segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Conto Amazônico/CARNE DE CRIANÇA

Anoitecia. O rio Caracará estava parado. As árvores também não se moviam. Nada se movia na paisagem imobilizada, nem o som; um pacto de silêncio irrompera na selva. A imobilidade e o silêncio inundaram a tarde morta, exceto o azul escuro do anoitecer, que, lento, escorria. A casa mergulhou na noite e, contrariando o silêncio e a negrura, uma lamparina foi acesa e se ouviu choro, agora alto e cortante.

Os ratos d’água atacaram no meio da tarde. Deixaram o barco um pouco distante e chegaram remando numa ubá. Eram seis. Sabiam que o dono da casa, ausente, pescando em alto mar, estava juntando dinheiro para pagar um novo barco, em construção em Cachoeira do Arari. Encontravam-se na casa a dona, três filhas e três criadas. Os ratos d’água sabiam também disso, e passaram a tarde estuprando as moças, com exceção de Helenita, 14 anos, prometida virgem para um tubarão.

Diante de uma tigela de papa de açaí amassado à mão, com farinha de tapioca, daquela que se derrete na boca, acompanhado de camarão pitu, Ditão estremeceu, de repente angustiado, e largou a comida. No instante seguinte foi avisado da tragédia via rádio. Não entrou em desespero; precisava de esperança. Interrompeu a pescaria, retornou para Cachoeira do Arari, deu parte na polícia e começou a busca de sua Helenita, a caçula. Entretanto, Helenita estava no outro lado da baía de Marajó, num casarão no bairro da Cidade Velha, em Belém, tratada a pão de ló.

– Ficas quietinha, não falas com ninguém, fazes o que eu disser e voltarás para a tua casa dentro de um mês. Agora, se tu não fizeres o que a gente te mandar, vamos te matar e também toda a tua família, estás ouvindo? – disse a mulher, que era grande como um elefante, a quem Helenita foi entregue. A menina se transformara em um autômato; ouvia, o tempo todo, os gritos da mãe, das irmãs e das criadas, som de tapas, e risos de homens nus. Orava, pedia a Deus para acordar do pesadelo. – Dentro de uma semana, tu e outras meninas irão para um passeio com umas autoridades, uns homens bacanas. Tu vais fazer companhia a eles. Tens de fazer tudo o que eles te mandarem, estás ouvindo? Depois do passeio serás devolvida para o Ditão – disse a mulher gorda. E os dias se tornaram uma sucessão de comidas deliciosas, televisão, cama macia, banhos, massagens, um pouco de vinho, filmes com homens fazendo coisas horríveis com mulheres. Mas Helenita jamais deixara de orar, de pedir a Deus que a acordasse do pesadelo, até que numa noite um automóvel negro deslizou por ruas iluminadas e a levou da casa ao cais, onde um iate reinava na noite.

– Chegaram os peixes – dissera um homem de cabelos excessivamente negros, e tão branco que suas veias pareciam flutuar; trajava camisa de seda estampada, calças de linho, sapatos brancos e panamá. “Um boto!” – assustou-se Helenita. 

Havia mais um homem, quarentão, paraplégico. Os peixes eram seis meninas, como Helenita. A mais velha, de 17 anos, estava grávida, segundo ela mesma dissera. Três para cada homem. O pesadelo continuou. Agora, vinha na forma do aleijado chupando sua virilha, lambendo-a toda. Helenita fechava os olhos e sentia o fedor alcoólico da saliva do homem. Às vezes, o via sentado na cadeira de rodas, debruçado sobre ela, chupando-a, lambendo-a, insaciável, até que um dia o iate parou e as meninas foram transferidas para o barco Virgem de Nazaré, que rumou para a cidade de Oiapoque, no norte do Amapá, com carne fresca para a boate Senzala, especializada em pratos especiais para europeus que atravessavam o rio Oiapoque, oriundos de Caiena, a capital da colônia francesa da Guiana. O carregamento chegou de madrugada e o leilão seria na noite seguinte. 

– Aquele francês louco, mas que paga muito bem, o tal de Humbert Humbert, já reservou a Helenita. Ele vem pedindo uma menina faz tempo; chama elas de “Lolita”. Pagou para passar uma semana com a Lolita dele no sítio; depois disso, ela já foi vendida para o Kunathi; vai ser o prato principal da boate dele, em Paramaribo, até ficar estragada – disse, rindo, melífluo, o dono da Senzala, vulgo Caixinha de Pose, em conversa com Tota, seu contador. – Mas antes que Humbert Humbert saboreie a carne fresca até os ossos, e antes que os ossos sejam mamados até o tutano, vou sugar a alma dela; vou sugar todas elas, uma por dia – disse, levantando-se, apalpando o saco.

Era manhã, mas parecia noite. Um raio chicoteou a cidade, seguido de trovoada, que pareceu sugar o ar. A tempestade durou todo o dia e entrou pela noite.

– Nada como Heidsieck para a luz da minha vida, labareda em minha carne, minha alma, minha lama – disse o francês, alto, gordo e muito branco, num português ininteligível, servindo champagne para Helenita. Ela não sentia mais pavor; morrera no pesadelo infindo.

A Polícia Federal desencadeara a Operação Ninfeta no início da madrugada. O céu estacara, tenso como tumor maduro.

– Beba! Quero-a queimando-me a alma – Humbert Humbert ainda teve tempo de dizer.

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