Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de maio de 2015

Papai faz 100 anos


BRASÍLIA, 16 DE MAIO DE 2015 – Alguns dos meus ídolos – Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry – manifestam duas características em comum: são escritores classe A e foram homens de ação. Um homem de ação é aquele que pensa e age simultaneamente, e também não vive quieto, pois está sempre metido em alguma aventura. A própria vida é sua grande aventura, até que, no caminho, é derrotado pela barreira da dimensão física, mas não é vencido, e passa a povoar o universo azul. Meu pai, o maior dos meus ídolos, não era escritor, mas era um homem de ação, e me contou histórias eternas.

Quando, aos 5 anos, descobri, no quarto do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, que seria escritor, ao meio de uma galáxia de gibis, revistas e livros, meu pai tinha 44 anos. Media 1,68, era seco e forte, o rosto oval, olhos castanhos e oblíquos, e usava uma loção à base de pinho após raspar, com navalha, o rosto, deixando apenas o bigode. Foi o homem mais corajoso que já encontrei; nada o intimidava. Internava-se na selva dias seguidos, sozinho, e era capaz de meter uma bala no buraco de outra, a mais de 100 metros de distância. Ele não era escritor, mas escreveu alguns poemas, que se perderam no tempo.

Lá pelos 14 anos, quando comecei minha carreira de escritor, trabalhando num poema, que também se perdeu, dedicado a poeta Alcinéa Maria Cavalcante, uma ninfeta completamente linda, peguei os originais do papai e li alguns dos poemas na Rádio Educadora, não me lembro mais se num programa do João Lázaro, ou do Luiz Tadeu Magalhães. Papai soube e me passou uma reprimenda. Mas senti, ali, naquele momento, que, de alguma forma, ele não se importou muito que eu tivesse lido publicamente seus poemas, e isso me deixou feliz, pois agradar o ídolo é para o fã o sonho mais ousado.

Papai não era escritor, mas foi um extraordinário contador de histórias. Leu Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, e contava a história para nós, meus irmãos e eu, como se Tarzan fosse real. Porém o que mais me fascinava eram as aventuras do próprio papai, especialmente quando se internou na selva profunda e foi atraído por uma sucuriju. Tonto, quase desmaiando, foi salvo pelo seu anjo da guarda; conseguiu avistar a cabeça da sucuri, apoiou o rifle numa forquilha e estourou a cabeça da serpente, uma cabeçorra do tamanho de uma lata de leite Ninho.

Papai chefiava todo o trabalho pesado no Aeroporto de Macapá, dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. Começava sinalizando à chegada dos Douglas DC-3, abastecia os aviões e os despachava. A primeira vez que o vi fazendo isso fiquei deslumbrado, e quando fui autorizado a entrar no avião foi como se houvesse entrado numa nave espacial. Meu pai conversava com os pilotos da nave e entrava no avião como se estivesse em casa, e serviram-me sanduíches e biscoitos inimagináveis.

Apenas uma vez o vi fraquejar. Foi quando a tragédia invadiu a Casa Amarela, a casa da minha infância, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliézer Levy, onde hoje uma seringueira plantada por meu pai no ano de nascimento do meu irmão, o gênio do pincel Olivar Cunha, intercepta o muro do Colégio Amapaense. Foi quando anunciaram a morte do meu irmão Francisco Pereira Cunha. Era 22 de novembro de 1965. Francisco tinha 18 anos e era belo como Zeus, e imortal como todo jovem. Meu pai foi atingindo por um raio. Caiu numa cadeira, mole, sem tônus, os olhos, sempre tão interessados pela vida, gritavam de dor. E logo depois veio o segundo choque: o corpo chegando. Não compreendi bem aquilo, apesar de ter 11 anos. Para mim, a matéria era para sempre, e só fui entender o que se passara quando, no Cemitério São José de Macapá, vi todos se sacudindo em choro, como chuva que não passa nunca.

Meu pai tinha 57 anos e eu 17, em 1972, quando peguei um barco para Belém e de lá, de carona pela Belém-Brasília, em construção, fui até Brasília, de onde parti para o Rio de Janeiro, onde vivi durante dois anos em Copacabana. Retornei a Macapá e, ainda inquieto, tomei a estrada novamente, até Buenos Aires, onde permaneci durante um mês, trabalhando como carregador de fardos de trapo, utilizado em pequenas oficinas, para um judeu-argentino que fora comando israelense, e que me viu na rua, no dia em que cheguei a Buenos Aires, identificou-me imediatamente como brasileiro, não me largou mais, pois adorava bater papo comigo sobre o Brasil, e sobre tudo.

Em 1975, retornei a Macapá e tentei voltar aos estudos, interrompidos no quarto ano ginasial, no Colégio Amapaense. Mas a inquietação não passara e resolvi conhecer a família do meu pai, em Manaus. Na ida, estacionei em Santarém, onde Paulo Cunha morava, e trabalhei na Rádio Difusora de Santarém, como redator e apresentador do jornal falado, durante um mês. Então parti para Manaus. Assim que cheguei e me hospedei na casa da tia Isabel, procurei saber o endereço do jornal mais central da cidade e fui até lá. O Jornal do Commercio ficava num prédio neoclássico na Avenida Eduardo Ribeiro, e exibia uma placa na porta: “Precisa-se de repórter policial”. Subi, procurei o diretor de redação, Cidade de Oliveira, e lhe disse que a vaga era minha. No dia seguinte, comecei a trabalhar.

No dia 6 de março de 1977, recebi um telefonema de Laurindo Banha, compadre do papai. Ele morrera, de colapso cardíaco fulminante, como árvore atingida pelo raio. Naquela época eu morava sozinho numa casa no bairro de São Francisco, onde o artista plástico português Álvaro Pascoa guardava dezenas de telas do pintor amazonense Hahnemann Bacelar. Só fui me dar conta de sua morte cinco anos depois, em 1982, em Belém, cursando Jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa.), aos 28 anos. Meu pai morreu com a mesma idade que Ernest Hemingway, aos 61, e, naquela época, eu já conversava com Papa nos bares da mente, quando o desejo de também bater longos papos com papai começou a se avolumar na minha alma.

Em carta de 8 de novembro de 1991, a mim endereçada, meu irmão caçula, Ricardo Cunha, graduado em História e pesquisador da nossa árvore genealógica, diz, sobre nosso pai: “Nasceu em Sobral, Ceará, e veio criança para a Amazônia. Seu primeiro emprego foi o de trabalhar na lavoura, com a mãe, Rosa Maria Cunha, para sustentar as irmãs, Isabel, Maria e Cunhã, já que seu pai, Manuel Raimundo Cunha, e seus irmãos, morreram em tenra idade. Foi capataz de quadreiro (capinador de campo de seringal) e serrador na Companhia Ford Motors, em Belterra/PA. Posteriormente, transferiu-se para a Cruzeiro do Sul SA, primeiramente em Belterra, depois em Santarém/PA e, finalmente, em Macapá, onde chegou em janeiro de 1950, seguido pela já numerosa família, em outubro daquele ano. Aposentou-se em 1975 pela Cruzeiro do Sul SA, com 35 anos de serviço ativo. Era alto, forte, sereno, ao mesmo tempo rude; embora semialfabetizado, era inteligente e intuitivo”.

Ontem, recebi e-mail do Ricardo: “Amanhã (16/05), se o nosso pai estivesse vivo, completaria 100 anos de idade. Soldado da borracha, caçador profissional, operário-padrão e um homem absurdamente honesto; um homem que amava as mulheres (desde a juventude até casar-se com nossa mãe), ele sempre representou para mim o arquétipo de macho durão, autossuficiente e mantenedor da entidade familiar”.

Abro aqui um parêntese para dizer que nossa mãe, Marina Pereira Silva Cunha, era a mulher mais bonita do mundo, e forte como as rosas, que são eternas.

Ricardo: “Sei que nunca serei cinco por cento que o nosso pai foi, pois, apesar do verniz de civilização que os estudos me proporcionaram, o nosso pai, perante a vida, foi mais homem do que a maioria dos homens que eu já conheci e mais e mais o admiro perante sua postura filosófica perante a vida: foi um homem cético (ele não acreditava que o homem tivesse chegado à Lua, por exemplo), mas extremamente honesto com seus princípios; não proibiu que a mamãe continuasse sendo católica devota e nem aos seus filhos, e também não vendeu seus princípios para agradar quem quer que seja.

“Amanhã, irei à missa, como faço costumeiramente todos os sábados, e até pensei em mandar rezar uma missa em ação de graças pelo seu centenário, mas depois refleti: aonde quer que o nosso pai esteja, ele esboçaria um sorriso irônico, por não acreditar em sistemas de pensamentos religiosos ou idealistas; daí resolvi respeitar a crença ou não crença do nosso pai e apenas farei um silêncio obsequioso e uma oração para, onde ele estiver, agradecer a sorte de ter sido meu pai e rogar que nos ajude nessa longa caminhada, em busca de felicidade e paz”.

Andei por aí como judeu errante, como dizia Paulo Cunha, durante uma década (1972-1982), em busca de mim mesmo, em busca de paz, e a encontrei ao iniciar a caminhada interior, que nunca termina, pois é uma espiral eterna, o caminho do Tao. Hoje, mergulhado na criação literária, que é tão somente um portal para a dimensão infinita, e no taoismo, quando mergulho no abismo de silêncio mozartiano da Meditação Shinsokan, no oratório do meu quarto, sinto papai e mamãe me abraçarem e me beijarem.

Chamávamos para o quarto do meu irmão Paulo Cunha na Casa Amarela de Quartinho; é lá que costumo encontrar-me com papai, Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry e todos os mortos que amo, num bate-papo interminável.

sábado, 8 de setembro de 2012

Rio de Janeiro

Cheguei ao Rio de Janeiro num dia de semana, sem lenço e sem documento, em 1972. Tinha 17 anos e não portava sequer carteira de identidade, e contava apenas com o terceiro ano do antigo curso ginasial, hoje, ensino fundamental. Queria sair de Macapá. Tomei um barco para Belém e de lá viajei de carona para Brasília e depois tomei um ônibus para o Rio de Janeiro, levando comigo alguns exemplares de Xarda Misturada, livro de poemas que publiquei em 1971, em Macapá, com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril. Lembro-me que cheguei no meio da tarde e na rodoviária pedi informações e tomei um ônibus para o coração do Rio de Janeiro, o cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, onde fica a antiga catedral da cidade de São Sebastião. Levava comigo o endereço de trabalho de uma amiga do pintor e poeta Manoel Bispo, de Macapá, e a confiança inabalável de um garoto ribeirinho de que a amiga do Manoel Bispo me receberia de braços abertos. Localizei-a quase à saída do trabalho; já na rua ela me olhou e me disse que eu não poderia ficar na casa dela, desejou-me boa sorte e sumiu na multidão.
Eu levava também comigo o endereço de um amigo que conheci no Colégio Amapaense, Sílvio, paulistano que fora para Macapá com o pai, um americano que trabalhava na Indústria e Comércio de Minérios de Ferro e Manganês (Icomi), que, juntamente com a Bethlehem Steel, transportou do município de Serra do Navio, para os Estados Unidos, a jazida do melhor manganês do planeta, a preços vis, e deixou uma imensa cratera no Amapá.
Na época, o Sílvio morava com os tios na Alameda São Boaventura 208, Fonseca, Niterói. Cheguei lá à noite. O Sílvio, sua tia e seus primos me receberam muito bem. Em novembro daquele ano apresentei-me na Primeira Região Militar do Exército. Eu meço 1,64 metro de altura, e creio que pesasse, naquela época, 50 quilos (hoje, peso 64 quilos), também a mudança de clima e a poluição causaram uma coceira no meu corpo todo, de modo que fui dispensado do serviço militar, e vi meu propósito de morar no quartel esfarinhar-se.
O tio do Sílvio era um oficial da Aeronáutica, negro, coisa rara na Ditadura dos Generais (1964-1985). Acho que o episódio que aconteceu naquela noite foi reflexo daqueles anos de chumbo. O tio do Sílvio chegou mais cedo. Eu estava tocando violão na sala. Aprendera-o em Macapá com um amigo de adolescência, Ribamar Teixeira. O tio do Sílvio ordenou que fôssemos todos dormir. Eu dormia num sofá, na varanda. Continuei tocando violão. Então o tio do Sílvio veio do quarto dele e ordenou que eu pegasse minhas coisas e fosse embora. Juntei meus pertences – algumas roupas e exemplares de Xarda Misturada – e fui para a rodoviária central de Niterói. Foi uma longa noite. Só senti mais frio na estação aeroviária de Buenos Aires, em certa noite que lá passei, e da qual surgiu o poema Noite Horrível, publicado no livro Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, 1982).
Só quem passa uma noite dessas é que sente o quanto o sol do alvorecer é vivificante. Nem bem o dia amanheceu, lavei o rosto, tomei café com leite e pão com manteiga e me mandei para a representação do governo do Território Federal do Amapá, no centro do Rio de Janeiro. O representante, Couto, era conhecido por ajudar amapaenses. Conversamos. Ele me perguntou se eu conhecia o Itabaraci, que é de uma geração ligeiramente antes da minha, de Macapá (onde hoje vive); contudo, seu pai, Aimore (em tupi, não leva acento agudo na última sílaba) Nunes Batista, era padrinho da minha irmã caçula, Rosa Maria. Disse ao Couto que sim, conhecia o Itabaraci, e ele me deu um conselho.
- Vai procurar o Itabaraci; ele mora num apartamento em Copacabana, onde a senhoria, dona Maria Antônia, aluga vagas – disse-me ele, e me deu o endereço: Rua República do Peru 210, Apartamento 204, entre as ruas Tonelero e Barata Ribeiro, Copacabana. Vivi dois anos lá.
Dona Maria Antônia, paraense, funcionária dos Correios, há muito radicada no Rio, foi uma das mulheres mais bacanas que encontrei. Ela simplesmente me acolheu, e só passei a pagar vaga depois que ela mesma conseguiu emprego para mim, como ajudante de carteiro numa agência dos Correios em Copacabana, e depois como faz-tudo numa empresa de conserto e venda de peças de eletrodomésticos, primeiramente numa loja em Ipanema e depois em Copacabana. Quanto ao Itabaraci, e seu irmão, o violonista e pianista Aimorezinho, que nessa época tocava na banda do Raul Seixas (hoje, vive em fortaleza), trataram-me como a um príncipe. Por isso sou eternamente grato a eles.
Logo depois, o compositor amapaense Luiz Tadeu Tavares Magalhães, que estava morando no Rio e trabalhava na White Martins, conseguiu para mim uma vaga como contínuo na filial de Jacaré, na Zona Norte. O Tadeu era músico e radialista em Macapá, e me entrevistara várias vezes, na condição de escritor. Em 1971, antes de publicar Xarda Misturada, participei de um jornalzinho colegial anarquista, A Rosa, de modo que eu tinha ideia de como fazer um house organ, e foi o que eu fiz, o jornalzinho da filial. Além disso, eu pagava mensalmente uma empresa que fornecia entradas a pelo menos quatro peças teatrais por mês. O gerente da filial, dr. Arlindo, também era cliente da mesma empresa, e andamos nos encontrando nos teatros. Conclusão: ele morava em Ipanema e passou a me dar carona para Copacabana quando saíamos juntos. O jornalzinho e o interesse comum por teatro entre o gerente da filial e eu, além da companhia do Luiz Tadeu, tornavam o ambiente pesado de multinacional da White Martins em um convívio bastante agradável.
Às sextas-feiras, principalmente após recebermos o salário, eu saía com o Luiz Tadeu. Às vezes, íamos para a casa do nosso colega de White Martins, Frank Loiola Matos, em Padre Miguel. O fato é que bebíamos muito. Também foi nessa época que conheci o Luiz Loyola, Lula, irmão do Frank, no Curso de Interpretação Teatral no antigo Teatro de Comedia do Estado da Guanabara (Teco), na turma do professor e ator Jorge Paulo. A prova final do curso foi a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque de Holanda, no extinto Teatro de Arena no Largo da Carioca. Fiz um dos coveiros. Nessa mesma época, começamos leituras e laboratório da peça Miolo de Pão, texto de Luiz Loyola e que expressava “a realidade conflitante, festiva e utópica de uma família do subúrbio carioca” – como diz o próprio Loyola. Nós nos reuníamos na casa do Jamil Viana, na Pavuna; na casa da belíssima Beth Bello, na Ilha do Governador; e na Vila Valqueire.
No quarto do Loiola, BOE (Boite Onda Estudantil), na casa em Padre Miguel, “aconteciam reuniões com muita música, teatro, poesia, happenings, num clima underground e ambiente psicodélico, cheio de posters de vanguarda, caricaturas, painel com capas de LP, objetos antigos, como um armário centenário com um enorme espelho de cristal na frente da porta, que encantava os narcisistas, uma luminária em formato de chapéu mexicano vermelho, iluminada por uma tênue luz azul opaca, lembrando cabarés da Avenida Prado Júnior, no Leme; no chão, havia um espelho retrovisor redondo, de aproximadamente um metro de diâmetro, do serviço de trânsito do Rio, apelidado de “poço” pelo companheiro de trabalho Paulo Cesar Americano do Brasil, da Remington Rand, onde trabalhei com Luiz Tadeu no inicio da década de 70” – lembra Luiz Loiola.
“Num desses eventos, em uma noite festiva, tive o prazer de receber o amigo Ray Cunha, sutilmente trajando: calça jeans do Lixo (boutique cult de Copa), camisa mangas compridas com gola rolé cor roxa e sapatos bicolor vermelho e amarelo... a figura tinha cabelos ruivos black-power no melhor estilo saltimbanco do ator do filme musical Gospell... em sua companhia chegaram Luiz Tadeu e Iara Picanço, depois de uma viagem de trem da Central do Brasil, direto do subúrbio do Lins de Vasconcelos” – recorda Luiz Loila.
“Numa única visita à casa de Ray Cunha, na Rua República do Peru, em Copacabana, na década de 70, o poeta me recebeu em seu quarto (vaga), onde havia uma cama beliche e o seu estado de saúde era gripal e febril, e driblamos aquele quadro e resolvemos sair pra respirarmos uma brisa do mar caminhando pelo calçadão, depois paramos numa lanchonete e tomamos um delicioso café e suco de laranja com sanduíche, e serpenteando pelas ruas sombrias do bairro, o poeta fez uma citação irreverente dizendo que "Copacabana era uma enorme cama, onde nordestinos descansam...” – Luiz Loiola mergulha mais naqueles anos dourados, referindo-se ao poema Essa Copacabana Triste Mulher, publicado no livro Sob o Céu nas Nuvens.
“Não posso deixar de relatar, uma noite quando eu e o poeta chegamos em minha casa em Padre Miguel fomos para a cozinha e nos deliciamos com café com bolo, pães, cuscuz de fubá preparados por minha mãe, dona Maria Amélia (in memorian); foi quando o poeta, degustando uma banana, começou a declamar versos de Xarda Misturada, dando um toque tropicalista romântico àquela noite de inverno tímido” – registra meu caríssimo amigo Luiz Loiola.
Nessa mesma época, Manoel Bispo foi fazer um curso de pintura no Parque Lage, e foi vizinho do Luiz Tadeu, no Lins. Havia fins de semana que o Bispo e eu saíamos para bater perna. Parávamos para ver os pintores que expõem nas ruas da Zona Sul, entrávamos nas galerias, íamos a cinema e conversávamos sobre tudo. Eu ia muito a teatro, cinema de arte, circos como o Moscou e a grandes shows, como o Santana. Ia muito, também, aos programas de auditório da extinta TV Tupi. Varava o Rio noite adentro. Em 1974, já como balconista da filial da White Martins de Jacaré, pedi demissão e voltei para Macapá.
Em 1982, em Belém, com o matrimônio fracassado, parti novamente para o Rio de Janeiro. Mas era como se eu estivesse sonhando. Lembro-me que fui com o Luiz Tadeu para Pedra de Guaratiba, onde o Luiz Loiola festejou seu aniversário, com muita batida do Primo, vinho, cerveja, happenings e a bela voz do Luiz Tadeu. Dessa vez, minha estada no Rio durou pouco tempo. Retornei para Belém e concluí o curso de jornalismo.
Nos anos 1990, eu estava novamente no Rio quando o pintor Olivar Cunha expôs na Fiesp, em Botafogo, defronte ao Shopping Rio Sul. Ao coquetel de abertura estavam presentes Luiz Tadeu e sua filha e minha querida amiga Luciana Magalhães, e Luiz Loyola.
Em 1992, fui ao Rio para lançar A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, contos). Foi uma estada etílica.
Em 2000, fui participar da Bienal do Livro, com Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Num domingo de manhã eu acabara de sair da praia de Ipanema, com Luciana Magalhães, quando houve o primeiro arrastão televisionado - cenas aterrorizantes. Também dessa vez foi como se eu estivesse mergulhado num sonho etílico.
Em 2010, passei uma semana com a minha gata, Josiane, no Rio. Ela é psicóloga e foi participar do décimo primeiro Congresso Brasileiro de Psicooncologia e do quarto Encontro Internacional de Cuidados Paliativos em Oncologia, de 22 a 25 de setembro, no Centro de Convenções do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), em Botafogo. Hospedamo-nos no Hotel Inglês, ao lado do Museu da República, onde Getúlio Vargas se matou, no Flamengo. Jantávamos num restaurante defronte ao Museu, quase sempre camarão. Todas as comidas daquele restaurante são deliciosas. Aquela parte do Flamengo, até Botafogo, passando pelo Largo do Machado, é a Europa no trópico – fantástico. Durante o dia, enquanto a Josiane estava no CBC, eu incursionava pela Zona Sul, num resgate memorialístico redentor da cidade que eu tanto amo. Durante aquela semana eu esquadrinhei a Zona Sul, agora com o olhar maduro do homem de 56 anos de idade e que não mergulhava mais em bebedeiras mortais.
Perambulei por muitas ruas da Zona Sul, observei a arquitetura, a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, bati perna em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, Flamengo, Botafogo, centro do Rio, e retornei ao Pão de Açúcar, com minha amada. Lá de cima sabemos de pronto por que o Rio é a Cidade Maravilhosa. Há cidades que aonde quer que eu vá estarei sempre nelas, porque elas, como o Rio de Janeiro, vivem para sempre no relicário do meu coração.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Octávio Ribeiro, Pena Branca

Em julho de 1978, eu trabalhava como repórter em O Liberal, no belo prédio assinado por Francisco Bolonha, antiga sede da Folha do Norte, na Rua Gaspar Viana, no centro de Belém do Pará, numa época em que o bas-fond ainda arquejava. Um dia, recebi pauta para entrevistar o lendário Octávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca, que estava na cidade para autografar seu Barra Pesada, livro de reportagens. Ele e sua companheira - na época, uma jovem paulistana, herdeira de uma indústria de vidraça – estavam hospedados em um pequeno hotel no centro de Belém. Era uma manhã ensolarada, pois julho é o auge do verão amazônico. Diga-se que verão na Amazônia é estiagem, ou é quando chove menos, estação que vai de maio a outubro; pressupõe-se que chove mais de novembro a abril, o que chamamos (sou amazônida) de inverno. Pena Branca recebeu esse apelido porque tinha uma mexa branca de cabelo no alto da testa, mas, em 1978, seu cabelo começava a ficar grisalho. Ele era grandalhão, tinha a voz grossa e emanava vitalidade. Quando leu a entrevista, comentou que era a melhor da imprensa local.

Naquela época, eu frequentava a casa do Walmir Botelho, hoje diretor de redação de O Liberal. Ele se casara com minha amiga de infância, Deury Farias, de Macapá. O Walmir comandava, juntamente com Oliveira Bastos, O Estado do Pará, um dos melhores jornais já feitos em Belém, e o Oliveira acabara de convidar o Pena Branca para dar uma sacudida na editoria de polícia do jornal. Quando o Pena me viu na sala do Walmir me convidou na hora para eu assumir como redator, recebendo mais do que o dobro do que eu ganhava em O Liberal. Aceitei de pronto.

Trabalhei um mês e meio com Pena Branca. Aprendi muito com ele, como armar frases claras e curtas, usar as palavras com propriedade, rigor gramatical e criar um tom coloquial nos textos, além de desenvolver feeling para a notícia jornalística. Aprendi também que em jornalismo é preciso investigar, investigar, investigar, para não cometer injustiça. De madrugada, quase sempre saíamos juntos, Walmir, Pena e eu, além de outros colegas. Íamos para a noite belenense. Uma noite, ele me convidou para dormir no apartamento dele e da sua mulher, no prédio da Assembleia Paraense, na Avenida Presidente Vargas. Estávamos lá quando rebentou uma discussão entre os dois. Parecia que iam quebrar o apartamento todo. Depois ficaram mansos. Soube depois que aquilo era normal entre eles. De qualquer forma só não fui embora porque Pena me pôs em cárcere privado. Não queria que eu fosse embora. Era um sujeito que precisava de companhia e movimento o tempo todo.

Além de redigir a manchete e outras matérias importantes de polícia, eu escrevia contos engraçados que eram publicados no jornal, e ainda ajudava, às vezes, o Walmir na capa. O Pena me adorava, porque gostava do meu texto e, creio, porque lhe transmitisse serenidade. Eu também gostava bastante dele. Mas em pouco tempo fui me enchendo da editora de polícia. Comecei minha carreira de jornalista como repórter policial no Jornal do Comércio, de Manaus, em outubro de 1975, em plena ditadura militar. O Casarão, a central de polícia, fedia a urina, a sangue seco, a tortura, a sebo. Os dois meses que trabalhei como repórter policial foram a travessia de um pântano de baixezas humanas, onde a morte trágica era rotina. De lá, fui para a reportagem geral de A Notícia.

Em O Estado do Pará, comecei a me encher daquele mundo de horrores, que era o mundo policial na época da ditadura, e também da falta de preparo, de sensibilidade, dos repórteres policiais. Na verdade, eu sempre quis escrever literatura; apenas ganhava a vida como jornalista. Aliás, eu não tinha sequer o ensino básico completo, e só entrei na universidade depois de fazer o supletivo dos antigos cursos ginasial e segundo grau, em 1982, terminando o curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), em 1987. Um mês e meio depois, pedi ao Pena para sair da polícia e ir para a editoria de cidade. A reação do Pena foi possessiva: disse ao Oliveira Bastos, que era dono do jornal, juntamente com Avertano Rocha, que se eu não fosse demitido ele sairia. O resultado é que eu me mandei.

Fui para Rio Branco, trabalhar com Elson Martins na Gazeta do Acre. De lá, voltei para Manaus e para Belém. Em 1987, vim para Brasília, e fui trabalhar novamente com o Walmir Botelho, então diretor de redação do Correio do Brasil. O Octávio Ribeiro andou também por Brasília, sempre brilhando. Daqui, foi para Manaus, onde morreu.

Em um mês e meio de convivência com ele foi como se o conhecesse há décadas, tal a intensidade com que vivia, e vivia intensamente a investigação, o deslindamento do mistério, a própria vida. Era também afetuoso, justo, e possessivo. Acho que se sentia só porque, como uma estrela cadente, se consumiu rapidamente num voo fulgurante. Resta a lenda.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ninguém é profeta em sua terra


Comecei a ouvir falar em Bonfim Salgado por volta de 1967. Tinha 13 anos e Bonfim já era um jovem intelectual de Macapá. No ano seguinte, quando comecei a frequentar a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, ouvi com mais frequência o nome do Bonfim e, às vezes, o via passar. Anos depois, o conheci no Rio de Janeiro. Depois disso, trocamos e-mails aqui e ali. Em 18 de fevereiro de 1998, Bonfim Salgado publicou na capa do caderno Nota 10, do jornal Diário do Amapá, o artigo Ninguém é profeta em sua terra. Segue-se o artigo.

Ninguém é profeta em sua terra

BONFIM SALGADO
bonfa.wordpress.com
Editor de Cultura do Diário do Amapá

Macapá, 18 de fevereiro de 1998 – O rapaz, a princípio, parece tímido. Ele não é alto, nem espadaúdo, como essa rapaziada frequentadora das praias e das academias de malhação da vida. O fato é que, outro dia, ele andava pelas ruas de Macapá, envergando aquela imagem comum aos nossos poetas e escritores: um calhamaço de papéis debaixo do braço, uma caneta Bic no bolso e uma porção de ideias na cabeça. Assim como aconteceu com Isnard Lima, nunca lhe deram o valor devido – e merecido.

Hoje, na capital do Pará (Belém), jornais e revistas publicam obras suas. Ele continua escrevendo e, vez por outra, referindo-se sobre o Amapá. As saudades, no entanto, não o impedem de fixar-se, cada vez mais, às raízes da Amazônia, à seiva bruta, generosa e forte que faz dos nossos caboclos autênticos gigantes da vida.

Ray Cunha, no conto Nunca receba restos, publicado no final do ano passado no jornal A Província do Pará, ensaia seus personagens e indica os caminhos do que poderá ser, em futuro próximo – se  é que ainda sei prever essas coisas -, o arcabouço do seu primeiro grande romance.

Graça e a “Gorda”, no conto retrocitado, compõem a galeria daquelas figurinhas noturnas que empestam a atmosfera peculiar do cais e feira livre do Ver-O-Peso, em Belém, cidade de cheiros, dengos e mistérios.

Aliás, apesar do pseudônimo de Reinaldo Castro, personagem principal do conto, é quase palpável um autodidatismo e uma identidade de Ray Cunha no desenrolar da narrativa.

“- Rainaldo Castro! – a gorda cacarejou, abaixando-se e beijando-me. A outra serpenteou e pousou no meu ombro a mão enegrecida pelo sol de alguma praia.

“- Olá, como vai? Como vai a faculdade?

“Bebi um bom gole. A negra dizia que a cerveja estava devidamente gelada, resignava-me e bebia com gosto mesmo assim, posto que era Antarctica.

“- A universidade? Tenho usado muita creolina...

“A crioula ficou atenta por causa do tom com que disse isso. A gorda pedira uma posta de peixe, não sem antes comer um naco do meu peixe.

“- E o Bebê? – Graça perguntou.

“Antes de casarmos, ela trepava com ele.

“- Casou-se – respondi.

“- Casou-se?! – as duas espantaram-se.

“A gorda, com um segundo naco do meu peixe.

“- Hoje é dia internacional... – disse, mudando o rumo da conversa. Estava bem-humorado.

“- De quê? – a gorda perguntou.

“- Das galinhas... – a crioula pegara alguma coisa e estava atenta – e das cadelas também.

Ray Cunha promete.”


O conto Nunca receba restos, do qual Bonfim Salgado publicou um trecho, foi publicado no livro A grande farra (27 contos, 153 páginas), que editei em 1992, em Brasília, com capa de Olivar Cunha.

domingo, 28 de novembro de 2010

O perfume das virgens ruivas

Naquela época eu trabalhava no jornal Diário do Pará e na revista Enfoque Amazônico, hoje, Amazon View. À noite, ia estava quase sempre ao café de um amigo meu, na Avenida Nazaré, próximo à Basílica, onde ele era barman e sócio. Conheci-o no Cosa Nostra, um dos melhores cafés de Belém. Na primeira vez que estive no Cosa Nostra fui atendido por esse barman e pedi um daiquiri, descrevendo-o do modo como Ernest Hemingway gostava de bebê-lo. Ele preparou a bebida tal qual pedi e, naturalmente, entabulamos conversa. Essa conversa se alongou até 1987, quando eu resolvi morar de novo no Rio de Janeiro, onde vivi de 1972 a 1974. Acabei ficando em Brasília, trabalhando com meu grande mestre no jornalismo, Walmir Botelho.

Passei a frequentar o Cosa Nostra. Inclusive estive lá com o Fernando Canto. Acabei entrevistando meu amigo barman para o Enfoque Amazônico. Lembro-me que o título principal da matéria foi “Tim-tim”. Um dia, ele foi convidado a fundar um novo café, em sociedade com mais uma ou duas pessoas, não me lembro bem, e se mudou para a Avenida Nazaré.

O café vivia cheio. Suas portas eram de vidro fumê e o salão refrigerado. A fauna que transitava ali era variada. Jornalistas, homens de negócios, artistas, contrabandistas, vigaristas, prostitutas, todos bem à vontade, conversavam, telefonavam, bebiam, riam, atentos uns aos outros, disfarçando a verdadeira missão de cada qual no enfumaçado ambiente.

Eu não pagava nada no café e não raro saía dali ziguezagueando, completamente bêbedo. Naquela noite, resolvi me embebedar com dry martini. Meu amigo reservou uma garrafa de gin inglês e outra de vermute italiano para meus drinks. Eu havia chegado cedo e no início da madrugada começara a escorregar para aquele mundo vertiginoso dos bêbedos quando ela entrou.

Era uma das mulheres mais sensuais que já vi. Entrou e se dirigiu diretamente para mim, como se tivéssemos marcado um encontro. Veio e se aboletou no tamborete ao meu lado, sorriu para mim e entabulou conversar. Como quase não havia movimento, meu amigo barman veio se juntar a nós. Eu já havia parado de beber, mas depois que ela chegou voltei a beber dry martini. Ela parecia fresca, mas estava chumbada também, e entornava um dray martini atrás do outro.

Não sei sobre o que conversamos, só me lembro de que entramos num táxi e fomos para um dos melhores moteis da cidade. Quando chegamos, ela estava tão bêbeda que tirou toda sua roupa e se deitou de bruços na enorme cama. Eu fiquei parado, no meio do quarto, vendo-a se despir e se deitar. Ela era demais linda! Peguei uma cadeira, pu-la no meio do quarto, me sentei e fiquei um tempão observando a garota. Lembrava uma modelo renascentista, dourada pelo sol da Amazônia. Suas ancas pareciam ter sido cinzeladas. Penso que ela não teria mais que 17 anos.

Fiquei ali, sentado, lambendo com os olhos o corpo maravilhoso da jovem adormecida. Ela sonhava. Certamente sonhava com rosas colombianas, vermelhas.

No dia seguinte, um domingo, eu teria que chegar o mais tardar às 7 horas no jornal, pois era julho, auge do verão amazônico, e fora pautado para fazer uma matéria em Salinas, na costa paraense. Assim, acordei antes das 6 horas e despertei minha bela adormecida. Incrível como ela me olhou fresca e sorridente, me beijou, foi ao banheiro, se vestiu, com a desenvoltura de uma esposa já bastante familiarizada com o marido, e saímos. Deixei-a na casa dela, no subúrbio, e fui para o jornal.

Naquela manhã, fiz o desjejum em Salinas, meia dúzia de ostras cruas, com sal e limão, e Antarctica enevoada. Salinas é uma das mais belas praias do planeta, escancarada para o Atlântico. O que a torna especial é que lá podemos comer os mais saborosos peixes do mundo, tomar tacacá e ouvir o sotaque das belenenses que fervilham nas praias quilométricas.

Eu era setorista no palácio do governo. Dias depois, estava lá, no batente, quando recebi um telefonema. Era ela. Ligara para o jornal, obtivera o número do telefone da sala de imprensa do palácio e ligou para mim. Sua voz era límpida, voz de mulher linda. Ela me disse que iria à sua cidade natal, no interior do estado - não me lembro mais qual era a cidade –, e que precisaria de uma certa quantia. A soma era pelo menos quatro vezes o que eu ganhava por mês nos dois trabalhos. Ela pronunciou o valor como se fosse uma ninharia. E de certa forma era isso mesmo, se falarmos em termos relativos. Respondi a única coisa que me ocorreu, que era a verdade: eu não tinha sequer um centavo. Ela riu e disse que na volta telefonaria para mim novamente.

Ela não voltou a telefonar para mim e nem a vi mais. Muito tempo depois compreendi que sua missão fora a de ajustar minhas antenas, para que eu descobrisse a poesia, única, que é cada mulher. E sei que não foi um sonho, porque seu perfume perdura para sempre na minha memória, como o perfume das virgens ruivas.


Brasília, 11 de novembro de 2009