segunda-feira, 13 de abril de 2015

Capítulo 7 do romance A CONFRARIA CABANAGEM. Ou o rio que passa por Macapá



Eram 9 horas quando Batista Campos embarcou no iate de Henrique Bolonha, ancorado no trapiche do distrito de Icoaraci, a Vila Sorriso, como o batizara o jornalista Aldemyr Feio. Foi conduzido para o convés, onde já se encontravam Henrique Bolonha, Gilberto Soares Fonteles e Apolo Brito. Os homens se sentaram em torno de uma mesa, em confortáveis cadeiras de palhinha. Assim que Batista Campos embarcou o iate se moveu rumo à baía de Guajará, juntando-se a centenas de embarcações que iam se aglomerando ao longo dos 18 quilômetros até a Escadinha do Cais do Porto.

– Enquanto apreciamos a romaria fluvial da Virgem conversaremos sobre política, e o destino do nosso querido estado – disse o líder cabano.

– Certamente – Apolo Brito concordou, saboreando unha de caranguejo e uma xícara de café Três Corações, gourmet.

– Creio que já tens uma linha de ação... baseada na nossa teoria da conspiração – disse Batista Campos, com o belo sotaque do mundo elegante de Belém do Pará.

– Jarbas Barata pode ganhar as eleições? – Apolo Brito perguntou.

– A última pesquisa, ampla, que mandamos fazer, mostra que o titio ganhará, embora com pequena margem – observou Gilberto Soares Fonteles.

– Um empate técnico? – volveu o detetive.

– Um empate técnico – respondeu Gilberto Soares Fonteles.

– Conheci um empresário inglês, um misto de empresário, espião e aventureiro, que me fez uma inconfidência, obviamente sem sequer sonhar que sou alguém além de um velhinho caridoso. E depois, ele estava apenas me sondando também. Conversamos longamente, no café do Hilton Internacional Belém, sobre negócios, especialmente minerais. Ficou claro, na conversa, que a atuação do senador Fonteles na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, contra a demarcação contínua da reserva indígena Raposa e Serra do Sol, na fronteira de Roraima com a região em litígio entre a Venezuela e a Guiana, mudou o entendimento da mídia, e jurídico também, que se tinha da questão das terras indígenas na Amazônia. Raposa e Serra do Sol estão montadas sobre uma província mineral espantosa, tanto de minerais estratégicos quanto de pedras preciosas, como, aliás, grande parte da Amazônia, especialmente Roraima, que, a propósito, foi transformada praticamente em terra indígena, nas quais o Exército é proibido de entrar, mas onde cientistas estrangeiros, principalmente ingleses, entram e saem à vontade. No Pará, há interesse especial numa região que compreende os altos rios Jari e Paru de Este, a tríplice fronteira entre o Pará, o Suriname e a Guiana, o Parque Indígena do Tumucumaque e o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, na Serra do Tumucumaque, e os municípios de Serra do Navio e Laranjal do Jari, no Amapá. Nessa região, também, o potencial mineral é algo inimaginável, sem considerarmos a quantidade incrível de madeira de lei. Como vocês sabem, a região mencionada é uma espécie de cinturão no setentrião brasileiro. A dimensão do que estou dizendo vai além do governo do Pará; é uma questão amazônica, e a soberania do Brasil sobre a Amazônia é frágil – Henrique Bolonha divagou.

– De fato, a região entre o Amapá e o Pará, a Guiana Francesa, o Suriname e a Guiana, forma uma fantástica província mineral, além de biológica. Guarda desde ouro a urânio, de ferro a nióbio, fora, naturalmente, pedras preciosas. A madeira pode vir a ser contrabandeada numa escala que deixaria longe os portugueses, mesmo considerando 400 anos de envio de toras para Portugal e a Europa. Quanto à biotecnologia, somente a região do rio Paru, uma fração do continente amazônico, guarda incalculável tesouro em matéria-prima. Isso, sem falar em ouro. Há mais ouro, ali, do que o lastro do dólar americano. Contudo, descobri também algo interessante: água – disse Apolo Brito.

– Água?!

– Água. Há, em terras ao norte do Pará, água mineral cristalina, além da água dos rios da região, e a do próprio rio Amazonas. Mas há algo ainda mais interessante. Descobri que basta um alfinete embebido em Phyllobates terribilis, na nuca do senador Fonteles, durante uma massagem da sra. Eleonora, e ele irá para o nirvana – continuou Apolo Brito.

  Phyllobates o quê? – perguntou Batista Campos.

– Phyllobates terribilis – disse Apolo Brito. Gilberto Soares Fonteles não desviava os olhos do detetive. – Sei o que tu estás pensando – disse o detetive, dirigindo-se a Gilberto. – Repetindo as palavras de Batista Campos, Eleonora já foi exaustivamente investigada, grampeada, vigiada, bem como sua família, seus amigos e subordinados, e nada foi encontrado. Além disso, a Juliane já descartou completamente qualquer participação de dona Eleonora em qualquer coisa que possa prejudicar o senador Fonteles. Mas quem poderia chegar mais perto do senador, fora a Juliane e o Betão, senão dona Eleonora?

– Por que ela faria isso? – indagou Batista Campos.

– Há muito dinheiro em jogo. Descobri que a Icomisa é a fachada de outro negócio, que envolve madeira, biotecnologia e até água, e isso vem ao encontro da informação do Henrique Bolonha – respondeu o detetive.

– Então essa teoria de que a Inglaterra está tentando se apossar do setentrião amazônico é verdadeira? – perguntou o cirurgião.

– Eu não diria se apossar. Não, isso não. Não creio que algum país, nem os Estados Unidos, teria disposição para invadir a Amazônia. Além de quebrar, perigosamente, o equilíbrio político global, as baixas nas fileiras do invasor significariam um custo demasiadamente alto, pois ninguém conhece melhor a Amazônia do que os índios enfileirados no Exército e oficiais das Forças Armadas que passaram mais da metade da vida deles na Hileia. A posse da Amazônia não se dá com armas convencionais. Ela sempre aconteceu, desde sempre; agora, de uma maneira moderna. O Japão, por exemplo, em vez de importar bauxita, fabrica alumina no nosso quintal, utilizando energia hidroelétrica de Tucuruí. E a ocupação só se dá porque Brasília trata a Amazônia como lixo. O Brasil não conhece a Amazônia, e se não a conhece, é como se não a tivesse. A Universidade de São Paulo conta com mais pesquisadores do que todas as instituições científicas da Amazônia, embora a Amazônia, sozinha, tenha potencial para bancar o país; bastaria que se desenvolvesse uma política de estado, de pesquisa e industrialização biotecnológica e infraestrutura para o turismo. Essa é a redoma de que a Amazônia precisa – disse Batista Campos. – Mas dona Eleonora está limpa. Seus passos foram acompanhados de perto, para onde quer que fosse. Ela esteve na Inglaterra, nesse meio tempo, mas seus contatos foram checados pelo nosso homem em Londres, um cabano que cumpre doutorado em geociências, devidamente treinado para espionar. Os contatos de dona Eleonora em Londres são estritamente empresariais. No Pará, a mesma coisa. Não descobrimos nada que possa torná-la suspeita.

– Isso a torna a pessoa ideal para eliminar o senador – disse Apolo Brito.

– Sim, é verdade – disse Batista Campos. – Não havia pensado nisso. O que fazer, então? Não podemos afastar dona Eleonora do senador, até o desfecho das eleições, pois ela é um cabo eleitoral importante, conquistou meio mundo empresarial e angariou uma fortuna. Se a sequestrarmos será um baque tão grande para o senador que ele desistirá da campanha; se a matarmos, não teremos mais governador; se conversarmos com o senador, faremos um inimigo; se procurarmos dona Eleonora, estaremos perdidos. O que fazer? A menos que Apolo Brito consiga uma prova convincente de que há uma conspiração em andamento para eliminar o senador Fonteles...

Todos olharam para o detetive.

– E há – disse Apolo Brito. – Juliane encontrou, no cofre no escritório de dona Eleonora, em casa, uma pasta contendo um caderno com o seguinte título: “Propriedades do veneno da Phyllobates terribilis”.

Centenas de embarcações iam se juntando com destino ao Porto de Belém. Navios, catamarãs, iates, barcos, lanchas, veleiros, ubás, canoas, formavam uma correnteza dentro da baía. O iate mais próximo estava todo decorado e se ouvia o hino da Virgem. No seu convés se moviam lindas mulheres, tipos que só era possível se desenvolverem em Belém do Pará, um cadinho depurado ao longo de séculos. As portuguesinhas, por exemplo, descendentes de lusitanos, são encontradas no Brasil todo, principalmente no Sudeste e Sul do país, mas as portuguesinhas de Belém, além do sotaque belenense – aquele som chiado e pontilhado de palavras tupis e o indefectível “Égua!” –, trajam-se com leves vestidos decotados e sandálias japonesas, que as deixam à vontade, como índias, e seus quadris, avolumados pelos genes africanos que em algum momento foram despejados no cadinho, são duplamente convexos, alabastrinos, causadores de delírios. E as mulheres da Amazônia se comportam diferentemente das mulheres de todo o restante do país. Não é conta bancária gorda, nem automóvel, nem status, que as atraem num homem. Se um homem as atrai, vão lá e o pegam, e o levam para seu leito. Simples assim. E também não estão preocupadas se isso desabonaria sua honra. Simples assim.

Uma bela lancha, cheia de mulheres, passou a pequena distância do iate. Ali estava confirmada a tese desenvolvida por Apolo Brito. Entre as jovens, notou a presença de uma mulata cor de canela que o reportou à Praça da Sereia. Um dos seus programas favoritos era flanar pela cidade. Sentava-se na Praça da Sereia para ler O Observador Amazônico. Depois que o lia, punha-se a observar o chafariz e as sereias, de nádegas arredondadas, fartas, esculpidas por um artista consciente da sensualidade das sereias amazônidas. Juliane tinha o mesmo corpo das sereias da praça, e, no lugar de rabo de peixe, pernas bem torneadas.

Às 11h30, duas horas e meia depois, cerca de 500 embarcações de todos os tipos, lideradas pelo navio da Marinha de Guerra que levava a imagem da Virgem, aportaram na Escadinha do Cais do Porto, na Praça Pedro Teixeira, no Boulevard Castilhos França com a Avenida Presidente Vargas. Foguetes explodiam a todo instante. Então a multidão, comprimida na praça, começou a se dispersar, muitos indo para as paradas de ônibus rumo às suas casas. O iate seguira, vagaroso, até fundear ao largo do Forte do Castelo. O almoço foi servido. Pescada ao molho de camarão.

– Era o dia 12 de janeiro de 1616 quando os portugueses desembarcaram aqui, sob o comando de Francisco Caldeira Castelo Branco, oriundos do Maranhão. Começaram a construir o Forte do Presépio e chamaram ao lugar de Santa Maria de Belém, ou Feliz Lusitânia – começou Batista Campos, como se estivesse dando uma aula. – Nós, amazônidas, sempre estivemos à margem do Brasil, e, no entanto, temos 16% de toda a água de rio que desemboca no mar. O rio Amazonas é o maior rio do mundo, 140 quilômetros mais longo do que o rio Nilo, que era tido como o mais comprido do planeta. A comprovação foi feita por uma das mais sérias instituições científicas do Brasil, o Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que utilizou dados obtidos em expedição à nascente do Amazonas e imagens de satélite. A pesquisa foi apresentada à comunidade científica no Simpósio Latino-Americano de Sensoriamento Remoto, em setembro de 2008, em Cuba. Agora, o rio Amazonas mede 6.992,06 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Os livros de geografia que tratam do assunto serão reeditados. O geólogo Paulo Roberto Martini, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, disse que as medições antigas foram feitas sem o uso de metodologias científicas; isso mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm que ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. – Todos se prepararam para mais. Quando Batista Campos começava a divagar sobre o rio Amazonas, que era sua especialidade, juntamente com o arquipélago de Marajó, ao qual chamava de Mundo das Águas, não parava mais de falar. – O Amazonas foi chamado pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pizón, em 1500, de Mar Doce; o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas, em 1542. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões, e nós, do Pará e Amapá, chamamos de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do mundo, formada por 7 mil afluentes, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas, de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, banhando 17% do Peru, 2,2% do Equador, 11% da Bolívia, 63% do Brasil, 5,8% da Colômbia, 0,7% da Venezuela e 0,2% da Guiana. A bacia amazônica conta com 25 mil quilômetros de rios navegáveis. Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que a Europa. – Batista Campos parara de comer para falar sobre o grande rio. – Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, a mil quilômetros do mar e a garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade. Fora do estuário, a parte mais larga se situa próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros; chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz.

– E a vazão? – perguntou Apolo Brito.

– A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías de Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tâmisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos. O Amazonas despeja também no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, escancarando-se do arquipélago do Marajó até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia. Pois bem, as costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhadas de piratas, que vêm pegar, de arrastão, lagosta, camarão e outros frutos do mar – continuou Batista Campos.

– Nunca compreendi direito o Mar Dulce – disse Henrique Bolonha.

– O Mar Dulce é o rio Amazonas. Confunde-se o Amazonas com o emaranhado de água que banha o arquipélago de Marajó. O caso é que o arquipélago de Marajó, que se derrama debaixo da Linha Imaginária do Equador, emerge das águas do maior rio do mundo a noroeste; do rio Pará, ao sul; do rio Tocantins, a sudeste; e do oceano Atlântico, a nordeste. É impossível dizer com precisão quantas ilhas integram o arquipélago, pois há sempre novas ilhas emergindo ou sucumbindo na ditadura das águas. Contudo, registram-se 1.200 ilhas, a maior delas, Marajó, do tamanho de Portugal, a maior do planeta em águas salobras – disse Batista Campos, aproveitando para falar sobre outra de suas paixões: o Marajó. – No Mapa Múndi, Marajó se destaca maior do que a Jamaica, Porto Rico ou Trinidad e Tobago, no Caribe, ou do que a Córsega, na França mediterrânea, ou a ilha de Creta, no mesmo mar europeu-africano. O arquipélago é rico. Suas praias atlânticas são deslumbrantes; seus açaizais, imensos; seu rebanho bubalino, o maior do Brasil; sua cerâmica, exportada para o mundo inteiro, via Icoaraci; sua produção de frutos do mar faz do Pará o maior produtor de peixe do país; e o genial romancista Dalcídio Jurandir nasceu no município marajoara de Ponta de Pedras. No entanto, nesse arquipélago paradisíaco, curumins morrem devorados por verme, ameba, giárdia e malária; crianças são estupradas dentro de carros enquanto balsas cruzam os rios, e no interior de embarcações; ratos d’água atacam casas de ribeirinhos e estupram as mulheres, e contrabandistas pilham sítios arqueológicos e traficam para a Europa a cerâmica mais famosa do Brasil. Os governos federal e do Pará estiveram, sempre, de costas para o paraíso. Bastaria que estendessem o linhão de Tucuruí e construíssem a hidrovia do Marajó para que a região mais estonteante da Terra desabrochasse do seio das águas. A proximidade da hidrovia do Marajó com o porto de Santana, na zona metropolitana de Macapá, possibilitaria que produtos paraenses, como, por exemplo, açaí, piramutaba, cerâmica de Icoaraci e minérios, chegassem aos Estados Unidos, Europa e Japão com redução de custo. Essa é uma das maneiras de desenvolver a Amazônia, e não as balelas do governo federal.

Batista Campos não parava de falar. Lembrava uma enciclopédia ambulante sobre a Amazônia. “Os portugueses dizimaram pelo menos 2 milhões de índios na Amazônia brasileira, cifra estimada pelos pesquisadores, baseados em relatos de quem escreveu a história, que são os próprios portugueses, daí que o número deve ser muito maior, fora o outro tanto assassinado pelos espanhóis. Muitos desses índios foram torturados e mortos de modo infame, como barata, esmagados, seccionados pela espada lusitana. Até a Inquisição condenou índios. São cinco séculos de matança, de perseguição, de discriminação, de intolerância, cinco séculos de saque. Andaram atrás do El Dorado, que supunham localizar-se na mítica cidade de Manoa, à margem de um suposto lago Parima, nas montanhas das Guianas, e estiveram sempre sobre o El Dorado. O El Dorado é a própria Amazônia. Mas eles não poderiam levar a Amazônia para a Europa. Bem que tentaram, e foram derrotados. Nunca, porém, desistiram. O que ficou foi esse cadinho étnico maravilhoso, a amálgama das nações amazônicas com o português invasor e o africano escravo, e formamos este subcontinente sem rumo. Hoje, o caboclo, que odeia ser chamado de índio, e o mestiço, que detesta ser chamado de preto, são subjugados pelos governos mulatos, cafuzos e mamelucos, que se sucedem em Brasília e querem ser chamados de brancos, e também não têm rumo, ou melhor, só enxergam dinheiro. A raça humana viveu, sempre, numa contradição tremenda: sabe que se destruir a natureza destruirá a si mesma. É como um diabético que tem consciência de que quanto mais comer, quanto mais ingerir açúcar, terá primeiramente as extremidades do seu corpo amputadas, depois os membros e, finalmente, seus rins, seu coração, ou qualquer outro órgão fundamental, mas continua comendo em excesso; a raça humana sabe que se destruir a natureza destruirá a si mesma, mas continua devastando-a, destruindo-a, com a mesma determinação hereditária do escorpião, que carrega uma arma mortal no rabo. Somente uma pequena parte da humanidade evoluiu espiritualmente, enquanto a esmagadora maioria deu alguns passos adiante apenas na tecnologia, passos infinitamente pequenos frente ao tamanho de Deus. No Pará, acontecem coisas como prender uma menina numa cela com dezenas de bandidos violentos, durante um mês, e vê-la violentada, torturada, várias vezes por dia, todos os dias, com o consentimento da delegada, do secretário de segurança pública, da juíza de menores e da cidade onde isso ocorreu, Abaetetuba, no quintal de Belém. Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro são o Brasil de fato; nós somos o coração das trevas. A Amazônia nada mais é do que objeto de expectativas, de preconceito, de verdades pré-estabelecidas. Os valores que frequentemente lhe atribuem são falsos, deformados: o El Dorado, as amazonas, o inferno verde, o celeiro do mundo, o pulmão do planeta. Não conseguimos vê-la com lucidez, vemo-la sempre pela ótica dos luso-paulistanos, distorcida, colonialista – dizia Batista Campos.

Chovera. A costumeira chuva de todos os dias, como se fora um ritual da natureza. A tarde escorria, lenta, ao mormaço, a cidade mergulhada nos vagos sons das ruas meio desertas. Apolo Brito tomou a Avenida Presidente Vargas e percorreu-a toda, dobrando na Avenida Nazaré, até o Colégio Gentil Bittencourt, aonde chegou precisamente às 17h30, certo na saída da Transladação, a condução da imagem de Nossa Senhora de Nazaré para a Catedral da Sé, na Cidade Velha. A procissão tomou a Avenida Nazaré e foi fluindo, como um rio que naturalmente corre para a baía de Guajará. Índios, negros, descendentes de europeus, mulatos, mamelucos, cafuzos, ricos e pobres, gente linda e feia, todos se irmanavam diante da Virgem. As portuguesinhas eram sempre lindas, com sua pele leitosa e rosada, quadris e lábios generosos, cabelos geralmente longos e negros, e olhos de mel, de esmeralda, ou da cor do céu de agosto, além do que mais as caracterizavam, o sotaque belenense e pouca roupa. Quando a procissão chegou à Avenida Presidente Vargas, os círios pareciam pequenas bolas de fogo avançando lentamente como a própria noite que se acamava sobre a península belenense, uma grande nave espacial pronta para alçar voo sobre o Mundo das Águas. Apolo Brito tomou pela Avenida Assis de Vasconcelos rumo à sede da Companhia Docas do Pará, na Avenida Presidente Vargas 41, belo edifício em art déco projetado pelo arquiteto alemão Oswald Massler e inaugurado em 1940, para sediar a inglesa Booth Line. Tinha convite VIP para entrar no prédio. Seguiu para o terraço, onde se encontravam várias famílias importantes. Foi até o peitoril e olhou para baixo: centenas de milhares de pessoas aglomeravam-se em torno da Praça dos Estivadores, na esquina de Avenida Presidente Vargas com o Boulevard Castilhos França. Às 19h30, ouviu-se a sirene do prédio em art nouveau, projetado por Francisco Bolonha e inaugurado em 1895, do jornal Folha do Norte, na Rua Gaspar Viana com a Travessa Primeiro de Março, de fundo para a Praça dos Estivadores. Aí começou o espetáculo pirotécnico, homenagem dos estivadores à Virgem. O tempo parou sob as luzes dos foguetes, que se diluíam no ar, em ouro, prata e pedras preciosas, enquanto a romaria, sempre lenta como o rio Amazonas, avançava sob as luzes dos círios e da cidade. Apolo Brito desceu as escadas do prédio da CDP, tomou pela Avenida Presidente Vargas e depois pelas ruas João Alfredo e Padre Champagnat, até a Catedral da Sé, onde aguardou a chegada da Transladação, às 23h43, após 6 horas e 13 minutos de caminhada. Soube depois que segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socieconômicos (Dieese) cerca de 1,3 milhão de pessoas tinham acompanhado a Virgem. “O senador Fonteles não saiu de casa, mas participará do Círio, amanhã” – pensou.

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