quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A idade da razão

Nasci em 7 de agosto de 1954; Macapá, minha cidade natal, cortada pela Linha Imaginária do Equador, à margem esquerda do Amazonas, quase na boca do maior rio do planeta, era então um povoado ribeirinho, mas nunca senti o emparedamento, a solidão dos povoados amazônicos, porque, quando crianças, vivemos numa dimensão muito mais ampla do que a dos adultos, e, aos 5 anos, os gibis inocularam-me para sempre o vírus da aventura; aos 13, já lia autores da pesada; aos 14, bebia, conversava sobre filosofia e arte, e escrevia até de madrugada; aos 17, recebi meu batismo de fogo, como disse o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, e peguei o rio e a BR.

Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento frustrado por absoluto fracasso meu, comecei o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B.

B media um metro e noventa, por aí assim, pesava uns 100 quilos, tinha os olhos claros e exercia fascínio sobre as mulheres, inclusive casadas. Depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, sua verve pessimista assustava todo mundo, daí que não vivia cercado de amigos. No nosso caso, havia uma coisa que interessava a ambos: os livros e os escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gosto de todos eles. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu, e, à sua maneira, sábio.

Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia após os 60 anos. Estive, muitas vezes, à beira do abismo; caí no poço dos prazeres mais carnais, e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperados, dos desesperançados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz onírica, o levantar voo num sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.

Comecei a mergulhar em novo conhecimento, a entender a máxima do filósofo Massaharu Taniguchi, que a matéria é sombra da mente. Se antes, aos 21 anos, sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas – turbinas que me conduzem à velocidade da luz, alimentada pela visão de uma rosa que se desnuda, de jasmineiros que choram nas noites tórridas, do azul que sangra, do som da Terra no espaço.

B, estou me sentindo sábio!

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