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domingo, 29 de março de 2015

CONTO/Fim de ditadura

Da Praça do Bode, RF seguiu para o Miró, onde almoçou, e de lá foi ao Café Picasso, seguindo após para a redação do Observador da Banânia, que ficava também no Bananas 21, complexo de quatro hotéis, um centro de convenções, teatro, restaurantes, cafés e duas torres de escritórios. Ali situava-se o coração da Banânia, a capital da República das Bananas, e era também o maior ponto de encontro da Ibero-América, e o mais conhecido do planeta, das mais bonitas putas do mundo. Missões diplomáticas disputavam eventos no Banânia 21, pois podiam se banquetear de ninfetas ruivas, negras e índias, ainda impúberes.

Aquela quarta-feira ficaria na história da República das Bananas. Quando RF entrou na sua sala encontrou a equipe da capa numa grande efervescência. As Forças Armadas, comandadas pelo general Cágado, depuseram naquela manhã, cedo, e engaiolaram, o ditador Luiz Castro Chávez da Silva, o Bode; a esposa do tirano, uma loira desbotada e com o rosto todo esticado e imobilizado por botox, ministra da Casa Civil, Vilma Winchester; e o presidente do Congresso Nacional, Zé Ribamar, mais conhecido, entre seus detratores, como Jeca.

Só que as coisas tiveram um desenrolar inesperado.

Luiz Silva, o Bode, chegara ao poder há precisamente uma dúzia de anos, e pelo caminho natural: as urnas. Via legítima. Não demorou para que convocasse milhões de sindicalistas, seus apoiadores, para um badernaço histórico nas ruas, e logo depois, com apoio de um Congresso Nacional atolado até a alma em corrupção, instalou estado de sítio, que nunca mais acabou, e passou a governar por decreto, ou por bilhete. Ao fim daqueles doze anos, o Bode já tinha transferido para inúmeros paraísos fiscais pelo menos metade do PIB da República das Bananas, quando um acontecimento brutal levou o povo para as ruas, e com apoio da maioria dos oficiais mais graduados das Forças Armadas, sob o comando do Cágado, um brilhante general quatro estrelas, derrubou o Bode.

Naquele dia, ao sol escaldante do início da tarde, a dupla foi levada para a Praça do Bode, onde tomaram no lombo dez chibatadas, nus; de lá, os larápios foram atendidos no ambulatório da prisão conhecida por Papo, nos arredores da Banânia, para cumprir prisão perpétua.

O primeiro a ser encaminhado para o patíbulo foi Jeca. Tinha esse apelido porque, além de cultivar um sotaque caipira de doer nos ouvidos, usava uns paletós tão mal cortados que lembravam paraquedas. Tinha 80 anos; começara a roubar para valer há seis décadas, quando apoiou um dos inúmeros golpes perpetrados naquele antro de corrupção. Antes disso, batia carteira. Com 40 anos, já era o maior patrimonialista do país, atrás apenas, e recentemente, do Bode.

Jeca foi praticamente arrastado até o palanque, onde o amarraram e começaram a lhe cortar a roupa. Estava bem barbeado e com os bigodes bem feitos, reluzentes de tão negros. Alguém apareceu com uma tesoura e começaram a cortar sua camisa. Sem a camisa, viu-se que Jeca estava gordo demais; a banha brilhava ao sol, suarenta e pegajosa. Depois começaram a cortar suas calças e, enfim, a cueca samba-canção, e tiraram-lhe as meias e os sapatos. O homem estava nu. “Homem, não! Verme!” – pensou RF, no meio da multidão. Os colhões de Jeca, o todo poderoso presidente do Congresso Nacional, ladrão de merenda escolar, de material hospitalar, da aposentadoria de velhinhos, parecia daqueles touros velhos. Zé Ribamar não opôs mais resistência. Estava completamente humilhado. A primeira lambada, com um chicote de bater em doido, pegou-o no pescoço. Ele praticamente relinchou. E aí o diabo comeu o lombo dele durante a eternidade de um minuto. Levaram-no dali para uma das duas ambulâncias e arrastaram o Bode para o cepo. Vilma Winchester, a ladra mais corrupta que já aparecera por aquelas bandas, chorava. Seu apelido era Winchester porque assaltava banco sempre aramada de uma Winchester.

Luiz Castro Chávez da Silva, o Bode, castrista-bolivarianista, era 10 anos mais novo do que Jeca. Era apelidado de Bode porque usou uma barba igual a do seu ídolo, Fidel Castro, durante muito tempo, e fedia a 51, uma cachaça importada do vizinho Brasil. Os carrascos estavam impacientes naquela manhã de 7 de setembro, quente como o inferno, e cortaram rapidamente a roupa do ex ditador. “Olha, ele não tem o dedão do pé direito” – uma criança gritou. De fato, o Bode perdera aquele dedão com um tiro que dera no próprio pé. Também era gordo, a banha despencando, e quando a pauleira terminou foi carregado, como um porco grande e já pelado, da mesma forma que Jeca, para a outra ambulância. Winchester desmaiou e foi carregada para um Santana preto, da polícia.

RF sentiu-se mal. Fora perseguido e torturado e não esperava durar muito tempo mais. Conseguira enviar seus dois filhos e sua esposa para os Estados Unidos, não sem antes que a estuprassem. Quanto a ele, não conseguira fugir. Sua vida vinha sendo um pesadelo 24 horas por dia. Uma semana antes, guardas-costas do Bode estupraram e mataram a esposa de um jornalista desafeto do regime, grávida de gêmeos, e a coisa explodiu na internet. O Ministério das Comunicações do Bode não conseguiu frear a onda, e as multidões começaram a crescer em todo o país, assim, rapidamente. Então o Bode ordenou que as Forças Armadas reprimisse o povaréu, e foi aí que ele perdeu o dedão do pé.

Assim que aquele espetáculo deprimente acabou, a multidão foi se dispersando aos poucos, como se ainda fosse acontecer mais alguma coisa, e os pombos começaram a voltar, catando restos de pipoca, milho cozinho e assado, e migalhas de todo tipo de salgadinhos comercializados na feira improvisada.

RF permaneceu no Observador da Banânia durante cerca de seis horas. Quando deixou o Banânia 21 dirigiu-se para o estacionamento público, defronte ao complexo arquitetônico. Observou a presença de militares, aqui e ali, e a maior concentração de putas que pudesse imaginar, lindas, sensuais, e como mariposas em torno de uma grande luminária, num dia de canícula. Entrou no seu pequeno Fiat e foi para casa.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Conto/A REDE

Durante o dia, a umidade relativa do ar caía para 11% e a sensação térmica ficava acima de 40 graus centígrados; agora, no início daquela madrugada de domingo, a temperatura estava bastante agradável no Fran’s Café – na Quadra 302, Bloco C, Edifício Athenas, no Sudoeste, bairro chique de Brasília –, aberto 24 horas por dia. O jornalista consultou sua caderneta Tilibra, tipo Moleskine. Já estivera em Uruaçu (GO), hospedara-se durante alguns dias nos hotéis Itajubá e Rio Vermelho, em Goiânia, e passara uma semana no Meliá Brasil 21. A jovem com quem se encontraria dali a pouco era o elo que faltava para concluir a reportagem. Pensava nisso quando seu telefone celular emitiu os primeiros acordes de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven. Era ela. Pagou o espresso que tomara e seguiu para um prédio distante cerca de 200 metros dali. Disse ao porteiro aonde ia. Subiu pelo elevador e desceu no primeiro andar. Ela trajava uma camisola vermelha, tinha quadris largos e seios empinados, pele rosada, olhos verdes, duas grandes esmeraldas, e lábios que lembravam os de Alinne Moraes. Parecia medir 1,60 metro e pesar 55 quilos.

– Você bebe o quê? – ela perguntou ao jornalista, que se sentara numa poltrona.

– Não vou beber nada – ele respondeu, tirando da bolsa um pequeno gravador.

A jovem havia se sentado à frente dele e cruzado as pernas.

“É linda demais” – pensou o jornalista.

Era em torno de 8 horas quando ele deixou o apartamento. O porteiro olhou-o com inveja. Caminhou até o Fran’s e pediu café com leite e uma baguete tostada com manteiga. Depois, foi a uma banca ali perto e comprou a revista Veja e o jornal O Globo e se dirigiu para seu carro, um Gol vermelho, estacionado na extremidade leste da quadra. Na entrada da confeitaria Pão de Ouro havia uma dupla de mendigos. Passou por eles, desejando-lhes boa sorte, para desencanto de ambos. O carro estava estacionado próximo de um monturo. Centenas de pombos fervilhavam ali; havia até um gavião, que, solene, bicava alguma coisa presa numa de suas garras. Quando pôs o carro para funcionar os ratos de asas pararam um segundo e logo voltaram a fervilhar, como formigueiro assanhado. Reinaldo pôs o carro em marcha e minutos depois tomou o Eixo Monumental. Passou defronte à Câmara Legislativa, “o albergue dos parasitas”, e logo alcançou a Esplanada dos Ministérios, com as bacias do Congresso Nacional destacando-se ao fundo. Cruzou o Lago Paranoá pela ponte Juscelino Kubitschek. “O sol já está a ponto de matar europeu sem protetor solar e chapéu” – pensou. “A bacanal de alguns príncipes do Congresso Nacional, empresários, diplomatas e turistas libidinosos vindos do frio vai sofrer um abalo, a partir de quarta-feira, quando o Observador de Brasília chegar às bancas. Brasília vai pegar fogo.”

Só prestou atenção à moto quando ela já estava ao lado da sua janela. O carona disparou duas vezes. O carro entrou no cerrado e parou logo adiante. O que atirou correu até lá, pegou a bolsa do jornalista e deu mais dois tiros na cabeça dele.

Vistos ao longe, as casas e o comércio do Lago Sul, margeando ruas vazias, entre as escarpas, dormiam, indiferentes, ao sol.


Brasília, 19 de março de 2013

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CONTO/Apego

Nunca vi mulher tão bonita como a socialite Gislaine Cagnotto, 40 anos. Pequena – um metro e sessenta, mais ou menos, e em torno de 55 quilos –, de pele rosada, boca semelhante a da atriz Alinne Moraes, cabelos ruivos, olhos verdes, seios fartos e garupa equina, tudo isso foi aquinhoado ainda com seu dom literário. Gislaine Cagnotto é poeta acima da média, o que quer dizer que não amontoa palavras apenas, mas vasculha as vísceras. E foi precisamente isto que a fez procurar-me: as vísceras.

Somos amigos há um bom tempo, exatamente por frequentarmos as mesmas festas da alta sociedade; eu, por força da minha família, que é bastante endinheirada. Porém, na minha juventude, estourei um joelho escalando o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil e na Amazônia, com 2.994 metros, e que jamais consegui escalar. Depois de ter meu joelho remexido durante tempo demais por uma junta de ortopedistas, fui alertado a procurar um acupunturista, de preferência que não fosse médico, mas terapeuta iniciado em Medicina Tradicional Chinesa. Quem me indicou isso foi um amigo mais velho. Encontrei um chinês que estava há muito tempo no Brasil e após algumas sessões com agulhas e massagens voltei a andar normalmente, sem sentir dor nem mancar. Fiquei, então, curioso com a magia daquele tratamento e acabei entrando na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), onde me formei já faz algum tempo, e atendo vários amigos meus.

Gislaine chegou às 10 horas em ponto ao meu consultório, no Lago Sul. Sentamo-nos confortavelmente e comecei a fazer a anamnese. Sua principal queixa era constipação intestinal, o que confirmei examinando sua língua e seu pulso. Mas descobri também que havia outro problema: ela não conseguia mais criar.

– Você tem muitos pares de sapatos? – perguntei-lhe, imprimindo um tom casual à pergunta.

Ela me olhou sem entender, mas respondeu-me automaticamente.

– Tenho! Acho que tenho uns 300 pares de sapatos! Por quê?

– Na Medicina Tradicional Chinesa, nós, terapeutas, não exatamente curamos doenças; nós tratamos o paciente como um todo, até porque toda a qualquer doença nada mais é do que desarmonia da energia mental – expliquei-lhe.

Aí é que ela não entendeu mesmo.

– E você costuma juntar muitas coisas que não usa e que estão guardadas? – perguntei-lhe.

– Muitas! – ela disse. – Há uma dependência, em casa, e é uma dependência grande, cheia de sapatos, roupas, bijuterias e até móveis que não usamos mais.

– Vou aplicar agulhas em alguns acupontos e preciso que você tire a blusa, tudo bem?

– É claro! – ela disse. – Estou aqui escondida do meu marido! Ele sente ciúme até da minha sombra!

Somos bastante amigos.

– E por que você se submete a esse regime islâmico? – perguntei-lhe, em tom de brincadeira.

– Sou mulher mineira; gostamos de dinheiro, e ele compra tudo o que eu quero! – ela sussurrou, deitando-se na maca. Seu sutiã era negro e contrastava com a pele rosada. A saia, vermelha, era justa, deixando à mostra as pernas mais bem torneadas entre as inúmeras que eu já vira.

Entre os pontos em que apliquei agulhas utilizei o BP 15, daheng em mandarim, localizado numa distância de quatro “cun”, cerca de 10 centímetros, na lateral do umbigo. Ele serve para debelar constipação crônica, resultado de letargia do intestino grosso. Mas eu já sabia qual era a causa do que estava afligindo minha bela amiga, e também a solução. Mais tarde, degustando Café Três Corações, gourmet, ministrei-lhe uma prática para sanar o mal pela raiz.

– Gislaine, vou indicar um lar de velhinhos e providenciar um furgão para, amanhã de manhã, irem à sua casa buscar tudo o que você realmente não vai mais utilizar; isso será precioso para eles – propus-lhe. Gislaine é do germânico “refém”, e, por coincidência, ela era refém do apego.

Três dias depois voltei a atender minha amiga. Ela estava mais linda do que nunca. Deslumbrante.

– Quase me acabo de tanto defecar – disse-me, rindo. Tínhamos intimidade para dizer o que quiséssemos.

– Gislaine, a prisão de ventre era provocada pelo apego, que guardava não somente fezes, mas também tudo aquilo que não tem mais utilidade para você, ou que você esteja guardando para uma ocasião fantasiosa, que jamais ocorrerá. E da mesma forma que um quarto pode guardar trastes a vida toda, também o intestino grosso pode reter fezes vida afora, que vão ficando cada vez mais putrefatas e contaminando, aos poucos, todo o organismo. Num plano mais sutil, o apego também vai sufocando suas vítimas, que se tornam, sem se aperceberem disso, escravas da luxúria – disse-lhe. Ela estava atenta. – Agora que você se libertou dos trastes a criatividade vai voltar a fluir, e dos seus lábios surgirão mais rosas, mais jardins, mais perfumes azuis sangrando – declamei, parafraseando um poema de Gislaine: De tão azul, sangra!

Ela riu com gosto, feliz.

– Impressionante! Hoje, no café, comuniquei ao meu marido que viria ao seu consultório e sabe o que ele me disse?, mandou lembranças! Normalmente teria me proibido de vir aqui, até porque, como você sabe, o ciúme dele aumenta quando homens charmosos como você se aproximam de mim – ela comentou, rindo. – Vamos para a maca? – propôs, despindo-se do vestido. Já havia visto seu corpo no Iate Clube, mas ali, de sapatos altos e com aquele batom vermelho nos lábios sensuais, e de sutiã e calcinha, era, literalmente, de parar o trânsito. E podia-se dizer que deu mesmo mole para mim.

“Acupuntura como pretexto para a luxúria não pode redundar em boa coisa; gerará aquele tipo de equilíbrio à beira do abismo” – pensei, abrindo um saquinho de agulhas. Um professor, na ENAc, me transmitiu um princípio que adotei não somente como terapeuta, mas em todas as circunstâncias da vida: jamais acumplicie-se com a corrupção. 


Brasília, 29 de outubro de 2014

terça-feira, 26 de novembro de 2013

CONTO/Mulher na chuva

O tronco da mangueira parecia excessivamente grosso, visto de longe, na agonia da tarde; era alguém que estava abraçado nele. Trajava-se com um vestido de seda, longo, estampado com rosas colombianas vermelhas, em pinceladas que eram puro Paul Gauguin. Seus lábios, pintados também de vermelho, poderia ser uma daquelas rosas que alguém, de tanto beijar, sangrou. O que mais chamava atenção na jovem que abraçava-se à mangueira eram seus olhos, negros, grandes e misteriosos como mulher nua, que, de repente, emerge das águas do mar. As partes à mostra da sua pele – no estertor da tarde, quando é possível ouvir-se a tarde morrer, seguindo-se o riso feminino da noite – flutuavam, como escultura de marfim, no anoitecer. Seus cabelos cobriam-na como um véu, com vida própria, esvoaçando levemente à aragem, que prenunciava chuva. Ela meneou a cabeça; seu nariz era gracioso, quase teimoso. Desgrudou-se um pouco da árvore e virou-se para frente, e os seios, pequenos e rijos, quase escapuliram da prisão. Voltou-se novamente e ficou na posição anterior. Seus quadris abaulavam-se, a partir da fina cintura e mergulhavam no mistério. Ela estava ali já fazia algum tempo, recarregando o que chamava de Qi (pronuncia-se "ti"), que quer dizer, em mandarim, algo como energia. Ela era jovem. Tinha vinte e poucos anos, mas continha toda a experiência do mar, por isso seu olhar era tão intenso, e inacessível, e os poetas, ao se sentirem atraídos por aquele olhar, sentiam a vertigem dos primeiros beijos, sabedores de que se tratava apenas de delírio. Fora casada com um cadete da Academia Militar das Agulhas Negras, mas aquele tipo de mulher, completamente linda, por dentro e por fora, como rosa nua, só pode ser feliz com um mago poderoso, que a leve ao cume do Pico da Neblina.

– Ava! – ouviu-se. Alguém, uma mulher, a chamava. Ela não se moveu. A mangueira era grande, como as que povoam o centro de Belém do Pará. – Ava! – gritaram de novo, e a voz perdeu-se no anoitecer.

Fora um duro dia de trabalho, e no fim do dia atendera um vampiro. Ava não sabia que se tratava de um vampiro, pois na sua mente só havia jardins, muitos jardins, inúmeros jardins. Quando ela ampliou os olhos do velho, sob a lente – um velho acabado, murcho como maracujá seco –, identificou uma ventosa chupando luz, e sentiu-se tonta. Os vampiros, na verdade, não são como o de Bram Stocker; são chupadores de Qi, de luz, e quando encontram uma jovem lindíssima, procuram sugar desesperadamente sua energia, tanto que vão embora lentos, como carapanãs após a bacanal. Por isso Ava estava ali, abraçada à mangueira. Abraçava-se sempre a uma árvore quando sentia-se exaurida.

– Ava Nogueira! – gritaram de novo, agora com sobrenome.

Já era noite quando a chuva engrossou; então, Ava desgrudou-se do tronco da mangueira e correu para a chuva. Logo seu vestido ficou totalmente molhado, e suas curvas, curvas que somente a música pode fazer, revelaram-se em toda a sua oceânica beleza. Relâmpagos estalaram. Ouviu-se trovejar, mas Ava já estava na varanda da casa, abrigada numa felpuda toalha, alva como sua pele, que sua mãe lhe levara. E o Lago Sul se encolheu sob o dilúvio.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O ponto azul

A noite se avizinhava na 201 Sul, e ia chover. Havia poucas pessoas no Restaurante e Café Monardo. Na mesa mais ao fundo, dois homens conversavam. Um deles era jovem, tinha em torno de 40 anos, e o outro, de cabelos completamente brancos e a pele do rosto começando a engelhar, aparentava ter 70 anos, por aí assim.

– Ela me pôs a nocaute – disse o velho. Na verdade, ele tinha 80 anos, mas era vigoroso e seco. Seus olhos, vivos como duas esmeraldas, estavam claros, quase sem clorofila.

– Meu caro Picasso, ela só tem 29 aninhos; ainda não é nem sequer balzaquiana – respondeu o tipo mais jovem, com sua voz de tenor.

– A questão não é essa, a questão é que eu nunca deixei de ser um garoto carente, e ela abriu a porta.

– Como assim abriu a porta? Só porque deu atenção a você? – volveu o de meia idade, carioca, já acostumado com Brasília.

– Ela me enfeitiçou quando disse que tem a alma da natureza, e que é como o mar. Aquilo foi lá no fundo, como um maremoto, sepultando-me no abismo, até que, sem fôlego, puxei oxigênio daquela boca de rosa esmigalhada, e fui salvo pelos seus olhos egípcios. Mas compreendi que ela estava apenas confiando a mim sua alma, certa de que eu não tentaria entrar no seu santuário. Não paro de pensar nela.

– Cara, acho que vou fortalecer seu pericárdio e seu baço.

– Como assim? – o velho perguntou. Estava bebendo Lacrima Crhisti. O outro degustava Bohemia enevoada.

– O pericárdio protege o coração das invasões azuis e o baço remói as lembranças mortais, como, por exemplo, o cataclismo dos primeiros beijos – disse o de meia idade, que era acupunturista de mão cheia.

– Não quero travar nada que se dirija ao meu coração, nem ao meu baço; pelo contrário, se você souber de um ponto que funcione como a pílula azul, espete-o, para que eu delire pronunciando o nome dela: Ava! Ava! Ava!

– Se eu soubesse de um ponto assim já teria comprado um Girassóis, de Van Gogh – disse o de meia idade. – Tenho um paciente, que, na verdade, o problema não está nele, mas na mulher dele. Ele me contou que sua mulher é todinha uma vaca, perscrutando-o. Ele é o capim e ela o mastiga, mastiga, engole-o, regurgita-o e volta a mastigá-lo. E como ela é quem paga as contas, ele vai pegá-la no salão e a espera, às vezes, uma hora antes de ela sair, e ele fica pasmo porque as mulheres falam todas ao mesmo tempo e todas entendem o que as outras dizem. Ele costuma dizer que Freud mudaria de profissão naquele salão, ou simplesmente tendo sua mulher como paciente. Se eu soubesse desse tal ponto azul, já teria dado um jeito nesse cara, e ele comeria a vaca dele todas as noite, ou o tempo todo.

– Não, o que eu quero é ter uma ereção poética – disse o velho, que era pintor. – Vou desnudá-la em uma tela, vou colocar o mar inteirinho naqueles olhos enormes, rasgados e negros, vou fazer aquela boca de rosa esmigalhada exalar néctar, e, do seu corpo, o perfume das virgens. – O velho desenhou-a num guardanapo. De fato, Ava era completamente linda.

– Cara, esquece-a – o outro aconselhou o mais velho. Conheciam-se há bastante tempo, e o acupunturista, que era rico e aficionado por pintura, já tirara o velho de diversos apuros, pois o considerava um gênio. Sentia-se responsável pelo sofrimento do amigo, pois apresentara Ava a ele.

O velho percebeu sua aflição.

– Você não entende: não quero assepsia, quero inflamar-me dessa infecção, que essa infecção vá até meu tutano; isso vai resultar numa série de quadros e desenhos, tudo Ava.

– Sejamos realistas, ela não vai dar a mínima a você, nunca.

– Já deu. Quando disse que é o próprio mar, disse tudo. Sei que ninguém pode possuir o mar, mas acontece que já sei o azul que vou utilizar quando pintá-la.

– Mas ela deu esperança de posar para você?

– Não, e nem será preciso. Já tenho tudo o que preciso.

– Grande Picasso! – o de meia idade exclamou, com pena do seu velho amigo. – Estou me sentindo meio cansado; vou ver uma comédia quando chegar a casa, Carga Explosiva III.

– Você já viu todas essas porcarias?

– Só Carga Explosiva II, por acaso, na televisão.

– E agora alugou Carga Explosiva III?

– Sim; não havia o I.

– Eu ainda vou demorar-me para ir pra casa. O porteiro do meu prédio é jovem, mas está caindo aos pedaços, e isso me deprime.

– E quando a tela vai ficar pronta?

– A dos pombos?

– Sim.

– Estou trabalhando nela. Os pombos estão catando comida no asfalto, entre os carros, arriscando-se a morrer esmigalhados, apenas se desviam das rodas dos carros e continuam catando comida, apesar de ter asas. Se eu tivesse asas, voaria para dentro do mar – disse o velho, sonhando com uma manhã de ressaca, em Copacabana.

Já estava sozinho quando Antonello Monardo chegou. Gostava de conversar com o italiano. Logo depois a chuva rebentou, com a mesma força com que na alma do velho escorria sal, azul como rubi.


Brasília, 1 de novembro de 2013

domingo, 29 de setembro de 2013

CONTO/Sábado

O Potiguar Caldos, no Sudoeste, estava lotado naquela noite de sábado, como, aliás, era de praxe. Quem se voltasse para o estacionamento podia ver, no outro lado da Rua das Jaqueiras, os prédios do Cruzeiro Novo. Um casal acabou de chegar, atravessou entre as mesas, e até as mulheres se viraram para ver mais um pouco a beldade. Era uma adolescente de mais ou menos 17 anos, ruiva, olhos verdes, longilínea, de pernas torneadas, tipo potranca, em vaporoso vestido de seda rosa. Parecia flutuar. O rapaz era maciço e ao menor movimento seus músculos saltavam; era também muito bonito. O garçom os guiou até uma mesa que acabara de ser preparada.

Ao lado, havia um casal ocupando duas mesas juntas, uma das quais continha um fogareiro com a chapa cheia de maminha com queijo e batata frita, uma terrina com mandioca e toda sorte de acompanhamentos. A mulher era pequena, loira e graciosa, e ele, grande, lembrava uma fêmea de búfalo albino, grávida. Sua camisa estava metida na calça e os botões quase saltavam à pressão da volumosa gordura querendo libertar-se. Conversavam. Ele se debruçara sobre o prato e entre uma palavra e outra enfiava na bocarra grandes garfadas. Ela comia devagar e aos pouquinhos, olhando-o e falando sempre, graciosa como toda mulher.

Quatro jovens, quase garotos, ocupavam a mesa que fazia um triângulo com os dois casais; eram três moças e um rapaz e estavam comendo sanduíches com suco, cada qual de olho no seu telefone celular de última geração, admirando, simultaneamente, a nova tatuagem da moça de pele leitosa e vestida de negro. A tatuagem fora aplicada recentemente e estava envolta numa espécie de plástico, como um curativo transparente.

Vocês não vão acreditar: o boliviano que me tatuou é famoso e nunca veio ao Brasil; ontem, soube que ele estava em Brasília e fui ao hotel onde ficou hospedado. Cara, nem acreditei quando ele terminou – disse a tatuada.

– Quem é o tio que ele tatuou – o rapaz quis saber.

– Che Guevara – disse a moça. – Você não sabe quem é Che Guevara?

– Ouvi dizer que é um carniceiro que ajudou Fidel Castro a foder com Cuba. É isso? – volveu o rapaz. As outras duas moças perderam o interesse pela tatuagem e pela conversa e estavam de olho nos seus celulares, mastigando lentamente seus sanduíches e bebendo golinhos do suco.

– Oh! Não! Veio! Esse cara é aquele do filme de Walter Salles! – a tatuada defendeu-se.

– Humm! Quando é que vocês vão parar com esse papo-cabeça? – perguntou a bela morena de olhos azuis, desgrudando-se, um instante, do seu celular.

– Acho que você foi enganada por esse boliviano; deve ser um tio brega... – disse o rapaz. – Se fosse eu, preferiria uma folha de jambu.

– Folha de quê? – perguntou a terceira moça, uma negra tão linda quanto a ruiva que acabara de passar.

– De jambu – disse o rapaz. – Meu pai é de Belém do Pará e ele já me mostrou uma folha de jambu; ele me explicou que jambu é uma síntese da Amazônia e que a Amazônia é como se fosse uma realidade dentro da realidade. Não entendi muito bem, mas senti que é alguma coisa mágica.

– Você anda fumando muita maconha – disse a morena de olhos azuis, baixando a voz.

O búfalo se levantou; em pé, lembrava um gorila branco. Sua esposa também se levantou. Era pequena e graciosa, daquele tipo que temos vontade de pôr inteira na boca. Ele sequer empurrou sua cadeira, quanto mais a dela. Saiu palitando os dentes e dando pequenos arrotos. Ela parecia não prestar atenção às grosserias do elefante. Ele pôs uma pata sobre os ombros da esposa e se foram rumo ao estacionamento. As três moças e o rapaz não se deram conta da saída do casal anômalo; desinteressaram-se completamente pela tatuagem e se voltaram para seus celulares. No braço da moça tatuada, branco como leite, a tatuagem saltava aos olhos como um grande ferimento colorido. A noite, ali, alcançara um momento de pico, e mais pessoas chegaram. O casal belíssimo encontrava-se a meio caminho de terminar a refeição e o fogareiro com carne de sol estava pela metade. A moça ruiva parecia flutuar dentro do seu próprio perfume. No âmbito do seu entorno, não houve quem não a olhasse, mesmo que fosse um olhar inconsciente. Um velho, enrugado como maracujá de gaveta, e sozinho, mirava-a do seu posto, uma mesa na beira da calçada, quase caindo no meio-fio. É provável que só ele visse um fio de luz saindo da moça e se espalhando ao redor. “Ela é linda porque é jovem e é a manifestação física de energia fina” – pensou o velho, que desmontava um tucunaré frito como quem desmonta um relógio, olhava de vez em quando para a ruiva e suspirava. Os quatro jovens terminaram seus sanduíches e de um momento para outro sumiram. Pouco depois desceram do carro no estacionamento do bloco da moça leitosa, no Cruzeiro Novo, procuraram um lugar escuro e acenderam o baseado.

Não demorou para que o rapaz musculoso e a jovem ruiva terminassem e saíssem. Ela era tão linda que todos se voltavam para si e a acompanhavam até a perderem de vista; por isso, um velhote levou um beliscão dolorido da megera que o mantinha sob cerrada vigilância.

– Vamos para casa – disse a moça ruiva.

– Sim, vamos, minha irmã – o rapaz respondeu.

Naquele momento, a loira pequena acabara de montar o monstro. A barriga dele luzia à claridade mortiça do abajur. Ela começou a cavalgar e a gemer, até começar a gritar. Ele soltou um urro medonho. Depois, o abajur foi desligado, e o silêncio desabou como a escuridão.


BRASÍLIA, 29 DE SETEMBRO DE 2013

sábado, 30 de março de 2013

CONTO/Vila Belzebu

O ônibus estava bastante cheio. O motorista ia correndo um bocado e freou bruscamente quando Mutreta deu o sinal. Uma anta veio voando lá detrás e deu uma chifrada num bebê que só estava chupando o dedo. O bebê começou a chorar e levou uma bofetada.
 
– Cala a boca, assassino! – disse-lhe a mãe dele, repreendendo-o severamente.
 
Pipira, o pai, conseguiu se apoiar na muleta de um saci pererê.
 
Como o ônibus já estava muito lotado, o casal que ia saltar jogou os três garotinhos, seus filhos, pela janela. Um deles caiu de mau jeito e já ia para baixo das rodas de uma escavadeira Caterpilar quando um soldado da PM o puxou pelas pernas, tornando-se um herói.
 
Um pretão de três metros quis tirar um sarro com uma anã e foi atingido com um golpe baixo. Um sujeito com mania de cavalo ia relinchando, mas foi posto para fora com um pontapé na parte esquerda do beiço inferior. O motorista estava com muito ódio de um sujeito que puxou a caneta para anotar a placa do carro, a fim de “posteriormente”, conforme explicou para um vizinho, “queixar-se nos ditames da lei no departamento cabível”.
 
– Tu és um sem vergonha, seu cretino desavergonhado e purulento. Não sei onde estou que não paro este ônibus, boto todo mundo pra fora e pronto. Ainda te dou uma surra só com meu par de meias, cujo fedor nem hiena aguenta.
 
O sujeito que puxou a caneta estava visivelmente com medo da barbaridade do motorista.
 
– Basta a gente olhar para a tua cara, cabra safado, para se ver que a vergonha em ti já foi lambida. Tu estás pensado que é só puxar uma caneta e anotar a chapa, é?
 
– Vê se tu paras na tua casa; quero conversar com a tua mãe! – gritou alguém lá do meio do coletivo.
 
– Se esse insulto partisse de ti, sujeitinho descarado – disse o motorista para o incauto escrevinhador –, eu te poria os dedos dos pés nessa tua cara insossa. Tu herdaste essa cretinice da tua mãe?
 
O outro, acovardado e humilhado, pediu pra saltar, mas, num gesto inesperado de heroísmo, fincou a caneta no alto da cabeça do motorista. Ao ver o sangue, o chofer começou a sentir vertigens, até que apareceu uma gueixa com um leque do tamanho de um guarda-sol e começou a abanar o gajo. Ele se recompôs e zarpou.
 
Nessas alturas começou a trovejar e caiu um baita aguaceiro, que logo encharcou a Margarida. Ela fechou mais que rapidamente a janela, mas quando viu a janela foi aberta de novo. Ela tornou a fechá-la, mas novamente a janela foi aberta. Então Margarida olhou para trás e viu um sujeito com dois fundos de garrafa na cara abrindo a janela da moça.
 
– Primeiro vou te arrancar dos olhos esses dois telescópios, depois quebro eles e te corto os dedos mindinhos. A seguir, tiro meus sapatos altos e te dou com o salto de ferro só nos lóbulos das orelhas e no osso do nariz.
 
O rapaz, todo ensanguentado, explicou que não enxergara direito a janela, que só tinha uma das vidraças.
 
– Meu Deus! Massacrei um intelectual por causa da janela deste ônibus – lamentou Margarida.
 
Foi nessa hora que jogaram uma pedra no olho do motorista. Ele perdeu a direção do carro e o ônibus brecou certo no fim da linha, na Vila Belzebu, onde o bicho já os esperava de garfo em punho.
 
 
Publicado na Tribuna do Brasil, em 1987, e no Inteligentsia, em setembro de 1994, ambos os jornais em Brasília

sexta-feira, 15 de março de 2013

CONTO/Eduardo Campos e a anta

Sabe quando amanhecemos com a sensação de que sonhamos, mas não lembramos bulhufas? Pois foi assim que amanheci, hoje. Já faz tempo que não sonho. Não sei se isso tem a ver com a idade, 68 anos. Moro na 711 Sul e vou para o trabalho de ônibus. Pego o circular e desço no Setor Comercial, defronte ao shopping Pátio Brasil, e faço, então, minha caminhada diária, seguindo até a Rodoviária do Plano Piloto, sempre em torno das 8 horas, quando há muita mulher bonita caminhando por ali, os cabelos ainda molhados; dá vontade de cheirá-los. Sou do tipo que não pode viver sem mulher. Estou no sexto casamento; minha esposa atual tem 30 anos e está com oito meses de grávida. Antes de tomar o ônibus para o Setor Gráfico, onde fica a revista semanal que eu comando, leio a capa dos jornais na banca de revistas da ala oeste do primeiro piso da Rodoviária. Sou viciado nisso. A Folha de São Paulo é quase sempre a melhor capa; muito bem diagramada, títulos e chamadas enxutos e em cima da ferida, sempre interpretando e se antecipando. Gosto do Estadão também. Talvez ainda seja o jornal que cubra mais amplamente o país. A capa de O Globo é sempre a que leio com carinho; acho o Rio de Janeiro, onde vivia, antes de vir para Brasília, a cidade de todos os brasileiros, e O Globo traz sempre várias páginas sobre o dia a dia da Maravilhosa. O Correio Braziliense tem batido forte no PTMDB, o consórcio entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Trabalhei no Correio na época do Oliveira Bastos e Walmir Botelho. Foi um momento de ouro; até Gláuber Rocha andava por lá. Já O Povo, de Goiânia, é apenas um jornal familiar. A banca não expõe publicações do Nordeste, minha terra natal. Sou de Cascavel, no paradisíaco litoral do Ceará, para onde me mando sempre que possível.
 
Na parada defronte ao Palácio do Buriti entrou uma senhora com um guarda chuva em riste, o motorista acelerou, largando uma nuvem de fuligem, e a senhora veio para cima de mim com a lança; só deu tempo de desviar a ponta para o chão. Sou aiquidoca. Não sei por que, lembrei-me do Chifrudo. Segundo andei pesquisando na Wikipédia, o Chifrudo se chama Monumento Solarius. É um monstrengo de 16 metros de altura, de autoria do francês Ange Falchi, fincado na margem leste da BR-040, à esquerda de quem segue do Distrito Federal para Goiás. O monumento veio de Nice, transportado em sete blocos de aço e ferro, doado pelo governo francês a Juscelino Kubitschek e inaugurado em 26 de novembro de 1967, numa homenagem à construção de Brasília, simbolizando a ocupação territorial do DF. “O símbolo do pioneiro indômito, que conquistou a região agreste e pungente do Planalto Central” – segundo a Wikipédia, é feio como o diabo. Bom, por trás do Chifrudo uma estrada vicinal dá acesso ao córrego Saia Velha, onde há um restaurante bastante agradável.
 
Os ônibus de Brasília são sucatas imundas, e podem se desintegrar no percurso. Quando chegávamos à parada da Câmara Legislativa, a roda dianteira esquerda do ônibus voou e pegou um automóvel, afundando a porta traseira. Se fosse a roda direita, teria matado, ou avariado bastante, alguém na calçada. Sorte também que o motorista foi hábil. Ele desceu e enquanto tratava com o motorista do automóvel atingido, o trocador reuniu os passageiros para aguardarem outro carro; um sujeito estava exaltado e queria tocar fogo no ônibus, mas antes que ele acendesse o isqueiro veio outro coletivo da linha e embarcaram nele. Preferi caminhar até a revista, a uma quadra dali. Quando cheguei, Sara, minha secretária, levou-me café e ligou a televisão, sintonizada na TV Globo. Estava passando uma matéria com Eduardo Campos, presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro) e governador de Pernambuco. Então me lembrei do sonho: eu estava no Quênia, caçando com Ernest Hemingway; de repente víamos um guerreiro masai partir com a lança em riste em direção a um leão, no cerrado, mas não era leão, e sim uma anta, e o guerreiro era Eduardo Campos. A anta, bem, talvez o jornalista Diogo Mainardi saiba de quem se trata; afinal, ele se especializou em tapirídeos.
 
“Se os tucanos continuarem a arrancar as penas uns dos outros, vão tomar na cloaca” – pensei. 
 
 
Brasília, 13 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

CONTO/Vaga-lumes piscando no cerrado

Não havia movimento algum no café, exceto pelo homem, já com certa idade, sentado à mesa junto à vidraça, de modo que podia descortinar o corredor, lá fora. Bebericava um espresso, soprando o café o chupando-o aos pouquinhos. Era quase que completamente calvo e deixara a parte cabeluda crescer, parecendo uma moita em meia lua. Tinha as mãos grandes e peludas, sólidas, como todo o resto do corpo. Terminou o café e ficou fazendo que lia a quarta capa do primeiro caderno do Correio Braziliense, de modo que quem chegasse visse a capa do jornal. Precisamente às 9h59 chegou outro sujeito e se dirigiu para a mesa ocupada pelo homem calvo, que o vira ainda no corredor e olhara para seu relógio.

– Você toma um cafezinho? – o calvo perguntou.

– Sim – disse o outro.

O calvo fez sinal para a garçonete e pediu mais um espresso.

– R$ 100 mil; metade agora e a outra metade quando meu cliente souber que o velho viajou – o calvo disse, baixinho.

– Combinado – o outro respondeu. Era alto e magro, usava chapéu de feltro de abas curtas e seus olhos eram pretos e mortiços.

– Quando eu entregar a outra metade, depois do negócio feito, você vai sumir de Brasília – disse o sujeito calvo, sempre baixinho.

– Já estou com passagem comprada para viajar hoje à noite mesmo pro Recife.

– Esta pasta aqui contém R$ 50 mil, o endereço do spa onde o velho está, foto, instruções sobre como chegar a ele e pentobarbital. Não falhe!

– Nunca falhei – disse o outro, secamente.

Ainda conversaram um pouco, até entrarem outros fregueses. Só então saíram. O homem atarracado se dirigiu para o oitavo andar da Business Center Tower, do Centro Empresarial Brasil 21, no Setor Hoteleiro Sul, a poucos passos da cafeteria. Na recepção, identificou-se como Carlos e ficou esperando. Logo depois foi introduzido a uma sala de reunião, onde aguardou cerca de meia hora, ao cabo da qual um homem ainda jovem entrou na sala. Trajava-se de terno azul marinho de algodão, bem cortado. Seus cabelos, negros, eram sedosos e bem penteados.

– Tudo certo – disse o sujeito calvo.

– Já fiz o depósito – o outro respondeu.

– Ele vai lá dez minutos do fim do horário de visita – volveu o calvo. O outro assentiu com os olhos, castanhos, com o mesmo tom mortiço dos olhos do sujeito calvo e do matador.

“Nunca mais esse filho da puta vai desligar a televisão e me mandar estudar, nem me pôr de castigo, nem suspender minha mesada, nem impedir que eu faça retiradas, e muito menos irá ao cartório colocar uma aliança na quenga” – pensou o homem jovem, esfregando a mão e imaginando tudo o que poderia fazer com o patrimônio avaliado em R$ 10 milhões.

No dia seguinte, uma nota no Correio Braziliense informava o passamento do empresário, membro do Clube dos Pioneiros. Causa mortis: colapso cardíaco.

Na noite anterior, logo que soube da morte de um hóspede, a proprietária do spa, Mariza Pereira, delegada aposentada da Polícia Civil, chamou seu amigo, o delegado Gabriel Silva, da Homicídios.

– Não deixe tocarem em nada; vou providenciar a necropsia do cadáver. Também vou fazer uma varredura na vida do filho único do pioneiro aqui – disse o delegado.

– Vamos tomar café na minha sala – propôs a elegante dona do spa, meneando a cabeça para ajeitar a bela juba dourada. Era uma louraça madura; uma cirurgia plástica cingira-lhe leve e constante sorriso, quase imperceptível, como o de Mona Lisa.

– Essa história está cheia de furos – o delegado murmurou. “Se foi mesmo aquele playboyzinho, ele vai gastar o dinheiro da herança com advogados e carcereiros corruptos” – pensou, aspirando o aroma do Illy, tirado na pequena máquina. Pela vidraça, podia-se descortinar, ao longe, a miríade de luzes do Lago Sul, como vaga-lumes piscando no cerrado.


Brasília, 1 de março de 2013

segunda-feira, 2 de julho de 2012

CONTO/Café Espresso

O Entorno de Brasília lhe lembrava, naquele ano, a floresta do sudeste do estado do Pará, devastada, desolada, degradada, enfumaçada, pontilhada de caieiras que alimentavam usinas metalúrgicas clandestinas, espalhadas naquela paisagem de pós-guerra. A umidade relativa do ar caíra para 4%, e o Planalto tremeluzia em chamas. O dia fora sufocante, mas chegara o momento da transição entre a tarde e a noite, instante de trégua, portal que se abre durante um brevíssimo lapso, mas que dá acesso para a eternidade. Era agosto, terça-feira 7, lua cheia. O inverno ia ao meio. A noite caiu como uma bofetada, e também a temperatura, que desabou para 14 graus.

A redação da revista Brasília Agora ficava no quinto andar do Conjunto Nacional, shopping não distante do Setor Hoteleiro Sul, aonde, às quintas-feiras, Honorato costumava incursionar, terminando quase sempre no Jazz Club do Churchill Lounge Bar, no Hotel Meliá Brasil 21. Estava fechando a edição de agosto, naquela terça-feira. A publicação circulava geralmente em meados do mês. Tomou o elevador e se dirigiu para o Café Kopenhagen, defronte à Livraria Saraiva, no segundo piso. O Café Kopenhagen era o melhor mirante do shopping, de onde, confortavelmente instalado em cadeiras de vime (palhinha, como se dizia em Belém, sua cidade natal), podia-se apreciar o desfile das mulheres, uma mais linda do que a outra, que surgiam por ali como de uma mina de rubi. Alexandre o aguardava. Apertou a mão dele e foi diretamente ao balcão pedir os dois espressos curtos de sempre. Alexandre era publicitário freelance e artista plástico.
- Rapaz, tu estás só pele e osso; precisas tirar férias, de tudo – disse Honorato.
- Não estou conseguindo concluir meu trabalho para a próxima exposição na Laura Alvim, no próximo mês. Tenho que expor 21 telas. É o contrato. Mas não consigo terminar as sete que estão faltando. A Frênia é como uma toxina; estou viciado nela – Alexandre se lamentou.
- Tu precisas te desintoxicar, do contrário só restará teu corpo astral vagando por aí.
- Ontem, eu estava trabalhando quando ela telefonou para eu ir à casa dela. Fui, e não voltei mais para o ateliê. Foi pau rosa até a noite.
- Sempre tiveste vontade de conhecer a Amazônia. Pois bem, sou amicíssimo do dono de uma pousada em Soure, na ilha de Marajó, no Pará. É um lugar paradisíaco, exatamente o que os europeus chamam de realismo fantástico. Trata-se da maior ilha fluviomarinha do mundo, do tamanho de Portugal. Fica no meio do que eu chamo de Mundo das Águas: entre o maior rio do planeta, o Amazonas, a noroeste; o rio Pará, ao sul; o rio Tocantins, a sudeste; e o oceano Atlântico, a nordeste. A Linha Imaginária do Equador corta a ilha Mexiana, ao norte de Marajó, separadas pelo Canal do Sul do Amazonas. É indescritível. Uma semana longe de tudo vai te fazer recarregar as baterias da criação e te pôr no foco de novo.
- Ela ia querer ir comigo – disse Alexandre.
- Bem, tens que escolher entre a compulsão e o prazer permanente; só este traz paz de espírito. A compulsão é apenas algo físico, e, como se diz no budismo, o mundo físico é sombra da mente. Damos muito valor ao sexo, porém o sexo é físico, e o corpo, como tudo o que é material, se transforma constantemente. Em 15 anos, todas as nossas células são substituídas. Fisicamente, mudamos o tempo todo, até que termina o tempo útil do corpo e ele se desintegra, quando a vida se retira dele e vai para a sua dimensão, a eternidade – Honorato discursou.
- Então não é o caso de aproveitarmos bem enquanto somos jovens e buscarmos o prazer? – Alexandre perguntou, sorrindo.
- Isso é uma escolha, e há dois caminhos a tomar: o da angústia, advinda da compulsão; e o da paz de espírito, fruto da tarefa cumprida. Neste caso, tudo o que nos é dado, além da alegria, o é por acréscimo, e isso pode ser uma mulher magnífica – Honorato respondeu.
- Honorato, eu não saberia viver senão numa velocidade astronômica – disse Alexandre.
- Assim és, se assim pensas. Somos o que pensamos – disse Honorato. – Mas creio que o corpo é apenas o principal instrumento por meio do qual o espírito evolui, a fim de conseguir entrar, plenamente, na sua própria dimensão, que é o mundo espiritual, e o apego é sua maior prova. Penso que devemos apreciar, sim, o maravilhoso mistério feminino, mas somente quando isso nos é dado por acréscimo.
- O fato é que a combinação Honorato/café espresso me faz bem; tu darias um ótimo psicólogo – disse Alexandre, que era carioca e, como Honorato, flexionava o tu lisboeta com a mesma graça com que o jornalista se expressava, com o chiado comum dos cariocas e belenenses.
- Acho que bater papo é algo que causa grande prazer a nós dois, pois temos muita coisa em comum; quanto ao café, com efeito, ele leva à produção de dopamina e ao disparo de sinapses, além de compor-se de mais de duas mil substâncias benéficas ao nosso corpo. O espresso curto contém todas essas substâncias. Mas acho que eu não seria, de modo algum, psicólogo. Qualquer profissão exige trabalho focado, e meu foco é jornalismo. Utilizo minha percepção de mundo para apresentar aos leitores de Brasília Agora a cidade como ela é, hoje: metrópole, não mais quintal de São Paulo, e que oferece tudo o que procuramos – disse Honorato.
- Nem tudo. Tu sabes muito bem que qualquer artista que não é profissional tem que morar, pelo menos durante certo tempo, no Rio de Janeiro ou em São Paulo – disse Alexandre.
- Nisso tens razão, inclusive penso, às vezes: o que o Alexandre faz em Brasília? Acho que teu lugar é no Rio.
- É nisso que eu venho pensando também, mas a Frênia é funcionária do Senado, e o dinheiro que eu ganho é esporádico. Às vezes, ganho muito dinheiro, mas posso passar bastante tempo sem grana... ela chegou! – quase gritou Alexandre.
Frênia surgiu da ala sul. Caminhava como modelo na passarela, os longos cabelos ruivos esvoaçantes, os seios empinados, selada, as ancas opulentas, as pernas bem torneadas, o mesmo bocão da atriz Aline de Moraes, e olhos de clorofila.
- Olá, cavalheiros - gorjeou. – Eu também quero café - ela se sentou e fitou o jornalista, sorrindo.
“O protótipo da predadora. Mas a predadora só se estabelece quando há oportunidade” – pensou o jornalista.
Alexandre fora pedir mais café.
- O Alexandre é fascinado por você – disse Frênia. Exalava Chanel número 5.
Alexandre retornou carregando uma bandeja com três espressos curtos, sentou-se e pôs-se a explicar à Frênia a possibilidade de passar uma semana na ilha de Marajó, sem perceber o que estava ocorrendo. O velho jornalista sentiu o mesmo terremoto do primeiro beijo, numa manhã de julho, em Salinas, na costa paraense, quando Frênia pegou na sua coxa. Ela estava dizendo que Alexandre deveria ir, sim, à ilha de Marajó, que ela lhe dava todo o apoio, que isso seria importante para ele recarregar suas baterias da criatividade e concluir o trabalho para a exposição, e que suportaria sua ausência com estoicismo. Dizia isso e apertava a coxa do jornalista.
- Preciso subir – disse Honorato.
- Então, amanhã de manhã vamos conversar para acertar minha ida à Soure – disse Alexandre.
O Conjunto Nacional bombava. Honorato tomou o elevador e pouco depois entrou na redação de Brasília Agora. Ainda se sentia trêmulo. Sentou-se à mesa, procurou acomodar-se na cadeira, buscando conforto, e ligou o rádio, que já estava sintonizado na Super Rádio Brasília FM. Ouviu-se o Concerto para piano e orquestra, em ré menor, de Mozart. A música fluía como o pulsar do sangue no ouvido, tênue vibração, o azul que vai tomando conta da tarde, até se transformar em noite. Fechou os olhos e começou a respirar cadenciadamente, procurando não pensar em nada. Permaneceu assim uns cinco minutos. Abriu os olhos, tirou do bolso do paletó o cartão que Frênia colocara ali, rasgou-o, jogou-o na lixeira e voltou ao trabalho.

Brasília, 23 de abril de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

CONTO/A tarde


O tempo adormecia, morno, em Adrianópolis. Um vulto branco, desfocado, tornou-se o vestido de uma criada no labirinto de sebes erguendo-se do lençol de grama, aparado como cabelo recém cortado. Surgiu uma mulher, que foi se sentar à mesa em que a criada servira o chá. Seus olhos eram ligeiramente estrábicos; os lábios, quase indecentes, e tinha nariz arrebitado. Esperava alguém, e supunha ouvir rumores. Movia vivamente a cabeça e, no balé, os cabelos descobriam uma joia cintilando, a tremer junto ao pescoço. Uma folha desgarrou-se, o vento levou-a, caiu na mesa, Tharcilla apanhou-a e brincou com ela. A tarde era silenciosa naquele bairro de Manaus. A criada foi avisá-la de que Al a esperava. Correu. No quarto, flutuava tênue perfume. Al tocou-a. Ela respirou ofegante. Beijaram-se e o rapaz ficou muito excitado. Era uma mulher bonita demais para ele. Desprendeu-se de Al e se despiu. Depois deitou-se na cama. O púbis, negro, contrastava com o regaço de Tharcilla, que chupava, absorta, um dedo. Fez um leve movimento com as coxas e colocou mais um dedo na boca, agarrando com a outra mão os cabelos de Al, que bebia sua calidez, as mãos imobilizando-a nos quadris, explorando-a até deter-se nos seios palpitantes, ela arfando a se lamentar de prazer. Ingressara num mundo onde as cores se confundem e as palavras se perdem nos murmúrios da tarde. 

A tarde foi publicado no livro A grande farra, edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

sábado, 28 de abril de 2012

CONTO/Luziânia

De dia, as margens da BR-040, entre Brasília e Luziânia (GO), era uma sucessão de cerrado pegando fogo e povoados imersos na fumaça e na poeira, num sono antigo, que, à noite, mergulhava no horror imposto pelos barões locais da droga. A sensação térmica era de 40 graus centígrados e a umidade relativa do ar, de 4%. Quase não se conseguia respirar. A temperatura era de 21 graus dentro do carro, uma caminhonete negra, Chevrolet, que cortava o distrito de Jardim Ingá rumo a Luziânia, sede do município, uma dessas cidadezinhas perdidas à sombra da miragem de Brasília. Iam dois homens no carro.

O caso é o seguinte: ele já deve ter uma fortuna de R$ 1 bilhão. Quer se eleger... e será eleito – disse o que ia ao volante. Era pequeno e pardo, tinha o nariz quebrado e seus olhos brilhavam como os de Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode.

O outro sujeito lembrava o Jeca Tatu de Mazzaropi, e estava sempre com as mãos suadas; parecia que estava morrendo, o tempo todo. Sentia raiva, e medo. Entraram pelo Parque Alvorada, subúrbio de Luziânia. A caminhonete estava encardida como os pombos que disputam restos na Pastelaria Viçosa, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília.

- Temos que ter cuidado com essa gente. São mafiosos – disse Jeca Tatu. Sua voz era todinha a do papagaio do programa da Ana Maria Braga, da TV Globo.

- Ele quer se eleger e podemos fazer a campanha dele pelo jornal e pela rádio - disse o do volante, seco e rijo como um peso pena. - Estavam passando pela Igreja do Rosário, em direção ao centro da cidade.

Quando chegaram ao restaurante, o tipo com voz de papagaio estava com a testa porejada, apesar da secura do tempo. A tarde já ia pelo meio e só havia meia dúzia de pessoas na casa, contando com eles. O pugilista foi falar com o dono do estabelecimento, de quem era conhecido, retornando pouco depois para a mesa. O garçom já havia servido água tônica com gelo e limão.

- Ele não vai demorar – disse o pugilista. – E a Mara? – perguntou ao homem com voz de papagaio.

- Mara? – respondeu o outro, estupidamente. – Estou puto com ela! – disse, enfezado.

O pugilista sabia alguma coisa.

- É inútil brigar com as mulheres – disse. – Nem Freud conseguiu entendê-las. Aliás, elas mesmas não se entendem. Para mantê-las nossas aliadas tudo o que temos a fazer é tratá-las como crianças, o tempo todo, excitá-las, comprar-lhes presentes caros, essas coisas.

- Acho que a melhor maneira de lidarmos com elas é fazendo-as sentir o peso da nossa mão – disse Jeca Tatu.

- Não penso assim. Obtive o esclarecimento definitivo sobre as mulheres vendo um documentário da BBC sobre répteis – disse o pugilista.

- Répteis? – perguntou Jeca, sem acreditar naquela conversa. Ambos eram velhos amigos da faculdade de direito, e Bode sempre fora acometido por aquelas conversas exóticas.

- Sim, répteis. Alguns lagartos, não me lembro mais se do norte da África, ou de alguma ilha do Mediterrâneo, procuram pedras para se aquecerem. Aqueles que conseguem as maiores têm que enfrentar rivais para não perder a pedra. Os vitoriosos ficam lá, ao sol, e de repente atraem um harém, fêmeas que vão se oferecer para ele. Com as mulheres é a mesma coisa, se você tiver a maior pedra ao sol elas se oferecem a você. No nosso caso, mamíferos racionais, a pedra pode ser um diamante. – O pugilista disse isso e ficou olhando para o sujeito com aspecto de capiau, embora trajasse roupas caras.

- Continuo achando que aquela vaca pensa que sou um touro – disse o tipo com jeito de caipira. – Para certas putas só chumbo quente mesmo.

- Você lhe dá flores, leva-a para dançar, faz carinho nela, quero dizer, antes de meter essa trolha nela? – o pugilista perguntou. Parecia conhecer muito bem seu parceiro para manter uma conversa dessas.

- Mulher gosta é de levar a seco – disse o outro, pedindo mais água tônica.

- Assim ela não sente prazer algum. A menos que você goste de estuprar. Isso é bom. Se você consegue se excitar num estupro, terá nervos para se manter sereno enquanto eu converso com o nosso mafioso. Ele quer se eleger deputado federal para poder lavar a grana que recolhe com o jogo de azar, lenocínio e droga – disse o pugilista. – De modo que o caso da Mara não deve turvar seu raciocínio, amigo.

O outro olhou para o pugilista.

- A Mara tem um amante. Um traficante. O sujeito me mandou um bilhete ameaçando matar a Samanta se eu não liberar a Mara – disse o capiau, com a voz mais parecida do que nunca com a do papagaio da Ana Maria Braga.

- Matar a Samanta? – quase gritou o outro. – Samanta era a esposa do capiau.

O pugilista sentiu que o papagaio estava se cagando de medo; ia dizer alguma coisa quando o candidato chegou. Era comerciante e fazendeiro e falava como o Cebolinha, do Maurício de Souza.

- Vou plecisar do jornal e da ládio de vocês – disse.

- Estamos em julho. Com R$ 1 milhão, elegemos você. A campanha fica toda por nossa conta: jornal, rádio e trio elétrico – disse o pugilista.

- E TV? – Cebolinha perguntou.

- Com TV aumenta o preço; vai para R$ 1,3 milhão – volveu o pugilista. – R$ 440 mil agora, R$ 430 mil em agosto e R$ 430 mil em setembro, se você estiver bem nas pesquisas.

- Então posso gastal R$ 870 mil sem galantia de que estalei bem em setemblo? – Cebolinha perguntou. Os cabelos dele lembravam também os de Cebolinha.

- Com o curral eleitoral que o senhor comprou no Instituto de Ação Social não há erro – disse o pugilista.

Papagaio não falou durante o tempo todo. Após 15 minutos de conversa direta e franca Cebolinha apertou a mão dos dois e saiu com os seguranças, que estavam à mesa mais próxima da saída. Nem bem Cebolinha saiu e dois sujeitos entraram no restaurante e anunciaram o assalto. Nessas alturas só estavam no recinto o pugilista, o papagaio e um casal. O mais alto dos dois assaltantes foi ao caixa e o limpou; o outro, baixinho, ficou à porta, de 38 na mão. O pugilista e o papagaio ficaram olhando para a mesa. Papagaio porejava e o pugilista podia sentir o fedor que ele exalava; lembrava o odor de flores mortas. O assaltante da porta estava visivelmente nervoso, olhando para a saída e para seu comparsa. O casal, que estivera conversando animadamente, virou uma estátua. Os olhos da moça estavam esbugalhados. O telefone celular do companheiro dela tocou, e ficou tocando até silenciar. O sujeito alto saiu de detrás do balcão com um saco cheio de dinheiro e se dirigiu para a porta. Chegou à porta e retornou, até à mesa onde estavam o pugilista e o capiau. Atirou sem mirar. O projétil da pistola 45 pegou Zeca Tatu no meio da testa. Os assaltante sumiram. A cabeça de Zeca Tatu tombou para trás e seus braços caíram ao lado da cadeira. Parecia que ele estava fazendo a sesta. 


Brasília, 25 de março de 2012

segunda-feira, 19 de março de 2012

CONTO/Buenos Aires

Sulistrowski conversava em polonês com alguém. Enquanto conversavam, Isaías tomava seu bom whisky, olhando através da vidraça o ar frio lá fora.

- Vamos embora – disse Sulistrowiski, a certa altura.

Isaías perdera-se no emaranhado da cidade. Tinha noção de que atravessara a zona portuária, por sobre um viaduto, e foram para uma parte desconhecida de Buenos Aires. E agora estavam chegando ao bairro das paraguaias – uma porção de casebres espalhados na escuridão. Pararam na frente de uma casa e saltaram do carro. Havia vários rapazes aquecendo-se em torno de uma fogueira. Isaías sentou-se por ali e Sulistrowski entrou na casa. Parecia que já estivera lá e conhecia a dona do negócio. Pouco depois Isaías olhou para dentro e viu uma prostituta sobre uma cama fornicando com um rapaz. Ela cantava para ele, com voz horrorosa. Assim que o rapaz saiu entrou outro, que ficou à espera de que a prostituta acabasse de se lavar. Logo a coisa se repetiu. Isaías ficou meio enjoado com aquilo, mas estava fazendo muito frio para se preocupar e tratou de se aquecer. Sulistrowski o chamou. Isaías entrou na casa com um misto de curiosidade e de repugnância. Sulistrowski, que conversava e ria com uma matrona, disse a Isaías que estava pago... A prostituta desabotoou-lhe a calça e o fez deitar-se por sobre ela, e pôs-se a cantar com a voz medonha.

Que venga outro – disse a prostituta, logo que Isaías deixou a dependência separada da sala por um pano.

O ar, lá fora, era vivificante.

- É assim que a gente fode na guerra – Sulistrowski disse, quando foram embora.

Dias depois nasceu o tumor. Então Isaías verificou que apanhara cancro mole.


Buenos Aires, do livro A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado)

quinta-feira, 15 de março de 2012

CONTO/Nostalgia

Queria andar. A cidade estava calma como sempre. Sentiu fome e entrou num restaurante suburbano. O garçom era um velho magro e acabrunhado, e pela janelinha de passar comida viu outro velho, gordo, a picar alguma coisa. O restaurante era sujo e malcheiroso. Isaías foi embora. Apanhou um táxi e pediu ao motorista que o levasse a um restaurante limpo e alegre. O restaurante Samurai era um prédio de dois andares, sujo e fedorento, quente e mal iluminado, barulhento, e os garçons lembravam urubus espreitando carniça. Saiu. Caminhou lentamente e encontrou uma zona de casas noturnas, mas nenhuma era como estava querendo. Até que topou com a luz que vinha de uma casa, cercada por uma sebe de cróton. Era amarela, recentemente pintada. Fora uma residência e agora era um bar, com tudo bem arrumado e limpo e bem iluminado. Sob a marquise, uma moça e dois rapazes batiam papo. Fluía Monday, Monday, numa cuidada orquestração.
- Boa noite, senhora – disse Isaías à japonesa que o atendeu. Ela o saudou e ele pediu uma cerveja Antarctica. A garrafa estava enevoada e a taça muito limpa. – Dê-me também um sanduíche de filé.
Um rapaz, que só falava em japonês com a velha senhora, começou a preparar o sanduíche. Fazia-o de maneira tão correta que Isaías entreteve-se a vê-lo.
- É muito agradável sua casa, senhora.
- Oh! Muito obrigada! Muito obrigada!
- Se não viajasse amanhã viria mais vezes aqui.
- O senhor não é daqui?
- Sou. Meu pai faleceu e eu vim por isso. Ele foi um dos pioneiros de Macapá.
Enquanto bebia, pensava no pai. Tinha muito charme quando atirava. Nunca perdia um tiro. Quando ele morreu, há muito que Isaías morava em Manaus; isso atenuou o choque causado pela morte do pai. A moça e os dois rapazes haviam saído. A moça era bonita e Isaías desejou tê-la consigo. O japonês começou a arrumar as mesas e esperava para varrer. A mulher pediu desculpa e Isaías também pediu desculpa, pagou e saiu. A noite era um navio à espera num bar qualquer da cidade.


Nostalgia integra o livro de contos A grande farra (edição do autor - Ray Cunha -, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado

sábado, 10 de março de 2012

CONTO/Fim de semana

A embarcação mergulhava a proa e dava a sensação do dorso de um cavalo a galope. Durante toda a manhã foi assim. À tarde, o sol amarelava a baía; não havia vento e o calor estava sufocante. E assim passou-se o dia até a noite, quanto chegaram à ilha, ao largo do Marajó.

Cedo, no dia seguinte, contornaram a ilha, desembarcaram e se internaram no mato em busca de porcos, que tinham sido vistos naquele ponto. Os rapazes avistaram uma clareira, onde erguia-se um taperebazeiro, e ouviram os porcos. Jiparaná se abaixou para ver as pegadas e um porco passou desembestado por eles. Isaías engatilhou a doze, mas o porco sumiu no mato. Jiparaná pediu a doze e quando pegou a arma ela disparou para o ar.

- Bando de filhos-da-puta! Como é, seu sacana, que tu me dás esta porra engatilhada, em, seu filho-da-puta?

- Lá está ele! – gritou um dos caboclos, apontando para o porco, que estacionara adiante e procurava se orientar. Entraram no mato atrás dele e conseguiram-no encurralar numa capoeira impenetrável. Joparaná disparou. O animal emitiu um grunhido e caiu. Fora atingido na cabeça.

À tarde, a ilha pareceu inflar. Surgiram praias até onde alcançavam os olhos.

- Vamos levantar, cambada de vagabundos – disse Jiparaná, sob protesto dos rapazes. Jiparaná ergueu Carlos da rede e foi atirá-lo no rio, do extremo do trapiche. – Vou fazer uma operação daqui a pouco – disse, enquanto tomava um gole de café. – Alguém quer ir comigo?

Só João quis ir e Jiparaná largou-se com ele e um caboclo.

- Outro dia peguei uma criança. Estava morta. Quase podre já.

- E agora, o que é?

- Gangrena.

A casa havia surgido ao longe. Na frente, meia dúzia de crianças aguardava a ubá. Quando encostaram, as crianças entraram correndo.

O doente gemia numa rede atada na parte central da casa. Jiparaná olhou a mão gangrenada, fez uma careta e pediu que fervessem água.

- João, me dá a maleta. – Tirou um bisturi, quelene e álcool. João guardou para si uma caixa de quelene, sem que Jiparaná notasse.

Não havia muito o que fazer. O doente teria que ser removido para Macapá na madrugada seguinte. Jiparaná fez suas recomendações e disse que passaria, com a maré, para pegar o doente. De volta à ilha, aproveitaram o que sobrava do dia para pescar.

- Vou dar uma cagada, enquanto isso... – disse João, apanhando uma Bíblia. Então mostrou um frasco de quelene para os outros rapazes. Tomaram um caminho que dava para o mato. Sentaram-se e puseram-se a cheirar quelene. João sacou meia página da Bíblia e preparou um cigarro.

- Só falta agora Abbey Road e a Telma – disse Isaías.

- E vodca também – lembrou João.

- Com laranja – Carlos completou.

- A Telma é uma delícia...

- Ela deve estar banhadinha uma hora destas, escutando os Beatles.

Jiparaná os chamou. Foram pescar nos poços ao longo da praia. Os peixes são morriam imediatamente, envenenados pelo timbó, e uma grande piramutaba saltou de dentro da rede, caindo no poço, para logo depois flutuar.

A noite caiu. E tudo pareceu imerso dentro da noite. A ilha era a casa. Quem se aproximasse da casa veria a brasa dos cigarros, que se alumiavam, de vez em quando, pousadas no piche da noite.


Fim de semana, conto do livro A grande farra, edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, edição esgotada