quinta-feira, 19 de maio de 2016

A mulher que me ensinou a voar

Três momentos da mulher amada: na primeira foto, captada
pela lente de Ivaldo Cavalcante; grávida de 
uma flor, Iasmim;
e o sorriso de sol na Calçada da Fama, na Seicho-No-Ie 

BRASÍLIA, 19 DE MAIO DE 2016 - A manhã de 20 de maio de 1968, em Macapá, foi excepcional. As flores desabrocharam em questão de segundos ao sol, deixando o ar prenhe de perfume e a Linha Imaginária do Equador girando igual música de Mozart. Eu tinha 14 anos e já recebera o batismo de fogo azul, por isso percebi que a manhã fora arrumada por Deus, pois entre as flores vivificadas pela luz, uma recebeu o nome de Josiane Souza Moreira.

Só a conheci 19 anos depois, em Brasília. Cafuza, linda que só ela, parecia um arbusto com sabor de Dom Pérignon, safra de 1954. Começamos a namorar em 15 de maio de 1988, no cinema do Conjunto Nacional, vendo O Último Imperador da China, de Bernardo Bertolucci. Casamo-nos no religioso em 21 de maio de 1989 e, no civil, em 6 de agosto de 2010. Em 22 de fevereiro de 1990, Josiane deu à luz uma princesa com nome de flor: Iasmim.

Quando a conheci, eu tinha 33 anos de idade, 14 mais do que ela, vinha de um casamento fracassado, vivia mergulhado no álcool, trabalhava num jornal sem futuro (Correio do Brasil, que já fechou as portas há muito tempo) e sou feio. Mas ela me viu leão de asas na dimensão azul, e desde aquela noite de 15 de maio de 1988, namoramos todos os dias, até quando estamos perdidos, pois nos encontramos no coração, onde não existe tempo nem espaço; só há o agora e o agora, o momento mesmo da eternidade.

Ela entrou na minha vida como raio de sol iluminando minha alma, como o hálito do Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor, de Mozart, como o azul do mar, tão azul que sangra. Desde então, deposito nas tuas mãos, Josiane Souza Moreira Cunha, todo o meu tesouro, um abismo de rosas vermelhas, colombianas, risos de crianças, o triunfo da Luz.


MINHA NAMORADA

O primeiro beijo que me deste, explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo

Desde então, flor da minha vida,
Voo na tua dimensão
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada!

Segue-me, pois te mostrei quase nada
E tenho a chave dos sonhos
Que conduzem à eternidade

À fogueira do nosso amor, minha namorada,
Ao voo vertiginoso
Da luz movida a acme

A NOITE É SÓ NOSSA

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio
Ao largo do Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Amor da minha vida esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida
E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias
E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Amarcord, de Nino Rota
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia
Só nossa! 

domingo, 8 de maio de 2016

Mamãe era como as rosas, inexpugnável na sua fragilidade, imortal na sua beleza

Marina Pereira Silva Cunha, imortalizada
pela espátula genial de Olivar Cunha

Marina Pereira Silva Cunha, minha mãe, foi a mulher mais bonita, corajosa e iluminada que conheci. Amava-a incondicionalmente. Sua presença, seu perfume, seu calor, eram redentores, e nutrem-me como cascata que cai do alto da montanha, alimentando minha alma. Certo domingo, eu era criança, talvez tivesse 7 anos, fomos, só ela e eu, à missa matinal na Catedral de Macapá. O farfalhar de seda, o perfume, principalmente o de minha mãe, os rumores dentro do templo, o latim, as imagens impressionantes dos santos, a hóstia, e a pureza que senti em tudo aquilo, me marcaram para sempre. Uma vez, ela foi a Belém, onde passou alguns poucos dias. Então, escrevi uma cartinha a ela, e chorei. Nos fins de semana, gostava de fazer-lhe companhia, de ouvir sua voz, de ver seus olhos, grandes e redentores. Ela era uma leoa; cuidou, simultaneamente, de 10 filhos e do papai, João Raimundo Cunha. Ensinou-nos a ler e a escrever, a todos nós, cozinhou para nós, em fogão a lenha e depois a gás, lavou e passou em ferro a brasa e depois elétrico, limpou a Casa Amarela durante décadas, e nos ensinou a amar. Era como as rosas, inexpugnável na sua fragilidade, imortal na sua beleza. Quando oro, sinto-a me abraçando, sinto seu perfume, seu hálito, e então sinto-me imortal. Obrigado, mamãe!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Rosa

Rosa, Mel, Linda, irmãs amadas, e eu

Minha Rosa caçula foi para o Éter
Foi encontrar-se com entes amados
Está no Azul
Montou a Luz
Foi para as cores mais alegres de Olivar Cunha
Aonde o azul é tão azul que verte rosas vermelhas
Os jasmineiros choram Mozart e Chanel 5
E o silêncio é feito de sintonia fina
Na sua vida não há mais força de gravidade
Nem distância, nem tempo
Só há eternidade, agora
Hoje de manhã, ao sintonizar com meus antepassados,
E todos os que amo,
Senti o cheiro da minha Rosa caçula
Cheiro de infância, de amanhecer, de primavera
Do voo dos pássaros
E dos astros
Minha Rosa caçula
Ri o riso mais cristalino, como cascata que cai
Do alto da montanha
E transborda entre as pedras
Ouço em toda parte o riso da minha Rosa caçula
Nos jardins de Deus, infindáveis, eternos
Sem início e sem fim
E que só cabem no meu coração!