações amazônicas com o português invasor e o africano escravo, e formamos este subcontinente sem rumo. Hoje, o caboclo, que odeia ser chamado de índio, e o mestiço, que detesta ser chamado de preto, são subjugados pelos governos mulatos, cafuzos e mamelucos, que se sucedem em Brasília e querem ser chamados de brancos, e também não têm rumo, ou melhor, só enxergam dinheiro. A raça humana viveu, sempre, numa contradição tremenda: sabe que se destruir a natureza destruirá a si mesma. É como um diabético que tem consciência de que quanto mais comer, quanto mais ingerir açúcar, terá primeiramente as extremidades do seu corpo amputadas, depois os membros e, finalmente, seus rins, seu coração, ou qualquer outro órgão fundamental, mas continua comendo em excesso; a raça humana sabe que se destruir a natureza destruirá a si mesma, mas continua devastando-a, destruindo-a, com a mesma determinação hereditária do escorpião, que carrega uma arma mortal no rabo. Somente uma pequena parte da humanidade evoluiu espiritualmente, enquanto a esmagadora maioria deu alguns passos adiante apenas na tecnologia, passos infinitamente pequenos frente ao tamanho de Deus. No Pará, acontecem coisas como prender uma menina numa cela com dezenas de bandidos violentos, durante um mês, e vê-la violentada, torturada, várias vezes por dia, todos os dias, com o consentimento da delegada, do secretário de segurança pública, da juíza de menores e da cidade onde isso ocorreu, Abaetetuba, no quintal de Belém. Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro são o Brasil de fato; nós somos o coração das trevas. A Amazônia nada mais é do que objeto de expectativas, de preconceito, de verdades pré-estabelecidas. Os valores que frequentemente lhe atribuem são falsos, deformados: o El Dorado, as amazonas, o inferno verde, o celeiro do mundo, o pulmão do planeta. Não conseguimos vê-la com lucidez, vemo-la sempre pela ótica dos luso-paulistanos, distorcida, colonialista – dizia Batista Campos.

Chovera. A costumeira chuva de todos os dias, como se fora um ritual da natureza. A tarde escorria, lenta, ao mormaço, a cidade mergulhada nos vagos sons das ruas meio desertas. Apolo Brito tomou a Avenida Presidente Vargas e percorreu-a toda, dobrando na Avenida Nazaré, até o Colégio Gentil Bittencourt, aonde chegou precisamente às 17h30, certo na saída da Transladação, a condução da imagem de Nossa Senhora de Nazaré para a Catedral da Sé, na Cidade Velha. A procissão tomou a Avenida Nazaré e foi fluindo, como um rio que naturalmente corre para a baía de Guajará. Índios, negros, descendentes de europeus, mulatos, mamelucos, cafuzos, ricos e pobres, gente linda e feia, todos se irmanavam diante da Virgem. As portuguesinhas eram sempre lindas, com sua pele leitosa e rosada, quadris e lábios generosos, cabelos geralmente longos e negros, e olhos de mel, de esmeralda, ou da cor do céu de agosto, além do que mais as caracterizavam, o sotaque belenense e pouca roupa. Quando a procissão chegou à Avenida Presidente Vargas, os círios pareciam pequenas bolas de fogo avançando lentamente como a própria noite que se acamava sobre a península belenense, uma grande nave espacial pronta para alçar voo sobre o Mundo das Águas. Apolo Brito tomou pela Avenida Assis de Vasconcelos rumo à sede da Companhia Docas do Pará, na Avenida Presidente Vargas 41, belo edifício em art déco projetado pelo arquiteto alemão Oswald Massler e inaugurado em 1940, para sediar a inglesa Booth Line. Tinha convite VIP para entrar no prédio. Seguiu para o terraço, onde se encontravam várias famílias importantes. Foi até o peitoril e olhou para baixo: centenas de milhares de pessoas aglomeravam-se em torno da Praça dos Estivadores, na esquina de Avenida Presidente Vargas com o Boulevard Castilhos França. Às 19h30, ouviu-se a sirene do prédio em art nouveau, projetado por Francisco Bolonha e inaugurado em 1895, do jornal Folha do Norte, na Rua Gaspar Viana com a Travessa Primeiro de Março, de fundo para a Praça dos Estivadores. Aí começou o espetáculo pirotécnico, homenagem dos estivadores à Virgem. O tempo parou sob as luzes dos foguetes, que se diluíam no ar, em ouro, prata e pedras preciosas, enquanto a romaria, sempre lenta como o rio Amazonas, avançava sob as luzes dos círios e da cidade. Apolo Brito desceu as escadas do prédio da CDP, tomou pela Avenida Presidente Vargas e depois pelas ruas João Alfredo e Padre Champagnat, até a Catedral da Sé, onde aguardou a chegada da Transladação, às 23h43, após 6 horas e 13 minutos de caminhada. Soube depois que segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socieconômicos (Dieese) cerca de 1,3 milhão de pessoas tinham acompanhado a Virgem. “O senador Fonteles não saiu de casa, mas participará do Círio, amanhã” – pensou.

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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Conto/LATITUDE ZERO


É possível que algumas pessoas execrem este conto, devido à linguagem chula e à violência, ambientadas nos anos 1960, em Macapá. Contudo, trata-se, tão somente, e apenas, de um trabalho de ficção. Advirto que qualquer semelhança com fatos passados é mera coincidência. Ressalto que até as autobiografias, principalmente elas, são apenas ensaios de ficção, nada mais além disso, guardando, é claro, semelhanças geográficas, com pessoas e fatos.

O argumento de LATITUDE ZERO gira em torno de um punhado de artistas, a maioria deles adolescentes, numa cidade ribeirinha da Amazônia, Macapá, e nos anos de chumbo da Ditadura dos Generais (1964-1985), e que começam a fazer descobertas, e a sentir na pele que o esplêndido sol equatorial é vida em estado bruto, mas pode, também, chamuscar aos que não estão preparados para viver em sociedade, e, sobretudo, para ajustar-se numa sociedade, a de Macapá, nos anos 1960, tão colonizada, preconceituosa, machista e antropofágica.

Esta história curta foi publicada inicialmente no livro TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (Edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas), o segundo volume da trilogia AMAZÔNIA, antecedido por A GRANDE FARRA e sucedido por NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É; e no volume Todas as Gerações – O Conto Brasiliense Contemporâneo (LGE Editora, seleção e organização de Ronaldo Cagiano, Brasília, 2006, 513 páginas).

Para adquirir TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS pode ser feita uma solicitação, com nome da pessoa e endereço completo, para: raycunha@gmail.com. Será informado o número de uma conta bancária para depósito de R$ 40, e, o livro, enviado pelos Correios.

PREFÁCIO

Sobre TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS escreve Maurício Melo Júnior, escritor e jornalista, apresentador do programa Leituras, da TV Senado:

OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA

A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa - Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo - não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido - Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas), no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas de futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi.

LATITUDE ZERO

O depósito de madeira estava adormecido como tudo o mais na madrugada, exceto a luz do poste debatendo-se para escapar da névoa. A claridade lutava para libertar-se da neblina pegajosa, e, como carnicão rompendo a pelica do tumor, vazava, arrastando-se até o depósito de madeira, infiltrava-se por uma fresta e incidia sobre o cenho franzido de Alexandre. Ele parecia morto, pois respirava imperceptivelmente.

A luz do poste, agora, agonizava na claridade dúbia do amanhecer. Uma chuva pôs-se a cair, adensando o ar saturado de umidade. Alexandre se mexeu, num gesto instintivo de quem está sentindo frio. Encolheu-se mais, agasalhando as mãos entre as coxas. As tábuas sobre as quais se deitara machucavam-no. Isso o despertou. Abriu os olhos como uma boneca: só as pestanas se mexeram. O resto todo ficou imóvel. Depois procurou alguém com o olhar. Viu-o um pouco abaixo. Moacir Canto dormia ainda. Alexandre se levantou, estremunhado, e ficou olhando para Moacir Canto. Apalpou o bolso traseiro à procura da carteira porta-cédula e não a encontrou. Meteu o polegar e o indicador no bolsinho da calça e puxou uma nota de cinquenta cruzeiros. Neste momento Moacir Canto despertou.

– Perdi a bolsa – disse Alexandre. – Mas tinha guardado cinquenta cruzeiros no bolsinho da calça.

– Porra... – disse o outro.

Olharam-se e depois cada qual olhou para si próprio. A farra começara no GEN, o bar do ex-policial, na Rua Tiradentes. Alexandre ganhara as obras completas dos irmãos Grimm em um concurso de contos e vendeu-as para a tia de Moacir Canto por duzentos cruzeiros. Separou uma nota de cinquenta, pô-la no bolsinho da calça e foram para o GEN. Tavares, o ex-tira, estava lá no lugar de sempre, diligente, servindo bebida a dois caras. Alexandre pediu meiota de Pitú. Tavares serviu-os com tira-gosto de genipapo. Limitavam-se a beber. Moacir Canto incrustara-se no silêncio. Livrava-se do rancor que levava consigo cagando em cima dos outros. Certa vez, trepado numa árvore da Praça Veiga Cabral, deu uma cagada tão potente na cabeça de um homem que o derrubou ao chão. Quando o tipo se recobrou, Moacir Canto já tinha se jogado de um galho mais baixo e pôs-se ao fresco quase caindo de tanto rir. Certa noite, pediu a Alexandre para segui-lo de bicicleta. Moacir Canto ia na garupa de outra bicicleta, pilotada por Grosseiro. Ficaram andando um pouco pela Praça Nossa Senhora da Conceição até que passaram por uma moça e uma menina. Grosseiro fez a volta, pedalando sem pressa, e tirou o fino da menina. Moacir Canto se ajeitou e deu tal soco nas costas dela que o barulho ecoou na praça inteira. Mas engraçado foi quando uma noite Moacir Canto achou uma folha de coqueiro e saiu à procura de vítimas com Grosseiro. Alexandre foi atrás para ver. Iam a certa altura da Rua Leopoldo Machado quando avistaram seis estudantes, uma ao lado da outra, ocupando a largura do passeio público e parte da pista. O tronco da folha de coqueiro ia pegar no pescoço dela. Era a mais alta; uma moça rosada e vigorosa. Ela se abaixou na hora e a folha de coqueiro passou voando por cima da sua cabeça. Moacir canto perdeu o equilíbrio e caiu. A moça pegou a folha de coqueiro e desferiu um golpe no queixo de Moacir Canto, que ia se levantando do asfalto. Grosseiro havia estacionado adiante e morria de rir. Alexandre passou por perto de Moacir Canto e salvou-o de seis mulheres furiosas. Para se vingar, Moacir Canto foi à sua casa, pegou um fio elétrico e saiu atrás das moças. Como não as encontrou, atacou uma velha, dando-lhe tal lambada no pescoço que a velha caiu com um grito horripilante.

Ele era um cara assim mesmo. Seu ódio provinha da condição em que o pai deixara a família, na miséria, para enrabichar-se por uma menina de quinze anos, mas que o manobrava como uma puta experiente. No Dia dos Pais, Moacir Canto entrou lá e deu uma paulada na venta do velho, arrancando-lhe pelo menos um dente. O pai de Moacir Canto era policial. Telefonou para a polícia a fim de que pegassem o rapazinho, que devia estar drogado para fazer um negócio daqueles. Ficou por isso mesmo. A sorte de Moacir Canto era sua beleza. Tinha um belo queixo quadrado, o rosto oval, sobrancelhas bem feitas e cabeleira leonina. Seus olhos, entretanto, despertavam medo, sobretudo quando estava estupidificado de maconha. Certa vez, Alexandre, Moacir Canto, Grosseiro e Galego Demônio amanheceram na Praia do Barbosa. Alexandre e Grosseiro dormiam ainda. Moacir Canto e Galego Demônio já haviam acordado há algum tempo quando avistaram a menina. Correram em cima dela, agarraram-na e arrastaram-na para detrás de um aturiá. Alexandre e Grosseiro acordaram com os gritos, correram para lá e viram Moacir Canto tentando penetrar a menina por trás, enquanto Galego Demônio segurava-a pelos cabelos, pelejando para a menina chupar o pênis grande, mole e purulento que lhe empurrava no rosto. De todos eles, Alexandre era o único que tinha um pouco de sensatez, e Grosseiro o atendia como a um cão. E assim livraram dos répteis a menina.

– Está na hora da gente se escafeder – disse Moacir Canto, no GEN.

Pegaram a Rua Cândido Mendes e seguiram em direção ao Igarapé das Mulheres. Todas as noites, Alexandre ia à casa de Angélica, Sílvia e Graciette. Angélica estava no portão da varanda. Era pequena e fofa. Usava os cabelos, de cor indefinida, bem curtos. Tinha os olhos da cor dos cabelos e era estrábica, e tudo chamava a atenção no seu rosto: o nariz arrebitado e os lábios vermelhos e entreabertos, como rosa despedaçada e sumarenta. Viam-se seus dentes sob os lábios entreabertos. Isso, e os olhos, davam-lhe um ar de avidez ninfomaníaca. Sílvia parecia uma fada morena. Tinha a pele cor de leite, os cabelos negríssimos e longos, e os olhos azuis, da cor dos olhos do pai. Vivia sorrindo, com seus lábios rosados. Tinha os dedos longos, ágeis ao piano. Era bem mais alta do que Graciette. Os olhos de Graciette ficavam entre castanho e verde. Usava unhas longas, que pintava de vermelho, e punha uma língua tão comprida na boca dos rapazes que os sufocava. Era ruiva. Puxava a mãe, uma potra ainda jovem que tinha o mesmo olhar canibalesco de Angélica.

As duas outras garotas estavam na sala ouvindo os Beatles. Nem bem os dois chegaram, Sílvia foi logo convidando Alexandre para dançar. Ele ficou excitado. Sabia o jogo. Ela se encostava nele, os longos cabelos negros caindo pelo rosto e pelos ombros de Alexandre. Ela não usava soutien; os seios duros espetavam-no, e ele, de vez em quando, via os bicos rosados dos peitos através da blusa meio desabotoada. Alexandre ia ficando cada vez mais descontrolado. Ela batia com o púbis sobre o pênis de Alexandre, rijo como um osso, e ele aparava as batidas, prestes a gozar.

– Vamos para o quarto?  disse Alexandre.

Ela não falou nada. Puxou-o pela mão em direção ao quarto, amplo e bem arrumado. Sílvia era tão delicada! Desafivelou-lhe o cinto, abaixou o fecho éclair – ele não usava cueca –, pôs o pênis duro para fora. Ela, com seus olhos azuis, fitava maravilhada o pênis.

– Caralinho lindo! - disse, e desceu, suavemente, seus lábios rosa sobre a glande vermelho-escura. Ele não aguentou muito tempo. Logo se desintegrou em um gozo suculento, inundando aquela boca de fada, respingando de esperma os lábios sedentos.

Três pares de olhos acompanhavam tudo, sem perder nada. Ao ver o suco espermático escorrendo da boca da irmã, Angélica se despiu num piscar de olhos. Tinha a bundinha mais linda do mundo. Estava gozando só de ver. Possuía o dom dos gozos múltiplos. Pegou os cabelos de Alexandre e puxou-o para seu púbis. Cheirava a Mateus Rosé, e o líquido que escorria pela sua coxa tinha sabor de acme. Ao ver o traseiro de Angélica, Moacir Canto enfiou-se ali. Graciette masturbava-se com seus dedos de garras e chorava.

Era meia-noite. Os cinco estavam banhados, na sala, bebendo vodka e ouvindo os Beatles, quando a mãe das meninas chegou. O pai delas, como sempre, estava em Belém. Dona Frênia deu um alô para os garotos, a caminho do seu quarto.

– A velha está bêbeda – Moacir Canto cochichou para Alexandre.

Foi neste momento que a garrafa de Wyborowa do pai das meninas, que Alexandre bebeu, subiu de uma vez para a cabeça dele.

– Vou fodê-la – disse, ensaiando ir para o quarto da dona Frênia.

Moacir Canto estava em melhor estado. Atirou-se de cabeça nele. As meninas jogaram-se também em cima dele. Acabou tudo numa risada geral.

Quando Alexandre voltou a si estava deitado no meio da Rua Cândido Mendes, de braços estendidos como Jesus Cristo na cruz, gritando: fodam-se seus filhos da puta. Então começou a chover. O chofer do táxi não estava vendo as coisas muito bem e pegou um susto ao vislumbrar aquele vulto erguer-se do asfalto quase em cima do carro. Parou para averiguar do que se tratava. Alexandre entrou no táxi. Moacir Canto veio correndo da calçada, onde estivera vomitando, e entrou no carro.

– Bar Caboclo – Alexandre disse ao motorista.

A chuva engrossara. Da mesa onde estavam podiam ver a chuva estalar na calçada. Bebiam em silêncio a meiota, em pequenos goles de apreciadores de bebida.

– Vamos voltar à casa das meninas? – Alexandre sugeriu. Moacir Canto levantou-se incontinenti.

– Desta vez quem vai comer a velha sou eu – disse.

– Está bem – Alexandre concordou, chamando o garçom e pagando a meiota.

Saíram do bar na chuva, que estava mais fina agora. Atravessaram a Rua Cândido Mendes na altura do antigo Igarapé da Fortaleza. Escorregaram numa poça d’água no outro lado da rua. Chapinharam lá dentro, até que Moacir Canto conseguiu levantar-se e arrastar Alexandre para fora da poça. Andaram em direção ao rio Amazonas, mas pararam logo adiante, ao verem que alguém passava a chuva debaixo de uma marquise. Aproximaram-se. Era uma moça. Moacir Canto disse alguma coisa para a moça. Ela tentou falar, mas era muda. Moacir Canto pegou-a e começou a se esfregar nela. A moça tentava afastá-lo. Moacir Canto subiu a saia dela e depois desceu a calcinha. A muda começou a rir e depois procurou beijar Moacir Canto. Ele se desviava dos seus beijos e aquilo fazia Alexandre se torcer de rir. Quando parou de rir não viu mais a muda. Moacir Canto estava com uma calcinha na mão. De quem diabo era aquilo? Subiram por uma escada lá mesmo naquele prédio.

– Conheço um cara que mora em um apartamento lá em cima – disse Moacir Canto. – É da polícia e é veado.

Bateram lá e logo um sujeito branquela meteu a cara na porta entreaberta.

– Oh! Você!  disse para Moacir Canto, olhando também para Alexandre. – Entrem! Entrem! Vou preparar um drink para vocês. Por que vocês não tomam banho?

Serviu duas doses generosas de whisky e foi ver o frango que pusera no fogo. O cheiro da canja empestava o ambiente, mas para os bêbedos nada importava. Sentaram-se, com o whisky ao lado, e puseram-se a bater papo.

– Tenho roupas secas... – interrompeu o escrivão, tentando atrair a atenção deles.

– Basta o teu whisky – disse Moacir Canto.

– Isto aqui é um buraco – dizia Alexandre, deixando o escrivão desconfiado. – Uma merda! Senão vejamos: que escritor temos aqui? Nenhum! Há o R. Lima, mas o R. Lima não escreveu mais do que um livro de poemas, que teve uma tiragem ridícula de quinhentos exemplares. E por que? Porque não há editora, porque não há público, porque não há aplauso.

O escrivão ficou menos preocupado ao perceber que não falavam do seu apartamento.

– É uma sepultura... – disse Moacir Canto.

– Uma sepultura e uma fábrica de poetastros – disse Alexandre. – Vês o caso do Galego Demônio, que lança um livro mimeografado por semana...

– Não sei como aquele traficante que banca as baboseiras dele ainda não percebeu que se trata de um psicopata mitômano e megalomaníaco.

– No seu livro mais recente ele relata os últimos estupros que cometeu – disse Alexandre.

– Nem a irmã dele escapou – disse Moacir Canto. – E com aquela gonorreia crônica...

– Quis comer o diretor do Colégio Amapaense, o professor Olhudo.

No dia em que isso aconteceu, Alexandre estava estudando em casa para fazer quatro provas logo mais à noite quando Galego Demônio chegou com seu livro “Eu Imortal” debaixo do braço.

– Vamos já para Serra do Navio – disse a Alexandre.

– Tenho quatro provas hoje à noite.

– O estudo formal embota os neurônios. Já está tudo certo: vagão-leito especial no trem, suíte no hotel e duas professoras mineiras para uma bacanal.

Alexandre ficou calado.

– Partamos já para a aventura! A rotina é um veneno lento. O bar nos espera. Serra do Navio é um apelo irresistível com suas fêmeas mineiras.

– Resolvi ir, mas não porque Galego Demônio tivesse me convencido a ir, com aquele papo dele. Estava entediado só de pensar nas quatro provas.

Moacir Canto serviu novas doses de whisky e Alexandre pôs-se a contar o resto do caso. Já anoitecia quando ele e Galego Demônio saíram da casa de Alexandre, entraram no bar da esquina e pediram uma meiota. Não demoraram lá e foram a seguir para o Picolé Amigo, um bar onde R. Lima bebia de vez em quando. Com efeito, encontraram-no lá.

– Lembro-me que no Picolé Amigo houve uma discussão entre R. Lima e Galego Demônio. Galego Demônio estava botando muita banca e R. Lima disse que seu livro deveria se chamar “Eu Idiota”, porque ao ler os originais de “Eu Imortal” encontrara jacaré com g.

– Do ponto de vista da linguística é possível – Galego Demônio se defendeu. – Sobretudo para um niilista igual a mim.

– E foi com o niilismo dele que eu tomei no rabo – disse Alexandre para Moacir Canto. Acabara resolvendo, no Picolé Amigo, que deveria fazer as quatro provas, e não teve quem o dissuadisse da ideia. Galego Demônio foi com Alexandre para matar algumas questões. Ao chegarem ao Colégio Amapaense um inspetor disse-lhes que não podiam entrar senão uniformizados. Alexandre pediu para falar com o diretor. Impressionado, ou melhor, narcotizado com o bafo de bebida, o inspetor não opôs objeção em anunciá-los ao diretor, que estava ali perto fiscalizando ele próprio se os seus meninos encontravam-se devidamente uniformizados. Quando Alexandre e Galego Demônio se aproximaram do diretor ele estava atendendo um recruta do Exército que saíra do quartel diretamente para o Colégio Amapaense, de modo que não pudera vestir o uniforme de estudante. Levado pelo hábito, o rapaz se perfilou.

– Ô idiota! Esse gajo não passa de um professor de História! – observou Alexandre para o recruta.

– O quê?! – gaguejou o diretor.

– Seu merda, foste tu que levaste “A Galinha” para o governador, aquele ditador do caralho – disse Alexandre, referindo-se ao jornalzinho que lhe rendera dez dias de suspensão.

– Vou chamar a polícia – disse o diretor, com seus olhos que eram esbugalhados de nascença.

Galego Demônio tinha visto umas fêmeas gostosas e tentou pegar no rabo de uma delas. A moça deu um grito que chamou a atenção do diretor; ele passou uma reprimenda em Galego Demônio. A reprimenda foi mesmo que nada. Galego Demônio já estava com o pau para fora e tentou metê-lo no diretor.

– Foi uma cena muito engraçada aquele veado de um figa correndo com o Galego Demônio atrás, com aquele pau mole dele, pingando gonorreia. Descemos correndo a escada, pois a polícia já fora chamada, e voltamos ao bar onde deixáramos R. Lima. Pedimos mais uma garrafa de Pitú. Iríamos cedo para Santana e de lá embarcaríamos para Serra do Navio. Mais ou menos à meia-noite R.Lima foi embora e ficamos só nós dois no bar. Tomamos mais duas e zarpamos. Daí não me lembro de mais nada.

Alexandre cochilou. Acordou com uns respingos quentes no braço. Moacir Canto tinha ido à cozinha, aberto a panela de canja e levou-a para a sala, quando a panela virou, espalhando canja pelo chão. O escrivão cantava alegremente no banheiro. Moacir Canto pegou o que ainda restava da canja na panela, foi até a porta do banheiro e jogou a canja lá para dentro. O escrivão deu um berro. Ao ouvir o grito, Alexandre levantou-se rapidamente pronto para correr. Antes de ir embora Moacir Canto olhou em volta e depois, como se lembrasse de algo, pegou a chave da porta. Nestas alturas o escrivão saiu do banheiro chorando e todo melado de canja. Moacir Canto saiu e fechou a porta por fora. Lá embaixo, jogou a chave no esgoto a céu aberto, que cortava a rua longitudinalmente.

– Vamos pegar um ar lá na amurada? – disse Alexandre.

– Vamos pegar um rato podre no pescoço? – disse Moacir Canto, atirando nas costas de Alexandre uma ratazana morta, que encontrara na calçada, correndo depois para a amurada que dava  para o rio Amazonas, ao lado da Fortaleza São José de Macapá.

Alexandre se abaixou numa poça de água e lavou o pescoço. Depois andou em direção a um depósito de madeira. Moacir Canto veio também e entrou no depósito. Alexandre adormeceu recordando “A Galinha”, o jornalzinho que não passou do primeiro número. Havia, em sala de aula, um ricaço. O pai era dono de boa parte da cidade. Ele se ofereceu para financiar o jornal. Foram, então, uma noite, para a casa do ricaço. O filho dele os levou para o gabinete de trabalho do velho. Lá pelas tantas, Alexandre tirou o telefone do gancho e discou um número qualquer. Nessas alturas, o velho estava tomando soro no quarto dele e apanhou a extensão para saber do que se tratava àquela hora da noite, quase onze horas.

– Alô! – disse uma voz de mulher, sonolenta.

– Quem é?

– Solange – disse a voz.

– Oh! Solange! Minha doce cadelinha, vaquinha linda, minha bocetinha fedendo a merda, vou já aí para empurrar meu caralho na doçura do teu jardim de trás...

O ricaço arrancou a agulha da veia, pegou um cinto e irrompeu no escritório. O velho entrou dando lambada no filho dele. Havia, além de Alexandre, outro redator, um garotão de cabeça raspada, que montou na sua bicicleta e se evaporou.

O primeiro número do jornal, e único, saiu com uma matéria sobre o governador, o general ditador do Amapá, Ivanhoé Gonçalves Martins. Dizia que ele passava o dia de binóculos por trás das persianas da sua sala, no Palácio do Setentrião, tentando ver, do outro lado da Praça da Bandeira, as calcinhas das estudantes que se sentavam sobre o muro do Colégio Amapaense. Sobre o diretor do educandário dizia que tinha um acordo tácito com algumas de suas alunas, de modo que lhes dava nota dez se elas se arreganhassem e o deixassem ver suas calcinhas nas aulas de História. Na mesma edição foram escolhidos os dez mais punheteiros. O diretor enviou um exemplar do jornal ao secretário de Educação, que o enviou ao governador. Mas nesse trâmite o exemplar desapareceu. Houve um inquérito e os responsáveis por “A Galinha”, que na expectativa dos rapazes deveria pôr ovos de ouro, acabou rendendo-lhes dez dias de suspensão.

Naquele mesmo dia tropical úmido Galego Demônio entrou no Gato Azul e pediu uma dose de rum Montilla. Fazia aquilo ordinariamente e bebia até o anoitecer. Então voltava para casa, jantava e saía de novo. Naquele dia bebera além do normal. Ao retornar a casa não encontrou ninguém. Estava sozinho. O pai fora comprar açaí no arquipélago do Marajó; a mãe estava em Belém; a irmã, sabe Deus. Foi ao fogão. Comeu nas próprias panelas. Sentia-se pesado. Foi ao quarto. Deitou-se. Dormiu. Bunda de Breque, a irmã, estivera escondida, espreitando-o. A claridade da luminária do poste vencia o piche da noite sem estrelas e entrava no quarto, banhando os móveis com um manto irreal. Galego Demônio dormia de peito para cima. Assim, dormindo, era belo como qualquer jovem da sua idade. A primeira machadada pegou no lado do pescoço. Galego Demônio acordou como se estivesse impulsionado por molas. Tentou agarrar-se em alguma coisa e começou a gorgolejar como porco sangrando. Bunda de Breque ligou a lâmpada e olhou para Galego Demônio. Ergueu de novo o machado. Galego Demônio fitou-o aterrado e começou a arrastar-se para um dos lados da cama, já empapada de sangue. Bunda de Breque depôs o machado no chão, com o cabo encostado na cama, desafivelou o cinto de Galego Demônio e arriou sua calça, juntamente com a cueca. O pênis de Galego Demônio estava com os curativos purulentos como sempre. A machadada deixou-o apenas pendurado pela pele do escroto. A próxima machadada seccionou-o. Depois, Bunda de Breque aprumou bem o machado, como se fosse dar o golpe final em um tronco que estivera tentando partir ao meio, e desceu-o. A cabeça de Galego Demônio pulou e foi bater na parede. Bunda de Breque arrastou o corpo mutilado, desceu as escadas, caminhou até o monturo e atirou-o sobre o monte de caroços de açaí. Foi buscar a cabeça e jogou-a também no monte de caroços. Chovia como o diabo. Bunda de Breque voltou ao quarto de Galego Demônio, levando seu trompete, e pôs-se a tocar “O Silêncio”.