segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vou escalar o Pico da Neblina



A vida é como o fluir da água nas nascentes, nos rios aéreos, na chuva, no mar. É a espiral da caminhada, o espaço, o tempo, a gravidade, a causa e o efeito, o transcender da matéria, asas de luz. Este, é um ano alado, para mim. Tenho sobrevoado o Pico da Neblina, ouvido La Cumparsita, com Carlos Lazzari, Naoko Terai e Julio Iglesias; Granada, com Juan Diego Florez; Zorba, o Grego, de Mikis Theodorakis; Nino Rota; Summertime, de George Gershwin; Tocata e Fuga, de Johann Sebastian Bach, e o latejar da Terra no espaço, de madrugada, quando o mundo se abre como rosa ao sol, no silêncio da alma.

Este ano será mágico, como todos os anos da minha vida, pois aprendi, mais uma vez, que as mulheres são, todas, princesas, lindas como rosas nuas, e que não têm dono, porque cada uma delas é o mar. É ilusão pensar que as possuímos; não se pode ser dono do azul. Mas elas nos deixam sentir seu cheiro, e até nos perder nos seus olhos, cada vez mais amoroso, principalmente quando cavalgamos a luz.

Sinto-me como os pardais, que não querem nada e não se preocupam com coisa alguma; podem comer quase tudo e só precisam de um pequeno espaço para passar a noite. E se tenho alimento, qualquer um, se conto com um lar, para me abrigar do sol, da chuva e da noite, e se a mulher amada sorri para mim, sei de pronto que meu Pai, inesgotável na Sua riqueza, arruma todas as minhas manhãs, com um jardim iluminado por Van Gogh e perfumado por jasmineiros noturnos.

A cada ano, meus sentidos vão perdendo o apuro dos 21 anos e ficando mais sutis; já posso ouvir sons vindos das dimensões mais inimagináveis; cada vez mais ouço a música de Wolfgang Amadeus Mozart e sinto o cheiro do mar nos romances de Joseph Conrad. Cada vez mais, mergulho nos abismos da mulher amada e escalo o Pico da Neblina, num olhar, no seu cheiro, no seu sabor, quando se entrega a mim, voo vertiginoso como o abismo, redentor como prece, lúcido como acme.

E assim vão-se os anos, todos eles prenhes de aventura, porque a vida é todo dia infinitos momentos mágicos, veios prenhes de pedras preciosas, garimpados com o coração, pois só encontramos rubis azuis quando amamos. De modo que este ano, como todos os outros, é movido pelo cataclismo do primeiro beijo, o namoro desesperado a uma rosa, o azul de agosto, que sangra como o mar, e encerra todo o mistério feminino.

Tenho tudo o que preciso, os livros que releio sempre, as músicas que não me canso de ouvir, telas de Olivar Cunha, internet, os alimentos mais saborosos do mundo, a madrugada e o anoitecer, colostro, e mais de mil possibilidades, inclusive Macapá, Belém e o Rio de Janeiro. E posso até escalar o Pico da Neblina.

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