sábado, 31 de março de 2018

Olivar Cunha: gênio do Amapá, na Amazônia caribenha, completa 50 anos de artes plásticas

Macapá, 1985: Klingerly, Márcio André, Linda, Marina
(mãe do gênio), o gênio Olivar Cunha e Mel

RAY CUNHA


Tuiuiú Crucidicado
BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2018 – Em 31 de março de 1952, João Raimundo Cunha plantava uma seringueira no quintal da sua casa, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, onde é hoje o Colégio Amapaense, em Macapá; anos depois, a seringueira ficou no caminho do muro do colégio, mas foi poupada, com o desvio do muro. Também naquele ano nascia mais um varão na família Cunha, Olivar, chamado carinhosamente pelas suas filhas, Tatiana e Taiana, de Lili. Lili completa, hoje, 65 anos de idade, e 50 como artista plástico.

A seringueira é a mesma que aparece na capa da edição da Amazon.com do meu romance A CASA AMARELA, uma recriação da casa onde o gênio nasceu. Olivar Cunha também aparece em outro romance meu, HIENA, que pode ser adquirido na Amazon.com.br e no Clube de Autores. A CASA AMARELA foi publicado ainda no Clube de Autores

Olivar Cunha e favela amazônica
Ele tinha 15 anos, em 1967, quando expôs pela primeira vez, em Macapá. É fácil encontrar a antiga aldeia dos índios tucujus no mapa: fica no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do planeta, o Amazonas. A cidade se debruça na margem esquerda do estuário do colosso, a cerca de 250 quilômetros do Atlântico, no setentrião brasileiro, a Amazônia caribenha. Naquela época, eu tinha 13 anos, e já era fã do grande artista. Hoje, são 30 exposições individuais e 35 coletivas, realizadas em diversas cidades do país.

Início dos anos 90: Lili, eu e Josiane, em Brasília
Em 1967, frequentávamos a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, próximo ao Macapá Hotel: R. Peixe; o poeta e cronista Alcy Araújo; Olivar Cunha; o poeta Rodrigues de Souza, o Galego; o pintor e poeta Manoel Bispo; o poeta e contista Joy Edson; o compositor, poeta e contista Fernando Canto; a poeta Alcinéa Cavalcante...

Auto-retrato do gênio
Nas décadas de 1970/1980, o artista mudou-se para Belém do Pará, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são tão chocantes quanto a colonização do Inferno Verde.

Depois de morar no Rio de Janeiro, onde estudou no Parque Lage, nos anos de 1990, consolidou sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos com a série de animais agonizando no esgoto das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre o esgoto em que se transformou a baía de Guanabara.

O Tuiuiú Crucificado é, talvez, o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacareípe/ES. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 cm por 100 cm. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacareípe/ES, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal.

Guamá, Belém do Pará, anos 70
A Amazônia é recriada na espátula do pintor à base de espilantol, o princípio ativo do jambu, indicador de que o gênio pinta, na verdade, a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os caboclos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram em Macapá, Belém, Mosqueiro, Salinas, Caiena...

O grande artista vive hoje no paradisíaco Jacaraípe, distrito atlântico do município de Serra, na grande Vitória/ES, onde se consolida também como restaurador, recuperando obras sacras de igrejas da região. A trajetória artística de Olivar Cunha é a comprovação da sua genialidade. Vida longa ao gênio!