segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Lúcio Flávio Pinto, Márcio Souza, Stieg Larsson

Ray Cunha por ele mesmo. Brasília, 2018

BRASÍLIA, 7 DE JANEIRO DE 2019 – Saí, sábado passado, para bater perna, enquanto a diarista fazia faxina em casa. Dei um pulo no ParkShopping, onde me dirigi à Fnac, uma dessas livrarias que retém a gente durante horas. Eu já sabia que a Fnac, a empresa, faliu, mas a loja do ParkShopping continuou abrindo depois do anúncio da bancarrota do braço brasileiro da empresa francesa. Só que, sábado, encontrei a loja fechada. Um segurança me informou que eu poderia encontrar outra livraria no fim do corredor; ele se referia a uma dessas lojas que vendem tudo, inclusive best-sellers. Do ParkShopping, fui à Cultura do CasaPark, ali perto. Agora, a Cultura é a maior livraria de Brasília.

Dei uma girada hoje pelo centro da cidade, e atentei para uma coisa que já vinha vendo há tempo: cada vez mais bancas de revistas são transformadas em lanchonetes. Na semana passada, houve um descompasso entre o presidente Jair Bolsonaro e alguns ministros. No dia seguinte, todos os jornalões deram isso como manchete, como se o governo do capitão houvesse acabado ali. Bolsonaro nem ligou. Ele ganhou as eleições manipulando mídia pós-moderna. Hoje, quando os esquerdopatas publicam manchetes com o intuito de desestabilizar Bolsonaro, imediatamente centenas de milhares de pessoas mostram por A mais B que a grita dos jornalões não passa de viúvas dos cofres públicos carpindo.

Sempre que vou ao Conjunto Nacional, paro, antes, na banca da Rodoviária, para ler a manchete dos jornalões; eles estão cada vez mais magros. Acredito que os jovens de hoje não sabem mais nem o que é jornal impresso. O lendário jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto capitulou em novembro passado. Publicava seu Jornal Pessoal há 31 anos. A publicação, impressa, quinzenal, não aceitava anúncios, muito menos matéria paga, e mantinha-se com venda em bancas em Belém. Lúcio reconheceu que sites são menos trabalhosos, mais baratos e que as publicações podem ser lidas imediatamente em todo o planeta. Ele só tem, agora, que contar com alguns colaboradores para manter o site.

Lúcio é um dos cérebros mais privilegiados da mídia brasileira, e tem caráter irrepreensível. Provavelmente, é o jornalista que mais conhece a Amazônia, e construiu sua trincheira em Belém, onde já enfrentou os mais perigosos bandidos paraenses, nos palácios e nos balcões de negócios que vicejam em Belém.

Tive o privilégio de trabalhar como jornalista na Cidade das Mangueiras e observar Lúcio Flávio Pinto na faina jornalística. Já faz algum tempo que não o vejo, mas lembro-me dele como uma pessoa simples, gentil, lúcida, e de coragem desconcertante. Ele já não é apenas um jornalista; tornou-se o mais importante cronista da questão amazônica.

Como Lúcio, há outras pessoas, na Amazônia, que se destacam. Lembrei-me do romancista Márcio Souza, de Manaus, que conheci em 1976. Naquele ano, eu assinava coluna semanal, No Mundo da Arte, em A Notícia, e tinha entrevistado Márcio Souza. Ele acabara de publicar o folhetim Galvez – Imperador do Acre, que começou a fazer sucesso nacional e depois internacional. Naquela época, eu me reunia, à noite, com alguns apreciadores da maravilhosa Antarctica enevoada servida no Bar Nathalia. Diziam que Márcio Souza encontrara os originais de Galvez na Europa, e que o publicara como sendo seu. “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal” – disse Tom Jobim. Na Amazônia, é proibido fazer sucesso, pois a celebridade terá vida curta; será perseguida e anulada.

Mas Márcio Souza sacou isso e se mandou. Viveu não sei quanto tempo no Rio, e quando a TV Globo pôs no ar a série Mad Maria, baseada em romance homônimo dele, de 1980, foi alçado à prateleira das celebridades. Em 1992, lançou um livro necessário a todos que se interessam pelo Trópico Úmido: Breve História da Amazônia.

O fato é que não se faz sucesso nacional na Amazônia. Todos os artistas amazônidas que fizeram, ou fazem, sucesso nacional, tiveram que sair de lá e morar no Rio de Janeiro ou em São Paulo, que são as vitrines do Brasil, e têm tecnologia para fabricar celebridades.

Mas, assim como o jornalismo mudou, também a preferência dos leitores mudou, e não me refiro, aqui, à questão tecnológica. As novas gerações não querem saber de Ernest Hemingway, nem de Gabriel García Márquez. Preferem Dan Brown, ou Stieg Larsson. Quanto a mim, prefiro ler Lúcio Flávio Pinto ao computador, e Stieg Larsson, precisamente A Menina que Brincava com Fogo, no sofá de casa, levantando-me, de vez em quando, para mordiscar alguma coisa, ou beber água.

Um comentário:

  1. A realidade do escritor da Amazônia é esta mesma de e séculos atrás, infelizmente. Se no país não se cumpre a Constituição de incentivo à cultura, imagina nos estados pobres do Norte, que no máximo ela é promovida por meio de emendas parlamentares.

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