quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Tráfico de criança para escravidão sexual. Leia trecho de JAMBU, romance de RAY CUNHA, à venda no Clube de Autores e na amazon.com.br

Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá, cidade natal
do autor de JAMBU, em foto do escritor Fernando Canto (2010) 
Edição da amazon.com.br


Às 9 horas, Danielle entrou na redação da revista mensal Trópico Úmido, na Avenida FAB, próximo ao Palácio do Setentrião. João Cunha, ou João do Bailique, era 4 centímetros mais alto e 16 anos mais velho do que Danielle; seus cabelos, negros, lisos e cheios, desciam-lhe até o pescoço, caindo de vez em quando sobre a testa, e prateavam-se nas têmporas. Sua pele, bastante clara nas partes que não apanhavam sol, estava queimada nos braços, magros e fortes; o que mais chamavam atenção nele eram seus olhos, grandes, negros, bondosos, serenos, como de cavalo. Estava escrevendo ao computador quando sentiu o cheiro de Chanel 5; voltou-se e se deparou com duas esmeraldas. Beijaram-se. Jornalista e oceanógrafo pela Universidade Federal do Pará, a UFPa., arqueólogo pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), sediado em Belém, taxidermista pelo Departamento de Taxidermia do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), localizado no campus do quilômetro 10 da Rodovia Juscelino Kubitscheck, que liga o balneário de Fazendinha, à margem do rio Amazonas, a Macapá, e aventureiro, escrevia e editava sozinho a revista Trópico Úmido. Sobre sua mesa havia um uirapuru empalhado, que capturara no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaqui, a noroeste do estado do Amapá, no Escudo das Guianas, região qual mergulhara em várias expedições, as últimas três desde que o parque fora criado, em 22 de agosto de 2002, com 38.670 quilômetros quadrados, o maior parque florestal do mundo nos trópicos, 27% do estado do Amapá, maior do que os estados de Sergipe e Alagoas juntos, e do tamanho da Holanda, abrangendo parte dos municípios de Oiapoque, Calçoene, Laranjal do Jari, Pedra Branca do Amapari e Serra do Navio, no Amapá, e uma pequena porção do município de Almeirim, no Pará, onde fica a Base Aérea de Tiriós, entre os municípios de Oriximiná e Óbidos, também no Pará, a menos de 10 quilômetros da fronteira com o Suriname, e que funciona como posto avançado do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), além de porta de entrada para o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaqui e da cidade de Serra do Navio.
Edição do Clube de Autores
Dedicava-se também a investigar o tráfico de escravos, pois no seu convívio com índios e ribeirinhos alguns casos foram chamando sua atenção para a mais cruel atividade na Amazônia profunda: crianças arrancadas de suas mães e atiradas a hienas do tráfico internacional. Atribuía esse crime máximo às circunstâncias do caboco, sua mentalidade de colonizado, o calor, a nudez e a corrupção na antiga colônia portuguesa, e agora americana, inglesa, do governo federal e paulistana, perpetuando na Hileia uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. Para João do Bailique, a Amazônia se apresentava como um paradoxo. A maior diversidade biológica da Terra, a mais rica província mineral do planeta, é também O Coração das Trevas, obra-prima de Joseph Conrad. Esse pequeno romance, de pouco mais de 150 páginas, é um golpe de navalha seccionando tecido humano, “o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu”, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde é o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista. A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a própria floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, cabocos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam governos em lavanderia. Os presidentes da República que se sucedem governam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas e os nativos traficados. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de 9 bilhões de dólares por ano. Nesse comércio brasileiro negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, ou melhor, impunidade, é garantida.
O tráfico humano perpassa toda a Amazônia. Já foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, adolescentes e crianças, pela Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional. Naquela edição da Trópico Úmido, João do Bailique pinçou alguns casos.
Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, capital do estado do Amazonas e maior cidade da Amazônia. Empresários de Brasília e de São Paulo aguardam, à bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros de Manaus, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o grupo de políticos e empresários candango-paulistas se reunia. Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia 400 reais a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, então com 33 anos, e que ganharia 100 reais por garota. Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura, que naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16. Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram do Amazonian a Manaus e descobriram que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo. Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB; Sérgio Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares e chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié. Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago 500 reais a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu 500 reais para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre 200 e 1 mil reais para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade. Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é paraplégico. Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem à alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam 400 reais mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente 200 reais. Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, o cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié. Em 2004, em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do DF fechou os olhos e arquivou processo contra o então deputado Benício Tavares, que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito deputado distrital.  Em 2010, o governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar esquema de corrupção que flagrou até corrupto recebendo e escondendo pilhas de dinheiro na cueca. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico.

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