sábado, 12 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
RAY CUNHA AUTOGRAFA NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, TRÓPICO ÚMIDO E O CASULO EXPOSTO NA BIENAL BRASIL DO LIVRO
BRASÍLIA, 11 DE ABRIL
DE 2014 – De hoje até 21 de abril, Brasília sedia o maior evento editorial
do Centro-Oeste, a segunda Bienal Brasil do Livro e da Leitura, na Esplanada
dos Ministérios, ao lado do Museu Nacional da República Honestino Guimarães.
Serão 10 dias dedicados ao mercado livreiro, seminários, debates, palestras,
lançamentos e mostra de cinema. Aberta hoje à noite, no Museu Nacional, com a
presença de Eduardo Galeano, a Bienal receberá o público em geral a partir das
10 horas deste sábado 12.
O uruguaio Eduardo Galeano, autor de trabalhos antológicos
como As Veias Abertas da América Latina
e a trilogia Memória do Fogo, é o
homenageado internacional do evento, e Ariano Suassuna o homenageado nacional.
Estarei autografando três livros e lerei contos no estande
da Livraria do Chico da UnB, no número 33 do Pavilhão A, instalado na direção
do Teatro Nacional Cláudio Santoro: o recém-lançado Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora,
Brasília, 153 páginas, R$ 25); Trópico
Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$
30); e O Casulo Exposto (LGE/LER Editora,
Brasília, 153 páginas, R$ 28).
Estarei na Livraria do Chico, quarta-feira 16, a partir das
18 horas, e sábado 19, a partir das 15 horas.
VEJA ENTREVISTA DE RAY
CUNHA AO PROGRAMA TIRANDO DE LETRA, DA UNB TV
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Os embaixadores Jozef Smets, da Bélgica, e
Milena Smit, da Eslovênia, no lançamento do
livro Na Boca do Jacaré-Açu, no Sebinho
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Ray Cunha lê conto no bar Faixa de Gaza da
galeria Olho de Águia, em clic do premiado
fotógrafo Ivaldo Cavalcante
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Ray Cunha, fotografado pelo artista plástico André Cerino,
em dezembro de 2013, no ateliê do pintor.
Ao fundo, acrílica sobre tela da fase Cidade
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segunda-feira, 7 de abril de 2014
Uma ou duas orientações a uma jovem repórter
Cara Polyana. O mais importante de tudo é o velho prazer que
sentes ao realizar teu trabalho, prazer que cresce quando tens a sensação de
que és lida e de que tuas matérias lançam luz, de alguma forma, aos teus
leitores. A isso podemos chamar de talento.
Fundamental, Polyana, para o que fazemos, é a retidão.
Jamais, coisa alguma deverá corromper a missão do jornalista. Nunca recebas presente,
muito menos dinheiro, para mentir; a verdade é teu único objetivo. Anotas tudo,
observas teus interlocutores nos olhos, ouves todas as partes, checas tudo, para
se aproximar o mais perto possível da verdade, essa velha dama pantanosa.
Mergulhas na tua língua natal como nos braços do teu amado,
apreendes seus murmúrios e fruis suas palavras e as nuances das palavras, como a
música do voo. É preciso que escrevas como amas, porque o amor é sempre
perfeito.
Lê gigantes como Machado de Assis, Graciliano Ramos,
Euclides da Cunha, Jorge Amado, pois eles, e todos os outros, resumem o Trópico.
Lê também, e se possível nas suas línguas nativas, Ernest Hemingway, Norman
Mailer, Joseph Conrad, Kurzio Malaparte, Tomasi Di Lampedusa e Gabriel García
Márquez, para começar.
É porque, Polyana, os grandes livros contém toda a dimensão
humana, e nos livram, a todos nós, de preconceito e de intolerância.
És muito jovem e tens tanto para viver. Por isso, aprendas
idiomas, curtas o trabalho dos grandes artistas, viajas, batas longos papos com
os que tu amas e, principalmente, ouça-os. Isso, além de nos enriquecer, tira,
às vezes, da fossa, até suicidas.
A missão do jornalista é muito importante, Polyana, pois na
busca da verdade e da justiça lança luz sobre o pântano das trevas, e onde há
luz é impossível haver treva.
Os salários baixos, as incontáveis horas de trabalho, as
dificuldades inerentes à profissão, a insalubridade da investigação policial, o
confronto com políticos corruptos, o convívio com pessoas arrogantes e de quem
dependemos ou a quem temos que nos submeter, nada disso é maior do que a consciência
do dever do repórter.
E depois, que dinheiro pode ser mais valioso do que o dever
cumprido? Haverá alguma coisa superior à paz de espírito?
Eu te desejo todo o sucesso, Polyana, e que a tua luz
ilumine o riso das crianças.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
RAY CUNHA AUTOGRAFA TRÊS LIVROS NA II BIENAL BRASIL DO LIVRO E DA LEITURA
MARCELO LARROYED*
O escritor Ray
Cunha autografará três livros e lerá contos na Livraria do Chico da UnB, no Pavilhão A, Estande 33 da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 11 a 21 de
abril, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília: o recém-lançado Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela
É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 25); Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília,
116 páginas, R$ 30); e O Casulo Exposto
(LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28).
Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela
É está à venda no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria
e restaurante na 406 Norte, Bloco C; além do site www.lereditora.com.br, que atende a qualquer região do
planeta, incluindo o Distrito Federal, com a entrega do livro em casa.
Também pelo site da Ler Editora pode ser adquirido o livro O Casulo Exposto. Livreiros devem fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008, ou ainda diretamente na Ler Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49,
Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF
– CEP 70610-430.
Na Boca do Jacaré-Açu é o terceiro
volume da trilogia de contos que começou com A Grande Farra (edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas,
esgotada) e prosseguiu com Trópico Úmido.
A espinha dorsal da trilogia é a Amazônia, tanto a Hileia quanto as metrópoles
da selva. O livro enfeixa 14
histórias curtas, ambientadas em Belém, que acaba sendo personagem subjacente
no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do
Grão Pará). Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da
Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição,
bem como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário
do rio Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja
por segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico,
tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar de que a
Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal
guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.
“O conto que dá
título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu,
é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das
Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano
Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior
delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu atinge mais de 6 metros de comprimento
e meia tonelada de peso; no conto Na Boca
do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e
Castro” – observa o escritor.
TRÓPICO
ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – O segundo livro da trilogia Amazônia, Trópico Úmido, reúne três contos com
pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá,
capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre.
Inferno Verde conta a história do
repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro.
A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó. Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do
maior rio do planeta, o Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador.
Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca. A Grande Farra narra peripécias do jovem
repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo
trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O
conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em
Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.
Segue-se artigo
do jornalista, escritor e crítico literário Maurício Melo Júnior, que apresenta
o programa Leituras na TV Senado,
sobre Trópico Úmido.
OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA – “A
literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e
ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em
lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio
Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado
favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e
enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um
exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo
necessário para a composição do texto.
“O escritor Ray
Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte
de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente
de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito
claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de
uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude.
O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores
amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.
“O conto que
abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em
duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto,
Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá.
Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de
Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de
Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do
volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser
escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.
“A linha que
liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da
sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas
com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos
personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que
trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os
personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por
um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo
quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda
assim prevalece a força do macho.
“Esses
personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida,
terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do
prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na
vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk,
o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma
certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico.
Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que
menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do
parceiro.
“O poeta Augusto
dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava
de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para
a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais.
Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos
romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a
fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.
“Finalmente, há
obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante.
No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum
por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O
problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete
a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia
descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até
no ambiente por onde transitam os personagens.
“Fica do livro,
entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de
curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama,
levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da
literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos
escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram
que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não
ganharam a inventividade estética.
“Ray Cunha
consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais
amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências
estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode
transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele
que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um
bom caldo de tucupi.”
O
CASULO EXPOSTO – “O Casulo Exposto enfeixa 17 contos ambientados no
Distrito Federal. Trabalho, como jornalista, em Brasília, desde 1987, cobrindo
amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que me
proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que serviu para
criar as personagens e o cenário dessas histórias curtas” – diz Ray Cunha. “O
casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da
Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras
escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na
esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea:
amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da
fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele
tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e
dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres;
tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de
fronteira e penumbra.”
Segue-se
prefácio de Maurício Melo Júnior: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar
de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante
delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos
sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda
não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da
borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.
“Neste seu novo
livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de
Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou
na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os
resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das
epopeias.
“Os homens e
mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no
sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas
não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela
opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de
defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas
Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o
escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo
é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.
“Naturalmente
que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da
literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda
lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até
cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros
policiais surgidos nos anos de 1940.
“Sem saudosismos
e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos
brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E
vale muito a pena conhecê-los”.
RAY CUNHA POR RAY CUNHA – “Sou caboco
(sic) de Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária
do Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da
boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico,
fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde
trabalha como correspondente do Portaldo Holanda (o mais lido da Amazônia e vigésimo do país entre os sites
auditados pelo Instituto de Verificação de Circulação – IVC) e no semanário Brasília Capital, além de ser aluno do
curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).
*MARCELO LARROYED é escritor e mestre
em língua portuguesa
segunda-feira, 24 de março de 2014
AMAZÔNIA: COLÔNIA DE BRASÍLIA?
BRASÍLIA, 24 DE MARÇO DE 2014 – Será instalada nesta semana na
Câmara comissão especial destinada a debater o Projeto de Lei 5.692, do
deputado fluminense Sérgio Zveiter (PSD), que “dispõe sobre o monopólio da
União na exploração das riquezas da Amazônia, com a criação do Conselho
Nacional de Política da Amazônia e da Agência Nacional de Exploração dos
Recursos Naturais da Amazônia, garantindo a proteção ao meio ambiente e a
soberania nacional”. O PL transforma a Hileia numa espécie de território
federal, legalizando a colônia que a região já é de fato, por meio de mais uma
estatal paquidérmica, e sediada em Brasília, como é o caso das Centrais
Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), que é do Norte, mas é sediada em
Brasília.
Desde sempre, os governos que se
revezam na capital da República governam de costas para o Trópico Úmido.
Sintetizando isso, observe-se que grandes projetos são instalados na Amazônia,
e não para a Amazônia. Veja-se, para resumir, a produção de energia
hidrelétrica e a extração de minerais. Também o discurso sobre desenvolvimento
sustentável da Hileia é distorcido. Sustentável para quem? Para índios,
ribeirinhos, quilombolas, moradores da periferia das cidades amazônicas?
O que parece acontecer é que para
Brasília o importante são as hidrelétricas, os minérios, a madeira, como se a
Amazônia fosse inesgotável. E por conta dessa falta de visão é que
provavelmente as máfias se espojam numa bacanal sem fim, escravizando caboclos,
geralmente analfabetos e sem sequer certidão de nascimento, traficando animais
e mulheres, e movimentando o inominável mercado de crianças escravas sexuais.
Estamos no limiar da terceira
revolução. A primeira foi a industrial, no século 19; a segunda, tecnológica,
deu-se no fim do século 20; a terceira será a da sustentabilidade, num planeta
que marcha para o esgotamento, e o Brasil, continente tropical, é a nação certa
para isso, especialmente se cuidar do seu maior patrimônio, a Amazônia,
subcontinente equatorial que vem sendo pilhado desde o século 16, agora por
Brasília.
A Amazônia só será desenvolvida
sustentavelmente com políticas de estado, no longo prazo, e nunca
descontinuadas, como a Zona Franca de Manaus e o Linhão de Tucuruí, por
exemplo, além de projetos menores, mas importantes, como a ampliação do Porto
de Santana, no Amapá, e a construção da Hidrovia do Marajó, no Pará.
Na Amazônia, a terceira revolução
traz no seu bojo dois fatores básicos: desmatamento zero e conservação da maior
bacia hidrográfica do planeta, que contém 20% da água doce de superfície da
Terra. Belém e Manaus, as maiores cidades da Hileia, equiparadas, sobretudo, no
inchaço das suas favelas, já estão com seus subsolos comprometidos, poluídos.
Enquanto Belém empesta com esgoto o rio Guamá, Manaus vai transformando a
desembocadura do colosso que é o rio Negro em esgoto.
Estrategistas brasileiros já
traçaram o perfil de um remoto ataque bélico dos Estados Unidos ao Brasil.
Apenas um porta-aviões da frota americana do Atlântico Sul bombardearia as
usinas hidrelétricas e o parque industrial de São Paulo, além das principais
instalações militares brasileiras, concentradas no Sudeste e no Sul. Isso,
claro, se em troca de um naco da Amazônia, China ou Rússia não peitassem os
americanos, que contam com a mais respeitável máquina militar do mundo, o que
não quer dizer que chineses e russos não tenham capacidade de acabar também com
a civilização na face da Terra.
Contudo, a Amazônia seria para os
americanos como mil Vietnã. A maior parte da selva amazônica é virgem e tão
exuberante que sobreviveria e logo se recuperaria até a um ataque nuclear,
quanto mais de napalm. Porém, para tomar posse de um país é preciso pôr os pés
nele. O Brasil tem o maior exército de índios do planeta, aquartelado, é claro,
na Amazônia, e o coração das trevas, a selva profunda, é tão inóspita que os
americanos, sem um pingo de melanina, seriam devorados por pium e carapanã. As
baixas seriam grandes demais.
Assim, o projeto de lei de Sérgio
Zveiter mostrará na Câmara, no infindável caminho que percorrerá, se percorrer,
que a Amazônia só será brasileira se for devidamente ocupada e desenvolvida,
por projetos que não sejam apenas para usurpar, mas que sirvam também para os
amazônidas.
domingo, 23 de março de 2014
PROJETO DE LEI TIRA AUTONOMIA DOS ESTADOS E FEDERALIZA A AMAZÔNIA
RAY CUNHA
Para o PORTAL DO HOLANDA
BRASÍLIA, 23 DE MARÇO DE 2014 – Após duas tentativas sem quórum, durante
a semana passada, ficou para esta semana a instalação de comissão especial na
Câmara destinada a debater o Projeto de Lei 5.692, do deputado fluminense
Sérgio Zveiter (PSD), que “dispõe sobre o monopólio da União na exploração das
riquezas da Amazônia, com a criação do Conselho Nacional de Política da
Amazônia e da Agência Nacional de Exploração dos Recursos Naturais da Amazônia,
garantindo a proteção ao meio ambiente e a soberania nacional”. Isso Brasília
já faz; a Amazônia é uma colônia do Distrito Federal. O projeto, de 23 páginas
e 8 de anexos, passa por cima dos estados da Amazônia e cria um verdadeiro território
federal. Bate de frente com a república.
Porém é mais uma oportunidade de se
pôr em debate o coração das trevas, um gancho para se esmiuçar uma ameaça cada
vez mais clara: num planeta com 8,5 bilhões de habitantes, as potências
hegemônicas estão de olho na Amazônia, e também na Amazônia Azul; aliás, já
fincaram os pés na Hileia e nas costas do Amapá. Por exemplo: o Japão utiliza
energia de Tucuruí para produzir lingotes de alumina via Albrás-Alunorte, no
Pará, e as costas do Amapá, a maior província piscosa do planeta e a mais mal
guardada pela Marinha de Guerra, vive coalhada de piratas.
Há mais pesquisadores na
Universidade de São Paulo (USP) do que em toda a Amazônia. O efetivo militar
somente do Rio de Janeiro é de cerca de 44 mil homens; na Amazônia, são 22 mil.
Cerca de 70% da energia elétrica produzida na Amazônia vão principalmente para
o Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Nordeste do país; mais da metade dos 143
municípios do Pará, onde fica Tucuruí, não conta com energia firme.
Para o coronel da reserva do
Exército, Gelio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva, fundador
e ex comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva, e autor de Amazônia - A grande Cobiça Internacional
(Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas), o problema crucial da Hileia
é que ela ainda não foi devidamente ocupada pelos brasileiros. Por isso, ledo
engano é supor que a região pertence de fato ao Brasil. Será, sim, do Brasil,
quando for desenvolvida por nós e devidamente guardada. Daí porque às potências
estrangeiras não interessa o desenvolvimento da Amazônia. Aos Estados Unidos,
Inglaterra, Japão e China, principalmente, interessa manter os cartéis agrícolas
e de minerais e metais. Dois exemplos: a soja da fronteira agrícola ameaça a
soja americana; e a exploração dos fabulosos veios auríferos da Amazônia poria
em cheque as reservas similares americanas e poderia mergulhar ainda mais o
gigante em recessão.
Assim, despovoada, subexplorada e
subdesenvolvida, não há grandes problemas para a ocupação estrangeira da
região. Exemplo: a reserva Ianomâmi – etnia que teria sido forjada pelos
ingleses –, do tamanho de Portugal e na tríplice fronteira, em litígio, Brasil,
Venezuela e Guiana, é a maior e mais rica província mineral do planeta. Pois
bem, já há manifestação na Organização das Nações Unidas (ONU) de torná-la
nação independente do Brasil. Fregapani inclusive não descarta guerra pela
ocupação da Hileia. “A Amazônia será ocupada. Por nós ou por outros” – adverte.
A região abriga 30% da biodiversidade da Terra e é a maior bacia de água doce,
a maior floresta tropical e a maior província mineral do planeta.
“Uma região que, se aberta à
indústria do mundo, ali se achariam fundos inexauríveis de riquezas” – diz
texto referente à Amazônia que o governo americano enviou ao Congresso, em
1853. Em 1983, a então premiê britânica Margareth Thatcher declarou: “Se os
países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam
suas riquezas, seus territórios e suas fábricas”. Tempos depois o então
presidente francês François Mitterrand se saiu com esta: “O Brasil precisa
aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. Diga-se, a França já tem uma
colônia na América do Sul: a Guiana Francesa. Em 2000, o candidato frustrado à
Casa Branca, o democrata Al Gore, declarou: “Os brasileiros pensam que a
Amazônia é deles. Não é. Ela pertence a todos nós”. Na época, o senador Robert
Kasten engrossou a voz de Gore: “Assim como o ozônio, as chuvas, o oxigênio
etc., a Amazônia deve pertencer a todos”.
Mikhail Gorbachev, então chefe do
governo soviético, em 1992, foi claro: “O Brasil deve delegar parte de seus
direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes”. John
Major, primeiro-ministro da Inglaterra em 1992, foi ameaçador: “As nações
desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum a todos no mundo.
As campanhas ecológicas internacionais que visam à limitação das soberanias
nacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para
dar início à fase operativa, que pode definitivamente ensejar intervenções
militares diretas sobre a região”. A lista de posicionamentos é grande e
planetária, e mostra claramente que ou o estado brasileiro dá conta do recado
ou haverá secessão na marra.
Um comercial institucional
transmitido pela CNN mostra as maravilhas da fauna e da flora amazônicas para,
em seguida, apresentar cenas de devastação, sob o comentário: “São os
brasileiros que estão fazendo isso! Até quando? A Amazônia pertence à
humanidade e o Brasil não tem competência para preservá-la!”
O senador Cristóvam Buarque
(PDT/DF) fez uma defesa interessante da soberania brasileira sobre a Amazônia:
“Como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da
Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse
patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação
ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como
também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob
uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as
reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o
bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os
donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de
petróleo e subir ou não o seu preço.
“Da mesma forma, o capital
financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma
reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de
um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego
provocado pelas decisões arbitrarias dos especuladores globais. Não podemos
deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na
volúpia da especulação.
“Antes mesmo da Amazônia, eu
gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O
Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das
mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse
patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e
destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um
milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre.
Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
“As Nações Unidas estão
realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram
dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso,
eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser
internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade.
Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada
cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao
mundo inteiro.
“Se os EUA querem
internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros,
internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já
demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição
milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do
Brasil.
“Nos seus debates, os atuais
candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as
reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida
para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola;
internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país
onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais
do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do
mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem
quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
“Como humanista, aceito defender
a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como
brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.”
E Brasília, trata os amazônidas
como brasileiros?
sexta-feira, 14 de março de 2014
NA BOCA DO JACARÉ-AÇU – A AMAZÔNIA COMO ELA É, NOVO LIVRO DE RAY CUNHA, ESTÁ À VENDA NA LIVRARIA SEBINHO E NO SITE DA LER EDITORA
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Jozef Smets, embaixador da Bélgica, Ray Cunha e Milena Smit,
embaixadora da Eslovênia, no lançamento do livro Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É, dia 12, no Sebinho |
MARCELO LARROYED*
BRASÍLIA, MARÇO DE 2014 – Quem mora em Brasília pode adquirir
o novo livro de Ray Cunha, Na Boca do
Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É (Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$
25), no Sebinho, complexo de livraria, cafeteria e restaurante na
406 Norte, Bloco C; pedidos de qualquer região do planeta, incluindo o Distrito
Federal, deve ser feito pelo endereço eletrônico www.lereditora.com.br. Livreiros devem
fazer pedidos pelo e-mail: atendimento@lereditora.com.br, ou pelo
telefone: (55-61) 3362-0008, ou
ainda diretamente na Ler
Editora, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG),
Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430.
Ray Cunha estará
apresentando conto vivo e autografando três livros no stand do Chico Livreiro na
Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 12 a 21 de abril, na Esplanada dos Ministérios:
Na Boca do Jacaré-Açu; Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição
do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 30); e O
Casulo Exposto (LGE/LER Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 28).
Na Boca do Jacaré-Açu é o terceiro volume
da trilogia de contos que começou com A Grande
Farra (edição do autor, Brasília, 1992, 153 páginas, esgotada) e prosseguiu
com Trópico Úmido. A espinha dorsal da
trilogia é a Amazônia, tanto a Hileia quanto as metrópoles da selva. “Isto é a
Amazônia” – comentou, ao ler Trópico
Úmido, o coronel Gelio Fregapani, um dos intelectuais que mais conhecem
geopolítica da Amazônia, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva,
fundador e comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva e autor, entre
outros títulos, de Amazônia - A Grande
Cobiça Internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).
Na Boca do Jacaré-Açu enfeixa 14
histórias curtas, ambientadas em Belém, que acaba sendo personagem subjacente
no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão
Pará). Algumas histórias têm sequências na maior feira livre da
Ibero-América, o Ver-O-Peso, que aparece em fotomontagem na capa desta edição, bem
como no Marajó, “maior ilha flúvio-marítima do planeta, ao sul do estuário do rio
Amazonas, o maior do mundo, único com estuário e delta, e que despeja por
segundo pelo menos 200 mil metros cúbicos de água e húmus no Atlântico,
tornando as costas do Amapá e do Pará as mais piscosas da Terra, apesar de que a
Amazônia Azul setentrional é a menos estudada pela academia e a mais mal
guardada pelo estado brasileiro” – comenta Ray Cunha.
“O conto que dá
título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu,
é o mergulho suicida do arqueólogo Agostinho Castro nos abismos do Mundo das
Águas, a confluência dos rios Amazonas, Pará, Tocantins e Guamá, e o oceano
Atlântico, abocanhando o arquipélago de Marajó, mais de mil ilhas, a maior
delas do tamanho de Portugal. Jacaré-açu atinge mais de 6 metros de comprimento
e meia tonelada de peso; no conto Na Boca
do Jacaré-Açu, representa a morte, na pessoa do pai de Agostinho, Castro e
Castro” – observa o escritor.
“Sou caboco (sic) de
Macapá, cidade da Amazônia Caribenha que tremeluz na Linha Imaginária do
Equador e se debruça no estuário do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da
boca do maior rio do planeta, quando o Mar Doce penetra fundamente o Atlântico,
fertilizando-o até o Caribe” – define-se Ray Cunha, que mora em Brasília, onde trabalha
como repórter do Portal do Holanda
(o mais lido da Amazônia e vigésimo do país entre os sites auditados pelo
Instituto de Verificação de Circulação – IVC) e estuda Medicina Tradicional
Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).
SEGUE-SE ENTREVISTA COM O AUTOR
Como e por que você escolheu o título Na
Boca do Jacaré-Açu?
Trata-se
da história que dá título ao livro. Jacaré-açu é o grande réptil amazônico, que
atinge mais de 6 metros de comprimento e meia tonelada de peso. No caso do
conto, que se passa em Belém e na ilha de Marajó, representa a simbologia da
morte. A personagem central da novela, o arqueólogo Agostinho Castro, é filho
de um homem forte, dominador e suicida, Castro e Castro, que o leva à boca do
jacaré-açu.
Em
que período você escreveu os contos que compõem a obra?
Todos
eles foram produzidos nos anos 1980/1990. Alguns já foram publicados; outros,
são inéditos.
Os
contos têm alguma ligação, um fio temático que os una e justifique, formando
uma obra única?
Sim.
Todas as histórias são ambientadas em Belém do Pará, a quem eu dedico o livro;
algumas delas têm sequências no Ver-O-Peso, a maior feira livre da
Ibero-América. O conto que dá título ao livro, Na Boca do Jacaré-Açu, como já disse, é também ambientado no
Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do planeta, situada no que eu chamo Mundo
das Águas, especialmente o Amazonas, o maior rio do planeta, e que despeja no
Atlântico pelo menos 200 mil metros cúbicos de água por segundo.
Quais
escritores influenciaram sua obra e em quê?
Os
escritores que me influenciaram – alguns ainda me influenciam – são muitos, mas
há os mais importantes, os que abrem a porta para outras dimensões, como
Antoine de Saint-Exupéry, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Mario Vargas
Llosa, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha,
e, no caso da Amazônia, Benedicto Monteiro, o mago de Verde Vagomundo. Todos eles me ensinaram, e continuam ensinando,
coisas simples, mas fundamentais, como, por exemplo, enxergar uma rosa nua,
extrair gemidos femininos das palavras, montar a luz, mergulhar como leão de
asas, ver com o coração e garimpar rubis verdes.
Seus
livros têm elementos autobiográficos? Quais?
Tudo
o que fazemos é autobiográfico, o que não quer dizer que os livros que
escrevemos são autobiográficos. Trata-se de um paradoxo, estou ciente disso. O
que fazemos é autobiográfico porque o fazemos; contudo, a realidade carnal não
existe, porque é limitada por altura, largura, espessura, gravidade e tempo. Só
existe, permanentemente, a realidade absoluta, Deus. Assim, as autobiografias
são romanticamente heroicas e jornalismo, às vezes, é mentira pura. Nesse
aspecto, quando se fala em ficção verdadeira é porque o autor deu à luz.
Deixando a filosofia de lado, há muitos elementos autobiográficos no meu
trabalho, especialmente cidades, como Belém, Macapá, Manaus e Rio de Janeiro.
E os
personagens dos contos? Foram baseados em pessoas conhecidas ou são criações da
imaginação do escritor Ray Cunha?
Há
personagens que nascem prontas; outras, são retalhos de várias pessoas;
algumas, ainda, apresentam-se em sonhos e por meio de sons e visões.
Explique
uma de suas marcas como escritor: a repetição, em diferentes obras, de
elementos emblemáticos, como Chanel nº 5 e a personagem Frênia.
Tu
bem o disseste: emblemáticos. Chanel 5 simboliza, para mim, sensualidade; o
Caribe; noites tórridas, encharcadas de jasmim, em Macapá; maresia; o azul, tão
azul que sangra; o perfume das virgens ruivas; rosas nuas; o primeiro beijo;
colostro; negra em vestido de seda; mulher na chuva; espilantol. Daí porque são
elementos recorrentes no meu trabalho de criação. Mais de uma pessoa querida já
me alertou para o que lhes parece falta de criatividade. Mas certos elementos
na escrita de um autor são como fases na produção de um pintor: passam. Quanto
à Frênia, trata-se de um nome feminino danado de sensual; remete-me a frêmito,
frenesi, frenética. Frênia soa como a uma certa noite em que nos dedicamos e
mergulhar o mais fundo possível na mulher mais sensual do mundo; ela é
lindíssima porque a desejamos, e está na nossa frente, nua.
Contato do escritor: raycunha@gmail.com
*MARCELO LARROYED é mestre em língua
portuguesa e escritor
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