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Isaías Oliveira aos 22 anos. Na época de A Notícia, em 1976, já se revelava brilhante como repórter. Agora recebe seu batismo de fogo como romancista, com A Dimensão dos Encantados, o mais pungente berro alertando para o assassinato da Amazônia, que é não só a desolação da terra ferida, mas uma terçadada de 128 na alma amazônida, espirrando espilantol da carne dilacerada |
A selva
amazônica é esplendorosamente monótona, bruta como golpe de terçado 128. Ao
olhar superficial do leigo, que, acidentalmente, caiu na Amazônia, a Hileia lhe
parecerá o Inferno Verde, onde encurtará sua vida, devorado por microrganismos
e insetos, ou torrado pelo sol equatorial, ou afogado pela água, não do mar
doce, mas em estado gasoso, nos praticamente 100% da umidade relativa do ar. Desse
modo, o incauto será corrido daquelas paragens, grávido da antiga ideia dos
colonos – principalmente os governos que se sucedem em Brasília – de que a
Grande Floresta só serve para três fins: construção de hidrelétricas; extração
de madeira e mineral; e reserva de caça, pesca e escravos, especialmente para o
pugilato do sexo. Ideia assentada na crença de que os colonos são deuses e os
colonizados, seres inferiores, que existem para servir aos herdeiros dos sangues-azuis.
Essa é a face obscura da Amazônia, o latejar da escuridão, espasmos da alma
amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista. Assim, o mais
belo realismo fantástico da Terra, a maior diversidade biológica do planeta, a
mais rica província mineral do mundo, revela-se o coração das trevas, uma zona
imprecisa da alma.
Isaías Oliveira,
um dos jornalistas mais brilhantes de Manaus e conhecedor da Amazônia profunda,
lança, na semana que antecede o primeiro jogo da Copa do Mundo, em 14 de junho, na
capital baré, seu primeiro romance, A
Dimensão dos Encantados (Editora Biblioteca 24 Horas, São Paulo, 189
páginas em corpo 10). Trata-se de um livro emblemático. Sua leitura é como o
despencar de um precipício e estender as asas para flutuar à velocidade da luz.
A floresta e o rio ganham vida, os adjetivos se tornam substantivos e o
pesadelo é real. “A vida na mata é o eterno caminhar sempre pelos mesmos
caminhos”; “As coisas andavam em círculos, vivíamos o resumo de dias iguais e
essa repetição acabava por atrofiar, com o tempo, a nossa própria existência.”
Para o autor,
“existe uma Amazônia desconhecida do mundo, ainda não descoberta pelo homem
moderno. Nela, o sobrenatural e o humano se misturam, na dimensão fantástica da
mente”. No substrato da epiderme amazônica entrelaçam-se dimensões, estanques,
porém com passagens secretas entre elas, portais por onde só passam seres
encantados, além dos que desenvolveram a intuição e a espiritualidade, como
Isaías Oliveira, que se reúne, frequentemente, com mestres da Quarta Dimensão,
promovendo, inclusive, curas, ou processos evolutivos, no plano físico –
limitado por volume, espaço, gravidade, tempo e ignorância.
De modo que na
superfície do romance de Isaías Oliveira paira toda a tragédia da Amazônia: a
mentalidade colonizada de índios, ribeirinhos, caboclos, mulatos, cafuzos,
mamelucos, citadinos, corrompidos nas garras impiedosas do europeu, da Igreja,
dos missionários, de Brasília, do PT(MDB), além da Pax Americana. A Dimensão dos Encantados desmitifica a
Amazônia turística e a dos grandes projetos no Trópico Úmido, à serviço de
Brasília, ou das potências hegemônicas, e não para o desenvolvimento
sustentável dos amazônidas. O cruel é que a ferramenta utilizada pelo carrasco para
espoliar a floresta é o caboclo, que também serve para matar os da sua etnia
como quem mata carapanã.
A Dimensão dos Encantados é um desses livros
que surgem de século em século, com o poder esclarecedor de que a vida não
existe somente no mundo físico; pelo contrário, o fenômeno é apenas sombra da
mente. “Não existe um único centro e o tempo perdeu sua coerência. Leste e
Oeste, passado e futuro se misturam dentro de nós. Diferentes tempos e espaços
se combinam aqui, agora, tudo de uma vez só” – escreveu Octavio Paz.
Isaías Oliveira:
“Sob o manto verde da floresta amazônica, esconde-se a verdade sobre mundos e
civilizações diferentes convivendo num mesmo espaço, porém em diferentes tempos
e dimensões da matéria e da energia, seres de planos existenciais diversos
coexistindo num mesmo recanto da mata ou curso de rio, a maioria sem jamais
cruzarem seus caminhos. Outros, entretanto, dotados de energia e percepção
especiais são capazes de encontrar e atravessar os portais nas fronteiras desses
mundos”. A Dimensão dos Encantados é
um desses portais.
Convivi com
Isaías Oliveira durante dois anos (1976-1977), em Manaus, no extinto A Notícia. Eu tinha 21 anos; ele é um
ano mais velho do que eu. Apesar da idade, já era experiente, maduro, sábio,
culto e sofisticado. Sabia tudo sobre a selva profunda; fora, ainda garoto,
guia de turistas nas sendas da Hileia. Seu texto também já era um diamante,
embora bruto, e seu trabalho de reportagem, sempre bem apurado, investigado e
pesquisado.
Em 1997, deixei
Manaus, onde mora a família do meu pai, João Raimundo Cunha, e mudei-me para
Belém, mas a amizade entre o autor de A
Dimensão dos Encantados e eu estava selada para sempre. Em 2000, publiquei Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos.
A personagem central da primeira história desse livro, Inferno Verde, chama-se Isaías Oliveira, não por acaso um
jornalista.
Isaías Oliveira
se tornou o jornalista de Manaus mais bem informado em política, especialista
em comunicação tecnológica e marqueteiro que já elegeu vários governadores,
prefeitos e parlamentares amazonenses, porém seu maior conhecimento é sobre o Trópico
Úmido, não a Hileia mitológica dos turistas, mas a Amazônia como ela é,
inclusive com seus portais. Ele está construindo, sozinho, um moderno
hovercraft no quintal da casa dele, com o qual pretende, a partir do próximo
ano, fazer documentários em nichos da Amazônia onde o homem nunca pôs os pés,
habitado por anacondas de 20 metros de comprimento.
Não à toa, A Dimensão dos Encantados são duas
histórias paralelas, e que em dado momento se cruzam: a de um menino ribeirinho,
que se torna madeireiro, e de um curumim que se perdeu no limbo, entre uma
dimensão e outra, e se torna xamã. Os seres encantados vivem precisamente nos “diferentes
tempos e espaços (que) se combinam aqui, agora, tudo de uma vez só” – como disse
Octavio Paz.
Isaías Oliveira
frequenta diferentes dimensões; na quarta, reúne-se com mestres incumbidos de acelerarem
a evolução da Humanidade. Assim, A
Dimensão dos Encantados pode ser lido como o mais pungente berro alertando
para o assassinato da Amazônia, que é não só a desolação da terra ferida, mas
uma terçadada de 128 na alma amazônida, espirrando espilantol da carne
dilacerada.
Por hora, a
única forma que eu conheço de se adquirir A
Dimensão dos Encantados é entrar em contato com Isaías Oliveira. Ele não me
autorizou, mas aqui vai seu e-mail: isaiasndeoliveira@gmail.com.