Da Praça do Bode, RF seguiu para o Miró, onde almoçou, e de
lá foi ao Café Picasso, seguindo após para a redação do Observador da Banânia, que ficava também no Bananas 21, complexo de
quatro hotéis, um centro de convenções, teatro, restaurantes, cafés e duas
torres de escritórios. Ali situava-se o coração da Banânia, a capital da
República das Bananas, e era também o maior ponto de encontro da Ibero-América,
e o mais conhecido do planeta, das mais bonitas putas do mundo. Missões
diplomáticas disputavam eventos no Banânia 21, pois podiam se banquetear de
ninfetas ruivas, negras e índias, ainda impúberes.
Aquela quarta-feira ficaria na história da República das
Bananas. Quando RF entrou na sua sala encontrou a equipe da capa numa grande
efervescência. As Forças Armadas, comandadas pelo general Cágado, depuseram
naquela manhã, cedo, e engaiolaram, o ditador Luiz Castro Chávez da Silva, o
Bode; a esposa do tirano, uma loira desbotada e com o rosto todo esticado e
imobilizado por botox, ministra da Casa Civil, Vilma Winchester; e o presidente
do Congresso Nacional, Zé Ribamar, mais conhecido, entre seus detratores, como
Jeca.
Só que as coisas tiveram um desenrolar inesperado.
Luiz Silva, o Bode, chegara ao poder há precisamente uma
dúzia de anos, e pelo caminho natural: as urnas. Via legítima. Não demorou para
que convocasse milhões de sindicalistas, seus apoiadores, para um badernaço
histórico nas ruas, e logo depois, com apoio de um Congresso Nacional atolado até
a alma em corrupção, instalou estado de sítio, que nunca mais acabou, e passou
a governar por decreto, ou por bilhete. Ao fim daqueles doze anos, o Bode já
tinha transferido para inúmeros paraísos fiscais pelo menos metade do PIB da
República das Bananas, quando um acontecimento brutal levou o povo para as ruas,
e com apoio da maioria dos oficiais mais graduados das Forças Armadas, sob o
comando do Cágado, um brilhante general quatro estrelas, derrubou o Bode.
Naquele dia, ao sol escaldante do início da tarde, a dupla
foi levada para a Praça do Bode, onde tomaram no lombo dez chibatadas, nus; de
lá, os larápios foram atendidos no ambulatório da prisão conhecida por Papo,
nos arredores da Banânia, para cumprir prisão perpétua.
O primeiro a ser encaminhado para o patíbulo foi Jeca. Tinha
esse apelido porque, além de cultivar um sotaque caipira de doer nos ouvidos,
usava uns paletós tão mal cortados que lembravam paraquedas. Tinha 80 anos;
começara a roubar para valer há seis décadas, quando apoiou um dos inúmeros
golpes perpetrados naquele antro de corrupção. Antes disso, batia carteira. Com
40 anos, já era o maior patrimonialista do país, atrás apenas, e recentemente,
do Bode.
Jeca foi praticamente arrastado até o palanque, onde o
amarraram e começaram a lhe cortar a roupa. Estava bem barbeado e com os
bigodes bem feitos, reluzentes de tão negros. Alguém apareceu com uma tesoura e
começaram a cortar sua camisa. Sem a camisa, viu-se que Jeca estava gordo
demais; a banha brilhava ao sol, suarenta e pegajosa. Depois começaram a cortar
suas calças e, enfim, a cueca samba-canção, e tiraram-lhe as meias e os
sapatos. O homem estava nu. “Homem, não! Verme!” – pensou RF, no meio da
multidão. Os colhões de Jeca, o todo poderoso presidente do Congresso Nacional,
ladrão de merenda escolar, de material hospitalar, da aposentadoria de
velhinhos, parecia daqueles touros velhos. Zé Ribamar não opôs mais
resistência. Estava completamente humilhado. A primeira lambada, com um chicote
de bater em doido, pegou-o no pescoço. Ele praticamente relinchou. E aí o diabo
comeu o lombo dele durante a eternidade de um minuto. Levaram-no dali para uma
das duas ambulâncias e arrastaram o Bode para o cepo. Vilma Winchester, a ladra
mais corrupta que já aparecera por aquelas bandas, chorava. Seu apelido era
Winchester porque assaltava banco sempre aramada de uma Winchester.
Luiz Castro Chávez da Silva, o Bode,
castrista-bolivarianista, era 10 anos mais novo do que Jeca. Era apelidado de
Bode porque usou uma barba igual a do seu ídolo, Fidel Castro, durante muito
tempo, e fedia a 51, uma cachaça importada do vizinho Brasil. Os carrascos
estavam impacientes naquela manhã de 7 de setembro, quente como o inferno, e
cortaram rapidamente a roupa do ex ditador. “Olha, ele não tem o dedão do pé
direito” – uma criança gritou. De fato, o Bode perdera aquele dedão com um tiro
que dera no próprio pé. Também era gordo, a banha despencando, e quando a
pauleira terminou foi carregado, como um porco grande e já pelado, da mesma
forma que Jeca, para a outra ambulância. Winchester desmaiou e foi carregada
para um Santana preto, da polícia.
RF sentiu-se mal. Fora perseguido e torturado e não esperava
durar muito tempo mais. Conseguira enviar seus dois filhos e sua esposa para os
Estados Unidos, não sem antes que a estuprassem. Quanto a ele, não conseguira
fugir. Sua vida vinha sendo um pesadelo 24 horas por dia. Uma semana antes, guardas-costas
do Bode estupraram e mataram a esposa de um jornalista desafeto do regime,
grávida de gêmeos, e a coisa explodiu na internet. O Ministério das
Comunicações do Bode não conseguiu frear a onda, e as multidões começaram a
crescer em todo o país, assim, rapidamente. Então o Bode ordenou que as Forças
Armadas reprimisse o povaréu, e foi aí que ele perdeu o dedão do pé.
Assim que aquele espetáculo deprimente acabou, a multidão
foi se dispersando aos poucos, como se ainda fosse acontecer mais alguma coisa,
e os pombos começaram a voltar, catando restos de pipoca, milho cozinho e
assado, e migalhas de todo tipo de salgadinhos comercializados na feira
improvisada.
RF permaneceu no Observador
da Banânia durante cerca de seis horas. Quando deixou o Banânia 21 dirigiu-se
para o estacionamento público, defronte ao complexo arquitetônico. Observou a
presença de militares, aqui e ali, e a maior concentração de putas que pudesse
imaginar, lindas, sensuais, e como mariposas em torno de uma grande luminária,
num dia de canícula. Entrou no seu pequeno Fiat e foi para casa.