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| Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá, cidade natal do autor de JAMBU, em foto do escritor Fernando Canto (2010) |
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| Edição da amazon.com.br |
Às 9 horas, Danielle entrou na redação da revista mensal Trópico Úmido, na Avenida FAB, próximo ao Palácio do Setentrião. João Cunha, ou João do Bailique, era 4 centímetros mais alto e 16 anos mais velho do que Danielle; seus cabelos, negros, lisos e cheios, desciam-lhe até o pescoço, caindo de vez em quando sobre a testa, e prateavam-se nas têmporas. Sua pele, bastante clara nas partes que não apanhavam sol, estava queimada nos braços, magros e fortes; o que mais chamavam atenção nele eram seus olhos, grandes, negros, bondosos, serenos, como de cavalo. Estava escrevendo ao computador quando sentiu o cheiro de Chanel 5; voltou-se e se deparou com duas esmeraldas. Beijaram-se. Jornalista e oceanógrafo pela Universidade Federal do Pará, a UFPa., arqueólogo pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), sediado em Belém, taxidermista pelo Departamento de Taxidermia do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), localizado no campus do quilômetro 10 da Rodovia Juscelino Kubitscheck, que liga o balneário de Fazendinha, à margem do rio Amazonas, a Macapá, e aventureiro, escrevia e editava sozinho a revista Trópico Úmido. Sobre sua mesa havia um uirapuru empalhado, que capturara no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaqui, a noroeste do estado do Amapá, no Escudo das Guianas, região qual mergulhara em várias expedições, as últimas três desde que o parque fora criado, em 22 de agosto de 2002, com
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| Edição do Clube de Autores |
Dedicava-se também a investigar
o tráfico de escravos, pois no seu convívio com índios e ribeirinhos alguns
casos foram chamando sua atenção para a mais cruel atividade na Amazônia
profunda: crianças arrancadas de suas mães e atiradas a hienas do tráfico
internacional. Atribuía esse crime máximo às circunstâncias do caboco, sua
mentalidade de colonizado, o calor, a nudez e a corrupção na antiga colônia
portuguesa, e agora americana, inglesa, do governo federal e paulistana,
perpetuando na Hileia uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão
sexual de crianças. Para João do Bailique, a Amazônia se apresentava como um
paradoxo. A maior diversidade biológica da Terra, a mais rica província mineral
do planeta, é também O Coração das Trevas,
obra-prima de Joseph Conrad. Esse pequeno romance, de pouco mais de 150
páginas, é um golpe de navalha seccionando tecido humano, “o mais intenso de
todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu”, disse o labiríntico
Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde é o
latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da
civilização colonialista. A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências
europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os
governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos
dias de hoje, leva-se, de lá, a própria floresta, energia hidrelétrica,
minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças. Até agora, o
desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios,
ribeirinhos, cabocos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que
transformam governos em lavanderia. Os presidentes da República que se sucedem
governam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem
para serem saqueadas e os nativos traficados. A Interpol francesa calcula que a
rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de 9 bilhões de
dólares por ano. Nesse comércio brasileiro negro, assim como ocorre com
políticos corruptos, a imunidade, ou melhor, impunidade, é garantida.
O tráfico humano perpassa toda a
Amazônia. Já foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, adolescentes
e crianças, pela Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes
para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre
Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
da Exploração Sexual, do Congresso Nacional. Naquela edição da Trópico Úmido, João do Bailique pinçou
alguns casos.
Madrugada de 16 de setembro de
2004, marina da Ponta Negra, Manaus, capital do estado do Amazonas e maior
cidade da Amazônia. Empresários de Brasília e de São Paulo aguardam, à bordo do
iate Amazonian, de 25 metros de
comprimento, 15 políticos e um carregamento para zarpar rio Negro acima,
aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros de Manaus, em
passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano
que o grupo de políticos e empresários candango-paulistas se reunia. Finalmente
o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas,
a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de
dois dias e duas noites renderia 400 reais a cada uma, fora gorjetas. As
garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim,
conhecida como Dil, então com 33 anos, e que ganharia 100 reais por garota.
Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e
empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze
meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes
retornaram também, no barco Princesa
Laura, que naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com
100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que
participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos
Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy
Florêncio Viana, 16. Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à
polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia
Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus
(Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e
eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram
algumas meninas que retornaram do Amazonian
a Manaus e descobriram que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro,
retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo. Foi aí que identificaram o
então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital
Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB; Sérgio Randal Mendes, cunhado de
Benício Tavares e chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF;
e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié. Uma das menores ouvidas pela
polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas
menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e
que morreu afogada no Princesa Laura.
Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com
Benício, que teria pago 500 reais a ela. Uma menor disse que Benício lhe
ofereceu 500 reais para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das
moças que estiveram a bordo do Amazonian
garantem que Benício chegou a pagar valores entre 200 e 1 mil reais para
manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade. Das 17
meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada
Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e
Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos
dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias
garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou
elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo
sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de
Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram
imediatamente o parlamentar, que é paraplégico. Três meninas ouvidas pela
polícia garantem que no iate Amazonian
havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas
nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a
cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista
Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as
despesas, desde hospedagem à alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente
convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que
foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam 400 reais mais gorjetas,
mas, a bordo, receberam somente 200 reais. Em nota oficial, divulgada no dia 27
de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de
setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou
também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores
de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da
qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de
matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no
iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, o cunhado
de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié. Em 2004, em
Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do DF fechou os olhos e arquivou
processo contra o então deputado Benício Tavares, que respondia na Justiça por
turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos
favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José
Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o
maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da
acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de
dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do
Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em
ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito
deputado distrital. Em 2010, o
governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar esquema de
corrupção que flagrou até corrupto recebendo e escondendo pilhas de dinheiro na
cueca. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no
exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou
abuso de poder econômico.



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