segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Fogo no coração

RAY CUNHA

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

Ensaio sobre o equilíbrio

RAY CUNHA

O equilíbrio está sempre à beira do abismo
Do fio da navalha
Da perda
Do berro
Do nada
É o cataclismo do primeiro beijo
Das rosas nuas o vermelho
Dos jasmineiros o acme
Do poema o abismo
Do mar, a loucura
A danação das tempestades
O voo alucinante dos astros
A velocidade da luz
Os delírios mais divinos de Beethoven
É a noite, quando assassinos me perseguem
Derroto-os e durmo com a princesa.
Equilibrar-se é estar sempre a um passo da harmonia
E do desespero

O corpo é reflexo da mente

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – A língua da sra. K, 75 anos, apresenta profunda fissura longitudinal no centro, é vermelha e seca, e a ponta é rubra; foi-lhe extirpado um cancro maligno no seio direito; sua região cervical é dura como pau; é insone; sofre de constipação intestinal; é controladora; e ingere 15 medicamentos por dia. Seu pulso do coração é quase contínuo, uma oitava acima; o do fígado lembra o som de uma corda de violão muito esticada; e não há pulsação no rim.

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a anamnese, do grego ana, trazer de novo, e mnesis, memória, é fundamental para que se chegue ao diagnóstico, daí porque a conversa entre terapeuta e paciente deve ser estimulada enquanto durar o tratamento. A anamnese me lembra um desses filmes policiais em que o investigador entre numa casa, à noite, em busca de uma pista que o conduza à elucidação do crime. Não liga nenhuma lâmpada para não chamar atenção, principalmente do criminoso, e assim utiliza sua lanterna de bolso. De modo que somente lá pela décima sessão é que encontrei a pista que estava procurando. A sra. K foi traída pelo marido e seu filho caçula matou-se aos 21 anos.

Todas as doenças, sem exceção, surgem na mente e se refletem no corpo. O Universo funciona mais ou menos assim: existe a Lei, a que chamamos também de Deus. A Lei ordena tudo o que há no Universo, nada escapa à sua ação. Ela não é boa nem má, é a Lei. O Homem, que é mente, materializa-se na Terra em um processo de evolução infinito, nasce com livre arbítrio e é também criador. Nessa caminhada, o Homem cria ilusões, sempre na mente; são ilusões porque não se harmonizam com a Lei, razão pela qual o destino final dessas ilusões é desintegrarem-se.

Tudo o que se passa na mente se reflete no corpo, por meio dos sentidos, de modo que as ilusões também se refletem no corpo, que, por sua vez, se submete às leis físicas. A matéria é mutável e finita, e quando é atingida pela ilusão mental, degenera-se precocemente; são as doenças.

No caso da sra. K, ela vive no passado, juntamente ao seu filho caçula; mas o passado não existe mais, o que faz com que a sra. K se transforme em zumbi. Os zumbis são mentes deslocadas do agora, e a eternidade é agora. Os corpos dos zumbis apresentam-se deteriorados, ou doentes, porque estão deslocadas do agora. Sempre que tentamos nos situar no passado ou no futuro surge o estado de tensão, o que no caso da sra. K manifestou-se como cancro no seio favorito do filho, quando era bebê.

A sra. K nutre ódio pelo marido, que trocou-a por uma mulher muito mais jovem do que ela. O ódio, mais 15 medicamentos que toma por dia, incendiou seu fígado e as chamas subiram até o coração.

Ela tem mais dois filhos, casados, e mesmo assim tenta controlá-los, além da sua governanta; tudo tem que ser do jeito da sra. K. Pessoas controladoras contraem aterosclerose e seus pescoço e ombros ficam rijos como madeira, e acabam pegando fogo também.

Tratei a senhora com acupuntura, fitoterapia, alimentação energética e tuiná, a massagem terapêutica chinesa. Ela melhorava alguns dias, mas os sintomas voltavam. Quando identifiquei a origem da angústia da sra. K, expliquei-lhe como funcionam o mundo material e a mente. Que a vida material é a manifestação da energia pré-celestial, situada num xacra entre os rins, e que ela vinha jogando pelo ralo essa energia, ou seja, a própria vida, ao incendiar seu próprio corpo.

A solução – disse-lhe – consistia em três agulhas: uma delas é a prece, a conexão com o orbe espiritual, onde seu filho a procura, sedento do seu amor. A outra agulha é o perdão, pois só com o perdão ela voltará a amar novamente o pai dos seus filhos, e compreenderá que ele não é propriedade dela. A terceira agulha é a alegria, que alimenta a vida.

Somente os pacientes têm o poder de curar suas mazelas. O terapeuta é apenas instrumento da Lei.

Leia o primeiro capítulo do romance FOGO NO CORAÇÃO, TCC de Ray Cunha na ENAc


Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

O terapeuta, mestre em artes marciais e poeta Emanoel Vorcaro, graduado em mandarim e medicina tradicional chinesa em Pequim, tinha 61 anos, mas parecia ter 70. Perdera a esposa em acidente no Rio de Janeiro. O automóvel que bateu na porta do carro conduzido pela esposa de Vorcaro levava apenas o motorista, um rapaz que ainda durou o tempo de confessar que voltava de uma bacanal na noite anterior e ingerira uma garrafada de drogas. Vorcaro sobreviveu ileso. Sobreviveu é modo de dizer; transformou-se em morto-vivo. Seu apelido no Instituto Holístico, dito à socapa, era zumbi. Na tarde que antecedeu a tragédia descobrira, de uma só tacada, que sua mulher não engravidava porque era estéril, e era ninfomaníaca, a ponto de fornicar até dez vezes em um dia com homens diferentes. Nunca entrava no quarto de trabalho da esposa, modelo de moda em ascensão. Naquela tarde o gato entrou lá, pois a porta, que jamais ficava destrancada, encontrava-se entreaberta. Vorcaro foi atrás do gato e o encontrou sentado no fundo de um armário, sobre uma agenda; um diário. Quando Eliana chegou, Vorcaro fez que já estava dormindo e passou a noite em claro. Depois que ela pegou num sono profundo, olhou-a demoradamente. Era linda, e a amava demais. Quando amanheceu o dia ela o estranhou, pois ele parecia ter envelhecido dez anos. Saíram juntos. O pensamento recorrente o matava. Seria ódio? Desespero? Desencanto? Fosse lá o que fosse, sentia no coração, tragando-o, um abismo de fogo. E então aconteceu. Na época, o caminho que Vorcaro vislumbrou para não se matar foi a cidade-estado, onde morava seu pai, professor na Universidade de Brasília. Passou também em concurso na UnB, como professor de mandarim, e logo depois começou a lecionar medicina tradicional chinesa no Instituto Holístico, onde conheceu o professor Ricardo Larroyed, acupunturista e delegado especial da Coordenação de Repressão a Homicídios da Polícia Civil do Distrito Federal, juntamente com quem fundou a Clínica de Terapias Holísticas, que funcionava em prédio próprio. Ricardo Larroyed e Emanoel Vorcaro investiram todas as suas economias na clínica, localizada na 909 Sul, fazendo divisa com o Parque da Cidade. Seu quintal era sombreado por três mangueiras gigantescas. Podia-se sentir o odor das mangas, inchadas, verdes e amarelas, em pencas, vergando os galhos, lindas como seios de lactante. “São as mangueiras mais bonitas da cidade” – orgulhava-se Ricardo Larroyed. Naquele ano ainda não chovera para valer e a safra das mangueiras públicas foi magra, até porque elas começam a ser agredidas com as mangas ainda verdes. Larroyed só não vira pessoas de terno jogando paus, pedras e mangas verdes em outras mangas verdes; o chão, debaixo das mangueiras de Brasília, estava sempre pontilhado de folhas, pedaços de galho e, naturalmente, mangas verdes.

Em conversa com uma colega major, que fazia o curso de medicina tradicional chinesa no Instituto Holístico, Francisco Nolasco foi orientado a levar sua irmã, Rosa Nolasco, para ser atendida, segundo a major, pelo professor mais brilhante do curso, Emanoel Vorcaro. Rosa Nolasco era tão linda que os homens com o dom do olhar clínico desejavam engoli-la, engravidar-se dela, e sentir o eterno e intenso triunfo da maternidade. Brasiliense da gema, filha de diplomata americano e uma potra de Belo Horizonte, era dessas mulheres que param o trânsito, literalmente, daí porque raramente são vistas caminhando na rua; escondem-se em automóveis indevassáveis, de onde saltam para atravessar apenas uma calçada, sempre de óculos escuros. E seu elemento é a noite. Ruiva, os cabelos caindo como ervas daninhas numa cascata caudalosa até ancas africanas – herança da mistura entre um lusitano e uma princesa moçambicana em uma geração bem anterior à sua –, a pele rosada, olhos verdes como folhas de jambu, lábios grandes, grossos e vermelhos, nariz arrebitado, e um sorriso que era uma queda para cima, foi estuprada a primeira vez aos 14 anos, idade em que a mulher ainda é criança, prestes a se transformar em borboleta. Depois dessa primeira vez, o autor, um tio de 40 anos, estuprou-a mais oito vezes, até ela engravidar e ser conduzida a um matadouro, onde sangrou a ponto de quase morrer, resgatada pelo seu irmão, Francisco Nolasco, major da Polícia Militar do Distrito Federal, atirador de elite. O tio, um tal de José Antônio, foi encontrado com os bagos e o pênis destroçados a tiros e uma bala na hipófise, flutuando no Lago Paranoá, onde promovia bacanais pantagruélicas. Aos 17 anos, Rosa, uma flor de 1,80 metro e 70 quilos, iniciava a profissão de modelo, em plena tragédia, pois quase todo mundo que gravitava em torno dela queria predá-la, incluindo mulheres invejosas, mas seu maior predador era ela mesma. Passara por muitas camas, abortos e a exploração mais abjeta, porém seu corpo tinha a invulnerabilidade das rosas, que são frágeis, mas eternas. Sua tragédia perpassava pelo histórico das mulheres da família: o mal instalara-se com fúria no seu útero: uma colônia de miomas.

Quando Rosa Nolasco chegou, o professor Emanoel Vorcaro a aguardava. Ele dividia seu tempo entre a Universidade de Brasília, o Instituto Holístico, a Clínica de Terapias Holísticas e sua casa, na 703 Sul. Estava lendo alguma coisa quando os irmãos entraram no consultório. Vorcaro deixou de lado o que estivera lendo e pousou os olhos mortos nos olhos dela, e assim permaneceu por tempo excessivo, como um especialista em iridologia perscruta a alma do paciente, mergulhando nos subterrâneos labirínticos, nos pântanos, nas pradarias, nos jardins, no sol, nos olhos de Rosa Nolasco, que, de manhã, assumiam uma nuança azul; à medida que o dia avançava, e quanto mais calor fizesse, então as esmeraldas surgiam em meio aos arbustos rubros; e, à noite, eram como jambu, prenhes de espilantol. Emanoel Vorcaro gemeu. Provavelmente o gemido foi mental. A eternidade daqueles segundos o inebriara: sentiu cheiro de mar, ouviu risos de crianças, a voz de Frank Sinatra em alguma alcova perdida na paisagem vista da janela daquele quarto de hotel, em Paris, ao cair da noite, naquele momento e condições que tornam gentil todo o mundo, e viu sua esposa com seu filho imaginário no colo, rindo o riso cristalino das mulheres lindíssimas, e que o perseguia aonde quer que fosse.

Vorcaro cumprimentou-os e leu as anotações da assistente da manhã: Rosa Silvestre Nolasco, nascida em 1 de outubro de 1998, em Brasília, onde mora. Altura: 1,80 metro; 70 quilos. Aluna do curso de moda. Profissão: modelo. Solteira. Ele perguntou a queixa principal. Mioma no útero; menstruação abundante; irritação; muita sede. O útero já havia quadruplicado de tamanho.

– O médico quer operar; quer, não, disse que é inevitável, e pelo volume do mioma terá que ser extirpado todo o útero por meio de corte no ventre, como se fosse cesariana. Não quero isso! – ela exclamou. – Quero ter filhos! – suplicou.

– Oh! Não! Não será preciso operar! – disse Vorcaro, sem perceber o que estava prometendo. – Como e quando começou o problema e como evoluiu? – perguntou.

– As mulheres da minha família, todas têm mioma; depois que tiram, engravidam normalmente – ela disse. – No meu caso, comecei a sangrar muito; o médico passou vários exames e foi diagnosticado mioma, quadruplicando o tamanho do útero; meu útero está com um quilo e cem gramas, e não foi encontrado nenhum ferro no meu sangue, estou anêmica – choramingou. – Aí o médico receitou Noripum venoso, num total de oito doses, e dois comprimidos de Tâmisa por dia, para parar o sangramento. Eu não quero ser operada!

Fumante? Não! Alergia? Não!

Nessas altura o major pediu licença e saiu da sala.

Dorme bem? Sim, a não ser que comece a sentir cólica ou comece a sangrar. E agora, você continua a sangrar? Não, agora, não! Com os dois anticoncepcionais por dia parei de sangrar! Come muito? Não. Prefere alimentos frios ou quentes? Frios. Ou melhor, gelados. Bebo muita água gelada! Bebe pelo menos dois litros de água por dia? Sim, bebo muita água! E sempre gelada; às vezes como gelo! Como é sua respiração? Normal! E a transpiração? Normal! E a visão? Leio até em corpo oito; minha visão é uma verdadeira lupa! Sua fala é boa! Como são suas fezes? Como é? São ressequidas ou moles? Acho que são normais! Você vai quantas vezes ao vazo por dia? Pelo menos uma vez! Você sente gosto amargo na boca? Não! Sente alguma dor? Só cólicas! Preciso ver sua língua!

Depois de tanto tempo sem pensar nos mistérios femininos – já certo de que nunca mais voltaria a sentir aquela sensação de montar a luz, pois tinha a impressão de que se transformara em fantasma, ou em zumbi, como diziam lá na escola –, a vida explodiu como um big-bang, e todo o tecido negro se transformou em estrelas. Quando viu a boca de Rosa Nolasco tão perto, seus dentes perfeitos, como pequenas esculturas de marfim, os lábios imensos, vermelhos, não prestou atenção na língua, pálida, ligeiramente seca e levemente inchada, denteada e com fissura no centro; só lhe ocorreu que o que via era uma língua para ser sugada como uva. Ela a recolheu. Emanoel Vorcaro estava tremendo. Era um homem sereno, mesmo após a tragédia que o matou. Mas estava tremendo. Respirou fundo, pegou-lhe os pulsos e se concentrou. O fígado estava em corda e vibrava como contrabaixo, os rins quase não se manifestavam, e o baço, mesmo derrotado, lutava, e haveria de lutar muito, defendendo aquele corpo perfeito, conspurcado pela tara genética. “Insuficiência de xue, deficiência de Qi do rim e do baço” – pensou.

O major retornara.

– Rosa, você terá que se submeter a sessões diárias por dez dias, além de tomar um xarope que eu mesmo prepararei para você, e ingerir alguns alimentos que também vou prescrever. No fim de dez dias, avaliaremos o quadro. Se não houver melhora, você terá mesmo que se submeter à cirurgia, que hoje é corriqueira – Vorcaro explicou-lhe.

– Pensei que com acupuntura eu não precisasse me submeter à cirurgia! – ela respondeu, alarmada.

– Acupuntura, ou medicina tradicional chinesa, não resolve tudo; há muitas coisas em que a medicina ocidental é imbatível, especialmente na utilização de tecnologia de ponta e no avanço de fármacos, sem falar na habilidade de cirurgiões talentosos. Mas a MTC, que é uma medicina holística, é importante para compreendermos a nós mesmos, e por que somos acometidos de doenças. Senti nos seus pulsos, e isso é possível, anjinhos chorando, crianças que não chegaram a nascer – ele disse.

Ela começou a chorar. As lágrimas saltavam dos olhos como se fossem gotículas minadas de dois lagos prenhes de clorofila. O impulso que o professor Francisco Vorcaro sentia era de tomá-la nos braços, beber as lágrimas e sufocá-la com seus lábios murchos.

– Doutor, ela já sofreu vários abortos – o major, que havia retornado, informou.

– Seria bom ela conferir quantos foram, dar nome às crianças, nomes ambíguos, que possam servir tanto para homens quanto para mulheres, e batizá-los segundo sua religião – disse o professor.

– É uma quantidade tão grande que eu nem sei se há tantos nomes ambíguos – volveu o major, meio cínico.

– Nesse caso podem ser utilizados também nomes que não sejam ambíguos – insistiu o professor, ignorando o humor negro do major. – Bem, agora vou fazer nela acupuntura e aurículo.

– Professor, preciso ir à PM; a que horas o senhor acha que poderei vir apanhá-la? – o major perguntou.

– São 10h30; meio-dia já terei feito tudo. O atendimento dela será demorado porque é a primeira vez, e também o caso requer todos os recursos de que disponibilizamos. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que a Rosa não precise se submeter a cirurgia; mas afirmo, desde já, que, se for o caso, trata-se de uma cirurgia, como disse, comum, hoje em dia, e a sutura é perfeita como a de uma cesariana.

– Mas se eu for operada como poderei ter filhos? Vão extrair meu útero! – ela gritou, levantando-se e dirigindo-se para a baia onde seria atendida. – A única saída é a acupuntura; daí porque procurei o senhor – disse, lá de dentro.

Quando Emanoel Vorcaro entrou e a viu nua sentiu o sangue irrompendo no seu corpo todo, como tsunami. Rosa Nolasco deitara-se nua sobre a maca. Naquele ambiente séptico e luminoso, seus cabelos assumiam nuanças de ouro e rubi, derramando-se quase até o chão, em grandes anéis, jorros de metal líquido, escorrendo. Os seios, naquela posição, pareciam duas montanhas aureoladas, movendo-se ao ritmo da respiração. Descendo pelas encostas das montanhas, a planície do ventre lembrava uma tábua esculpida em mármore. O olhar do professor Emanoel Vorcaro havia montado na luz e gravitava naquela miragem até pousar no púbis cintilando no meio da galáxia.

– Oh! Não! Não precisa! – Vorcaro balbuciou. – Não precisa ficar nua! Vou pegar uma toalha para cobri-la!

– É melhor eu ficar logo nua. Estou acostumada. Assim é melhor para você me examinar – ela respondeu.

– Seu irmão pode chegar... – Vorcaro balbuciou.

– Você tem medo de ser preso? – ela riu. – Ele acha natural. Andávamos nus, em casa. Foi assim que meu primo, que Deus o tenha, matou-me – ela disse e se calou.

Seguiu-se um pouco de silêncio, Vorcaro cobrindo-a. Era uma grande toalha rosa, uma bela toalha de algodão, alva como a pele de Rosa Nolasco, e que se confundia com a epiderme sem mácula da modelo. Só os cabelos contrastavam com a toalha, na sua natureza incandescente, estase de lava.

– É praxe cobrirmos os pacientes – Vorcaro continuava balbuciando.

– Sou toda sua – Rosa murmurou, quase debochada.

Vorcaro estava sem graça em torno da miragem na maca.

– Bem, mioma é basicamente umidade – balbuciou. – Vou tocá-la! Posso? – disse, voltando a si, aos poucos, e readquirindo a velha confiança. Podia se encontrar na situação que se encontrasse, e podia atender quem quer que fosse, Gisele Bündchen que fosse, quando começava a atender seu papel de terapeuta assumia o comando. Levantou a toalha e apalpou o ventre e o púbis, e pôde sentir os tumores. Apurou o olfato – poderia ter sido um “nariz”, aquele profissional da indústria de perfume que pode sentir as essências mais tênues – e farejou o púbis, que exalava o perfume das virgens ruivas, uma essência tão penetrante que parece material. “É daquelas mulheres que voltam a ser virgens não importa quantas vezes sejam penetradas; têm bezerro; a musculatura e a rede de vasos sanguíneos da vagina são excepcionais” – pensou. E sentiu também o miasma. “No caso dela, parece um carma que vem passando de mãe para filha. Mas todo carma tem fim. Só a eternidade não tem fim; neste mundo carnal tudo tem fim” – pensou, alimentando o velho desejo de desencarnar e encontrar noutra dimensão a sua amada. Apanhou a ficha.

Miomatose uterina; menstruação abundante; irritação; muita sede. Língua pálida, ligeiramente seca e levemente inchada, denteada e com fissura no centro – Insuficiência de xue, deficiência do Qi do baço; deficiência de yin. Alimentação energética a ser prescrita: consumir açaí puro, couve, espinafre e alimentos verdes em geral e de cor laranja. Abóbora no jantar. Chá de gergelim preto antes de deitar-se. Xarope de babosa. Ele prepararia o xarope naquela noite. Compraria Aloe vera na Feira do Guará. Também aproveitaria para renovar o estoque de mel de abelha do Piauí, que é do que gostava. Quanto à aguardente, usaria aquela garrafa de conhaque francês que ganhara de um amigo; não lembrava mais nem do nome do amigo, quanto mais da marca do conhaque. Um branco havia descido na sua memória há tempo. Compraria o equivalente a um metro de babosa, extrairia a gelatina e misturaria com um litro de mel e uma dose de conhaque; ela tomaria uma colher das de sopa entre as refeições. Retiraria da sua alimentação leite e derivados, farinhas brancas e água gelada, e começaria o tratamento com o TA18, para harmonizar o Qi do útero e transformar umidade em calor; F14 e F3, para regularizar o fígado; BP10, para regular a menstruação; BP9, para tirar umidade ativando o aquecedor inferior; e E40, para eliminar muco, além do VG20, para purificá-la. “Depois, aurículo!”

O major Francisco Nolasco chegou ao meio-dia em ponto e encontrou uma Rosa sorridente. “O maracujá de gaveta deu um jeito nela” – pensou.

A próxima sessão foi marcada para o dia seguinte, quando o xarope de babosa já estaria pronto e a paciente começaria a tomá-lo. O professor Vorcaro pretendia debelar a colônia de miomas em dez dias. Sabia do seu poder, pois não curara até paciente com câncer?

O início daquela tarde de sexta-feira era sufocante, mas ali, na Feira do Guará, um dos poucos locais aonde o professor Vorcaro ia e se divertia, estava agradável, devido à aragem que perpassava o grande galpão, o passa-passa, o cheiro das frutas, dos peixes, de tudo o que era bom. Enquanto o professor se dirigia ao quiosque onde comprava Aloe vera, seu subconsciente repassava algumas informações.

Os chineses usavam babosa como medicamento há 6 mil anos; há 2 mil anos, o médico grego Penadius Dioscorides enumerou seu uso para a pele, queimaduras, manchas, perda de cabelo e indisposição estomacal. Na Bíblia, é chamada de "árvore perfumada" e "resina perfumada", e teria sido misturada à mirra para embalsamar Jesus. Marinheiros de Cristóvão Colombo e missionários no Novo Mundo, antigas tribos do México e das Américas Central e do Sul a utilizaram. Nativa do norte da África, com mais de 200 espécies catalogadas, das quais apenas quatro são úteis e seguras para seres humanos, trata-se de um dos alimentos mais ricos em gliconutrientes, composto de 12 vitaminas, 15 enzimas, 18 aminoácidos – inclusive os principais compostos do corpo humano –, 20 minerais, 75 nutrientes e mais de 150 princípios ativos. Floresce no começo da primavera. Suas folhas, verdes e gelatinosas, têm espinhos e crescem como lanças, em formação de roseta, tal qual pétalas de rosa, até 75 centímetros, e podem pesar até 2,3 quilos cada uma. Originária de regiões desérticas, adquiriu capacidade de sobreviver em meio hostil, e deu-se bem no trópico. É utilizada geralmente em problemas relacionados à pele, como acne, queimadura, psoríase, hanseníase etc. Poderoso regenerador e antioxidante natural, com propriedades antibacteriana e cicatrizante, e capacidade de reidratar tecidos, inclusive o capilar, aplicado sobre queimadura ajuda rapidamente a anular a dor, pelo seu efeito reidratante e calmante, reparando, lentamente, o tecido queimado; também conduz nutrientes para as células e regula o trânsito intestinal. Historiadores há que apontam a babosa como o grande segredo da beleza de Cleópatra, que a utilizaria para tratar sua pele, que encantava a todos que puderam vê-la, e, especialmente, aos que puderam tocá-la, acariciá-la, sentir o sabor da sua pele, o sabor da pele de Rosa Nolasco! A pele de Rosa Nolasco tinha a natureza dos vestidos de seda rosa! – Emanoel Vorcaro acordou. Precisava desalojar a colônia de miomas, desalojá-la do útero de Rosa Nolasco, pulverizá-la. Poria na fórmula o talento terapêutico necessário para salvar o útero daquela miragem ruiva, que irrompeu numa inundação de luz na escuridão em que ele morria. Precisava aliviar-se daquela sensação, de, simultaneamente, mergulhar ainda mais fundo no inferno e alçar-se ao limite da galáxia, num acme permanente de fogo no coração. Precisava meditar com o VG20 espetado no alto da cabeça.

Pensava nisso enquanto comia. Comer, e vestir-se elegantemente, geralmente de terno de linho, e sempre de panamá, eram seu grande prazer depois da medicina tradicional chinesa. Quantos pacientes com mioma saíram curadas das suas mãos? Inclusive o caso Cátia, aquela moça que não tinha dinheiro nem para pegar ônibus e a quem ele pagou transporte e alimentação. Seu caso era desesperador. Fora diagnosticada na rede pública mas esperava a cirurgia há três anos, sangrando. Recuperara-a com açaí, suco de couve, xarope de babosa e limpeza dos meridianos do baço, fígado e rins. É verdade que a encaminhara para a Seicho-No-Ie, onde uma preletora, amiga de Ricardo Larroyed, cuidou da moça; ela batia de frente contra o pai, cachaceiro, para quem passou a fazer oração de perdão. Assim, no mundo espiritual, a paciente teria se curado, o que se refletira na dimensão material. De qualquer forma cumprira sua parte e a moça estava recuperada. Também conseguiu emprego para ela e que voltasse a estudar, e foi um triunfo quando ela passou no vestibular da Universidade de Brasília para psicologia, graduara-se e já estava trabalhando.

Sentado no Café e Restaurante Dona Neide, “como um peixe”, pois o refeitório parecia um aquário, seus pensamentos voavam enquanto devorava a rabada, “a melhor de Brasília”. Ia ali pelo menos uma vez por semana, às vezes no sábado, com Ricardo Larroyed, só pela rabada, e aproveitava para fazer uma das coisas que lhe proporcionavam prazer: caminhar pela feira, ver e sentir o cheiro das frutas, dos peixes, das aves abatidas, dos legumes e verduras, dos temperos, das essências, o perfume das virgens ruivas, “o cheiro mais perturbador do mundo”. Perdera a vontade de viver, mas não a urgência dos odores. “Cheirar é preciso; viver não é preciso.” E então a essência que sentira naquela manhã assaltou-o como um vendaval.

Estacionou na garagem seu velho Gol que um dia fora vermelho e entrou diretamente na sala da casa, na 703 Sul, deixou o material na cozinha, foi ao quarto, trocou de roupa e retornou à cozinha, onde pôs-se a trabalhar. Gostava daquela cozinha; aliás, gostava, muito, da casa toda, herança do seu pai. Podia-se ver, da rua defronte ao prédio e da janela do quarto no segundo andar, o Santuário Dom Bosco. Ali era tranquilo, especialmente na ampla biblioteca, provavelmente a maior de Brasília em títulos da medicina tradicional chinesa.

A reunião no Instituto Holístico naquela sexta-feira à noite voltou ao seu consciente. A questão a ser discutida era o seguinte: havia uma corrente de professores que desprezava Giovanni Maciocia, adotado pela escola. “Maciocia é um gênio” – pensou. “Ninguém, no Ocidente, é autor de uma bibliografia mais ampla sobre medicina chinesa do que Maciocia.” Com efeito, Giovanni Maciocia começou a se dedicar à medicina chinesa desde 1974. Professor e terapeuta, publicou sete livros, traduzidos em mais de dez idiomas. Com formação em economia, em Nápoles, o ensaísta italiano se mudou para a Inglaterra, onde obteve bacharelado em acupuntura, em 1974, no Colégio Internacional de Medicina Oriental. Estudioso do mandarim, fez três cursos de pós-graduação na Universidade de Medicina Tradicional Chinesa em Nanjing. Publicou seu primeiro livro, Os Fundamentos da Medicina Chinesa, em 1989, constituindo-se, desde então, em obra de referência para o estudo de medicina chinesa em várias escolas dos Estados Unidos. Em 1995, publicou uma linha de fórmulas de fitoterapia chinesa, Os Três Tesouros, adaptação moderna de prescrições de clássicos chineses. “Tiro meu chapéu para ele! É impressionante como o Bartolomeu o detesta.”

Bartolomeu Amado, o bafo de onça, era também médico em medicina tradicional chinesa formado na China, e comportava-se como se ainda vivesse lá. “Ele está se matando; viver como se estivesse na China, em Brasília, é loucura. Acho que seu bafo de onça e aquela cara cheia de marcas de espinha é de tanto comer peixe mal conservado, escorpião, cachorro e pimenta” – ria, na, talvez, única situação em que se dava ao luxo de satirizar alguém e rir, pois, de certa forma, sentia-se como o professor Bartolomeu, matando-se, ou, no seu caso, morrendo. Contudo, o professor Bartolomeu era bastante popular na escola, entre os rebeldes sem causa, justamente por sua teimosia em contrariar Giovanni Maciocia durante suas aulas. Seria difícil o diretor do Instituto Holístico, professor Marcelo Quintela, dobrá-lo.

“Bartolomeu Amado tem conhecimento enciclopédico de medicina tradicional chinesa, porém é vítima de dois pecados: é arrogante e preguiçoso. Vou pegar aquele biltre” – pensou, deixando tudo pronto para, na volta, preparar o xarope para a deusa ruiva. Encontraria com Ricardo Larroyed e depois da reunião jantariam juntos. Ricardo Larroyed era, para o alquebrado professor, uma pedra preciosa. Acreditava que se não fosse pela amizade do dublê de acupunturista e policial já teria desistido de tudo. Desde o acidente nunca mais praticara sequer tai chi chuan. Sentia-se bem disposto e forte fisicamente, mas sua alma não parara de chorar.

A noite caíra. Emanoel Vorcaro sentiu que o tempo começava a mudar, tornando-se mais úmido. A brisa mexia levemente as folhas dos ipês, abacateiros, barrigudas, jamelões, mangueiras e palmeiras das imediações. Aspirou o perfume dos jasmineiros. Ah! Era como estar ao lado de Eliana, curtindo a vida em toda a sua plenitude. Naquela noite, haveria de ficar embriagado com Ricardo Larroyed e haveria de produzir o melhor xarope do planeta, capaz de deixar o útero da deusa ruiva como um botão de rosa, um berço de mênstruo desabrochando. Deixara seu Gol no estacionamento da quadra. Alcançou-o, embarcou e saiu. Dali a sete dias seria Natal. Como sempre, passaria a noite de Natal sozinho, com suas recordações. Sabia que o passado não existe, como também o futuro não existe. Um, era nostalgia e remorso; o outro, ansiedade. Rejeitava um e outro. No mundo material, extremamente limitado, só havia agora, e nada mais. Precisava viver apenas cada momento, e cada momento é a eternidade. Mas, se quisesse, nem precisava pensar, não precisava pensar em nada, nem mesmo no que fora, ou no que viria a ser, e foi o que fez. Ainda podia dominar seus pensamentos, e não pensou mais em rosa alguma.

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A liberdade se equilibra no lombo da luz

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – Mestres como Jesus Cristo, Massaharu Taniguchi, Alan Kardec, deixaram claro que o ser humano é espírito, um dos corpos vibracionais que compõem a mente, a sede do amor e da sabedoria e o mais próximo do mundo perfeito. Espíritos baixos, grosseiros, encarnam para evoluir e alcançar o nirvana, ou paraíso, o mundo perfeito.

A dimensão da carne é uma prisão. Começa com a força de gravidade, que pressiona tudo para o chão. Se não fizermos esforço para viver, a deterioração da matéria se acelera e o tempo encurta. Além disso, a matéria é constantemente agredida, de modo que a sensação de liberdade, atrás da qual todo mundo anda, requer disciplina o tempo todo.

Entre o espírito e o corpo carnal há dois corpos vibracionais, mais sutis do que a matéria, que também é energia, porém numa vibração tão baixa que se condensa. O corpo astral, que liga o espírito ao corpo etéreo, é a sede das emoções. Por exemplo: se alguém se deixa ofender e fica com ressentimento, isso gerará uma inflamação no corpo astral, que se refletirá no corpo etéreo, sede dos sentidos.

O corpo humano é uma máquina biológica, administrada pelo cérebro, que, auxiliado pelo sistema endocrinológico, comanda o corpo por meio de hormônios, enzimas e uma infinidade de substâncias químicas que aos poucos os cientistas vão descobrindo. Por trás do cérebro existe a mente, que são os corpos sutis.

O mais perto da matéria é o corpo etéreo, sede dos sentidos. Tanto que o corpo material não sente dor; a dor é sentida no corpo etéreo. Hipnose profunda é quando o hipnotizador afasta o corpo etéreo do corpo carnal, que se torna, então, zumbi.

Pois bem, o intumescimento no corpo astral provocado pelo ressentimento atinge o corpo etéreo, surgindo, daí, desequilíbrio entre as energias básicas yin e yang do corpo carnal, o que pode se configurar, por exemplo, em pressão alta, arritmia cardíaca, constipação intestinal, insônia, autopunição – como doenças autoimunes e fibromialgia –, cancro etc. Ódio, então, destrói o paciente e tudo ao redor dele.

Médiuns que servem como cavalo para espíritos que baixam nas mesas brancas atrás de orientação, se não se fortalecerem com orações que os conectem a Deus tornam-se depositórios de todo tipo de doença, porque os espíritos doentes que se manifestam nos médiuns os influenciam. Ao morrerem, espíritos baixos continuam com os corpos etéreo e astral até evoluírem.

É por isso que a atmosfera dos prostíbulos é sombria, porque espíritos que estão no limbo querem continuar sentindo os prazeres do sexo por meio de pessoas que se dedicam desesperadamente à libertinagem.

Nascer é uma bênção. Há uma infinidade de espíritos querendo nascer; alguns já encarnaram várias vezes, mas não evoluíram. A vida material serve para evoluirmos; esta é a missão básica de cada qual. Nascemos com um tanque de energia celestial, ou, como também dizemos na Medicina Tradicional Chinesa: energia pré-natal ou ancestral, uma espécie de mensagem genética que proporciona a formação do feto e o desenvolvimento do corpo, garantindo ainda o funcionamento dos órgãos, especialmente o coração.

Há três combustíveis pós-celestiais: oxigênio, alimentos e alegria. Sem oxigênio, duramos poucos minutos; sem comida, alguns dias; e sem alegria, morremos sempre, a vida biológica pode durar décadas, mas morre-se a cada instante. E quando surge o desequilíbrio entre yin e yang, que é a doença, o corpo não consegue mais tirar, nem conservar, energia dos alimentos, e então lança mão da energia celestial, encurtando a vida.

Assim, viver aqui na Terra é um exercício de disciplina. O caminho é cheio de armadilhas, apego, prazeres que se materializam como miragens. Mas a liberdade pode nos conduzir para a expansão da consciência. Liberdade é tão-somente a prática do amor, do perdão, da oração. Só assim podemos montar a luz.

Câmara promove seminário sobre medicinas tradicionais e práticas integrativas

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – A Comissão de Seguridade Social e Família, a Frente Parlamentar Mista de Práticas Integrativas em Saúde e a Frente Parlamentar Mista de Educação, da Câmara dos Deputados, realizarão, dia 26, o I Seminário de Medicinas Tradicionais, Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, das 9h30 às 18h15, no Anexo II, Pavilhão Superior, Ala A, Sala 143. Mais informações serão obtidas por meio dos telefones: 3216-6784/3216-6785.

Serão compostas quatro mesas:

MESA I

Tema: Avanços e Desafios da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS e nas Américas.

Moderador: deputado Saraiva Felipe, autor do requerimento na Comissão de Seguridade Social e Família.

Palestrantes: Ricardo Barros, ministro da Saúde; Joaquim Molina, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS); Willen Hell, coordenador da Comissão Intersetorial de Promoção, Proteção e Práticas Integrativas e Complementares (CIPPSPICS); Michele Caputo Neto, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass); Iracema Benevides, da Rede Nacional de Atores Sociais em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Redepics); e Islândia Carvalho, da Fiocruz/PE e da Rede Nacional de Atores Sociais em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Redepics).

MESA II

Tema: Práticas Integrativas e Complementares e o Campo de Trabalho (profissionalização e ocupação).

Moderador: deputado Giovani Cherini, presidente da Frente Parlamentar Mista de Práticas Integrativas em Saúde.

Palestrantes: Ronaldo Nogueira, ministro do Trabalho; Ana Paula de Campos Schiavone, diretora-geral do Departamento de Gestão e da Regulação do Trabalho em Saúde (Degerts); Mauro Guimarães Junqueira, presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saude (Conasems); e Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

MESA III

Tema: Formação no Campo das Práticas Integrativas e Complementares (Básica, Técnica, Superior e o Saber Popular).

Moderador: deputado Alex Canziani, presidente da Frente Parlamentar Mista de Educação.

Palestrantes: Simone Saad Machado, coordenadora-geral de Apoio ao Controle Social, à Educação Popular em Saúde e às Políticas de Equidade do SUS/Dagep/SGEP/MS; José Mendonça Bezerra Filho, ministro da Educação; Rogério Luiz Zeraik Abdalla, da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde - SGTES/MS; e Francisca Rêgo Oliveira Araújo, conselheira do Conselho Nacional de Saúde.

MESA IV

Tema: Atores Sociais e a Garantia dos Direitos no Campo das Práticas Integrativas e Complementares.

Moderador: deputado Saraiva Felipe, autor do requerimento na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF).

Palestrantes: Charles Tesser, GT Racionalidades Médicas/Abrasco, e da Rede Nacional de Atores Sociais em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Redepics); Joan Roura, da Fundação David Lynch (Brasil), do Conselho Federal de Medicina (CFM), da Associação Médica Brasileira (AMB) e da Federação Médica Brasileira (FMB).

Debate de 15 minutos e encerramento, das 18 horas às 18h15.

sábado, 14 de outubro de 2017

CONTO/O primeiro filme a gente nunca esquece

Sou o mais velho de cinco irmãos. Tenho 11 anos e a caçula, 5. Minha mãe, Olinda, diz que somos uma escada. Meu pai, Aquiles, morreu logo depois do nascimento da Violeta, minha irmã caçula. Meu nome é Alexandre, mas meus irmãos e os colegas da escola me chamam de Alex. Depois de mim vem Alessandra, 10 anos; Júlio César, 9; Orquídea, 7; e Violeta, 5. Meu pai era operário na construtora do Paulo Octávio, o homem mais rico de Brasília, por isso, segundo minha mãe, ela recebe uma pensão. Assim que meu pai veio do Recife, ele recebeu um lote em Samambaia, do homem que governava Brasília, Joaquim Roriz. Minha mãe cuida de nós e é lavadeira; ela trabalha o dia inteiro, desde cedo, até tarde da noite. Mesmo assim, ela ainda é muito bonita. Logo depois que meu pai veio para Brasília, tia Sebastiana, ou Tiana, como ela gosta de ser chamada, veio atrás. Tia Sebastiana se casou e foi morar com seu marido. Ele é bem de vida; é dono da mercearia no fim da rua onde moramos. Mas tia Sebastiana tem um problema e quando sente que o problema está chegando ela corre aqui para casa. Domingo de manhã, estávamos vendo televisão quando ela chegou, mais branca do que ela já é. Minha mãe mandou a gente ir para o quarto. A casa só tem dois quartos: um é da minha mãe e o outro é nosso. Fomos para o nosso quarto e eu, que sou o mais velho, fiquei olhando pelo buraco da fechadura e descrevendo o que via para meus irmãos. A visão pelo buraco da fechadura dá certinho no sofá. Minha mãe sentou tia Sebastiana ali. Ela foi ficando dura e falando com voz de homem. Deu para entender algumas coisas, como “estou no meio de uma escuridão” e “preciso de luz”. O negócio era pavoroso; mesmo assim eu procurava descrever tudo da melhor maneira possível para meus irmãos. Vi que minha mãe gritou para alguém, da cozinha, mas voltou logo para a sala e pouco depois entrou um homem que mora na rua atrás da nossa e que ouvi dizer que é espírita. Não sei bem o que é isso, mas me explicaram que ele fala com os mortos. Ele foi entrando e pondo a mão na cabeça da minha tia.

– Pai Nosso que estais nos Céus, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, amém – ele foi logo dizendo. E depois: – Tu és filha de Deus e ninguém, nenhuma entidade, poderá te causar mal algum... quem está aqui no corpo desta nossa irmã que se manifeste, e diga o que quer.

– Estou aqui nesta escuridão – respondeu tia Sebastiana, naquela voz grossa. – Preciso de luz. Peço perdão à Sebastianinha, a quem eu maltratei tanto; espancava-a com ripa até ela desmaiar. Olinda se casou antes que eu perdesse o emprego e passasse o dia inteiro em casa, atentando os outros. Apesar de tudo, Santinha, a mãe das minhas filhas, sempre me apoiava. Ela também sofreu muito, pois lhe ensinei a cartilha do ABC à base de palmatória. Agora eu compreendo que não devemos, nunca, fazer os outros chorarem; só devemos fazer os outros rirem. Eu estou arrependido e só peço o perdão de Sebastianinha. Aqui, onde estou, faz tanto frio, e é tão escuro!

Eu tentava compreender bem o que estavam falando para explicar para os meus irmãos. Violeta quis chorar, e expliquei a ela o que estava acontecendo baseado no que eu conseguia compreender.

– Quem está aí no corpo da nossa irmã? – o espírita perguntou.

– É o pai dela, Virgulino. Ela precisa me perdoar – disse a voz grossa.

– Deixe esta nossa irmã; ela vai perdoar o senhor, mas deixe-a viver a vida dela, de agora em diante. Vamos orar pelo senhor.

– Onde eu estou é tão escuro e cheio de mato! Não enxergo o matagal, mas posso sentir que está cheio de urtiga e cacto!

– Sua sepultura será limpa e o senhor vai receber muita luz, em forma de oração.

– Muito obrigado! Muito obrigado! Muito obrigado! Que Deus abrigue todos nós!

Minha tia Sebastiana foi se acalmando, se acalmando, até voltar a ser ela mesma. Acompanhei, com curiosidade, o que veio nos dias seguintes, inclusive para interpretar esses acontecimentos para meus irmãos, que ainda dependiam de mim para entender muitas coisas. Sei que todas as noites minha tia ia para casa e rezava com minha mãe, e, passada mais ou menos uma semana, minha irmã viajou para Santa Cruz do Capibaribe, no estado de Pernambuco, onde meu avô está enterrado. Parece que ela foi para lá com o intuito de limpar a sepultura do meu avô. O certo é que já faz um ano que isso aconteceu e nunca mais minha tia sofreu ataque algum; pelo contrário, ela, que é professora normalista formada, abriu uma creche e Violeta passa o dia lá. De Orquídea para cima já estamos estudando na escola em Taguatinga. Minha mãe vai deixar e buscar a gente. É divertido pular a catraca do ônibus, que está sempre cheio como uma lata de sardinha e às vezes quebra na estrada. Mas é melhor do que lá no Recife, onde, às vezes, passávamos o dia inteiro só com um cafezinho no bucho, com exceção de Violeta, que nasceu no Hospital Regional da Asa Sul. Quando morávamos no Recife, o papai cortava cana numa fazenda não sei onde, mas que era distante, e passava bastante tempo longe de casa; minha mãe chorava muito, mas ela sempre confiou em Deus. Deus é muito bom, tanto que, hoje, pela primeira vez, nós cinco iremos ao cinema. Minha mãe me explicou que mesmo filhos de ex operários da construtora onde o papai trabalhava têm direito a ver um filme. Não sei como é um filme, pois nunca vi um, mas sinto que é alguma dessas coisas que jamais esquecemos, que guardamos para sempre no nosso coração.