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sábado, 10 de maio de 2014

MÃE!

Se me deixas gritar
Terei os pulmões satisfeitos.
Se me deixas correr, livre, pelos campos
Serei eternamente grato.
Se me permites conversar em voz alta
Os assuntos que me agradam
Serei filho forte e não terei medo.
Se não te importas eu escrever verdades
Então pronto, serei esplêndido.

domingo, 12 de janeiro de 2014

A noite é só nossa

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
Dez anos depois
Como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um barco que afundou
Ao largo do Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Só de te esperar!
Amor da minha vida, esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite, presente de Deus, para ti
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e uma infinidade de diamantes
Que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias, e dançaremos
Lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Granada, com Juan Diego Florez
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis, e beberei colostro
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia,
Só nossa!

Brasília, 12 de janeiro de 2014

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

FOGO NO CORAÇÃO

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Maresia

Inundaste meus olhos desde o primeiro instante
E agora, preso ao instante, sinto cheiro de sal aonde quer que vá
Sinto-o, como o cataclismo dos primeiros beijos,
Afogando-me, matando-me, vivificando-me no azul do teu mar

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mulher amada

As mulheres são a ilusão mais pungente
Que existe
Porque tornam o desejo inesgotável
E não saciam nunca
Inacessíveis, são como mênstruo,
O parto de um monstro
Imaginado apenas pela dor
Mas que suporta-se pela esperança
Do sorriso
Basta o olhar da mulher
Para acenderem-se todas as chamas
Munir de asas o homem mais medíocre
E engravidar de perfume o mundo


Linha 152, Rodoviária-Cruzeiro Novo, 4 de novembro de 2013, uma segunda-feira, 15h50, sol de rachar

domingo, 3 de novembro de 2013

Os portões da íris

Procuro na luz dos teus olhos
Misteriosos como a noite
Nos teus lábios de rosa vermelha esmigalhada
Nos meridianos do teu mar
Perder-me no azul
E sentir o sabor da tua boca
Do teu leite
Do teu púbis
Num desejo que me consome e não cessa nunca

sábado, 15 de junho de 2013

Posse ao anoitecer

Teu dorso, à sombra da tarde que finda e escoa em murmúrios,
É alvo como pétala de rosa vermelha; sinuoso; nu.
Agarro-me aos cabelos, às ancas, aos ombros, ao perfume,
Bêbedo de gemidos.
A noite se instala como transatlântico no porto;
Feérico, iluminado, Copacabana Palace.
Tuas costas são alvas como jambo.
De olhos fechados, sorvo cheiro de nudez,
Sabor de Dom Pérignon, safra de 1954;
Ouço Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo,
E os 14 minutos e 10 segundos do Bolero, de Maurice Ravel,
Sob a regência de Silvio Barbato.
Abro os olhos e enxergo o halo vermelho da noite,
Suave como o primeiro movimento, allegro,
Do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor,
Número 20, K. 466, de Mozart;
Pulsar longínquo, o atrito da Terra no espaço,
Gemidos femininos se esvaindo,
Som de maresia,
Sangue circulando nos tímpanos.
O segundo movimento, romanze,
Estrelas acamando-se no azul da alma.
O terceiro movimento, rondó,
Flores se abrindo ao riso de crianças.
Solto o urro, vibrante, de leão alado, ao ouvir gritos abafados,
E sentir que desmaias ao acme.


Brasília, 15 de junho de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

Por todo o sempre

BRASÍLIA, 19 DE MAIO DE 2013 – Minha gata, Josiane Souza Moreira Cunha, aniversaria neste 20 de maio. É para ela este rubi azul:

Mais uma primavera amplia tua vida
As flores que cultivas nas manhãs ensolaradas multiplicam-se
Como estrelas no início de certas noites, na Amazônia.
Já te dei todos os tesouros
A aventura das palavras
O poema mais intenso
O riso, livre como o vento,
Meu coração
O azul das regiões mais eternas do Universo.
E, no entanto, os teus lábios no meu corpo
Teu olhar luminoso
Teu riso de anjo
O Jasmim que geramos
São meu grande tesouro, meu combustível;
Alimentam minha alma
E me tornam inesgotável
Domador da luz
Leão de asas

sábado, 18 de maio de 2013

Abismo azul

Ouço Dança de Zorba, o Grego
Sinto cheiro de mulher nua
Ostra com Antarctica enevoada, em julho, às 9 horas
No ar saturado de mulheres lindíssimas e suadas, em Salinas.

Tu precisas me lamber com teus olhos verdes como lápis-lazúli
Para eu sentir o acme
Precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios
Para que eu morra como as rosas, que não morrem nunca
Porque são imortais na sua explosiva beleza.

Imobilizo minha amante pelos cabelos
Beijo-a na boca, faço-a gritar de prazer
Ela é a própria noite
Café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas
Que dizem oi quando passo.

Ouço Caravan, ouço-a tanto que fico cheirando a púbis ruivo
Que inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.
Degusto Antarctica, com Jorge Tufic, em Manaus, no Nathalia
Lambo o rosto da Tharcilla
Beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara.

Como Isnard Lima Filho, oferto rosas para a madrugada
Ao extrair gemidos da mulher amada, percorrendo sua pele de jambo
E sonho com leões caminhando na praia, ao amanhecer.

Igual Picasso, com seus olhos negros, nonagenários
Sou como pássaro que nunca envelhece
Nasci com asas invisíveis aos olhos
E que se equilibram no éter como avião de caça
Riscando um golpe branco no azul

terça-feira, 14 de maio de 2013

Minha namorada

Josiane, minha eterna namorada
 
BRASÍLIA, 14 DE MAIO DE 2013 Comecei a namorar com minha gata, Josiane Souza Moreira Cunha, em 15 de maio de 1988; vimos, naquele dia, O Último Imperador da China, de Bernardo Bertolucci, no antigo cinema do Conjunto Nacional. Desde então, começamos tudo de novo a cada dia. É para ela este soneto, que escrevi hoje.
 
O primeiro beijo que me deste, explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo

Desde então, flor da minha vida,
Sou prisioneiro do teu olhar
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada!

Segue-me, pois te mostrei quase nada.
Tenho a chave dos sonhos,
Que conduz para a eternidade

A fogueira do nosso amor, minha namorada,
O voo vertiginoso
Da luz movida a acme

domingo, 20 de janeiro de 2013

Abismo azul

Liberdade é o domínio do espírito sobre o corpo, que é limitado,
Matéria, tão somente átomos; desintegra-se, deteriora-se,
Desmancha-se no ar.
O voo infinito só cabe na alma, livre de amarras, absoluto,
Agora e agora, no momento mesmo da vida.
Liberdade é sentir no nariz, na boca, nas mãos, no corpo todo,
O abismo de mistério que é uma mulher nua
E que não pertence a ninguém, como o azul do mar.
Liberdade é jasmineiros chorando, gemidos de madrugada,
Que se diluem, como música, no jardim.
Há liberdade no navio que parte do trapiche de Macapá,
No Boeing 737, no Gmail, no éter, que leva o pensamento a toda parte.
Liberdade é o sol, após uma noite ao frio na Rodoviária de Niterói
Ou na Estação Aeroviária de Buenos Aires
Quando a esperança quebrou-se como cristal fino,
Somos salvos do assassino e dormimos com a princesa.
Liberdade é a alegria que vejo nos teus olhos
Quatorze apoios antes de tomar banho
Café Três Corações, gourmet, com leite em pó,
Levantar-se todos os dias às 4 horas, para criar
Comer feijão com arroz como quem degusta camarão pitu com pirão de açaí
Tucunaré frito, tamuatá ao tucupi.
É não sentir ciúme, inveja, medo
Sentir as mãos da mãe no rosto
E a presença eterna do pai, forte como um touro, sereno
A plenitude do primeiro beijo
O triunfo da luz! 

Ray Cunha
Brasília, 20 de janeiro de 2013

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Pequeno poema de Natal

Existe um jardim prenhe de rosas colombianas vermelhas, zínias multicoloridas
Jasmineiros que espargem Chanel número 5 em tórridas noites de agosto, na Amazônia,
Quando o céu é só diamantes e, de tão azul, sangra.
Escorre, nas frestas deste jardim, ouro, nas manhãs ensolaradas
E há uma mina, onde brotam as roseiras mais vermelhas
E de onde retiro rubis e esmeraldas.
No jardim, todas as manhãs são arrumadas por Deus, e são eternas.
As crianças adoram brincar entre as flores
E seus risos são o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor.
Sou o apanhador do jardim; quando a bola das crianças cai longe, na relva,
Corro para devolvê-la e continuar ouvindo-as,
Como ouço o sangue latejando nos tímpanos, o atrito da Terra no espaço,
O hálito de Deus.
O jardim é fovista como a paleta mais luminosa de Olivar Cunha
E os alimentos são doces como o sumo dos frutos mais desejados.
O cheiro de maresia
O sabor de leite materno
O azul das rosas vermelhas
Mozart
O cetim das pétalas
O voo vertiginoso no Éter
Guardo num relicário, na memória do meu coração,
Que é de vocês, Josiane e Iasmim,
Neste Natal, e para sempre.
 
Brasília, 24 de dezembro de 2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

Voo vertiginoso

No meu coração brincam muitas crianças;
Seus risos, ouço-os azuis, a pingar diamantes.
E sinto rosas desabrochando, como vertigem do primeiro beijo,
No ar prenhe de Chanel número 5.
Meu coração respira o sabor da mulher amada,
Cheiro de mar numa tarde de julho.
Meu coração pulsa movido a risos de crianças
A rosas desabrochando
Ao choro de jasmineiros em tórrido anoitecer na Estação das Docas
A madrugadas
A acme que escapa dos lábios da mulher amada,
Secos de gozo, e que ela umidifica com a língua,
Tirando os cabelos do rosto, num gesto intenso.
Meu coração está prenhe do sabor indescritível
Do corpo da mulher amada, que eu ergo, como leão
Abismo de labirintos em que sou conduzido pela luz de uma estrela de outra galáxia,
Inalcançável, mas que cintila nos meus próprios olhos.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Poesia em estado bruto


Ouço Espanha, de Chabrier, e sinto cheiro de mulher nua - ostra com Antarctica enevoada, às 9 horas, em julho, no ar saturado de mulheres lindas e suadas, de Salinas.
Tu só precisas me lamber com teus olhos verdes como rubis para eu sentir o acme
Tu precisas apenas sorrir e tocar nos meus finos lábios para que eu possa morrer como as rosas, que não morrem nunca, porque são imortais na sua explosiva beleza de um eterno segundo.
Vou presentear ao Facebook minha presa, minha amante, que imobilizei pelos cabelos, beijei-a na boca, fi-la gritar de prazer: ela é a própria noite.
A grande sedutora é como um café noturno, cheio de mulheres misteriosas de tão lindas e que dizem oi quando passo.
Ouço Caravan, de Duke Ellington, ouço-a tanto que fico cheirando a púbis ruivo, que inunda meu olfato, meu paladar, meu cérebro.
Degusto Antarctica de Manaus com Jorge Tufic no Nathalia, beijo os lábios carnudos e mordo o pescoço da Mara, lambo o rosto da Tharcilla, que implora pela minha pegada.
Como Isnard Lima Filho, oferto rosas para a madrugada,
Sonho com leões, ao amanhecer, na praia, com a mulher amada, de quem extraí gemidos e agora ela dorme tranquila sob minha guarda.
Igual a Picasso, com seus olhos negros, nonagenários, sou como pássaro, que nunca envelhece, mesmo que lembre maracujá de gaveta, porque nasci com asas invisíveis aos olhos, e que a somente algumas mulheres é dado ver a maravilha dessas engrenagens que se equilibram no éter como caças, e deixam uma trilha branca no azul.

domingo, 8 de abril de 2012

História maldita


Não sei quando terminarás, ou se terminarás
Sei que começaste ao abandono de uma tarde estrangeira
Quando a esperança quebrou-se como cristal fino
A este medo insinuante.
Começaste sem saída.
Tentarei manter-me vivo e lúcido
Enquanto escrevo esta história curta e angustiante
Tentarei não pensar no abandono
A ansiedade e a angústia que me tomam
Talvez me desesperem
É pena eu ter coração e ser fraco diante de certas cenas.
Às vezes preciso chorar porque o mundo me magoa.
Essas são coisas que acrescentamos num poema
Corrigido e circunspecto.
Enfim, tudo é relativo.
Relativo a este caso estrangeiro.
A eventualidade é um conto fantástico
Dentro da retórica de um judeu-argentino.
Sou um a mais na caravana em desespero
Não tenho mais o sentido das coisas
Dentro de um âmbito de soluções.
Sou um pontito escuro
No porto de chegada.
Ilusão estremunhada
Cansaço num caminho curto.

Do livro Sob o céu nas nuvens, 94 páginas, publicado em 1980, em Belém do Pará, edição do autor, esgotado. Os poemas desse livro foram escritos nos anos 1970. História maldita, por exemplo, foi trabalhado em Buenos Aires, concluído em 9 de outubro de 1974. Eu tinha 20 anos e estava na estrada, como milhões de jovens, em busca de si mesmos. Encerrei essa fase, que iniciara em 1972, aos 17 anos, em 1982, aos 26 anos. Lendo Ernest Hemingway, descobri que aonde quer que vamos, levamos sempre nós mesmos. Assim, Papa me ensinou que o que estamos vendo como problema está em nós mesmos, e nunca nos outros, ou no lugar onde vivemos. Lembro-me que em 1972 estive na casa do teatrólogo Paschoal Carlos Magno, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Ele foi uma espécie de guru de jovens artistas. E eu “fugia” de Macapá. Disse-lhe que queria ir para Paris. Ele me perguntou por quê.

- Para escrever um romance – respondi-lhe.

- E por que você não o escreve aqui? – indagou.

Não soube responder, e escrevi o romance A Casa Amarela (Cejup, Belém do Pará, 2005, 158 páginas), 33 anos depois, em Brasília. Ele é Macapá, que guardo no meu coração, como um raio de sol, ao amanhecer, transformando gotas de orvalho numa rosa vermelha em imenso rubi cravejado de diamantes.

terça-feira, 6 de março de 2012

Gritos azuis

A noite chega doce como abismo azul.
Ouço Summertime, entre os rumores da noite.
Falam-me de Macapá e da Estação das Docas.
Compreendo, então, que o som vem do meu coração.
Ouço risos de crianças,
E deposito toda a minha esperança nesses pequenos deuses.
Ouço vozes femininas,
E sinto a nudez de todas as mulheres muito lindas,
Como Boeing pousando.
A noite jorra na minha memória
Como cataclismo de rosas
O atrito da Terra no éter
O Concerto Para Piano e Orquestra, de Mozart,
O choro dos jasmineiros
Que vertem Chanel número 1.
O céu é tão intenso que verte rubis
Os shoppings estão lotados
De mulheres seminuas
Nesta noite de março, em Brasília.
Suave como o cochichar de lábios carnudos ao meu ouvido
A noite avança prenhe de romance e mistério
Encontro-a em toda parte
E ela surge das minhas mãos de criador
Na tela do computador
Por toda a eternidade!


Brasília, 711 Sul, 6 de março de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Iasmim, 22 anos




As mãos que te embalam, o anjo que zela pelo teu triunfo
Sou o que te guarda desde o nascimento.
Agora, o sol aquece o rubi azul em que desabrochas
Como latejar da música de Mozart
Um trovejar silencioso
O atrito da Terra no espaço
O voo das crianças
O esplendor da luz:
Iasmim!

Brasília, 18 de fevereiro de 2012

Minha filha, Iasmim, completa 22 anos, neste 22 de fevereiro. Escrevi para ela o poema acima, o azul mais profundo que encontrei, e que tirei do meu coração, numa prece. Pedi ao Criador para arrumar todas as manhãs da minha filha, pintar suas tardes de perfume e adornar suas noites com os maiores diamantes do mundo, e espargir, à sua passagem, riso de crianças e de flores. Sua mãe, Josiane, ensinou-a a demonstrar gratidão aos nossos antepassados estendendo as mãos para os que tateiam no escuro, e a ensinamos a ser justa e valente, e a jamais sentir medo. E, no entanto, é ela minha luz!

Ano passado, meu presente também foi azul. Sou escritor, e esculpir o azul com palavras é o que sei fazer. Assim, dou sempre a ela, no seu aniversário, no Natal, todos os dias, meu coração.

Iasmim, meu amor!

Comecei a sentir tua presença logo nos primeiros dias após tua concepção, pois Josiane, tua mãe, começou a ficar ainda mais bonita, a desabrochar como rosa grávida. Eu sentia no ar tua presença como a luz na alma, a música de Mozart nunca pulsou tão divina e o perfume da vida me extasiava. Eras tu que estavas vindo, para alegrar, para sempre, minha vida.

Logo o ventre da tua mãe começou a crescer. Eu o beijava e tu tentavas, lá do teu mundo uterino, tocar em mim. Os meses passavam e eu, agora, tinha duas namoradas. E queria também ficar juntinho do ventre da tua mãe, e líamos contos dos gênios da literatura infantil para ti. Abraçado à tua mãe, eu te sentia; e me sentia Deus. Já não criava somente personagens de ficção, mas estava prestes a ver o triunfo de uma criação perfeita.

Josiane ficou esplêndida, um santuário que eu beijava ajoelhado. Uma noite, 22 de fevereiro de 1990, o rio da tarde acabara de desaguar no Ocidente quando tu anunciaste que querias nascer. Joanira, um anjo que te acompanha desde sempre, levou tua mãe e eu ao Hospital Regional da Asa Norte, e, às 23h40, os jardins do mundo se iluminaram, pois nasceu um jasmim.

Na manhã do dia seguinte, fui te conhecer. Quando te vi, filha, senti uma emoção tão azul que vertia rubis, diante da luz, intensa, redentora, que tu emanas. Sabíamos que somos um só, tua mãe, tu e eu. Pedi a Deus, meu Pai, que arrumasse a manhã para ti, a manhã da tua vida. Ele, então, me muniu de amor, luz, sabedoria, gentileza, para que eu cuidasse de ti.

E tu cresceste como um botão que abre imperceptivelmente as pétalas ao sol, como um poema cada vez mais azul. Eu lia histórias para ti, até um dia que tu mesma começaste a ler, e não paraste mais. O riso da tua infância, que guardo no relicário do meu coração, é minha perene alegria. 

Completas 21 anos neste 22 de fevereiro. Todos os anos eu te dou o mesmo presente, que sou eu. Pertenço à tua mãe, de quem tu fazes parte, e sou teu também, porque és parte de mim, por isso te dou meu coração, que é o que me resta, pois nas histórias que te contei já te dei o mundo, e todos os jardins, e todas as rosas, e os girassóis de Van Gogh, e todo o perfume, e a música de Mozart.

E eu serei sempre um ser híbrido de anjo e leão, empunhando uma espada de luz, para garantir que teu caminho esteja seguro.

Teu!

Ray Cunha


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O banquete dos que eu amo

O tarde é feita de mulheres que passam batom na boca
De crianças que riem
De sabiás que amam
De rosas nuas,
De silêncios.
A tarde é prenhe da solidão da madrugada
E, ao mesmo tempo, de um grande aeroporto numa sexta-feira à noite.
A tarde é o agora e o agora, numa temperatura de 21 graus centígrados,
Sombra tropical, cadeira de palinha e café espresso arábica.
A tarde é prenúncio de estrelas e do rastro de mulheres tão lindas
Que vivem nuas.
A tarde é uma mulher grávida de amor,
E que tem sabor de vinho europeu.
A tarde evoca sons de diamantes,
Excitante como beijo de língua
E sabor de ostra e Bohemia enevoada.
A tarde é o riso das virgens ruivas
E, da luz, o triunfo.
A tarde é tudo o que tenho para dar neste Natal,
E, no Ano Novo, darei minha alma, que é toda a minha luz.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

As rosas falam

Chove na minha memória
Barcos deslizam na boca do rio Amazonas e despencam no Atlântico
Na latitude da Linha Imaginária
Espero as chuvas com a mesma sofreguidão com que aguardo
O outono, o inverno e a primavera
O verão, como ocorre em todas as estações da vida,
Inunda o continente do meu coração
De rosas tão azuis que sangram
E mangas doces como seios de mulheres de olhos verdes como esmeraldas
E, se é madrugada, a chuva se confunde ao som ininterrupto do mar
E o atrito da Terra no espaço invade minha alma
E se mistura ao perfume das virgens ruivas, misterioso como mulher nua
Como a luz, como o éter, como o triunfo das rosas

Brasília, 11 de outubro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cheiro de mulher nua

Estou sentado em um quiosque defronte ao Macapá Hotel,
Só, mas há muita luz e mulheres tão lindas que só as vemos em grandes aeroportos internacionais.
Estou só, mas o rio Amazonas, o maior do mundo, ruge como o mar em Copacabana, na maré cheia, e salpica meu rosto, escanhoado para esta noite.
Ouço merengue.
Estou aparentemente só, pois meu Pai enviou uma legião que me acompanha por todo o sempre, meus amigos logo chegarão e sinto o perfume das virgens ruivas.
Estou só com meu coração, relicário de pedras preciosas como acme da mulher amada e o choro dos jasmineiros nas noites tórridas da Linha Imaginária do Equador.
Estou só, mas estão comigo Belém, Manaus e Rio de Janeiro.
Minha solidão é como a dos pugilistas e dos escritores: quando começa o assalto, ninguém os pode socorrer e eles só contam com o talento, por isso nunca estão sós.
Nunca estou só, porque meu carisma é feito de pura luz
E minha lucidez é o Concerto para Piano e Orquestra, em ré Menor, de Mozart.
Estou só, mas o céu é tão azul que chove rosas colombianas vermelhas
E o ar é prenhe do cheiro de mulher nua.