Assim que foi absolvido na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados
abriu um grande sorriso e elevou a mão direita fechada, como fazia Pelé. A
diferença é que Pelé é o maior atleta de todos os tempos, e não deverá ser ultrapassado. Ao passo que o braço peludo do deputado corpulento e branco,
quase albino, remetia à pata de um porco yorkshire. O gesto continha alguma
coisa indecente. Os “trouxas”, como ele chamava a todos que não fossem da
organização a qual pertencia, iludiram-se pensando que o pegariam com míseros
R$ 10 mil. Fora flagrado com um depósito de R$ 10 mil na sua conta bancária,
feito por um dos operadores da sangria na Petrobras. A oposição – aquilo era oposição,
mesmo? – fez a maior grita e ele teve que enfrentar, enfrentar não, apenas teve
que passar por aquele tédio, que era a encenação da Comissão de Ética. Não
havia o que temer, o país estava todo aparelhado; os três poderes, inclusive as
Forças Armadas, que já estavam beijando as mãos do presidente da República e do
ministro da Defesa. O Supremo, a Receita, o BNDES, tudo estava aparelhado.
Temer o quê? O poder, especialmente o poder de esmagar quem atravessasse seu
caminho, excitava-o. Lembrou-se da sua sobrinha, gostosa que só ela, 17 anos.
Seu irmão caipira enviara-a para fazer o vestibular na UnB. Sua esposa teve que
passar uma semana fora, ele dispensou a empregada e no primeiro dia sozinho com
a sobrinha imobilizou-a e em meio a uma tonelada de “não, titio” e a estuprou
durante aquela semana inteira, deixando bem claro que se desse com a língua nos
dentes seria morta. Simples assim. Quando a esposa do yorkshire chegou, a
menina disse que precisava ir à sua casa, conseguiu dinheiro, foi-se embora e,
em casa, se matou. Ironia, havia furtado o revólver do bicho e se matou com
ele. Ficou por isso mesmo, pois ela não deixou um bilhete sequer, mas somente o
revólver. E depois ele era da cúpula da organização, pois o projeto para calar
a imprensa não era dele, tanto o que tramitava na Câmara quanto o de calar a
boca da mídia por meio de verba pública? “A esmagadora maioria dos jornalistas,
especialmente donos de empresas jornalísticas, é de putas, daquelas que chupam durante
três horas seguidas e ainda perguntam se estão chupando direito” – dizia. Chegava
a Brasília terça-feira à tarde e retornava para São Paulo quinta-feira à noite.
Às quintas-feiras à tarde já só ficavam ele e o chefe de gabinete. Estavam os
dois, lá, e o yorkshire começara a arrumar sua maleta. Era uma maleta especial.
Embutidos no seu couro, o porco traficava, a cada saída de Brasília, US$ 10
mil, em cédulas de US$ 1 mil, lavados na agência de publicidade do seu cunhado,
em São Paulo.
Os três estudantes chegaram por volta das 14 horas, pela
entrada do Senado. A segurança, uma senhora de nariz empinado, olhou suas
carteiras de identidade e perguntou a cada um deles aonde iam. À biblioteca,
responderam. Passaram pelo detector de metais, sempre sob o olhar vigilante do
magote de seguranças, que pareciam se esforçar para parecerem policiais de
verdade, e foram diretamente para a Câmara, tomaram a esteira rolante para o
Anexo IV e pouco depois entraram no corredor do pavimento onde ficava o
gabinete do deputado yorkshire. Quase não havia movimento naquela hora. Um
deles se atrasou e ficou num ponto de onde podia ver o hall e o corredor. Os
outros dois foram entrando no gabinete. Enquanto um cumprimentava o chefe de gabinete
e desferia-lhe, com a mão esquerda, forte pancada na nuca, o outro estava
prestes a fazer a mesma coisa com o deputado. Corpulento, com pescoço de touro,
o yorkshire ficou apenas tonto, mas quando ia reagir recebeu tremenda estocada
de caneta Bic na glote e começou a estrebuchar. Lembrava porco morto na roça;
depois de uma porretada na cabeça leva uma peixeirada no pescoço. Ele se
levantou, guinchando pela glote, derrubou tudo ao seu redor, recebeu um
telefone nas orelhas e desabou na sua grande mesa, sempre guinchando, até ficar
quieto. O assassino tirou da sua mochila uma faixa e a abriu sobre a mesa, na
frente do cadáver, que se tornara ainda mais monstruoso. A faixa dizia: “Comando
de Caça aos Corruptos. Este canalha é o primeiro de muitos que irão tombar!”
Quando o assassino saiu da sala do deputado o chefe de gabinete começava a
recobrar os sentidos, então o atingiu no bulbo occipital, próximo ao nervo
vago; quem conhece acupuntura sabe que se trata do ponto da viúva, o VG-15.
Ligaram para o que ficara no corredor. Tudo tranquilo. Tomaram
novamente as escadas e saíram pela portaria do Anexo IV, onde um automóvel
negro já os aguardava. Dentro do carro tiraram as perucas, barbichas e óculos
escuros. Estavam na faixa dos 30 anos. O do volante parecia ter o dobro da
idade deles. Dobraram no túnel do Itamaraty e pegaram o Eixo Monumental,
ladearam a Praça dos Três Poderes até o Palácio do Planalto e dobraram à
esquerda, seguindo novamente pelo Eixo Monumental. Antes de chegarem à
Rodoviária do Plano Piloto, dobraram à esquerda, em direção ao Setor de
Autarquias Sul. A temperatura ficara insuportável e o chão de concreto do
Conjunto Cultural da República parecia em chamas.
Conto curto mas empolgante, como tudo que o Ray Cuha escreve.
ResponderExcluirGelio Fregapani