terça-feira, 29 de setembro de 2015

Trecho de Inferno Verde, publicado no livro Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos

A excrescência lembrou-lhe um piolho sob uma lente de aumento. Camundongo examinava seu rosto no espelho do banheiro, na luz amarela de uma lâmpada de duzentas velas. Poderia ser um tumor, uma espinha, um cravo inflamado, um fungo, uma imundície qualquer na pele. Naquele rosto engelhado como maracujá de gaveta poderia ser qualquer coisa, até mesmo uma sinistra ruga de células cancerosas. Seu rosto no espelho, iluminado à luz de duzentas velas, era um neo-realismo deprimente. Uma ruína viva, arquejando em silêncio, suplicando para morrer e finalmente transformar-se em adubo e desaparecer para sempre no nada. Tornara-se aquele degenerado olhando-o do espelho. A carne crescida, inflamada pela vigília literária, estava como uma posta de sangue. Mesmo assim Camundongo enxergava bem. A visão, inclusive a interior, fora um dom que Deus lhe dera. Podia ler em corpo oito, sem óculos, e podia ver, também, numa clarividência, quando alguém estava caminhando sobre o fio da navalha. As maçãs do rosto eram secas como tetas muito chupadas e apalpadas por muitos homens, com força, e por muito tempo. Os lábios assemelhavam-se a um fio pálido e encarquilhado. Orelhas de abano, com os lóbulos enormes como colhões velhos, davam-lhe um aspecto de morcego. O nariz de anta, o queixo atrofiado e o rosto miúdo é que lembravam um camundongo, desenhado por um desses pintores neo-realistas, em escala ampliada. Tinha olhos tristes, que não mentiam, que provocavam calafrios nas suas confissões. O único fator que o tornava tolerável era a bondade que emanava do seu ser. Sem isso, ninguém poderia olhar para sua cara e suportá-lo. Enquanto observava a pele do rosto - como um proctologista examina o ânus em busca do indício de hemorróidas -, Camundongo namorava com a morte. Escolhera a cidade mais estrangeira para viver. Ou morrer?

As cigarras gritavam no ar seco da superquadra. Sombras acamavam-se, lentas, sobre o bosquinho que ladeava o prédio, quando Camundongo deixou o apartamento e dirigiu-se para seu velho Alfa Romeo marron. Tomou a L-2 Sul rumo ao Conjunto Nacional. Gostava de ver os luminosos gigantescos da fachada do shopping, e também de tomar o expresso do Café Doce Café. Compreendia como ninguém aquela cidade. “Em Brasília, não há lugar para fracassados; só há lugar para vencedores. Os perdedores caem fora” - dissera-lhe Cacique, chefe da sucursal do Observador Amazônico. Agora, oito anos depois, sabia que o comentário de Cacique era um equívoco. Um equívoco, ou apenas a realidade vista da ótica de Cacique. Fosse lá como fosse, Brasília estava cheia de perdedores, gente que fracassara nas suas cidades de origem e que correra para Brasília. Os goianos já estavam lá. A primeira leva que chegou ao Cerrado foi de nordestinos. A segunda leva foi de cariocas, com seu sotaque gracioso. Os mineiros chegaram depois, e tomaram conta da cidade. Cercaram-na de montanhas, como o é o próprio estado de Minas Gerais, e desde então desenvolveram sua política de cochichos. Além disso, os mineiros se conhecem por um sinal invisível na testa, de modo que quando vieram os paulistanos, os gaúchos e os amazônidas formaram todos uma república babélica sob o domínio mineiro. Os primeiros ciclopes a chegar auto-intitularam-se pioneiros, espetaram uma estrela de xerife no peito e impuseram-se a missão de defender o Patrimônio Cultural da Humanidade.

Naquele dia de 1989, recém-chegado de Belém do Pará, quando Cacique lhe dissera que Brasília era uma cidadela de vencedores, Camundongo assumiu a cobertura do Congresso Nacional. Estava com cinqüenta e um anos de idade e já tinha entrado naquele processo de envelhecimento resultado de quatro décadas de álcool e cigarro. Era mais um apátrida fracassado que engrossava a poeira vermelha que se erguia alto no céu do Distrito Federal. Chamava-se Joaquim Silva Gomes. Desde criança ganhara o apelido de Comundongo. Achava melhor do que rato. Seu pai era um português, já morto, que se casara com uma cafuza a quem escravizara. Camundongo nascera desse casamento infame, mas tivera uma infância dourada em Mosqueiro, ilha paradisíaca, de águas salobras, em Belém do Pará. A boa vida terminara com uma sucessão de estocadas do azar. Apaixonou-se mortalmente por uma sobrinha, Mena, que se casou com um funcionário da empresa de pesca do pai de Camundongo e tinha atualmente cinqüenta anos de idade, pelancas e incontáveis filhos, mas que ainda era o grande amor da sua vida e, por essa razão, deixara sua alma aleijada. Teve de se mudar para Belém, para prosseguir nos estudos, e conheceu uma turma de literatos que lhe inocularam o veneno do ato de ler, para sempre. Foi quando seu pai perdeu tudo e se matou nadando baía afora. Tinha, então, graduado-se em letras, levado pelo maravilhoso talento de leitor nato. Isso, mais o poder de enxergar a alma dos atores sociais com olhos de navalha, levou-o ao jornalismo. Conheceu Sílvia, com quem se casou e teve uma filha retardada, a quem chamava de Luz da Minha Vida, “a dor que faço questão de sofrer”. Numa tarde infernal de 1989, Camundongo cochilou no volante na Belém-Mosqueiro e matou sua mulher e a luz da sua vida, seccionando sem anestesia seu único prazer de viver. Cacique, velho amigo da família, o socorreu na sua dor sem remédio e que oito anos depois continuava latejando e doendo sem parar.

Assim é que Brasília ajustava-se-lhe como uma luva. Uma cidade sem alma para um homem morto. Brasília era sua sepultura, com suas ruas sem nome e sem esquina, seus cerrados solitários, seu modernismo equivocado e seus pioneiros ciosos de garantir o apodrecimento do Patrimônio Cultural da Humanidade. O remorso assassino que ocupava sua memória desde que matara, num cochilo irresponsável, a própria luz da sua vida, era de certo modo atenuado pela cidade, que produzia o efeito, sobre ele, de um local asséptico, com ladrilhos brancos, cheirando a desinfetante. Mas por trás disso escorria o miasma da podridão.

Havia um restaurante anexo ao prédio onde ficava a sucursal, no Setor de Indústrias Gráficas, dirigido por um paraense conhecido por Seu Primo. Quando Camundongo entrou, Seu Primo foi cumprimentá-lo e acendeu-lhe o Malboro. Depois, compreendendo que Camundongo queria ficar a sós com Brito, o outro repórter da sucursal, retirou-se para detrás do balcão.

- E então? - Camundongo perguntou.

- Descobri o endereço - disse Brito, com sua pronúncia límpida, como só os mineiros de Belo Horizonte conseguem entoar. - O Frazão, da Costumes, está investigando.

Camundongo chupou uma grande quantidade de fumaça e foi expelindo-a aos pouquinhos. Observava seu colega, um tipo de trinta anos de idade, mais ou menos. Usava cavanhaque e óculos, era alto e tinha a ambição na mesma altura. Camundongo sabia, por intermédio do velho amigo Cacique, que Brito ambicionava cobrir o Congresso Nacional; por isso vigiava Camundongo, à espera de algum deslize “daquele rato velho”. Brito decidira que a cobertura do Congresso Nacional não podia ficar nas mãos de alguém do Norte. “Esses índios do Norte sabem pelo menos o que é jornal?” - perguntava-se. Além disso, Camundongo já deveria estar quietinho no Campo da Esperança, onde Brito poderia dar uma mijada de vez em quando na sepultura dele. Mas havia dois problemas que lhe impediam de mijar sobre a sepultura de Camundongo: a sucursal era de um jornal paraense; mineiro não oficiava seu culto ali dentro. O outro problema era o próprio Camundongo, com seu refinado espírito investigativo, que já rendera várias manchetes políticas e econômicas ao Observador Amazônico.

- Já não pretendo ficar muito tempo no jornal. Posso me aposentar na hora que bem entender. Mas quero resolver esse caso - disse Camundongo, olhando fixamente para Brito. - Acho que tu deverias me dizer logo de uma vez a verdade.

Brito engoliu em seco. Como aquele rato do Norte podia falar assim com ele, um mineiro?

- O delegado Frazão vem se dedicando ao sumiço de meninas há anos. Ele descobriu que há um senador metido nisso. O cara é do Pará - Brito desembuchou, esmigalhado pelo olhar suicida de Camundongo.

- Qual o nome dele? - Camundongo perguntou.

- Babá Carvalho - Brito se mexeu na cadeira.

- Lembras-te: este é meu último caso - disse Camundongo. Quero saber tudo.

Momentos depois, Camundongo dirigia pela Estrada Parque Taguatinga, a EPTG. Não demorou para que chegasse a Taguatinga, uma cidade a vinte quilômetros de Brasília. Tomou a Avenida Comercial Sul em direção à Vila Dimas.

A casa não tinha nada de especial.

- Boa noite! - disse Camundongo. - Procuro pela senhora Nathalia. Quero tomar uma Bohemia - disse à moça que o atendeu. Ela murmurou alguma coisa e Camundongo a seguiu através de um corredor lateral, entre o muro e a parede da casa. Entraram à esquerda, numa salinha mal iluminada. Depois seguiram por outro corredor, paralelo ao primeiro, até darem num salão onde havia um balcão e um homem atrás do balcão. O homem sorriu para Camundongo e lhe perguntou o que queria beber.

- Tem Cerpinha? - perguntou Camundongo.

- Aqui temos tudo, “míster” - disse o homem.

- Pode me chamar de Camundongo.

O homem foi apanhar a cerveja e enquanto servia-a examinava o recém-chegado.

- Qual o seu ramo, “míster”? - indagou.

- Sou amigo do senador Babá Carvalho - disse Camundongo.

O homem do balcão pensou um pouco.

- Aqui, atendemos de empresários a senadores. Temos tudo o que possam querer. O senador Babá Carvalho, por exemplo, só bebe Cerpa, como o senhor. O senhor é do Norte, também? - disse o homem do balcão.

- Precisamente do Pará - disse Camundongo.

- O senhor só toma Cerpa?

- Só vario a taça.

- Como assim?

- Às vezes, gosto de usar uma taça pubiana.

O homem do balcão pareceu não entender.

- As taças pubianas só a mulheres as têm. No meio das pernas - prosseguiu Camundongo.

- Ah! entendo! - disse o homem do balcão. - Chamo-me Padre - apresentou-se. - Faz sentido, pois escuto as confissões dos clientes. Na verdade são fantasiosas, mas procuro satisfazê-las, entende?

- Estou satisfeito de ter vindo aqui. É justamente este lugar que procurava. Estou disposto a pagar o que for necessário, mas antes preciso ver a mercadoria - disse Camundongo.

- Confesse! confesse! - disse Padre. - Estou aqui para ouvir - e serviu mais uma Cerpinha.

- Bom, sou muito sofisticado. E objetivo também. Procuro uma menina. De preferência paraense. - Disse isso e corou. Sentiu-se corar, mas esse pudor certamente passaria desapercebido no seu rosto de maracujá de gaveta.

O homem do balcão pensou um pouco.

- Realmente seu gosto é refinado. Vou apresentá-lo à Nathalia. - E foi até uma porta nos fundos do bar, de onde saiu com um barman. Padre convidou Camundongo a acompanhá-lo. Saíram da casa pelos fundos e dirigiram-se para o muro, onde, por trás, erguia-se uma mansão. Padre abriu um portão de ferro e ambos passaram por ele, o qual o cicerone voltou a trancar com cadeado. Estavam no terreno da mansão que aparecia nos fundos da casa onde ficava o bar. Entraram numa sucessão de compartimentos que lembrava a Camundongo um hotel, até chegarem a um salão, onde madame Nathalia aguardava. Padre apresentou-os e sumiu. Madame Nathalia devia ter cinqüenta anos. Era bonita e elegante.

- Então o senhor quer uma garotinha paraense? - perguntou-lhe. - Dizem que as meninas do Pará são precoces. Na verdade tenho muitas.

“Essa vaca ouve tudo o que se diz nesta casa, inclusive murmúrios. O confessionário do Padre tem mais de dois ouvidos” - Camundongo pensou.

- Muitas? Serão melhores do que as goianas, as mineiras? - camundongo perguntou.

- É como lhe disse: são precoces. Tenho um cliente que as prefere.

- O senador Babá Carvalho.

- O senhor o conhece?

- Somos velhos conhecidos.

- Foi ele que lhe indicou nosso clube? - madame perguntou.

- Oh! Sim.

Padre entrou com uma bandeja, na qual havia uma garrafa de licor e dois cálices. Antes de pôr a bandeja na mesinha, abaixou-se e cochichou com madame Nathalia. Camundongo ouviu as palavras “boca de sacola” e “Belém”.

- Mas voltando ao nosso assunto, o senhor quer ver nossos álbuns? - madame perguntou, servindo-os do licor de bacuri.

- A senhora é paraense? - Camundongo lhe perguntou.

- Sou. Estou há muito tempo aqui.

- Entendo. Sim, quero ver a cocaína.

- Cocaína? - disse madame, quase deixando o cálice cair.

- Por que não? - disse camundongo, com fingida casualidade.

- O que você sabe da cocaína? - madame perguntou.

- Bom, eu me referia às meninas, mas já que há também cocaína... Na verdade, estou interessado mesmo é por cocaína. Há muito tempo que não me interesso por mulheres, quanto mais por meninas.

Madame pensava a mil por hora. De repente, perpassou-lhe uma espécie de alívio no rosto, como quem acaba de matar uma charada.

- Afinal, o que é que o senhor quer?

Camundongo sentiu de repente uma ansiedade mortal, como se algo diabólico fosse-lhe acontecer naquele exato momento. Desesperado, levantou-se e pediu para ir ao banheiro. Sacou o celular do bolso e ligou para Isaías Oliveira, que naquele momento dirigia-se para a casa de Elza Ladrona.

- Uma tal Nathalia, que trafica crianças daí de Belém e as traz para Brasília, confirmou que a Ratazana está por trás do tráfico de cocaína da Colômbia, fazendo conexão no Marajó. Devo tê-la ouvido mencionar “boca de sacola” e “Belém” a um sujeito que trabalha com ela. Deu-me a impressão de que se tratava de uma pessoa...

Isaías Oliveira ouviu uma explosão do outro lado da linha.

- Alô! Alô!

Nada.

O Alfa Romeo foi encontrado, no dia seguinte, entre os arbustos tortos do Cerrado. A morte dera a Camundongo a paz que tanto buscou, pois seu rosto cadavérico parecia sorrir.