quarta-feira, 12 de março de 2014

PRESERVE ADISTRIBUI MUDAS DE PLANTA NO LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE RAY CUNHA: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É

Ray Cunha, fotografado pelo artista plástico André Cerino,
no ateliê do pintor, em dezembro passado
















MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 12 DE MARÇO DE 2014 – A Preserve Amazônia distribuirá mudas de plantas no lançamento do novo livro do escritor amazônida radicado em Brasília, Ray Cunha, o volume de contos Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25), nesta quarta-feira 12, a partir das 18h30, no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na 406 Norte, Bloco C, Loja 30/72, com apoio da Preserve e da Proativa Comunicação. Será servido coquetel. O livro já está à venda no site: www.lereditora.com.br. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59  Brasília/DF – CEP 70610-430.

Fundada em março de 2006, a Preserve, sediada em Brasília, vem realizando incansável trabalho de conscientização junto à bancada da Amazônia no Congresso Nacional, e de governadores e prefeitos do Trópico Úmido, que se empenham pelo desmatamento zero da Hileia. A Preserve fica na Estrada do Sol, Fazenda Jardim Botânico, Chácara 5, numa área de 28 hectares no bairro Jardim Botânico e onde se localiza o córrego Forquilha, um dos afluentes da Bacia do rio São Bartolomeu. O terreno conta com viveiro de espécies arbóreas com capacidade para 12 mil mudas, destinadas a projetos de reflorestamento.

Na Boca do Jacaré-Açu; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 30); e O Casulo Exposto (LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28) serão autografados na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 12 a 21 de abril, em Brasília, no stand do Chico Livreiro, quando Ray Cunha apresentará conto vivo. Os três livros serão autografados ainda em Manaus, em data a ser definida.

O novo livro de Ray Cunha, Na Boca do Jacaré-Açu, enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, o Portal da Amazônia, que perpassa todos os contos e acaba sendo personagem subjacente, a quem o autor dedica o livro. Algumas histórias têm sequências no Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo e único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra; apesar disso, a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu é o grande monstro amazônico; atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – adianta o escritor.

AMAZÔNIA – Na Boca do Jacaré-Açu integra uma trilogia de contos com tema comum: A Amazônia Como Ela É, subtítulo do livro Na Boca do Jacaré-Açu. A edição do primeiro volume da trilogia, A Grande Farra (Brasília, 1992), está esgotada. Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (Brasília, 2000) é o segundo volume da trilogia, que se fecha com Na Boca do Jacaré-Açu. A Amazônia é a base da ficção de Ray Cunha; tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva estão presentes nos seus contos. “Isto é a Amazônia” – comentou, ao ler Trópico Úmido, o coronel Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva, um dos intelectuais que mais conhecem geopolítica do Trópico Úmido, autor, entre outros títulos, de Amazônia - A Grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

“Sou caboco de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – diz Ray Cunha, utilizando a corruptela “caboco”. Além de ser caboclo, Ray Cunha trabalhou como repórter nos maiores jornais da Amazônia, como O Liberal e Diário do Pará, em Belém, e ACrítica, em Manaus. Em Brasília, onde vive desde 1987, é correspondente do Portaldo Holanda.

Ray Cunha é ainda autor do romance A Casa Amarela e da novela A Caça, pela Editora Cejup, de Belém; e do volume de poemas Sob o Céu Nas Nuvens (Belém, 1982). Estreou com a coletânea de poemas Xarda Misturada (Macapá, 1971), juntamente com José Edson dos Santos e José Montoril. Para o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras na TV Senado, o escritor amapaense representa a moderna literatura amazônica, “temperada em um bom caldo de tucupi”.

SEGUE-SE ENTREVISTA COM O AUTOR DE NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém, conhecida como Cidade das Mangueiras, Cidade Morena, Portal da Amazônia, a quem dedico o livro; algumas histórias contêm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do mundo, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas, e, jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em língua portuguesa, revisor do trabalho de Ray Cunha

sábado, 8 de março de 2014

RAY CUNHA LANÇA NOVO LIVRO NESTA QUARTA-FEIRA NO SEBINHO: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É

Ray Cunha: NA BOCA DO JACARÉ-AÇU,
mais um round que chega ao fim


MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 8 DE MARÇO DE 2014 – O escritor e jornalista amazônida radicado em Brasília, Ray Cunha, lança novo livro, Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25), quarta-feira 12, a partir das 18h30, no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na 406 Norte, Bloco C, Loja 30/72, com apoio da Preserve Amazônia e da Proativa Comunicação. Será servido coquetel. O livro já está à venda no site: www.lereditora.com.br. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59  Brasília/DF – CEP 70610-430.

Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 30); e O Casulo Exposto (LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28) serão autografados também na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 12 a 21 de abril, em Brasília, no stand do Chico Livreiro, quando Ray Cunha apresentará conto vivo. Os três livros serão autografados ainda em Manaus, em data a ser definida. Correspondente em Brasília do Portaldo Holanda (o mais lido da Amazônia e o vigésimo do país, entre os portais de notícias auditados pelo Instituto Verificador de Circulação – IVC), Ray Cunha começou a carreira jornalística em Manaus, onde trabalhou no Jornal do Commercio, no extinto A Notícia e em A Crítica, na década de 1970.

Na Boca do Jacaré-Açu enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, o Portal da Amazônia, que perpassa todos os contos e acaba sendo personagem subjacente, a quem o autor dedica o livro. Algumas histórias têm sequências no Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo e único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra; apesar disso, a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu é o grande monstro amazônico; atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – adianta o escritor.

AMAZÔNIA – Na Boca do Jacaré-Açu integra uma trilogia de contos com tema comum: A Amazônia Como Ela É, subtítulo do livro Na Boca do Jacaré-Açu. A edição do primeiro volume da trilogia, A Grande Farra (Brasília, 1992), está esgotada. Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (Brasília, 2000) é o segundo volume da trilogia, que se fecha com Na Boca do Jacaré-Açu. A Amazônia é a base da ficção de Ray Cunha; tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva estão presentes nos seus contos. “Isto é a Amazônia” – comentou, ao ler Trópico Úmido, o coronel Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva, um dos intelectuais que mais conhecem geopolítica do Trópico Úmido, autor, entre outros títulos, de Amazônia - A Grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

“Sou caboco de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – diz Ray Cunha, utilizando a corruptela “caboco”. Além de ser caboclo, Ray Cunha trabalhou como repórter nos maiores jornais da Amazônia. Além do Jornal do Commercio, A Notícia e A Crítica, de Manaus, trabalhou em O Liberal, Diário do Pará e no extinto O Estado do Pará, em Belém; e no extinto A Gazeta do Acre, além de colaborar com o Varadouro, ambos editados pelo jornalista Elson Martins, em Rio Branco. Em Brasília, onde vive desde 1987, assinou, durante quatro anos, a coluna Enfoque Amazônico no portal ABC Politiko.

Ray Cunha é ainda autor do romance A Casa Amarela e da novela A Caça, pela Editora Cejup, de Belém; e do volume de poemas Sob o Céu Nas Nuvens (Belém, 1982). Estreou com a coletânea de poemas Xarda Misturada (Macapá, 1971), juntamente com José Edson dos Santos e José Montoril. Para o jornalista e escritor Maurício Melo Júnior, que apresenta o programa Leituras na TV Senado, o escritor amapaense representa a moderna literatura amazônica, “temperada em um bom caldo de tucupi”.

Segue-se curta entrevista com o autor de Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É.

Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém, conhecida como Cidade das Mangueiras, Cidade Morena, Portal da Amazônia, a quem dedico o livro; algumas histórias contêm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do mundo, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas, e, jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como certa noite em que nos dedicamos a mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em língua portuguesa, revisor do trabalho de Ray Cunha

quarta-feira, 5 de março de 2014

RAY CUNHA LANÇA NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É, NESTA QUARTA-FEIRA 12, NO SEBINHO

Ray Cunha folheia NA BOCA DO JACARÉ-AÇU em foto
do artista plástico André Cerino. Ao fundo, acrílica
sobre tela da fase Cerrado, de Cerino


MARCELO LARROYED*


BRASÍLIA, 5 DE MARÇO DE 2014 – O escritor amazônida radicado em Brasília, Ray Cunha, lança novo livro, Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25), quarta-feira 12, a partir das 18h30, no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na 406 Norte, Bloco C, Loja 30/72, com apoio da Preserve Amazônia e da Proativa Comunicação. Será servido coquetel.

O livro já está à venda no site: www.lereditora.com.br. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda diretamente na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59  Brasília/DF – CEP 70610-430.

Na Boca do Jacaré-Açu enfeixa 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, que acaba sendo personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro. Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico, tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar do que a Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.

“O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, só perdendo para a sucuri, e que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso; no conto Na Boca do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e Castro” – adianta o escritor.

Na Boca do Jacaré-Açu é o segundo volume de contos que se encaixam no contexto do subtítulo do livro: A Amazônia Como Ela É. No primeiro volume, Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas), a Amazônia é também a base da ficção de Ray Cunha; tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva estão presentes nas histórias. “Isto é a Amazônia” – comentou, ao ler Trópico Úmido, o coronel Gelio Fregapani, um dos intelectuais que mais conhecem geopolítica do Trópico Úmido, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva e autor, entre outros títulos, de Amazônia - A Grande Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

“Sou caboco de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico, fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde é correspondente do Portal do Holanda (o mais lido da Amazônia e vigésimo do país, segundo o último ranking entre os sites auditados pelo Instituto de Verificação de Circulação – IVC) e estuda Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

SEGUE-SE BREVE ENTREVISTA – Como e por que você escolheu o título Na Boca do Jacaré-Açu?

Trata-se da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do jacaré-açu.

Em que período você escreveu os contos que compõem a obra?

Todos eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros, são inéditos.

Os contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando uma obra única?

Sim. Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro; algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.

Quais escritores influenciaram sua obra e em quê?

Os escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando, coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua, extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.

Seus livros têm elementos autobiográficos? Quais?

Tudo o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz. Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.

E os personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da imaginação do escritor Ray Cunha?

Há personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas; algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.

Explique uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.

Tu bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo; colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito, frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos e mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.


SERVIÇO

Lançamento do livro Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É
Onde: Sebinho, na 406 Norte, Bloco C, Loja 30/72
Quando: Quarta-feira 12 de março
Horário: A partir das 18h30
Será servido coquetel
Apoio: Preserve Amazônia e Proativa Comunicação
Contato de Ray Cunha: raycunha@gmail.com


*MARCELO LARROYED é mestre em língua portuguesa e escritor

domingo, 2 de março de 2014

AMAZONÊS, LÍNGUA BRASILEIRA E TRÓPICO, INCLUSIVE O ÚMIDO

O artista plástico amapaense Olivar Cunha e a acrílica sobre
tela de 2005 Baixadapaisagem comum na periferia
das metrópoles da Amazônia, como Manaus e Belém


BRASÍLIA, 28 DE FEVEREIRO DE 2014 – Na letra de Amazonês o compositor e cantor Nicolas Júnior utiliza palavras como “maninha, leso, triscar, ralhava”, só conhecidas na Amazônia, mas disponível na internet. A comunidade Eu Falo Amazonês, no Facebook, registrava, até às 11h39 de de 28 de fevereiro, 65.397 curtidas. No Youtube, o humorista amazonense Abdias, O Cabucão, registrava, às 11h28 de hoje, 995.471 visualizações do vídeo Vou Cagar nas Calças, paródia de Gangnam Style, do coreano Psy.

Para Sérgio Freire, doutor em linguística e pesquisador do falar amazonense, os manauaras sofrem três influências: indígena, portuguesa e nordestina. O índio é autóctone, os lusitanos chegaram ao Amazonas na primeira metade do século 16 e os nordestinos, no ciclo da borracha. “Temos a herança fonológica dos sons do português de Portugal, por isso que chiamos ao puxarmos o s. Também recebemos influência dos nordestinos, que vieram para cá como soldados da borracha na década de 40; e, por fim, a influência muito grande da linguagem indígena, com suas expressões. Nossa matriz oral vem daí, em maior ou menor grau” – explica Freire, autor de Amazonês, que lista expressões regionais, especialmente tupis.

O amazonês é apenas uma peça da língua brasileira, que, cada vez mais, se impõe no planeta, levando para as regiões frias, que antes sediavam a metrópole, a riqueza cultural e a alegria dos trópicos, por meio da literatura, da tecnologia e do trabalho. Tudo começou na região ocidental da Península Ibérica, há 300 anos antes de Cristo, com os soldados romanos e seu latim vulgar. No ano 500 da era cristã, o Império Romano começou a desabar, mas deixava várias línguas, variantes do latim. O português escrito começou a ser utilizado, em documentos, no século IX; no século XV, já se tornara língua literária.

Desde os romanos, havia duas províncias na região em que se formou a língua portuguesa: Lusitânia, hoje Portugal, e, ao norte, Galécia, Galícia para nós, brasileiros. O Império Romano conquistara a região ocidental da Península Ibérica, criando as províncias da Lusitânia e da Galécia, equivalentes, hoje, ao centro-norte de Portugal e à província espanhola da Galícia, a noroeste da Espanha, nas quais se começou a falar latim vulgar, do qual nasceram as línguas neolatinas e 90% do léxico, ou dicionário, da língua portuguesa. Os únicos vestígios das línguas nativas dessa região dormem na toponímia da Galícia e de Portugal.

Entre 409 e 711, o Império Romano entrava em colapso e a Península Ibérica era novamente invadida, agora por povos de origem alemã – suevos e visigodos –, que os romanos chamavam de bárbaros. Entretanto, os novos invasores absorveram a língua romana da península. Devido ao fato de que cada uma das tribos bárbaras falava latim à sua maneira, o resultado foi a formação do galaico-português, ou português medieval, o espanhol e o catalão.

Em 711, a península foi invadida pelos mouros, de língua árabe, oriundos do norte da África. O árabe foi utilizado, então, como língua administrativa nas regiões conquistadas, mas a população continuou a falar latim vulgar. Em 1249, os mouros foram expulsos, mas deixaram grande número de palavras árabes, especialmente relacionadas à culinária e à agricultura, sem equivalente nas demais línguas neolatinas, além de nomes de locais no sul de Portugal, como Algarve e Alcácer do Sal. Muitas palavras portuguesas que começam por “al” são de origem árabe.

O mais antigo documento latino-português de que se tem conhecimento é a Carta de Fundação e Dotação da Igreja de S. Miguel de Lardosa, datada de 882. O Testamento de Afonso II, de 1214, é o texto em escrita portuguesa considerado mais antigo. Esses documentos estão guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O vernáculo escrito passou, gradualmente, para uso geral a partir do fim do século XIII. Portugal se tornou país independente em 1143, com o rei Dom Afonso I. Em 1290, o rei Dom Dinis criava a primeira universidade portuguesa em Lisboa – Estudo Geral – e decretou que o português, então chamado “linguagem”, substituísse o latim no contexto administrativo.

Em 1296, a língua portuguesa foi adotada pela Chancelaria Real. A partir daí, o galego-português passou a ser utilizado também na poesia. Já em meados do século XIV, o português alcançara tradição literária. Nessa época, os nativos da Galícia começaram a ser influenciados pelo castelhano, base do espanhol moderno. Entre os séculos XIV e XVI, com as grandes navegações, a língua portuguesa é difundida na Ásia, África e América.

Na Renascença, aumenta o número de palavras eruditas do latim clássico e do grego arcaico, ampliando a complexidade da língua portuguesa. O fim do português arcaico é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em 1516.

Hoje, fala-se oficialmente português nos oito países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola (África), Brasil (América do Sul), Cabo Verde (África), Guiné-Bissau (África), Moçambique (África), Portugal (Europa), São Tomé e Príncipe (África), e Timor-Leste (Ásia). Mas em cada uma das ex-colônias portuguesas falam-se, a rigor, variantes do português de Portugal. Também falam-se variantes de português nas seguintes regiões: Galícia (província da Espanha, Europa); Goa, Diu e Damão (Índia, Ásia); Macau (China, Ásia), Málaca (Malásia, Ásia) e Zanzibar (Tanzânia, África).

A escrita da língua portuguesa é semelhante em todos os países da CPLP, com poucas variações gramaticais. O que muda, de forma mais evidente, além da grafia de um certo número de palavras, é o significado de outras tantas palavras, com conotações diferentes de região para região; o modo de se utilizar formas verbais; e o estilo erudito, isto é, o modo de se construir frases e contextos literários. Quanto ao falar, um brasiliense só se entenderá com um lisboeta, por exemplo, se ambos conversarem vagarosamente e pronunciarem claramente as sílabas das palavras, do mesmo modo que entre um caboclo (caboco, como se diz na Amazônia) e um gaúcho da fronteira.

Trata-se da quinta língua mais falada no planeta, por cerca de 240 milhões de falantes, em quatro continentes. Se Portugal é o portão de entrada da lusofonia no Velho Continente, o Brasil é o gigante da CPLP.

A LÍNGUA BRASILEIRA – No Brasil, a língua portuguesa sofreu influências do tupi-guarani – tronco linguístico dos índios da América do Sul – e de várias línguas africanas. Desde o início do século XX, Portugal e Brasil buscam a unificação da língua portuguesa escrita, para chegar, pelo menos, ao consenso de um texto burocrático, que possa reforçar o idioma na Organização das Nações Unidas (ONU). Mas a verdade não pode ser mudada. O português de Portugal se esgotou, enquanto o português do Brasil foi enriquecido pelo índio, pela África e pelo trópico, e é aberto.

No dia 29 de setembro de 2008, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, em homenagem ao escritor Machado de Assis, que completava cem anos de morto (1839-1908), o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou quatro decretos de promulgação do novo Acordo Ortográfico no âmbito da CPLP. “Com esses atos, Machado de Assis será duplamente exaltado: de um lado, a Academia lhe rende a mais expressiva homenagem neste ano em que celebramos o centenário de sua morte, e, de outro, a assinatura pelo presidente Lula dos decretos que promulgam o Acordo Ortográfico dos sete países lusófonos” – declarou, então, o presidente da ABL, Cícero Sandroni.

Segundo Sandroni, a promulgação do Acordo Ortográfico concretizava uma antiga aspiração de Machado de Assis, manifestada num de seus discursos, em 1897. “A Academia buscará ser a guardiã de nosso idioma, fundado em suas legítimas fontes – o povo e os escritores, todos os falantes de língua portuguesa” – disse, na altura, o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O argumento para mudanças ortográficas na língua portuguesa é que a alegada unificação da escrita no Brasil e em Portugal tornaria o idioma lusitano língua oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). O fato é que o novo Acordo Ortográfico não unifica as línguas portuguesa e brasileira, nem etimologicamente, muito menos em estilo. E qualquer tradutor na ONU terá que ser bom de ouvido, tanto para o falar lusitano, típico dos países de clima frio, como para o falar brasileiro, tropical, aberto. Isso, sem falar do crioulo.

A pergunta que lateja é: A “unificação” da língua portuguesa escrita no Brasil com o português grafado em Portugal tem alguma utilidade? No caso do Brasil, não seria melhor investir maciçamente no ensino básico? E depois o Brasil tem mais com que se preocupar. Enquanto Lula levava seu palanque para a Academia Brasileira de Letras, o Correio Braziliense, maior jornal da capital do país, publicava uma série de reportagens sobre crianças, meninas e meninos, que embarcavam em carros de luxo, no coração de Brasília, para serem estuprados a troco de comida. A propósito, a exploração sexual de crianças é comum na província potencialmente mais rica do planeta, a Amazônia, onde a miséria humana, a escravidão, o assassinato, campeiam.

A grande tragédia brasileira é a escola pública. O senador Cristovam Buarque (PDT/DF) costuma comparar as escolas públicas brasileiras, regidas por orientação federal, com o Banco do Brasil. Se as agências do BB em Brasília contam com a mesma estrutura das agências nos grotões brasileiros, como, por exemplo, o sertão do Maranhão, uma escola pública do Plano Piloto não é a mesma na hiterlândia da Amazônia.

O novo Acordo Ortográfico só beneficiou editoras, principalmente as que integram a panelinha do Ministério da Educação; estão faturando bilhões. Quanto ao ensino público e à pesquisa no Brasil são para inglês ver. E a CPLP tem mais com se ocupar. Ela poderia encampar o Instituto Camões e criar o Instituto Machado de Assis, e, por meio deles, difundir mundialmente a língua portuguesa, que são várias: a de Portugal; a do Brasil; a crioula, ou africana; a galega; a do Timor-Leste etc. Cada um desses países conta com escritores que representam bem suas culturas, e que não estão absolutamente preocupados com burocracia. Os grandes escritores deste continente chamado Brasil são tradutores da nossa mestiçagem mulata, cafuza e mameluca, das nossas cores, cheiros, florestas, mar, sol e alegria. A CPLP pode e deve é influenciar a democracia e se aperfeiçoar como bloco econômico.

O Acordo Ortográfico foi mais uma peça de marketing do governo lulapetista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais – que leem mas não entendem o que leem –, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem ler e, muitos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.

No Brasil, nós não precisamos de reforma ortográfica. Precisamos de reforma política, fiscal, educacional, do Judiciário, administrativa, previdenciária, de pacto federativo, de reforma do Estado, e, sobretudo, faz-se necessário jogar os ladrões de colarinho branco na cadeia e fazê-los pagar o que roubaram, tudo. Também é preciso acabar com a indecência da imunidade parlamentar; urge passar a limpo o Brasil corrupto.

A reforma ortográfica tudo muda para nada mudar, como diz uma personagem no romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, referindo-se à monarquia italiana, então com as ventosas no erário, como ocorre hoje e sempre no Brasil chavista e patrimonialista. A célebre frase literária se ajusta à nomenklatura de plantão, embora o destino do Brasil, a província agrícola, florestal e mineral mais rica do planeta, é o de ser uma potência mundial, o que só poderá conquistar por meio da democracia. E a democracia dorme no idioma. Só então, a língua brasileira será respeitada, procurada e aprendida.

No nosso caso linguístico, enquanto o português lusitano se esgotou, o português brasileiro é uma língua jovem, enriquecida pelo tupi-guarani, por idiomas africanos, por estrangeirismos e pelo calor, cores, aromas, sabores e contexturas do trópico e da Amazônia.

Quanto à Hileia – o subcontinente cortado pelo rio Amazonas/Solimões e a Linha Imaginária do Equador, a eterna colônia inicialmente ibérica e agora dos países hegemônicos, de Brasília e do Sudeste –, a melhor maneira de compreendê-la, e a amar, é por meio da arte, e nesse contexto alguns artistas são fundamentais nesse mister; para citar uns poucos, os romancistas paraenses Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro, e o amazonense Márcio Souza; os poetas amazonenses LuizBacellar e Jorge Tufic, e o paraense João de Jesus Paes Loureiro; o jornalista paroara Lúcio Flávio Pinto; o pintor amapaense Olivar Cunha.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

RIO AMAZONAS DEIXA DE SER O MAIOR DO PLANETA. E DAÍ?

Macapá, a capital do estado do Amapá, cortada pela Linha Imaginária do
Equador e debruçada para o estuário do rio Amazonas, a caminho do Caribe


BRASÍLIA, 19 DE FEVEREIRO DE 2014 – Em junho de 2007, uma expedição integrada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Agência Nacional de Águas (ANA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Geográfico Militar do Peru, determinou o local exato da nascente do rio Amazonas. Desde o início da década de 1990, uma equipe do Inpe, chefiada pelo geólogo Paulo Roberto Martini, da Divisão de Sensoriamento Remoto, estudava o Amazonas e o Nilo, por meio de sensoriamento remoto e geoprocessamento, tecnologias utilizadas no Programa Espacial Brasileiro, e imagens dos satélites Landsat, distribuídas pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, calculando, assim, minuciosamente, a extensão de ambos os rios, da nascente à foz, com ajuda de um programa de computador; em julho de 2008, bateu o martelo: o Amazonas é o maior rio do planeta.

A nascente do Amazonas foi localizada no rio Apurimac, na cordilheira dos Andes, ao sul do Peru. A nova localidade, até o oceano Atlântico, torna o rio 139,91 quilômetros mais longo do que o africano Nilo, que nasceria no rio Kagera, próximo à fronteira entre o Burundi e Ruanda, correndo até o mar Mediterrâneo. Segundo o Atlas Geográfico Mundial, a extensão do Nilo é de 6.695 quilômetros e a do Amazonas, de 6.515 quilômetros. Com a nova medição, o Amazonas passou a ter 6.992,6 quilômetros e o Nilo, 6.852,15 quilômetros. Paulo Roberto Martini comentou que as medições anteriores foram feitas sem o uso de metodologias científicas: “Esse resultado mostra que, às vezes, as verdades mais bem estabelecidas têm de ser revistas porque podem simplesmente não ser verdade. Pelo menos desta vez não temos, acho. Temos metodologia científica e, por essa leitura, por essa interpretação, você pode colocar nos livros que o Amazonas é maior do que o Nilo”.

Em maio de 2008, o vice-presidente da Sociedade Geográfica de Lima, professor Zaniel Novoa, após 12 anos de investigação, confirmava a versão do explorador polonês Jacek Palkiewicz, que, em 1996, localizou a nascente do Amazonas e afirmou que o rio sul-americano era mesmo o maior do mundo. Até a segunda metade do século XX, os geógrafos apontavam o Nilo como o maior. Desde que o Amazonas foi batizado, em 1500, foram identificadas nascentes em vários pontos do Peru, até a atual, a 5.179 metros de altitude, próximo do monte nevado Quehuisha, na região sul de Arequipa, no Peru, e não nas cabeceiras do rio Marañon, como se pensava. Em 2009, surgiu uma novidade: estudos mostravam que a nascente do Nilo apontava para o rio Rukarara, o que dava ao gigante africano o comprimento de 7.088 quilômetros, 95,94 quilômetros maior do que o Amazonas.

Mas a bacia amazônica é um oceano doce, um realismo fantástico, uma fronteira misteriosa, pouco conhecida e desprezada pelos governos federais e, pasme-se, pelos próprios governos da Amazônia Clássica, apesar de se constituir na mais espantosa província biológica e mineral do planeta.

Em 1500, o navegador espanhol Vicente Yañez Pizón batizou o Amazonas de Río Santa María del Mar Dulce; 42 anos depois, o também espanhol Francisco Orellana mudou-o para Amazonas. O colosso marrom, que no estado do Amazonas recebe o nome de Solimões e nos estados do Pará e Amapá, de Amazonas, é a espinha dorsal da maior bacia hidrográfica do planeta, formada por 7 mil afluentes, 25 mil quilômetros de rios navegáveis, abrangendo uma área, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), de 6,110 milhões de quilômetros quadrados, 40% da América do Sul, e banhando Peru (17%), Equador (2,2%), Bolívia (11%), Brasil (63%), Colômbia (5,8%), Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%).

Da nascente até 1.900 quilômetros, o Amazonas desce 5.440 metros; desse ponto até o Atlântico, a queda é de apenas 60 metros. Suas águas correm a uma velocidade média de 2,5 quilômetros por hora, chegando a 8 quilômetros, em Óbidos, cidade paraense a mil quilômetros do mar e ponto da garganta mais estreita do Amazonas, com 1,8 quilômetro de largura e 50 metros de profundidade. Fora do estuário, a parte mais larga situa-se próxima à boca do rio Xingu, à margem direita, no Pará, com 20 quilômetros de largura, mas nas grandes cheias chega a mais de 50 quilômetros de largo, quando as águas sobem ao nível de até 16 metros. O Amazonas é navegável por navios de alto-mar da embocadura à cidade de Iquitos, no Peru, ao longo de 3.700 quilômetros. Seu talvegue, nesse curso, é sempre superior a 20 metros, e chega a meio quilômetro de profundidade próximo à foz.

A vazão média do rio-mar é de pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo, um quinto de toda a água doce de superfície da Terra, o suficiente para encher 8,6 baías da Guanabara em um dia. No Atlântico, despeja, em média, 400 mil metros cúbicos de água por segundo; chega, portanto, a despejar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar, nas cheias. Num único dia, o Amazonas deságua no Atlântico mais do que a vazão de um ano do rio Tamisa, na Inglaterra. O colosso contém mais água do que os rios Nilo, na África; Mississipi, nos Estados Unidos; e Yangtzé, na China, juntos. O Amazonas tem 60 vezes mais água do que o Nilo. Só a bacia do rio Negro, afluente da margem esquerda do Amazonas, contém mais água doce do que toda a Europa.

Também despeja no mar 3 milhões de toneladas de sedimento por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo. A boca do rio, que se escancara do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida de húmus penetra 320 quilômetros no mar, fertilizando a Amazônia Azul setentrional. O húmus despejado pelo gigante no Atlântico torna a costa do Amapá uma explosão de vida marinha, o ponto mais rico da Amazônia Azul, no Brasil mais mal-guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia. Se mais de um terço de todas as espécies do planeta vive na Hileia, a bacia é berço de mais de 2.100 espécies de peixes, 900 a mais do que as dos rios da Europa. Somando-se às 1.200 espécies do Atlântico Norte, a Amazônia Azul é um santuário de 3.300 espécies.

“O que me intriga, não apenas no conteúdo da educação fundamental brasileira, mas também na base de informações científicas e acadêmicas no Brasil, é a pobreza de informações ambientais e biológicas sobre essa região, batizada de Mar Dulce pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, em 1500, mesmo ano em que Cabral achava o Brasil” – comenta o oceanógrafo Frederico Brandini. Ele lembra que, no Amapá, as autoridades estão pouco preocupadas com o estudo da Amazônia Atlântica. As costas do Amapá e do Pará são um inacreditável banco de vidas marinhas, coalhado de piratas, que vão lá pegar, de arrastão, pescados, lagostas, camarão e outros frutos do mar. Pescadores paraenses já capturaram na altura da Vila de Sucuriju, no município de Amapá, marlim azul de meia tonelada. Nem Ernest Hemingway conseguia espadarte desse porte no Gulf Strean.

Em 2011, pesquisadores do Observatório Nacional anunciaram evidências de um rio subterrâneo numa profundidade de 4 quilômetros abaixo do Amazonas, com 6 mil quilômetros de comprimento, batizado de Hamza, em homenagem a um dos pesquisadores, o indiano Valiya Hamza. Porém, tudo o que escrevi neste artigo é apenas realismo fantástico. Os livros continuam com as velhas medidas amazônicas do tempo do Império Britânico. A Amazônia é ainda uma fronteira, uma colônia, sugada ao longo de três séculos, por lusitanos, espanhóis, americanos, ingleses, franceses, holandeses, japoneses, chineses, paulistanos e os governos que se alternam em Brasília.

A Amazônia permanece como colônia, agora pós-moderna, a casa da mãe Joana, sob o beneplácito, a ambição, o jugo, a omissão de Brasília, incluindo-se nesse contexto a bancada da Amazônia no Congresso Nacional, que nunca agiu em bloco no interesse da auto-sustentação dos caboclos do subcontinente. Agora, a aristocracia são as multinacionais e os megaempresários, geralmente laranjas dos países hegemônicos, que dão as cartas.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O LINHÃO DE TUCURUÍ ESTÁ PRONTO, MAS MANAUS E MACAPÁ NÃO PODEM RECEBÊ-LO. PONTE AMAPÁ-GUIANA FRANCESA TAMBÉM ESTÁ PRONTA, MAS BR-156, NÃO

BRASÍLIA, 16 DE FEVEREIRO DE 2014 – Terça-feira 4, o décimo blecaute na gestão Dilma Rousseff afetou 11 estados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, prejudicando cerca de 6 milhões de habitantes. A Amazônia ficou fora do apagão do dia 4, mas a região, a que mais produz energia hidrelétrica no país, não está fora desse drama, especialmente Manaus, a maior cidade da Hileia, com 2 milhões de habitantes, e Macapá, com 437.255 habitantes (IBGE/2013), além da maioria dos municípios da Amazônia Clássica, mergulhados na Idade Média. O Linhão conduz também conexão de fibra óptica, aumentando em até 5 mil vezes a velocidade da internet e acesso à tecnologia 4G, da TIM. Ainda não ficou claro como será cobrado esse serviço à população.

Desde julho de 2013 que o Linhão de Tucuruí está instalado, em condições de abastecer Manaus, mas não entrou em operação porque a Eletrobras Amazonas Energia deixou de fazer a sua parte, a estrutura para incorporar a capital baré ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o maior sistema integrado de transmissão de energia do planeta e que cobre quase todo o território brasileiro, com capacidade de gerar 1,8 mil megawatts, acima do consumo máximo registrado em Manaus, de 1,350 MW. Os equipamentos utilizados atualmente na capital amazonense para o fornecimento de energia têm mais de três décadas de uso. As novas subestações, que custaram R$ 524 milhões, começaram a ser construídas em 2012, mas a Amazonas Energia, que estava devendo R$ 1,6 bilhão quando foi encampada pela Eletrobras, não deu conta de concluí-las.

A linha de transmissão Tucuruí-Macapá-Manaus custou R$ 3,5 bilhões. Com 2 mil quilômetros de extensão, as torres utilizadas no cruzamento do rio Amazonas, que chega nas cheias a medir mais de 50 quilômetros de largura, são mais altas que a Eiffel, de Paris. Quando Manaus e Macapá começarem a utilizar energia do Sistema Interligado Nacional, serão economizados R$ 2 bilhões por ano em óleo e evitar-se-á que 3 milhões de toneladas de carbono sejam lançadas na atmosfera. No Amazonas, o Linhão passa por oito municípios antes de chegar a Manaus, mas essas cidades não verão sua luz.

EM MACAPÁ, A SITUAÇÃO É PIOR DO QUE EM MANAUS – O Linhão de Macapá, que em terras amapaenses mede 334 quilômetros, já foi concluído, mas os macapaenses ainda vão esperar muito mais tempo do que os manauaras para se beneficiarem da energia firme de Tucuruí; se em Manaus a recepção da energia pode começar em março, no Amapá o governador Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB) só começou recentemente a obra do sistema para receber, rebaixar a tensão e promover a distribuição da energia aos macapaenses, obra orçada em R$ 42 milhões.

Assim como em Manaus, que tem a quinta pior internet do país, em Macapá, que se não tem a pior internet é candidata ao posto, o cabo de fibra ótica via Linhão conduzindo banda larga também está prontinho, mas os macapaenses ainda vão continuar com internet do século passado, não se sabe até quando. Atualmente, a banda larga domiciliar na capital amapaense é via rádio, interligada por antenas com 40 quilômetros de distância uma da outra a partir de Barcarena, no Pará.

ÚNICA RODOVIA FEDERAL NO AMAPÁ É CONSTRUÍDA HÁ MAIS DE 7 DÉCADAS – A ponte sobre o rio Oiapoque, que liga a cidade de Oiapoque, no norte do estado do Amapá, à localidade de São Jorge do Oiapoque, na colônia francesa da Guiana, e que começou a ser construída em 2008, ficou pronta em 2011, mas não foi inaugurada porque a BR-156, que ligará Macapá a Caiena, continua engolindo verba, há mais de 70 anos, e nada de ficar pronta. No lado brasileiro da ponte, que custou R$ 61.296.347,09, o posto de aduana é improvisado. No lado francês, toda a estrutura viária e aduaneira está pronta desde 2011. A propósito, a cidade de Oiapoque tem fama de ser um açougue de carne infantil a turistas libidinosos, que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode proporcionar.

O senador Randolfe Rodrigues (AP), pré-candidato a presidente da República pelo Psol, tem andado para cima e para baixo com o embaixador da França no Brasil, Denis Pietton. Também ano passado Randolfe marcou para este ano uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado, só não se sabe exatamente quando, para debater a cooperação transfronteiriça entre Brasil e Guiana Francesa, especialmente o garimpo, no qual vige a lei da bala. Faz algum tempo que militares franceses fizeram uma limpeza na região, mas garimpeiros, principalmente brasileiros, retornam sempre.

O antigo Território Federal do Amapá foi criado em 13 de setembro de 1943, desmembrado do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo brasileiro “presenteou” os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o buracão no município de Serra do Navio.

Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a Oiapoque, separada da Guiana Francesa pelo rio Oiapoque, o mais setentrional do Brasil, desaguando no oceano Atlântico. Essa rodovia começou a ser construída nos anos de 1940. Mede cerca de 900 quilômetros e está longe de ser completamente pavimentada. Com mais de sete décadas de construção, é espantoso recorde mundial de e irresponsabilidade, de preguiça, de desprezo para com os amapaenses.

A BR-156 é fundamental para a economia do Amapá. Ela ligará o porto de Santana, o mais estratégico da Amazônia, à América do Norte, via América Central. Santana, com capacidade de receber cargueiros transoceânicos, é o porto brasileiro mais próximo dos mercados norte-americano, europeu e asiático (neste caso, via Panamá). Pode abrigar carga de toda a Amazônia e do Centro-Oeste e exportá-la para todo o planeta. Seu problema é que pertence à prefeitura de Santana, na zona metropolitana de Macapá, e, portanto, está sujeito à corrupção municipal, mais difícil de ser fiscalizada e estancada do que se o porto fosse federal.

Mas o PT está preocupado é com Cuba, onde inaugurou recentemente um porto, construído com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ou seja, com dinheiro nosso. Na cabeça de Dilma Rousseff, e do PT, não precisamos de portos, se temos a Copa do Mundo.