quarta-feira, 15 de abril de 2015

CONTO/Planalto em chamas

Assim que foi absolvido na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados abriu um grande sorriso e elevou a mão direita fechada, como fazia Pelé. A diferença é que Pelé é o maior atleta de todos os tempos, e não deverá ultrapassado. Ao passo que o braço peludo do deputado corpulento e branco, quase albino, remetia à pata de um porco Yorkshire. O gesto continha alguma coisa indecente. Os “trouxas”, como ele chamava a todos que não fossem da organização a qual pertencia, iludiram-se pensando que o pegariam com míseros R$ 10 mil. Fora flagrado com um depósito de R$ 10 mil na sua conta bancária, feito por um dos operadores da sangria na Petrobras. A oposição – aquilo era oposição, mesmo? – fez a maior grita e ele teve que enfrentar, enfrentar não, apenas teve que passar por aquele tédio, que era a encenação da Comissão de Ética. Não havia o que temer, o país estava todo aparelhado; os três poderes, inclusive as Forças Armadas, que já estavam beijando as mãos do presidente da República e do ministro da Defesa. O Supremo, a Receita, o BNDES, tudo estava aparelhado. Temer o quê? O poder, especialmente o poder de esmagar quem atravessasse seu caminho, excitava-o. Lembrou-se da sua sobrinha, gostosa que só ela, 17 anos. Seu irmão caipira enviara-a para fazer o vestibular na UnB. Sua esposa teve que passar uma semana fora, ele dispensou a empregada e no primeiro dia sozinho com a sobrinha imobilizou-a e em meio a uma tonelada de “não, titio” e a estuprou durante aquela semana inteira, deixando bem claro que se desse com a língua nos dentes seria morta. Simples assim. Quando a esposa do Yorkshire chegou, a menina disse que precisava ir à sua casa, conseguiu dinheiro, foi-se embora e, em casa, se matou. Ironia, havia furtado o revólver do bicho e se matou com ele. Ficou por isso mesmo, pois ela não deixou um bilhete sequer, mas somente o revólver. E depois ele era da cúpula da organização, pois o projeto para calar a imprensa não era dele, tanto o que tramitava na Câmara quanto o de calar a boca da mídia por meio de verba pública? “A esmagadora maioria dos jornalistas, especialmente donos de empresas jornalísticas, é de putas, daquelas que chupam durante três horas seguidas e ainda perguntam se estão chupando direito” – dizia. Chegava a Brasília terça-feira à tarde e retornava para São Paulo quinta-feira à noite. Às quintas-feiras à tarde já só ficavam ele e o chefe de gabinete. Estavam os dois, lá, e o Yorkshire começara a arrumar sua maleta. Era uma maleta especial. Embutidos no seu couro, o porco traficava, a cada saída de Brasília, US$ 10 mil, em cédulas de US$ 1 mil, lavados na agência de publicidade do seu cunhado, em São Paulo.

Os três estudantes chegaram por volta das 14 horas, pela entrada do Senado. A segurança, uma senhora de nariz empinado, olhou suas carteiras de identidade e perguntou a cada um deles aonde iam. À biblioteca, responderam. Passaram pelo detector de metais, sempre sob o olhar vigilante do magote de seguranças, que pareciam se esforçar para parecerem policiais de verdade, e foram diretamente para a Câmara, tomaram a esteira rolante para o Anexo IV e pouco depois entraram no corredor do pavimento onde ficava o gabinete do deputado Yorkshire. Quase não havia movimento naquela hora. Um deles se atrasou e ficou num ponto de onde podia ver o hall e o corredor. Os outros dois foram entrando no gabinete. Enquanto um cumprimentava o chefe de gabinete e desferia-lhe, com a mão esquerda, forte pancada na nuca, o outro estava prestes a fazer a mesma coisa com o deputado. Corpulento, com pescoço de touro, o Yorkshire ficou apenas tonto, mas quando ia reagir recebeu tremenda estocada de caneta Bic na glote e começou a estrebuchar. Lembrava porco morto na roça; depois de uma porretada na cabeça leva uma peixeirada no pescoço. Ele se levantou, guinchando pela glote, derrubou tudo ao seu redor, recebeu um telefone nas orelhas e desabou na sua grande mesa, sempre guinchando, até ficar quieto. O assassino tirou da sua mochila uma faixa e a abriu sobre a mesa, na frente do cadáver, que se tornara ainda mais monstruoso. A faixa dizia: “Comando de Caça aos Corruptos. Este canalha é o primeiro de muitos que irão tombar!” Quando o assassino saiu da sala do deputado o chefe de gabinete começava a recobrar os sentidos, então o atingiu no bulbo occipital, próximo ao nervo vago; quem conhece acupuntura sabe que se trata do ponto da viúva, o VG-15.

Ligaram para o que ficara no corredor. Tudo tranquilo. Tomaram novamente as escadas e saíram pela portaria do Anexo IV, onde um automóvel negro já os aguardava. Dentro do carro tiraram as perucas, barbichas e óculos escuros. Estavam na faixa dos 30 anos. O do volante parecia ter o dobro da idade deles. Dobraram no túnel do Itamaraty e pegaram o Eixo Monumental, ladearam a Praça dos Três Poderes até o Palácio do Planalto e dobraram à esquerda, seguindo novamente pelo Eixo Monumental. Antes de chegarem à Rodoviária do Plano Piloto, dobraram à esquerda, em direção ao Setor de Autarquias Sul. A temperatura ficara insuportável e o chão de concreto do Conjunto Cultural da República parecia em chamas.

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