BRASÍLIA, 5 DE
NOVEMBRO DE 2019 – Conversando outro dia com um amigo, crítico literário,
perguntei-lhe o que ele achava dos livros do americano Dan Brown, autor de O Código da Vince, seu livro mais
conhecido. Ele me olhou escandalizado.
– Não é literatura! – disse-me, convicto.
Neste artigo não vou falar de Dan Brown, mas do sueco Stieg
Larsson. Da sua trilogia, Millennium: Os
homens que não amavam as mulheres, de 2005, A menina que brincava com fogo, de 2006, e A rainha do castelo de ar,
de 2007. Os três livros somam pelo menos 1.500 páginas, viagem de alguns dias dos
mais intensos que já vivi. É literatura policial de ponta. Coisa desses tempos pós-modernos
do século 21.
Larsson não era nenhum Shakespeare, nenhum Faulkner, mas
sabia escrever, e, sobretudo, sabia sobre o que estava escrevendo. Nasceu em 15
de agosto de 1954, em Estocolmo, onde viveu boa parte da sua vida, como um dos
mais influentes jornalistas suecos. Aliás, o segundo papel mais importante da
série Millennium é a de um jornalista, da revista Millennium, que dá, ao longo dos três livros, uma aula de
jornalismo. Larsson trabalhou na agência de notícias TT e fundou e dirigiu a
revista Expo. Denunciou organizações
neofascistas e racistas, pelo que foi ameaçado de morte, e foi coautor de Extremhögern, livro sobre a extrema
direita sueca.
Os três livros de ficção de Larsson constituem-se em
verdadeira aula para estudantes de jornalismo, na mesma linha de O Dossiê Odessa, de Frederick Forsyth.
Esses livros, além de mostrar que o repórter, quando segue uma pista, por mais
perigosa que seja, deve persistir, se vale a pena, considerando que sua
denúncia será das mais relevantes para o bem-estar da democracia, ameaçada
inclusive por outros jornalistas, aquela banda podre da profissão, os
corruptos, que só têm um objetivo: pôr as garras em alguns maços de dinheiro.
Larsson morreu em 9 de novembro de 2004, aos 50 anos, de ataque
cardíaco, ao subir os sete lances de escada da revista Expo, pois o elevador havia quebrado. Mas acabara de escrever e de entregar
ao seu editor a série Millennium, publicada nos anos seguintes. Em 2013, a editora
Norstedts convidou o escritor sueco David Lagercrantz a assumir a continuação
da série, criando mais dois volumes: A
garota na teia de aranha, de 2015, e A
garota marcada para morrer, de 2017, ponto final da saga, que já vendeu mais
de 100 milhões de livros em todo o mundo.
A série foi adaptada para o cinema, com a atriz Noomi Rapace
no papel de Lisbeth Salander e Michael Nyqvist no papel do jornalista Mikael
Blomkvist, após versão hollywoodiana dirigida por David Fincher, na qual Rooney
Mara é Lisbeth e Daniel Craig, o melhor James Bond, é Blomkvist, na adaptação
do primeiro livro da série, Os homens que
não amavam as mulheres. O sucesso aumentou.
Lisbeth é o nome da heroína da série Millennium. Aos 15
anos, Larsson testemunhou o estupro coletivo de uma jovem e jamais se perdoou
por não tê-la ajudado. O nome dela era Lisbeth. Na ficção, Lisbeth Salander é
uma hacker brilhante, desajustada social, bissexual, com corpo de menina, que faz
justiça à sombra, especialmente quanto aos homens que não amam as mulheres, os machões
de todos os quilates, dos apenas imbecis aos estupradores e assassinos. Acabamos
amando Lisbeth, desejando sua companhia, nem que seja apenas para sentar-se à
mesa da cozinha, tomar café e bater papo com ela.

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