A noite se avizinhava na 201 Sul, e ia chover. Havia poucas
pessoas no Restaurante e Café Monardo. Na mesa mais ao fundo, dois homens
conversavam. Um deles era jovem, tinha em torno de 40 anos, e o outro, de
cabelos completamente brancos e a pele do rosto começando a engelhar,
aparentava ter 70 anos, por aí assim.
– Ela me pôs a nocaute – disse o velho. Na verdade, ele
tinha 80 anos, mas era vigoroso e seco. Seus olhos, vivos como duas esmeraldas,
estavam claros, quase sem clorofila.
– Meu caro Picasso, ela só tem 29 aninhos; ainda não é nem sequer
balzaquiana – respondeu o tipo mais jovem, com sua voz de tenor.
– A questão não é essa, a questão é que eu nunca deixei de
ser um garoto carente, e ela abriu a porta.
– Como assim abriu a porta? Só porque deu atenção a você? –
volveu o de meia idade, carioca, já acostumado com Brasília.
– Ela me enfeitiçou quando disse que tem a alma da natureza,
e que é como o mar. Aquilo foi lá no fundo, como um maremoto, sepultando-me no
abismo, até que, sem fôlego, puxei oxigênio daquela boca de rosa esmigalhada, e
fui salvo pelos seus olhos egípcios. Mas compreendi que ela estava apenas
confiando a mim sua alma, certa de que eu não tentaria entrar no seu santuário.
Não paro de pensar nela.
– Cara, acho que vou fortalecer seu pericárdio e seu baço.
– Como assim? – o velho perguntou. Estava bebendo Lacrima
Crhisti. O outro degustava Bohemia enevoada.
– O pericárdio protege o coração das invasões azuis e o baço
remói as lembranças mortais, como, por exemplo, o cataclismo dos primeiros
beijos – disse o de meia idade, que era acupunturista de mão cheia.
– Não quero travar nada que se dirija ao meu coração, nem ao
meu baço; pelo contrário, se você souber de um ponto que funcione como a pílula
azul, espete-o, para que eu delire pronunciando o nome dela: Ava! Ava! Ava!
– Se eu soubesse de um ponto assim já teria comprado um
Girassóis, de Van Gogh – disse o de meia idade. – Tenho um paciente, que, na
verdade, o problema não está nele, mas na mulher dele. Ele me contou que sua
mulher é todinha uma vaca, perscrutando-o. Ele é o capim e ela o mastiga,
mastiga, engole-o, regurgita-o e volta a mastigá-lo. E como ela é quem paga as
contas, ele vai pegá-la no salão e a espera, às vezes, uma hora antes de ela
sair, e ele fica pasmo porque as mulheres falam todas ao mesmo tempo e todas
entendem o que as outras dizem. Ele costuma dizer que Freud mudaria de
profissão naquele salão, ou simplesmente tendo sua mulher como paciente. Se eu
soubesse desse tal ponto azul, já teria dado um jeito nesse cara, e ele comeria
a vaca dele todas as noite, ou o tempo todo.
– Não, o que eu quero é ter uma ereção poética – disse o
velho, que era pintor. – Vou desnudá-la em uma tela, vou colocar o mar
inteirinho naqueles olhos enormes, rasgados e negros, vou fazer aquela boca de
rosa esmigalhada exalar néctar, e, do seu corpo, o perfume das virgens. – O velho
desenhou-a num guardanapo. De fato, Ava era completamente linda.
– Cara, esquece-a – o outro aconselhou o mais velho.
Conheciam-se há bastante tempo, e o acupunturista, que era rico e aficionado
por pintura, já tirara o velho de diversos apuros, pois o considerava um gênio.
Sentia-se responsável pelo sofrimento do amigo, pois apresentara Ava a ele.
O velho percebeu sua aflição.
– Você não entende: não quero assepsia, quero inflamar-me
dessa infecção, que essa infecção vá até meu tutano; isso vai resultar numa
série de quadros e desenhos, tudo Ava.
– Sejamos realistas, ela não vai dar a mínima a você, nunca.
– Já deu. Quando disse que é o próprio mar, disse tudo. Sei
que ninguém pode possuir o mar, mas acontece que já sei o azul que vou utilizar
quando pintá-la.
– Mas ela deu esperança de posar para você?
– Não, e nem será preciso. Já tenho tudo o que preciso.
– Grande Picasso! – o de meia idade exclamou, com pena do
seu velho amigo. – Estou me sentindo meio cansado; vou ver uma comédia quando
chegar a casa, Carga Explosiva III.
– Você já viu todas essas porcarias?
– Só Carga Explosiva II, por acaso, na televisão.
– E agora alugou Carga Explosiva III?
– Sim; não havia o I.
– Eu ainda vou demorar-me para ir pra casa. O porteiro do
meu prédio é jovem, mas está caindo aos pedaços, e isso me deprime.
– E quando a tela vai ficar pronta?
– A dos pombos?
– Sim.
– Estou trabalhando nela. Os pombos estão catando comida no
asfalto, entre os carros, arriscando-se a morrer esmigalhados, apenas se
desviam das rodas dos carros e continuam catando comida, apesar de ter asas. Se
eu tivesse asas, voaria para dentro do mar – disse o velho, sonhando com uma
manhã de ressaca, em Copacabana.
Já estava sozinho quando Antonello Monardo chegou. Gostava
de conversar com o italiano. Logo depois a chuva rebentou, com a mesma força
com que na alma do velho escorria sal, azul como rubi.
Brasília, 1 de novembro de 2013