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O artista plástico amapaense Olivar Cunha e a acrílica sobre
tela de 2005 Baixada, paisagem comum na periferia
das metrópoles da Amazônia, como Manaus e Belém
BRASÍLIA, 28 DE FEVEREIRO DE 2014 – Na
letra de Amazonês o compositor e
cantor Nicolas Júnior utiliza palavras como “maninha, leso, triscar, ralhava”,
só conhecidas na Amazônia, mas disponível na internet. A comunidade Eu Falo Amazonês,
no Facebook, registrava, até às 11h39 de de 28 de fevereiro, 65.397 curtidas. No Youtube, o
humorista amazonense Abdias, O Cabucão, registrava, às 11h28 de hoje, 995.471 visualizações
do vídeo Vou Cagar nas Calças,
paródia de Gangnam Style, do coreano
Psy.
Para Sérgio
Freire, doutor em linguística e pesquisador do falar amazonense, os manauaras
sofrem três influências: indígena, portuguesa e nordestina. O índio é
autóctone, os lusitanos chegaram ao Amazonas na primeira metade do século 16 e
os nordestinos, no ciclo da borracha. “Temos a herança fonológica dos sons do
português de Portugal, por isso que chiamos ao puxarmos o s. Também recebemos
influência dos nordestinos, que vieram para cá como soldados da borracha na
década de 40; e, por fim, a influência muito grande da linguagem indígena, com
suas expressões. Nossa matriz oral vem daí, em maior ou menor grau” – explica Freire,
autor de Amazonês, que lista
expressões regionais, especialmente tupis.
O amazonês é
apenas uma peça da língua brasileira, que, cada vez mais, se impõe no planeta,
levando para as regiões frias, que antes sediavam a metrópole, a riqueza
cultural e a alegria dos trópicos, por meio da literatura, da tecnologia e do
trabalho. Tudo começou na região ocidental da Península Ibérica, há 300 anos antes
de Cristo, com os soldados romanos e seu latim vulgar. No ano 500 da era cristã,
o Império Romano começou a desabar, mas deixava várias línguas, variantes do
latim. O português escrito começou a ser utilizado, em documentos, no século IX;
no século XV, já se tornara língua literária.
Desde os
romanos, havia duas províncias na região em que se formou a língua portuguesa:
Lusitânia, hoje Portugal, e, ao norte, Galécia, Galícia para nós, brasileiros. O
Império Romano conquistara a região ocidental da Península Ibérica, criando as
províncias da Lusitânia e da Galécia, equivalentes, hoje, ao centro-norte de
Portugal e à província espanhola da Galícia, a noroeste da Espanha, nas quais
se começou a falar latim vulgar, do qual nasceram as línguas neolatinas e 90% do
léxico, ou dicionário, da língua portuguesa. Os únicos vestígios das línguas
nativas dessa região dormem na toponímia da Galícia e de Portugal.
Entre 409 e
711, o Império Romano entrava em colapso e a Península Ibérica era novamente
invadida, agora por povos de origem alemã – suevos e visigodos –, que os
romanos chamavam de bárbaros. Entretanto, os novos invasores absorveram a
língua romana da península. Devido ao fato de que cada uma das tribos bárbaras
falava latim à sua maneira, o resultado foi a formação do galaico-português, ou
português medieval, o espanhol e o catalão.
Em 711, a
península foi invadida pelos mouros, de língua árabe, oriundos do norte da
África. O árabe foi utilizado, então, como língua administrativa nas regiões
conquistadas, mas a população continuou a falar latim vulgar. Em 1249, os
mouros foram expulsos, mas deixaram grande número de palavras árabes,
especialmente relacionadas à culinária e à agricultura, sem equivalente nas
demais línguas neolatinas, além de nomes de locais no sul de Portugal, como
Algarve e Alcácer do Sal. Muitas palavras portuguesas que começam por “al” são
de origem árabe.
O mais
antigo documento latino-português de que se tem conhecimento é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S.
Miguel de Lardosa, datada de 882. O
Testamento de Afonso II, de 1214, é o texto em escrita portuguesa
considerado mais antigo. Esses documentos estão guardados no Arquivo Nacional
da Torre do Tombo, em Lisboa.
O vernáculo
escrito passou, gradualmente, para uso geral a partir do fim do século XIII.
Portugal se tornou país independente em 1143, com o rei Dom Afonso I. Em 1290,
o rei Dom Dinis criava a primeira universidade portuguesa em Lisboa – Estudo Geral
– e decretou que o português, então chamado “linguagem”, substituísse o latim
no contexto administrativo.
Em 1296, a
língua portuguesa foi adotada pela Chancelaria Real. A partir daí, o
galego-português passou a ser utilizado também na poesia. Já em meados do
século XIV, o português alcançara tradição literária. Nessa época, os nativos
da Galícia começaram a ser influenciados pelo castelhano, base do espanhol
moderno. Entre os séculos XIV e XVI, com as grandes navegações, a língua
portuguesa é difundida na Ásia, África e América.
Na
Renascença, aumenta o número de palavras eruditas do latim clássico e do grego
arcaico, ampliando a complexidade da língua portuguesa. O fim do português
arcaico é marcado pela publicação do Cancioneiro
Geral de Garcia de Resende, em 1516.
Hoje, fala-se
oficialmente português nos oito países que integram a Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa (CPLP): Angola (África), Brasil (América do Sul), Cabo Verde
(África), Guiné-Bissau (África), Moçambique (África), Portugal (Europa), São
Tomé e Príncipe (África), e Timor-Leste (Ásia). Mas em cada uma das ex-colônias
portuguesas falam-se, a rigor, variantes do português de Portugal. Também
falam-se variantes de português nas seguintes regiões: Galícia (província da
Espanha, Europa); Goa, Diu e Damão (Índia, Ásia); Macau (China, Ásia), Málaca
(Malásia, Ásia) e Zanzibar (Tanzânia, África).
A escrita da
língua portuguesa é semelhante em todos os países da CPLP, com poucas variações
gramaticais. O que muda, de forma mais evidente, além da grafia de um certo
número de palavras, é o significado de outras tantas palavras, com conotações
diferentes de região para região; o modo de se utilizar formas verbais; e o
estilo erudito, isto é, o modo de se construir frases e contextos literários. Quanto
ao falar, um brasiliense só se entenderá com um lisboeta, por exemplo, se ambos
conversarem vagarosamente e pronunciarem claramente as sílabas das palavras, do
mesmo modo que entre um caboclo (caboco, como se diz na Amazônia) e um gaúcho
da fronteira.
Trata-se da
quinta língua mais falada no planeta, por cerca de 240 milhões de falantes, em
quatro continentes. Se Portugal é o portão de entrada da lusofonia no Velho
Continente, o Brasil é o gigante da CPLP.
A LÍNGUA BRASILEIRA – No Brasil, a
língua portuguesa sofreu influências do tupi-guarani – tronco linguístico dos
índios da América do Sul – e de várias línguas africanas. Desde o início do
século XX, Portugal e Brasil buscam a unificação da língua portuguesa escrita,
para chegar, pelo menos, ao consenso de um texto burocrático, que possa
reforçar o idioma na Organização das Nações Unidas (ONU). Mas a verdade não
pode ser mudada. O português de Portugal se esgotou, enquanto o português do
Brasil foi enriquecido pelo índio, pela África e pelo trópico, e é aberto.
No dia 29 de
setembro de 2008, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, em
homenagem ao escritor Machado de Assis, que completava cem anos de morto
(1839-1908), o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou quatro
decretos de promulgação do novo Acordo Ortográfico no âmbito da CPLP. “Com
esses atos, Machado de Assis será duplamente exaltado: de um lado, a Academia
lhe rende a mais expressiva homenagem neste ano em que celebramos o centenário
de sua morte, e, de outro, a assinatura pelo presidente Lula dos decretos que
promulgam o Acordo Ortográfico dos sete países lusófonos” – declarou, então, o
presidente da ABL, Cícero Sandroni.
Segundo
Sandroni, a promulgação do Acordo Ortográfico concretizava uma antiga aspiração
de Machado de Assis, manifestada num de seus discursos, em 1897. “A Academia
buscará ser a guardiã de nosso idioma, fundado em suas legítimas fontes – o
povo e os escritores, todos os falantes de língua portuguesa” – disse, na
altura, o autor de Memórias Póstumas de
Brás Cubas.
O argumento
para mudanças ortográficas na língua portuguesa é que a alegada unificação da
escrita no Brasil e em Portugal tornaria o idioma lusitano língua oficial da
Organização das Nações Unidas (ONU). O fato é que o novo Acordo Ortográfico não
unifica as línguas portuguesa e brasileira, nem etimologicamente, muito menos
em estilo. E qualquer tradutor na ONU terá que ser bom de ouvido, tanto para o
falar lusitano, típico dos países de clima frio, como para o falar brasileiro,
tropical, aberto. Isso, sem falar do crioulo.
A pergunta
que lateja é: A “unificação” da língua portuguesa escrita no Brasil com o
português grafado em Portugal tem alguma utilidade? No caso do Brasil, não
seria melhor investir maciçamente no ensino básico? E depois o Brasil tem mais
com que se preocupar. Enquanto Lula levava seu palanque para a Academia
Brasileira de Letras, o Correio
Braziliense, maior jornal da capital do país, publicava uma série de
reportagens sobre crianças, meninas e meninos, que embarcavam em carros de
luxo, no coração de Brasília, para serem estuprados a troco de comida. A
propósito, a exploração sexual de crianças é comum na província potencialmente
mais rica do planeta, a Amazônia, onde a miséria humana, a escravidão, o
assassinato, campeiam.
A grande
tragédia brasileira é a escola pública. O senador Cristovam Buarque (PDT/DF)
costuma comparar as escolas públicas brasileiras, regidas por orientação
federal, com o Banco do Brasil. Se as agências do BB em Brasília contam com a
mesma estrutura das agências nos grotões brasileiros, como, por exemplo, o
sertão do Maranhão, uma escola pública do Plano Piloto não é a mesma na
hiterlândia da Amazônia.
O novo
Acordo Ortográfico só beneficiou editoras, principalmente as que integram a
panelinha do Ministério da Educação; estão faturando bilhões. Quanto ao ensino
público e à pesquisa no Brasil são para inglês ver. E a CPLP tem mais com se
ocupar. Ela poderia encampar o Instituto Camões e criar o Instituto Machado de
Assis, e, por meio deles, difundir mundialmente a língua portuguesa, que são
várias: a de Portugal; a do Brasil; a crioula, ou africana; a galega; a do
Timor-Leste etc. Cada um desses países conta com escritores que representam bem
suas culturas, e que não estão absolutamente preocupados com burocracia. Os
grandes escritores deste continente chamado Brasil são tradutores da nossa
mestiçagem mulata, cafuza e mameluca, das nossas cores, cheiros, florestas,
mar, sol e alegria. A CPLP pode e deve é influenciar a democracia e se
aperfeiçoar como bloco econômico.
O Acordo
Ortográfico foi mais uma peça de marketing do governo lulapetista, em um país
de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais – que leem mas não entendem o
que leem –, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra –
não sabem ler e, muitos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros,
são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.
No Brasil,
nós não precisamos de reforma ortográfica. Precisamos de reforma política,
fiscal, educacional, do Judiciário, administrativa, previdenciária, de pacto
federativo, de reforma do Estado, e, sobretudo, faz-se necessário jogar os
ladrões de colarinho branco na cadeia e fazê-los pagar o que roubaram, tudo. Também
é preciso acabar com a indecência da imunidade parlamentar; urge passar a limpo
o Brasil corrupto.
A reforma
ortográfica tudo muda para nada mudar, como diz uma personagem no romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi Di
Lampedusa, referindo-se à monarquia italiana, então com as ventosas no erário,
como ocorre hoje e sempre no Brasil chavista e patrimonialista. A célebre frase
literária se ajusta à nomenklatura de plantão, embora o destino do Brasil, a
província agrícola, florestal e mineral mais rica do planeta, é o de ser uma
potência mundial, o que só poderá conquistar por meio da democracia. E a
democracia dorme no idioma. Só então, a língua brasileira será respeitada,
procurada e aprendida.
No nosso
caso linguístico, enquanto o português lusitano se esgotou, o português
brasileiro é uma língua jovem, enriquecida pelo tupi-guarani, por idiomas
africanos, por estrangeirismos e pelo calor, cores, aromas, sabores e
contexturas do trópico e da Amazônia.
Quanto à
Hileia – o subcontinente cortado pelo rio Amazonas/Solimões e a Linha
Imaginária do Equador, a eterna colônia inicialmente ibérica e agora dos países
hegemônicos, de Brasília e do Sudeste –, a melhor maneira de compreendê-la, e a
amar, é por meio da arte, e nesse contexto alguns artistas são fundamentais
nesse mister; para citar uns poucos, os romancistas paraenses Dalcídio Jurandir
e Benedicto Monteiro, e o amazonense Márcio Souza; os poetas amazonenses LuizBacellar e Jorge Tufic, e o paraense João de Jesus Paes Loureiro; o jornalista
paroara Lúcio Flávio Pinto; o pintor amapaense Olivar Cunha.
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domingo, 2 de março de 2014
AMAZONÊS, LÍNGUA BRASILEIRA E TRÓPICO, INCLUSIVE O ÚMIDO
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
RIO AMAZONAS DEIXA DE SER O MAIOR DO PLANETA. E DAÍ?
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| Macapá, a capital do estado do Amapá, cortada pela Linha Imaginária do Equador e debruçada para o estuário do rio Amazonas, a caminho do Caribe |
BRASÍLIA, 19 DE FEVEREIRO DE 2014 – Em junho
de 2007, uma expedição integrada por pesquisadores do Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe), da Agência Nacional de Águas (ANA), do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Geográfico Militar
do Peru, determinou o local exato da nascente do rio Amazonas. Desde o início da
década de 1990, uma equipe do Inpe, chefiada pelo geólogo Paulo Roberto
Martini, da Divisão de Sensoriamento Remoto, estudava o Amazonas e o Nilo, por
meio de sensoriamento remoto e geoprocessamento, tecnologias utilizadas no
Programa Espacial Brasileiro, e imagens dos satélites Landsat, distribuídas
pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, calculando, assim, minuciosamente,
a extensão de ambos os rios, da nascente à foz, com ajuda de um programa de
computador; em julho de 2008, bateu o martelo: o Amazonas é o maior rio do
planeta.
A nascente do
Amazonas foi localizada no rio Apurimac, na cordilheira dos Andes, ao sul do
Peru. A nova localidade, até o oceano Atlântico, torna o rio 139,91 quilômetros
mais longo do que o africano Nilo, que nasceria no rio Kagera, próximo à
fronteira entre o Burundi e Ruanda, correndo até o mar Mediterrâneo. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do
Nilo é de 6.695
quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros .
Com a nova medição, o Amazonas passou a ter 6.992,6 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros .
Paulo Roberto Martini comentou que as medições anteriores foram feitas sem o
uso de metodologias científicas: “Esse resultado mostra que, às vezes, as
verdades mais bem estabelecidas têm de ser revistas porque podem simplesmente
não ser verdade. Pelo menos desta vez não temos, acho. Temos metodologia
científica e, por essa leitura, por essa interpretação, você pode colocar nos
livros que o Amazonas é maior do que o Nilo”.
Em maio de 2008,
o vice-presidente da Sociedade Geográfica de Lima, professor Zaniel Novoa, após
12 anos de investigação, confirmava a versão do explorador polonês Jacek
Palkiewicz, que, em 1996, localizou a nascente do Amazonas e afirmou que o rio
sul-americano era mesmo o maior do mundo. Até a segunda metade do século XX, os
geógrafos apontavam o Nilo como o maior. Desde que o Amazonas foi batizado, em
1500, foram identificadas nascentes em vários pontos do Peru, até a atual, a 5.179 metros de
altitude, próximo do monte nevado Quehuisha, na região sul de Arequipa, no
Peru, e não nas cabeceiras do rio Marañon, como se pensava. Em 2009, surgiu uma
novidade: estudos mostravam que a nascente do Nilo apontava para o rio Rukarara,
o que dava ao gigante africano o comprimento de 7.088 quilômetros, 95,94
quilômetros maior do que o Amazonas.
Mas a bacia
amazônica é um oceano doce, um realismo fantástico, uma fronteira misteriosa,
pouco conhecida e desprezada pelos governos federais e, pasme-se, pelos
próprios governos da Amazônia Clássica, apesar de se constituir na mais
espantosa província biológica e mineral do planeta.
Em 1500, o navegador
espanhol Vicente Yañez Pizón batizou o Amazonas de Río Santa María del Mar
Dulce; 42 anos depois, o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para
Amazonas. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões
e nos estados do Pará e Amapá, de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia
hidrográfica do planeta, formada por 7 mil afluentes, 25 mil quilômetros de
rios navegáveis, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas
(ANA), de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, 40% da América do Sul, e banhando
Peru (17%), Equador (2,2%), Bolívia (11%), Brasil (63%), Colômbia (5,8%),
Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%).
Da nascente até 1.900 quilômetros ,
o Amazonas desce 5.440
metros ; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas
60 metros .
Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por
hora, chegando a 8
quilômetros , em Óbidos, cidade paraense a mil
quilômetros do mar e ponto da garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de
largura e 50 metros
de profundidade. Fora do estuário, a parte mais larga situa-se próxima à boca
do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de
largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo,
quando as águas sobem ao nível de até 16 metros . O Amazonas é navegável por navios de
alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros .
Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros, e chega a meio
quilômetro de profundidade próximo à foz.
A vazão média do
rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, um quinto
de toda a água doce de superfície da Terra, o suficiente para encher 8,6 baías
da Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos
de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água
por segundo no mar, nas cheias. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico
mais do que a vazão de um ano do rio Tamisa, na Inglaterra. O colosso contém
mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e
Yangtzé, na China, juntos. O Amazonas tem 60 vezes mais água do que o Nilo. Só
a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água
doce do que toda a Europa.
Também despeja
no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas
por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio,
que se escancara do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros , e
sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no
mar, fertilizando a Amazônia Azul setentrional. O húmus despejado pelo gigante
no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais
rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal-guardado pela Marinha de Guerra e
menos estudado pela academia. Se mais de um terço de todas as espécies do
planeta vive na Hileia, a bacia é berço de mais de 2.100 espécies de peixes,
900 a mais do que as dos rios da Europa. Somando-se às 1.200 espécies do
Atlântico Norte, a Amazônia Azul é um santuário de 3.300 espécies.
“O que me
intriga, não apenas no conteúdo da educação fundamental brasileira, mas também
na base de informações científicas e acadêmicas no Brasil, é a pobreza de
informações ambientais e biológicas sobre essa região, batizada de Mar Dulce
pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, em 1500, mesmo ano em que Cabral achava o
Brasil” – comenta o oceanógrafo Frederico Brandini. Ele lembra que, no Amapá,
as autoridades estão pouco preocupadas com o estudo da Amazônia Atlântica. As
costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas,
coalhado de piratas, que vão lá pegar, de arrastão, pescados, lagostas, camarão
e outros frutos do mar. Pescadores paraenses já capturaram na altura da Vila de
Sucuriju, no município de Amapá, marlim azul de meia tonelada. Nem Ernest
Hemingway conseguia espadarte desse porte no Gulf Strean.
Em 2011,
pesquisadores do Observatório Nacional anunciaram evidências de um rio
subterrâneo numa profundidade de 4 quilômetros abaixo do Amazonas, com 6 mil
quilômetros de comprimento, batizado de Hamza, em homenagem a um dos
pesquisadores, o indiano Valiya Hamza. Porém, tudo o que escrevi neste artigo é
apenas realismo fantástico. Os livros continuam com as velhas medidas amazônicas
do tempo do Império Britânico. A Amazônia é ainda uma fronteira, uma colônia,
sugada ao longo de três séculos, por lusitanos, espanhóis, americanos,
ingleses, franceses, holandeses, japoneses, chineses, paulistanos e os governos
que se alternam em Brasília.
A Amazônia permanece
como colônia, agora pós-moderna, a casa da mãe Joana, sob o beneplácito, a
ambição, o jugo, a omissão de Brasília, incluindo-se nesse contexto a bancada
da Amazônia no Congresso Nacional, que nunca agiu em bloco no interesse da auto-sustentação dos caboclos do subcontinente. Agora, a aristocracia são as multinacionais e os megaempresários, geralmente laranjas dos países hegemônicos, que dão as cartas.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
O LINHÃO DE TUCURUÍ ESTÁ PRONTO, MAS MANAUS E MACAPÁ NÃO PODEM RECEBÊ-LO. PONTE AMAPÁ-GUIANA FRANCESA TAMBÉM ESTÁ PRONTA, MAS BR-156, NÃO
BRASÍLIA, 16 DE
FEVEREIRO DE 2014 – Terça-feira 4, o décimo blecaute na gestão Dilma
Rousseff afetou 11 estados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, prejudicando cerca
de 6 milhões de habitantes. A Amazônia ficou fora do apagão do dia 4, mas a
região, a que mais produz energia hidrelétrica no país, não está fora desse
drama, especialmente Manaus, a maior cidade da Hileia, com 2 milhões de
habitantes, e Macapá, com 437.255 habitantes (IBGE/2013), além da maioria dos
municípios da Amazônia Clássica, mergulhados na Idade Média. O Linhão conduz
também conexão de fibra óptica, aumentando em até 5 mil vezes a velocidade da
internet e acesso à tecnologia 4G, da TIM. Ainda não ficou claro como será
cobrado esse serviço à população.
Desde julho de 2013 que o Linhão de Tucuruí está instalado,
em condições de abastecer Manaus, mas não entrou em operação porque a
Eletrobras Amazonas Energia deixou de fazer a sua parte, a estrutura para
incorporar a capital baré ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o maior
sistema integrado de transmissão de energia do planeta e que cobre quase todo o
território brasileiro, com capacidade de gerar 1,8 mil megawatts, acima do
consumo máximo registrado em Manaus, de 1,350 MW. Os equipamentos utilizados
atualmente na capital amazonense para o fornecimento de energia têm mais de
três décadas de uso. As novas subestações, que custaram R$ 524 milhões,
começaram a ser construídas em 2012, mas a Amazonas Energia, que estava devendo
R$ 1,6 bilhão quando foi encampada pela Eletrobras, não deu conta de concluí-las.
A linha de transmissão Tucuruí-Macapá-Manaus custou R$ 3,5
bilhões. Com 2 mil quilômetros de extensão, as torres utilizadas no cruzamento
do rio Amazonas, que chega nas cheias a medir mais de 50 quilômetros de
largura, são mais altas que a Eiffel, de Paris. Quando Manaus e Macapá
começarem a utilizar energia do Sistema Interligado Nacional, serão
economizados R$ 2 bilhões por ano em óleo e evitar-se-á que 3 milhões de
toneladas de carbono sejam lançadas na atmosfera. No Amazonas, o Linhão passa
por oito municípios antes de chegar a Manaus, mas essas cidades não verão sua
luz.
EM MACAPÁ, A SITUAÇÃO
É PIOR DO QUE EM MANAUS – O Linhão de Macapá, que em terras amapaenses mede
334 quilômetros, já foi concluído, mas os macapaenses ainda vão esperar muito
mais tempo do que os manauaras para se beneficiarem da energia firme de Tucuruí;
se em Manaus a recepção da energia pode começar em março, no Amapá o governador
Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB) só começou recentemente a obra do sistema
para receber, rebaixar a tensão e promover a distribuição da energia aos
macapaenses, obra orçada em R$ 42 milhões.
Assim como em Manaus, que tem a quinta pior internet do
país, em Macapá, que se não tem a pior internet é candidata ao posto, o cabo de
fibra ótica via Linhão conduzindo banda larga também está prontinho, mas os
macapaenses ainda vão continuar com internet do século passado, não se sabe até
quando. Atualmente, a banda larga domiciliar na capital amapaense é via rádio,
interligada por antenas com 40 quilômetros de distância uma da outra a partir
de Barcarena, no Pará.
ÚNICA RODOVIA FEDERAL
NO AMAPÁ É CONSTRUÍDA HÁ MAIS DE 7 DÉCADAS – A ponte sobre o rio Oiapoque,
que liga a cidade de Oiapoque, no norte do estado do Amapá, à localidade de São
Jorge do Oiapoque, na colônia francesa da Guiana, e que começou a ser
construída em 2008, ficou pronta em 2011, mas não foi inaugurada porque a
BR-156, que ligará Macapá a Caiena, continua engolindo verba, há mais de 70 anos, e nada de ficar pronta. No lado brasileiro da ponte, que custou R$
61.296.347,09, o posto de aduana é improvisado. No lado francês, toda a
estrutura viária e aduaneira está pronta desde 2011. A propósito, a cidade de
Oiapoque tem fama de ser um açougue de carne infantil a turistas libidinosos,
que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode
proporcionar.
O senador Randolfe Rodrigues (AP), pré-candidato a
presidente da República pelo Psol, tem andado para cima e para baixo com o embaixador
da França no Brasil, Denis Pietton. Também ano passado Randolfe marcou para
este ano uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado, só
não se sabe exatamente quando, para debater a cooperação transfronteiriça entre
Brasil e Guiana Francesa, especialmente o garimpo, no qual vige a lei da bala.
Faz algum tempo que militares franceses fizeram uma limpeza na região, mas
garimpeiros, principalmente brasileiros, retornam sempre.
O antigo Território Federal do Amapá foi criado em 13 de
setembro de 1943, desmembrado do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi
instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de
1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos
tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era
conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo
brasileiro “presenteou” os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o
buracão no município de Serra do Navio.
Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é
cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a
Oiapoque, separada da Guiana Francesa pelo rio Oiapoque, o mais setentrional do
Brasil, desaguando no oceano Atlântico. Essa rodovia começou a ser construída
nos anos de 1940. Mede cerca de 900 quilômetros e está longe de ser
completamente pavimentada. Com mais de sete décadas de construção, é espantoso
recorde mundial de e irresponsabilidade, de preguiça, de desprezo para com os amapaenses.
A BR-156 é fundamental para a economia do Amapá. Ela ligará
o porto de Santana, o mais estratégico da Amazônia, à América do Norte, via
América Central. Santana, com capacidade de receber cargueiros transoceânicos,
é o porto brasileiro mais próximo dos mercados norte-americano, europeu e
asiático (neste caso, via Panamá). Pode abrigar carga de toda a Amazônia e do
Centro-Oeste e exportá-la para todo o planeta. Seu problema é que pertence à
prefeitura de Santana, na zona metropolitana de Macapá, e, portanto, está sujeito
à corrupção municipal, mais difícil de ser fiscalizada e estancada do que se o
porto fosse federal.
Mas o PT está preocupado é com Cuba, onde inaugurou
recentemente um porto, construído com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), ou seja, com dinheiro nosso. Na cabeça de Dilma
Rousseff, e do PT, não precisamos de portos, se temos a Copa do Mundo.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
OS GENERAIS DE AÉCIO NEVES NA AMAZÔNIA. PT COMEÇA A ENXERGAR DILMA COMO UM POSTE SEM ILUMINAÇÃO
BRASÍLIA, 15 DE
FEVEREIRO DE 2014 – Até nas eleições presidenciais a Amazônia é tratada
como colônia (americana, europeia, japonesa, paulistana e brasiliense; os
chineses estão querendo também). Sabedores do baixo índice de eleitores na
Hileia, os candidatos saracoteiam mais no Sudeste, Sul e Nordeste. Além disso,
rende mais voto, e dinheiro para a campanha, afagar os setores de construção de
estradas e hidrelétricas, e de produção de gado e soja, além de industriais e
banqueiros do Sudeste, do que as áreas de pesquisa, biotecnologia e
oceanografia, de grande interesse para a Amazônia. Assim, em termos eleitorais,
é o prestígio do presidente eleito que acaba transferido para futuros
candidatos a governos e ao Senado. É o que ocorre com os prefeitos de Manaus,
os tucanos Arthur Virgílio, e de Belém, Zenaldo Coutinho, dois dos generais que
coordenarão o palanque do pré-candidato tucano à presidência da República,
senador Aécio Neves (PSDB/MG).
Arthur Virgílio Neto, 70 anos, prefeito da maior cidade da
Hileia, conhece de perto o maior inimigo de Aécio Neves, pois derrotou Luiz
Inácio Lula da Silva numa cidade, Manaus, onde o ex-presidente, que baba de
raiva só de pensar em Virgílio, quase obteve a unanimidade, em 2006. Diplomata
de carreira, Virgílio se elegeu deputado federal pelo MDB, em 1982. Em 1986,
candidato a governador do Amazonas, foi derrotado por Amazonino Mendes. Em
1988, elegeu-se prefeito de Manaus, pelo PSB, derrotando o ex-governador
Gilberto Mestrinho; um ano depois migrou para o PSDB, que ajudou a fundar. Em
1994, elegeu-se novamente deputado federal, e foi reeleito em 1998. Líder do
governo Fernando Henrique Cardoso na Câmara, foi também secretário Geral da
Presidência da República. Em 2002, elegeu-se senador e em 2003 passou a liderar
a bancada do PSDB no Senado. Como líder da oposição, foi um dos críticos mais
ferrenhos do então presidente Lula.
Em 2006, novamente candidato ao governo do Amazonas, ficou
em terceiro lugar. Em 2010, vítima de raivosa campanha de Lula, perdeu para a
comunista Vanessa Grazziotin a vaga no Senado, mas derrotou-a, no segundo
turno, para a prefeitura de Manaus, em 2012, apesar de Grazziotin ter recebido
apoio pessoal de Lula, que desfechou ataques virulentos ao tucano. Até a
presidente Dilma Rousseff, a mando de Lula, se empenhou pela derrota de
Virgílio, que comanda a mais populosa cidade da Amazônia, com 1.861.838 habitantes
(IBGE/2012), filé para candidatos a presidente da República.
Caso Arthur Virgílio consiga modernizar o saneamento básico
e recuperar o centro histórico de Manaus, terá se credenciado, em 2018, a
voltar ao Senado, ou a se tornar governador do Amazonas.
BELÉM – No Pará,
Aécio Neves contará com o governador Simão Jatene, 65 anos, um dos fundadores
do PSDB e líder máximo do partido no estado. Jatene elegeu-se governador em
2003 e em 2007 renunciou à disputa pela reeleição em favor do cacique tucano
Almir Gabriel, derrotado pela então senadora petista Ana Júlia Carepa. Em 2010,
Jatene derrotou Carepa, desgastada pela sua inacreditável incompetência, que quase
pôs o Pará a pique. Jatene, que não deverá concorrer à reeleição por motivo de
saúde, tem a missão de dar o necessário suporte a Aécio Neves no Pará.
Mas será o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, 54 anos, o
grande cabo eleitoral de Aécio Neves no Pará, por três razões: tem voto na
capital, maior colégio eleitoral do estado; é experiente e vitorioso
coordenador de campanhas; e candidato ao governo paraense, não agora, mas daqui
a quatro anos. Contudo, o PSDB paroara poderá se transformar num telhado de
vidro, pois o fisiologismo e o nepotismo tucanos em terras papa-chibé é de
fazer corar até Ana Júlia Carepa.
Zenaldo Coutinho liderou a campanha pelo não à fragmentação
do Pará em mais dois estados e coordenou a campanha vitoriosa de Simão Jatene
de volta ao governo paraense. Em 2012, foi um dos fundadores da Frente
Parlamentar em Defesa da Amazônia e do seu Povo, e logo depois realizou e
presidiu o seminário Povo e Floresta: Amazônia Sustentável – Rumo à Rio+20. Se Zenaldo
resolver a questão do transporte público de Belém, caótico, e se modernizar o
saneamento básico da Cidade das Mangueiras, se credenciará a faturar,
tranquilamente, a reeleição, ou mesmo a se tornar governador, em 2018.
No Acre, Aécio Neves conta com o deputado federal tucano e
primeiro secretário da mesa diretora da Câmara, Márcio Bittar, bem avaliado nas
pesquisas para governador do estado. Se Bittar conseguir se eleger, pulverizará
o plano dos petistas, que se instalaram no Acre juntamente com Lula, em 2003, e
pretendem ficar pelo menos até 2026 – mais quatro anos para Dilma Rousseff e
oito para Lula. Ou até 2022, pois a cúpula do PT já viu que Dilma Rousseff é
tão poste que dificilmente conseguirá se reeleger, e como os petistas não
querem nem ouvir falar em perder a teta do poder, o que seria para eles um pesadelo
fatal, provavelmente Lula terá que ser o candidato, mesmo com a verdade se avizinhando
dele cada vez mais.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
AMAZÔNIA, O CORAÇÃO DAS TREVAS
RAY CUNHA
Especial para o PORTAL DO HOLANDA
BRASÍLIA, 8 DE FEVEREIRO DE 2014 – A mentalidade de colonizado, predominante nos amazônidas, o calor, a nudez e a corrupção crônica na ex colônia portuguesa e agora americana, inglesa, brasiliense e paulistana, determinaram a perpetuação na Hileia de uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. Hoje mesmo, o prefeito Adail Pinheiro (PRP), de Coari (AM), cidade às margens do rio Solimões, a 370 quilômetros de Manaus, e onde se localiza a plataforma da Petrobrás de Urucu, para extração de petróleo e gás, se entregou à polícia, levado pelo advogado Alberto Simonnette para a Delegacia Geral, no bairro Dom Pedro, Zona Oeste de Manaus, onde foi formalizada a prisão. Horas antes, garantiu direito à prisão especial, por causa do risco de morte que correria se fosse conduzido para um presídio comum. Foi encaminhado ao Comando de Policiamento de Área (CPA), também na Zona Oeste. Cinco assessores seus foram presos hoje de manhã, em Coari, entre os quais o chefe de gabinete da prefeitura, Eduardo Jorge de Oliveira Alves, e o secretário de Terras e Habitação, Francisco Orimar Torres de Oliveira, além de Alzenir Maia Cordeiro, Anselmo do Nascimento Santos e Elias do Nascimento Santos.
Adail é investigado desde 2007 e
acusado na Justiça, com fartas provas, de crimes sexuais contra crianças e
adolescentes. O Fantástico, da Rede
Globo, vem fazendo reiteradas denúncias contra ele, e apresentando provas
robustas de que comanda uma rede de prostituição de menores. Dezenove dos 24
deputados da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) deverão instalar, na
próxima semana, uma comissão parlamentar de inquérito para investigar pedofilia
no estado.
A Polícia Federal começou a
investigar Adail, em 2006, por outro motivo: indícios de desvio de recursos do
Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). No decurso da
investigação, as denúncias de pedofilia começaram a aparecer em escutas
telefônicas judicialmente autorizadas. As investigações culminaram na Operação
Vorax, em 2008, e em 2009 o prefeito foi preso. Em agosto de 2013, Adail depôs
à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes, da Câmara dos Deputados.
A presidente da comissão,
deputada Erika Kokay (PT/DF), informou-me quinta-feira 6 que integrantes da CPI
estarão nos dias 20 e 21 em Manaus e Coari, para ouvir novas testemunhas contra
Adail Pinheiro. Ela quer a federalização do caso. Terça-feira 4, reuniu-se com
a ministra da Secretaria de Direito Humanos, Maria do Rosário, quando
combinaram o pedido à Procuradoria Geral da República (PGR).
A Amazônia é um paradoxo. O mais
belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a
maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad; uma zona
imprecisa da alma. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas é um golpe
de navalha seccionando tecido humano, obsceno como ataque de hienas. É o mais
intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, disse o
labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno
Verde é o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o
malogro da civilização colonialista.
A Amazônia é saqueada desde o século
XVI. Potências europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país,
inclusive os governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na
Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a floresta, energia hidrelétrica,
minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças, e é um dos locais
onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à
Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, caboclos,
quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam o erário em
lavanderia. Os presidentes da República que se sucedem governam de costas para
a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas.
Um caso que aconteceu em novembro
de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Belém, constitui-se uma metáfora
da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário,
atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa criança
foi currada dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores,
espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa
de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima da garotinha como hienas, e
os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo.
Os berros de terror eram ouvidos
pelos delegados e pelos moradores da cidade, já que a delegacia era um prédio
velho praticamente aberto para a rua, e ninguém moveu uma palha pela menina.
“Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das
costas” – disse a mãe biológica da jovem. “Cortaram o cabelo dela com um
terçado (facão) para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de
dizer, escalpelaram a minha filha.” O tempo todo, L ficou com as roupas que
usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela
media 1,40 m. “Aqui, no Pará, colocar homem e mulher na mesma cela é mais comum
do que se imagina” – disse, na época, frei Flávio Giovenale, bispo de
Abaetetuba. Há caso de atirarem uma mulher a 70 presos.
“Era um show isso daqui. Todo
mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém
falava nada” – disse uma mulher na delegacia a jornalistas. “Antes de comer, os
presos se serviam dela” – afirmou outra mulher, explicando que a menina só
comia se não dificultasse a curra. “Ela gritava e pedia comida para quem
passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não
dava para ignorar” – afirmou outra mulher, explicando que era possível ver e
ouvir da rua muito do que se passava na delegacia.
Seis delegados estiveram na
delegacia durante o suplício da jovem. A delegada plantonista responsável pelo
flagrante foi Flávia Verônica Monteiro e o delegado titular de Polícia de
Abaetetuba, Celso Viana. “Embora ela estivesse misturada com os homens, o setor
onde ela estava é aberto e permite uma ampla visão de qualquer policial” – declarou
o delegado Celso Viana. Flávia Verônica Pereira e três policiais tinham
conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais ameaçaram a menina de
morte se não participasse de fraude em cartório para alterar-lhe a idade na
certidão de nascimento.
O delegado Celso Viana alegou em
depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a
responsabilidade da prisão da menor seria do sistema penal, e a delegada Flávia
Verônica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem,
indicando que ela tinha 20 anos. Flávia disse ainda que não transferiu a
adolescente da delegacia para outra instituição porque esse procedimento só
poderia ser feito com ordem judicial.
Em 27 de novembro de 2007,
durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o
então delegado-geral do estado do Pará, Raimundo Benassuly Maués Júnior,
insinuou que a jovem é que foi responsável pelo episódio e que devia ter
“alguma debilidade mental” por não ter dito que era menor de idade. “Não sou
médico legista nem tenho formação na área, mas essa moça tem certamente algum
problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade
penal” – afirmou o gênio.
No dia 3 de outubro de 2013, leio
na mídia que a juíza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba
quando a adolescente esteve presa, fora promovida, um dia antes, pelo Tribunal
de Justiça do Pará, a titular da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes
de Belém. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento,
o critério para a promoção de Clarice foi por merecimento.
Clarice Maria de Andrade foi
considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante o período em
que a jovem paraense foi supliciada, e recebeu a punição de aposentadoria
compulsória, em 2010. Mas a Associação dos Magistrados do Pará (Amepa) recorreu
da decisão e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF),
que entendeu que a punição foi exagerada, já que a magistrada não teria como
saber da situação da carceragem da delegacia de Abaetetuba.
O fato é que quando o caso
estourou na mídia, em novembro de 2007, a então governadora do Pará, a petista
Ana Júlia Carepa, tratou-o com habitual alienação, e tudo mergulhou no
esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.
PEQUENO ROTEIRO DA ESCRAVIDÃO SEXUAL – Em 27 de junho de
2006, publiquei na minha antiga coluna Enfoque
Amazônico, no site brasiliense ABC Politiko, o mapa da escravidão sexual
infantil na Amazônia. Relendo o texto, vejo que essa realidade continua como um
nervo exposto. O tráfico de crianças para escravidão sexual é um dos crimes
mais repudiados pela sociedade, por sua feição abjeta, mas é corriqueiro na
Amazônia. Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, no extremo oeste da Hileia, uma
reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, ligando
o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de
caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e bisbilhotei registros
policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era
atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente
fugiam da miséria. Trinta e cinco anos depois a situação piorou, e muito. A
tragédia, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.
Foram identificadas 76 rotas de
tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa
sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais,
coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e
Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da
Exploração Sexual, do Congresso Nacional, há seis anos atrás. A Interpol
francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca
de US$ 9 bilhões por ano.
Nesse comércio negro, assim como
ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O
holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas em atividade na
Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para
responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o
Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham, em regime escravo, brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.
Em 2006, adolescentes de
Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual
e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia
paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas
contra três dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político
e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e
vários adultos envolvidos; é preciso que haja vontade política para que se
chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade
Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).
Em março daquele ano, a polícia
de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por
suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes
sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam
também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e
balneários no município, onde as bacanais duravam dias.
Ameaçadas de morte, vítimas e
suas famílias, e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as
declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi
ameaçada na porta da escola onde estuda, e sua família recebeu bilhetes com
ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em
várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.
As adolescentes foram, ainda,
humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante
sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a
depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de
crime” – comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que
reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário
vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e
horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames
periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes
soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”
Em janeiro de 2005, o Jornal
Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o
trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó, Pará. Nessas balsas, na cabine
de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento
do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza
pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas
regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas,
Pará e Tocantins, e pelo Oceano Atlântico.
“Foi constatado no início da
década de 1990 pelo jornalista da Folha
de São Paulo, Gilberto Dimenstein, que no Vale do Jari haveria prostituição
infantil em larga escala” – comentou, em 2007, o governador (eleito) do Amapá,
deputado estadual Camilo Capiberibe. O rio Jari divide o Amapá do Pará desde a
Serra do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname, até desaguar no rio
Amazonas, no sul do Amapá. O Beiradão, no município amapaense de Laranjal do
Jari, é apenas uma das zonas de “fronteira” na Amazônia, nas quais a escravidão
sexual infantil é crime banalizado e recorrente.
O comércio de crianças amapaenses
e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá,
principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento
de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos
amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por
promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa,
onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa,
escapando, assim, da miséria.
Dos 200 mil habitantes da Guiana
Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem
do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco,
nepotismo, corrupção endêmica e imigração insuportável, inclusive de gente
importante, como o senador maranhense Zé Sarney. A capital, Macapá, é reflexo
do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com
fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se situar
na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e
violenta.
Próximo de Caiena, a capital da
colônia francesa na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. A
maior economia do município é, aparentemente, sexo, pois a cidade é a porta de
entrada para a prostituição internacional na Amazônia Caribenha. Antes de as
meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em
Oiapoque. Boates locais são o internato que prepara meninas e meninos para o
abate.
Assim, guianenses que atravessam
o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos –
inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde
se pode comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal
do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de
Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, e o mais influente
da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que
eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.
SEREIAS – Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta
Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian,
de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São
Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para
uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio
organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o
alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.
Finalmente o carregamento chega.
São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor,
aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites
renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate
pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que
ganharia R$ 100 por garota.
Domingo 19. As meninas se
dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima,
com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do
dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou
naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram
13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda
Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira
Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.
Dois dias antes do acidente,
alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas.
Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao
Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam
participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos
pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três
homens que estavam no Amazonian
deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus,
em avião da Apuí Táxi Aéreo.
Foi aí que identificaram o então
presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital
Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome
e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares
e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o
advogado brasiliense Marco Antônio Attié.
Uma das menores ouvidas pela
polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas
menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e
que morreu afogada no Princesa Laura.
Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com
Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu
R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que
estiveram a bordo do Amazonian
garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem
relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.
Das 17 meninas contratadas para a
bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva,
titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente,
que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que
manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas
menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a
participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva
mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que
participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é
paraplégico.
Três meninas ouvidas pela polícia
garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram
realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em
depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo
dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito
divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas
por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas
disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$
400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.
Em nota oficial, divulgada no dia
27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22
de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou
também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores
de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da
qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de
matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no
iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de
Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.
Em 2004, em Brasília, o plenário
da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo
contra o então deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por
turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos
favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José
Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o
maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da
acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de
dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do
Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em
ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito
deputado distrital. Em 2010, o governador
José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção de
dar inveja aos maiores ladrões do país. Em novembro de 2011, Benício Tavares
perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o
deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico.
Como se vê, Brasília não vai à
Amazônia apenas por energia hidrelétrica; minerais, principalmente ouro e
ferro; e madeira. Quem sabe, por falta de água no rio São Francisco (ou pela
grana que isso renderia?), não queiram transpor o Amazonas?
domingo, 12 de janeiro de 2014
A noite é só nossa
Meu bem,
estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te
é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar
a maior pepita de ouro
No morro do
Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
Dez anos
depois
Como a
felicidade de abraçar crianças que escaparam de um barco que afundou
Ao largo do
Marajó
Ver rosas
nuas em toda parte
Só de te
esperar!
Amor da
minha vida, esta noite será eterna
Porque nesta
casa
Só haverá
nós dois e a noite, presente de Deus, para ti
Já arrumei
tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós
dois e uma infinidade de diamantes
Que só
encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias,
e dançaremos
Lentamente,
nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Granada, com Juan Diego Florez
Então,
voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Sentirei o
sabor da tua pele e do teu púbis, e beberei colostro
E será
madrugada
A quem
ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite
já chegou
Como um
navio, um continente, uma galáxia,
Só nossa!
Brasília, 12 de janeiro de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
CONTO/As tardes de quinta-feira são eternas
Tenho um amigo que era infeliz e descobriu acidentalmente a
felicidade. Sou professor de educação física, massoterapeuta, pugilista amador
e personal trainer. Falar em personal trainer, brasileiro se baba por tudo o
que é americano. Na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, por exemplo, o comércio tem
quase todo nomes americanos. Pois bem, transito num mundo cheio de gente
posuda, peruas oxigenadas, engessadas, postas no formol, velhos dementes de
cabelos negros, cabelos tapando a calva, fixados com laquê, ou de peruca, muita
gente bombada, adultos com complexo de Peter Pan, aficionados pelo Big Brother
da TV Globo e por esses gritos hermafroditas em inglês que ouvimos nas lojas
dos shoppings ou na Rodoviária do Plano Piloto. Pois bem, o meu amigo era tudo
isso. Às terças-feiras e quintas, saímos juntos da academia, onde quase gozo ao
atender três clientes, três fêmeas que só faltam se matar de fazer ginástica, e
uma delas já se submeteu até a lipoaspiração, porque têm medo de envelhecer e seus
maridos, milionários e decrépitos, trocarem-nas por gatinhas cheirando a leite.
Uma delas é tão linda, e gostosa, que não dá nem para acreditar que exista
mulher assim. Pois bem, meu amigo, que se chama Alfredo, Alfredão, para os
íntimos, é um cara bombadíssimo; não sei como o coração dele aguenta tanto
hormônio! Pois bem, ele era desses caras traumatizados com a ideia de toque
anal, mas já tem 40 anos e, segundo ele, chegou a hora da verdade. Eu havia
explicado a ele, a algum tempo, que hoje já não se submete mais toque retal,
que basta submeter-se a um exame de sangue chamado PSA e, se for o caso, a uma
ultrassonografia prostática, para ver como vai a querida próstata. Mas ele tinha
ideia fixa. Achei que de tanto tomar hormônio e fazer ginástica entrara em processo
de aterosclerose. Enfim, o sujeito era de atrair essas coisas. Fazia o tipo
infeliz, mas vivia dizendo que felicidade também se põe. Eu achava que
felicidade, nesse caso, tratava-se de botox, enxerto, cirurgia plástica,
hormônio, alguma coisa assim, mas depois que me confidenciou algo, “muito
íntimo; coisa que só amigo mesmo conta”, é que entendi o que ele queria dizer
com felicidade também se põe, e isso ele descobriu precisamente no urologista,
que encontrou por acaso. Ia passando na rua que separa as 700 das 900, na Asa
Sul (aqui, os endereços são assim!), quando deu com um luminoso, daqueles
grandes, anunciando uma clínica especializada em urologia. Era relativamente
cedo e os estacionamentos ainda não estavam como lata de sardinha. Estacionou e
foi andando até o prédio da clínica. Era um prédio velho, que gritava por
reforma; estava descascado e mofado, e a clínica ficava no subsolo. Desceu e
deu uma chegada à portaria. Não havia ninguém lá, mas logo um sujeito saiu de
uma sala e foi atendê-lo.
– Bom dia, amigão! A atendente deu uma saída, mas pode
falar, amigão! É uma consulta? – disse o sujeito, que era ainda maior do que
meu amigo bombado, e era também peludo como Tony Ramos. Segundo Alfredão, seu
jaleco não tinha os dois botões de cima e os pelos do peito do gajo
saltavam pelo decote.
– É, estou pensando em fazer um exame de próstata; chegou a
hora, né? Tenho 40 anos e não se pode brincar com essas coisas – Alfredão respondeu.
– Você veio ao lugar certo, amigão. É pra agora? Estou à
toa, amigão! – disse o urologista.
– Não! Estou apenas sondando! – defendeu-se Alfredão.
– Eu entendo seu receio, mas não dói, pois a gente mete com
jeito – disse o médico, exibindo o dedo médio da sua mão direita, parecido a
uma miratinga peluda.
– Rapaz, quando vi aquilo, perdi toda a vontade de me
submeter ao toque – dissera-me meu amigo.
– Tem muita gente que acha que toque é baitolagem, mas não
é, amigão – encorajou-o o açougueiro (o tipo era todo um açougueiro).
– Mas acho que ainda não estou preparado para esse ato...
violentador! – desabafou meu amigo.
– Olha, aqui, amigão, se você quiser posso prepará-lo
direitinho. Com vaselina você nem sentirá cócega e quando se espantar não será
mais tão inocente assim – dissera-lhe o urologista, agora com a pata, a mesma
do dedão, no ombro do meu amigo. Dizendo ele que sentiu um calafrio com a
manopla no seu ombro e o bafo de alcatrão e álcool do açougueiro. Explicou
também que seu esfíncter se contraiu como uma válvula.
– Não sei não – titubeou. O açougueiro saiu lá detrás do
balcão e foi se posicionar atrás do meu amigo. – Senti um verdadeiro mastro
roçando em mim – ele confessou. – Aí a atendente chegou. Então o brutamontes
saiu de detrás de mim e se dirigiu a ela. – Patrícia Alessandra, faça a ficha
deste meu paciente. Ele vai ser examinado por mim – ordenou a ela. – Vou preparar
a cama, amigão – disse para mim.
Estávamos tomando espresso no café da academia.
– Afinal, o que aconteceu? – perguntei-lhe.
– Hoje, ele frequenta a academia; sou personal trainer dele
e ele é meu urologista.
– Agora você está feliz? – perguntei.
– Sim. Antes, eu vivia angustiado, mas depois que compreendi
a mim mesmo e soltar a franga, é como se eu, desde então, estivesse flutuando.
A propósito, ele se chama dr. José, e foi ele que pôs felicidade em mim,
corroborando a minha tese de que felicidade se põe. No meu caso foi uma
miratinga, como você diz.
Sou paraense da Vigia.
Saímos e fomos para o estacionamento; ele, que era rígido
como um pugilista burocrático, se dirigiu para seu carro rebolando igual as
dançarinas do É o Tchan.
“Égua! Nada como pôr felicidade” – pensei. Daí a instantes
encontrei-me com minha cliente lindíssima, que, já de algum tempo, me faz
delirar nas tardes de quinta-feira, flutuando no silêncio daquele motel. Isso
me deixa intrigado. Sou azul de tão negro e ela é ruiva de olhos verdes, seus
seios tem as maiores auréolas que já vi e sua bunda é a mais arrematada lucidez
da loucura, se é que isso é possível. Fico intrigado porque ela é riquíssima e lindíssima,
e quando me olha daquele jeito submisso, o vulcão irrompe, e descubro, levado
de roldão na lava incandescente, a eternidade, às 18 horas das quintas-feiras.
Brasília, 10 de
janeiro de 2014
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