segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Coluna CAFÉ ESPRESSO - Crônicas e Contos

Café

RAY CUNHA

Durante muito tempo, o Café Doce Café reinou como um dos pontos mais aprazíveis do meu circuito nas entranhas de Brasília. Localizado no átrio do Conjunto Nacional, constituía-se em mirante de onde podia apreciar, sem ser notado, as mulheres lindas que passavam por ali, algumas tão monumentais que faziam justiça à arquitetura de Oscar Niemeyer. Muitas delas, antes de sumir nos labirintos do shopping, tornavam o dia mais luminoso, fazendo uma parada no café. De lá, eu costumava ir à antiga livraria Sodiler – depois, La Selva, seguida de uma loja de calçados, e, agora, parece-me que uma loja de roupas.

Um dia, arrancaram a maior parte do balcão de mármore do Café Doce Café e o substituíram por vidro, para que as pessoas pudessem ver os salgadinhos. Continuei a frequentá-lo, mais pelo mirante do que pelo café, que, aliás, sempre foi robusta, aquele tipo amargo, barato, das lanchonetes populares. Durante algum tempo, mantiveram as colherinhas de metal e as xícaras e pires clássicos. Mas isso não durou muito; as colheres foram substituídas por hastes de plástico, e os pires e xícaras de desenho clássico foram-se trincando, quebrando, até serem substituídos por louça horrorosa, além de que o balcão de mármore sofreu nova e drástica redução. Assim, tive que descobrir novos mirantes, como o Kopenhagen, no segundo piso do shopping, ao lado da livraria Saraiva.

A propósito, o problema da Saraiva é música ambiente. Há sempre um desses dançarinos-cantores unissex guinchando nos alto-falantes da loja. Voltando à Kopenhagen, é bastante agradável, os móveis são de palhinha e podemos descortinar o passa-passa numa grande área do shopping – verdadeiro laboratório literário. Além disso, a colherinha é de metal e o café, blend.

Sou apreciador de café espresso. Comecei a degustá-lo na companhia de um amigo de infância, o jornalista Ribamar Teixeira, que, como eu, é brasiliense de Macapá. Eu já li bastante sobre café e fiz dois cursos de barista, por curtição, com o ítalo-brasileiro Antonello Monardo.

Café espresso recebeu esse nome porque foi inventado pelos italianos. É tirado por pressão, daí o “espresso” italiano, que, vertido para o português, virou, para muita gente, “expresso”, o que lhe dá a conotação de que é um café tirado rapidamente. Muitos não tomam espresso por duas razões: ou estão habituados ao chafé de botequim, conhecido como carioca, ou acham que é muito forte. Neste caso, é só tomar um curto.

É o seguinte: café contém mais de mil essências nutritivas. Ao se tirar um espresso, essas essências são encontradas somente na primeira parte que cai, ou seja, na metade da xícara de 30 ml; o restante é pura cafeína. Assim, um curto é a meia xícara do primeiro café tirado – trata-se, portanto, de um café encorpado, aromatizado e revigorante.

Tem mais uma questão importante. Há dois tipos de café: robusta e arábica. O robusta é resistente à praga e por isso mais barato, mas tão amargo que só entra com muito açúcar. É servido em toda parte; somente as cafeterias de primeira linha servem arábica, um café encorpado, aromático e naturalmente adocicado.

O mais famoso do mundo é o italiano Illy, blend dos melhores arábicas do planeta, especialmente do sul de Minas Gerais. A fábrica fornece sachê de Illy para todo o mundo. A primeira vez que experimentei um Illy foi no Saborela, na 112 Norte, Bloco C, Loja 38, tirado pelo barista Bruno Kzam.

O café arábica do sul de Minas Gerais, maior produtor do Brasil (e este, maior produtor do mundo), é um dos melhores do planeta. É leiloado. Oitenta por centro ficam com os alemães. Os japoneses também são grandes compradores. Em Tókio, um espresso custa pelo menos US$ 5.

Meu café preferido é 3 Corações, gourmet (arábica e sem impurezas). Eu mesmo o tiro ao coador, ainda de madrugada, quando me levanto. À tarde, costumo tomar um espresso, confortavelmente instalado num mirante.

domingo, 12 de novembro de 2017

Coluna CAFÉ ESPRESSO - Crônicas e Contos

Negra em vestido de seda

RAY CUNHA

Degustava um Illy no café de uma livraria no Pátio Brasil quando a vi. Senti imediatamente seu perfume, que se misturou ao sortilégio do espresso, o aroma dos melhores arábicas do mundo. À sua passagem, infinitas possibilidades se iluminaram; de repente, velhos prazeres esquecidos, projetos de viagens adiados, sensações adormecidas, acordaram à sua passagem.

Entendo que seda é o melhor tecido para sugerir as curvas de uma mulher, para desenhar, na nossa imaginação, seus encantos inacessíveis, para exalar a química do prazer que captamos com as antenas dos sentidos, e ela trajava um vestido de seda amarelo, estampado com rosas colombianas vermelhas.

Seu andar – andar, não, trote – tinha a cadência das potras nascidas em cavalariça de ouro, trotar de bailarina clássica, o caminhar de mulheres sobre saltos tão altos que as fazem andar na ponta dos pés. E o vestido de seda lhe desenhava as formas no seu passeio pelo shopping.

Tudo foi num instante, mas na dimensão em que a vi pude examiná-la minuciosamente. O primeiro impacto que sofri ao vê-la foi uma sensação tátil: a sua pele de jambo maduro, sedosa como seu vestido. Tinha nariz português, boca de negra e olhos verdes. Dentro do instante intenso, viajei, instantaneamente, à velocidade da luz, à Estação das Docas, em Belém, e fui também à Macapá, onde a Linha Imaginária do Equador faz esquina com o maior rio do mundo, e o rio Amazonas me conduziu ao Caribe de Gabriel García Márquez.

A negra misteriosa passou rente a mim e me ofertou seu perfume, que identifiquei imediatamente: Chanel 5, o que mais gosto de aspirar na pele feminina. Ela passou tão rente a mim que tive a sensação de que a seda do seu vestido roçou no meu cérebro. Quis ficar ali, naquela eternidade, sentindo-me cair para cima, numa sequência infinita de gozos múltiplos, só de observá-la, mas o compromisso na embaixada de Portugal acertou-me em cheio na cabeça, como um tiro que nos reconduz à rotina. Dali a pouco estaria bebericando vinho do Porto no Instituto Camões.

sábado, 11 de novembro de 2017

Coluna CAFÉ ESPRESSO - Crônicas e Contos

Este conto está à espera de um artista para ilustrá-lo e se tornar livro!

A aventura do leão
Cândido em Brasília

RAY CUNHA

Era uma vez, no Quênia, país da África oriental, um guia chamado Lili, que ganhava a vida conduzindo expedições ao coração da selva. Um dia, Lili participava de uma expedição policial em perseguição a caçadores, mas não puderam impedi-los de matar uma leoa e fugissem a seguir. Ao se aproximar da leoa, Lili descobriu que havia um gatinho ao lado dela. O gatinho estava chorando. Lili o pegou ao colo e pediu ao chefe da expedição autorização para adotar o gatinho, no que foi atendido.

Cândido Lili, como foi batizado o leãozinho, era muito amoroso e logo fez amizade com todos os animais da fazenda de Lili. Nem as galinhas tinham medo dele, pois Cândido foi educado a não matar sequer uma mosca. Além disso, ele não comia carne vermelha, mas apenas filé de peixe cozido, com arroz integral, e uma ração que Lili inventou, à base de soja. Cândido gostava de tudo da fazenda, sobretudo da companhia de Lili, tanto que o imitava muito bem, de tal modo que acabou aprendendo a se vestir e a falar português do jeitinho de Lili, que nascera em Brasília. À noitinha, os dois sentavam-se na varanda e o guia contava para Cândido como era a vida na capital brasileira.

– Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional, um grande shopping defronte ao Teatro Cláudio Santoro, muito agradável, onde sempre compro livros na livraria Leitura, e almoço também lá mesmo. No Brasil, temos um prato, a feijoada, que foi inventada pelos nossos antepassados africanos. Você sabia, Cândido, que os africanos são também nossos antepassados, além dos índios e portugueses?

Cândido ouvia, sonhador, o pai adotivo.

– Pois é, Cândido, a feijoada é composta de feijão preto; pés, rabo e orelha de porco; e toucinho defumado, com arroz e couve frita. Se a pessoa quiser, pode pôr também um pouquinho de caldo de feijão com pimenta.

Cândido sentia água na boca.

E de tanto Lili contar como era Brasília, Cândido jurou a si mesmo que um dia visitaria aquela cidade tão encantadora, sobretudo para se empanturrar na praça de alimentação do Conjunto Nacional.

O desejo de Cândido era tão sincero que, como acontece a todos os desejos que nascem no coração, tornou-se realidade. Filho único, Lilia, todos os anos, passava as festas natalinas com seus pais, em Brasília, e resolveu, naquele ano, levar Cândido consigo.

Algumas providências e cuidados tiveram de ser tomados para a viagem. Mas como Lili tivesse muito prestígio junto ao governo do Quênia não foi difícil convencer as autoridades quenianas a fornecerem um passaporte a Cândido, pois eles mesmos estavam convencidos de que Cândido era um gigante parecido a um leão. E depois, a cada dia que passava, Cândido ficava mais parecido a um homem.

Durante a viagem, tudo correu bem. Cândido se comportou como um cavalheiro, tanto que ninguém desconfiou dele. Voltavam-se para vê-lo devido ao seu tamanho, ao sobretudo, às luvas, os óculos escuros e o chapéu panamá, o que lhe dava um ar misterioso.

Os pais de Lili sofriam de alergia a gatos, qualquer espécie de gato. Além disso, poderiam morrer de susto ao verem Cândido à vontade, em casa. Assim, Lili e Cândido se hospedaram no Hotel Nacional, o hotel mais famoso da cidade. Na noite de Natal, Lili foi cear com seus pais e Cândido ficou no hotel, vendo televisão, pois ele adorou os programas das TVs brasileiras, e no Ano Novo, Lili o levou, à meia-noite, à Esplanada dos Ministérios, para verem de perto a queima de fogos. Foi tudo inesquecível para Cândido: um concerto no Teatro Nacional, a visita à Galeria de Arte da Caixa Econômica Federal, um filme de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do sol, em DVD, e algumas idas ao Conjunto Nacional, onde Cândido repetia vinte feijoadas. Quando não estava passeando com Lili, Cândido permanecia o tempo todo no Hotel Nacional, para não dar na vista. Lia muito Euclides da Cunha, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Márcio Souza, Dalcídio Jurandir, João de Jesus Paes Loureiro e Benedicto Monteiro, pois queria saber tudo sobre o Brasil, principalmente a Amazônia, pátria de Benedicto Monteiro, o grande escritor paraense.

Cândido fazia trinta refeições diárias, a maioria das quais comprada por Lili fora do hotel, para não dar na vista. Mas numa sexta-feira, Lili foi visitar seus pais e na volta ficou preso em um gigantesco engarrafamento, por duas horas, o que atrasou na compra da comida de Cândido. No começo da tarde, cansado de ler seus autores prediletos, de ver televisão e faminto, Cândido resolveu almoçar no Conjunto Nacional.

– Morrerei de tédio, se não morrer antes de fome. Preciso ir ao Conjunto Nacional comer trinta deliciosas feijoadas – disse a seus botões.

Dito e feito. Pegou o sobretudo, as luvas, os óculos escuros e o panamá e pouco depois estava num táxi a caminho do Conjunto Nacional. A praça de alimentação do shopping é muito aprazível, embora, naquele momento, estivesse lotada. Mas nosso herói teve a sorte de encontrar uma mesa ocupada somente por uma pessoa, um velhinho muito atencioso. Reservou uma cadeira e foi se servir. O velhinho assobiou quando viu o prato de Cândido, que sentou seu corpanzil e se pôs a comer. Em pouco tempo havia uma pilha de pratos na mesa e o velhinho, de queixo caído, olhando para Cândido.

Após vinte e nove feijoadas, o cinto de Cândido começou a ficar apertado, as patas começaram a doer e o calor ficou insuportável. E como também Cândido tivesse posto muita pimenta na última feijoada, estava com a boca pegando fogo. Então, esquecido das recomendações de nunca tirar em público o sobretudo, os sapatos, as luvas, os óculos escuros e o panamá, de nunca ejetar as garras e arreganhar a bocarra, livrou-se das roupas quase que num só golpe, além de expelir as poderosas garras e emitir um despropositado rugido de prazer.

Foi o caos. Em alguns segundos a praça de alimentação ficou vazia. Era gente voando para todos os lados. O velhinho que estava à mesa de Cândido nem pegou sua bengala e foi o primeiro a alcançar as escadas. Uma senhora gorducha e de sapatos muito altos chegou às escadas em segundo lugar, e sem deixar cair nada do enorme prato que levou consigo. A gritaria era muito grande, principalmente dos pais das crianças, que teimavam em ver Cândido de perto.

Nesse meio tempo, Lili, preocupado, finalmente saiu do engarrafamento e voou para o hotel. Encontrou um bilhete sobre o criado mudo da cama de Cândido: “Estou esperando o senhor na praça de alimentação do Conjunto Nacional. Cândido”.

Lili saiu novamente a jato e chegou ao Conjunto Nacional pouco antes dos bombeiros. Subiu até o piso da praça de alimentação. Não havia vivalma por ali. Então Lili viu as roupas de Cândido, juntou-as e procurou-o. Acontecera o seguinte: logo depois que o pessoal começou a correr, Cândido foi até uma torneira de Coca-Cola e bebeu três litros de refrigerante, depois, deitou-se no chão e adormeceu. Quando Lili o encontrou, Cândido estava roncando. Lili o sacudiu.

– Ah! Até que enfim o senhor veio para me fazer companhia – disse Cândido.

– Não há tempo para mais nada. Os policiais e bombeiros estão vindo aí para prendê-lo, ou acertá-lo igual os caçadores fizeram com sua mãe. Vista-se rapidamente, não há tempo a perder. Temos de sumir daqui. Vamos!

Cândido era dócil e obediente, e pelo tom de voz de Lili, que não era de perder a serenidade, compreendeu que acontecera algo grave. De modo que quando a polícia e os bombeiros chegaram os dois já haviam deixado o Conjunto Nacional por uma das saídas laterais.

Lili e Cândido voltaram no dia seguinte para o Quênia.

Agora, Cândido demorava-se mais na selva do que em casa. Um dia, disse a Lili que ia lhe apresentar Elza, uma bela gata, digo, leoa, com quem se acasalou e teve muitos gatinhos. Lili, agora, não é mais guia. Casou-se com uma princesa africana chamada Loló e já tem sete candanguinhos da gema, pois os meninos nasceram todos no Hospital Regional da Asa Sul. Lili mudou-se para Pirenópolis, uma cidadezinha goiana no Entorno de Brasília, onde construiu um pesque-pague muito movimentado, que vai de vento em popa. Todos os anos, Lili, Loló e os sete Lilicos vão ao Quênia visitar Cândido, que ficou morando na fazenda de Lili e tem uma prole tão grande quanto à de Lili e Loló. Então batem papo sobre os velhos tempos e morrem de rir da aventura em Brasília.

Simpósio debaterá o cenário atual do atendimento em psico-oncologia

BRASÍLIA, 11 DE NOVEMBRO DE 2017 – A Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia do Distrito Federal (SBPO/DF) realiza, quinta-feira 23, das 18h30 às 22 horas, no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), o primeiro Simpósio de Psico-Oncologia Aplicada, um encontro técnico-científico com o objetivo de promover o aprimoramento e a troca de experiências entre profissionais que atuam na área de saúde, mestres, doutores e especialistas.

“Vamos analisar o cenário de atuação, práticas e desafios do setor de saúde, com foco na psico-oncologia, envolvendo profissionais, pesquisadores, pacientes e seus familiares” – observa a presidente da SBPO em Brasília, Josiane Souza Moreira, especialista em psico-oncologia pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) e psicóloga da unidade do Hospital Sírio-Libanês no DF.

O investimento para graduandos é de R$ 30,00 até dia 15 de novembro e de R$ 40,00 de 16 a 23 de novembro. Para profissionais, é de R$ 60,00 até dia 15 de novembro e R$ 80,00 de 16 a 23 de novembro. Estudantes devem enviar comprovante de matrícula. Será emitido certificado.

As inscrições são feitas por meio do preenchimento de formulário no endereço eletrônico: https://goo.gl/PzCbXy – e serão confirmadas após depósito identificado e envio do comprovante para o email: sbpodf@gmail.com. O depósito é feito na seguinte conta:

Banco do Brasil
Agência: 1802-3
Conta: 49707-x
Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia

PROGRAMA
                                                           
18h00 – Credenciamento

18h30 – Abertura
Panorama da Psico-Oncologia e Quem é a SBPO/DF
Esp. pelo HUB – Josiane Souza Moreira (HSL)
Esp. pelo INCA – Gláucia Petto Flores (Inst. Aliança)

19h00 – Fases da vida da pessoa com câncer – Intervenções
Moderadora: Mestranda HUB – Narjara Tamyres Pedrosa Melo (ICDF)
Psico-onco-pediatria: Me. Juliana Fákir Naves (Rede Sarah)
Adulto jovem: Dra. Juciléia Rezende Souza (HUB)
Biopsicossociais em geriatria: Me. Letícia Meda Fangel (UNB)
Discussão: (20 minutos)

20h05 Coffee-Break (25 minutos)

20h30 Intervenções em Psico-oncologia
Moderadora: Me. Isabella Barros Rabelo Gontijo (Cettro)
Dor: Dr. Áderson Costa Júnior (UNB)
Grupo: Dra. Larissa Polejack Brambatti (UNB)
Domiciliar (NRAD): Me. Ana Karina de Farias (SES-DF)
Discussão: (20 minutos)

21h35 – Conferência final
Trabalho em Equipe Oncológica: desafios do psico-oncologista brasileiro – 
Dra. Elizabeth Queiroz (UNB)

22h05 – Encerramento

PALESTRANTES E MODERADORAS

Especialista pelo HUB – Josiane Souza Moreira (HSL)
Especialista pelo INCA – Gláucia Petto Flores (Instituto Aliança)
Me. Juliana Fákir Naves (Rede Sarah)
Dra. Juciléia Rezende Souza (HUB)
Me. Letícia Meda Fangel (UNB)
Dr. Áderson Costa Júnior (UNB)
Dra. Larissa Polejack Brambatti (UNB)
Me. Ana Karina de Farias (SES-DF)
Dra. Elizabeth Queiroz (UNB)
Moderadora: Mestranda HUB – Narjara Tamyres Pedrosa Melo (ICDF)
Moderadora: Me. Isabella Barros Rabelo Gontijo (Cettro)

DIRETORIA DA SBPO/DF

Presidente: Josiane Souza Moreira, psico-oncologista (Hospital Sírio Libanês)
Vice-Presidente: Gláucia Pretto Flores, psico-oncologista (Cettro)
Secretária: Isabela Barros Rabelo Gontijo, psico-oncologista (Cettro)
Tesoureira: Narjara Tamyres Pedrosa Melo, psico-oncologista (Instituto do Coração do Distrito Federal)
Secretária suplente: Tatiana Ribeiro de Oliveira, psico-pncologista (mestranda-UNB)

ASSESSORIA DE IMPRENSA

Ray Cunha – Telefone/WhatsApp (61) 99924-8415
E-mail: raycunha@gmail.com

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Os cachorros são superiores à raça humana? A tempestade paira na Praça dos Três Poderes

BRASÍLIA, 3 DE NOVEMBRO DE 2017 – Acho que todo mundo já ouviu coisas espantosas ao longo da vida; é claro que esse julgamento é relativo às nossas crenças, aos nossos conhecimentos, ao nosso senso crítico, à sabedoria da qual fomos aquinhoados, à ampliação da nossa mente. Mas há disparates, que, independentemente das nossas crenças, nos deixam boquiabertos, porque soam tão irreais que duvidamos que estivéssemos ouvindo aquilo.

Certa vez, na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), eu procurava me refrescar no início de uma dessas tardes delirantes de tão calorentas; estávamos eu, um professor e outro estudante, quando meu colega afirmou, com convicção, que a lua foi posta no espaço pelos Estados Unidos, para que os imperialistas ianques pudessem melhor espionar a Terra.

Fiquei mudo, e meu colega voltou a falar. Falava com certo azedume, o que tornava a tarde ainda mais calorenta: tinha certeza de que George W. Bush filho ordenou o ataque às Torres Gêmeas de Nova York. Minha reação foi de incredulidade, quase de protesto. Somente em um regime totalitário isso seria possível; não nos Estados Unidos. Ante a minha reação, o sujeito me chamou de ingênuo. Engoli isso. Afinal, nunca discuto; entendo que todo mundo tem razão.

Há locais, que, pela sua natureza, são propícios a dispararem mitos, e a ENAc é um desses. Mitos que são desfeitos pelos professores, todos eles caminhantes conscientes do Tao e estudiosos da natureza humana. É que muita gente procura cursos de filosofia, de taoísmo, movimentos como a Seicho-No-Ie, para desfazerem suas próprias ilusões, ou simplesmente desopilarem-se, desobstruírem principalmente os orifícios da mente.

Certa vez, estava eu, novamente em um dia calorento, na ENAc, quando uma colega – que inclusive comprou meu livro de contos TRÓPICO ÚMIDO, e o detestou, porque achou-o violento demais – quebrou o silêncio do calor, de repente.

– Os cachorros são uma raça superior à humana! – exclamou, como se acabasse de acordar.

Também dessa vez fiquei mudo. Apenas minha expressão revelou espanto. Pensei um pouco. Certamente ela teria as razões dela para dizer aquilo. Quanto a mim, o prédio onde moro, no Guará I, lembra um canil. Antes do Guará I, morei no Cruzeiro Novo. Como em todos os endereços para onde me mudei, crio uma trilha para caminhadas. No Cruzeiro Novo, costumava cruzar com pessoas levando cães para passear. Aí, eu já observava como os cães se parecem com os donos.

Durante bastante tempo, prestei assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. A Câmara é uma fogueira das vaidades, em plena ilha da fantasia. Se Brasília é a ilha da fantasia, a Praça dos Três Poderes é o prédio principal da ilha. Também a Câmara é um inacreditável cabide de empregos, assim como agência de emprego. Boa parte dos cargos, necessários ou não, especialmente com altos salários, na paquidérmica máquina pública, é preenchida por afilhados de políticos.

Pois bem, conheci uma loira, dessas que passam boa parte da vida no salão de beleza, ou em clínicas de embelezamento, que fazia, diariamente, um relatório público sobre sua cadela. A última é que a cadelinha vinha dando chilique e fora encaminhada ao psicólogo, tal qual a dona.

No Cruzeiro Novo, cruzei certa vez com uma senhora conduzindo cinco cães. Um deles, que vim saber que se tratava de cadela, agachou-se para defecar. A senhora me olhou com olhar de mãe que assiste seu bebê se espremendo e ralhou com a cadelinha, chamando-a por um nome de mulher, e foi-se embora, deixando o cagalhão na grama.

No Guará, o negócio é bruto. Depois que me mudei é que me dei conta de que no outro lado da rua havia um hotel de cachorros. Descobri isso logo no dia seguinte, pois às 6 horas os cães fazem um alarido que vai longe. Aliás, fazem isso várias vezes por dia. O das 6, fazem-no independentemente se é o famigerado horário de verão; parece até que sabem o que é isso.

Durante algum tempo fiquei matutando por que os vizinhos mais antigos não entraram ainda na Justiça contra o hotel enfiado em plena zona residencial, até que um dia, pensativo, à janela, matei a charada. Cada vizinho tem tantos cães, ou mais, do que seres humanos nas casas ou apartamentos.

No meu bloco, a cachorrada impera. Como profissional liberal faço o meu próprio horário de trabalho; às vezes, em horários em que as pessoas estão batendo ponto, estou lendo no sofá de casa, e ouço a vizinha.

– Maria Cláudia, entra! Entra, Maria Cláudia! Maria Cláudia, entra! – assim por diante. A princípio, pensei que fosse uma garotinha sapeca, mas descobri que Maria Cláudia é uma cadelinha.

É comum, nas minhas caminhadas até o Guará II – brinco com minha esposa dizendo que caminho até o Guará III, que não existe –, encontrar reuniões de donos de cachorros, enquanto seus rebentos brincam, soltos, nas praças. Há muitas praças no Guará, e todas elas se parecem com as calçadas de Brasília: lembram cenários bombardeados. O impressionante é que os condutores de pit bull são a cara do bicho, e as velhotas conduzindo cadelinhas pequinesas são a cara de uma, o focinho da outra.

Tenho ouvido muitas pessoas, principalmente mães, comentando que gostam de animais porque os seres humanos são, segundo elas, muito complicados; que é mais negócio criar cachorro do que criança. De certa forma, entendo o porquê disso.

Certa vez, fiz uma reportagem para o extinto jornal diário BSB-Brasil – do saudoso jornalista Oliveira Bastos, e comandado pelo meu irmãozinho Walmir Botelho, que certamente se encontra em um orbe superior, pelo excelente ser humano que ele foi aqui na Terra. Era uma reportagem sobre os principais usuários de postos de saúde. Ouvi ene coordenadores de postos e descobri que o primeiro lugar entre os queixosos são donas de casa.

O fato é que elas vão aos postos de saúde apenas para serem ouvidas. Muitas, sequer recebem o olhar do marido, e até apanham. No posto, são ouvidas por alguém importante, interessante mesmo: o médico. E saem de lá um pouco mais confiantes, com mais amor próprio, até se depararem novamente com seu carrasco.

Acho que no relacionamento com o cachorro as mulheres se tornam mais confiantes também. E a senhora que teceu o comentário sobre a superioridade canina à raça humana era divorciada, e parece-me que viveu seu inferno pessoal. O fato é que os cachorros são obedientes, e alguns só faltam falar. Tudo o que querem é sua ração e um pouco de atenção, especialmente na praça, onde demarcam cada ponto e deixam cocô também.

Isso me faz lembrar que os petistas, comunistas em geral, urinam e defecam em público como protesto. Colocam também um marmanjo nu numa arena para seu mastro ser apreciado e tocado por crianças e as mães dessas crianças, e afirmam que isso é arte. Todos já sabem que a elite comunista destrói a família e o estado, e tornam as pessoas zumbis, para criar a ditadura totalitária.

Voltando a outro tipo de cão, há países, como a China e a Coreia, por exemplo, onde cachorro é prato apreciado como feijoada no Brasil; em outros, como a Índia, são sagrados, e formam alcateias de rua. No Guará, já vi cães perseguirem ciclistas. Falar nisso, o índice de mortalidade de ciclistas em Brasília é grande. No DF não existem ciclovias. Governadores de plantão construíram umas calçadas, que chamam de ciclovias, tão vagabundas quanto o asfalto de Brasília. Assim, os ciclistas teimam em disputar com os automóveis as rodovias que cortam a cidade, e acabam se fumando sob os bólidos.

Às vezes, nas minhas caminhadas, deparo com matilhas, ou alcateias, de cães esgotados, de olho numa cadela, mais esgotada ainda. Isso me faz lembrar outra coisa. Os estupros não cessam; inclusive ataques a crianças. É que nós, homens, produzimos muita testosterona, e há casos de produção anormal, o que torna o marmanjo um psicopata em potencial. Daí para o estupro é um passo.

Adoro ver mulheres lindas e sensuais, mas as mulheres, como os homossexuais, devem selecionar os locais onde se exibem, pois a sensualidade, ou a escolha sexual, potencializa a irracionalidade dos psicopatas, embora eles sejam frios e meticulosos. E um alerta a certas mães: não despertem Eros, cedo demais, nas suas crianças, pois isso enlouquece pedófilos.

Ainda sobre cachorros, hoje, o hotel está quieto. Serão as nuvens baixas, o céu de chumbo, que paira sobre Brasília? Será algum outro plano diabólico esquematizado de madrugada na Praça dos Três Poderes? Os cães, como os animais em geral, pressentem o mundo espiritual, especialmente o dos espíritos baixos, que os deixam agitados, inquietos, e, às vezes, anormalmente quietos, com aquela quietude nervosa que antecede a tempestade.

A população de cachorro aumenta cada vez mais, porém os cães realmente perigosos estão alojados na Praça dos Três Poderes, principalmente no Congresso Nacional. O mundo da Luz já alijou Lula Rousseff, responsável pela crise que os brasileiros estão sofrendo; e olha que ele só era um aborto de ditador. Mas para cumprir seu objetivo a tempestade vem aí.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O golpe de Bruce Lee

RAY CUNHA

Certo dia dos anos de 1960, o jornalista e escritor Joy Hyams almoçava com Bruce Lee num restaurante chinês no centro de Los Angeles. Não era sempre que Hyams tinha esse privilégio, de modo que aproveitou a oportunidade para queixar-se a Bruce, confessando-lhe que andava desanimado, sentindo-se velho, embora só tivesse 45 anos. Achava-se rígido demais para o Jeet Kune Do, arte marcial criada por Bruce.

– Você jamais aprenderá nada de novo se não estiver disposto a aceitar-se com suas limitações – disse-lhe Bruce. – Você precisa aceitar o fato de que é capaz em algumas coisas e limitado em outras, e que precisa desenvolver suas aptidões.

Hyams retrucou que aos 35 anos podia facilmente aplicar um golpe de pé acima de sua cabeça. Bruce fez uma pausa na mastigação e olhou para Hyams.

– Isso foi há dez anos – disse. – Agora você está mais velho e seu corpo mudou. Todos têm limitações físicas a vencer.

Hyams continuou argumentando, comparando-se a Bruce.

– Isso é fácil para você dizer. Se alguma vez alguém nasceu com habilidade natural para as artes marciais, esse alguém é você.

– Vou lhe contar algo que pouca gente sabe: tornei-me um praticante de arte marcial apesar das minhas limitações – confidenciou-lhe Bruce, com um sorriso.

– Por certo você não se deu conta, mas minha perna direita é quase 2,5 mais curta que a esquerda. Isso determinou minha melhor postura: o comando do pé esquerdo. Percebi, então, que, devido à perna direita ser menor, eu levava vantagem em certos golpes de pé, pois a pisada desigual deva-me um impulso maior. Além disso, uso lentes de contato. Desde criança sou míope, o que significa que, quando estava sem óculos, tinha dificuldade em ver meu adversário à distância. No início, voltei-me para o estudo de wing chun, que é uma técnica ideal para a luta corpo-a-corpo. Aceitei minhas limitações como elas eram e tirei proveito delas. É isso que você precisa aprender. Você diz que é incapaz de dar golpes de pé acima da cabeça antes de longo aquecimento, mas o problema efetivo é: importa realmente dar golpes dessa altura? A verdade é que, até recentemente, os praticantes de artes marciais raramente davam golpes de pé acima dos joelhos. Esses golpes à altura da cabeça são em sua maioria para exibição. Por isso, aperfeiçoe seus golpes de pé no nível da cintura e eles se tornarão tão formidáveis que você nunca precisará de golpes mais altos. Em vez de tentar fazer tudo bem, faça com perfeição apenas as coisas que pode. Embora a maioria dos praticantes de artes marciais competentes tenha gasto anos dominando centenas de técnicas e movimentos, num ataque, ou kumite, um campeão não usa efetivamente mais do que quatro ou cinco técnicas, sempre. São essas técnicas que ele aperfeiçoou e das quais sabe que depende.

Hyams protestou.

– Mas permanece o fato de que o meu verdadeiro adversário é a idade.

– Pare de se comparar, aos 45 anos, com o homem que você era aos 20 ou 30 – disse Bruce. – O passado é uma ilusão. Você precisa aprender a viver no presente, aceitando-se como você é agora. O que lhe falta em flexibilidade e agilidade cabe-lhe suprir com conhecimentos e exercício permanente.

Depois dessa conversa, Hyams não perdeu mais tempo tentando golpear com os pés acima da cabeça; em vez disso, trabalhou golpes à altura da cintura, até agradarem ao próprio Bruce.

Em fins de 1965, Bruce foi até a casa de Hyams, despedir-se, pois partiria para Hong Kong, onde pretendia se tornar um astro do cinema.

– Lembra-se da nossa conversa sobre limitações. Pois bem, estou limitado pelo meu tamanho e dificuldades no inglês, além de ser chinês e nunca ter havido um grande astro chinês nos filmes americanos. Gastei os últimos três anos estudando cinema e creio que chegou a hora para um bom filme de artes marciais, e eu sou o mais qualificado para estrelá-lo. Minhas aptidões superaram minhas limitações.

“As aptidões de Bruce superaram efetivamente suas limitações, e, até sua morte prematura, ele foi um dos maiores astros do cinema. Sua carreira foi um exemplo perfeito do seu ensino: na medida em que descobrimos e desenvolvemos nossos pontos fortes, eles se impõem às nossas fraquezas” – conclui Hyams, no seu livro O Zen nas Artes Marciais (Editora Pensamento, São Paulo, 1979, 143 páginas), presente do meu amigo Erwin Von-Rommel Vianna Pamplona, autografado por ele em 26 de janeiro de 1997, pouco antes de eu retornar para Brasília, após dois anos trabalhando novamente como repórter em O Liberal, de Belém do Pará.

Entre os meus professores de Medicina Tradicional Chinesa (MTC) na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), todos extraordinários, Marcos Quintella é ouvido e procurado até pelos seus colegas de cátedra. Ele domina um modo único de pegar as agulhas durante uma sessão: todas as 10 de um pacotinho, colocando-as entre os dedos anelar e mindinho, e aplicando-as em questão de segundos. Tentei imitá-lo na minha primeira tentativa, tendo como paciente minha esposa. Uma semana depois ainda encontrava agulhas no chão da sala de casa. Desisti de imitar o professor Quintella. Ele também introduz as agulhas numa batida seca, com a ponta do dedo médio, que apoia na unha do indicador, soltando-o como um martelo, bam!, introduzindo a agulha, por meio do mandril, em milésimos de segundo. Isso eu tentei, gostei, e é o que muitas vezes faço.

A Medicina Tradicional Chinesa, que se baseia no Tao – o equilíbrio entre yin e yang, o fluir da vida –, conta com know-how de mais de 5 mil anos. Holística, trata o paciente como um todo, e considera a dimensão da matéria tão somente energia, como, aliás, confirmou o físico alemão Albert Einstein. Só as possibilidades com as agulhas já são ilimitadas, quando mais se considerarmos outros pilares da MTC, como alimentação correta, fitoterapia, massagem chinesa (Tui Na), Tai Chi Chuan (meditação em ação) e um mundo de conhecimentos terapêuticos da filosofia oriental – que é também religião.

Assim, o acupunturista terá inesgotável manancial de possibilidades para tratar o paciente. E da mesma forma como pensava Bruce Lee, o terapeuta não deve perder tempo com algo que o Tao está a lhe dizer que não é importante; precisa somente concentrar-se naquilo em que mais sente fluir seu talento, mesmo que seja apenas sorrir.

Fogo no coração

RAY CUNHA

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

Ensaio sobre o equilíbrio

RAY CUNHA

O equilíbrio está sempre à beira do abismo
Do fio da navalha
Da perda
Do berro
Do nada
É o cataclismo do primeiro beijo
Das rosas nuas o vermelho
Dos jasmineiros o acme
Do poema o abismo
Do mar, a loucura
A danação das tempestades
O voo alucinante dos astros
A velocidade da luz
Os delírios mais divinos de Beethoven
É a noite, quando assassinos me perseguem
Derroto-os e durmo com a princesa.
Equilibrar-se é estar sempre a um passo da harmonia
E do desespero

O flerte da morte

RAY CUNHA

A tarde imobilizava a cidade, com um bafo quente, afrouxando o ânimo, escoando energias, matando, lenta como lesma. Os dois rapazes e quatro moças comiam sanduíches e tortas com refrigerante na lanchonete. Eram estudantes e, por alguma razão, haviam saído cedo da faculdade, que ficava ali perto. Distante três mesas deles encontrava-se um velhote lendo O Globo. Os garotos olharam para ele numa sequência de cochichos e riram furtivamente, enveredando numa conversa sobre velhice. Um deles estava preocupado porque era o mais velho, completara 21 anos e sentia-se envergonhado, um avô. A mais jovem, de 17 anos, sorria o tempo todo, embora se sentisse ansiosa, e ainda faltavam seis meses para completar 18 anos. “Quando isso acontecer” – pensou – “vou mostrar ao meu pai quem manda na minha vida.” Imaginava-se voltando para casa com o sol nascendo, depois de uma noitada com seu gatão, aquele rapagão de um metro e oitenta, olhos verdes, moreno claro, os cabelos caindo na testa e aquele beijo que ia até a garganta.

Os jovens flertavam com a morte. Preocupar-se com o tempo é uma forma de velhice. O tempo não existe. A eternidade é agora. Como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, atendo pelo menos 30 pacientes por mês, e expressiva parcela deles sente medo da morte, sua ou de parentes. Digo-lhes que essa dama tão temida é infalível e que ela apenas envia sinais de que está chegando. E que a morte, antes da morte, é apenas fantasia. Digo-lhes também que eu, por exemplo, não sei se conseguirei sequer concluir a sessão, pois podemos morrer a qualquer instante. Embora, advirto, sinta-me, naquele momento, prenhe de vida.

Pratico Medicina Chinesa há somente alguns anos, e na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), onde me formei, ouvimos, frequentemente, nos corredores, que um acupunturista é realmente bom com vinte anos de atividade. Não estarei velho demais daqui a vinte anos? Ouço, em perguntas que não são verbalizadas, mas são formuladas em olhares zombeteiros dos que ainda sentem o sabor da imortalidade. Não! – respondo mentalmente. A eternidade é agora. E a Medicina Chinesa é tão generosa que proporciona, por pouco que se conheça dela, felicidade inesgotável.

Falar em sabor de imortalidade, sinto esses gosto o tempo todo. Até os 30 anos, é uma sensação física. Lembro-me que aos 21 anos sentia-me literalmente um deus, e ouvia, às vezes a noite inteira, a música que só as mulheres sabem reproduzir dos abismos labirínticos das suas almas, os sons que somente as rosas vermelhas vibram e os jasmineiros choram. Houve um momento, quando quis enfrentar o mundo com a força dos meus músculos, que me senti esmagado, e cheguei a flertar com a morte, queria combatê-la, enfrentá-la, seduzi-la; quem sabe assim conseguiria enganá-la? Mais tarde, lendo o filósofo japonês Massaharu Taniguchi, descobri que só há morte física, que o mundo material é limitado, inclusive pela morte, mas o Caminho é eterno, nas suas inúmeras dimensões.

A vida carnal é a parte espinhosa do Caminho. Podemos rotulá-la como um consumo exagerado de energia pré-celestial, o que pode ocorrer a qualquer momento da existência, assim como a energia pré-celestial, que garante a vida no mundo material, pode durar mais de 100 anos. Pode-se dizer que velhice seja o enrugamento da pele, o clarear natural dos cabelos, o adoecer, ou simplesmente a preocupação com a velhice, o flerte da morte.

Descobri que tenho encontro permanente com a vida, e isso não é privilégio meu, pois todos nós temos encontro marcado com a vida. Os espíritos estão o tempo todo entre nós, e quando ascendem de orbe, as novas dimensões são indescritíveis. O que é a vida senão amar? Às vezes, tudo fica tão maçante, tão chato, e de repente uma rosa incendeia o coração, e então o Qi da alegria transforma de novo a vida num jardim, e sentimos que a eternidade é agora, intensa, mergulho para cima no abismo da vida, que jamais se extingue. Jovem é possuir a eternidade das rosas, que são indestrutíveis na sua fragilidade.

Já estou descendo a ladeira, sem freio, mas essa velocidade é nada perante o cheiro azul do mar, o perfume das virgens ruivas, o orgasmo das rosas colombianas vermelhas, o triunfo da luz.

O caso do paciente sem intestino grosso que se curou com apenas uma sessão de acupuntura

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – Quando atendi o sr. V, em outubro do ano passado, já era a trigésima terceira sessão dele no Centro Espírita André Luiz (Ceal), onde atendo aos domingos de manhã, como voluntário da equipe do acupunturista, jornalista e professor no Iesb, José Marcelo. O sr. V tem 70 anos e sua grande queixa era a extração do intestino grosso.

No Ceal, os pacientes são atendidos de acordo com a ordem de chegada, e pelo terapeuta que estiver disponível. Naquela manhã de 30 de outubro, era a terceira vez que atendia o sr. V. Peguei sua ficha e fui direto, como sempre, à queixa original, que, além da retirada do intestino grosso, registrava também dores lombar, sacral e nos ombros e braços, insônia, prisão de ventre e úlcera gástrica.

Eu começara, então, a desenvolver uma técnica, a que chamo de acupuntura dos corpos vibracionais – físico, etéreo, astral, espiritual e divino –, e, naquele momento, passei a ver o caso do sr. V sob novo ângulo. Conversei com ele; contou-me que todas as semanas baixava hospital, sofria de diarreia crônica e tudo o que comia lhe fazia mal. Observei-lhe a língua e senti seus pulsos; suas energias esvaíam-se.

 – O senhor sabe que ainda tem seu intestino grosso, não sabe? – perguntei-lhe, olhando-o nos olhos. Então os olhos dele brilharam, numa interrogação. – O senhor continua com o seu intestino grosso, só que no corpo etérico, que liga o corpo carnal ao corpo astral, que, por sua vez, se liga ao espírito, que é imortal. Seu intestino grosso foi extraído do corpo físico, mas ele continua intacto no corpo etérico, ou etéreo. Não podemos ver o corpo etéreo, porque sua vibração é muito mais fina do que a vibração do corpo material, que tem uma vibração tão baixa que, aos nossos cinco sentidos, se materializa.

Ele entendeu na hora, e o brilho dos seus olhos continuou, como duas pequenas lanternas. Sei que só eu podia ver o brilho dos seus olhos, e percebi também que ele sorria.

– Bem, como o senhor não perdeu nada, muito menos o intestino grosso, vou fazer a limpeza do canal do intestino grosso – disse-lhe, explicando-lhe, rapidamente, sobre os meridianos, que atravessam o corpo como um feixe de fios. Na Medicina Chinesa, limpar um canal quer dizer aplicar agulhas no primeiro acuponto daquele canal e cruzar com o último acuponto. Então apliquei agulhas no IG 1 esquerdo, que fica no leito ungueal radial do dedo indicador, e o IG 20 direito, no ponto de encontro entre a linha nasolabial e a lateral da asa do nariz.

Apliquei mais o estômago 36 bi, para fortalecer o Qi e o sangue, aumentar o Yang e minorar dores epigástricas, náusea, vômito, má disgestão, tontura, fadiga e fortalecer o corpo e a mente, além do estômago 25, para equilibrar o baço, estômago e intestinos, pondo fim à diarreia. Ainda, apliquei o vaso concepção 12, para tonificar estômago e baço, e o yintang, para extirpar ansiedade e disciplinar os pensamentos, acalmando, assim, a mente, o que acaba melhorando o sono.

Pouco mais de 20 minutos depois foram retiradas as agulhas do sr. V. Orientei-o a tomar pelo menos dois litros de água por dia e a cortar leite, frutas, salada e legumes crus antes de dormir e a passar a alimentar-se, à noite, de alimentos quentes, principalmente de abóbora e raízes, como batata, cará, inhame e mandioca.

Notei que ele saiu do ambulatório com vivacidade, “pois agora” – pensei – “ele sabe que seu intestino grosso está lá com ele”. Orientei-o também a me procurar no domingo seguinte, 6 de novembro. Uma semana depois ele voltou e me disse que não baixou hospital. Outro terapeuta o atendeu e repetiu o protocolo da semana anterior.

Agora em abril recebi a notícia: o sr. V se deu alta.

Atendemos no André Luiz médiuns que trabalham no centro, muitos deles com todo tipo de doenças. São ilusões passadas a eles por espíritos em estado de ilusão. Digo-lhes que precisam, ao orarem, à noite e de manhã, agradecer aos seus antepassados, especialmente aos pais, a perdoarem e a enxergarem no próximo, mesmo que sejam drogados, raivosos, cancerosos, tenham sido estuprados, nos que gritam de dor, só e somente só, luz. As agulhas precisam de luz.

Mas esses médiuns veem também que nós, da equipe do José Marcelo, estamos cercados de mestres vindos do mundo espiritual, que nos orientam, vigilantes, para que o amor triunfe ali naquele ambulatório. Foi por isso que o sr. V pôde se dar alta.

O corpo é reflexo da mente

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – A língua da sra. K, 75 anos, apresenta profunda fissura longitudinal no centro, é vermelha e seca, e a ponta é rubra; foi-lhe extirpado um cancro maligno no seio direito; sua região cervical é dura como pau; é insone; sofre de constipação intestinal; é controladora; e ingere 15 medicamentos por dia. Seu pulso do coração é quase contínuo, uma oitava acima; o do fígado lembra o som de uma corda de violão muito esticada; e não há pulsação no rim.

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a anamnese, do grego ana, trazer de novo, e mnesis, memória, é fundamental para que se chegue ao diagnóstico, daí porque a conversa entre terapeuta e paciente deve ser estimulada enquanto durar o tratamento. A anamnese me lembra um desses filmes policiais em que o investigador entre numa casa, à noite, em busca de uma pista que o conduza à elucidação do crime. Não liga nenhuma lâmpada para não chamar atenção, principalmente do criminoso, e assim utiliza sua lanterna de bolso. De modo que somente lá pela décima sessão é que encontrei a pista que estava procurando. A sra. K foi traída pelo marido e seu filho caçula matou-se aos 21 anos.

Todas as doenças, sem exceção, surgem na mente e se refletem no corpo. O Universo funciona mais ou menos assim: existe a Lei, a que chamamos também de Deus. A Lei ordena tudo o que há no Universo, nada escapa à sua ação. Ela não é boa nem má, é a Lei. O Homem, que é mente, materializa-se na Terra em um processo de evolução infinito, nasce com livre arbítrio e é também criador. Nessa caminhada, o Homem cria ilusões, sempre na mente; são ilusões porque não se harmonizam com a Lei, razão pela qual o destino final dessas ilusões é desintegrarem-se.

Tudo o que se passa na mente se reflete no corpo, por meio dos sentidos, de modo que as ilusões também se refletem no corpo, que, por sua vez, se submete às leis físicas. A matéria é mutável e finita, e quando é atingida pela ilusão mental, degenera-se precocemente; são as doenças.

No caso da sra. K, ela vive no passado, juntamente ao seu filho caçula; mas o passado não existe mais, o que faz com que a sra. K se transforme em zumbi. Os zumbis são mentes deslocadas do agora, e a eternidade é agora. Os corpos dos zumbis apresentam-se deteriorados, ou doentes, porque estão deslocadas do agora. Sempre que tentamos nos situar no passado ou no futuro surge o estado de tensão, o que no caso da sra. K manifestou-se como cancro no seio favorito do filho, quando era bebê.

A sra. K nutre ódio pelo marido, que trocou-a por uma mulher muito mais jovem do que ela. O ódio, mais 15 medicamentos que toma por dia, incendiou seu fígado e as chamas subiram até o coração.

Ela tem mais dois filhos, casados, e mesmo assim tenta controlá-los, além da sua governanta; tudo tem que ser do jeito da sra. K. Pessoas controladoras contraem aterosclerose e seus pescoço e ombros ficam rijos como madeira, e acabam pegando fogo também.

Tratei a senhora com acupuntura, fitoterapia, alimentação energética e tuiná, a massagem terapêutica chinesa. Ela melhorava alguns dias, mas os sintomas voltavam. Quando identifiquei a origem da angústia da sra. K, expliquei-lhe como funcionam o mundo material e a mente. Que a vida material é a manifestação da energia pré-celestial, situada num xacra entre os rins, e que ela vinha jogando pelo ralo essa energia, ou seja, a própria vida, ao incendiar seu próprio corpo.

A solução – disse-lhe – consistia em três agulhas: uma delas é a prece, a conexão com o orbe espiritual, onde seu filho a procura, sedento do seu amor. A outra agulha é o perdão, pois só com o perdão ela voltará a amar novamente o pai dos seus filhos, e compreenderá que ele não é propriedade dela. A terceira agulha é a alegria, que alimenta a vida.

Somente os pacientes têm o poder de curar suas mazelas. O terapeuta é apenas instrumento da Lei.

Leia o primeiro capítulo do romance FOGO NO CORAÇÃO, TCC de Ray Cunha na ENAc


Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

O terapeuta, mestre em artes marciais e poeta Emanoel Vorcaro, graduado em mandarim e medicina tradicional chinesa em Pequim, tinha 61 anos, mas parecia ter 70. Perdera a esposa em acidente no Rio de Janeiro. O automóvel que bateu na porta do carro conduzido pela esposa de Vorcaro levava apenas o motorista, um rapaz que ainda durou o tempo de confessar que voltava de uma bacanal na noite anterior e ingerira uma garrafada de drogas. Vorcaro sobreviveu ileso. Sobreviveu é modo de dizer; transformou-se em morto-vivo. Seu apelido no Instituto Holístico, dito à socapa, era zumbi. Na tarde que antecedeu a tragédia descobrira, de uma só tacada, que sua mulher não engravidava porque era estéril, e era ninfomaníaca, a ponto de fornicar até dez vezes em um dia com homens diferentes. Nunca entrava no quarto de trabalho da esposa, modelo de moda em ascensão. Naquela tarde o gato entrou lá, pois a porta, que jamais ficava destrancada, encontrava-se entreaberta. Vorcaro foi atrás do gato e o encontrou sentado no fundo de um armário, sobre uma agenda; um diário. Quando Eliana chegou, Vorcaro fez que já estava dormindo e passou a noite em claro. Depois que ela pegou num sono profundo, olhou-a demoradamente. Era linda, e a amava demais. Quando amanheceu o dia ela o estranhou, pois ele parecia ter envelhecido dez anos. Saíram juntos. O pensamento recorrente o matava. Seria ódio? Desespero? Desencanto? Fosse lá o que fosse, sentia no coração, tragando-o, um abismo de fogo. E então aconteceu. Na época, o caminho que Vorcaro vislumbrou para não se matar foi a cidade-estado, onde morava seu pai, professor na Universidade de Brasília. Passou também em concurso na UnB, como professor de mandarim, e logo depois começou a lecionar medicina tradicional chinesa no Instituto Holístico, onde conheceu o professor Ricardo Larroyed, acupunturista e delegado especial da Coordenação de Repressão a Homicídios da Polícia Civil do Distrito Federal, juntamente com quem fundou a Clínica de Terapias Holísticas, que funcionava em prédio próprio. Ricardo Larroyed e Emanoel Vorcaro investiram todas as suas economias na clínica, localizada na 909 Sul, fazendo divisa com o Parque da Cidade. Seu quintal era sombreado por três mangueiras gigantescas. Podia-se sentir o odor das mangas, inchadas, verdes e amarelas, em pencas, vergando os galhos, lindas como seios de lactante. “São as mangueiras mais bonitas da cidade” – orgulhava-se Ricardo Larroyed. Naquele ano ainda não chovera para valer e a safra das mangueiras públicas foi magra, até porque elas começam a ser agredidas com as mangas ainda verdes. Larroyed só não vira pessoas de terno jogando paus, pedras e mangas verdes em outras mangas verdes; o chão, debaixo das mangueiras de Brasília, estava sempre pontilhado de folhas, pedaços de galho e, naturalmente, mangas verdes.

Em conversa com uma colega major, que fazia o curso de medicina tradicional chinesa no Instituto Holístico, Francisco Nolasco foi orientado a levar sua irmã, Rosa Nolasco, para ser atendida, segundo a major, pelo professor mais brilhante do curso, Emanoel Vorcaro. Rosa Nolasco era tão linda que os homens com o dom do olhar clínico desejavam engoli-la, engravidar-se dela, e sentir o eterno e intenso triunfo da maternidade. Brasiliense da gema, filha de diplomata americano e uma potra de Belo Horizonte, era dessas mulheres que param o trânsito, literalmente, daí porque raramente são vistas caminhando na rua; escondem-se em automóveis indevassáveis, de onde saltam para atravessar apenas uma calçada, sempre de óculos escuros. E seu elemento é a noite. Ruiva, os cabelos caindo como ervas daninhas numa cascata caudalosa até ancas africanas – herança da mistura entre um lusitano e uma princesa moçambicana em uma geração bem anterior à sua –, a pele rosada, olhos verdes como folhas de jambu, lábios grandes, grossos e vermelhos, nariz arrebitado, e um sorriso que era uma queda para cima, foi estuprada a primeira vez aos 14 anos, idade em que a mulher ainda é criança, prestes a se transformar em borboleta. Depois dessa primeira vez, o autor, um tio de 40 anos, estuprou-a mais oito vezes, até ela engravidar e ser conduzida a um matadouro, onde sangrou a ponto de quase morrer, resgatada pelo seu irmão, Francisco Nolasco, major da Polícia Militar do Distrito Federal, atirador de elite. O tio, um tal de José Antônio, foi encontrado com os bagos e o pênis destroçados a tiros e uma bala na hipófise, flutuando no Lago Paranoá, onde promovia bacanais pantagruélicas. Aos 17 anos, Rosa, uma flor de 1,80 metro e 70 quilos, iniciava a profissão de modelo, em plena tragédia, pois quase todo mundo que gravitava em torno dela queria predá-la, incluindo mulheres invejosas, mas seu maior predador era ela mesma. Passara por muitas camas, abortos e a exploração mais abjeta, porém seu corpo tinha a invulnerabilidade das rosas, que são frágeis, mas eternas. Sua tragédia perpassava pelo histórico das mulheres da família: o mal instalara-se com fúria no seu útero: uma colônia de miomas.

Quando Rosa Nolasco chegou, o professor Emanoel Vorcaro a aguardava. Ele dividia seu tempo entre a Universidade de Brasília, o Instituto Holístico, a Clínica de Terapias Holísticas e sua casa, na 703 Sul. Estava lendo alguma coisa quando os irmãos entraram no consultório. Vorcaro deixou de lado o que estivera lendo e pousou os olhos mortos nos olhos dela, e assim permaneceu por tempo excessivo, como um especialista em iridologia perscruta a alma do paciente, mergulhando nos subterrâneos labirínticos, nos pântanos, nas pradarias, nos jardins, no sol, nos olhos de Rosa Nolasco, que, de manhã, assumiam uma nuança azul; à medida que o dia avançava, e quanto mais calor fizesse, então as esmeraldas surgiam em meio aos arbustos rubros; e, à noite, eram como jambu, prenhes de espilantol. Emanoel Vorcaro gemeu. Provavelmente o gemido foi mental. A eternidade daqueles segundos o inebriara: sentiu cheiro de mar, ouviu risos de crianças, a voz de Frank Sinatra em alguma alcova perdida na paisagem vista da janela daquele quarto de hotel, em Paris, ao cair da noite, naquele momento e condições que tornam gentil todo o mundo, e viu sua esposa com seu filho imaginário no colo, rindo o riso cristalino das mulheres lindíssimas, e que o perseguia aonde quer que fosse.

Vorcaro cumprimentou-os e leu as anotações da assistente da manhã: Rosa Silvestre Nolasco, nascida em 1 de outubro de 1998, em Brasília, onde mora. Altura: 1,80 metro; 70 quilos. Aluna do curso de moda. Profissão: modelo. Solteira. Ele perguntou a queixa principal. Mioma no útero; menstruação abundante; irritação; muita sede. O útero já havia quadruplicado de tamanho.

– O médico quer operar; quer, não, disse que é inevitável, e pelo volume do mioma terá que ser extirpado todo o útero por meio de corte no ventre, como se fosse cesariana. Não quero isso! – ela exclamou. – Quero ter filhos! – suplicou.

– Oh! Não! Não será preciso operar! – disse Vorcaro, sem perceber o que estava prometendo. – Como e quando começou o problema e como evoluiu? – perguntou.

– As mulheres da minha família, todas têm mioma; depois que tiram, engravidam normalmente – ela disse. – No meu caso, comecei a sangrar muito; o médico passou vários exames e foi diagnosticado mioma, quadruplicando o tamanho do útero; meu útero está com um quilo e cem gramas, e não foi encontrado nenhum ferro no meu sangue, estou anêmica – choramingou. – Aí o médico receitou Noripum venoso, num total de oito doses, e dois comprimidos de Tâmisa por dia, para parar o sangramento. Eu não quero ser operada!

Fumante? Não! Alergia? Não!

Nessas altura o major pediu licença e saiu da sala.

Dorme bem? Sim, a não ser que comece a sentir cólica ou comece a sangrar. E agora, você continua a sangrar? Não, agora, não! Com os dois anticoncepcionais por dia parei de sangrar! Come muito? Não. Prefere alimentos frios ou quentes? Frios. Ou melhor, gelados. Bebo muita água gelada! Bebe pelo menos dois litros de água por dia? Sim, bebo muita água! E sempre gelada; às vezes como gelo! Como é sua respiração? Normal! E a transpiração? Normal! E a visão? Leio até em corpo oito; minha visão é uma verdadeira lupa! Sua fala é boa! Como são suas fezes? Como é? São ressequidas ou moles? Acho que são normais! Você vai quantas vezes ao vazo por dia? Pelo menos uma vez! Você sente gosto amargo na boca? Não! Sente alguma dor? Só cólicas! Preciso ver sua língua!

Depois de tanto tempo sem pensar nos mistérios femininos – já certo de que nunca mais voltaria a sentir aquela sensação de montar a luz, pois tinha a impressão de que se transformara em fantasma, ou em zumbi, como diziam lá na escola –, a vida explodiu como um big-bang, e todo o tecido negro se transformou em estrelas. Quando viu a boca de Rosa Nolasco tão perto, seus dentes perfeitos, como pequenas esculturas de marfim, os lábios imensos, vermelhos, não prestou atenção na língua, pálida, ligeiramente seca e levemente inchada, denteada e com fissura no centro; só lhe ocorreu que o que via era uma língua para ser sugada como uva. Ela a recolheu. Emanoel Vorcaro estava tremendo. Era um homem sereno, mesmo após a tragédia que o matou. Mas estava tremendo. Respirou fundo, pegou-lhe os pulsos e se concentrou. O fígado estava em corda e vibrava como contrabaixo, os rins quase não se manifestavam, e o baço, mesmo derrotado, lutava, e haveria de lutar muito, defendendo aquele corpo perfeito, conspurcado pela tara genética. “Insuficiência de xue, deficiência de Qi do rim e do baço” – pensou.

O major retornara.

– Rosa, você terá que se submeter a sessões diárias por dez dias, além de tomar um xarope que eu mesmo prepararei para você, e ingerir alguns alimentos que também vou prescrever. No fim de dez dias, avaliaremos o quadro. Se não houver melhora, você terá mesmo que se submeter à cirurgia, que hoje é corriqueira – Vorcaro explicou-lhe.

– Pensei que com acupuntura eu não precisasse me submeter à cirurgia! – ela respondeu, alarmada.

– Acupuntura, ou medicina tradicional chinesa, não resolve tudo; há muitas coisas em que a medicina ocidental é imbatível, especialmente na utilização de tecnologia de ponta e no avanço de fármacos, sem falar na habilidade de cirurgiões talentosos. Mas a MTC, que é uma medicina holística, é importante para compreendermos a nós mesmos, e por que somos acometidos de doenças. Senti nos seus pulsos, e isso é possível, anjinhos chorando, crianças que não chegaram a nascer – ele disse.

Ela começou a chorar. As lágrimas saltavam dos olhos como se fossem gotículas minadas de dois lagos prenhes de clorofila. O impulso que o professor Francisco Vorcaro sentia era de tomá-la nos braços, beber as lágrimas e sufocá-la com seus lábios murchos.

– Doutor, ela já sofreu vários abortos – o major, que havia retornado, informou.

– Seria bom ela conferir quantos foram, dar nome às crianças, nomes ambíguos, que possam servir tanto para homens quanto para mulheres, e batizá-los segundo sua religião – disse o professor.

– É uma quantidade tão grande que eu nem sei se há tantos nomes ambíguos – volveu o major, meio cínico.

– Nesse caso podem ser utilizados também nomes que não sejam ambíguos – insistiu o professor, ignorando o humor negro do major. – Bem, agora vou fazer nela acupuntura e aurículo.

– Professor, preciso ir à PM; a que horas o senhor acha que poderei vir apanhá-la? – o major perguntou.

– São 10h30; meio-dia já terei feito tudo. O atendimento dela será demorado porque é a primeira vez, e também o caso requer todos os recursos de que disponibilizamos. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que a Rosa não precise se submeter a cirurgia; mas afirmo, desde já, que, se for o caso, trata-se de uma cirurgia, como disse, comum, hoje em dia, e a sutura é perfeita como a de uma cesariana.

– Mas se eu for operada como poderei ter filhos? Vão extrair meu útero! – ela gritou, levantando-se e dirigindo-se para a baia onde seria atendida. – A única saída é a acupuntura; daí porque procurei o senhor – disse, lá de dentro.

Quando Emanoel Vorcaro entrou e a viu nua sentiu o sangue irrompendo no seu corpo todo, como tsunami. Rosa Nolasco deitara-se nua sobre a maca. Naquele ambiente séptico e luminoso, seus cabelos assumiam nuanças de ouro e rubi, derramando-se quase até o chão, em grandes anéis, jorros de metal líquido, escorrendo. Os seios, naquela posição, pareciam duas montanhas aureoladas, movendo-se ao ritmo da respiração. Descendo pelas encostas das montanhas, a planície do ventre lembrava uma tábua esculpida em mármore. O olhar do professor Emanoel Vorcaro havia montado na luz e gravitava naquela miragem até pousar no púbis cintilando no meio da galáxia.

– Oh! Não! Não precisa! – Vorcaro balbuciou. – Não precisa ficar nua! Vou pegar uma toalha para cobri-la!

– É melhor eu ficar logo nua. Estou acostumada. Assim é melhor para você me examinar – ela respondeu.

– Seu irmão pode chegar... – Vorcaro balbuciou.

– Você tem medo de ser preso? – ela riu. – Ele acha natural. Andávamos nus, em casa. Foi assim que meu primo, que Deus o tenha, matou-me – ela disse e se calou.

Seguiu-se um pouco de silêncio, Vorcaro cobrindo-a. Era uma grande toalha rosa, uma bela toalha de algodão, alva como a pele de Rosa Nolasco, e que se confundia com a epiderme sem mácula da modelo. Só os cabelos contrastavam com a toalha, na sua natureza incandescente, estase de lava.

– É praxe cobrirmos os pacientes – Vorcaro continuava balbuciando.

– Sou toda sua – Rosa murmurou, quase debochada.

Vorcaro estava sem graça em torno da miragem na maca.

– Bem, mioma é basicamente umidade – balbuciou. – Vou tocá-la! Posso? – disse, voltando a si, aos poucos, e readquirindo a velha confiança. Podia se encontrar na situação que se encontrasse, e podia atender quem quer que fosse, Gisele Bündchen que fosse, quando começava a atender seu papel de terapeuta assumia o comando. Levantou a toalha e apalpou o ventre e o púbis, e pôde sentir os tumores. Apurou o olfato – poderia ter sido um “nariz”, aquele profissional da indústria de perfume que pode sentir as essências mais tênues – e farejou o púbis, que exalava o perfume das virgens ruivas, uma essência tão penetrante que parece material. “É daquelas mulheres que voltam a ser virgens não importa quantas vezes sejam penetradas; têm bezerro; a musculatura e a rede de vasos sanguíneos da vagina são excepcionais” – pensou. E sentiu também o miasma. “No caso dela, parece um carma que vem passando de mãe para filha. Mas todo carma tem fim. Só a eternidade não tem fim; neste mundo carnal tudo tem fim” – pensou, alimentando o velho desejo de desencarnar e encontrar noutra dimensão a sua amada. Apanhou a ficha.

Miomatose uterina; menstruação abundante; irritação; muita sede. Língua pálida, ligeiramente seca e levemente inchada, denteada e com fissura no centro – Insuficiência de xue, deficiência do Qi do baço; deficiência de yin. Alimentação energética a ser prescrita: consumir açaí puro, couve, espinafre e alimentos verdes em geral e de cor laranja. Abóbora no jantar. Chá de gergelim preto antes de deitar-se. Xarope de babosa. Ele prepararia o xarope naquela noite. Compraria Aloe vera na Feira do Guará. Também aproveitaria para renovar o estoque de mel de abelha do Piauí, que é do que gostava. Quanto à aguardente, usaria aquela garrafa de conhaque francês que ganhara de um amigo; não lembrava mais nem do nome do amigo, quanto mais da marca do conhaque. Um branco havia descido na sua memória há tempo. Compraria o equivalente a um metro de babosa, extrairia a gelatina e misturaria com um litro de mel e uma dose de conhaque; ela tomaria uma colher das de sopa entre as refeições. Retiraria da sua alimentação leite e derivados, farinhas brancas e água gelada, e começaria o tratamento com o TA18, para harmonizar o Qi do útero e transformar umidade em calor; F14 e F3, para regularizar o fígado; BP10, para regular a menstruação; BP9, para tirar umidade ativando o aquecedor inferior; e E40, para eliminar muco, além do VG20, para purificá-la. “Depois, aurículo!”

O major Francisco Nolasco chegou ao meio-dia em ponto e encontrou uma Rosa sorridente. “O maracujá de gaveta deu um jeito nela” – pensou.

A próxima sessão foi marcada para o dia seguinte, quando o xarope de babosa já estaria pronto e a paciente começaria a tomá-lo. O professor Vorcaro pretendia debelar a colônia de miomas em dez dias. Sabia do seu poder, pois não curara até paciente com câncer?

O início daquela tarde de sexta-feira era sufocante, mas ali, na Feira do Guará, um dos poucos locais aonde o professor Vorcaro ia e se divertia, estava agradável, devido à aragem que perpassava o grande galpão, o passa-passa, o cheiro das frutas, dos peixes, de tudo o que era bom. Enquanto o professor se dirigia ao quiosque onde comprava Aloe vera, seu subconsciente repassava algumas informações.

Os chineses usavam babosa como medicamento há 6 mil anos; há 2 mil anos, o médico grego Penadius Dioscorides enumerou seu uso para a pele, queimaduras, manchas, perda de cabelo e indisposição estomacal. Na Bíblia, é chamada de "árvore perfumada" e "resina perfumada", e teria sido misturada à mirra para embalsamar Jesus. Marinheiros de Cristóvão Colombo e missionários no Novo Mundo, antigas tribos do México e das Américas Central e do Sul a utilizaram. Nativa do norte da África, com mais de 200 espécies catalogadas, das quais apenas quatro são úteis e seguras para seres humanos, trata-se de um dos alimentos mais ricos em gliconutrientes, composto de 12 vitaminas, 15 enzimas, 18 aminoácidos – inclusive os principais compostos do corpo humano –, 20 minerais, 75 nutrientes e mais de 150 princípios ativos. Floresce no começo da primavera. Suas folhas, verdes e gelatinosas, têm espinhos e crescem como lanças, em formação de roseta, tal qual pétalas de rosa, até 75 centímetros, e podem pesar até 2,3 quilos cada uma. Originária de regiões desérticas, adquiriu capacidade de sobreviver em meio hostil, e deu-se bem no trópico. É utilizada geralmente em problemas relacionados à pele, como acne, queimadura, psoríase, hanseníase etc. Poderoso regenerador e antioxidante natural, com propriedades antibacteriana e cicatrizante, e capacidade de reidratar tecidos, inclusive o capilar, aplicado sobre queimadura ajuda rapidamente a anular a dor, pelo seu efeito reidratante e calmante, reparando, lentamente, o tecido queimado; também conduz nutrientes para as células e regula o trânsito intestinal. Historiadores há que apontam a babosa como o grande segredo da beleza de Cleópatra, que a utilizaria para tratar sua pele, que encantava a todos que puderam vê-la, e, especialmente, aos que puderam tocá-la, acariciá-la, sentir o sabor da sua pele, o sabor da pele de Rosa Nolasco! A pele de Rosa Nolasco tinha a natureza dos vestidos de seda rosa! – Emanoel Vorcaro acordou. Precisava desalojar a colônia de miomas, desalojá-la do útero de Rosa Nolasco, pulverizá-la. Poria na fórmula o talento terapêutico necessário para salvar o útero daquela miragem ruiva, que irrompeu numa inundação de luz na escuridão em que ele morria. Precisava aliviar-se daquela sensação, de, simultaneamente, mergulhar ainda mais fundo no inferno e alçar-se ao limite da galáxia, num acme permanente de fogo no coração. Precisava meditar com o VG20 espetado no alto da cabeça.

Pensava nisso enquanto comia. Comer, e vestir-se elegantemente, geralmente de terno de linho, e sempre de panamá, eram seu grande prazer depois da medicina tradicional chinesa. Quantos pacientes com mioma saíram curadas das suas mãos? Inclusive o caso Cátia, aquela moça que não tinha dinheiro nem para pegar ônibus e a quem ele pagou transporte e alimentação. Seu caso era desesperador. Fora diagnosticada na rede pública mas esperava a cirurgia há três anos, sangrando. Recuperara-a com açaí, suco de couve, xarope de babosa e limpeza dos meridianos do baço, fígado e rins. É verdade que a encaminhara para a Seicho-No-Ie, onde uma preletora, amiga de Ricardo Larroyed, cuidou da moça; ela batia de frente contra o pai, cachaceiro, para quem passou a fazer oração de perdão. Assim, no mundo espiritual, a paciente teria se curado, o que se refletira na dimensão material. De qualquer forma cumprira sua parte e a moça estava recuperada. Também conseguiu emprego para ela e que voltasse a estudar, e foi um triunfo quando ela passou no vestibular da Universidade de Brasília para psicologia, graduara-se e já estava trabalhando.

Sentado no Café e Restaurante Dona Neide, “como um peixe”, pois o refeitório parecia um aquário, seus pensamentos voavam enquanto devorava a rabada, “a melhor de Brasília”. Ia ali pelo menos uma vez por semana, às vezes no sábado, com Ricardo Larroyed, só pela rabada, e aproveitava para fazer uma das coisas que lhe proporcionavam prazer: caminhar pela feira, ver e sentir o cheiro das frutas, dos peixes, das aves abatidas, dos legumes e verduras, dos temperos, das essências, o perfume das virgens ruivas, “o cheiro mais perturbador do mundo”. Perdera a vontade de viver, mas não a urgência dos odores. “Cheirar é preciso; viver não é preciso.” E então a essência que sentira naquela manhã assaltou-o como um vendaval.

Estacionou na garagem seu velho Gol que um dia fora vermelho e entrou diretamente na sala da casa, na 703 Sul, deixou o material na cozinha, foi ao quarto, trocou de roupa e retornou à cozinha, onde pôs-se a trabalhar. Gostava daquela cozinha; aliás, gostava, muito, da casa toda, herança do seu pai. Podia-se ver, da rua defronte ao prédio e da janela do quarto no segundo andar, o Santuário Dom Bosco. Ali era tranquilo, especialmente na ampla biblioteca, provavelmente a maior de Brasília em títulos da medicina tradicional chinesa.

A reunião no Instituto Holístico naquela sexta-feira à noite voltou ao seu consciente. A questão a ser discutida era o seguinte: havia uma corrente de professores que desprezava Giovanni Maciocia, adotado pela escola. “Maciocia é um gênio” – pensou. “Ninguém, no Ocidente, é autor de uma bibliografia mais ampla sobre medicina chinesa do que Maciocia.” Com efeito, Giovanni Maciocia começou a se dedicar à medicina chinesa desde 1974. Professor e terapeuta, publicou sete livros, traduzidos em mais de dez idiomas. Com formação em economia, em Nápoles, o ensaísta italiano se mudou para a Inglaterra, onde obteve bacharelado em acupuntura, em 1974, no Colégio Internacional de Medicina Oriental. Estudioso do mandarim, fez três cursos de pós-graduação na Universidade de Medicina Tradicional Chinesa em Nanjing. Publicou seu primeiro livro, Os Fundamentos da Medicina Chinesa, em 1989, constituindo-se, desde então, em obra de referência para o estudo de medicina chinesa em várias escolas dos Estados Unidos. Em 1995, publicou uma linha de fórmulas de fitoterapia chinesa, Os Três Tesouros, adaptação moderna de prescrições de clássicos chineses. “Tiro meu chapéu para ele! É impressionante como o Bartolomeu o detesta.”

Bartolomeu Amado, o bafo de onça, era também médico em medicina tradicional chinesa formado na China, e comportava-se como se ainda vivesse lá. “Ele está se matando; viver como se estivesse na China, em Brasília, é loucura. Acho que seu bafo de onça e aquela cara cheia de marcas de espinha é de tanto comer peixe mal conservado, escorpião, cachorro e pimenta” – ria, na, talvez, única situação em que se dava ao luxo de satirizar alguém e rir, pois, de certa forma, sentia-se como o professor Bartolomeu, matando-se, ou, no seu caso, morrendo. Contudo, o professor Bartolomeu era bastante popular na escola, entre os rebeldes sem causa, justamente por sua teimosia em contrariar Giovanni Maciocia durante suas aulas. Seria difícil o diretor do Instituto Holístico, professor Marcelo Quintela, dobrá-lo.

“Bartolomeu Amado tem conhecimento enciclopédico de medicina tradicional chinesa, porém é vítima de dois pecados: é arrogante e preguiçoso. Vou pegar aquele biltre” – pensou, deixando tudo pronto para, na volta, preparar o xarope para a deusa ruiva. Encontraria com Ricardo Larroyed e depois da reunião jantariam juntos. Ricardo Larroyed era, para o alquebrado professor, uma pedra preciosa. Acreditava que se não fosse pela amizade do dublê de acupunturista e policial já teria desistido de tudo. Desde o acidente nunca mais praticara sequer tai chi chuan. Sentia-se bem disposto e forte fisicamente, mas sua alma não parara de chorar.

A noite caíra. Emanoel Vorcaro sentiu que o tempo começava a mudar, tornando-se mais úmido. A brisa mexia levemente as folhas dos ipês, abacateiros, barrigudas, jamelões, mangueiras e palmeiras das imediações. Aspirou o perfume dos jasmineiros. Ah! Era como estar ao lado de Eliana, curtindo a vida em toda a sua plenitude. Naquela noite, haveria de ficar embriagado com Ricardo Larroyed e haveria de produzir o melhor xarope do planeta, capaz de deixar o útero da deusa ruiva como um botão de rosa, um berço de mênstruo desabrochando. Deixara seu Gol no estacionamento da quadra. Alcançou-o, embarcou e saiu. Dali a sete dias seria Natal. Como sempre, passaria a noite de Natal sozinho, com suas recordações. Sabia que o passado não existe, como também o futuro não existe. Um, era nostalgia e remorso; o outro, ansiedade. Rejeitava um e outro. No mundo material, extremamente limitado, só havia agora, e nada mais. Precisava viver apenas cada momento, e cada momento é a eternidade. Mas, se quisesse, nem precisava pensar, não precisava pensar em nada, nem mesmo no que fora, ou no que viria a ser, e foi o que fez. Ainda podia dominar seus pensamentos, e não pensou mais em rosa alguma.

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