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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

CRÔNICA/Café

RAY CUNHA

Durante muito tempo, o Café Doce Café reinou como um dos pontos mais aprazíveis do meu circuito nas entranhas de Brasília. Localizado no átrio do Conjunto Nacional, constituía-se em mirante de onde podia apreciar, sem ser notado, as mulheres lindas que passavam por ali, algumas tão monumentais que faziam justiça à arquitetura de Oscar Niemeyer. Muitas delas, antes de sumir nos labirintos do shopping, tornavam o dia mais luminoso, fazendo uma parada no café. De lá, eu costumava ir à antiga livraria Sodiler – depois, La Selva, seguida de uma loja de calçados, e, agora, parece-me que uma loja de roupas.

Um dia, arrancaram a maior parte do balcão de mármore do Café Doce Café e o substituíram por vidro, para que as pessoas pudessem ver os salgadinhos. Continuei a frequentá-lo, mais pelo mirante do que pelo café, que, aliás, sempre foi robusta, aquele tipo amargo, barato, das lanchonetes populares. Durante algum tempo, mantiveram as colherinhas de metal e as xícaras e pires clássicos. Mas isso não durou muito; as colheres foram substituídas por hastes de plástico, e os pires e xícaras de desenho clássico foram-se trincando, quebrando, até serem substituídos por louça horrorosa, além de que o balcão de mármore sofreu nova e drástica redução. Assim, tive que descobrir novos mirantes, como o Kopenhagen, no segundo piso do shopping, ao lado da livraria Saraiva.

A propósito, o problema da Saraiva é música ambiente. Há sempre um desses dançarinos-cantores unissex guinchando nos alto-falantes da loja. Voltando à Kopenhagen, é bastante agradável, os móveis são de palhinha e podemos descortinar o passa-passa numa grande área do shopping – verdadeiro laboratório literário. Além disso, a colherinha é de metal e o café, blend.

Sou apreciador de café espresso. Comecei a degustá-lo na companhia de um amigo de infância, o jornalista Ribamar Teixeira, que, como eu, é brasiliense de Macapá. Eu já li bastante sobre café e fiz dois cursos de barista, por curtição, com o ítalo-brasileiro Antonello Monardo.

Café espresso recebeu esse nome porque foi inventado pelos italianos. É tirado por pressão, daí o “espresso” italiano, que, vertido para o português, virou, para muita gente, “expresso”, o que lhe dá a conotação de que é um café tirado rapidamente. Muitos não tomam espresso por duas razões: ou estão habituados ao chafé de botequim, conhecido como carioca, ou acham que é muito forte. Neste caso, é só tomar um curto.

É o seguinte: café contém mais de mil essências nutritivas. Ao se tirar um espresso, essas essências são encontradas somente na primeira parte que cai, ou seja, na metade da xícara de 30 ml; o restante é pura cafeína. Assim, um curto é a meia xícara do primeiro café tirado – trata-se, portanto, de um café encorpado, aromatizado e revigorante.

Tem mais uma questão importante. Há dois tipos de café: robusta e arábica. O robusta é resistente à praga e por isso mais barato, mas tão amargo que só entra com muito açúcar. É servido em toda parte; somente as cafeterias de primeira linha servem arábica, um café encorpado, aromático e naturalmente adocicado.

O mais famoso do mundo é o italiano Illy, blend dos melhores arábicas do planeta, especialmente do sul de Minas Gerais. A fábrica fornece sachê de Illy para todo o mundo. A primeira vez que experimentei um Illy foi no Saborela, na 112 Norte, Bloco C, Loja 38, tirado pelo barista Bruno Kzam.

O café arábica do sul de Minas Gerais, maior produtor do Brasil (e este, maior produtor do mundo), é um dos melhores do planeta. É leiloado. Oitenta por centro ficam com os alemães. Os japoneses também são grandes compradores. Em Tókio, um espresso custa pelo menos US$ 5.

Meu café preferido é 3 Corações, gourmet (arábica e sem impurezas). Eu mesmo o tiro ao coador, ainda de madrugada, quando me levanto. À tarde, costumo tomar um espresso, confortavelmente instalado num mirante.

domingo, 12 de novembro de 2017

CRÔNICA/Negra em vestido de seda

RAY CUNHA

Degustava um Illy no café de uma livraria no Pátio Brasil quando a vi. Senti imediatamente seu perfume, que se misturou ao sortilégio do espresso, o aroma dos melhores arábicas do mundo. À sua passagem, infinitas possibilidades se iluminaram; de repente, velhos prazeres esquecidos, projetos de viagens adiados, sensações adormecidas, acordaram à sua passagem.

Entendo que seda é o melhor tecido para sugerir as curvas de uma mulher, para desenhar, na nossa imaginação, seus encantos inacessíveis, para exalar a química do prazer que captamos com as antenas dos sentidos, e ela trajava um vestido de seda amarelo, estampado com rosas colombianas vermelhas.

Seu andar – andar, não, trote – tinha a cadência das potras nascidas em cavalariça de ouro, trotar de bailarina clássica, o caminhar de mulheres sobre saltos tão altos que as fazem andar na ponta dos pés. E o vestido de seda lhe desenhava as formas no seu passeio pelo shopping.

Tudo foi num instante, mas na dimensão em que a vi pude examiná-la minuciosamente. O primeiro impacto que sofri ao vê-la foi uma sensação tátil: a sua pele de jambo maduro, sedosa como seu vestido. Tinha nariz português, boca de negra e olhos verdes. Dentro do instante intenso, viajei, instantaneamente, à velocidade da luz, à Estação das Docas, em Belém, e fui também à Macapá, onde a Linha Imaginária do Equador faz esquina com o maior rio do mundo, e o rio Amazonas me conduziu ao Caribe de Gabriel García Márquez.

A negra misteriosa passou rente a mim e me ofertou seu perfume, que identifiquei imediatamente: Chanel 5, o que mais gosto de aspirar na pele feminina. Ela passou tão rente a mim que tive a sensação de que a seda do seu vestido roçou no meu cérebro. Quis ficar ali, naquela eternidade, sentindo-me cair para cima, numa sequência infinita de gozos múltiplos, só de observá-la, mas o compromisso na embaixada de Portugal acertou-me em cheio na cabeça, como um tiro que nos reconduz à rotina. Dali a pouco estaria bebericando vinho do Porto no Instituto Camões.

terça-feira, 7 de junho de 2016

O rio da tarde



Macapá é uma cidadela limitada pela selva e o maior rio do mundo. Na maré cheia, e se os alísios sopram mais forte, ondas de dois metros rebentam no muro de arrimo defronte à cidade, e quando a maré baixa, o leito do Mar Doce aparece, numa faixa escura de um quilômetro, rio adentro. A cidade começou a invadir a floresta; aos poucos, põe-na abaixo, em marcha de terra arrasada. Quanto ao rio Amazonas, continua levando a Belém. Vivi 17 anos em Macapá, e desde então nossa vida tem sido de reencontros e partidas. Hoje eu sei que uma cidade são várias cidades, incluindo as que construímos em nosso coração, de modo que fecho os olhos físicos quando chego, de barco ou de avião, e apuro os sentidos, para mergulhar nos indeléveis labirintos da cidade da minha infância, prenhes de espilantol.

Eu tinha 17 anos quando a deixei, peguei o rio e a estrada e sumi em Copacabana. Em dezembro de 1971, publicara, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, Xarda Misturada, um livrinho de poemas adolescentes no qual o poeta Isnard Lima Filho encontrou um veio de pedras preciosas (certamente os poemas do Joy) e me batizou de Ray Cunha, profetizando que um dia entraria no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, uma homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras.

Naquela época, em Macapá, artistas eram vistos como vagabundos. E achei que deveria me mandar, e me mandei. Peguei minha cota de Xarda Misturada, tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e fui bater na cidade recém construída por Juscelino Kubitschek. Na cidade-estado – hoje, fogueira das vaidades e valhacouto de assaltantes perigosos –, consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio. De lá, queria ir a Paris e cheguei a conversar isso com o dramaturgo Paschoal Carlos Magno, que baixou meu fogo e me aconselhou a me aquietar no Rio mesmo.

Eu tinha 19 anos quando vi pela primeira vez uma orquestra. Foi em 1973, no Teatro da TV Globo, no Jardim Botânico. Naquele dia, uma nova porta se abriu na minha vida. A Orquestra Sinfônica Brasileira – não me lembro quem era o regente – apresentou A Sagração da Primavera, do russo Igor Stravinsky. Quando Le Sacre du Printemps, balé em dois atos, estreou, em 29 de maio de 1913, no Théâtre dês Champs-Élysées, em Paris, foi um escândalo. Tratava-se de música moderna, inovadora, revolucionária. Os acontecimentos só são importantes quando nos atingem em profundidade. Isso ocorreu também, em 1983, em Belém do Pará, ao ouvir Mozart pela primeira vez, Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor.

Já estou descendo o morro da vida. A encosta é íngreme. Não importa; foi a trilha que escolhi. Fui belo e imortal, inquieto, dramático, desesperado e trágico, como, quase sempre, os jovens todos. O corpo é um amontoado de átomos, que se unem enquanto há vida, e a vida segue um afunilamento, e amplia-se. Às vezes, Deus arruma nossas manhãs, e as roseiras rebentam em rosas nuas (visíveis pelos olhos do coração), jasmineiros choram perfume, ouve-se o riso de crianças e o esplendor do sol roça o mundo.

As zínias; as rosas; beijos que são como terremoto; a intensidade, quase insuportável, de criar o poema, são luzes que fecundam o tao, o caminho, a estrada da vida, que pode ser escura, mas não deve ser escura. Precisamos pontilhá-la de luzes, portas para o rio da tarde.

Brasília, 14 de janeiro de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A mulher que me ensinou a voar

Três momentos da mulher amada: na primeira foto, captada
pela lente de Ivaldo Cavalcante; grávida de 
uma flor, Iasmim;
e o sorriso de sol na Calçada da Fama, na Seicho-No-Ie 

BRASÍLIA, 19 DE MAIO DE 2016 - A manhã de 20 de maio de 1968, em Macapá, foi excepcional. As flores desabrocharam em questão de segundos ao sol, deixando o ar prenhe de perfume e a Linha Imaginária do Equador girando igual música de Mozart. Eu tinha 14 anos e já recebera o batismo de fogo azul, por isso percebi que a manhã fora arrumada por Deus, pois entre as flores vivificadas pela luz, uma recebeu o nome de Josiane Souza Moreira.

Só a conheci 19 anos depois, em Brasília. Cafuza, linda que só ela, parecia um arbusto com sabor de Dom Pérignon, safra de 1954. Começamos a namorar em 15 de maio de 1988, no cinema do Conjunto Nacional, vendo O Último Imperador da China, de Bernardo Bertolucci. Casamo-nos no religioso em 21 de maio de 1989 e, no civil, em 6 de agosto de 2010. Em 22 de fevereiro de 1990, Josiane deu à luz uma princesa com nome de flor: Iasmim.

Quando a conheci, eu tinha 33 anos de idade, 14 mais do que ela, vinha de um casamento fracassado, vivia mergulhado no álcool, trabalhava num jornal sem futuro (Correio do Brasil, que já fechou as portas há muito tempo) e sou feio. Mas ela me viu leão de asas na dimensão azul, e desde aquela noite de 15 de maio de 1988, namoramos todos os dias, até quando estamos perdidos, pois nos encontramos no coração, onde não existe tempo nem espaço; só há o agora e o agora, o momento mesmo da eternidade.

Ela entrou na minha vida como raio de sol iluminando minha alma, como o hálito do Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor, de Mozart, como o azul do mar, tão azul que sangra. Desde então, deposito nas tuas mãos, Josiane Souza Moreira Cunha, todo o meu tesouro, um abismo de rosas vermelhas, colombianas, risos de crianças, o triunfo da Luz.


MINHA NAMORADA

O primeiro beijo que me deste, explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo

Desde então, flor da minha vida,
Voo na tua dimensão
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada!

Segue-me, pois te mostrei quase nada
E tenho a chave dos sonhos
Que conduzem à eternidade

À fogueira do nosso amor, minha namorada,
Ao voo vertiginoso
Da luz movida a acme

A NOITE É SÓ NOSSA

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio
Ao largo do Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Amor da minha vida esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida
E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias
E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Amarcord, de Nino Rota
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia
Só nossa! 

domingo, 8 de maio de 2016

Mamãe era como as rosas, inexpugnável na sua fragilidade, imortal na sua beleza

Marina Pereira Silva Cunha, imortalizada
pela espátula genial de Olivar Cunha

Marina Pereira Silva Cunha, minha mãe, foi a mulher mais bonita, corajosa e iluminada que conheci. Amava-a incondicionalmente. Sua presença, seu perfume, seu calor, eram redentores, e nutrem-me como cascata que cai do alto da montanha, alimentando minha alma. Certo domingo, eu era criança, talvez tivesse 7 anos, fomos, só ela e eu, à missa matinal na Catedral de Macapá. O farfalhar de seda, o perfume, principalmente o de minha mãe, os rumores dentro do templo, o latim, as imagens impressionantes dos santos, a hóstia, e a pureza que senti em tudo aquilo, me marcaram para sempre. Uma vez, ela foi a Belém, onde passou alguns poucos dias. Então, escrevi uma cartinha a ela, e chorei. Nos fins de semana, gostava de fazer-lhe companhia, de ouvir sua voz, de ver seus olhos, grandes e redentores. Ela era uma leoa; cuidou, simultaneamente, de 10 filhos e do papai, João Raimundo Cunha. Ensinou-nos a ler e a escrever, a todos nós, cozinhou para nós, em fogão a lenha e depois a gás, lavou e passou em ferro a brasa e depois elétrico, limpou a Casa Amarela durante décadas, e nos ensinou a amar. Era como as rosas, inexpugnável na sua fragilidade, imortal na sua beleza. Quando oro, sinto-a me abraçando, sinto seu perfume, seu hálito, e então sinto-me imortal. Obrigado, mamãe!

sábado, 19 de março de 2016

O último dia do verão

Os dias amanhecem como fotografias sépias e as mulheres trajam casacos; já não andam de sandálias e roupas que lhes deixam grande parte da sua pele maravilhosa iluminar o planeta. Costuma, agora, fazer 19 graus centígrados em torno das 8 horas, quando, às vezes, atravesso as ruas da manhã, curtindo tudo o que me ofertam. Ao cruzar com uma mulher muito bonita, agradeço a Deus, porque é bom presságio. As manhãs são sempre como as rosas, recendem ao perfume redentor de mulheres que acabaram de sair do banho e presenteiam o mundo com seu esplendor.

Curto as manhãs de outono como todas as manhãs, da primavera, do verão e do inverno, porque as joias que guardei no meu relicário são feitas dos sons das manhãs, risos de crianças, marulhar longínquo, quem sabe da ilha de Mosqueiro, ou Salinas, ou Copacabana, ou Ipanema. Meu relicário é do tamanho do meu coração, e contém uma cidade inteira, que pode ser Brasília, Belém, Rio de Janeiro, ou Macapá.

Se é Macapá, um vendaval sacode minha alma, porque a simples palavra Macapá me inunda de endorfina. Somos velhos amantes. Macapá é tão azul, que mais azul só os poemas da Alcinéa Maria Cavalcante. E ainda mais azul, o primeiro beijo, que me ensinou a voar. O Rio de Janeiro sai do meu relicário como uma portuguesinha da Ilha do Governador ensaiando Miolo de Pão, peça que o meu amigo Luiz Loyola escreveu sobre a família dele e guardou na gaveta mais preciosa.

Tudo isso me ocorre porque é o último dia do verão. Brasília é como a mulher amada. Vou explorando seus labirintos com paciência e gentileza, na esperança de que ela abra para mim todas as suas portas secretas; de vez em quando descubro minas de diamante e rubi nas suas luzes.

E se logo no início do outono está tão bom, imagino quando chegarem o inverno, as manhãs de neblina, de cerração, de frentes frias, as noites de ventania, as mulheres lindas mais misteriosas do que nunca, deixando à mostra apenas suas bocas pintadas de vermelho, o corpo da mulher amada sob o edredom, o levantar-se às 5 horas, o café 3 Corações, gourmet, e o retomar da aventura parida ao computador!

Com três xícaras de café com leite em pó e duas fatias de pão de passas a manhã fica ainda mais cintilante, porque já é magnífica por ser outono. Assim passam-se os dias, como folhas que caem, suavemente, sustentadas pela brisa, até o chão. À noite, no nicho da minha biblioteca, sonho novamente com a manhã, e com a tarde, e com os aromas que senti vindos de planetas que gravitam em volta da minha alma.

A vida é isto! – penso. Sim, viver é voar, como estou fazendo agora. A vida cabe toda no agora, como uma imensa rosa vermelha, inexpugnável na sua fragilidade, eterna na sua fugacidade, invencível na sua beleza. Quero ficar grávido da manhã, do outono e das rosas; só assim escreverei palavras azuis como rubis.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Iasmim, meu amor!


Depois que tu nasceste, meu universo é só eternidade
A luz preencheu o navio da minha mente
O mar ancorou no porto da minha alma
E ouço, agora, o tempo todo, o som do éter

Depois que tu nasceste, jasmineiro eterno,
Doce música espraiando-se no espaço
A Terra é só primavera
Prenhe de crianças que voam como pássaros

E eu, que era um asteroide vagando,
Depois que tu nasceste, meu bem!
Tornei-me astro iluminado

De modo que já não vago por aí, andarilho sem rumo,
Sem aportar em parte alguma, como ninguém,
Pois desde que tu nasceste, sinto, de Deus, o triunfo!

Senti tua presença logo nos primeiros dias após tua concepção, pois Josiane, tua mãe, começou a ficar ainda mais bonita, a desabrochar como rosa grávida. Eu sentia no ar tua presença como a luz na alma; a música de Mozart nunca pulsou tão divina e o perfume da vida me extasiava. Eras tu que vinhas, para alegrar, para sempre, minha vida.

Logo o ventre da tua mãe começou a crescer. Eu o beijava e tu tentavas, lá do teu mundo uterino, tocar em mim. Os meses passavam e eu, agora, tinha duas namoradas. E queria também ficar juntinho do ventre da tua mãe, e líamos contos dos gênios da literatura infantil para ti. Abraçado à tua mãe, eu te sentia, e me sentia Deus. Já não criava somente personagens de ficção, mas estava prestes a ver o triunfo de uma criação perfeita.

Josiane ficou esplêndida, um santuário que eu beijava ajoelhado. Uma noite, 22 de fevereiro de 1990, o rio da tarde acabara de desaguar no Ocidente quando tu anunciaste que querias nascer. Joanira, um anjo que te acompanha desde sempre, levou tua mãe e eu ao Hospital Regional da Asa Norte, e, às 23h40, os jardins do mundo se iluminaram, pois nasceu um jasmim.

Na manhã do dia seguinte, fui te conhecer. Quando te vi, filha, senti uma emoção tão intensa que verti rubis azuis. Assim que te vi, recém-nascida, transferi para ti, para sempre, a firmeza das minhas mãos, a fortaleza dos meus músculos e pedras preciosas que escavei na minha alma. Pedi a Deus, meu Pai, que arrumasse a manhã para ti, a manhã da tua vida, e Ele, então, me muniu de luz, amor, sabedoria, gentileza, para que eu cuidasse de ti. E tu cresceste como botão que abre imperceptivelmente as pétalas ao sol, como um poema, cada vez mais azul.

Todos os anos te dou o mesmo presente, que sou eu. Pertenço à tua mãe, de quem tu fazes parte, e sou teu porque és parte de nós dois, por isso teu é o meu coração, que é o que me resta, pois nas histórias que te contei já te dei o mundo, e todos os jardins, e todas as rosas, e os girassóis de Van Gogh, e todo o perfume, e a música de Mozart.

Quando nasceste, ganhei asas, e minha mente quebrou todos os grilhões que me acorrentavam ao átomo, e o mundo rebentou em jardins se derramando. Tu és forte como os olhos dos bebês felizes, como pétalas ao sol, como o amor, porque nada temes, por isso és meu exército; basta evocar teu riso para sentir o sabor da imortalidade; o riso da tua infância, que guardo no meu coração, é minha perene alegria.

Tua beleza, que vai muito além do sorriso, nasceu da minha conjunção com a mulher amada, em explosões lá para os lados do Grande Atrator. Nasceste sob o signo da luz, no Lar do Progredir Infinito. Meu Pai me tocou com Seu hálito, e então criei a flor definitiva. E desde que nasceste, flutuo, e nunca mais parei de voar, principalmente agora, que me dás o combustível para eu cavalgar a luz. Sou anjo e leão porque tu és minha fé no triunfo das manhãs.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Suave é a noite

Ray Cunha retratado por Olivar Cunha em grafite
sobre tela para a capa do livro de poemas
SOB O CÉU NAS NUVENS - Belém, 1981

Estou só, na tarde. A tarde é prenhe de mistérios, que desvendo com um olhar para meu jardim. Ele ostenta uma rosa amarela, de Gabriel García Márquez. Visto uma camisa branca de algodão, calças e casaco azuis de linho, e sapatos pretos de couro. Meu rosto está bem barbeado e recendo a Chanel 5, amadeirado, e assim misturo-me aos murmúrios e cheiros da tarde. Fragrâncias de mar, vindas do meu coração, amalgamam-se ao ar prenhe do perfume das virgens ruivas. A tarde é azul, tão azul que escorre na tela que Olivar Cunha está pintando. Ouço os sussurros da tarde como o roçar dos lábios de uma mulher de olhos verdes.

Estou só, na tarde, pois minha amada viajou. Assim, navego no rio da tarde, sozinho, ao encontro da minha amante. Meus passos me levam a um café no Setor Hoteleiro Sul. Há tantas mulheres lindas no café! Duas conversam sentadas em um sofá. Uma é loira e seus olhos são azuis como a tarde; a outra é ruiva, e seus olhos se confundem com esmeraldas. Riem. Seus risos são cristalinos como crianças recém-lavadas, ao sol matinal da primavera. Conversam tão perto uma da outra que seus lábios, grandes e vermelhos, parecem uma dança. Degusto Mateus Rosé. Preparo-me para quando minha amante chegar.

A tarde agoniza. Morre como uma rosa, que, depois de se tornar a joia mais delicada, preciosa e bela do mundo, deixa um eterno rastro de luz. Assim desliza o rio da tarde. Logo a cidade será um transatlântico todo iluminado, e as criaturas mais esplendorosas do universo, que são as mulheres, espargirão seu perfume, como jasmineiros em tórridas noites em Belém do Pará.

Uma jovem mulher passa ao meu lado, quase roçando em mim. Volto-me para vê-la. É uma negra em vestido de seda, tal qual uma que vi na Estação das Docas, em Belém. Talvez fosse da Guiana Francesa, ou de Trinidad e Tobago, ou da Martinica. Falar em Martinica, se Hemingway estivesse aqui comigo eu o convidaria para pescar ao largo de Sucuriju, no Amapá. Bem que Fernando Canto poderia estar comigo nesta tarde, que morre. Mas o poeta tem suas próprias tardes, que são, certamente, prenhes do perfume das virgens ruivas, e mar. O poeta decifrou a dimensão da intensidade e tem olho clínico para o cheiro de maresia.

Não tenho nem um, nem outro, nem a mulher amada. Só me resta esperar mais um pouco para cair no colo da minha amante. Ela chega suavemente, e, quando a percebo, sua paradoxal luz ofuscante entra nos meus sentidos e me conduz à dimensão do primeiro beijo. Mas nunca estamos preparados. Minha amante é puro mistério, e é também amante de todos os homens, e, principalmente, de todas as mulheres. Ela é a mais bela das rosas: é a noite.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Mulher caminhando com a correia do sapato solta

Uma das trilhas mais aprazíveis em Brasília, para quem gosta de ruas movimentadas, é atravessar o Setor Comercial Sul e o Setor de Diversões Sul, o Conic, em determinados dias e horários. Ontem, de manhã cedo, mergulhei nas estreitas vias do setor, circundado por shoppings, cafés, restaurantes, hotéis, bancos, livrarias, pontos de ônibus e estações de metrô. É onde a cidade pulsa durante o dia, até certas horas da noite.

Nem bem comecei a travessia quando a vi. Caminhava como bailarina, equilibrando-se, elegantemente, sobre dois saltos incríveis. Os sapatos me chamaram de pronto a atenção porque um deles, o esquerdo, estava com a correia, que deveria abarcar o lindo tornozelo, solta. Acompanhei o desenho das pernas, longilíneas e intermináveis, até encerrarem-se em saia generosa. No conjunto, ela fazia justiça a um Boeing 747-400 aterrissando. Era linda, e até as mulheres se voltavam para apreciá-la mais um pouquinho.

Em certo momento andei mais depressa só para me voltar e ver seu rosto. Também era linda de rosto – ovalado e de traços marcantes, grandes olhos castanhos e sobrancelhas cerradas –, emoldurado por longos cabelos da cor dos olhos, entrelaçados em duas grossas tranças. Ia devagar, etérea, embora medisse (nisso, tenho olho clínico) 1,70 metro e pesasse 70 quilos, magnificamente distribuídos, pois sua barriga era uma tábua e os quadris e o busto, protuberâncias esculpidas por talentoso artista.

Atravessamos todo o Conic, ela, como uma princesa no seu passeio matinal; eu, o coração aos pulos. Ela era daquelas mulheres que se degusta durante horas com o olfato e o paladar antes que mergulhar nos seus abismos, e que, por isso, consome toda nossa energia. De repente, no semáforo da Rodoviária do Plano Piloto, paramos juntos, lado a lado; eu não aguentei mais, e a avisei, candidamente, que a correia do seu sapato estava solta. Ela me olhou e me deu o sorriso mais encantador do mundo. Murmurou algo, que de tão encantado não entendi, e continuou seu trote, agora conversando ao telefone com sua mãe, o que ouvi nitidamente.

Acordei com o despertador do meu telefone celular, às 5 horas. Levantei-me e depois de fazer a higiene fui preparar uma garrafa de café Três Corações, gourmet. Sempre que sonho com mulheres muito lindas dá tudo certo; o dia está uma beleza.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Mulher no chuveiro

Sentado no vaso, eu a observava através do vidro molhado que a isolava de mim, à distância de um metro, sob a ducha. Seus gestos eram langorosos. Lavou os cabelos com xampu, longamente, e depois se pôs a deslizar espuma de sabonete na sua pele. Abaixou-se e os quadris ficaram ainda mais bonitos. Levantou-se, os olhos fechados, talvez sonhando que corria, nua, sob a chuva, no meio do roseiral e das zínias, numa paleta de Van Gog. Se disserem que Van Gog pintava sol, saibam que tudo é possível nos sonhos.

Ela era tão jovem, e eu já então um sátiro, quando percorri pela primeira vez a relva do seu corpo, caminhos ensolarados, segredos que serão eternamente só nossos. Porém não maculei jamais o santuário que se abriu para os meus sentidos, e continuo me purificando sempre antes de recomeçar esta viagem, porque sei que o corpo é apenas a porta da alma.

Sozinha, imersa nos seus pensamentos de mulher feliz, ela sorriu. Agora, a água deslizava pelo seu dorso de jambo, e parou subitamente. Ela escorreu os cabelos, apanhou a toalha e começou a se enxugar sem pressa, esfregando-a levemente na sua alva pele de mulher negra.

Ver a mulher amada tomar banho, perceber seu quase imperceptível sorriso de felicidade, é uma fonte de prazer tão intenso quanto o acme dos sentidos. O sorriso de uma mulher feliz é um sinal de Deus.

Ela pôs um pé para fora do boxe, secou-o, e pôs o outro... só então percebeu minha presença, inclinou-se, num gesto gracioso, que somente às mulheres é possível, me beijou levemente na boca e saiu do banheiro. Levantei-me do vaso e fui fazer a barba.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Eu, velho


Eu vivia em Manaus, aos 21 anos. Não era nenhum Brad Pitt, mas tinha meu charme. Já publicara um livro de poemas, Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, em Macapá, minha cidade natal; assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, no jornal A Notícia; e frequentava o Clube da Madrugada. Media 1,64 metro e pesava em torno de 60 quilos. Como rachei lenha quando criança, eu era seco e musculoso. Mais tarde, joguei boxe, o que desenvolveu ainda mais o tônus; testa larga, olhar atento e entusiasmo pela vida são traços que se acentuaram ao passar dos anos. Naquela época, até mulher casada se ajoelhou aos meus pés; mulheres lindas entregaram-se, inteiras, a mim, deixando-me voar nos seus labirintos de mistérios. Eu podia ingerir comida estragada, beber sozinho uma garrafa de Pitú ao longo de um bate-papo, caçava, pescava, mergulhava noites inteiras nos insondáveis abismos das ninfas, e nada disso me abalava. Era o império do corpo. Hoje, já começo a vislumbrar a chave com a qual abrirei, finalmente, a porta, mágica, da luz.

Leio desde os cinco anos de idade, quando os gibis e a biblioteca do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, me seduziram para sempre. Aos 14 anos, já lera Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald, Graciliano Ramos, Fiódor Dostoiévski, Jorge Luís Borges, livros de história e de geografia, enciclopédias, dicionários, bulas de remédio, e tudo o que me caísse às mãos. E frequentava a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho. Lia da mesma forma que comia, bebia e amava, como um leão, que tudo podia rasgar com as garras. Maduro, ao reler alguns livros da minha juventude, fiquei atônito. Descobri, neles, cheiros insuspeitos, ruas ainda não percorridas, personagens que, agora, puseram-se a contar coisas para mim.

Quanto fui iniciado nos segredos das criaturas mais deliciosas e enigmáticas do Universo, as mulheres, eu as tinha como quem mastigasse feijão com arroz. Hoje, depois que comecei a descer o morro da vida, navego a mulher amada com a sensação de um cataclismo de rosas colombianas vermelhas. Atingi a sofisticação de capturar a dança delirante de mulheres caminhando em vestido justo, de seda, e fazer uma mulher sorrir, produzindo, nela, o mesmo efeito do sol da primavera, sua feminilidade explodindo em estrelas e ela se sentindo, e se tornando, a mulher mais bonita do mundo.

Descobri que tempo e espaço são uma ilusão, que só há o agora e o agora, o momento mesmo da vida, que eu existo desde antes do princípio e existirei até depois do fim. A vida é uma eterna caminhada rumo ao Éter, à Luz, a Deus. Nesse trilhar, já quase não sou mais arrogante, procuro ser gentil e atencioso com todos, e cuido para que a mulher amada se sinta como a mais bela flor de um jardim esplendoroso. Já não faço questão de receber presentes, mas de distribuir as pedras preciosas que garimpei nos momentos mais perigosos da trilha, como os rubis azuis que depositei no relicário do meu coração. Não ambiciono nada além de uma rosa bem vermelha e o riso de uma criança. Também peço que o Universo me perdoe pelas ofensas que cometi, porque sei, na minha esperança, que basta um raio de luz para extinguir a treva. E não há nada que eu queira mais do que ouvir o riso da mulher amada.

Sinto a velhice como um mergulho infindável no abismo da poesia, uma caminhada permanente na primavera que se espraia no telhado da casa da minha infância, as zínias, as rosas, o jasmineiro embriagando o ar nas noites tórridas, a mangueira, o cajueiro, a seringueira, as paredes de tijolos deitados da Casa Amarela, sólida como um navio. Ouço os sabiás com redobrada atenção. Amam intensamente, de agosto até o início do ano seguinte. São os imperadores do verão, quando os galhos das mangueiras se curvam ao peso de mangas inchadas e doces como seios de mulher grávida. Levanto antes que os sabiás comecem o seu canto, às 3 horas, faço a ablução e preparo café, Três Corações, gourmet, que bebo com tapioquinha amanteigada, cuscuz ou pão integral com passas. Curto a alvorada certo de que Brasília está sempre à minha disposição, oferecendo-me mil possibilidades. Às vezes, sou favorecido com a sorte de atravessar o Setor Comercial Sul no momento mais redentor, em torno das 7 horas, ao meio de mulheres perfumadas, algumas com os cabelos ainda molhados, e há sempre uma com o perfume das virgens ruivas, cheiro de mar. Então, Aquele “que se revela na harmonia de tudo o que existe” (filósofo holandês Baruch Spinoza) inunda a alma. E quando ouço o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor (número 20, K 466), de Wolfgang Amadeus Mozart, sinto a Terra roçar o espaço, da mesma forma quando me desfaço ao acme e me transformo em leão de asas.

Hoje, não sinto mais a gana de quando tinha 21 anos. Naquela época, eu amava como leão e bebia como Hemingway, e me internava na noite, esta grande amante, armado apenas da beleza suprema da juventude. Agora, desarmado, arranco gemidos ainda mais altos da mulher amada, porque nas minhas mãos há luz. Também não mais dilacero a carne, embora minhas mãos tenham se transformado em tenazes de nióbio, que, porém, roçam a pele da mulher amada com a leveza de uma pétala. Não sinto mais o fluir da vida no tempo, mas como o grande rio, que escorre, ininterruptamente, para o Atlântico. A Terra, a lei da gravidade, aos poucos dá lugar à intensa luminosidade. Ouço murmúrios na tarde, ao encontro da noite, imensa como um navio todo iluminado. Uma negra em vestido de seda passa por mim e deixa um rastro de Chanel 5, o perfume embriagador das lágrimas dos jasmineiros imersos na canícula, sabor de Don Pérignon, safra de 1954, leite da mulher amada, e o cheiro, redentor, do mar. Algumas mulheres são o próprio mar, e, por isso, são inacessíveis.

Guardo, na memória do meu coração, um combustível eterno. Cada uma das mulheres que amei, e que, às vezes, fiz chorar (perdão!), cada jasmineiro que perfumou as ruas noturnas por onde vaguei, com seu choro ao calor das madrugadas, cada verso que escrevi, cada cidade que descobri, todos os voos que alcei, disso é minha têmpera. Hoje, levo uma vida estranhamente social, pois reúno-me também com meus antepassados, especialmente meu pai, João Raimundo Cunha, belo, majestoso, destemido, amado, e minha mãe, Marina Pereira Silva Cunha, a mais bonita, forte, corajosa e querida entre as mulheres. Às vezes, simplesmente os ouço, na prece.

Meus cabelos começaram a ficar grisalhos, cada vez mais ralos; a pele, aos poucos, exibe o resultado das intempéries, e as pessoas já me olham desconfiadas. Não bebo mais, depois de 43 anos mergulhado no álcool, como uma poça que se avolumou e começa a secar. Ouço, agora, o silêncio da madrugada, emociono-me ao ver crianças, rosas, uma estrela. Não sinto apego a mais nada; só tenho meu coração. Minha riqueza é imensa, pois à minha passagem os jardins florescem, as crianças riem e a luz triunfa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Depois da sessão de autógrafos



A sede do Banco Central é um dos edifícios mais altos de Brasília, um caixote negro de 101 metros, com 26 pavimentos, sete abaixo do solo. Pode ser visto à distância, como uma referência ao coração da cidade, um bolsão que abarca também a Rodoviária do Plano Piloto, o Conjunto Nacional, o Conic e os setores Comercial e Hoteleiro Sul e Norte. O Monardo Gastronomia e Cultura é um restaurante e cafeteria atrás do Banco Central, na Rua 201 Sul, Bloco B, Loja 9, quase defronte ao Piantella. Estive lá, uma quinta-feira, autografando dois livros de contos: O Casulo Exposto e Trópico Úmido

Nós, escritores, somos como os pugilistas: da feita que subimos ao ringue estamos absolutamente sozinhos. Nada pode vir em nosso auxílio. Temos apenas que nos concentrar no filão que se apresenta, de onde podemos retirar pedras preciosas ou apenas cascalho, dependendo da luz ou do nevoeiro onde caminha nossa alma. Os escritores pouco conhecidos sentem-se, nas sessões de autógrafos, ainda mais sós. Estamos ali, expostos como animais no zoológico, tentando vender universos dos quais ficamos grávidos durante, às vezes, quase toda a nossa vida.

Mas do meu posto, duas mesinhas nas quais meu amigo Antonello Monardo me instalou, pude acompanhar a agonia da tarde, aquele momento de transição imperceptível, quando flocos negros começam a cair e a se acamar, iguais a neve, transparente e negra, flutuando como folhas mortas, anunciando o navio da noite.

Acompanhei também, do meu posto, o passa-passa das mulheres na calçada; algumas são tão lindas que causam sofrimento, porque são inacessíveis como as que só vemos nos grandes aeroportos, de madrugada, partindo para um país misterioso. Por isso, nunca estamos sós, pois há sempre rosas nuas nas esquinas do mundo. Temos apenas que desenvolver as antenas do éter para sentir a maresia, mesmo que o mar seja inacessível.

Simona Forcisi chegou de repente, iluminando tudo com seus olhos de esmeraldas, abraçou-me, redentora, e sentou-se à minha frente. Ela já conhece O Casulo Exposto e pediu-me para autografar Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Simona, italiana de Turim, trabalha na Embaixada da Itália, em Brasília, onde se graduou em Literatura Brasileira. Conhecedora atenta dos idiomas de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e Graciliano Ramos, pretende mergulhar na Amazônia do Trópico Úmido.

Quando Simona se foi, deixou um rastro de clorofila. Minha filha, Iasmim Cunha, me deu todo o apoio, fotografou-me e bateu papo com seu velho pai. E fomos pegar minha gata, Josiane, no Hospital Sírio Libanês, onde, como psicóloga, esparge luz. Ainda era cedo e paramos para comer sushi. Depois, retornamos para casa.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O caminho do tao



Mulheres grávidas em vestidos amplos são combustíveis para o meu voo, de modo que a gravidez da Josiane, minha esposa, que deu à luz Iasmim, nossa princesinha, foi vertiginosa. Desde a concepção, aquela onda azul começou a vibrar no triângulo equilátero que, desde então, formamos. Nossa comunicação física teve início assim que a barriga da Josiane começou a crescer; eu podia sentir a presença da Iasmim, e quando o ventre ficou realmente grande, bastava que me aproximasse para a pele ficar saliente; era a princesinha tentando tocar minhas mãos, meu rosto, e quando me deitava de costa para o colo da Josiane, a princesinha me abraçava. Às vezes, Josiane lia para nós, orava, dizia eu te amo, bebê, e afagava o ventre.

Quando vi minha princesinha pela primeira vez, seus olhos como duas luzes me abarcando, chorei perfume, como choram os jasmineiros da Amazônia, nas noites de julho. Começava, aí, nova preparação do caminho. As flores são indestrutíveis na sua eternidade porque Deus arruma todas as suas manhãs, tardes e noites, Pessoalmente, e assim Arrumou o jardim para a princesinha, onde eu lia, para ela, todas as joias escritas, e, dia após dia, ofertei-lhe os tesouros mais preciosos do Universo, diamantes rosas e rubis azuis que eu ia buscar na parte imersa do meu iceberg. Também Josiane, por seu turno, dava-lhe todas as riquezas que extraía da sua própria vida.

Ainda garotinha, Iasmim é quem escolhia suas roupas; apenas a direcionávamos quando, por exemplo, ela escolhia um vestido quente no verão, e explicávamos por quê. E se tornou leitora voraz, escreveu contos, pintou óleos sobre tela e manifestou a vontade de fazer o curso de moda, mas ao concluir o nível médio optou por turismo, apenas para perceber, claramente, que seu negócio é moda, mesmo, e fazer a correção do caminho.

Assim é a própria vida. Pessoas são condenadas a vender-se porque seus pais as querem advogados, médicos ou físicos, quando seu talento é para santo, poeta, palhaço, ou acupunturista. Outra maneira de matar os filhos, ou qualquer pessoa, é arrogar-se a viver a vida alheia. Zumbis são isto: mortos vivos, a manada, o rebanho, o rótulo, o apego, a ilusão.

Masaharu Taniguchi disse que o mundo físico é apenas criação da mente; o segredo para entendermos isso está no iceberg da vida. Como bem observou o criador de O Velho e o Mar, Ernest Hemingway, o iceberg flutua com tanta elegância porque sete oitavos ficam submersos e somente um oitavo aparece fora d’água, o equivalente ao mundo físico, limitado pelo espaço e pelo tempo. Os sete oitavos dentro da água podem ser identificados como realidades múltiplas, universos multidimensionais, ou qualquer outra coisa que se aproxime do que rotulamos de realidade. E o que é realidade? Matéria? Poesia? Sonho?

Gosto de pensar que realidade são os caminhos do triângulo, o éter, o vácuo, o nada, algo que apenas flui, e que sou leão de asas mergulhando no abismo azul, misterioso como mulher nua.

A vida é agora! Como sempre, sinto no ar o perfume das virgens ruivas e na boca o sabor de Dom Pérignon, safra de 1954, pronto para subir ao ringue.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A idade da razão

Nasci em 7 de agosto de 1954; Macapá, minha cidade natal, cortada pela Linha Imaginária do Equador, à margem esquerda do Amazonas, quase na boca do maior rio do planeta, era então um povoado ribeirinho, mas nunca senti o emparedamento, a solidão dos povoados amazônicos, porque, quando crianças, vivemos numa dimensão muito mais ampla do que a dos adultos, e, aos 5 anos, os gibis inocularam-me para sempre o vírus da aventura; aos 13, já lia autores da pesada; aos 14, bebia, conversava sobre filosofia e arte, e escrevia até de madrugada; aos 17, recebi meu batismo de fogo, como disse o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, e peguei o rio e a BR.

Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento frustrado por absoluto fracasso meu, comecei o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B.

B media um metro e noventa, por aí assim, pesava uns 100 quilos, tinha os olhos claros e exercia fascínio sobre as mulheres, inclusive casadas. Depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, sua verve pessimista assustava todo mundo, daí que não vivia cercado de amigos. No nosso caso, havia uma coisa que interessava a ambos: os livros e os escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gosto de todos eles. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu, e, à sua maneira, sábio.

Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia após os 60 anos. Estive, muitas vezes, à beira do abismo; caí no poço dos prazeres mais carnais, e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperados, dos desesperançados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz onírica, o levantar voo num sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.

Comecei a mergulhar em novo conhecimento, a entender a máxima do filósofo Massaharu Taniguchi, que a matéria é sombra da mente. Se antes, aos 21 anos, sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas – turbinas que me conduzem à velocidade da luz, alimentada pela visão de uma rosa que se desnuda, de jasmineiros que choram nas noites tórridas, do azul que sangra, do som da Terra no espaço.

B, estou me sentindo sábio!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A tarde contém o mar

O novo ano começa para valer quando as ruas ficam floridas de estudantes, o trânsito mais lento e o ar enfumaçado. Então Brasília rescende a café expresso, paletó e gravada, e shopping. Em casa, preparo meu café Três Corações, gourmet, às 5 horas da manhã, ao som da madrugada e embalado pela boa sensação de saber que os meus dormem e, quem sabe, sonhem com rosas.

Sou viajor diário, ora mergulhado na dimensão literária, ora curtindo a cidade com os sentidos da alma. As possibilidades são muitas. Uma das caminhadas que mais me dá prazer é atravessar o Setor Comercial Sul a partir do Venâncio 2.000, onde paro em um café, enquanto aprecio as mulheres que transitam em torno de mim, como vitrines oníricas; e atravesso o Pátio Brasil, com suas incontáveis possibilidades nos corredores.

Cruzo a Avenida W3 e mergulho no labirinto do Setor Comercial Sul, prenhe de lindas mulheres, em um passa, passa que só cessa à noite. Escolho, quase sempre, o mesmo caminho. Gosto de determinada rua, onde fica um endereço que utilizo no meu romance A CONFRARIA CABANAGEM. Ao passar defronte dele, revejo uma personagem, e sigo.

É sempre prazeroso cruzar o Conic, um conjunto de edifícios também conhecido como Setor de Diversões Sul. Ao projetar Brasília, Lúcio Costa a fez assim, setorizada. Atravesso o Conic respirando o ar novo da manhã, em meio a um mundo de mulheres que voam em todas as direções, voo misterioso, pois a beleza jamais é plenamente decifrada.

Chego ao Conjunto Nacional, onde as possibilidades são infinitas, ainda mais quando o ano começa verdadeiramente. Percorro as livrarias. Numa delas, Leitura, sinto o prazer de ver um livro meu, O CASULO EXPOSTO, na prateleira. Almoço no restaurante Viva Brasília.

A tarde chega como o pulsar da música de Mozart, trazendo perfume e cheiro de maresia. A tarde contém o mar. Assim, navego a tarde a bordo de um transatlântico.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Mulher se pintando

Devido ao ângulo em que me encontrava podia vê-la impunemente, como um velho voyeur, que toma todos os cuidados ao praticar seu poético desvio, se o interesse é apenas ver mulheres entregues a si mesmas. A tarde expirava, e a noite ia tomando conta da cidade, lenta, mas firme. Eu tomara o metrô na Praça do Relógio, em Taguatinga, e desceria na 112 Sul, no Plano Piloto. O vagão não tinha quase ninguém e de onde eu me posicionara podia vê-la de perfil. Seus ombros eram graciosos e tinha longo pescoço, que lembrava um Modigliane. Seus cabelos, negros, eram curtos, deixando-me ver o brinco, balançando como estrela cadente. Seu nariz era pequeno e as pestanas longas. Pressionada pelo meu olhar vampiresco, ela se virou nervosa em minha direção e vi que seus lábios eram quase finos. Foi então que começou o espetáculo. 

Ela abriu a bolsa e sacou um estojo de onde tirou várias ferramentas, entre as quais um espelhinho. Mirou-se, passou blush no rosto, espalhou-o, e quando abriu o batom ajeitei-me no banco. Ver uma mulher passando batom nos lábios me arrepia. Ela deslizou o bastonete vermelho em toda a extensão de ambos os lábios e depois esfregou um no outro. Eu respirei forte. Então ela guardou o estojo e se acomodou, segura de si e relaxada.

Desci na 112 Sul e quando passei por ela me voltei rapidamente, com o olhar clínico armado. Ela não era bonita para os padrões televisivos, mas rescendia à beleza da sensualidade que só existe no mistério. Para onde iria? Para quem pintara aqueles lábios, agora salientes como os de Angelina Jolie? Em quem deixaria aquela tinta vermelha que a fazia belíssima?

Quando emergi da estação do metrô já era possível sentir a força de gravidade da noite. Ia pensando na mulher do metrô e na beleza feminina, e então me dei conta de algo que me intrigava há bastante tempo. Por que certas mulheres, com traços perfeitos, são tão sem graça? Percebi que a beleza feminina é como as rosas no mistério da sua solidão, e que só podemos senti-la completamente se captamos as mulheres no momento de entrega a elas mesmas.

Em O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, há uma sequência em que numa sala há um homem e duas mulheres. As mulheres parecem não ver o homem. Estão entregues a si mesmas, e são tão lindas que parecem flutuar na tarde. O homem aspira a cena, como um vampiro de luz.

Quando eu tinha 14, 15 anos, e recebi os primeiros beijos, de ninfetas tão lindas como rosas, havia um terremoto no coração, só comparado ao que sinto quando vejo uma mulher nua sentada ao toucador, a escovar os cabelos e a passar no pescoço e no colo fragrâncias de cio, os cabelos esvoaçando no mesmo abandono delas mesmas. Então, mais do que nunca, são como as rosas, que se bastam a si mesmas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Eternidade

Ray Cunha (foto de Iasmim Cunha - 7 de agosto de 2014)


Não consigo mais, durante toda uma noite, aspirar teu perfume
E beber a calidez que emana dos teus seios, e do teu púbis
Não consigo mais passar a noite inteira te amando
Mas isso tudo pulsa no meu coração como a eternidade

Meus cabelos vão rareando, embranquecidos
E os músculos, sem tônus, são cicatrizes
Quedo-me, silencioso, mas intenso como espilantol
Inexpugnável como rosas de agosto

Sinto meu corpo se desvanecer, e se condensar
A 300 mil quilômetros por segundo
Como se do azul eu fosse asas

Exploro as tuas dimensões
E ouço o som da Terra no espaço, durante o mergulho
Deus, risos de crianças, a eternidade, o agora


Meu pai, João Raimundo Cunha, e Ernest Hemingway, talvez o escritor que mais amplamente li, tinham 61 anos quando partiram para o mundo espiritual. Sei como as coisas são nessa idade. Nós três nos encontramos no Quartinho da Casa Amarela, portal onde mortos e vivos confabulam numa festa sem fim. Papa gosta do balcão do bar; papai prefere o quintal. Quanto a mim, curto intensamente tudo o que tenho.

Aos 21 anos, perdi-me, durante décadas, num emaranhado de labirintos, até descobrir que estivera andando em círculos no elemento feminino. Hoje, caminho melhor nesse mergulho, guiado pela experiência da longa caminhada. Meus sentidos, inclusive o sexto, estão encharcados de espilantol. Meu corpo denso começa a desaparecer, e sinto-me flutuando no éter.

Tantas coisas proporcionam-me prazer intenso: ver as pessoas que amo; ouvir o som da Terra no espaço, a madrugada, riso de crianças, Mozart, gemidos da mulher amada, ler, dormir, meditar, andar à toa, especialmente em grandes livrarias, beber tacacá, montar a luz, sentir cheiro de mulher nua. O tempo vai deixando de existir, dilui-se, o passado são cinzas atiradas ao mar, e não há amanhã; só há o agora e o agora eternizando-se.

Erguer universos com palavras, tem sido isso que me sustenta, e que me faz enxergar a nudez das rosas e o mistério que as mulheres exalam, nunca desvendado, porque eterno. Sou dono de tesouros imensos, de valor inestimável, pois desenvolvi a capacidade de sentir o voo da luz, o cheiro mar e o choro dos jasmineiros, nas tórridas noites do mundo, em agosto. Tenho telas de Olivar Cunha e sinto a presença das rosas que Isnard Brandão Lima Filho ofertou para a madrugada. E sou capaz, como um mágico, de aliviar dores com agulhas.

Não desejo mais descobrir ouro no morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene, no estado do Amapá, nem escalar o Pico da Neblina, nem pilotar um Boeing 777, nem praticar kendo, nem saltar de paraquedas, nem de mergulhar no coração das trevas da Amazônia. Basta-me a companhia de Hemingway, ou de Gabriel García Márquez, ou de Vargas Llosa, ou de Graciliano Ramos, ou de Machado de Assis, para viajar por mundos insuspeitos. Ou tomar Cerpinha enevoada no quarto de um hotel, no sétimo andar, ou na hora de ser enforcado ser salvo e dormir com a princesa.

Tudo o que quero é comparecer ao encontro marcado com a mulher amada, criar universos, sentir a noite, como um navio iluminado, embriagar-me com o perfume das virgens ruivas, ouvir o som da madrugada, sentir a presença do mar, do trópico, do sol das oito no rosto, diluir-me no acme e reaparecer no azul.

domingo, 5 de julho de 2015

Papo com Walmir Botelho D’Oliveira

Jornalista Walmir Botelho D'Oliveira e filhos
BRASÍLIA, 5 DE JULHO DE 2015 – Recebemos na confraria um jornalista brilhante: Walmir Botelho D’Oliveira, irmão querido, e mestre. Gabriel García Márquez está batendo altos papos com ele. Walmir foi para o mundo espiritual, ontem, aos 67 anos. Ele foi meu grande mestre no jornalismo, orientou-me na literatura, leitor voraz que era, e deu-me água em momentos de desesperança. Protegeu-me, estendeu-me as mãos nos meus voos cegos na caminhada. Conheci-o em Macapá, minha cidade natal; eu tinha 17 anos e ele já era um gênio, e se casou com uma ninfeta linda, minha amiga para sempre, Deury Farias. Depois, em Belém, trabalhei junto com ele e Octávio Ribeiro, o Pena Branca, em O Estado do Pará, e depois, em Brasília, no Correio do Brasil e no BSB Brasil, do Oliveira Bastos; e de volta a Belém, em O Liberal, em 1996/1997. Seu texto era impecável, e será sempre um farol nas minhas incursões jornalísticas. Cansamos de beber a noite toda, até o sol surgir, e de bater papo durante horas. Falávamos sobre literatura, mulheres, bebida, jornalismo, sobre tudo, e não cansávamos de voltar a conversar sobre todas essas coisas. Walmir amava a intensidade, a luz, o azul, não tinha apego a nada, nem ambicionava nada. Belém perdeu um pouco da sua graça sem Walmir. Em compensação, o Quartinho da Casa Amarela, que é na verdade o portal da confraria, está em ebulição, numa festa que não acaba nunca.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A eutanásia de cada um de nós

É outono em Brasília, e chove. Tem chovido todos os dias, como se ainda estivéssemos no verão. Os dias amanhecem frios, aquele frio dos trópicos, e entardecem nublados. A cidade é a mesma de sempre, parece que foi bombardeada: ruas esburacadas, calçadas estouradas e mato. O matagal cresce com vigor amazônico, chegando até o passeio público, cobrindo as rotas calçadas e invadindo nossa alma, deixando-nos um travo sutil, ao atingir um nervo exposto do corpo etérico. O ex-governador Agnelo Queiroz, que não logrou reeleger-se, deixou para o sucessor um atoleiro. Até hoje, Rodrigo Rollemberg lembra um pugilista que tomou uma saraivada de jabs e no intervalo entre um round e outro é animado pelo seu staff, que o abana, refresca-lhe a cabeça e lhe dá curtos goles de água. Agnelo, que ficou conhecido como Agnulo, homiziou-se na Argentina, deixando para trás a “cidade mais moderna do mundo” mais sucateada do que nunca.

Brasília é um três por quatro do Brasil, especialmente a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios. A sensação que se tem é a de Alice no País das Maravilhas. Há uma mulher, com nome de homem, Lula Rousseff, cleptomaníaca e megalomaníaca. Não se interessa por milhões de reais, mas por bilhões. Seca facilmente uma garrafa de 51, na intimidade, e exibe, aos capangas, Romanée Conti. É o capo di tutti i capi. A impressão que se tem é de que o povo brasileiro gosta de ser assaltado. Por exemplo: Jeca Sarney, o maior patrimonialista do Brasil, e que inclusive anexou o Amapá ao Maranhão, com a ajuda dos próprios amapaenses, é claro, assalta o país há mais de meio século, da mesma forma que o urubu velho Fidel Castro, e agora o zumbi Hugo Chávez Maduro, chupa o tutano de cubanos e venezuelanos. No Congresso Nacional, os políticos gargalham, nas suas bacanais.

Continuo frequentando o Conjunto Nacional, e a tomar o espresso do Café Doce Café. Robusta. O passa-passa é agora mais agitado e as mulheres ainda mais bonitas. Já notei que as mulheres são sempre mais belas, tão lindas que parecem nuas. Quase toda semana passo na Livraria Saraiva para ler a Veja. Sobre mim, um alto falante toca música americana da atualidade; guinchos. Costumo passar também na Livraria Leitura, onde, com um pouco de sorte, ouvimos até concertos. Nesses meus passeios, folheio livros que ambiciono ler, mas que ainda não chegou o momento de fazê-lo; observo-lhes o número de páginas, leio o início, ou alguma coisa sobre o autor, aprecio a edição como um todo, e fico imaginando como será bom ver um livro de minha autoria em edição tão primorosa. Outro dia, fui premiado com duas descobertas. Lendo o início de O Jardineiro Fiel, de John le Carré, percebi que a literatura classe A é sempre uma teia, e nunca um fio, como o jornalismo. E folheando Na Outra Margem da Memória, autobiografia de Vladimir Nabokov, percebi que o escritor de primeira categoria tem, sempre, um pé na dimensão do espírito.

Frequento também a Escola Nacional de Acupuntura (Enac), uma portinha no Bloco A da 404 Sul, onde faço o curso de Medicina Tradicional Chinesa. Lá, é uma universidade por definição, um centro de debates, um corredor de opiniões. Certa vez, ouvi de alguém que uma pessoa muito doente deve morrer, deixar-se matar, ou matar-se, para não exaurir seus familiares; uma exaltação à teoria de Charles Darwin, contribuindo, assim, para a evolução da humanidade, numa comprovação ao delírio ariano de Adolf Hitler. Mas há sempre as luzes de alguns mestres no corredor, equilibrando as opiniões que resvalam para o caos, como numa dança de yin e yang na espiral.

A propósito, a eutanásia pode significar uma zona de conforto para os que ficam, mas não haveria um propósito em deteriorar-se em cima de uma cama durante anos, dependendo dos outros para tudo? Há mais mistério entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia, como disse William Shakespeare. Creio que haja sempre um propósito em tudo, e que cabe a cada qual descobrir isso; cabe a cada um descobrir sua missão. Talvez o grande entrave de um candidato a terapeuta seja a dimensão física. E esse nó somente será desfeito quando ele descobrir que o plano físico é nada mais do que uma ilusão, semelhante ao mundo virtual do inseparável celular.