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quinta-feira, 7 de junho de 2018

O Universo é vibração. Câncer também


RAY CUNHA*


As células nascem e morrem ao longo de toda a vida, exceto os neurônios, que permanecem vivos da formação do feto até a morte do corpo físico. A cada divisão das células, fragmentos de DNA podem ser perdidos, causando erros genéticos que são transmitidos para as células-filhas; chega um momento em que a célula não consegue mais se dividir e é destruída pelo próprio organismo. Isso acontece o tempo todo, e pode ocorrer de uma célula mutante sobreviver e começar a se multiplicar, até formar um aglomerado capaz de resistir aos linfócitos. Isso é um conceito alopático de câncer.

Mas por que algumas pessoas são vítimas de câncer e outras não? Na condição de terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, cuidei de uma paciente oncológica septuagenária, que tomava 15 medicamentos diariamente, alguns dos quais de tarja preta, sentia dores generalizadas e não dormia bem. Tensa, qualquer preocupação a deixava mais tensa ainda. Como não conseguia deitar-se para ser massageada ou para acupuntura o atendimento era feito com ela sentada. Conseguia fazê-la relaxar com a massagem terapêutica chinesa (tuiná), mas logo depois sua região cervical assemelhava-se a um pedaço de madeira.

Após várias sessões e perguntas recorrentes, mas feitas de forma sutil, consegui entender o que lhe ocorrera. Anulara-se a vida toda primeiramente perante o pai e, depois, o marido. Seu filho único tirou a própria vida naquele momento em que a juventude é imortal. E ela, desde então, levantava-se e ia dormir pensando no filho, numa saudade que a sufocava, e a matava a conta-gotas. Foi quando o cancro começou a latejar no seio direito dela.

A coisa toda surgiu no corpo astral, sede das emoções, minou o corpo etéreo, sede dos sentidos e escudo do corpo físico, e se instalou no seio direito, que é o lado feminino. Ela me contou que logo depois da morte do filho, ele lhe disse, em sonho, que estava bem. Mas como serenar a mente da mãe que perde o filho? Como devolver a alegria da mãe que perde de vista o filho único, no esplendor da juventude, perdido nos corredores escorregadios da loucura dos suicidas? Agulha alguma faz isso. Mas pode-se reequilibrar o corpo físico, fechar as frestas do duplo etéreo e extirpar a inflamação astral.

Na Medicina Tradicional Chinesa, identificamos causas externas e internas das doenças. Aquelas são o vento, o frio e o calor excessivos, secura e umidade; estas, raiva, alegria excessiva, preocupação, pensamento obsessivo, choque emocional violento, tristeza, medo. Tudo isso pode causar desequilíbrio energético e disparar a doença. Neste contexto, câncer é o equivalente a desequilíbrio energético no meridiano do baço, que, então, encontra-se depauperado, falhando numa de suas funções, a de remover a umidade interna, massa viscosa, como catarro, mioma no útero, cisto no ovário, cálculos renais ou na vesícula, tumores benignos ou malignos.

Em termos energéticos, preocupação e estresse depauperam o baço, levando a distúrbios digestivos e à fadiga crônica, como se o paciente estivesse carregando o mundo nas costas. Daí à depressão é um passo. Consumo em excesso de alimentos frios, crus e úmidos, muito açúcar e gordura também enfraquecem o baço, assim como trabalho em excesso e frequente perda de sangue. Assim, em termos energéticos, prevenir o câncer é evitar tudo o que afunda o Qi do baço. Quanto ao câncer oriundo de predisposição genética, teoricamente pode ser tratado pelo meridiano do rim, que contém a energia pré-celestial, ou o Qi essencial.

Além disso, deve-se, imediatamente, cortar os suprimentos favoritos do parasita que cresce no organismo do paciente oncológico: açúcar, leite e carne. E procurar oxigenar o máximo possível as células sãs, pois cancro não suporta ambiente oxigenado.

Contudo, muitos males surgem no corpo astral. Ódio, medo, tristeza, ira, crueldade, inveja, ambição desmedida, avareza, são alguns dos sentimentos que provocam inflamações no corpo astral e frestas no escudo do corpo físico, o duplo etéreo, provocando as mais diversas e assustadoras doenças, inclusive a loucura, e desfechos como o suicídio, que é um cancro que corrói tanto o paciente danado quanto o coração dos que ficam neste plano, porque o suicida abrevia a vida às vezes no momento mais esplendoroso da sua juventude, e fica no limbo, agarrado ao corpo etéreo, ou seja, nem no mundo espiritual nem no mundo físico.

Assim, amar, principalmente a si mesmo; perdoar; ter gratidão por tudo o que tem, mesmo que seja um par de sandálias japonesas, uma bermuda e uma camiseta; ser útil à família, à sociedade e à pátria é remédio, que, embora em doses cavalares, não se transforma em veneno, porque é, sempre, luz.

E se o câncer já tiver avançado e deteriorado a matéria de maneira que não haja mais recuperação, perdoar-se a si mesmo é o antídoto que devolverá o equilíbrio, a serenidade, o riso, e levará ao degrau seguinte na caminhada infinita do Tao.

Os meridianos da acupuntura estão situados no corpo etéreo. Isso ficou bem claro para mim quando atendi o sr. V, no Centro Espírita André Luiz (Ceal), no Guará I, Brasília/DF, onde realizo trabalho voluntário aos domingos de manhã, juntamente com uma equipe de terapeutas holísticos. No Ceal, os pacientes são atendidos de acordo com a ordem de chegada e pelo terapeuta que estiver disponível. Examinei a ficha do sr. V, que tinha 70 anos; sua grande queixa era a extração do intestino grosso. Era a trigésima terceira sessão dele, mas fui direto à queixa original, que, além da retirada do intestino grosso, registrava também dores lombar, sacral e nos ombros e braços, insônia, prisão de ventre e úlcera gástrica.

O sr. V me contou que todas as semanas procurava o pronto-socorro, sofria de diarreia crônica e tudo o que comia lhe fazia mal. Observei-lhe a língua e senti seus pulsos; suas energias esvaíam-se. Eu começara, então, a desenvolver uma técnica, a que chamo de acupuntura dos corpos vibracionais, físico, etéreo, astral, espiritual e divino.

 – O senhor sabe que ainda tem seu intestino grosso, não sabe? – perguntei-lhe, olhando-o nos olhos. Os olhos dele brilharam, numa interrogação. – O senhor continua com o seu intestino grosso, só que no corpo etéreo, que liga o corpo carnal ao corpo espiritual, daí que o corpo etéreo é conhecido também como perispírito, ou duplo etéreo, porque liga o corpo físico ao espírito, e o espírito é imortal, não pode adoecer, não com as doenças que conhecemos aqui, neste plano. Seu intestino grosso foi extraído do corpo físico, mas ele continua intacto no corpo etéreo. Não podemos ver o corpo etéreo, porque sua vibração é muito mais fina do que a do corpo material, que tem uma vibração tão baixa que se materializa.

Ele entendeu na hora, e o brilho dos seus olhos continuou, como duas pequenas lanternas. Sei que só eu podia ver o brilho dos seus olhos, e percebi também que ele sorria.

– Bem, como o senhor não perdeu nada, muito menos seu intestino grosso, vou fazer a limpeza do canal do intestino grosso – disse-lhe, explicando-lhe, rapidamente, sobre os meridianos, que atravessam o corpo como um feixe de fios. Na Medicina Chinesa, limpar um canal quer dizer aplicar agulhas no primeiro ponto daquele canal e cruzar com o último ponto. Então apliquei agulhas no IG 1 esquerdo, que fica no leito ungueal radial do dedo indicador, e o IG 20 direito, no ponto de encontro entre a linha nasolabial e a lateral da asa do nariz.

Apliquei mais o estômago 36 bi, para fortalecer o Qi e o sangue, aumentar o Yang e minorar dores epigástricas, náusea, vômito, má digestão, tontura, fadiga, e fortalecer o corpo e a mente, além do estômago 25, para equilibrar o baço, estômago e intestinos, pondo fim à diarreia. Ainda, apliquei o vaso concepção 12, para tonificar estômago e baço, e o yintang, para extirpar ansiedade e disciplinar os pensamentos, acalmando, assim, a mente, o que acaba melhorando o sono.

Pouco mais de 20 minutos depois foram retiradas as agulhas do sr. V. Orientei-o a tomar pelo menos dois litros de água por dia e a cortar leite, frutas, salada e legumes crus a partir das 18 horas e a passar a comer, à noite, alimentos quentes, principalmente abóbora e raízes, como batata, cará, inhame e mandioca. Frutas, salada, alimentos crus e gelados são de natureza fria; a noite é de natureza fria, o que gera excesso de frio. Frio, na Medicina Chinesa, é travamento energético, e arrasa com o baço.

Notei que o sr. V saiu do ambulatório com vivacidade, “pois agora” – pensei – “ele sabe que seu intestino grosso está lá com ele”. Orientei-o também a me procurar no domingo seguinte. Uma semana depois ele voltou e me disse que não baixou hospital. Outro terapeuta o atendeu e repetiu o protocolo da semana anterior.

Três meses depois recebi a notícia: o sr. V se deu alta.

Atendemos, no André Luiz, médiuns que trabalham no centro, muitos deles com todo tipo de doenças. São obsedados por espíritos que pensam que ainda se encontram no plano carnal e que estão doentes. Digo-lhes que precisam, ao orarem, de manhã, e à noite, agradecer aos seus antepassados, especialmente aos pais; a perdoarem a si mesmos e a enxergarem no próximo – incluindo os drogados, os raivosos, os cancerosos, os que foram estuprados, os que gritam de dor – apenas perfeição. É assim que se limparão das larvas espirituais.

Interessante que esses médiuns veem que nós, os voluntários, estamos cercados de mestres vindos do mundo espiritual, que nos orientam, vigilantes, para que o amor triunfe ali naquele ambulatório. Foi por isso que o sr. V pôde se dar alta.

Tudo no Universo é energia, vibração. O físico alemão Albert Einstein teorizou isso no século 20 por meio da equação E (energia) = m (massa) vezes c2, a velocidade da luz – 300 mil quilômetros por segundo – elevada ao quadrado – 90 bilhões. Nada no Universo está parado, tudo está em movimento. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma: o Universo não teve início e não terá fim, e está em eterna transformação. Alguém prova o contrário?

O movimento do Universo obedece à lei. A Terra gira em torno do seu eixo e gravita em torno do Sol a 108 mil quilômetros por hora; o sistema solar gira em volta do núcleo da Via Láctea a 830 mil quilômetros por hora; a Via Láctea dirige-se para o Grupo Local a 144 mil quilômetros por hora; o Grupo Local voa para o aglomerado de Virgem a 900 mil quilômetros por hora; tudo isso segue em direção ao Grande Atrator, a 2,2 milhões de quilômetros por hora; o Grande Atrator fica para além de Centauro, a 137 milhões de anos-luz da Terra.

E por que a Terra não despenca no espaço sideral? Porque um tipo de energia garante que o planeta siga na sua rota. Mas se o homem começar a detonar bombas atômicas, ou a poluir em excesso a natureza, a inclinação do eixo da Terra, ou seu clima, sofrerá mudança dramática, e então virá o caos.

Assim, tudo no Universo é energia, vibração e sintonia. O que sintonizamos nas ondas de rádio é a sua vibração, assim como as pessoas tristes e que odeiam atraem a tragédia, a morte, e os que se alegram e amam são os leões de asas, porque cavalgam a luz.
  

Biliografia

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

PINHEIRO, Robson: pelo espírito de Joseph Gleber. Medicina da alma – 2ª Edição. São Paulo: Casa dos Espíritos, 2007.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.


*RAY CUNHA é escritor e terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, autor do romance FOGO NO CORAÇÃO, ambientado no mundo da acupuntura em Brasília/DF

Você pode adquirir FOGO NO CORAÇÃO e outros romances de RAY CUNHA na Amazon.com.br ou no Clube de Autores

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Como queimar a ponte que leva ao passado e extinguir o abismo do futuro

RAY CUNHA*

Aquela noite ecoou por duas décadas na vida de M, sobrepondo-lhe um peso na região cervical que ia curvando-a, formando uma corcova, apesar dos seus 37 anos. Quando a coisa aconteceu ela tinha 17 anos. Durante uma festinha na casa de um casal de amigos adolescentes, puseram “boa noite, cinderela” no seu refrigerante e a estupraram. Filha única, a mãe, viúva e beata, guardiã dos bons costumes, soube do caso três dias depois. A partir dali, o inferno baixou naquela casa. A mãe, que já era travada, tornou-se ainda mais carrancuda e se fechou em um luto sem trégua. M se graduou em Economia, passou em concurso para o Banco do Brasil e foi gerenciar uma agência no interior do Pará. Competente, tornou-se funcionária modelo. Vivia para o trabalho e para a mãe, que continuava mergulhada no drama de 20 anos atrás. Muito bonita e assediada, M chegou a ter alguns namoricos, mas havia sempre um momento em que ela não podia ir adiante e então interrompia bruscamente o relacionamento. À medida que o tempo passava, o que sua mãe chamava de “pecado imperdoável” pesava mais e mais nas costas de M, que começou a sentir dores na coluna; as dores eram tantas que um médico lhe disse que ela sofria de fibromialgia. Até que M encontrou um terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa. Alguém, no trabalho, lhe dera uma revista chamada “Mulher Feliz”, publicada pela Seicho-No-Ie; ela leu a revista de capa a capa e gostou, e soube, pela colega que lhe dera a publicação, que havia um pequeno grupo de pessoas na cidade que se reunia para estudar a obra do fundador da Seicho-No-Ie, o filósofo japonês Masaharu Taniguchi. M atendeu ao convite da colega e foi à reunião, semanal, na casa de uma das participantes do grupo, e lá conheceu o terapeuta. Ela contou sobre as dores que sentia e ele a convidou para ir ao seu ambulatório no dia seguinte. Ela foi.

O terapeuta examinou a língua e auscultou os pulsos de M, e começou o tratamento com tuiná, a massagem terapêutica chinesa, aplicando uma série de manobras na cabeça da paciente e massageando-lhe o peito na altura do timo. Depois, ela virou em decúbito ventral e ele a massageou e fez alongamento na sua região cervical. Novamente em decúbito dorsal, o acupunturista começou a aplicação de agulhas: VG 20, Os Quatro Cavaleiros, Yintang, VC 17, PC 6 e R 9. M, que não vinha dormindo bem, caiu em sono profundo; 40 minutos depois o terapeuta a acordou.

Pesquisador de Medicina Vibracional, ele percebera, na noite anterior, que M estava seriamente atingida no seu corpo astral, o estado de consciência das emoções.

– Agora, que você está bem relaxada, podemos começar a anamnese. Você está emocionalmente tensa, e isso vem travando suas energias Yin e Yang, causando desequilíbrio, e dores, no seu corpo etéreo, o que seu médico diagnosticou como fibromialgia. Precisamos identificar a origem dessa tensão; é ela que vem desequilibrando você; é a causa de todos os aborrecimentos que você enfrenta em casa e no trabalho. Precisamos encarar, de frente, esse... obstáculo, seja lá o que for. – O terapeuta fez uma pausa. – E então? – perguntou.

M começou a chorar. Chorou durante uns cinco minutos. O terapeuta parecia meditar enquanto ela chorava.

– Eu tinha 17 anos e cometi um pecado horrível; minha mãe disse que vou morrer pecadora e que vou para o inferno, porque, além do pecado original, ainda há esse outro que eu cometi – ela disse, em um arranco.

O terapeuta sorriu.

– Minha filha, ninguém é pecador, e não existe pecado original. Aliás, não existe pecado nenhum. Em a natureza, não há bem ou mal; nós é que qualificamos as coisas, os acontecimentos. Ninguém nasce pecador; pelo contrário, somos, todos, filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, somos deuses também. O que ocorre é que muitos de nós ainda não manifestamos a luz, o mundo perfeito de Deus. Encarnamos na vibração da matéria para evoluir mais rapidamente, porque, aqui, os apelos e o apego são quase irresistíveis. Mas somos espíritos, nossa corpo original vibra em outra dimensão. Você nunca pecou; você apenas está acorrentada em certo momento do seu passado.

– Eu tinha 17 anos e fui a uma festinha na casa de um casal de coleguinhas; colocaram droga no meu refrigerante e me desvirginaram. Três dias depois minha mãe descobriu o que aconteceu e disse que eu estava perdida, e deixou de me amar, de me fazer carinho – disse isso e chorou de novo.

– Querida, o que é o hímen senão uma pelica? Quanto à opinião da sua mãe, trata-se de uma verdade apenas para ela, e cada qual tem seu estado de consciência, seu mundo, ou sua compreensão da vida. Nas suas orações, perdoe sua mãe, e a ame sempre; isso gerará luz, e a luz desata qualquer nó. O passado não existe, é uma ilusão. A menina desvirginada não existe mais; hoje, você é uma mulher, muito bonita, aliás, gerente de uma agência do Banco do Brasil, e que anda sobre suas próprias pernas. Sua mãe só ampliará a mente dela se você mudar a sua própria mente. Não mudamos as pessoas; o mundo muda quando nós mudamos. Sobre pecado original, isso é conversa fiada, ninguém peca por nascer; pelo contrário, nascer é um privilégio, a oportunidade de evoluirmos espiritualmente. Queime a ponte que leva ao passado, e você não poderá mais fazer essa viagem. Como queimar? Apenas pare de pensar nisso. Ao invés de pensar que é pecadora, conscientize-se de que você é filha de Deus, e de que todo o Universo depende de você, pois você, como todo mundo, é o centro do Universo. O Universo não é infinito? Pois bem, o infinito parte para todos os lados, e, se assim é, há sempre um centro, e você é o centro. Por isso, posicione-se na vertical, olhe para a frente, abra o peito para a vida, não se encolha mais, pois você, como todo mundo, é dona de todo o Universo, e tem o espaço infinito disponível para si mesma, sem tirar sequer um pedacinho do espaço alheio. Livre-se do tremendo peso que você carrega, e que nem existe. De manhã, quando fizer sua higiene e olhar pela primeira vez para o espelho, sorria, e diga que você é muito amada por você mesma.

Ela o olhou com os olhos brilhando.

– Nossa! O senhor tirou um peso das minhas costas que eu não estava mais suportando – disse, respirando profundamente, aliviada, sorridente. Pobre da minha mãe; sofreu tanto esses anos todos! Eu já a perdoei e vou pedir perdão a ela hoje mesmo!

Algum tempo depois, M deixou o Banco do Brasil, convidada para assumir um cargo de chefia em uma multinacional. Quanto à sua mãe, estava sorridente no casamento da sua amada filha.

O Universo é feito do que intuímos, e denominamos, de energia, que não pode ser criada nem destruída, mas apenas modificada, e que existe desde antes e existirá depois dos tempos. A energia se manifesta em campos vibracionais. Logo, nós, humanos, somos campos, ou corpos vibracionais. A mente é um conjunto de corpos vibracionais, entre os quais o corpo material, que vibra submetido a duas dimensões: espaço e tempo. O espaço pode ser medido por altura, largura e espessura; e o tempo está relacionado às transformações que ocorrem a cada instante à matéria, até a dissolução do corpo físico em átomos, quando o espírito se desassocia dos corpos, físico, etéreo (sede dos sentidos), e astral (sede das emoções). Dependendo o estado de consciência do espírito, às vezes, ao desencarnar, ele fica preso ao corpo astral, ou do corpo etéreo, até resolver pendência da vida material, e então ascender a orbe superior.

Enquanto mentes, encarnamos para evoluir, sair do estado de consciência material, imperfeito, e manifestar-se em um estado de consciência superior. Somos, por conseguinte, estados de consciência únicos, o núcleo do próprio Universo, que está sempre se expandindo para todos os lados, e para dentro também, manifestando a perfeição, o imutável, o eterno, o criador.

De modo que a existência material não passa de apego à matéria, que, como dizem os budistas, não existe de fato, esfarinha-se, muda a todo instante, até a morte física, quando tudo o que é material se dilui, desaparece. Assim, tudo o que é inerente à matéria, tempo e espaço, é sombra da mente. Logo, passado e futuro não existem. A eternidade, no mundo material, é agora.

Quando alguém se acorrenta ao passado, seja por nostalgia, seja por remorso, a vida não caminha; a energia vital, que os chineses chamam de Qi, empaca, o corpo astral se inflama, refletindo-se no corpo físico em doenças, acidentes, desemprego, pobreza financeira, dramas existenciais, tragédias, e atingindo, sempre, os filhos, e as pessoas amadas.

O que fazer, então? Arrepender-se do ato que o acorrentou ao passado, o propósito de não mais o cometer, e não voltar a pensar no assunto.

Quanto ao futuro, também é ilusão. Não sabemos sequer se estaremos fisicamente vivos no momento seguinte. Assim, viver no futuro, é um estado de consciência que os psicólogos chamam de ansiedade. Por exemplo: um estudante tem prova marcada para daqui a uma semana. Em vez de apenas estudar para a prova ele também passa a semana toda pensando na prova. Desse modo, ele se sentirá exausto no dia da prova, e sentirá um branco na memória, por conta do desgaste de ter passado a semana toda fazendo a prova, inclusive à noite. A ansiedade, ou preocupação com o futuro, depauperou seu meridiano energético do baço, que, segundo a Medicina Chinesa, produz sangue e governa os músculos; sem sangue tonificado não há repouso, e, sem tônus, os músculos murcham, gerando cansaço ao menor esforço.

Com efeito, não existe passado nem futuro; só há o agora, o momento mesmo da vida, que é eterno, porque é o núcleo do Universo. Um exercício prático para vivermos o agora é a meditação. Pessoas ansiosas são atacadas por um cipoal de pensamentos o tempo todo, e muitos desses pensamentos são pura fantasia. A meditação dissipa os pensamentos, até chegar ao foco, e o foco é sempre agora. A melhor meditação que eu conheço é a oração, formal ou informal, porque ela nos conduz ao divino, à vibração do núcleo do Universo. E, durante a meditação, ou da oração, agradeces aos teus antepassados, especialmente aos pais, e a tudo o que és, e que tens. A gratidão é uma vibração que nos harmoniza com o núcleo.

Se o nó que o prende ao passado formou-se de um erro cometido, ou do ressentimento que nutres contra alguém, pedes perdão a esse alguém, e o perdoas. Se o nó surgiu da expectativa de possuir alguém por quem estás apaixonado, e que não quer saber de ti, libertas essa pessoa da tua mente. Ages assim para todos os nós. E praticas, sempre, o bem. É assim que queimamos a ponte que leva ao passado e extinguir o abismo do futuro.

É tiro e queda. A tristeza, gerada pelos erros do passado, desaparece; a ansiedade se esfuma; o câncer murcha e some; e o riso volta a soar no jardim da vida, como rosa que se desnuda ao sol.


Biliografia

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.


* Leia de RAY CUNHA o romance FOGO NO CORAÇÃO, thriller ambientado no mundo da Medicina Chinesa em Brasília. O livro pode ser adquirido no Clube de Autores ou na loja virtual da Amazom.com.br

sábado, 31 de março de 2018

Olivar Cunha: gênio do Amapá, na Amazônia caribenha, completa 50 anos de artes plásticas

Macapá, 1985: Klingerly, Márcio André, Linda, Marina
(mãe do gênio), o gênio Olivar Cunha e Mel

RAY CUNHA


Tuiuiú Crucidicado
BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2018 – Em 31 de março de 1952, João Raimundo Cunha plantava uma seringueira no quintal da sua casa, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, onde é hoje o Colégio Amapaense, em Macapá; anos depois, a seringueira ficou no caminho do muro do colégio, mas foi poupada, com o desvio do muro. Também naquele ano nascia mais um varão na família Cunha, Olivar, chamado carinhosamente pelas suas filhas, Tatiana e Taiana, de Lili. Lili completa, hoje, 65 anos de idade, e 50 como artista plástico.

A seringueira é a mesma que aparece na capa da edição da Amazon.com do meu romance A CASA AMARELA, uma recriação da casa onde o gênio nasceu. Olivar Cunha também aparece em outro romance meu, HIENA, que pode ser adquirido na Amazon.com.br e no Clube de Autores. A CASA AMARELA foi publicado ainda no Clube de Autores

Olivar Cunha e favela amazônica
Ele tinha 15 anos, em 1967, quando expôs pela primeira vez, em Macapá. É fácil encontrar a antiga aldeia dos índios tucujus no mapa: fica no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do planeta, o Amazonas. A cidade se debruça na margem esquerda do estuário do colosso, a cerca de 250 quilômetros do Atlântico, no setentrião brasileiro, a Amazônia caribenha. Naquela época, eu tinha 13 anos, e já era fã do grande artista. Hoje, são 30 exposições individuais e 35 coletivas, realizadas em diversas cidades do país.

Início dos anos 90: Lili, eu e Josiane, em Brasília
Em 1967, frequentávamos a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, próximo ao Macapá Hotel: R. Peixe; o poeta e cronista Alcy Araújo; Olivar Cunha; o poeta Rodrigues de Souza, o Galego; o pintor e poeta Manoel Bispo; o poeta e contista Joy Edson; o compositor, poeta e contista Fernando Canto; a poeta Alcinéa Cavalcante...

Auto-retrato do gênio
Nas décadas de 1970/1980, o artista mudou-se para Belém do Pará, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são tão chocantes quanto a colonização do Inferno Verde.

Depois de morar no Rio de Janeiro, onde estudou no Parque Lage, nos anos de 1990, consolidou sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos com a série de animais agonizando no esgoto das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre o esgoto em que se transformou a baía de Guanabara.

O Tuiuiú Crucificado é, talvez, o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacareípe/ES. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 cm por 100 cm. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacareípe/ES, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal.

Guamá, Belém do Pará, anos 70
A Amazônia é recriada na espátula do pintor à base de espilantol, o princípio ativo do jambu, indicador de que o gênio pinta, na verdade, a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os caboclos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram em Macapá, Belém, Mosqueiro, Salinas, Caiena...

O grande artista vive hoje no paradisíaco Jacaraípe, distrito atlântico do município de Serra, na grande Vitória/ES, onde se consolida também como restaurador, recuperando obras sacras de igrejas da região. A trajetória artística de Olivar Cunha é a comprovação da sua genialidade. Vida longa ao gênio!

domingo, 24 de dezembro de 2017

Memórias de um repórter de Macapá durante a Ditadura dos Generais (1964-1985) na Amazônia

Este repórter e Roberto Carlos, no
Hotel Amazonas, Manaus, 1976
Em 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985, eu tinha 9 anos de idade e vivia na minha terra natal, Macapá, cidade ribeirinha no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na confluência com a Linha Imaginária do Equador, Amazônia Caribenha. Era a capital do então Território Federal do Amapá. Daquela época, lembro-me de prisões na Fortaleza de São José de Macapá e da minha mãe queimando livros do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, leitor voraz, apenas porque era líder estudantil e poeta, o que seria suficiente para que ele fosse jogado na Fortaleza. Em 1968, aos 14 anos, comecei a frequentar uma roda de artistas, alguns dos quais tinham que se apresentar, de vez em quando, no quartel local do Exército. O poeta Isnard Brandão Lima Filho, pai da minha geração de escritores, foi preso na Fortaleza e no antigo presídio São José, em Belém.

Em 1971, houve uma grande mudança na minha vida. Eu cursava o quarto ano do antigo ginasial no Colégio Amapaense quando, juntamente com três amigos, criamos o jornal estudantil A Rosa (Bonitinha Mas Ordinária). Meus amigos eram o poeta e contista José Edson dos Santos (Joy Edson), o jornalista Walter Júnior do Carmo e o advogado José Nazareno Nogueira. O pasquim só circulou uma vez. Na época, o diretor do Colégio Amapaense era o professor Tinilo e o vice, professor Edgar. O registro que tenho na minha memória tanto do professor Tinilo quanto do professor Edgar é de que eram sombrios, principalmente o Tinilo. Fui submetido, pelos dois, a um inquérito que durou cerca de uma hora, eles e eu, numa sala fechada. Queriam saber onde o jornal fora datilografado e mimeografado. Não disse nada e peguei 15 dias de suspensão.

O governador, na época, era o general mato-grossense Ivanhoé Gonçalves Martins. O Palácio do Setentrião era separado do Colégio Amapaense por uma praça descampada e o governador gostava de olhar de binóculo para o colégio. Certa vez, o jornalista Antônio Corrêa Neto publicou na capa de O Flash, de Belém, com circulação também em Macapá, uma foto do general Ivanhoé montado num cavalo, com uma legenda mais ou menos assim: O governador Ivanhoé Gonçalves Martins (o de cima) sai para uma blitz. Pois bem, A Rosa seria enviada para Ivanhoé.

Na Secretaria de Educação, um amigo meu, Montoril, pai do poeta José Montoril, impediu, não me lembro mais como, que o jornal caísse nas mãos do general. Mas, naquelas alturas, eu andava desestimulado com a vida estudantil, e com a cidade. Em Macapá, naquela época, artista era tratado pela sociedade local como vagabundo, marginal mesmo (não sei se isso mudou). Em dezembro daquele ano, 1971, publiquei, com Joy Edson e José Montoril, um livro de poemas, Xarda Misturada, e peguei a estrada, com apenas 17 anos e sem sequer carteira de identidade. Rodei por aí, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Manaus, onde vivem parentes do meu pai, João Raimundo Cunha. Quando eu cheguei em Manaus, tinha 21 anos; era 1975, auge da Ditadura dos Generais.

MANAUS – Antes de pegar o rio e partir para Manaus, para conhecer meus parentes paternos, dei uma parada em Santarém (PA), onde meu irmão mais velho, Paulo Cunha, estava morando. Em Santarém, trabalhei como redator da antiga Rádio Clube, de modo que ao chegar em Manaus entrei no primeiro jornal que encontrei, o Jornal do Commercio, então na Avenida Eduardo Ribeiro, onde, e nada é por acaso, havia uma vaga para repórter policial. Comecei no dia seguinte. Rotineiramente, cobria o Tribunal de Justiça e as delegacias de polícia, principalmente a Central, um casarão no centro da cidade, do qual guardei na memória o fedor de urina e de tortura. Ali, perpetrava-se todo tipo de barbaridade.

No Jornal do Commercio, uma vez meu amigo Wanderley Fortaleza escreveu alguma coisa, não me lembro mais exatamente o que, e a redação foi invadida pela Polícia Militar. Fiquei por pouco tempo no Jornal do Commercio e fui para A Notícia. No dia 31 de março de 1976, o então presidente Ernesto Geisel e ministros foram a Manaus inaugurar o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Praticamente toda a equipe de repórteres de A Notícia foi mobilizada para cobrir o evento. A mim coube também entrevistar o ministro da Educação, general de brigada Ney Braga.

Quase toda a equipe do jornal foi escalada para cobrir a permanência de Geisel e comitiva em Manaus, o dia todo. Fazia parte da minha pauta entrevistar Ney Braga, e perguntar a ele se o Decreto 477, editado em 1969 e que enquadrava estudantes e professores que contrariassem o regime, ainda era necessário. O diretor de redação de A Notícia, Bianor Garcia, foi claro comigo. Eu teria que perguntar ao general sobre até quando haveria necessidade da vigência do Decreto 174. Talvez porque não vivesse na sala do Bianor, puxando o saco dele, eu sentia que ele queria se livrar de mim, pois a missão era impossível.

À noite, Ney Braga participaria de um encontro num clube da alta sociedade no centro de Manaus, o Ideal Clube. Fui para lá com um gravador. Sentia-me meio condenado, mas com o estímulo do tudo ou nada. Posicionei-me num local por onde sabia que ele passaria e fiquei de campana. Não lembro quanto tempo esperei, mas o homem veio na minha direção e quando chegou a uma distância segura dei o bote. Os seguranças foram pegos de surpresa, pois não dei tempo a ninguém. O gravador na mão, avancei para cima de Ney Braga, com a serenidade dos que não têm nada a perder, identifiquei-me como repórter de A Notícia e sapequei a pergunta. Jamais esquecerei aquele sujeito me olhando quase na minha cara como se quisesse me fuzilar com os olhos. Sustentei o olhar dele. Deus, como eu precisava do meu emprego.

– O Decreto 477 ainda tem razão de ser? – perguntei mais ou menos isso.

Os olhos dele tinham a opacidade dos olhos de tubarão, e guardavam uma espécie de tédio, o tédio do poder.

– Você é jornalista? – ele me perguntou. Eu não era jornalista de direito. Tinha parado na quarta série ginasial e só estava trabalhando como repórter porque naquela época ninguém ligava para diploma de jornalista, bastava que soubéssemos escrever. Eu sequer tinha o ensino básico completo. Só em 1982 é que comecei a cursar jornalismo, por pressão das empresas jornalísticas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará.

– Sou repórter de A Notícia – repeti.

– E o que é que você acha? Você acha certo a anarquia? – ele disse algo mais ou menos assim. – Por que você está preocupado com isso?

– Quero saber sua opinião, ministro – insisti.

– O que você acha do decreto? – ele redarguiu.

– Eu, nada, a pergunta é para o senhor – repliquei.

– Não se preocupe com isso – ele disse. Lembrava os generais do cinema, sempre acompanhados de uma comitiva.

A entrevista, que foi curtíssima, caiu na burocracia. O general, e seu labirinto, foram-se logo. Creio que ele encerrou a entrevista mais por enfado do que por pressa. Voltei iluminado para o jornal. Havia compreendido várias coisas, entre as quais é que quem está na chuva é para se molhar. Escrevi um boxe curto com a entrevista e conservei meu emprego, que, aliás, não durou muito tempo, pois mudei para o jornal A Crítica, levado por Fábio Lucena, que conheci no Clube da Madrugada e bebíamos no Caldeira. Falar nele, depois que se elegeu senador e antes de se suicidar, certa vez eu estava em Brasília e fui procurá-lo no Senado. Ao me aproximar dele, um capanga que o acompanhava já ia sacar o revólver para me alvejar quando Fábio Lucena fez um sinal para ele dizendo que eu era amigo. O próprio Fábio me disse que o capanga tinha ordem para matar quem se aproximasse dele sem ser convidado. Não passou muito tempo para que ele se matasse.

Anos depois, o sargento paraquedista do Exército, Abílio Teixeira, que foi segurança de vários generais, me ensinou que um general é um homem como outro qualquer. A única coisa que o diferencia é seu uniforme. E um uniforme é só um uniforme. Aquela entrevista foi uma das melhores que já fiz, porque comecei, naquele momento, a entender, intuitivamente, que jornalismo é mais do que profissão; é a missão de desmitificar a realidade, essa dama escorregadia, que se move no pântano das trevas.

Foi em A Notícia que tive meus melhores momentos em Manaus como repórter. Certa vez, escrevi uma nota sobre rodoviários atacados por waimiris-atroaris na BR-174, a Manaus-Boa Vista. A propósito, investigação do Ministério Público Federal no Amazonas aponta que os militares foram responsáveis pela morte de milhares de índios durante a construção da BR-174 (Manaus-Boa Vista) e da BR-230, a Transamazônica. Pois bem, por conta da nota, o Bianor Garcia foi chamado para dar explicações no Comando Militar da Amazônia. Não foi; mandou a mim. Lembro-me que o coronel que chamara o Bianor Garcia não gostou de ver apenas o repórter, e de 21 anos, para dar explicações sobre uma “questão de segurança nacional”, mas me fez algumas perguntas e me liberou. Recriei esse episódio no conto A Grande Farra, publicado em livro homônimo, em 1992, em Brasília. Segue-se trecho do conto:

“Naquela sexta-feira, Reinaldo foi instruído pelo editor para pedir desculpas ao comandante Militar da Amazônia. O jornal tinha publicado que os waimiris-atroaris estavam atacando na BR-174 e o editor recebeu um telefonema dando conta de que o assunto era de segurança nacional.

“Foi recebido por um sargento.

“– Gostaria de ver o general – disse-lhe.

“– O assunto? – perguntou-lhe o sargento.

“– Vim representando o Jornal do Comércio e dar-lhe uma explicação quanto a uma matéria que saiu.

“– Sente-se e aguarde. Seus documentos, por favor...

“– Pois, não. Aqui está minha carteira de jornalista.

“– Sua carteira de identidade também.

“– Ei-la, senhor.

“– Sente-se e aguarde.

“– Obrigado.

“Não demorou e veio um major, que o introduziu a uma sala maior e mais arejada.

“– O general esperava o editor – disse. – De qualquer modo ele vai recebê-lo. – O major olhava-o de sua poltrona, por detrás da grande mesa em que trabalhava. Veio um ordenança com cafezinho. O major apanhou as xícaras e ofereceu-lhe uma. Eram de porcelana. O telefone tocou e o major atendeu-o. Desligou-o, levantou-se e convidou-o a acompanhá-lo. Reinaldo foi introduzido a uma sala ampla. Em frente de uma escrivaninha belamente trabalhada estava o general, que não disfarçou o desgosto de ver o jornalista – mas isso durou apenas um segundo. Saiu de sua imobilidade e estendeu a mão a Reinaldo.

“– Sente-se – disse ele. Era alto e elegante, e jovem.

“– General, estou representando...

“– Esperava o editor do jornal, meu jovem – cortou-o.

“– Ele não pôde vir – disse, meio sem jeito, o jornalista. – Vim, em nome do jornal, pedir desculpas pela matéria que veiculamos sobre a BR-174.

“– Tudo lá está tranquilo, tudo sob controle. Quem lhes deu a informação de que os waimiris-atroaris atacaram um automobilista que seguia para Roraima?

“Reinaldo ficou embaraçado. Não sabia responder ao general. Mas ele passou adiante.

“– Notícias desse tipo são sensacionalistas e condenáveis. Por que os senhores não pedem informação a nós? Diríamos que está tudo tranquilo. Para que conturbar a paz com notícias inverossímeis? Meu jovem, estaremos sempre aqui à disposição da verdade.

“De volta, soube que policiais militares haviam prendido Tom Bacamarte, editorialista do jornal, por causa de um artigo que escrevera contra a polícia. Uma guarnição invadira o prédio e arrastara Bacamarte para o Comando da Polícia Militar. Ninguém pôde impedir, já que ameaçaram metralhar quem se metesse. Martim, que era redator e muito amigo de Bacamarte, comunicou-se com Brasília imediatamente, e com todas as agências de notícias do país.

“Ao saber da prisão, Reinaldo foi imediatamente ao Comando da Polícia Militar. Gostava muito de Bacamarte.

“Na sala do comandante, Bacamarte enfrentava-o. Naquela noite, no Orten, ele contou como se saiu.

“– Então é o senhor que anda ameaçando a ordem pública, a paz e a polícia? – disse-lhe o comandante, que era gaúcho.

“– Só há uma quadrilha de desordeiros nesta cidade, e o senhor a comanda. Quanto a paz, a presença do Exército na vida civil do país a desmente. E a polícia é quem tem as armas de fogo e o arbítrio para fazer o que quiser.

“O comandante ficou vermelho, mas controlou-se, e falou calmamente.

“– O senhor sabe que poderia ser preso por essas declarações?

“– Sem as formalidades da Justiça? Sim, sei. Sei inclusive que poderei ser assassinado e desaparecer.

“– Meu jovem, tudo o que a polícia faz é para o bem deste país – contemporizou o comandante.

“– Eu sei. A prisão ilegal de estudantes e a tortura.

“– O senhor pertence a alguma facção política, meu jovem?

“– Sou fascista.

“– Meu jovem, vou soltá-lo, mas não volte a falar da polícia...

“– Então, não estou preso? A propósito, quero agradecer a gentileza do convite para vir tomar um chá com o senhor; chá, não, chimarrão.

“– Vou mandar que o levem de volta ao jornal – disse, impassível, o comandante.

“– Obrigado. Vou de pés.”

Durante todo o tempo em que trabalhei em A Notícia, o jornal esteve sob censura prévia. Todas as noites, um casal de agentes federais, casados mesmo, ia para uma sala contígua à redação e lia tudo o que sairia na edição do dia seguinte, cortando o que achasse que pudesse ofender a ditadura.

A Notícia foi uma escola para mim. Lá, conheci José Marqueiz, Prêmio Esso de 1973, por cobrir para O Estado de S.Paulo a expedição dos irmãos Villas-Bôas de contato dos índios kranhacarores, no Mato Grosso. Marqueiz era correspondente do Estadão e redator de A Notícia. Ele foi o primeiro a pavimentar meu texto jornalístico. Depois, tive outro mestre, Octávio Ribeiro, o Pena Branca, um dos maiores repórteres policiais do país. Fui redator dele, que foi editor de polícia do O Estado do Pará, lá por 1978, e com ele aprendi a escrever de maneira objetiva e clara. Obrigado! O Estado do Pará era comandado por Oliveira Bastos, Avertano Rocha e Walmir Botelho.

O Marqueiz e eu nos tornamos amigos. Batíamos muito papo no Amarelinho, em Manaus. Quando fez a reportagem que lhe daria o Esso, ele contraiu malária e para combater o frio bebia. Tornou-se alcoólatra. Bebia pequenos tragos de Pitú, seguidos de chopp. Certa noite, pernoitei na casa dele e no dia seguinte saímos cedinho. Paramos no bar de um português, no centro de Manaus, que Marqueiz frequentava, e ele me convidou para fazer o desjejum: um copo de Pitú na cintura, que ele sorveu de um só trago. Recusei. O máximo a que cheguei foi fazer desjejum com a maravilhosa Antarctica manauara.

Apesar de eu só ter 21 anos de idade, assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte. Nessa época, entrevistei muito artista importante, então em início de carreira, como Márcio Souza e Fafá de Belém, que era um exuberante furacão. Entrevistei vários monstros sagrados, como Grande Otelo, Nara Leão, Roberto Carlos. E conheci Jorge Amado, num encontro fortuito, nos arredores de Manaus. Roberto Carlos me marcou porque foi a pior entrevista que fiz na minha vida.


A produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com Roberto, que fora apresentar-se em Manaus, em 1976, e estava hospedado no Hotel Amazonas, centro da cidade. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava meia de mulher como touca, antes dos shows. Pergunta bizarra, mas que satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. Tudo bem! O problema era que o gravador estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista meu destino estaria selado.

Fui fazer a entrevista. No hotel, fomos conduzidos, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde fomos recebidos por dois seguranças. Roberto não nos recebeu no apartamento, mas, depois de se arrumar, saiu do apartamento e me deu a entrevista no corredor.

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia, assunto que fora objeto de revista de fofoca. Ele me respondeu numa boa. Eu prestava mais atenção ao gravador do que a Roberto, pois estava preocupado, vigiando o rolo de fita girando. Era um velho gravador de tamanho médio. Mais tarde, na redação, degravando a entrevista, vi o quanto ela foi burocrática. Mas tudo bem! Restou uma fotografia com o Rei, por insistência do fotógrafo, que se tornara amigo meu e queria me dar um presente.

Em 1977, mudei-me para Belém, onde trabalhei em O Liberal e depois em O Estado do Pará. Em 1978, fui para Rio Branco, trabalhar no jornal Gazeta do Acre, comandado pelo Elson Martins, um dos mais brilhantes repórteres da Amazônia, editor também do Varadouro, o mais famoso jornal de resistência à ditadura produzido na Hileia. Tive, assim, rapidíssima passagem pelo Varadouro, em março de 1979, escrevendo, em jornalismo literário, a matéria Roteiro da Prostituição, publicada, com chamada de capa, na edição 14 do Varadouro. Escravidão, especialmente sexual; tráfico de tudo o que se possa imaginar, inclusive de crianças; matança de índios e de animais em extinção, tudo é permitido numa ditadura, porque ditaduras são corruptas por definição.

De volta a Belém, continuei acompanhando o deslizar da serpente, até a assunção de Jegue Sarney (Paulo Francis o chamava de Jeca Sarney, que eu transformei em Jegue Sarney) à presidência, em 1985. Vinte anos depois, em 2005, já morando em Brasília, publiquei o romance A Casa Amarela (Editora Cejup, Belém), ambientado em Macapá, no ano do golpe.

Durante breve período, fui redator-chefe do semanário DF Notícias, de Brasília, onde conheci o sargento da reserva do Exército, Abílio Teixeira, que, em 2002, foi candidato a deputado federal. Fluminense, sargentão, paraquedista, assessor de ministro do Exército durante a ditadura, Abílio Teixeira não tem papa na língua. Escrevia uma coluna na qual descia o cacete no então presidente Lula Rousseff e nos generais, porque Lula deixava os praças passarem fome com a conivência dos generais, e também porque Lula não estava nem aí para a Amazônia. Os amazônidas que se lascassem. E ainda porque a infraestrutura do país estava desabando, como continua desabando.

Um dia, um tenente do Comando Militar do Exército em Brasília ligou para a redação e pediu para falar comigo, marcando a visita de um major. Eu sabia que era por causa dos artigos do Abílio. Conversei com o Abílio e ele me disse mais ou menos o seguinte: basta dar um grito que eles se sujam... Até aí, eu ainda sentia medo dos militares, pois ditadura é uma zona de guerra, onde a mordaça, a tortura, o estupro, o assassinato, são banais. Em Manaus, eu sabia de tortura no Casarão da Central de Polícia e presenciei espancamento.

Na manhã combinada, recebi o major e seu ordenança na minha sala. A certa altura o major me perguntou se poderia ler, de antemão, os artigos do Abílio. O sangue subiu à minha face.

– Censura? – perguntei, irritado.

O major escorregou do galho, mas era bom de comunicação e, com habilidade, conduziu a questão para outro lado, perguntando se poderia consultar o arquivo do jornal. Sim, é claro que poderia, mas pus, de propósito, um obstáculo.

– É claro. Basta que o Exército encaminhe uma carta solicitando isso – disse.

O major se mexeu na cadeira. Não demorou a ir embora, dizendo que providenciaria o documento, e nunca mais soube dele.

Tive longos papos com o Abílio sobre assuntos da caserna, e me sinto grato a ele, porque foi decisivo no exorcismo do medo que eu acumulei acompanhando como repórter a Ditadura dos Generais, de modo a valorizar, a zelar, a lutar pela democracia, sempre.

Durante a Ditadura dos Generais, o ovo da serpente inchava. Os militares só instalaram uma ditadura porque os comunistas brasileiros queriam instalar no Brasil uma ditadura nos moldes da antiga União Soviética, totalitária. Foi nesse cenário que surgiu Lula Rousseff, que, nos anos de 1990, instalou o Foro de São Paulo, reunindo hienas como Fidel Castro, e lançando as bases para começar uma ditadura comunista no Brasil. Em 2003, ele foi eleito presidente da República e começou, imediatamente, seu plano, por meio do patrimonialismo, do paternalismo, do populismo e do aparelhamento do Estado; aliando-se a todas as excrescências que rastejam, do Oiapoque ao Chuí; desqualificando as Forças Armadas, as escolas e as universidades; e assaltando a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O golpe militar de 64 recebeu apoio da maioria da sociedade brasileira, receosa de uma revolução comunista, que é sempre genocida e totalitária. Há quem diga que a Ditadura dos Generais foi leve, que conservou o Judiciário, que matou pouco. Ora, toda ditadura é corrupta por definição, saqueia, extingue a cidadania, amordaça, tortura, mata. O que se deve tirar da Ditadura dos Generais é a consolidação da democracia, no sentido de se impedir qualquer tipo de ditadura, inclusive a das sombras, que o zumbi Lula Rousseff ainda tenta.

A grande lição que aprendi com das duas décadas de uma ditadura que evitou algo ainda pior é que devemos lutar com unhas e dentes pela democracia, que é um exercício individual de amor ao próximo. Quando tomamos atitudes justas, dignas e altruístas, toda a Humanidade melhora, pois nenhum homem é uma ilha; somos, todos, um continente.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O corpo é reflexo da mente

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – A língua da sra. K, 75 anos, apresenta profunda fissura longitudinal no centro, é vermelha e seca, e a ponta é rubra; foi-lhe extirpado um cancro maligno no seio direito; sua região cervical é dura como pau; é insone; sofre de constipação intestinal; é controladora; e ingere 15 medicamentos por dia. Seu pulso do coração é quase contínuo, uma oitava acima; o do fígado lembra o som de uma corda de violão muito esticada; e não há pulsação no rim.

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a anamnese, do grego ana, trazer de novo, e mnesis, memória, é fundamental para que se chegue ao diagnóstico, daí porque a conversa entre terapeuta e paciente deve ser estimulada enquanto durar o tratamento. A anamnese me lembra um desses filmes policiais em que o investigador entre numa casa, à noite, em busca de uma pista que o conduza à elucidação do crime. Não liga nenhuma lâmpada para não chamar atenção, principalmente do criminoso, e assim utiliza sua lanterna de bolso. De modo que somente lá pela décima sessão é que encontrei a pista que estava procurando. A sra. K foi traída pelo marido e seu filho caçula matou-se aos 21 anos.

Todas as doenças, sem exceção, surgem na mente e se refletem no corpo. O Universo funciona mais ou menos assim: existe a Lei, a que chamamos também de Deus. A Lei ordena tudo o que há no Universo, nada escapa à sua ação. Ela não é boa nem má, é a Lei. O Homem, que é mente, materializa-se na Terra em um processo de evolução infinito, nasce com livre arbítrio e é também criador. Nessa caminhada, o Homem cria ilusões, sempre na mente; são ilusões porque não se harmonizam com a Lei, razão pela qual o destino final dessas ilusões é desintegrarem-se.

Tudo o que se passa na mente se reflete no corpo, por meio dos sentidos, de modo que as ilusões também se refletem no corpo, que, por sua vez, se submete às leis físicas. A matéria é mutável e finita, e quando é atingida pela ilusão mental, degenera-se precocemente; são as doenças.

No caso da sra. K, ela vive no passado, juntamente ao seu filho caçula; mas o passado não existe mais, o que faz com que a sra. K se transforme em zumbi. Os zumbis são mentes deslocadas do agora, e a eternidade é agora. Os corpos dos zumbis apresentam-se deteriorados, ou doentes, porque estão deslocadas do agora. Sempre que tentamos nos situar no passado ou no futuro surge o estado de tensão, o que no caso da sra. K manifestou-se como cancro no seio favorito do filho, quando era bebê.

A sra. K nutre ódio pelo marido, que trocou-a por uma mulher muito mais jovem do que ela. O ódio, mais 15 medicamentos que toma por dia, incendiou seu fígado e as chamas subiram até o coração.

Ela tem mais dois filhos, casados, e mesmo assim tenta controlá-los, além da sua governanta; tudo tem que ser do jeito da sra. K. Pessoas controladoras contraem aterosclerose e seus pescoço e ombros ficam rijos como madeira, e acabam pegando fogo também.

Tratei a senhora com acupuntura, fitoterapia, alimentação energética e tuiná, a massagem terapêutica chinesa. Ela melhorava alguns dias, mas os sintomas voltavam. Quando identifiquei a origem da angústia da sra. K, expliquei-lhe como funcionam o mundo material e a mente. Que a vida material é a manifestação da energia pré-celestial, situada num xacra entre os rins, e que ela vinha jogando pelo ralo essa energia, ou seja, a própria vida, ao incendiar seu próprio corpo.

A solução – disse-lhe – consistia em três agulhas: uma delas é a prece, a conexão com o orbe espiritual, onde seu filho a procura, sedento do seu amor. A outra agulha é o perdão, pois só com o perdão ela voltará a amar novamente o pai dos seus filhos, e compreenderá que ele não é propriedade dela. A terceira agulha é a alegria, que alimenta a vida.

Somente os pacientes têm o poder de curar suas mazelas. O terapeuta é apenas instrumento da Lei.

A liberdade se equilibra no lombo da luz

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 16 DE OUTUBRO DE 2017 – Mestres como Jesus Cristo, Massaharu Taniguchi, Alan Kardec, deixaram claro que o ser humano é espírito, um dos corpos vibracionais que compõem a mente, a sede do amor e da sabedoria e o mais próximo do mundo perfeito. Espíritos baixos, grosseiros, encarnam para evoluir e alcançar o nirvana, ou paraíso, o mundo perfeito.

A dimensão da carne é uma prisão. Começa com a força de gravidade, que pressiona tudo para o chão. Se não fizermos esforço para viver, a deterioração da matéria se acelera e o tempo encurta. Além disso, a matéria é constantemente agredida, de modo que a sensação de liberdade, atrás da qual todo mundo anda, requer disciplina o tempo todo.

Entre o espírito e o corpo carnal há dois corpos vibracionais, mais sutis do que a matéria, que também é energia, porém numa vibração tão baixa que se condensa. O corpo astral, que liga o espírito ao corpo etéreo, é a sede das emoções. Por exemplo: se alguém se deixa ofender e fica com ressentimento, isso gerará uma inflamação no corpo astral, que se refletirá no corpo etéreo, sede dos sentidos.

O corpo humano é uma máquina biológica, administrada pelo cérebro, que, auxiliado pelo sistema endocrinológico, comanda o corpo por meio de hormônios, enzimas e uma infinidade de substâncias químicas que aos poucos os cientistas vão descobrindo. Por trás do cérebro existe a mente, que são os corpos sutis.

O mais perto da matéria é o corpo etéreo, sede dos sentidos. Tanto que o corpo material não sente dor; a dor é sentida no corpo etéreo. Hipnose profunda é quando o hipnotizador afasta o corpo etéreo do corpo carnal, que se torna, então, zumbi.

Pois bem, o intumescimento no corpo astral provocado pelo ressentimento atinge o corpo etéreo, surgindo, daí, desequilíbrio entre as energias básicas yin e yang do corpo carnal, o que pode se configurar, por exemplo, em pressão alta, arritmia cardíaca, constipação intestinal, insônia, autopunição – como doenças autoimunes e fibromialgia –, cancro etc. Ódio, então, destrói o paciente e tudo ao redor dele.

Médiuns que servem como cavalo para espíritos que baixam nas mesas brancas atrás de orientação, se não se fortalecerem com orações que os conectem a Deus tornam-se depositórios de todo tipo de doença, porque os espíritos doentes que se manifestam nos médiuns os influenciam. Ao morrerem, espíritos baixos continuam com os corpos etéreo e astral até evoluírem.

É por isso que a atmosfera dos prostíbulos é sombria, porque espíritos que estão no limbo querem continuar sentindo os prazeres do sexo por meio de pessoas que se dedicam desesperadamente à libertinagem.

Nascer é uma bênção. Há uma infinidade de espíritos querendo nascer; alguns já encarnaram várias vezes, mas não evoluíram. A vida material serve para evoluirmos; esta é a missão básica de cada qual. Nascemos com um tanque de energia celestial, ou, como também dizemos na Medicina Tradicional Chinesa: energia pré-natal ou ancestral, uma espécie de mensagem genética que proporciona a formação do feto e o desenvolvimento do corpo, garantindo ainda o funcionamento dos órgãos, especialmente o coração.

Há três combustíveis pós-celestiais: oxigênio, alimentos e alegria. Sem oxigênio, duramos poucos minutos; sem comida, alguns dias; e sem alegria, morremos sempre, a vida biológica pode durar décadas, mas morre-se a cada instante. E quando surge o desequilíbrio entre yin e yang, que é a doença, o corpo não consegue mais tirar, nem conservar, energia dos alimentos, e então lança mão da energia celestial, encurtando a vida.

Assim, viver aqui na Terra é um exercício de disciplina. O caminho é cheio de armadilhas, apego, prazeres que se materializam como miragens. Mas a liberdade pode nos conduzir para a expansão da consciência. Liberdade é tão-somente a prática do amor, do perdão, da oração. Só assim podemos montar a luz.