quarta-feira, 1 de julho de 2015

Estante comercial de jornalistas-escritores no SJPDF tem três livros de contos de Ray Cunha


MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 1 DE JULHO DE 2015 – O escritor e jornalista amazônida, natural do estado do Amapá e que vive em Brasília, Ray Cunha, está com três livros na recém-inaugurada estante dos jornalistas-escritores, no hall de entrada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), localizado no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É (Ler Editora – atual Libri Editorial –, Brasília, 2013, 153 páginas, R$ 30); TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 30); e O CASULO EXPOSTO (LGE Editora – atual LibriEditorial –, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 30).

Segundo o Sindicato, a estante é uma das ações que compõe o Projeto Jornalistas- Escritores, lançado em junho pelo SJPDF. “A iniciativa congrega uma série de ações que visam incentivar a divulgação dos livros escritos por jornalistas e a participação em feiras do setor, bem como monitorar os profissionais da área com informações pertinentes sobre a organização, elaboração e publicação de um livro” – diz matéria publicada no site do SJPDF, que firmou parceria com o Sindicato dos Escritores. “Ambas as instituições têm o intuito não só de divulgar as obras, mas também de realizar atividades conjuntas, como é o caso da realização de eventos. A oficina Como Fazer o Seu Livro, que deverá ocorrer ainda neste mês, é outro exemplo de atividade integrada proposta pelos dois sindicatos. O evento visa expor para os jornalistas-escritores os principais passos para organizar, escrever e publicar um livro.” LEIA MAIS sobre a estante dos jornalistas- escritores

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU fecha a trilogia que começou com A GRANDE FARRA (edição do autor, Brasília, 1992, esgotado) e prosseguiu com TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS, e que tem como espinha dorsal tanto o Inferno Verde quanto as metrópoles da Hileia. O livro reúne 14 histórias curtas ambientadas em Belém, personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará).

Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar de que a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – observa o escritor.

Trata-se de uma tomografia da Amazônia. “O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha.

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor...” Assim começa o primeiro conto de Na Boca do Jacaré-Açu, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano.

Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.

É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da National Geografic, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado... Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakesperianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o  perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e onde se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis – não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu.

PING-PONG COM RAY CUNHA – Como e por que você escolheu o título NA BOCA DO JACARÉ-AÇU?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É está à venda também na Livraria Cultura CasaPark e na Libri Editorial, pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, telefone: (55-61) 3362-0008, ou na editora, no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430.

Veja entrevista de Ray Cunha ao programa Tirando de Letra, da UnB TV, sobre NA BOCA DO JACARÉ-AÇU


TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – O segundo livro da trilogia Amazônia reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó. Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário rio Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca. A Grande Farra narra peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

Em artigo sobre TRÓPICO ÚMIDO, o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras, na TV Senado, diz o seguinte: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi.”

O CASULO EXPOSTO – Ray Cunha trabalhou como repórter em Brasília durante mais de duas décadas, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que lhe proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que lhe serviu para criar as personagens e o cenário das 17 histórias curtas ambientados no Distrito Federal, que compõem O CASULO EXPOSTO, “uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra” – assim Ray Cunha define o livro.

Novamente Maurício Melo Júnior, que prefaciou O CASULO EXPOSTO: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

O CASULO EXPOSTO está à venda na Livraria Leitura do Conjunto Nacional de Brasília, além da Libri Editorial, pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, telefone: (55-61) 3362-0008, ou na editora, no SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430.

RAY CUNHA POR RAY CUNHA – “Sou caboco (sic) de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde, além de trabalhar como jornalista freelance, é aluno do curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (Enac).

HIENA E A CONFRARIA CABANAGEM – Dois romances do autor estão à venda na Amazom.com e no Clube de Autores: HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM. Em HIENA, senador é encontrado morto, degolado com uma katana, a espada samurai, no luxuoso Tropical Hotel, no centro de Brasília, frequentado por políticos e prostitutas esculturais. A viúva do senador contrata o detetive Hiena para encontrar a agenda do parlamentar, um livro de capa preta, com nomes e contas em paraísos fiscais de um esquema que atinge toda a cúpula do governo. Dias depois, no mesmo hotel, some uma superagente da Polícia Federal. Ao investigar o caso, Hiena faz a maior descoberta da sua vida. O thriller é ambientado numa Brasília com o charme da arquitetura de Oscar Niemeyer, e nele transitam personagens reais, como o maestro Silvio Barbato e os pintores André Cerino e Olivar Cunha.

HIENA poderá ser adquirido na Amazom.com


Em a CONFRARIA CABANAGEM, a capital do estado do Pará, Belém, está imersa em corrupção, e para a misteriosa Confraria Cabanagem só o senador Fonteles, candidato ao governo, é capaz de acabar com a sangria, mas descobre um complô para assassiná-lo num crime perfeito. Assim, contrata o único homem capaz de impedir que eliminem o senador Fonteles: o detetive Apolo Brito, ex-delegado da Polícia Civil do Pará, e que atualmente mora em Brasília. Neste romance ensaístico emerge a Amazônia profunda e personalidades de carne e osso, como o jornalista Lúcio Flávio Pinto, misturam-se a personagens de ficção.

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*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília

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