quinta-feira, 27 de julho de 2017

O som do azul

Haverá obra de arte mais emocionante do que mulher muito linda?
Sim, nua!
Cheirando a púbis!
E mais bela do que isso?
Grávida!
Amamentando!
Mais belo
Só crianças rindo!
Luz se eternizando!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A vida começa aos oitenta

O poeta Heitor de Andrade é editado pela Siglaviva

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 26 DE JULHO DE 2017 – A noite não tardaria quando Heitor Andrade e eu nos sentamos no calçadão da Pizzaria Parrilla, na Quadra 103 do Sudoeste, segunda-feira 24. A temperatura estava agradável; acredito que fizesse 21 graus, semelhante à cabine dos jatos comerciais. Ele pediu chocolate e croissant e eu, café com leite e pão com manteiga. Heitor é um garoto de 80 anos; poeta baiano, primo de Glauber Rocha, com quem teve sua vida entrelaçada. Eu tenho praticamente 63 anos, mas sempre que nos encontramos, engatamos papo de horas, com o mesmo interesse de rapazinhos.

Fui vê-lo mais cedo, no prédio da Editora Thesaurus, no Setor Gráfico, a poucos minutos do Sudoeste, e onde o Heitor mora atualmente. Ele queria me falar do projeto no qual está empenhado: transformar um dos pavimentos do prédio da Thesaurus em centro cultural, com atividades de cinema, teatro, galeria de artes plásticas e café literário, local onde escritores de Brasília possam vender seus livros. E também queria que o examinasse.

Heitor é da estirpe de Pablo Picasso; sua energia pré-celestial, apesar de todos os excessos, ainda é exuberante. Fiz anamnese, observei-lhe a língua e os pulsos, e, basicamente, além de orientá-lo a beber dois litros de água por dia, limpei-lhe o meridiano dos pulmões e tonifiquei baço e rins. Depois, fomos caminhando à Parrilla.

Às 19 horas, começou a reunião de estudo da Seicho-No-Ie, no mesmo prédio da Panini; convidei o Heitor para participar da reunião e ele aceitou. Subimos. Íamos começar o estudo do primeiro volume da coleção A Verdade, de Masaharu Taniguchi. Heitor retirou-se mais cedo, pois a sessão de acupuntura começou a fazer efeito; como ele não estivesse dormindo bem, apliquei nele o ponto extra yintang, situado entre as sobrancelhas. Disse que estava começando a sentir sono, despediu-se e voltou para casa.

Natural de Salvador, o escritor é pioneiro na vida cultural e jornalística de Brasília, nos anos de 1960, os momentos heroicos da nova capital do Brasil. Agitador cultural, Heitor apresenta, na noite brasiliense, o Teatro do Imprevisto, criação sua. Nas apresentações, improvisa e dialoga com a plateia, sempre instigante. O cineasta Renato Cunha, editor de Heitor Andrade, trabalha num documentário longo sobre o poeta, com produção de Kim Andrade, primo e produtor de Glauber Rocha.

Segue texto sobre a edição comemorativa de CORPOS DE CONCRETO


A Siglaviva tem a honra de trazer para o leitor a edição comemorativa de 50 anos de Corpos de Concreto, editado em 1964, às portas do golpe militar, pela Imprensa Oficial da Bahia, órgão à época sob a direção do professor Germano Machado, que aqui nos brinda com uma apresentação especialíssima. Germano Machado, além da nobre atitude de apostar num poeta iniciante, foi o responsável por salvar 100 exemplares da edição, que acabaria sendo queimada lá mesmo, no pátio da Imprensa. E foi por isso — pelo ato corajoso de um homem que, naqueles idos, havia sido equivocadamente tachado de reacionário pelos meios de comunicação — que esta edição comemorativa se torna agora possível.

Homenageamos aqui, então, não somente Heitor, mas também Germano. Após décadas sem se ver, eles se reencontraram em janeiro deste ano em Salvador, mediados pela produtora cultural e atriz Tina Tude. O reencontro — Heitor com 76 anos e Germano com 87 — reacendeu a importância de Corpos de concreto para a literatura baiana e brasileira e rememorou a conjuntura política que o tornou o primeiro livro no país a entrar para o índex da ditadura militar.

Na verdade, Heitor sofreu em sua carreira literária por um motivo apenas: por se desvencilhar tanto da direita como da esquerda, optando por uma politização fora dos eixos delimitados. Heitor sempre foi do partido da poesia, da cosmopoética, totalmente libertário e sem dogmas. E, assim, acabou por prever — não sei se utilizando as cartas do tarô — a morte da ideologia no país, uma morte que hoje é ilustrada pelo próprio panorama político. Mas e a poesia? A poesia — vale dizer —, apesar de parecer o contrário, não morreu; nunca morrerá.

Deleitem-se, então, com ela, com a poesia inaugural de Heitor Humberto de Andrade — ou, simplesmente H2A, como ele prefere ser chamado —, poesia merecidamente festejada nestes 50 anos de sua primeira publicação.

Heitor Humberto de Andrade é poeta e jornalista. Jornalista pela fome, poeta pela sede. Publicou Corpos de Concreto (1964), Sigla Viva (1970), 3x1, a matemática do poema (1978) — que, além dos dois anteriores, traz o inédito Probabilidade do jogo —, Nas grades do tempo (1994), Minha moldura é o Universo (2012) e O cão selvagem (2013). Mentor intelectual e espiritual desta editora, comandou, no final dos anos 60 e início dos 70, juntamente com o artista plástico Sami Mattar, o movimento cultural Sigla Viva, que promoveu a integração da sensibilidade humana com a artística.

domingo, 23 de julho de 2017

Olhar para a mulher amada

Em movimento imperceptível, como estrelas nascendo,
Pouso o olhar nas penugens do teu corpo.
Durante muito tempo meu olhar permanece imóvel,
E agora é navalha te lambendo.
Avião rasgando o azul do céu de agosto da Amazônia,
Que, de tão azul, sangra.
Ainda te agarrando com as tenazes do meu olhar
Começo a imaginar meu falo na tua boca,
Esguichando morno suco, que bebes avidamente.
Então a fera faminta e enjaulada fenece, arquejante, até ressuscitar,
Como erupção de desejos.
Mas isso é só no olhar, porque vou tirar-te a vida com minhas mãos ensandecidas
E devolvê-la com mais fogo ainda.
Por ora, o olhar desliza no dorso imobilizado, suplicante.
Tu pareces adormecida, mas estás atenta, à beira da explosão,
À espera da minha língua, das mãos que te pegam suavemente.
Tu suplicas ação, mas meu olhar te lambe pacientemente,
Até deixar tua pele penugenta úmida de saliva.
Meu olhar é como uma boca.
Meu olhar estaciona no teu olhar.
Teu olhar é sorridente e meigo, mulher amada.
Meus olhos sugam teus seios como bebê faminto.
Tentas pegar-me. Mas ainda não deixo.
Deslizo pelo teu ventre, vagarosamente,
Até o tufo de pelos, que sugo avidamente,

À porta que se abre para meu olhar latejante.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Receba em casa livros de contos de Ray Cunha

Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá/AP, sua
cidade natal, em foto do escritor Fernando Canto (2010)

O romancista e contista Ray Cunha está autografando e enviando a pedido três livros de contos: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, O CASULO EXPOSTO e TRÓPICO ÚMIDO. O pedido deve ser feito para: raycunha@gmail.com, quando deve ser informado o depósito de R$ 40,00 para envio dentro do território nacional e de R$ 60,00 para envio para o exterior. Os livros serão entregues pelos Correios no endereço indicado. O depósito será feito na seguinte conta: Banco Itaú – Agência 0198 – Conta Corrente 57503-7.

NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – NA BOCA DO JACARÉ, conto que dá título a este livro, é a história do mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto, ele representa a morte.

O CASULO EXPOSTO – Este livro contém dois dos melhores contos de Ray Cunha: INFERNO VERDE e A CAÇA. A Brasília que emerge das suas páginas é uma alegoria à ninfa de Lúcio Costa, golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de roubalheira, luxúria, depravação e morte nos subterrâneos de Brasília, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na Ilha da Fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos do tipo mais vagabundo, que não pensa duas vezes antes de passar a mão em merenda escolar; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira fracamente iluminada.

INFERNO VERDE conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém, Brasília e na ilha de Marajó.

Em A CAÇA a filhinha de um professor é sequestrada em Belém do Pará. Ao investigar o sequestro disposto a encontrar sua filha, viva ou morta, o pai encontra o fio da meada na nascente Palmas, capital do estado do Tocantins, e descobre uma quadrilha internacional sediada nos Estados Unidos dedicada ao tráfico de crianças para escravidão sexual.

TRÓPICO ÚMIDO – Três contos longos, com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre.

INFERNO VERDE conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém, Brasília e na ilha de Marajó.

LATITUDE ZERO se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na confluência com a Linha Imaginária do Equador; um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca.

A GRANDE FARRA narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. A novela tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

NESTA ENTREVISTA AO PROGRAMA TIRANDO DE LETRA DA UnBTV RAY CUNHA FALA SOBRE A AMAZÔNIA E SEU TRABALHO