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Estação das Docas, em Belém do Pará: a cidade
precisa desesperadamente de um prefeito
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RAY CUNHA
Vista de madrugada, a bordo de um jato prestes a pousar no
Aeroporto de Val-de-Cães, Belém emerge da baía de Guajará como uma península de
luzes, cada vez mais tangível à medida que o avião se aproxima do chão, até
tocá-lo, num choque no concreto, amortecido pela borracha maciça dos
gigantescos pneus da aeronave. Aparentemente a cidade dorme, mas seu ventre
ferve na madrugada, e escorre, cedo, na manhã, espalhando sua podridão no
meio-fio das ruas e quedando-se, morto, à medida que o sol surge e os belenenses
começam a se mover e a expelir dejetos. Almas penadas, andarilhos da madrugada,
vendedores ambulantes, mendigos, caminhantes, comerciários, povoam o
Ver-O-Peso, o calçadão da Praça da República, o Terminal Rodoviário Hildegardo
da Silva Nunes, a Praça do Operário, o Mercado de São Brás, a Praça Batista
Campos, a Doca de Souza Franco, todos os pontos preferidos dos exilados na
noite, porque, de uma forma ou de outra, esses locais lhes proporcionam luz,
segurança e esperança. A periferia se move como piolho no caldeirão da manhã, a
caminho do centro da cidade, nas avenidas atulhadas de carros, sob a fumaceira
dos ônibus, que empesta o ar. Ambulantes vendem de tudo nas suas bicicletas de
padeiro, estacionadas em esquinas e calçadões estratégicos. Uma índia velha,
obesa, seminua, dorme, bêbeda, sobre um banco decrépito, protegida pelas
mangueiras gigantescas que pontilham a Praça da República, e pela indiferença
da manhã ao triunfo do sol. O odor mefítico se espalha pela cidade, adocicado,
de cavalo morto exposto ao sol e à chuva, anestesiando o olfato. Os dias
amanhecem calorentos e, à tarde, chove sempre.
Belém do Pará era a cidade brasileira mais desenvolvida e
umas das mais prósperas do planeta, no século 19, a Belle Époque, e continua
sendo uma das mais atraentes e movimentadas do Brasil. Fundada em 12 de janeiro
de 1616, precisa desesperadamente de um prefeito, que a entenda, que seja
honesto, democrático e empreendedor. Que a ame. Seus um milhão e meio de
habitantes certamente ficarão muito gratos, pois há décadas os alcaides tratam
o Portão de Entrada da Amazônia como se fosse sanitário público.
A Cidade das Mangueiras é uma península que avança na baía
de Guajará, no trópico equatorial, como um pórtico para o Mundo das Águas, o
arquipélago de Marajó: o maior rio do mundo, o Amazonas, ao norte; os rios
Tocantins e Guamá, ao sul e sudeste; o rio Pará, a sudoeste, e o Atlântico, a
nordeste. O Amazonas fertiliza o Atlântico com pelo menos 200 mil metros
cúbicos da sua água túrgida de húmus, por segundo. Assim, a Amazônia Azul do
setentrião é a maior província piscosa e de frutos do mar do planeta, e a mais
mal guardada do Brasil. Mas isso é outro artigo. Agora, precisa-se de prefeito
na principal cidade da Hileia.
A esmeralda mais preciosa do Trópico Úmido precisa de um
prefeito que não seja covarde, como os das cidades que todos os anos vão para o
fundo. Precisa de um prefeito, que, além de recuperar os prédios tombados,
implemente nova infraestrutura básica na urbe e saneie as favelas erguidas
sobre fossas. É um sonho embarcar em Mosqueiro, numa lancha coletiva pública, com
parada na Vila Sorriso, na Escadinha do Cais, no Porto do Sal e no campus do
Guamá, da Universidade Federal do Pará, e fazer a linha de volta, cruzando com
outras lanchas coletivas, de outras linhas, os passageiros sentados como se
estivessem num ônibus. É um sonho recorrente na Cidade Morena, minha amante.
São 7 horas. Aprecio o dorso dos peixes enfileirados no
mercado do Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América. A mais fantástica
variedade de peixes de água doce do planeta, além dos do mar, é enfileirada em
balcões de mármore. Há deles de todos os tamanhos e tons, sem falar nos frutos
do mar, com seu cheiro de aventura. A cidade dos tupinambás precisa de um
prefeito que dê ao Ver-O-Peso a dimensão desse cheiro de romance, que os
viajores procuram avidamente.
No meu delírio, quedo-me na Estação das Docas. Uma
portuguesinha em vestido de seda passa e deixa um rastro de esperança. Ouço
merengue, distante, talvez de um quarto de hotel no sétimo andar, e a tarde me
leva, como um rio, para a dimensão do sonho. A chave do sonho é uma cuia de
tacacá, jambu, que se entranha na minha memória e desnuda minha amante.
Vivi um mergulho em Belém do Pará, transitando desde o
ventre dos seus palácios aos lixões. Casei-me e exilei-me do lar; trabalhei ao
lado dos melhores jornalistas da cidade e caí na clandestinidade do desemprego;
fartei-me da culinária mais inacreditavelmente deliciosa do planeta e forjei o
espartano que há em mim durante um período de fome; compartilhei camas
perfumadas e percorri labirintos femininos intermináveis, mas também escorreguei
no negro limo da fossa. Conheço, pois, alguns humores desta península que
avança na baía de Guajará como um navio iluminado, e é minha amante.
Amo todas as cidades nas quais já vivi, e até Brasília, onde
moro, pois não se pode viver numa cidade sem a amar; não por muito tempo. E se
as amamos, o reencontro provoca o cataclismo do primeiro beijo, sacolejam-nos,
lançam-nos no espaço, como nos sonhos, que, às vezes, povoam minhas noites,
como se estivesse correndo numa planície de zínias e rosas, cortada pelo maior
rio do mundo e desaguando na noite, prenhe de jasmineiros que choram perfume.
As cidades que amamos evocam amores, madrugadas, papel em branco, álcool,
imortalidade.
Namorei Macapá, minha cidade natal, durante os primeiros 17
anos da minha vida, até que um dia peguei o rio e a estrada e rolei para
Copacabana. Nosso namoro continua firme, mas agora só no coração. Também amo o
Rio de Janeiro, por quem fui seduzido para sempre. Manaus é a mesma coisa, e em
cada cidade a vida se multiplica infinitamente. Como em Brasília, onde nasceu
Iasmim, a princesinha que encanta todos os dias da minha vida. Mas Belém emerge
do rio como mulher nua, que deixa um rastro de maresia, Chanel 5, Dom Pérignon,
safra de 1954, e rosas vermelhas. Tento alcançá-la, temeroso de perdê-la. Porém
ela se volta e pronuncia meu nome. Sua voz é como o pulsar da música de Mozart.
Alcanço-a, pego-a pelo cogote e a beijo, e sinto o sabor de acme.
Nem os ratos – que se dedicam a te assaltar, a te depredar,
a te estuprar, que te mordem os seios – conspurcam tua beleza, nem reduzem tua
eternidade, desde 12 de janeiro de 1616, quando lusitanos, comandados por
Francisco Caldeira Castelo Branco, desembarcaram numa enseada na foz do rio
Guamá e começaram a construir uma fortaleza, o Forte do Presépio, em torno do
qual a cidade foi emergindo, e a ela chamaram de Santa Maria de Belém.
Os tupinambás não deram descanso aos invasores. Mas os portugueses
dominavam armas de fogo, a Igreja e doenças letais. E em 1626, assumiu o comando
Bento Maciel Parente. Os colonizadores eram brutais, mas pareciam gentis diante
da loucura de Bento Maciel Parente; ele que mandava amarrar os membros de
tupinambás capturados, em cavalos ou canoas, até serem rasgados, vivos. Estima-se
que pelo menos 2 milhões de índios foram mortos na Amazônia, escravizados em
nome de Jesus Cristo, atingidos por doenças europeias, degolados, esquartejados
ou fuzilados.
No começo do século 20, a borracha tornou Belém a cidade
mais rica do país. Em 1910, os ingleses começaram a produzir látex no sudeste
asiático, causando a débâcle da borracha na Amazônia. Aí começou o declínio de
Belém. Hoje, é uma cidade sucateada, inchada, violenta, infestada de
bandoleiros e ratazanas, as ruas emporcalhadas de esgoto escorrendo no
meio-fio, cidadela corrompida, refém da corrupção, letal como câncer
metastático.
Mesmo assim, Belém é como as mangueiras de dezembro, que se
curvam prenhes de frutos, doces como seios de mulher na rede. É assim que ela
vive no meu coração. Quando chegamos ao amanhecer, pela baía do Guajará, nós,
que a amamos, vemo-la se despir, aos poucos, da névoa, até emergir, de repente,
salpicando água, nuazinha; se chegamos de avião e é noite, as luzes na
península, como miríade na noite que desaba sobre a baía, anunciam-se como óvnis,
até pousarmos no bolsão de sol noturno de Val-de-Cães. Subitamente, os
gigantescos pneus do jato se chocam no chão de concreto e a nave começa a
taxiar rumo ao terminal de passageiros.
Já não controlo meu coração. Faço desjejum no Ver-O-Peso,
café recém-coado com tapioquinha amanteigada, e depois vou apreciar os peixes dispostos
nos balcões de mármore do mercado – os pirarucus são, talvez, os mais bonitos,
os filhotes são enormes e os meros, imensos, há sempre piramutaba, pescada,
tucunaré, curimatã, tamuatá, mapará, gurijuba, camarão e toda sorte de frutos
do mar. Almoço camarão com pirão de açaí no Ver-O-Peso, ou filhote no
Restaurante Remada, ou ventrecha de dourada com vinagrete e farofa na Vila
Sorriso, ou pirarucu ao molho de castanha-do-pará no Mangal das Garças.
À tarde, o céu sangra de tão azul. Vagabundeio, tomo tacacá
na banca do Colégio Nazaré e sorvete de tapioca na Cairu, e, à noite, janto
caldeirada de filhote no Remada e bebo Cerpinha no banheiro do hotel, enquanto
me arrumo para o encontro com a madrugada. Assim, os dias se sucedem com cheiro
de maresia, mulheres caminhando, merengue, bebedeiras, o rio.
Belém é a Catedral da Virgem, rosas para a madrugada,
lembranças guardadas numa prece, o desfile interminável das mulheres mais
bonitas do mundo, que exalam perfume das virgens ruivas e espargem um rastro de
devaneio, que só podemos sentir com o coração. Ungido pelos deuses, penetro
neste santuário e dele engravido para sempre. Belém, como as mulheres muito
bonitas, inesgotáveis de tão intensas, desencadeia, na minha memória, um
cataclismo de rosas colombianas, jasmineiros chorando em noite tórrida, o céu
de julho na Amazônia, que sangra no azul na tarde.
Caminho nas suas ruas rumo aos segredos que só eu posso decifrar,
como ouvir o anoitecer na Estação das Docas, ver passar as mulheres mais
bonitas do mundo enquanto tomo tacacá defronte ao Colégio Nazaré, ouvir o rio, beber
o perfume de gim inglês no Cosa Nostra, a alegria das mulheres no Kalamazoo, ao
som de merengue e da madrugada, e fazer uma declaração de amor desesperado,
porque as cidades, como as mulheres, não podem ser decifradas; precisam apenas que
as amemos, pois só para isso existem, como poemas escritos por Deus.
Da mesma forma que as mulheres, as cidades são redes intermináveis
de labirintos, abismos de segredos, pelos quais voamos, sempre perdidos, mas
firmemente guiados pelo azul mais azul. Cidades, exatamente como as mulheres, iluminam
nossos sentidos, e as cavalgamos como se monta a luz.
Sentado no calçadão defronte ao Colégio Nossa Senhora de
Nazaré, ao embalo das 6 horas da tarde, caminho ao lado de cada uma das mulheres
que passam, e que deixam um rastro de espilantol, sintetizando todo o mistério sob
seus vestidos de seda, estampados. Então, descubro o segredo da Hileia,
deslindo o mistério, e, assim, o amplio: toda a Amazônia está contida no
espilantol de um ramo de jambu. E, aos iniciados, Belém se revela em toda a sua
poesia, como mulher ao toucador, absorta, nua.
Agora estou sentado na Estação das
Docas. A tarde morre. Ouço murmúrios – risos distantes, preces, merengue. Pedi
à Virgem de Nazaré que proteja as crianças e as flores. A tarde morre, escorre
como um rio de luzes que se afogam no mar da noite, para ressurgir no ventre da
cidade, como uma boca. Acomodado numa cadeira de palhinha, observo o rio e a
tarde morrendo. Ouço o riso das mulheres mais sensuais do mundo, trotando nos
calçadões, sentadas, tomando tacacá, naquele momento em que a noite cai
lentamente, se acamando, até as luzes tremeluzirem, como composição de Debussy,
e sinto o sabor do leite da mulher amada, lábios de rosas vermelhas,
esmigalhadas.
Um navio parte. Talvez vá para
Macapá, ou Trinidad e Tobago. Talvez vá para Caiena. Ou para Mosqueiro. Ou
Salinas. De qualquer forma, haverá de ir para um lugar lindo, pois a tarde é
povoada de mulheres em vestidos de seda, como uma negra caribenha, sílfide
equina, que passa, iluminando o mundo. Vindo de algum lugar, remoto, penso
ouvir merengue. O mundo gira. Sinto a vertigem de missa na Catedral; a noite é
como o mistério feminino, e, assim, tenho certeza de que estou em Belém.
Então, faço uma prece: Belém
precisa de um prefeito, que a ame, e que seja competente, e honesto. A Cidade
das Mangueiras está inchada como um cavalo morto, dias à fio, à chuva e ao sol,
e no ventre da besta assassinos espreitam. As repartições também estão
inchadas; até as aves, urubus, com seus bicos longos e coloridos, estão
inchados. Por Deus, Belém precisa de um prefeito.

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